30 de março de 2012

Covardia e decência

No dia 20 de outubro de 2011, Richard Dawkins, o eminente apologista do ateísmo e biólogo (nessa ordem, como muito bem observou Phillip Johnson), publicou no The Guardian uma exposição das razões pelas quais se recusa a debater com William Lane Craig, um dos mais famosos defensores da fé cristã na atualidade. Intitulado Why I refuse to debate with William Lane Craig [Por que me recuso a debater com William Lane Craig], o artigo de Dawkins responde à acusação de covardia feita por alguns de seus detratores de duas formas: primeiro, acusando seu desafiador de insignificância, o que é feito nos dois parágrafos iniciais; e depois, no restante do artigo, buscando desqualificar Craig moralmente, acusando-o de ser "um apologista do genocídio". Ele passa a descrever, com longas citações, a defesa que Craig fez em justificação moral à ordem dada por Deus em Deuteronômio 20.13-17, sentenciando à morte todos os cananeus, inclusive as crianças. Portanto, segundo o catedrático de Oxford, Craig não está qualificado para receber sua atenção, quer do ponto de vista intelectual, quer do moral. E, a julgar pelo espaço concedido a cada um desses dois pontos, parece que o segundo é, aos olhos de Dawkins, muito mais grave.

Eu não pretendo discutir aqui os argumentos sobre a questão do extermínio dos cananeus, ou de qualquer outro extermínio. Mas é importante registrar que não concordo integralmente com as razões oferecidas por Craig e citadas por Dawkins. Em especial, não concordo com certo posicionamento teológico de Craig, para quem todas as crianças pequenas que morrem obtêm a bem-aventurança no porvir. Portanto, acredito que a obediência dos israelitas à ordem de Deuteronômio, especialmente quanto às crianças, se justifica com base em outras razões, que não pretendo sequer mencionar na presente postagem. Dado o conteúdo do artigo de Dawkins, contudo, é evidente que minhas ressalvas quanto a essa ideia específica de Craig me tornariam ainda mais odioso que este aos olhos do biólogo.

As razões apresentadas por Dawkins para recusar o debate com seu aspirante a antagonista soaram pouco convincentes, não só a muitos cristãos, mas também a alguns ateus e agnósticos. O próprio The Guardian publicou duas queixas vindas de indivíduos que simpatizam com o ateísmo do professor de Oxford. Em 9 de novembro, o agnóstico Andrew Brown escreveu o artigo Richard Dawkins is wrong to call William Lane Craig morally repulsive [Richard Dawkins está errado em considerar William Lane Craig moralmente repulsivo], no qual, além de filosofar sobre Deus e a finalidade do sofrimento, discorda enfaticamente da condenação moral de Dawkins às opiniões de Craig. Porém, o cético Daniel Came já havia reprovado a postura de Dawkins em termos muito mais veementes: em 22 de outubro, apenas dois dias após a publicação do artigo de Dawkins, o texto de Came veio a público com o título Richard Dawkins's refusal to debate is cynical and anti-intellectualist [A recusa de Richard Dawkins a debater é cínica e anti-intelectualista], que resume bem o teor da reprovação. Além de fazer alguns comentários sobre o neoateísmo em geral e criticar certas posições filosóficas, tanto de Dawkins quanto de Craig, o autor faz algumas considerações interessantes. Pretendo, aliás, traduzir seu breve texto e publicá-lo neste blog qualquer hora dessas, se até lá não encontrar uma tradução já feita em algum canto da internet lusófona. Por ora, basta apontar que ele também discorda da condenação moral proferida contra Craig:

"Não me inclino a defender a política de infanticídio do Deus do Antigo Testamento. Mas, em matéria de lógica, Craig provavelmente está correto: se um bem infinito é possibilitado por um mal finito, então pode ser dito com razoabilidade que aquele mal foi compensado."

É inútil procurar, no artigo de Dawkins, argumentos que justifiquem o aspecto moral de sua condenação a Craig. Afinal, a apresentação de tais argumentos derrubaria sua pretensão manifesta: a de que a simples transcrição dos posicionamentos do pensador cristão, tais como se encontram em seus textos, já basta para demonstrar sua hediondez. O biólogo conclui dizendo ao leitor: "Você apertaria a mão de um homem que é capaz de escrever coisas como essas? Você dividiria uma tribuna com ele? Eu não faria isso, e não o farei." Em termos de argumentos, isso é tudo; ou, dizendo de modo mais preciso, é nada. Por isso não faço aqui nenhum esforço para contra-argumentar em resposta ao que não foi argumentado. A simples existência de dois não-teístas inteligentes que não consideram isso tão óbvio, para dizer o mínimo, já é suficiente para mostrar que há algo errado nessa parte da desculpa de Dawkins para não entrar no debate.

Resta verificar, portanto, se são melhores que essa as desculpas que apelam para a insignificância intelectual do criticado. Nesse campo, Dawkins apresenta dois argumentos, sendo que o primeiro aparece já nas palavras iniciais de seu artigo:

"Não se sinta embaraçado se você nunca tiver ouvido falar em William Lane Craig. Ele alardeia sua condição de filósofo, mas nenhum dos professores de filosofia que consultei afirmou já ter ouvido seu nome. Talvez ele seja um 'teólogo'."

Na verdade, em seu site Reasonable Faith [Fé racional], Craig se apresenta como filósofo e teólogo igualmente, e tem doutorados em ambas as áreas. Além disso, ele é professor de filosofia em uma faculdade de teologia. Objetivamente, então, ele é um filósofo e um teólogo. É ridícula, em primeiro lugar, a tentativa de Dawkins de desqualificá-lo enquanto filósofo e chamá-lo de teólogo como se esse termo fosse intrinsecamente pejorativo. Tal atitude só demonstra a ignorância de Dawkins sobre a natureza do trabalho do teólogo - ignorância da qual, aliás, compartilham quase todos os ateus que já conheci. Além disso, no entanto, a atitude de Dawkins é desonesta, na medida em que substitui um critério objetivo por um subjetivo na apreciação do caso. Para mim, alguém que tem doutorado em filosofia e é professor universitário de filosofia é um filósofo, embora seja possível ser filósofo sem esses requisitos e ninguém esteja livre de ser um péssimo filósofo pelo simples fato de possuí-los. Para Dawkins, contudo, um filósofo é apenas alguém de quem seus amigos filósofos (que não sabemos quantos nem quais são) já ouviram falar. Essa definição da palavra "filósofo", implícita nas palavras de Dawkins, é não só absurda, mas cômica: Dawkins está involuntariamente confessando que entende tão pouco de filosofia que precisa da opinião de um punhado de amigos para saber quem é filósofo ou não.

Na verdade, essa declaração é absurda o suficiente para que seja justo indagar se Dawkins está sendo sincero em sua tentativa de rebaixar seu oponente. Came considera "bastante óbvio que Dawkins está oportunisticamente usando essas observações [de Craig] como uma cortina de fumaça para ocultar as verdadeiras razões de sua recusa de debater com Craig - a qual tem uma história que antecede em muito os comentários de Craig sobre os cananeus". E Came julga saber quais são essas razões: Dawkins e outros neoateístas "não estão exatamente ansiosos para entrar em um fórum público com um teísta intelectualmente rigoroso como Craig para ter suas visões dissecadas e a inadequação de seus argumentos exposta". São comentários notáveis vindos de um agnóstico, e mostram que Craig possui o respeito de pelo menos alguns de seus adversários nos terrenos filosófico e teológico.

Eu não li as mais recentes investidas de Dawkins contra a religião, mas o que testemunhei das antigas não me estimula a pensar que haja injustiça da parte de Came. O próprio Dawkins não ajuda a melhorar sua imagem com desculpas decentes. Vejamos seu segundo argumento, que traz sua resposta específica à acusação de covardia:

"A isso eu diria apenas que declino de centenas de convites mais dignos a cada ano, enfrentei publicamente um arcebispo de York, dois arcebispos da Cantuária, muitos bispos e o rabino chefe, e estou agora aguardando meu encontro iminente, e sem dúvida civilizado, com o atual arcebispo da Cantuária."

É impressionante que, depois de ter procurado desqualificar Craig enquanto filósofo e demonstrar desprezo pela qualidade intelectual dos teólogos, Dawkins venha apresentar apenas seus debates com teólogos como prova de que não é um covarde. O biólogo julga diminuir a estranheza da alusão apontando teólogos que possuem elevados títulos eclesiásticos. Mas é evidente que isso, embora possa ser útil como prova da insignificância política de Craig, não ajuda em nada contra a acusação de covardia, que é o que está em questão. Dadas as premissas de Dawkins, um teólogo é alguém intelectualmente desprezível, não importando quão bom teólogo seja. Ninguém acreditaria na rapidez de um homem se o visse se vangloriando de ter apostado corridas com as tartarugas mais velozes do mundo. E a situação ficaria pior ainda se ele usasse essas corridas como prova de que não está agindo como um covarde quando se recusa a disputar com um atleta experimentado. Além disso, embora a visão de Dawkins sobre os teólogos seja pueril e preconceituosa, é verdade que não é comum encontrar um teólogo versado em debates contra ateus. Eu mesmo ouvi falar em Craig pela primeira vez nos livros do jornalista Lee Strobel, ateu convertido ao cristianismo, que conta de seu primeiro encontro com o apologista cristão alguns fatos que bastam para justificar os piores temores de Dawkins:

"A primeira vez em que vi Craig em ação foi de uma perspectiva incomum: eu estava sentado atrás dele enquanto ele defendia o cristianismo perante uma multidão de aproximadamente oito mil pessoas, com mais um número incontável de ouvintes acompanhando-o através de mais de cem estações de rádio que transmitiam seu discurso. Eu era o moderador de um debate entre Craig e um ateu escolhido pelo porta-voz nacional de American Atheists Inc. [...] No fim, não houve embate. Entre os que entraram no auditório naquela noite como ateus, agnósticos ou céticos jurados, a grande maioria de 82% saiu convencida de que o cristianismo tinha sido mais bem defendido do que o ateísmo e 47 pessoas entraram como descrentes e saíram como cristãos - os argumentos de Craig em favor da fé os tinha persuadido, especialmente na comparação com a pobreza de evidências em favor do ateísmo. E, diga-se de passagem, ninguém se tornou ateu."

Na verdade, o hábito de Dawkins de fugir de debates com pessoas qualificadas é já antigo. Quem sofreu na pele os efeitos disso foi o bioquímico americano Michael Behe, autor do conceito de complexidade irredutível (exposto pela primeira vez em seu livro A caixa preta de Darwin, de 1995) e defensor do design inteligente como melhor explicação para a origem de certas características bioquímicas dos seres vivos. Em uma entrevista concedida em 1999, foi perguntado a Behe sobre a reação de Dawkins ao seu livro. O bioquímico contou, então, a seguinte história:

"Um programa de TV público chamado Think Tank estava interessado em organizar um debate entre mim e Dawkins. Eles perguntaram se eu estaria disposto a participar, e eu alegremente disse que sim. Eles entraram em contato com Richard Dawkins, mas ele se recusou a aparecer comigo dizendo que era insuficientemente versado em bioquímica para discutir o assunto. Entretanto, o programa de TV pediu para Dawkins aparecer sozinho, e ele fez isso. Durante a entrevista, que eu tive oportunidade de ver recentemente, o apresentador do programa perguntou a ele sobre o meu livro. Ele pareceu pegar a ideia de complexidade irredutível muito bem. Porém, ele disse que era covarde e preguiçoso da minha parte chegar à conclusão de um design inteligente, e disse que, se eu pensasse por mim mesmo, eu iria perceber que deve haver em algum lugar uma explicação darwiniana, e que eu deveria levantar o meu traseiro e ir procurá-la."

É claro que a situação seria muito pior para Dawkins se ele tivesse dito que Behe não é um bioquímico, citando como prova o testemunho de amigos bioquímicos que nunca ouviram falar nele. Ainda assim, a narrativa põe a nu uma falha moral grave que, infelizmente, só piorou nos últimos anos, como demonstra o episódio mais recente envolvendo Craig. Mas isso não é tudo. Em seu artigo, Dawkins faz muito mais que difamar um único apologista do cristianismo. Diz ele:

"A maioria dos eclesiásticos de nossos dias sabiamente renega os horríveis genocídios ordenados pelo Deus do Antigo Testamento. Qualquer um que critique a divina sede de sangue é energicamente acusado de ignorar injustamente o contexto histórico e de literalismo estreito diante de algo que nunca foi mais que metáfora ou mito. Você teria de procurar muito para encontrar um pregador moderno desejoso de defender o mandamento de Deus, em Deuteronômio 20.13-15, para matar todos os homens em uma cidade conquistada e pilhar as mulheres, crianças e animais. [...] Você poderia dizer que tal convocação ao genocídio nunca poderia ter vindo de um Deus bom e amoroso. Qualquer bispo, sacerdote, vigário ou rabino decente concordaria."

Temo que Dawkins esteja correto em sua descrição da mentalidade atual de grande parte das igrejas cristãs na Europa, que padecem do parasitismo da teologia liberal desde há muito e facilitam o trabalho dos apologistas do ateísmo. Mais que isso, porém, salta aos olhos no trecho acima o fato de que a reprovação moral de Dawkins não se restringe de modo algum a Craig, mas estende-se a todos os judeus e cristãos que levam a sério as declarações de seu livro sagrado. Com sua atitude, portanto, Dawkins está condenando a crença na própria revelação bíblica e deixando claro que, no que depender dele, o cristianismo e o judaísmo não têm direito algum sequer de ter suas razões ouvidas em público.

É assim que um grande apologista do ateísmo espera calar seus oponentes: dogmaticamente, sem debate algum. A fama de Dawkins como defensor da racionalidade e do livre-pensamento contra a tirania do dogmatismo já é um sinal claro de que as coisas não vão bem em nossa civilização. Mas é um sério agravante o fato de que muita gente o julga apto a dizer quem é ou não uma pessoa decente.