21 de janeiro de 2009

Areias invasoras

Neste texto discorrerei sobre um tema que está na minha mente há algum tempo. Ainda antes de ir à França, em outubro, eu havia concluído a leitura de um livro digno de nota, sobre um tema que julgo muito interessante. Trata-se do primeiro volume da série Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico, cuja conclusão, a menos que eu esteja mal informado, não foi publicada até o momento. Fazia já um tempo que eu vinha pretendendo ler essa obra, tanto por sua reputação quanto pela de seu autor, o historiador americano John Paul Meier. Esse tomo inicial, intitulado As raízes do problema e da pessoa, me foi gentilmente emprestado pelo meu amigo Robson, e sua leitura me foi muito proveitosa. Farei aqui, de maneira um tanto informal e despretensiosa (inclusive por ter devolvido o exemplar há mais de três meses), alguns breves comentários a respeito desse livro e de certas percepções que resultaram de meu contato com ele.

Como profissional acadêmico, Meier nada deixa a desejar: é um escritor habilidoso e ocasionalmente engraçado, comunica suas idéias e argumentos com clareza e é homem de grande erudição. Por mais críticas que se lhe façam, como eu mesmo farei daqui a pouco, não é alguém cuja inteligência e conhecimentos devam ser tratados com desprezo. Eu apreciaria ter esse livro em casa para consulta, e suas análises enriqueceram meu conhecimento com muitos detalhes pertinentes. Ele trata com o merecido desdém obras popularescas que tentam negar a existência de Cristo - como os livros de George A. Wells ou o documentário Zeitgeist - ao não dedicar a esse tipo de bobagem mais do que uma contundente nota de rodapé. Há uma série de assuntos interessantes discutidos na obra, entre os quais as menções a Jesus na literatura rabínica, a doutrina da virgindade (perpétua ou não) de Maria, os diversos aspectos do contexto social e cultural da Palestina do século I e muitos pormenores filológicos envolvidos na compreensão das passagens dos evangelhos. Meier tem ainda o mérito de evitar especulações fúteis que vão muito além do que seus dados e critérios permitem concluir. E faz muito bem em combater certos excessos que têm sido cometidos por historiadores de orientação liberal em seu desprezo à historicidade dos evangelhos bíblicos. Creio que a leitura desse livro poderia ter um efeito muito benéfico para pessoas não cristãs mal informadas, embora inteligentes, que se habituaram a Frank Zindler e outras figuras sempre presentes nos sites de apologética ateísta, ou mesmo às ridículas reportagens sobre o assunto que costumam ser veiculadas pela grande mídia.

Os pontos altos do livro, para mim, foram dois: a defesa da autenticidade das duas referências feitas a Jesus no Antiguidades judaicas, de Flávio Josefo - o núcleo do Testimonium Flavianum e a menção à morte de Tiago, o irmão do Senhor - e a crítica à tendência hoje seguida por alguns acadêmicos (e todos os jornalistas), em especial John Dominic Crossan e seus comparsas do Jesus Seminar, de dar ao Evangelho de Tomé importância comparável àquela concedida aos canônicos. (De modo geral, aliás, Meier é muito consistente e persuasivo ao defender que a procura por informações históricas adicionais sobre Jesus, isto é, fora dos evangelhos, é pura perda de tempo.) Desses dois assuntos, que eu julgava conhecer o suficiente, o autor faz análises não apenas exaustivas, mas brilhantes, inigualadas por quaisquer outras de que eu já tenha ouvido falar. (Embora eu reconheça sem dificuldade alguma que esse comentário, vindo de alguém como eu, não chega a ser objetivamente um grande elogio.)

Vejo também, entretanto, muito espaço para críticas, tanto a pontos específicos quanto à estrutura global e às próprias motivações da obra. O autor não deixa de cair na cilada do ceticismo excessivo em certos pontos, como ao negar a realidade histórica das narrativas sobre a infância de Cristo ou ao defender que o relato da concepção virginal de Jesus Cristo é fruto de uma tradição posterior, que não poderia de modo algum ter origem na própria mãe do Salvador. Aliás, o trecho do livro que defende esse postulado é um dos bem poucos nos quais a argumentação do autor parece-me inteiramente ridícula, mesmo segundo seus próprios pressupostos. (Admito, entretanto, que isso não significa que eu tenha uma resposta imbatível para cada detalhe no qual a posição de Meier conflita com a minha, de maneira geral. Significa apenas que vi pontos questionáveis, e alguns de defesa impossível, em número suficiente para concluir que seu ceticismo tende, às vezes, a ir além do que considero ser o limiar da sensatez.) Meier de fato não crê na virgindade de Maria e não a considera importante. Quanto a isso, e a várias outras coisas, seu espírito é mais ou menos o mesmo de Rudolf Bultmann, que julgava ser irrelevante para a fé cristã a própria realidade histórica da ressurreição de Cristo (contrariando frontalmente o ensino de Paulo em 1 Coríntios 15.14). A fim de que a comparação não pareça exagerada, devo dizer que, embora o autor de fato não seja tão liberal quanto poderia ser no que diz respeito às suas conclusões específicas sobre a historicidade das narrativas dos evangelhos, nem por isso é menos liberal em sua mentalidade. Uma evidência disso, em conexão com a questão que acabo de mencionar, pode ser encontrada na sua decisão de não se pronunciar sobre a realidade da ressurreição corpórea de Cristo, por achar que esse tema se encontra fora do alcance da investigação histórica. Dessa forma, ele recusa-se a priori a examinar os méritos relativos das diversas teorias sobre a origem das narrativas da ressurreição, perdendo a excelente oportunidade de descobrir se alguma delas tem mais fundamento histórico que as demais.

Aliás, embora atribuindo-lhe um sentido algo diverso, Meier endossa explicitamente a afirmação de Bultmann de que o Jesus histórico não é o Cristo da fé. Apesar disso, ele compõe sua obra com o propósito declarado de contribuir para uma elaboração moderna e mais apropriada da cristologia. Não parece lhe passar jamais pela cabeça que essas duas pretensões se excluem mutuamente. Em sua tentativa de sustentar ambas as idéias ao mesmo tempo, Meier apenas revela aquele desprezo muito comum pela compreensão tradicional e bíblica da fé cristã. Isso fica muito nítido numa nota em que ele desqualifica a posição de um outro estudioso - Edwin Yamauchi, se não me engano - alegando apenas que tal posição tende a favorecer um programa teológico conservador. Ora, Meier quer nos convencer - e enfatiza isso diversas vezes ao longo do livro - de que, se desconsidera certas condições impostas pela teologia, é apenas pela necessidade de manter, tanto quanto possível, a imparcialidade que se espera num historiador que cumpre diligentemente seu trabalho. Não pretendo afirmar que, ao proceder dessa forma, o autor esteja sendo hipócrita ou enganando os leitores. Mas algumas de suas declarações devem nos alertar acerca da possibilidade de ele não ser tão imparcial quanto supõe. Pois se a teologia não deve ser levada em conta, estudioso algum deve ter suas posições desqualificadas com base numa consideração sobre o tipo de teologia que favorecem.

Nesse sentido, ao pretender uma imparcialidade histórica calcada num desprezo quase explícito pela teologia tradicional e na busca de uma cristologia apropriada aos tempos modernos (eufemismo que significa "uma cristologia que se acomode aos dogmas filosóficos da modernidade"), Meier torna-se um exemplo ilustrativo daquele fenômeno ao qual se referiu Francis Schaeffer quando afirmou que "a alta crítica não sobreveio porque certos fatos a fizeram necessária, mas porque a filosofia humanista sobreveio primeiro". Além disso, ele serve também como exemplo da moderna tendência liberal do catolicismo. (Sim, pois Meier é católico romano, e a mera existência de pessoas como ele - e são muitas - já deveria servir de alerta contra o julgamento ingênuo de que o poder centralizador da Igreja Católica constitui salvaguarda eficaz contra a diversidade que o protestantismo, com sua inerente fragmentação institucional, não é capaz de conter.) O próprio Meier faz questão de lembrar-nos dessa tendência o tempo todo, citando todos os documentos oficiais da Igreja que possam respaldar seus posicionamentos. E nisso também sua predisposição é bastante evidente: ele dificilmente sente necessidade de justificar-se quando nega a historicidade de algo que é relatado nos Evangelhos ou aponta contradições nos textos bíblicos. Quando aceita algo que está escrito, contudo, ele gosta de mostrar que está sendo imparcial, que poderia, se preferisse, rejeitar esse algo sem qualquer problema. Não há dúvida de que o propósito de Meier com tais atitudes é conquistar a simpatia dos leitores afeitos à "intelectualidade" secular (estejam eles dentro ou fora das igrejas cristãs) e posar de racional, de iluminado, de moderninho. Mas há, naturalmente, um preço a ser pago: para quem, como eu, encontra-se em franca oposição a isso tudo, sua parcialidade é muito evidente, ainda que não o seja para ele próprio.

A fim de não nos restringirmos a esse papo, que alguns talvez considerem demasiado abstrato, convém que façamos a seguinte indagação: de que maneira isso tudo interfere na meta principal do livro, que é a de chegar a um retrato consistente do Jesus histórico? Sem tentar uma análise exaustiva dessa questão, ofereço um exemplo que, num sentido muito objetivo, considero bastante comprometedor e, subjetivamente, foi para mim a maior decepção proporcionada pelo livro. O problema não está em nada do que o autor disse, e sim no que deixou de dizer. Uma de minhas principais motivações para ler o livro foi a ânsia de entender melhor os debates sobre a data e a autoria dos evangelhos, bem como sobre o processo de formação dos textos (falei algo sobre esse ponto aqui). Ou seja, a questão é: quando, por quem e a partir de quê foi composto cada um dos evangelhos? Sobre as fontes e datas, Meier limita-se a declarar sua opinião e indicar publicações que a corroboram (o que é até compreensível, pois ele defende uma posição razoavelmente bem aceita, embora de modo algum unânime). No entanto, não há uma só palavra sobre a autoria. O que não significa, é claro, que Meier não tenha uma posição a respeito. Significa apenas que ele toma sua opinião como verdade e a utiliza ao longo de toda a obra sem qualquer fundamentação, discussão ou confronto com hipóteses diferentes. Na verdade, o leitor de Meier jamais saberá da existência delas se o tiver como única fonte de informação. E sua opinião diz que os evangelhos são baseados em fontes escritas e tradições orais fragmentárias, tardiamente compiladas e adaptadas por pessoas que nenhum contato tiveram com os eventos ou suas testemunhas. Essa é a hipótese de trabalho a partir da qual o autor julga a historicidade dos evangelhos, passagem por passagem, eliminando o material espúrio e purificando o restante de contaminações redacionais.

É fácil notar que tal procedimento não se justifica de modo algum se a hipótese for falsa. Se, por exemplo, o apóstolo João tiver sido de fato o autor (ou o redator-chefe) do evangelho que leva seu nome, como a tradição dos primeiros séculos unanimemente afirma, qual é o sentido em discutir seu texto como se fosse apenas uma colagem de fragmentos? Ou em que bases podemos negar a validade dessa tradição, se ela conta inclusive com o testemunho de Irineu de Lyon, cujo mestre, Policarpo, foi discípulo direto do próprio João? Se o Evangelho segundo Mateus foi composto pelo publicano que seguiu Jesus e tornou-se um dos Doze, como se sustentará a tese de que ele não poderia ter ouvido o relato da concepção virginal de Cristo da própria Maria? Levando em conta todos os aspectos dessa discussão, eu me sinto mais inclinado a respeitar e admirar um sujeito como Josh McDowell, que não é historiador, teólogo ou erudito de espécie alguma, e sim apenas um apologeta cristão que estudou o assunto por considerá-lo pessoalmente relevante. Suas análises da evidência histórica são menos profundas, e ele incorre às vezes em simplificações e falácias por falta de rigor metodológico ou por um fervor apologético algo excessivo. Mas McDowell também não é nenhum ignorante do assunto, e a estrutura global de sua argumentação é muito mais coerente que a do renomado historiador.

Qual seria a melhor maneira de interpretar o silêncio de Meier sobre questões tão fundamentais? Será que ele considera esses argumentos (e muitos outros, dos quais citei apenas uns exemplos) ridículos a ponto de não merecerem sequer menção? Talvez. Será que ele julgou desnecessário argumentar a respeito porque apenas os conservadores pensam de maneira diferente? É possível. Permanece, porém, o fato de que seus oponentes apresentaram argumentos, e ele não apresentou nenhum em resposta. Sendo assim, que direito teria o autor de reclamar se um leitor concluísse que ele ignorou pontos absolutamente fundamentais? Afinal, qualquer comentário bíblico começa pela contextualização histórica, pela discussão da data e local da composição, seu autor e as fontes utilizadas. Como exigir menos que isso de um livro que pretende ser uma investigação histórica rigorosa, e não um "mero" comentário exegético? Por todas essas razões, o que me parece é justamente isso: Meier ignorou questões elementares, e tal negligência compromete a validade de todo o seu método e, por conseguinte, de muitas de suas conclusões sobre a historicidade dos textos. É como uma casa construída sobre a areia, como diria seu objeto de investigação.

14 de janeiro de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 3

No post anterior desta série sobre minha viagem à França relatei alguns fatos constatados em minhas andanças por Toulon e seus arredores. Agora vou escrever sobre outras coisas, enfatizando menos o ambiente e mais as pessoas, pelo menos num primeiro momento. Antes de falar dos franceses, contudo, abordarei os elementos estrangeiros (como eu mesmo) ali presentes. Dois desses elementos me surpreenderam por sua abundância. O primeiro, mais visível na universidade, compõe-se dos estudantes chineses. Dentro do campus, bem como nos pontos de ônibus das redondezas, ouvi conversas em mandarim quase tão freqüentemente quanto no próprio idioma local. Até no laboratório onde trabalhei havia uma estudante chinesa, tão simpática, aliás, quanto seu namorado (ou marido) francês. (O pessoal do laboratório é muito gentil e atencioso, de maneira geral.) O segundo elemento, mais presente no centro da cidade, é a população islâmica, facilmente distinguível pelos cabelos totalmente cobertos das mulheres. (Havia também uma representante dessa classe no meu local de trabalho.) É evidente que muitos são imigrantes, provavelmente oriundos das antigas colônias francesas da África setentrional. Mas uma boa parcela é claramente francesa, e sua presença em quantidades nada desprezíveis é o sintoma mais evidente que pude constatar do processo de islamização atualmente em curso na Europa, um fenômeno que, como tantos dos eventos mais importantes da atualidade, parece quase ignorado por nossa imprensa.

Aproveito para relatar que não apenas é fácil distinguir um europeu de um africano de origem árabe, mas também, depois que a gente se acostuma a ver rostos franceses o tempo todo, é até relativamente fácil distingui-los de outros europeus como, por exemplo, os marinheiros holandeses que encontrei no porto. Os próprios franceses, entretanto, não parecem ter a mesma facilidade com essas distinções: bem poucos percebiam que eu era estrangeiro, e muitos que vieram me atender, conversar comigo ou me pedir informações ficaram notavelmente espantados ao ouvir uma balbuciante tentativa de resposta (nas raras vezes em que eu compreendia o que me fora dito) ou um simples "pardon, je ne parle pas français". E os que percebiam que eu não era francês tendiam a inferir, por alguma misteriosa razão, que eu era inglês. Foi esse o caso do homem muito gentil a quem fui perguntar onde era o porto e que acabou me dando carona até lá, por ter ficado penalizado ao me imaginar percorrendo a pé o trajeto de dois quilômetros (um indício adicional de que os franceses de fato costumam andar muito pouco). Foi também o caso de um outro homem, tão atencioso quanto o primeiro, que me ajudou a encontrar um estabelecimento comercial que vendesse cartões telefônicos às onze da noite - uma proeza de fato quase impossível numa cidade onde até os ônibus são muito raros depois das oito. A tradicional rivalidade entre a França e a Inglaterra - rivalidade que remonta, segundo dizem, à Guerra dos Cem Anos - apenas torna mais notável a prontidão de cada um desses homens em me prestar ajuda mesmo antes de descobrir que eu era brasileiro.

Esses episódios inserem-se em aventuras mais longas que eu certamente narrarei em outra ocasião, de modo que não convém me estender sobre eles agora. Mas devo mencionar ainda, em conexão com esses comentários sobre a presença estrangeira no sul da França, que é mais fácil encontrar nas ruas um francês que fala espanhol do que um falante do inglês. E, embora eu não saiba dizer quanto ao primeiro desses idiomas, do qual conheço pouco demais, posso garantir que o inglês das pessoas que não trabalham na universidade é, em geral, muito ruim, tendendo ao incompreensível. (Algumas vezes eu de fato cheguei a me arrepender por ter aceitado a generosa oferta dos meus interlocutores que, vendo minha dificuldade com sua língua mãe, decidiram conceder a possibilidade de uma comunicação na língua inglesa. A essa altura, entretanto, era tarde demais para que eu dissesse "no, no, speak French, please!" sem parecer mal educado.) E, já que estamos falando em incompreensão, creio que o momento é oportuno para mencionar ainda o provençal, idioma específico daquela região, que hoje é falado por poucos e que guarda fortes similaridades com o italiano. Dizem, aliás, que com o português também. Mas quando, durante um almoço na casa do professor Stéphane, ouvi um CD de música provençal, não entendi uma palavra sequer; eu me saí até pior na compreensão desse dialeto do que com as músicas francófonas.

Toda essa questão de línguas estrangeiras rendeu também algumas das minhas experiências mais inusitadas. Durante meu primeiro passeio pelo centro de Toulon, enquanto eu fotografava o belo edifício que abriga o teatro municipal, fui interrompido por um homem que me dirigiu a palavra - em francês, naturalmente. Comuniquei-lhe minha ignorância do idioma, e ele logo repetiu em um inglês muito compreensível o que acabara de dizer: queria cinqüenta centavos para comer alguma coisa. Dei-lhe o dinheiro, ele agradeceu e se foi. Uma cena muito natural, talvez, mas enquanto eu tateava o bolso à procura de moedas não me saía da mente o seguinte pensamento: "Puxa vida! Um mendigo poliglota! Que país estranho!" Depois, pensando melhor, percebi ele não devia ser um mendigo. Não estava mal vestido, embora trajasse roupas simples, e visivelmente não era de ascendência européia. Era provavelmente um imigrante desempregado, talvez em situação ilegal. Não sei. Seja como for, o fato é que nada disso me ocorreu naquele momento, e é por isso mesmo que a situação pareceu-me deveras irreal e engraçada.

Mas logo descobri, com espanto ainda maior, que esse meu pensamento, embora talvez mal aplicado àquela circunstância específica, não deixou de captar algo verdadeiro sobre a realidade da França: o pedido de esmolas seguinte, que recebi duas semanas depois, foi feito por um mendigo autêntico e que parecia francês de verdade. E, no entanto, ao saber que eu era estrangeiro deu-me a opção de ouvir o pedido em inglês ou em espanhol. Além desses dois casos, houve apenas mais uma situação em que um homem me pediu dinheiro: um bêbado que, tarde da noite, queria uns trocados para comprar um cigarro. Não sei se era mendigo. Seja como for, desconfio que, objetivamente falando, os desabrigados da França meridional vivem uma vida até confortável, se comparada à dos andarilhos brasileiros. O melhor exemplo disso é um rapaz que costuma pedir esmolas em frente à loja do McDonald's, a menos de um quarteirão da praça central da cidade. Não pode haver dúvida de que ele é de fato um habitante das ruas, pois o vi dormindo ali mesmo na calçada todas as vezes em que passei pelo local num horário bastante avançado. Ao que parece, ele passa os dias sem tédio, pois, enquanto aguarda sossegadamente as moedas que são jogadas pelos transeuntes, vai ouvindo músicas com seus fones de ouvido. O sul da França é habitado por mendigos tão chiques que chegou a me passar pela cabeça a idéia de pedir-lhes recibo a cada esmola concedida.

Ao longo de meus trinta dias em Toulon e cidades vizinhas vi cerca de cinco mendigos (nem todos comprovados) e, conforme acabo de dizer, fui interpelado três vezes por algum possível representante dessa classe; índices muito baixos, levando-se em conta a quantidade de lugares que visitei e o tempo que gastei andando por aquelas bandas. A prosperidade material da França é visível também nisso, assim como em muitas outras coisas. É raro que alguém ganhe mais de quatro salários mínimos, mas o salário mínimo vale mil euros. E as habitações mais pobres da cidade, o equivalente francês das favelas (segundo ouvi de franceses que já moraram no Brasil), pareceram-me semelhantes a um prédio de apartamentos pequenos: sem luxo ou grande beleza, mas também sem goteiras, esgoto a céu aberto ou traficantes.

Falando em traficantes, lembro-me do que foi uma das experiências mais memoráveis de toda a viagem: a sensação de tranquilidade no que diz respeito à segurança pessoal. Toulon é uma cidade onde se podem deixar destrancadas as portas dos carros, e na qual é possível andar por todos os lugares, a qualquer momento, sem o mais ínfimo medo de assaltos ou outras formas de violência. Eis uma sensação que eu jamais havia sentido ao andar à noite por uma rua deserta no Brasil, nem mesmo no mais pacato recanto do interior paulista em que já estive. Mesmo que essa sensação de segurança tenha sido ilusória - e tudo leva a crer que não era -, ela permanecerá para sempre como uma das lembranças mais caras da minha estadia naquela terra. Sob esse aspecto, ao menos, a memória de Toulon remete a algo como um vislumbre do Paraíso. Talvez essa comparação pareça exagerada ao leitor; e é bom que soe dessa forma, pois ela é exatamente isso. Mas não se trata uma hipérbole sem propósito, já que comunica algo sobre a natureza da sensação. Eu mesmo me surpreendi com a intensidade do bem-estar proporcionado por essa segurança. Porém, estando ali e desfrutando daquele sentimento agradabilíssimo, não pude deixar de me lembrar do povo brasileiro, que geme sob uma criminalidade cada vez mais sufocante e alimentada pela negligência e pelo apoio efetivo dos governantes. Não, é claro, que essas realidades não fossem do meu conhecimento há um certo tempo. Mas foi apenas em minhas caminhadas noturnas por aquela terra à beira do Mediterrâneo que pude compreender o real valor dessa bênção da qual nós, brasileiros, temos sido privados.

24 de dezembro de 2008

Velhas lições sobre o futuro

Nota introdutória: o texto abaixo é uma adaptação - para melhor, espero - de algo que minha própria inépcia me impediu de publicar há um ano, conforme expliquei no primeiro parágrafo deste post.

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A fim de não deixar passar em branco essa grande e bem justificada comemoração da cristandade, resolvi transcrever neste blog um poema natalino. Por ter sido composto em inglês, ele não está apenas transcrito: acrescentei uma tradução feita por mim mesmo, em parceria com Ivan Junqueira. É claro que meu ilustre parceiro não tem consciência alguma de que ocupa essa posição. Ocorre que o autor é o grande poeta T. S. Eliot, a quem já aludi mais de uma vez neste blog. Algum tempo atrás adquiri, a preço de banana, dois volumes publicados pela editora Arx, os quais reúnem grande parte da produção escrita do poeta inglês: o primeiro contém suas poesias, e o segundo suas peças de teatro. Ficaram de fora, infelizmente, todos os seus escritos dissertativos, inclusive sua vastíssima obra de crítica literária. No momento, porém, o que importa é destacar que os dois volumes possuem a excelente característica de conter lado a lado a tradução ao português e o original em inglês, o que proporciona ao leitor a dupla vantagem de ter acesso à poesia original, que é sempre melhor que qualquer tradução que dela se faça, e ao mesmo tempo poder tirar prontamente suas dúvidas quanto ao sentido dos trechos difíceis. Pois bem; Ivan Junqueira é o tradutor do primeiro volume. Não reproduzo aqui sua tradução, por julgar que ele tomou certas liberdades poéticas que o afastaram demais do sentido original das palavras de Eliot. Não o condeno por isso, de modo algum. Ele é um profissional do ramo, e provavelmente sabe o que faz muito melhor que qualquer físico metido a tradutor. De qualquer forma, embora minha preocupação (talvez excessiva) pela exatidão da mensagem tenha me levado a fazer minha própria tradução, seria injusto de minha parte não reconhecer que ela deve muito à de Junqueira.

O poema abaixo não é, nem de longe, um dos mais belos de Eliot, e não chega sequer a ser o melhor dos seus poemas natalinos. Mas tem ao menos a vantagem de ser o mais natalino de todos. Para mim, seu valor reside justamente naquilo que ele explicitamente defende. A religião cristã não é um mero conjunto de enunciados ou dogmas sobre Deus e sobre o homem; ela se propõe a atingir e transformar todos os aspectos do ser do devoto, e não apenas seu lado intelectual. Por conseguinte, a educação para a vida cristã não pode jamais reduzir-se à mera catequese. O próprio Senhor apontou parte da solução para esse problema ao instituir os ritos do batismo e da ceia. Embora o papel desses sacramentos vá, na verdade, muito além disso, eles desempenham também a função pedagógica de preparar nosso espírito para abrir-se a realidades mais sublimes que as que costumamos vivenciar. E para isso contribuem também muitos outros procedimentos ritualizados, embora de maneira menos formal e rigorosa, entre os quais encontra-se a tradição milenar da celebração do nascimento do Salvador, com seus costumeiros acessórios. O tema da poesia abaixo toca em tudo isso, e é por essa razão que resolvo publicá-la, mesmo sabendo que postar um poema que faz referência a uma santa, ainda que apenas parenteticamente, é algo que pode pegar mal para um cristão protestante como eu.

O cultivo das árvores de Natal

Há várias atitudes diante do Natal,
algumas das quais podemos desconsiderar:
a social, a entorpecida, a patentemente comercial,
a barulhenta (os bares abertos até meia-noite),
e a infantil - que não é a da criança
para quem a vela é uma estrela, e o anjo dourado,
estendendo suas asas no topo da árvore,
não é apenas uma decoração, mas um anjo.
A criança fica extasiada com a Árvore de Natal;
deixem-na continuar nesse espírito de êxtase
na Festa como um evento não aceito como um pretexto;
de modo que o arrebatamento reluzente, o assombro
da primeira Árvore de Natal lembrada;
de modo que as surpresas, o deleite em novas posses
(cada uma com seu cheiro peculiar e excitante),
a expectativa pelo ganso ou pelo peru
e o tão aguardado pasmo diante de seu aparecimento;
de modo que a reverência e o júbilo
possam não ser esquecidos na experiência posterior,
no hábito enfadonho, na fadiga, no tédio,
na antevisão da morte, na consciência do fracasso,
ou na piedade do convertido
que pode ser maculada por uma presunção
desagradável a Deus e desrespeitosa às crianças
(e aqui me lembro também com gratidão
de Santa Lúcia, seu canto e sua coroa de fogo);
de modo que antes do fim, no octogésimo Natal
("octogésimo" significando qualquer que seja o último),
as memórias acumuladas da emoção anual
possam ser concentradas numa grande alegria
que será também um grande temor, como na ocasião
em que o temor virá sobre toda alma:
porque o começo nos lembrará do fim
e a primeira vinda, da segunda vinda.

The cultivation of Christmas trees


There are several attitudes towards Christmas,
Some of which we may disregard:
The social, the torpid, the patently commercial,
The rowdy (the pubs being open till midnight),
And the childish - which is not that of the child
For whom the candle is a star, and the gilded angel
Spreading its wings at the summit of the tree
Is not only a decoration, but an angel.
The child wonders at the Christmas Tree:
Let him continue in the spirit of wonder
At the Feast as an event not accepted as a pretext;
So that the glittering rapture, the amazement
Of the first-remembered Christmas Tree,
So that the surprises, delight in new possessions
(Each one with its peculiar and exciting smell),
The expectation of the goose or turkey
And the expected awe on its appearance,
So that the reverence and the gaiety
May not be forgotten in later experience,
In the bored habituation, the fatigue, the tedium,
The awareness of death, the consciousness of failure,
Or in the piety of the convert
Which may be tainted with a self-conceit
Displeasing to God and disrespectful to children
(And here I remember also with gratitude
St. Lucy, her carol, and her crown of fire):
So that before the end, the eightieth Christmas
(By 'eightieth' meaning whichever is the last)
The accumulated memories of annual emotion
May be concentrated into a great joy
Which shall be also a great fear, as on the occasion
When fear came upon every soul:
Because the beginning shall remind us of the end
And the first coming of the second coming.

Posso reconhecer no meu próprio caso a importância pedagógica das experiências natalinas na infância. Poucas vezes tive em casa árvores enfeitadas, luzes e coisas do tipo, embora sempre tenha havido decorações mais discretas. Na igreja, entretanto, sempre participei dos preparativos para a comemoração. Atuei raras vezes na decoração, tarefa para a qual nunca levei muito jeito, mas quase sempre nas dramatizações e, principalmente, nas músicas, com todos os ensaios e outros desafios a superar. Tudo muito trabalhoso, é verdade, mas sempre feito com aquela espécie de alegria constantemente presente num grupo de pessoas que não apenas gostam do que fazem como também estão profundamente convictas da importância do seu trabalho e empenhadas em contemplar seu resultado final. Nisso, aliás, jamais me decepcionei: a noite da véspera, na qual era sempre realizado o culto de Natal, sempre nos fazia sentir que valeram a pena todos os reveses que a antecederam. (Esse fenômeno, aliás, não se extinguiu na minha infância, pois vejo ainda hoje, com o coração cheio de alegria e gratidão, a mesma coisa acontecer nas celebrações musicais do Natal na minha igreja atual.)

Mais importante que tudo isso, porém, era o dia de Natal propriamente dito, que sempre passei na casa dos meus avós maternos. Era a única ocasião do ano em que era possível reunir toda a família. Era o dia de matar a saudade dos primos e primas, da vó e do vô, dos tios e tias. Era o dia da refeição mais gostosa e mais alegre do ano. Ao almoço sempre seguia-se a entrega dos presentes, com os quais ficávamos entretidos em brincadeiras (interrompidas ocasionalmente por pequenas brigas) no quintal até depois do anoitecer. Lembro-me vagamente de uma ou outra decoração de Natal, mas nunca lhes dei muita atenção. Nesse aspecto, as palavras de Eliot não se aplicam à minha própria experiência. Mas pouco importa: o Natal não era um dia como os outros. Era o mais esperado e o mais feliz dentre todos os dias do ano, possuía seus ritos peculiares, seguidos à risca por toda a família, e era, em sua totalidade, um enorme e agradabilíssimo ritual. O eco do júbilo daqueles poucos e esparsos momentos enche minha vida ainda hoje.

Talvez pareça ao leitor que essas reminiscências que descrevo são demasiado seculares, desprovidas de significado espiritual. Há, sem dúvida, alguma dose de verdade nesse julgamento. O divino aniversariante não estava entre as pessoas mais lembradas por mim naquelas ocasiões. Mas o benefício espiritual que eu não soube aproveitar na ocasião foi entesourado para ser recebido com juros, anos mais tarde, por uma personalidade mais amadurecida. Afinal, foi aquela mesma boa nova, anunciada pelos anjos aos pastores de Belém e pelos céus aos magos do Oriente, que me permitiu viver esses momentos inesquecíveis na infância. A memória de tais acontecimentos me ajuda hoje a compreender e receber essa boa nova com a gratidão e o regozijo que ela requer, e assim me preparar melhor para a segunda vinda de que Eliot fala no final do poema. Acredito sinceramente que sem aquelas experiências do passado, vividas de maneira não inteiramente consciente, eu não estaria apto a desfrutar de maneira tão intensa no presente a esperança pelas maravilhas que hão de vir.

Feliz Natal a todos!

8 de dezembro de 2008

Aventuras no berço do Ocidente - parte 2

Toulon é uma cidade do litoral sul da França, a quarenta minutos de Marseille (andando de trem). Pouco depois de descer no aeroporto de Toulon descobri que ele, na verdade, não fica em Toulon, e sim numa cidade vizinha chamada Hyères. E logo fiz a descoberta adicional de que a Universidade de Toulon também não fica em Toulon, e sim numa outra cidade vizinha, La Garde. Acabei aprendendo que esses estranhos fatos relacionam-se a certas realidades da distribuição demográfica do país ou, pelo menos, daquela região. A despeito de possuir apenas cento e cinqüenta ou cento e sessenta mil habitantes (menor, portanto, que o pacato município do interior paulista onde resido), Toulon é a maior cidade das redondezas. À sua volta distribuem-se dezenas de cidadezinhas com cinco, dez, vinte mil habitantes, os quais (isto é, boa parte da população economicamente ativa) muito freqüentemente não trabalham na cidade onde moram. Porém, a área ocupada por um município francês costuma ser consideravelmente menor que a de um município de população equivalente no Brasil. E é menor também a distância entre cidades vizinhas, a ponto de não haver, em alguns casos, descontinuidade alguma no grau de urbanização. É possível passar de uma cidade a outra sem se dar conta disso, especialmente se o transeunte em questão for tão distraído quanto eu.

Na minha primeira semana morei numa casa bem próxima à do professor Yves, num bairro situado perto da praia - quinze minutos a pé. A casa era cerca de duas vezes maior que a minha habitação atual em São Carlos; tinha quarto, sala, copa-cozinha e banheiro (dou esse nome ao último cômodo, embora contivesse também uma máquina de lavar roupas e um guarda-roupa embutido), estava muito bem mobiliada e tinha, junto à porta da cozinha, um pé de azeitonas pretas. Achei-a muito agradável, assim como o local onde estava situada. E, visto que eu ia à universidade bem cedo e retornava apenas quando estava escurecendo (de carona com o professor, em ambos os casos), só me restavam as noites para passear pelo bairro. Foram passeios exploratórios, feitos a pé, como os que eu faria na minha própria cidade, exceto pelo passaporte no bolso e pela câmera fotográfica (gentilmente emprestada pela minha amiga Ana Flávia), da qual raramente me separei - e me arrependi em todas as ocasiões em que fiz isso.

Tais andanças acabaram por revelar muitos outros fatos sobre a vida na França. A primeira coisa que notei foi que as ruas são muito sinuosas; não me lembro de ter visto trechos retilíneos de comprimento superior a cem metros. Não existem caminhos com poucas curvas para lugar algum. "Até parece que por aqui ninguém anda a pé", pensei. E acabei descobrindo que era isso mesmo. Vi uma quantidade razoável de pessoas que caminhavam por exercício, ou para passear com seus cães, mas pouquíssimas que pareciam de fato estar andando com o simples objetivo de ir de um lugar a outro. Na verdade, andar a pé aparenta ser algo tão pouco valorizado que a existência de possíveis praticantes desse hábito não chega sequer a ser levada em consideração às vezes, como se nota, por exemplo, pelo fato de que não poucos trechos de ruas são inteiramente desprovidos de calçadas. Nada disso me causou algum problema com os motoristas, pois os franceses parecem ser muito corteses ao volante. Mas esses fatos contribuíram para fazer com que eu andasse mais do que andaria no Brasil, e também exigiu mais do meu senso de direção, que é apenas mediano. Felizmente, porém, quase todos os pontos de ônibus têm um mapa da cidade - e também das cidades vizinhas, na verdade, abrangendo toda a rede de transportes públicos, de ônibus e barcos - com a indicação "vous êtes ici" ("você está aqui") em algum ponto. Visto que passeei sozinho na quase totalidade das vezes, só posso dizer que, sem o recurso constante aos pontos de ônibus, não sei o que teria sido desses passeios; ou, pior ainda, dos retornos.

Mas estou me adiantando demais; outros passeios serão descritos mais tarde. As ruas sinuosas contribuem para dar uma aparência especial à paisagem, mas são menos importantes que as residências. Mal posso descrever a experiência de andar entre as casas de um bairro francês. É quase como se um aspecto inteiramente novo da realidade se descortinasse diante dos meus olhos. Percebi, de repente, o motivo pelo qual meu interesse por arquitetura sempre foi tão limitado. A resposta parece ser, muito simplesmente, que bem poucas vezes ao longo da minha vida eu havia visto casas verdadeiramente bonitas. Ou, dizendo de maneira mais precisa, poucas vezes eu vira casas com um tipo de beleza tão pungente. Algo que estava adormecido despertou em mim. As belas casas do Brasil, embora não sejam menos belas por isso, parecem ter um ar de ostentação, não necessariamente motivada por uma vaidade tola, mas sim num sentido algo mais difícil de explicar. É como se todos os detalhes tivessem sido meticulosamente planejados para despertar a admiração de uma categoria de pessoas na qual não estou incluído.

Eu jamais havia me dado conta disso até então, e nem mesmo estou certo de que tais palavras traduzem da melhor maneira possível esse estranho sentimento que me acometeu. Mas há algo nas casas francesas, com seus muros de pedra, seus portões aparentando uma idade enorme, a abundância de árvores e de plantas trepadeiras, que dá ao conjunto um tom espontâneo, natural, bucólico, impressão essa reforçada pelo clima temperado, outonal, com folhas de diversas cores e tamanhos espalhando-se pelo chão. Eu tinha a sensação de que todos os diversos aspectos que eu discernia - edificações, vegetação, clima, nuvens, ruas, cães, transeuntes e seu estranho idioma - harmonizavam-se de maneira admirável (embora talvez num relacionamento conturbado, cheio de altos e baixos, ao longo dos séculos), que haviam sido feitos uns para os outros. As casas e seus habitantes pareciam ter brotado do chão junto com as árvores.

Poucos dias depois do meu retorno a estas plagas, ao contemplar uma bela paisagem natural bem mais brasileira, tive uma percepção vinculada precisamente a essa questão da harmonia: aqui, exceção feita aos ambientes quase inteiramente rurais, a presença de edificações feitas por mãos humanas quase sempre diminui a beleza da paisagem. Na França, por alguma misteriosa razão, isso não acontece. Meus devaneios quanto a ter pousado no território de uma raça estranha não são tão absurdos, afinal. Mas agora eu pensaria menos em algum planeta distante do que na Terra-média de Tolkien, com seus elfos, anões, hobbits e mesmo homens preocupados em edificar coisas boas e úteis sem jamais ferir a beleza do mundo circundante. Falando de uma perspectiva muito mais estética do que propriamente ecológica, ao menos, creio que temos algo a aprender com os franceses no que tange à harmonia entre o homem civilizado e a natureza.

Mas talvez haja um outro segredo por trás da beleza de Toulon e, quem sabe, das cidades francesas em geral: o peso da história se faz sentir em todo lugar, inexoravelmente. O antigo e o moderno misturam-se de uma maneira que surpreende, mas justamente por aparentar uma harmonia natural e profunda. O centro de Toulon - a única parte da cidade, creio eu, onde é possível encontrar ruas retas em abundância - é um espetáculo disso mesmo: prédios antigos e cheios de uma beleza inconfundivelmente ancestral abrigam não apenas igrejas, museus e instituições públicas, mas também bancos com caixas eletrônicos e lojas do McDonald's, em ruas intensamente movimentadas por muitos carros (pois embora haja, naturalmente, mais gente andando a pé no centro do que nos bairros, o trânsito de veículos continua sendo o fator mais impressionante, a julgar pelo tamanho da cidade). As ruas que descem para o mar, situado a poucos minutos da praça central, são geralmente estreitas e ladeadas por prédios de aparência antiga, com quatro ou cinco andares, dos quais o térreo abriga geralmente algum tipo de estabelecimento comercial, e os andares superiores contêm apartamentos onde, suponho, vivem pessoas relativamente pobres. Não é muito difícil, caminhando por ali, imaginar-se no século XVIII ou mesmo num ambiente urbano do fim da Idade Média.

Na beira do mar há restaurantes caros (ao menos para mim), iates e navios modernos. E, no entanto, aquele mar é o mesmo de sempre, o velho Mediterrâneo, à beira do qual floresceram várias das mais importantes culturas da história, mar que foi palco e testemunha de muitos dos eventos de mais decisiva influência sobre a trajetória humana no mundo. Quando o contemplei pela primeira vez, ainda de longe, não pude deixar de sentir uma certa emoção, um frêmito que traduzia, talvez, uma reverência mal contida pela riqueza do passado. O mar, creio eu, é encantador por si mesmo, e assim será sempre, em qualquer parte do mundo. Mas no Brasil a única massa de água que se vê é aquela que foi desbravada apenas pelas grandes navegações empreendidas pelos colonizadores europeus há não muito mais de cinco séculos. Mas aquele que eu tinha diante dos olhos, em eras muitíssimo anteriores à própria da existência da Europa como civilização, havia sido cruzado pelos fenícios e disputado por Cartago, antes de ter sua posse enfim reivindicada pelos romanos e ser batizado por eles com um nome que evoca, ao mesmo tempo, intimidade e ousadia: Mare Nostrum.

20 de novembro de 2008

Aventuras no berço do Ocidente - parte 1

"Você descobrirá que o mundo todo prega para uma mente atenta; e que, se você apenas tiver ouvidos para ouvir, quase todas as coisas que você encontra ensinam uma lição de sabedoria." (William Law)

Como muitos dos meus prováveis leitores devem saber, estive na França entre 14 de outubro e 13 de novembro. Creio que seria uma experiência marcante para qualquer pessoa, mas o é ainda mais para alguém tão pouco viajado como eu. Digo isso porque esta foi a minha primeira viagem para fora do Brasil, e a segunda para fora do Estado de São Paulo (a primeira foi há cerca de um ano e está registrada aqui). Justifica-se, portanto, que eu relate aqui alguns dos mais importantes acontecimentos relacionados a essa viagem, bem como as lições que extraí deles. A própria diversidade das experiências vividas, cuja riqueza atinge quase todos os níveis da vida, torna impossível expressar em palavras o efeito que elas tiveram sobre mim. Nem mesmo posso afirmar que estou plenamente consciente da extensão desse efeito. O tempo trará à luz alguns aspectos dele, creio eu, mas outros certamente exercerão para sempre uma influência subconsciente. Conseqüentemente, talvez seja cedo demais para uma apreciação que vá além de um mero relato de curiosidades desconexas. Parece-me inevitável, portanto, que a narrativa a seguir pareça justamente isso aos leitores, embora a mim mesmo pareça algo muito diferente. Assim sendo, dou início agora a um despretensioso relato de alguns acontecimentos relacionados a essa viagem, o qual certamente terá continuidade em posts futuros e não necessariamente consecutivos.

Nada é mais natural que começar apresentando o motivo da minha ida: foi uma viagem a trabalho, possibilitada por uma parceria já meio antiga do laboratório PROTEE (Processus de Transferts et d'Echanges dans l'Environnement) da Universidade de Toulon com diversos centros brasileiros de pesquisa relacionada à agricultura, entre os quais o Laboratório de Óptica e Lasers da Embrapa Instrumentação Agropecuária, no qual, em meio a outras atividades, desenvolvo minha pesquisa de mestrado. Trabalhamos há vários anos com aplicações da espectroscopia de fluorescência à resolução de problemas na citricultura, e nisso o emprego de ferramentas de análise matemática, estatística e computacional tem se revelado de grande ajuda. Essa é, porém, uma área na qual nossos conhecimentos são bastante deficientes; mas nossos parceiros franceses, felizmente, sabem bem mais. Foi isso, essencialmente, o que fui fazer na França: apresentar um problema concreto e aprender possíveis soluções. O trabalho foi produtivo, a despeito de uma série de imprevistos. E bastam essas informações sobre isso.

A viagem começou a ser cogitada por volta de abril, quando recebemos a rápida visita dos professores Stéphane e Roland, que vieram se juntar à Marie, estudante de mestrado que passou três meses conosco. Confesso que não levei muito a sério a possibilidade de concretização do plano, talvez em parte por minha desconfiança instintiva contra qualquer coisa que envolva muita burocracia, e em parte também por influência de um hábito mental de longa data que me leva a ter expectativas bastante modestas quanto ao futuro. O fato é que visitar a Europa é algo que jamais me passou pela cabeça com seriedade. E, no entanto, pouco a pouco as coisas foram dando certo, apesar de alguns contratempos: acabei indo em meados de outubro, em vez de ir no de início de setembro, como estava originalmente previsto; e, pior ainda, fui comprar euros bem no auge de crise econômica, o que me fez chegar à França com apenas três quartos do dinheiro que teria se os tivesse comprado um mês antes. Nenhum desses empecilhos foi decisivo, porém, e lá fui eu.

O trajeto envolveu muitos elementos: durou quase vinte e quatro horas, da saída da casa dos meus pais até a chegada ao aeroporto de Toulon, tendo sido metade desse tempo gasto no vôo de Guarulhos a Paris; quase não dormi nos vôos, o que me levou a assistir três filmes e ouvir dois CDs inteiros, além de ler um pouquinho; o jantar e o café da manhã servidos no avião foram muito bons. Muitos outros detalhes poderiam ser citados, mas nada é tão importante quanto a lenta tomada de consciência da mudança de ambiente. Todas as mensagens transmitidas pelo comandante eram dadas em português, inglês e francês; muitos passageiros eram estrangeiros, assim como quase toda a tripulação; o aeromoço que me atendeu na maior parte das vezes e a aeromoça que o fez nas vezes restantes eram provavelmente franceses, e não falavam português; pela telinha era possível acompanhar o vôo e ver a posição do avião no mapa, e assim eu o vi se afastar lenta e firmemente da costa brasileira e adentrar no Oceano Atlântico, passando depois perto da costa da África e sobrevoando a Península Ibérica até, finalmente, atingir a França. Acompanhei tudo isso com uma sensação mista de temor, incredulidade, empolgação e serenidade, pensando a cada quinze minutos algo como "caramba, jamais estive tão longe!" Quando o avião começou a descer dos quase doze mil metros de altitude em que vinha se mantendo para aterrissar no Aeroporto Internacional Charles de Gaulle, eu já estava dominado por uma forte sensação de que ia pousar, não em outro continente, mas em outro planeta. E quando descemos o suficiente para que o espesso tapete de nuvens se dissipasse e fosse possível entrever a paisagem que se descortinava lá embaixo com nitidez crescente, algo me surpreendeu. Aquele lugar podia se parecer muito com o planeta de onde vim, mas eu jamais poderia confundi-los. Demorei um minuto para descobrir o que estava "errado", mas enfim percebi: eram as cores. Estávamos sobrevoando uma zona rural e florestal, mas o outono da França apresenta a vegetação não apenas nos diversos tons de verde que observamos no Brasil, mas também com tons de marrom, de amarelo, de laranja, de vermelho. (Aproveito a ocasião para registrar minha alegria por ter ido à França justamente no outono, alegria esta motivada exatamente por essas cores.) Quando descemos um pouco mais pude constatar que, além das cores, as formas das árvores também eram diferentes. E, no momento em que o avião se aproximou do aeroporto, cruzou a minha mente um estranho pensamento: "Quão curiosas devem ser as formas de vida inteligentes que governam este mundo tão colorido!"

Esses devaneios interplanetários, porém, foram logo substituídos por uma sensação muito mais realista; creio que poderia expressá-la dizendo que me senti abandonado, se a melancolia não estivesse inteiramente ausente. Estava mais para uma espécie de euforia, na verdade: ali estava eu, a uns dez mil quilômetros de casa, num continente estranho, numa grande cidade, numa terra onde ninguém me conhecia, ninguém falava a minha língua e - o que é pior ainda - cuja língua eu desconhecia quase inteiramente. Repassei mentalmente o itinerário: eu deveria apresentar meu passaporte para ser carimbado pela polícia, pegar minha mala, achar o ponto de parada do ônibus que me levaria ao aeroporto de Orly, onde faria um novo check-in e tomaria o avião para Toulon, em cujo aeroporto eu seria recebido por alguém da universidade. Parece simples, mas tudo se torna muito mais complicado para alguém que teve apenas dois meses para aprender, da maneira mais autodidática possível, alguma coisa sobre o idioma local. Quando o avião finalmente parou, adiantei o relógio em cinco horas. Esse ato banal estava, para mim, carregado de significado: era o símbolo máximo do rompimento temporário com aquela terra distante onde estava quase tudo o que eu conhecia e amava, e do mergulho definitivo nesse lugar desconhecido e algo assustador.

Deu tudo certo. Consegui chegar ao ponto de ônibus em apenas uma hora, aproximadamente o dobro do tempo necessário para alguém que sabe o que está fazendo. Para isso andei bastante, estudei todas as placas e painéis disponíveis, consultei o dicionário umas três vezes e solicitei a ajuda de duas pessoas. Pedi em inglês, língua que aparentemente é falada por boa parte dos funcionários do aeroporto, o que para mim foi um alívio, visto que eu não tinha ainda nem capacidade nem coragem para tentar uma conversa em francês. O mesmo embaraço com a língua se deu dentro do ônibus, em Orly e no segundo avião. Mas, a despeito de todas as dificuldades, as etapas foram sendo vencidas, e no fim da tarde eu finalmente me encontrei, no aeroporto de Toulon, com o professor Yves, chefe do laboratório, vice-reitor da universidade e - o que me parecia ainda mais importante - ótimo falante do português. Ele me levou à universidade, onde conheci o laboratório (e boa parte dos seus integrantes, que me receberam muito bem), e em seguida à casa onde eu deveria morar durante a primeira semana; depois disso, muito gentilmente me levou à sua própria casa, onde tive um ótimo jantar com sua família, antes de finalmente ir para a cama. Creio que, em virtude do enorme cansaço, adormeci menos de um minuto depois de ter fechado os olhos, mas esse tempo foi suficiente para a ocorrência de um fenômeno que iria se repetir muitas vezes nos dias seguintes: tudo o que eu ouvira ao longo de todo o dia naquela língua incompreensível pareceu retornar aos meus ouvidos, como se eu estivesse num salão onde muitas pessoas falavam ao mesmo tempo, resultando numa agradável melodia de entonações e fonemas estranhos que iam e vinham, como ondas num oceano tranqüilo.

6 de outubro de 2008

Da cabeça aos joelhos

"Você não está aqui para examinar,
se instruir, satisfazer sua curiosidade
ou redigir um relato. Você está aqui para se ajoelhar
onde a oração tem sido eficaz."
(T. S. Eliot)

Como já aconteceu várias outras vezes neste blog, o texto de hoje deverá ser uma mistura de considerações teóricas e relatos de experiências pessoais unidas entre si por um tema comum. No que diz respeito a esse tema, a idéia de sintetizar os dois elementos num só texto ocorreu muito recentemente, durante uma conversa que tive com minha amiga Norma, embora as experiências descritas, bem como as conclusões que delas extraí, contem já com vários anos de existência. Devo avisar desde logo que o assunto deste post refere-se a debates internos do protestantismo, e particularmente do calvinismo, e por isso a questão pode ser de pouco interesse para membros de outros grupos cristãos; e não vejo que interesse ele possa ter para pessoas que não são cristãs de modo algum. De qualquer forma, é claro que isso é só uma advertência para que leitores não interessados possam fazer melhor proveito do seu tempo; ninguém está proibido de ler nada.

O assunto relaciona-se aos meios e às finalidades da apologética, que pode ser entendida como a defesa racional de uma doutrina - particularmente uma doutrina religiosa e, mais particularmente ainda, a cristã (o dicionário Houaiss a define como "defesa argumentativa de que a fé pode ser comprovada pela razão"). O objetivo da coisa toda é, naturalmente, levar o opositor da doutrina em questão a aceitar sua validade, o que deve resultar na conversão do indivíduo, no caso de ser essa doutrina o cristianismo. Digo que o convencimento deve levar à conversão porque obviamente uma coisa não se segue necessariamente da outra: a primeira etapa é intelectual, e a segunda é espiritual. (Algumas pessoas convencem-se racionalmente sem, contudo, se converterem, e outras convertem-se sem que seu lado racional desempenhe qualquer papel preponderante.)

Embora eu não saiba dizer exatamente quando foi que se deu a minha conversão, posso dizer com certeza que a consciência da presença de Deus em mim não aconteceu enquanto não enfrentei certas questões intelectuais que me afligiam; e isso, não hesito em afirmar, está bem longe de ser coincidência. Os detalhes sobre aquela etapa da minha vida não entram nas considerações deste texto, mas esse fato exemplifica a importância que a apologética teve na minha vida - importância que, aliás, não parou por aí. Mas o que convém ressaltar é que, tendo eu um temperamento bastante racional, e tendo sofrido (e, pela graça de Deus, vencido) algumas tentações intelectuais que atingem muitas pessoas, jamais pude deixar de perseguir com profundo interesse a compreensão dos fundamentos da fé à qual aderi (ou que aderiu a mim) e de suas relações com os diversos aspectos da realidade, e tampouco de exultar a cada nova percepção ou vislumbre da harmonia subjacente a essas relações.

Na medida em que muitas coisas iam ficando claras na minha própria mente, seguiu-se um impulso natural de comunicar essas descobertas às pessoas que precisavam ouvi-las - as que enfrentavam dificuldades semelhantes às minhas, ou ainda piores. Foi essa uma das principais motivações que me levaram ao envolvimento em debates no orkut, primeiro numa comunidade sobre o cristianismo (da qual faziam parte cristãos de todos os tipos, pessoas abertamente anticristãs e pessoas que pensavam ser cristãs sem sê-lo) e depois numa outra voltada ao embate entre, de um lado, religiosos de qualquer tipo e, do outro, ateus, agnósticos e seus parentes. Tais experiências foram muito salutares em diversos aspectos, e não me arrependo de ter sido, durante algum tempo, um notável caçador de confusões virtuais, embora não me reste muita paciência para esse tipo de coisa hoje em dia. Mas mencionarei aqui apenas um desses aspectos, que trouxe o benefício de me curar para sempre de uma certa ingenuidade à qual eu estava sujeito.

Eu supunha que o problema fundamental que separava as pessoas da verdade era de natureza intelectual, e que residia na ignorância. (Eu jamais teria me expressado ou mesmo pensado nesses termos, mas era uma crença solidamente arraigada num nível mais profundo que o das convicções conscientes.) Assim, eu esperava que instruir as pessoas era tudo o que se requeria para resolver o problema, e que elas, tendo chegado a perceber a inconsistência de suas posições atuais, alegremente substituiriam-nas por outras de qualidade superior. Hoje considero difícil explicar como pude aceitar essa suposição - a ponto de me surpreender quando as coisas sistematicamente começaram a acontecer de outra forma -, ainda mais porque eu tinha consciência do fato de que não haviam ocorrido assim no meu próprio caso. Talvez eu tenha projetado indevidamente sobre a fase inicial do processo uma alegria que só me acometeu numa fase posterior. Seja como for, o fato é que eu não contava com as reações que recebi. Esperava uma de duas coisas: ou que as pessoas se convencessem de que estavam erradas, ou que apresentassem argumentos melhores que os meus. Mas, embora ocasionalmente uma ou outra dessas alternativas se concretizasse, na esmagadora maioria das vezes o que encontrei foram subterfúgios diversos, desonestidade pura e simples; uma recusa, enfim, de encarar a verdade (ou pelo menos o que a situação impunha como tal).

Aprendi, assim, a evitar uma posição errônea, e a dar ouvidos aos apologistas que advertem constantemente contra o perigo de reduzir a concepção cristã sobre a natureza humana aos seus elementos meramente racionais. Essa é uma crítica que certos teólogos pressuposicionalistas constantemente fazem a uma coisa um tanto vaga denominada "apologética tradicional". É claro que não vou me meter a discutir aqui as inovações do pressuposicionalismo, inclusive porque esse movimento parece contar também com um considerável grau de divergência interna. Não convém, portanto, polarizar a questão dessa forma, e muito menos abordar outros pontos pertinentes a essa complexa questão. Mas cabe observar que parece vir justamente de certos pressuposicionalistas uma tendência diametralmente oposta, a de atribuir pouco ou nenhum valor às motivações racionais do incrédulo. No fundo, dizem eles, todos esses argumentos levantados contra a fé cristã são apenas pretextos, e o incrédulo sabe perfeitamente que está errado, embora tente o tempo todo convencer a si próprio do contrário. Eis a razão pela qual aceitar um embate argumentativo destinado a demonstrar seus erros não resolverá o problema, ainda que o resultado seja racionalmente impecável. É necessário driblar todos esses subterfúgios e apelar diretamente à sua vontade rebelde, que é a fonte verdadeira de todo o mal.

Esse ponto de vista tem o mérito inegável de abrir espaço à consideração dos elementos que militam nas profundezas da alma humana, evitando assim o erro que eu mesmo cometi. Apesar disso, creio tratar-se de um excesso na direção oposta, o qual tende a ser prejudicial na prática. Digo isso com segurança baseando-me não apenas na memória do apelo tentador que a descrença exerceu sobre mim mesmo ou da forma como reagi a isso, mas também em muitos relatos pessoais de homens que vagaram por regiões muito mais distantes de Deus do que aquelas em que eu mesmo estive. Quando penso nas trajetórias espirituais de Santo Agostinho ou C. S. Lewis, por exemplo, não posso evitar que passe pela minha mente a suposição de que um cristão guiado por princípios apologéticos como esses jamais conseguiria obter algum sucesso, ao menos com certa categoria de pessoas. Tais princípios constituem uma péssima compreensão da mente do incrédulo, e dão a impressão de terem sido propostos por indivíduos teóricos, no pior sentido do termo: pessoas que jamais sofreram pessoalmente a incredulidade e que não são capazes de reproduzir dentro de si mesmas as experiências interiores dos que passaram por ela.

A idéia de que os incrédulos têm conhecimento das verdades essenciais da fé cristã é, aliás, bastante problemática por si mesma. Além de ser desmentida pelos depoimentos de muitos que se converteram em idade madura, ela não permite estabelecer um limite entre o que é e o que não é conhecido. Por exemplo: todos os incrédulos sabem intuitivamente que Deus existe? Isso até poderia, talvez, ser defendido. Mas eles sabem intuitivamente também que Deus é um ser em três pessoas? Que o Verbo encarnado foi crucificado sob Pôncio Pilatos e ressuscitou no terceiro dia? E, se for assim - falando agora de uma perspectiva especificamente calvinista e presbiteriana -, por que não ir um pouco além e dizer que os sinergistas sabem que estão errados quanto à predestinação, ou que os batistas sabem que deveriam batizar suas crianças? Será que tudo isso faz parte da intuição humana universal? Se fosse o caso, poderíamos reconstruir todo o nosso sistema teológico apenas examinando atentamente nossas intuições e prescindindo inteiramente das Escrituras. Mas, além de essa conclusão ser o oposto exato do que pretendem os próprios defensores da idéia em questão, o quadro todo possui a falha evidente de atribuir à intuição humana universal uma porção de conteúdos que, embora obviamente se refiram a assuntos espirituais, são conteúdos próprios do intelecto. Pois é esse fato que torna impossível estabelecer uma linha demarcatória nítida entre o que incrédulo sabe e o que ele não sabe. Todas essas questões indicam que alguma coisa importante foi deixada de fora desse esquema também, assim como vimos que aconteceu no primeiro caso.

Mas qual é, então, o papel real da razão? E qual deve ser o papel da argumentação racional na apologética? Creio que ela é muito necessária, não porque o problema básico do homem seja de natureza intelectual, mas porque a razão do homem decaído funciona freqüentemente como um anestésico, uma barreira atrás da qual ele confortavelmente se esconde e permanece imune à necessidade de encarar certos fatos sobre si mesmo. Isso não significa que o homem esteja nessa situação de modo consciente e deliberado. Mas significa, de qualquer forma, que essa camada de pretextos precisa ser removida; o homem deve ser deixado a sós com Deus, com a Verdade, nu, desprotegido, sem qualquer subterfúgio a que possa recorrer. Enquanto persistem as objeções racionais à fé, o incrédulo pode enganar-se pensando que isso é tudo. É apenas quando seus argumentos começam a ruir estrondosamente que ele pode se dar conta de que eles não eram, na verdade, o real motivo, e então render-se à Verdade ou permanecer firmemente recolhido em sua rebeldia; dobrar seus joelhos nesse mesmo instante ou dobrá-los apenas, e involuntariamente, no último dia.