30 de agosto de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 6

Embora eu ainda tenha algumas aventuras para narrar, sinto necessidade de fazer uma pausa para contar algo sobre certos fatos e experiências que, como agora percebo, não foram adequadamente descritos nas postagens anteriores, e nem poderiam ser nas que ainda pretendo publicar. O que há em comum entre eles é o fato de que se estendem por todo o período de minha viagem, não se concentrando em nenhum momento e não podendo, portanto, ser senão parcamente ilustrados pela narração de eventos específicos. Refiro-me, principalmente, a coisas triviais que qualquer um que andou por terras distantes deve contar, por estarem entre as primeiras que todo mundo pergunta. De alguma maneira que nem eu compreendo bem, consegui não falar sobre esses tópicos até agora.

O primeiro deles é a comida. Em vista da fama da culinária francesa, várias pessoas vieram me perguntar a respeito. Respondo apenas que, até onde pude constatar, a fama se justifica. Mas os elementos de que disponho para emitir tal parecer são bem menos abundantes do que seria de se esperar de alguém que esteve lá, ainda que por pouco tempo. E a razão disso é muito simples: na França, de fato, pode-se comer muito bem, desde que se tenha dinheiro. É desnecessário dizer que não era o meu caso. Dadas as minhas condições financeiras, comer em restaurantes era exceção, e não regra. Sendo mais preciso, pisei quatro vezes em estabelecimentos desse tipo. Em todas elas comi muito bem, exceto quando decidi comer uma pizza - ocasião a que já aludi anteriormente. E em nenhuma gastei menos de onze euros, sem contar a bebida.

Visto que meus talentos na cozinha estão em algum ponto entre o desprezível e o inexistente, surge naturalmente a questão: o que fazer se o dinheiro não basta para comprar comida pronta todos os dias? A resposta é dupla. Em primeiro lugar, os supermercados: neles há uma profusão de produtos semiprontos ou de preparação facílima a um preço relativamente baixo. (Praticamente tudo na França é bem mais caro que no Brasil, de modo que os produtos de supermercado se tornam, em comparação, consideravelmente baratos.) Há inclusive, uma porção de elementos provenientes da culinária marroquina e de outros países da África setentrional. As frutas são todas lindas e apetitosas - como raramente se vê nos supermercados daqui do paraíso da fruticultura -, mas muito caras. Cheguei a ver em Paris um quilo de cerejas por mais de trinta euros. Em compensação, há uma estonteante diversidade de queijos, e quase todos a um preço acessível. Se há uma coisa que lamento no que diz respeito à alimentação durante essa viagem, é justamente o fato de ter comprado e provado apenas uma minúscula parte de toda a variedade disponível desse gênero alimentício. Mas a maior de todas as minhas surpresas foi ter descoberto que lá aparentemente inexiste uma coisa tão banal quanto o chá mate. (Os franceses a quem perguntei dividem-se quanto a isso: a maioria garante que o chá mate não existe na França; alguns, porém, afirmam que já viram isso à venda alguma vez.)

Em segundo lugar, é claro, existem os lanches e alimentos semelhantes. Há pães de todos os tamanhos, sempre bonitos e deliciosos. Também não cheguei a provar senão uma ínfima parte da variedade disponível no que diz respeito aos formatos, tamanhos, coberturas e recheios. Alguns deles de fato valem sozinhos por uma refeição. Não tenho motivo algum para reclamar das padarias. Boa parte doque digo sobre os pães aplica-se também aos doces. De modo geral, os franceses são tão bons em café da manhã quanto em almoço e jantar. O mesmo, porém, não pode ser dito quanto ao fast food, a velha arte de enganar o estômago. A pizza a que já aludi é bem ilustrativa quanto a esse ponto. O povo dessa terra é tão ruim com a má alimentação quanto é excelente com a boa. Posso resumir a situação dizendo que os melhores lanches da França são os do McDonald's, tanto pelo sabor quanto pelo preço. Eu, que detesto o McDonald's por razões vinculadas estritamente ao meu sistema digestório - pois minha língua e meu estômago, posso garantir, não ligam para questões ideológicas -, vi-me comendo lá mais frequentemente que em qualquer outro lugar. Há outras redes do mesmo tipo, francesas mesmo, como o Quick; entretanto, embora algumas delas ofereçam lanches maiores, o sabor tende a ser sensivelmente inferior. Todos os salgados que vi - inclusive os célebres croissants - eram pequenos, de aparência muito oleosa e pouco apetitosa, de modo que não julguei que valesse a pena pagar por eles. E as lanchonetes comuns oferecem lanches de tamanho razoável, mas bem pouco saborosos. O preço costuma ser algo em torno de cinco euros. E em alguns estabelecimentos o atendente nem mesmo se dá ao trabalho de esquentar sua mercadoria.

Não posso deixar de fazer também um comentário geral sobre as cinco vezes em que fui convidado para jantar ou almoçar em algum lar francês. A comida era leve e simples, e estava deliciosa em todas as ocasiões. Não cheguei a notar grandes diferenças no cardápio. Há, porém, dois detalhes dignos de menção. O primeiro é que os franceses não têm o hábito de tomar sucos ou refrigerantes como acompanhamento. Tomam vinho, e quem não quer vinho toma água. Eu gostaria de entender alguma coisa de vinhos para poder comentar mais extensamente a respeito, ou mesmo apenas para poder me lembrar de quais deles experimentei. Não sendo o caso, porém, sou obrigado a me contentar com essas poucas palavras a respeito, sem deixar de observar, contudo, que todos os vinhos que provei eram excelentes. E o segundo detalhe, que apreciei ainda mais, diz respeito aos já mencionados queijos, que os franceses têm o hábito de servir como uma espécie de sobremesa, numa bandeja contendo cinco ou seis tipos. Portanto, o cotidiano gastronômico dos franceses parece consistir de comida leve e saborosa, acompanhada de vinhos e queijos. Li recentemente que na França há quatrocentos tipos de vinho, e um queijo apropriado para acompanhar cada um deles. Não vi todo esse rigor no dia a dia, e nem de longe provei tamanha variedade. De maneira geral, porém, o panorama culinário desse país me agradou bastante.

O segundo tópico digno de nota é o clima. Já falei sobre a beleza do outono francês, e de como fiquei satisfeito por ter estado lá justamente durante essa estação; contei também que o sol daquele país não foi capaz de me deixar suado. Contudo, há mais a ser dito. Embora eu tenha permanecido na França por apenas um mês, e todo ele dentro de uma mesma estação, nem por isso deixei de experimentar certa diversidade climática. No primeiro sábado fui passear pela praia e pelo centro de Toulon vestindo apenas bermuda e camiseta, e o clima estava muito agradável: sol ameno, vento moderado e não gelado, céu azul com bem poucas nuvens. Na última semana o tempo estava cinzento, ventava muito, chovia todos os dias, várias horas por dia, e era impossível sair de casa com menos de dois casacos. O clima era um tanto deprimente, e se eu não estivesse avidamente interessado em aproveitar os últimos momentos da viagem - isto é, se houvesse perspectiva de permanecer na França por mais alguns meses com aquele clima horrível (e, na verdade, a tendência é ir piorando) -, creio que teria de fato ficado deprimido.

Mas não digo isso só por causa do clima. Um dos aprendizados mais importantes dessa viagem foi a descoberta de que gosto do Brasil mais do que eu mesmo supunha. Por mais deslumbrante que a França seja em muitos aspectos, ela é incapaz de aquecer o coração de um brasileiro. A viagem só foi maravilhosamente boa por ter sido curta. Senti falta de uma boa companhia, de ter com quem compartilhar os passeios e conversar longamente sem entraves linguísticos. Teria sido muito pior, é claro, se eu não fosse tão introvertido. Mesmo assim, creio que não gostaria de voltar sozinho à França, nem de ir sozinho a qualquer outro país.

É interessante ressaltar que a alteração climática a que me referi não é como as que estou acostumado a presenciar no Brasil. Aqui em São Carlos não é raro termos as quatro estações num único dia. Mesmo em outros lugares, porém, são comuns as mudanças mais ou menos bruscas de temperatura e outras variáveis - de um dia para o outro, por exemplo. Nada parecido com isso aconteceu na França: o processo foi tão gradual que só me dei conta dele depois de umas duas semanas.

Há um terceiro tópico de descrição não tão fácil e cuja natureza é psicológica, mas que creio ter ficado perfeitamente nítido em um evento proporcionado pela conjunção dos dois elementos acima mencionados, comida e clima. Num dia da última semana, almocei numa loja do KFC próxima ao campus. O KFC é parecido com o McDonald's, mas com duas importantes diferenças: todos os lanches são à base de frango, e as bebidas (refrigerantes, chá gelado ou suco) são fornecidas à vontade por um preço único, naquelas máquinas com torneirinhas. O próprio atendente fornece o copo no qual se bebe. Depois de enfrentar fila, fiz meu pedido, peguei o lanche e o copo e, não havendo lugar vago no interior do prédio, fui me sentar numa das mesinhas colocadas lá fora. Não estava chovendo, mas havia um vento fortíssimo, o qual prontamente levou o copinho de plástico, que eu ainda não tivera oportunidade de encher. Sem pensar duas vezes, deixei o lanche sobre uma das mesas e saí correndo atrás do precioso recipiente. Não foi uma tarefa fácil recuperá-lo, mas, depois de uma perseguição de dois ou três minutos, que me conduziu por todo o estacionamento, enfim alcancei meu objetivo ao me abaixar para apanhar o objeto buscado, que jazia enroscado sob um carro, e voltei ostentando meu troféu diante de uma plateia de quatro ou cinco famílias. Foi apenas nesse momento que constatei, não sem uma certa surpresa, que eu não estava nem um pouco constrangido.

Esse episódio ilustra o mais interessante fenômeno psicológico que me acometeu na França: a perda da vergonha de pagar mico. Fui forçado a perdê-la por razões estritamente práticas: eu poderia, é claro, ter me dirigido ao balcão, explicado o que houve e solicitado outro copo, se já não soubesse, com base na experiência das semanas precedentes, o quanto isso seria trabalhoso. Estimo que eu gastaria uns dez minutos no processo de formular mentalmente uma maneira de explicar o ocorrido em francês (após várias consultas ao dicionário que eu carregava o tempo todo) e fazer com que alguém me entendesse (pois a experiência me ensinou que aquilo que eu julgava ser uma explicação perfeitamente clara quase nunca o era de fato). Seria muito mais fácil e rápido simplesmente fazer o que fiz. Além disso, pagar mico num país estrangeiro cuja língua se ignora é algo tão frequente e inevitável que o constrangimento acaba por se desvanecer sem que cheguemos a nos dar conta, e somos acometidos por um sentimento que, se traduzido em palavras, seria algo assim: "Não sou daqui, não sei falar a língua dessas pessoas e não sei bem como me comportar neste ambiente. Não tenho obrigação alguma de evitar todos os micos. Fugir de tantos quanto puder é um desafio muito interessante e digno, mas não há grande problema nos fracassos. Ninguém é prejudicado por eles. Logo estarei bem longe daqui, e tudo isso que agora vivo será apenas uma lembrança engraçada. E é também exatamente isso que serei na memória desses que agora me vêem."

7 de julho de 2009

Confusão na vizinhança - parte 2

1. "Não podemos aceitar que ideais religiosos de qualquer vertente sejam apresentados a nossa comunidade como alternativa ao pensamento racional, crítico e científico."

O problema é que os signatários do manifesto demonstraram, em todo o texto precedente, uma ignorância abissal sobre as propostas do criacionismo em geral, e sobre o tema da palestra em particular. Meu amigo que esteve lá informou que o palestrante nada mais fez que apresentar argumentos científicos - com direito a deduções matemáticas do tipo que agrada a maioria dos físicos - em favor de seu ponto de vista, e nenhum dos presentes conseguiu refutá-lo. De onde, então, foi retirada a idéia de que alguém pretendia apresentar uma alternativa ao pensamento "racional, crítico e científico"? Aliás, o que é isso que os autores qualificam com tão sublimes adjetivos? Esse amontoado de bobagens desfilado ao longo de toda a carta? Por aí se nota que já não se fazem críticos racionalistas como antigamente. (Isso é só força de expressão, é claro, pois os de antigamente também não eram grande coisa.)

2. "Esse tipo de evento, que visa a promover uma ideologia religiosa disfarçada de ciência alcança a inconstitucionalidade, segundo a Constituição Federal do Brasil (CF/88 - Art. 19). O Brasil é um país laico, e assim, nenhuma crença ou religião pode exercer pressão ideológica junto aos cidadãos livres, nem imprimir sua presença em órgãos e espaços públicos (que é o caso da USP). Caso a supracitada palestra ocorra, o Instituto de Física de São Carlos (com a conivência da USP) estará infringindo a lei ao fazer uso de recursos públicos para a promoção e divulgação de um pensamento dogmático baseado na religião cristã – por meio do oxímoro 'Criacionismo Científico' – como suposta alternativa ao método científico universalmente aceito pela comunidade acadêmica mundial."

Em primeiro lugar, note-se a linguagem utilizada. Na opinião dos autores do texto, um físico que defende suas convicções sobre a origem do universo com os argumentos científicos que lhe parecem apropriados diante de uma platéia de estudantes e professores universitários que comparecem ao evento por livre decisão, e não por obrigação acadêmica ou outra de qualquer espécie, está exercendo "pressão ideológica junto aos cidadãos livres". Além disso, não importa o que ele faça - e a carta deixa claro que seus signatários não tinham idéia do que ele faria -, trata-se da proposição de uma "alternativa ao método científico universalmente aceito pela comunidade acadêmica mundial". Não passa jamais pela cabeça desses senhores que alguém possa usar o mesmo método para defender conclusões opostas às "universalmente" aceitas pela "comunidade acadêmica mundial". Aliás, não parece existir sequer a mais leve consciência de que discordar quanto aos resultados a que leva um dado método não é o mesmo que rejeitar o método. Tal percepção deveria ser fácil para pessoas envolvidas em atividades de pesquisa científica. Lamentavelmente, isso não ocorre no texto em questão.

Sobre a questão da suposta ilegalidade do evento, visto que o texto do Artigo 19 da Constituição Federal do Brasil não foi transcrito na carta, tive de ir buscá-lo em outro lugar. Em meio a outras coisas irrelevantes para o presente contexto, o Artigo 19 declara que é "vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios [...] estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público". Qual dessas ações descreve corretamente a palestra de Adauto Lourenço no IFSC? Não entendo grande coisa de assuntos jurídicos, mas, visto que os signatários da carta não deram sinais de entender mais que eu, exerço meu direito de falar na condição de mero cidadão brasileiro que sabe ler: não vejo relação alguma entre o conteúdo do artigo e o evento que causou toda essa polêmica. A Constituição fala apenas de "cultos religiosos ou igrejas" e proíbe - com restrições - que o governo estabeleça com essas instituições ou seus representantes "relações de dependência ou aliança". Portanto, quem quer que deseje usar esse artigo contra a palestra em questão deve demonstrar, antes de tudo, que o palestrante foi enviado como reepresentante de alguma igreja ou culto religioso. É desnecessário dizer que não há provas desse tipo na carta. Até que se demonstre o contrário, portanto, Adauto Lourenço veio a São Carlos para falar apenas em seu próprio nome, e não há nada - no Artigo 19 ou em qualquer outro - que proíba isso.

Cabe acrescentar um dado interessante: já ouvi falar de palestras ministradas em universidades defendendo a ufologia, o gnosticismo, a teosofia, o espiritismo, os cultos afro-brasileiros, a astrologia e o hinduísmo. Todos esses casos caracterizam-se como crenças religiosas ou pseudocientíficas. Entretanto, não me lembro de ter ouvido os defensores da tal "razão científica" fazendo tamanho barulho - ou mesmo o mais leve ruído - contra esses eventos. A menos que alguém possa me mostrar evidências da participação de nossos nove cruzados em batalhas desse tipo, eu gostaria de saber por qual motivo o cristianismo e o "criacionismo ou design inteligente" recebem um tratamento diferenciado. Por que se incomodar tanto com algo que é só mais uma crença religiosa e pseudocientífica?

3. "Além disso, é missão vital de uma democracia a proteção das minorias religiosas, que não devem sofrer discriminação ou desconforto pela promoção de alguma religião majoritária dentro de espaços públicos."

Esse argumento é particularmente notável. Depois de terem se referido repetidamente em termos pejorativos não só ao cristianismo e ao conceito de criação sobrenatural em particular, mas às religiões em geral, os autores subitamente se lembraram dos devotos destas últimas e, penalizados com seus pobres e frágeis sentimentos, decidiram que argumentar contra elas, mesmo cientificamente, é uma atitude discriminatória e inadmissível. Não estou exagerando ao dizer que a carta afronta todas as religiões. Todas elas são vilipendiadas na própria definição da "missão da universidade": "a busca do saber e a propagação do pensamento crítico e racional e não a divulgação de ideologias religiosas como contraponto ao pensamento científico e racional". Fica claro que, na opinião dos signatários, religião é uma "ideologia" (será que eles conhecem o significado do termo?) incompatível com a ciência e com a razão. Eles também se referem pejorativamente aos tempos pré-científicos "onde o homem atribuía fenômenos físicos naturais, como uma tempestade ou um eclipse, a um castigo divino e não a fenômenos físicos hoje elucidados", desprezando assim todos os cultos que vêem algum elemento sobrenatural ou significado religioso em eventos da natureza. (Note-se também a falta de cuidado com a língua portuguesa que acabou resultando na atribuição de fenômenos físicos a fenômenos físicos.) Finalmente, a carta afirma que "a defesa do ensino laico e do conhecimento científico é uma questão fundamental da sociedade moderna" - o que significa, como o restante do texto já deixou claro, que todo adepto de qualquer religião tem o dever de permanecer de boca fechada na presença desses senhores, de modo que eles possam propagar sem oposição as bobagens anti-religiosas contidas nessa carta, assim como outras que porventura lhes ocorram. É verdade que sua antipatia pelo cristianismo é particularmente intensa, mas isso não chega a ser suficiente para gerar simpatia por outras religiões, a não ser superficialmente, quando interessa levá-las em conta para calar um cristão. Não há aqui consideração alguma por religião alguma. Essa pretensa preocupação democrática é pura hipocrisia, e o devoto de outra religião que porventura caísse nessa conversa seria apenas um idiota útil.

4. "Para quem está absolutamente à margem do conhecimento científico, como estão os criacionistas, o prestígio de falar em universidades de renome tem sido utilizado como moeda de reconhecimento de mérito. Isto é absolutamente preocupante, uma vez que dá-se um verniz de respeitabilitade e faz crer que na universidade ainda se discutem idéias retrógradas que já foram rechaçadas há pelo menos 150 anos."

Esse trecho poderia levar algum leitor distraído a concluir que a ausência de mérito científico entre os opositores do evolucionismo é tamanha que pisar numa universidade é, para eles, ocasião raríssima e extraordinária, e que conseguir tal proeza é motivo de intensas comemorações. Adauto Lourenço provavelmente se gabará do fato junto aos amigos em todas as ocasiões possíveis pelos próximos cinco anos. Porém, o próprio texto da carta já havia mencionado um defensor do design inteligente que é professor universitário, e atesta também que o palestrante cuja voz eles tentam calar possui mestrado em física. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, na verdade, mas vou ficar só com o do já citado Marcos Eberlin, que é professor titular de química na Unicamp. Ele certamente não precisa de suas palestras sobre evolução em "universidades de renome" como fonte de prestígio ou como "moeda de reconhecimento de mérito", pela simples razão de que fala em uma universidade de renome quase diariamente, como é de se presumir. Será que adeptos do "criacionismo ou design inteligente" angariam renome para seus pontos de vista enquanto teorias científicas com maior eficácia fazendo palestras contra a evolução numa universidade de vez em quando ou sendo pesquisadores de mérito reconhecido nessa mesma universidade (sobretudo em áreas relevantes para o debate sobre evolução)? Nada disso dá sinais de ter passado pela cabeça dos signatários da carta, que estão, portanto, preocupadíssimos com algo de importância diminuta. Mas, se é lícito proibir uma palestra para não dar uma pequena publicidade ao inimigo, o que dizer dos fatos que proporcionam uma publicidade muito maior? Professores universitários que não aderem ao evolucionismo deveriam ser demitidos a fim de não gerar publicidade aos grupos errados? Se a resposta for afirmativa, trata-se de censura e perseguição, em nada - nem mesmo no uso da ciência como pretexto - diferentes das perseguições aos acadêmicos em diversos regimes totalitários ao longo do século XX. Se for negativa, trata-se de uma inconsistência pura e simples, mas nem por isso pequena ou desprezível.

Porém, as palavras finais do trecho acima transcrito lançam alguma luz adicional sobre a questão. Provavelmente os autores da carta não são favoráveis à demissão de professores antievolucionistas, desde que eles não fiquem espalhando suas heresias por aí. Afinal de contas, a maior preocupação desses senhores consiste no fato de que eventos em que se questiona a evolução "faz[em] crer que na universidade ainda se discutem idéias retrógradas que já foram rechaçadas há pelo menos 150 anos". Bem... que há discussão, há. O simples fato de um químico e um físico com formação acadêmica estarem dispostos a fazer palestras sobre isso em universidades públicas de qualidade indiscutível é uma prova desse fato, e provas adicionais poderiam ser reunidas com os livros e ensaios já publicados na literatura acadêmica - inclusive, mas não apenas, por cientistas que, sem questionar o dogma da evolução em si, fazem severas objeções a pontos importantes de teorias amplamente aceitas. Para muitos evolucionistas, contudo, o mais importante não é que não haja discussão, e sim que ninguém fique sabendo delas. Já imaginaram o que pensarão as pessoas comuns quando descobrirem que os cientistas e seu método não são detentores da infalibilidade que costumeiramente se lhes atribui, e que ainda são consideradas idéias retrógradas que bulas papais do século XIX já haviam declarado heréticas? Não dá! No fundo, esses que adoram posar de moderninhos são mesmo um bando de tradicionalistas.

29 de junho de 2009

Confusão na vizinhança - parte 1

Dado o contraste entre o elevado número de posts sobre minhas raras viagens e a baixa quantidade de textos sobre o que me ocorre enquanto estou em minha cidade, algum leitor poderia imaginar que nunca acontece nada de interessante em São Carlos. Mas isso seria uma injustiça: acontecem, sim, coisas interessantes aqui, principalmente enquanto viajo. Graças à minha ida à França perdi não só a defesa de mestrado de um colega de laboratório, como também - o que é ainda pior - o churrasco comemorativo. Além disso, em virtude dessa viagem perdi um evento que para mim é muito mais importante: o físico Adauto Lourenço defendendo o criacionismo numa palestra realizada em pleno campus da Universidade de São Paulo. O título da palestra foi O universo – teorias sobre a origem - criacionismo científico. Meu amigo Fernando me avisou por e-mail no dia de minha chegada à França, mas só pude ler o aviso mais tarde, no dia do acontecimento propriamente dito. Eu não teria podido ir, de qualquer forma, mas ele foi e me contou, quando retornei ao Brasil, que circulou por lá um manifesto contra o evento: na opinião dos assinantes, a presença do palestrante violou os princípios do laicismo.

O Fernando me contou ainda que muita gente compareceu e tomou parte na discussão, tentando por todos os meios demonstrar que a argumentação do palestrante era furada. Mas sem sucesso: o sujeito deu respostas satisfatórias a todas as objeções. E isso não me surpreende nem um pouquinho. Mas para mim o assunto se encerrou por aí, com um lamento por eu ter perdido tão magnífico espetáculo. Recentemente, porém, estive lendo o blog de um outro amigo, o Fortes, e encontrei transcrito ali o tal manifesto, redigido por nove pessoas, incluindo dois professores e seis alunos de pós-graduação dos departamentos de biologia da Universidade Federal de São Carlos. A carta foi dirigida aos professores Glaucius Oliva, diretor do Instituto de Física de São Carlos, e Richard Garratt, chefe do Departamento de Física e Informática, órgãos diretamente envolvidos na promoção do evento. Mesmo tendo-se passado já oito meses, não pude deixar de ficar algo impressionado com o que li, de modo que decidi fazer alguns comentários a respeito. Esses comentários aparecerão neste post e no próximo.

O texto começa citando com aprovação o fato de que o pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da UFSCar havia cancelado, três semanas antes, uma palestra que seria dada pelo professor Marcos Eberlin, da Universidade Estadual de Campinas, em defesa do design inteligente, que os signatários qualificam como "um dogma religioso". Menciona também que a mesma palestra havia sido cancelada na própria Unicamp pelo coordenador da sexagésima reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Menciona ainda que em 2007 houve uma série de palestras na UFSCar nas quais se discutia o tema "evolução ou criação", e que tal iniciativa foi condenada pelo MEC. Em alusão à palestra no IFSC, os signatários da carta lamentam que tal reprimenda "parece não ter surtido o efeito esperado para todas as universidades públicas". O tom, até aqui, é claramente de intimidação, e mais adiante se converte em ameaça explícita, quando é dito aos destinatários que "sentir-nos-emos na obrigação de relatar o uso indevido de recursos públicos junto a autoridades competentes". Mas os remetentes têm a bondade de oferecer-lhes uma saída honrosa ao declarar: "estamos certos que esta palestra esteja ocorrendo à vossa revelia e que os senhores farão o necessário para que vosso nome não fique indelevelmente associado a palestras como esta". Agora examinemos as razões que levam os nove indivíduos a um desespero tal que torna justificável, na opinião deles, vociferar ameaças encobertas sob um manto de polidez formal. (Advirto que eventuais erros de português ou frases mal construídas nas citações seguintes não são de minha responsabilidade.)

Segundo o texto, "o Criacionismo ou 'Design Inteligente' é uma doutrina mascarada cujos defensores dão uma roupagem supostamente científica a essas crenças para propagá-las dentro de universidades e escolas". Essa definição apenas ignora um ponto fundamental da questão ao deixar de reconhecer, para início de conversa, que criacionismo e design inteligente são coisas diferentes, tanto na opinião dos próprios adeptos de uma ou outra vertente quanto na de todos os críticos sérios de ambas. (Não vou tentar explicar essa diferença simplesmente porque já fiz isso aqui.) Os críticos mais superficiais do design inteligente costumam acusá-lo de ser um criacionismo camuflado com fins estratégicos, isto é, a fim de parecer "ciência pura", isenta de pressupostos teológicos. A carta ora sob análise ignora tudo isso, e simplesmente apresenta os termos "criacionismo" e "design inteligente" como sinônimos, como se a idéia de usar esses nomes para distinguir dois movimentos distintos não houvesse jamais passado pela cabeça de quem quer que seja, mesmo que apenas a título de desconversa. E essa informação, garantem os autores, é fornecida "para esclarecimento".

Eles continuam "esclarecendo" aos destinatários que o híbrido por eles inventado - isto é, o tal "criacionismo ou design inteligente" - "pretende concluir a existência de deus e da criação a partir da impossibilidade da ciência atual de explicar todos os fenômenos naturais e distorce descaradamente conhecimentos há muito consolidados". O design inteligente, na verdade, sequer tem a pretensão de demonstrar a existência de Deus - nem mesmo de um deus com inicial minúscula, como o ostentado no texto em questão -, o que por si só já demonstra o poço de ignorância com que estamos lidando. Já no caso do criacionismo há pelo menos isto de verdadeiro: seus defensores de fato pretendem demonstrar cientificamente a existência de Deus e da criação, embora não necessariamente com o tipo de argumento mencionado na carta, a "impossibilidade da ciência atual de explicar todos os fenômenos naturais". Note-se, aliás, que a palavra atual está aí justamente para proclamar a fé dos autores na existência de uma explicação futura para aquelas questões fundamentais que permanecem sem respostas válidas após dois séculos de pesquisas. Boa parte do rancor alimentado contra os criacionistas pelos partidários do evolucionismo está justamente no fato de que aqueles se recusam a aderir a esse dogma. E aqui não uso essas palavras - e dogma - em seu sentido cristão original, autêntico e saudável, e sim no sentido pejorativo que elas costumeiramente possuem nas bocas e nos textos de pessoas como essas que redigiram a carta. Devo assinalar ainda que não há, ao longo de todo o documento, justificativa alguma para a afirmação de que o tal "criacionismo ou design inteligente" "distorce descaradamente conhecimentos há muito consolidados". Acusar de distorção os criacionistas e defensores do design inteligente é procedimento já antigo e bem estabelecido pela tradição darwiniana, e universalmente adotado por todos os devotos que diariamente sacrificam nos altares da razão e da ciência. Mas isso não justifica que se omitam as provas; se não da distorção, ao menos do descaramento. Sem isso, tais acusações são pura e simples difamação.

O "esclarecimento" continua no parágrafo seguinte: "O 'Design Inteligente', ou 'Criacionismo Científico', é reconhecidamente uma forma de criacionismo cristão." (De novo o uso de uma expressão pela outra, que comentei dois parágrafos atrás.) Pergunte-se o leitor: reconhecidamente? Quem foi que reconheceu isso? No caso, o advérbio não se refere aos adeptos do próprio movimento, como se poderia esperar num primeiro momento, e sim aos juízes que, em várias instâncias, proibiram o ensino do criacionismo científico e do design inteligente nas escolas públicas americanas, bem como aos indivíduos que protestaram contra o diretor de educação da Royal Society inglesa - que, segundo nos contam os autores da carta, foi demitido por supostamente ter defendido a inclusão do criacionismo no currículo escolar. A fim de não me desviar demais do assunto, não me estenderei sobre os pormenores dessas histórias todas, que têm sido mal contadas por toda a grande imprensa, aqui e no exterior. Mas fico deveras impressionado quando um grupo de cientistas (e aspirantes a cientistas, no caso) sente necessidade de buscar em decisões judiciais uma confirmação de suas opiniões sobre o que é e o que não é ciência. Já é ridículo o suficiente quando se faz isso recorrendo à autoridade de uma tal "comunidade científica", isto é, da opinião predominante entre os cientistas, como se não houvesse centenas ou milhares de cientistas defendendo o criacionismo (como Adauto Lourenço) e o design inteligente (como Marcos Eberlin) e como se, aliás, questões em ciência pudessem ser decididas por votação. Nossos signatários, entretanto, vão mais longe, indo buscar a opinião de pessoas que sequer praticam ciência, e desconsiderando a priori a hipótese de que fatores alheios às questões de filosofia da ciência possam ter influenciado decisivamente o resultado dos processos judiciais em questão, como aqueles que Phillip Johnson tem denunciado em seus livros e artigos. Mas Johnson é advogado, o que - como nos dizia Stephen Jay Gould - o torna automaticamente inapto para opinar sobre ciência; só tem importância a opinião do juiz John Jones, manifesta na decisão do caso Dover, e é a autoridade desse juiz que estabelece o melhor argumento apresentado na carta contra o caráter científico do tal "criacionismo ou design inteligente".

Além do mais, que história é essa de "criacionismo cristão"? Este mundo está cheio de criacionistas judeus e muçulmanos que defendem com argumentos científicos suas respectivas crenças sobre a origem das coisas exatamente da mesma forma que os cristãos, que apenas aparecem mais aqui no Ocidente por serem mais numerosos. E se o criacionismo não é cristão por excelência, o o design inteligente o é menos ainda: sei da existência de pelo menos dois cientistas adeptos desse ponto de vista que são agnósticos, além de um que é ateu. Duvido que algum deles esteja convencido de que aderiu a "uma forma de criacionismo cristão". Portanto, os autores da carta colocam em prática aqui a mesma desconsideração pelas minorias religiosas que condenam em outra parte do mesmo texto, conforme comentarei adiante. Antes devo analisar outros argumentos ali expostos. Não há, na verdade, novas objeções ao caráter científico do "criacionismo ou design inteligente", pois os autores aparentemente julgaram que as decisões judiciais e administrativas acima mencionadas são mais que suficientes para impugná-lo, a ponto de dispensar, inclusive, argumentos científicos e filosóficos. Mas são levantados argumentos adicionais contra a apresentação da palestra sobre criacionismo no IFSC, os quais vale a pena examinar brevemente, o que farei no próximo post.

Para encerrar este aqui, um esclarecimento precisa ser feito a fim de que eu não cometa uma injustiça contra meu amigo Fortes, que aparentemente endossou boa parte do conteúdo da carta. Embora a tenha publicado, ele acrescentou o seguinte comentário: "Talvez ao invés de boicotar fosse mais interessante que os que escreveram a carta estivessem presentes na palestra para gerar um debate". E esse é, na verdade, o único plano de ação que poderia passar pela cabeça de pessoas decentes e sensatas. Não sei se os signatários da carta estiveram presentes na palestra e, caso tenham estado, não sei se contribuíram para a promoção de um debate saudável. Mas o resultado típico de eventos como esse - e que, segundo me foi dito, repetiu-se nesse caso - ilustra a razão pela qual pessoas assim morrem de medo de debater. Os bons resultados obtidos pelos criacionistas em quase todos os debates públicos realizados nas universidades americanas, frustrando aqueles que esperavam poder demonstrar a imbecilidade de suas propostas, serviu de alerta para os que não suportam ver suas "verdades" desafiadas.

18 de maio de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 5

Na postagem de hoje contarei algo sobre minhas andanças, que não foram poucas. Fui de trem até Paris, onde passei meu último fim de semana na França, e esse evento merece um post apenas para si. Andei de barco em duas oportunidades, sendo que a primeira foi no dia seguinte ao de minha chegada, até a ilha de Porquerolles, perto da cidade vizinha Hyères; trata-se de uma ilha turística, mas fui até lá a trabalho, com o pessoal do laboratório, para coletar amostras de solo e fazer algumas outras coisinhas. A segunda foi num passeio à pequena cidade de Saint-Mandrier, do outro lado da Baía de Toulon. Andei de carro oito vezes, com destaque para a viagem - também a trabalho, para encontrar o professor Michel - até Saint-Raphael, a nordeste de Toulon, onde a água do mar é barrenta. (Mas o professor Stéphane me garantiu que isso era apenas um efeito temporário das chuvas constantes dos dias anteriores.) Ali participei de um almoço inesquecível num belo restaurante à beira da praia; inesquecível por duas razões: diverti-me muito com a seção de piadas contadas pelas pessoas que estavam comigo, embora eu tenha achado a situação tão cômica justamente por não ser capaz de entender nenhuma delas; e, além disso, porque paguei uns doze euros na pior pizza que já comi. Andei ainda uma vez de teleférico, e dezenas de vezes de ônibus, pois este era meu meio de transporte usual para a universidade e de volta para casa. Em todas as demais oportunidades andei a pé mesmo, e hoje pretendo contar algo sobre meu primeiro passeio longo feito dessa forma. Ele ilustra bem os elementos mais importantes de meus passeios a pé, o que me dispensará de narrar todos.

Na sexta-feira, meu quarto dia na França, tive o prazer de reencontrar a Marie, que estivera no Brasil no começo do ano e trabalhara três meses em nosso laboratório. Desde então ela concluiu o mestrado e arrumou emprego em Lyon, bem mais ao norte, mas estava em Toulon naqueles dias para rever os amigos, e aproveitou para me ver também. Decidimos nos encontrar para tomar um lanche e conversar melhor no sábado às quatro da tarde, em frente ao laboratório. O problema é que eu estava hospedado em outra cidade - lembremo-nos de que o campus fica, na verdade, em La Garde - e não sabia o caminho, pois ainda não havia andado de ônibus. (Nos três dias anteriores eu havia ido e voltado de carro com o professor Yves, que morava ali perto, e meu senso de direção não funciona muito bem quando estou entro de um veículo, e menos ainda num veículo que roda pelas ruas tortuosas da França.) Além do mais, eu não queria andar de ônibus; afinal, não é assim que se explora um novo mundo. O jeito, então, era ir a pé. Eu havia sido informado pelo professor Yves de que o trajeto de casa até a universidade levaria cerca de uma hora e meia, para alguém que andasse rápido. Calculei, então, que um turista estrangeiro que não estivesse com pressa, não conhecesse o caminho e não pudesse pedir informações a ninguém, tendo como únicas referências os mapinhas disponíveis nos pontos de ônibus (o que com certeza o levaria a se perder duas ou três vezes), provavelmente gastaria o dobro desse tempo para chegar ao destino. Portanto, saí de casa cheio de ânimo às treze horas, no início de uma bela e ensolarada tarde.

Visto no mapa, o caminho parecia quase retilíneo, uma vez atingida uma avenida que passava perto de casa. Ao chegar lá, porém, vi que não era uma avenida, e sim uma rodovia que não oferecia passagem para pedestres. (Creio já ter mencionado que os pedestres não parecem ser uma das preocupações primárias dos engenheiros de trânsito franceses.) Tive de pegar um caminho mais longo por uma outra avenida - esta, sim, uma avenida de verdade - para depois tomar outra, e logo após mais outra. Eu caminhava devagar, observando atentamente não só os mapas dos pontos de ônibus, mas também as belas paisagens oferecidas pelas ruas comuns do sul da França. Agindo assim, venci sem dificuldades, embora com lentidão, cerca de três quartos do caminho. Então entrei numa rua errada e, ao me dar conta disso, cerca de quinhentos metros e três curvas depois, tentei retornar e me perdi mais ainda. Cheguei enfim a uma rua que julguei ser a que procurava e entrei por ela, passando à beira de uma pequena praça onde uma senhora estava calmamente sentada. Cinqüenta metros depois descobri que aquela rua era sem saída, de modo que só me restava fazer meia-volta. Passei outra vez pela pracinha e, sabendo que a universidade não poderia estar longe, decidi tentar obter daquela senhora alguma indicação de como chegar até lá.

A mulher era baixa, magra e frágil, e me olhava fixamente com uma expressão que transmitia simpatia e curiosidade. Quando viu que eu ia em sua direção, começou a falar sem parar, estando eu ainda a uns dez metros de distância. Não compreendi tudo o que ela disse, mas o essencial era algo assim: "Você está perdido, não é? Eu sei, porque vi você passar pra lá, e agora pra cá, olhando para todos os lados." Sorri, cumprimentei-a, adverti-a sobre meu péssimo francês e disse o que estava procurando. Ela prontamente apontou numa certa direção e recomendou que eu fosse por ali e depois virasse à direita. Não consegui compreender em que ponto da rua eu deveria fazer a curva, e não havia meios de obter essa informação. Agradeci, portanto, e saí andando na direção indicada, pensando em repetir a pergunta a outra pessoa mais adiante. Andei, assim, uns quinhentos metros e parei numa esquina, ponderando se já teria chegado o momento de virar à direita. Segundos depois, alguém me cutucou. Era a mesma senhora, que havia me seguido porque se esquecera de me dizer que havia dois portões de acesso à universidade, e precisava saber se eu entraria pelo portão do norte ou pelo do sul. Visto que eu ignorava a resposta, pois sequer sabia da existência de mais de um portão, ela explicou prolongadamente os dois caminhos. Dessa explicação, como não poderia deixar de ser, eu entendi pouquíssimo. Mas, a julgar pelos gestos e pelas poucas palavras compreensíveis, tive a impressão de que um deles era mais curto e mais fácil, de modo que optei por ele. Assim, ajudado por aquela senhora falante e prestativa, cheguei à universidade poucos minutos mais tarde e, depois de me perder e pedir informações mais duas vezes dentro do próprio campus (pois aquele portão não era o mesmo que eu conhecia), cheguei, enfim, ao prédio do laboratório, às quatro horas em ponto. Marie e seu simpático cãozinho, que atende pelo nome de Gribouille, chegaram minutos mais tarde e, depois de agradáveis momentos nos quais narrei minhas aventuras e fui chamado de maluco por ter andado três horas seguidas (se isso já seria algo extraordinário no Brasil, imagine na França), voltei para casa de ônibus, depois que minha colega se informou sobre qual linha eu deveria tomar e onde deveria descer. (Lá cada ponto de ônibus tem um nome, de modo que não é muito difícil descer no lugar certo, mesmo sem referências exatas.)

Não conto esse episódio por ter ele algo especial, e sim, ao contrário, por ser absolutamente típico. Andar sem saber direito por onde ir, pedir informações na certeza de não entender mais de 20% da resposta, para então andar mais algumas dezenas de metros na direção indicada e parar outra vez para repetir a mesma pergunta a um outro transeunte, estudar com atenção os mapas em cada ponto de ônibus, desviar-se lamentavelmente da rota pretendida - todos esses eventos tornaram-se logo demasiado banais, embora, com o tempo, eu tenha me tornado cada vez mais habilidoso na arte de andar pelas ruas francesas, e também melhorado um pouco na tarefa, muito mais árdua, de entender o que me diziam. (Em meus últimos dias consegui proezas como comprar selos para cartões postais sem saber qual era a palavra francesa para "selo" e sem ter nenhum deles à vista). Isso basta para dar uma amostra de meus passeios cotidianos naquela região. Se houve algo extraordinário naquele dia, foi apenas a surpreendente descoberta de que três horas de caminhada sob o sol da Europa não bastam para me deixar suado, o que geralmente acontece depois que ando apenas meia hora em São Carlos. Aquele sol é fraco o suficiente para sequer incomodar, sem, no entanto, deixar de ser brilhante. Isso talvez explique em parte a reputação que os europeus possuem como inimigos do banho. Não é uma fama de todo justa, devo esclarecer; estou certo de que não poucos dos franceses que conheci tomam banho todos os dias. Mas talvez possa ser dito em favor dos que não o fazem que não é tão fácil feder naquele país. O que, entretanto, não impede que alguns consigam.

16 de abril de 2009

Séculos de trapalhadas

Tão antigo quanto o próprio cristianismo é o desejo de extirpá-lo da face da Terra e dos corações dos homens, bem como o esforço correspondente a essa meta. A primeira tentativa foi a execução do próprio Cristo, resultando num fracasso que nós celebramos há poucos dias. Em seguida veio a perseguição a seus discípulos, iniciada pelos sacerdotes e fariseus partidários do Sinédrio, e logo continuada e ampliada pelo poder imperial romano. Durante séculos, os cristãos foram caluniados e perseguidos, e sua doutrina foi julgada uma superstição absurda e irracional pela classe culta da sociedade pagã de então. Mais recentemente, tal opinião voltou a ganhar força mais ou menos na época do iluminismo, gerando diversos movimentos anticristãos divididos em várias vertentes. Neste texto pretendo tecer alguns comentários sobre as tendências gerais de alguns deles, a maneira como se relacionam entre si e a natureza dos resultados que obtiveram, em especial do ponto de vista de sua relação com a razão.

Os intelectuais representantes do iluminismo, que em geral eram ateus, agnósticos ou (quando muito) deístas, tinham, a despeito dessa "diversidade" de opiniões, um ponto de acordo em torno do qual se uniam: a convicção de que as religiões populares, incluindo-se aí todas as variedades do cristianismo, eram superstições irracionais e perniciosas. (Note-se que, neste último período, empreguei o termo "intelectuais" basicamente no sentido que lhe foi atribuído por Paul Johnson, conforme explicado aqui. Esse uso não implica que eu reconheça a presença de algum intelecto entre os iluministas.) Por serem também progressistas e entusiastas do modelo newtoniano de ciência como a mais magnífica realização da mente humana, eles acreditavam ainda que o sonho dourado que enchia suas cabeças fatalmente se concretizaria no futuro, e que a religião tradicional tenderia a desaparecer, suplantada pelo domínio da razão científica.

Essa mesma idéia foi sustentada no século XIX pelos positivistas, anarquistas e comunistas, sendo que estes últimos, na condição de grupo politicamente mais bem sucedido, espalharam a propaganda de sua doutrina "científica", em oposição a toda forma de "idealismo", por todos os países em que chegaram ao poder ou adquiriram influência. Lênin, por exemplo, justificou sua Nova Política Econômica, que em dois anos matou de fome cerca de cinco milhões de camponeses russos, alegando que era necessária para destruir a crença do povo em Deus. Mas nas democracias ocidentais, onde esse e outros bombásticos métodos de propaganda materialista não puderam ser implantados, o anticristianismo militante prosseguiu por meios algo mais sutis. Isso se nota, por exemplo, no fato de que uma fração não desprezível da comunidade científica e da classe jornalística ainda sonha em ver o mundo "progredir", adotando a visão de mundo materialista ou cética. Sujeitos como Asimov, Sagan, Dawkins e Harris dedicaram (ou dedicam) suas vidas a isso, enquanto outros, menos esperançosos, consentem em que permaneçamos cristãos, desde que sejamos cristãos evolucionistas, liberais e politicamente corretos, sem qualquer pretensão de levar para fora de nossas respectivas casas e igrejas o que porventura reste dos conceitos retrógrados, irracionais e fundamentalistas de outrora. É o caso de Stephen Jay Gould, segundo o qual devem caber à religião as decisões no terreno da moral - a não ser, é claro, em questões que possam ser consideradas importantes.

Houve, entretanto, muitas tentativas mais sinceras de conciliação entre o cientificismo e uma visão de mundo espiritualista. Os próprios racionalismo e materialismo dos iluministas eram, em grande parte, pura fachada: o século das luzes foi também o da proliferação do ocultismo, do gnosticismo e das sociedades e rituais secretos entre a classe revolucionária. Meu assunto do dia não é esse, porém, e tampouco falarei da perpetuação de interesses escusos dessa ordem nos círculos anarquistas e comunistas do século XIX, ardorosos defensores do ateísmo na política e na filosofia. Mas, como eu disse, falo de tentativas realmente sinceras de salvar Deus de ser morto pelo progresso da ciência: alguns, como Kant, Schleiermacher e outros protestantes liberais, restringiram a devoção a Deus ao plano puramente subjetivo; outros, como Hegel, Bradley e Bergson, tornaram-se antimaterialistas declarados que, elevando a evolução à categoria de dogma teológico, reduziram Deus a uma força informe ou a um Absoluto metafísico distante e impessoal; outros ainda, dos quais provavelmente o exemplo mais conhecido por aqui é Allan Kardec, aderiram de corpo e alma à grosseira miopia metafísica do positivismo, mas fizeram de tudo para forjar métodos que permitissem promover o conhecimento espiritual à categoria de ciência experimental, certos de que isso seria uma grande coisa.

Não convém discutir em profundidade esses desdobramentos. Observo apenas que todos, cada um a seu modo, tentaram uma conciliação entre o espírito da época e os valores morais e espirituais das eras passadas, e fizeram isso através de um mesmo artifício: o de arrancar concessões de ambos os lados. Divergiram entre si apenas quanto às exigências que faziam a cada parte. Tinham em comum ainda a inabalável convicção de que a sabedoria religiosa antiga, embora contendo muitos elementos valiosos, deveria ser purificada a fim de se livrar de certos equívocos que o progresso do conhecimento humano tornou evidentes como tais. E, finalmente, admitiam como óbvio que o guia mais confiável que o homem tinha à disposição para realizar essa tarefa era a razão, livre e desassistida de qualquer auxílio superior. Mesmo nos casos em que algum papel foi atribuído a outros elementos constituintes da natureza humana, coube a ela determinar-lhes o lugar e o alcance.

Um dia, entretanto, o homem ocidental começou a se cansar disso. Era natural e previsível que acontecesse assim. A fantasia racionalista, naturalista, materialista (quer se tome essa última palavra no sentido metafísico ou no pragmático, pois muitas vezes o primeiro acaba levando ao segundo, e vice-versa), não pode ir muito longe, pois sufoca outros aspectos de nossa natureza. Foi justamente assim que o próprio cristianismo ganhou força: graças ao vazio resultante de um estilo de vida dominado por excessivas preocupações com o conforto e o prazer materiais e por uma prática religiosa cheia de rituais e exterioridades, mas desprovida de autêntica espiritualidade. O mesmo fenômeno, aliás, tem sido repetidamente responsável por muitos avivamentos cristãos em todo o mundo, bem como pelo crescimento de outros movimentos religiosos. Trata-se de um dado simples da realidade, da natureza das coisas, o qual pôs abaixo todas as mais elevadas pretensões dos adoradores da razão humana em nossa civilização moderna e científica.

Considerada em si mesma, portanto, a reação contra a valorização excessiva da razão nada tem de peculiar à civilização ocidental. Há, porém, algumas particularidades que não podem ser desprezadas. Em todos os tempos e lugares, os que combateram os excessos de uma cosmovisão demasiado pragmática e materialista, ou do modo de vida correspondente a ela, procuraram apenas colocar as faculdades racionais do homem em seu devido lugar, corrigindo suas más aplicações e sua tendência reducionista e totalitária, sem jamais deixar de reconhecer que possuem um papel saudável a desempenhar na vida humana, se apenas puderem coexistir com as demais faculdades do homem sem sufocá-las ou escravizá-las. Em parte alguma, exceto no Ocidente, a reação contra o racionalismo se converteu numa reação contra a própria razão, numa busca ativa pelo irracional, numa veneração ao absurdo sem qualquer motivo além de seu caráter absurdo. A civilização que mais se preocupou em ser razoável produziu também a mais poderosa força que já procurou arrastar o homem rumo ao invencível abismo do contra-senso.

O inaugurador dessa batalha contra a razão provavelmente foi Kierkegaard, numa reação exagerada à quase onipresente influência do racionalismo hegeliano sobre os círculos intelectuais de sua época. O escritor dinamarquês passou a considerar que a razão era um obstáculo à fé - ele era luterano -, e que esta significava a confiança na verdade absurda da mensagem cristã contra tudo o que era apregoado pelo bom senso deste mundo. Seus sucessores, porém, não o seguiram em sua fé; preferiram seguir Nietzsche, que atacou a própria noção de verdade e transformou o culto ao absurdo numa rebelião niilista contra Deus e tudo o que cheirasse a uma influência tardia do cristianismo sobre uma sociedade que, em larga medida, julgava ter deixado para trás essa velha religião. E assim foi plantada a semente que, décadas mais tarde, iria produzir os frutos funestos da pós-modernidade: o subjetivismo desmedido, o absoluto relativismo, a malícia sistemática no ataque aos adversários, o desprezo pela verdade - não por verdades específicas, mas pelo próprio conceito de Verdade - sustentado em nome de uma sede de poder que não admite ser contrariada.

Racionalistas e pós-modernos são hoje as principais facções em disputa pelo controle do universo acadêmico, digladiando-se infindavelmente a partir das trincheiras cavadas em torno de suas respectivas cátedras e periódicos. Para os racionalistas do século XX foi um duro golpe descobrir que o combate à religião, levado a efeito ao longo de séculos, não produziu uma classe de intelectuais uniformemente cientificista, e sim um grupo ainda mais hostil à razão que os próprios fundamentalistas cristãos. Os criacionistas, por exemplo, ainda defendem que a evidência científica corrobora suas teses teológicas. Não convém discutir agora se essa reivindicação é verdadeira; importa apenas assinalar que o criacionismo atribui valor à ciência, e isso é coisa que o pós-modernismo autêntico não faz. A ciência, para seus adeptos, tende a ser apenas um discurso destinado a legitimar as escusas pretensões de poder da comunidade científica, não escapando de modo algum ao veredito severo promulgado contra todos os que se pretendem portadores de alguma verdade objetiva - como o cristianismo.

O pós-modernismo, de fato, lança explicitamente à face do racionalismo a acusação de não ter se distanciado suficientemente do cristianismo histórico, sustentando ainda, dogmaticamente, velhos mitos como a existência da Verdade e a capacidade humana de conhecê-la e comunicá-la. Por seu turno, os defensores da razão cientificista acusam seus antagonistas de compartilharem com o velho credo cristão uma aversão supersticiosa à razão e à ciência. Resumindo, nossos inimigos não decidiram ainda, após décadas de intensos debates, se somos racionais demais ou de menos. Portanto, enquanto aguardo pacientemente pela resolução de tão complicado problema, vou me encaminhando para o fim deste texto com minha própria opinião sobre essas duas vertentes anticristãs: são ambas irracionais. E no caso do pós-modernismo essa constatação é fácil e direta: ele é irracional porque jamais pretendeu mesmo ser algo além de uma criança mimada que, sem se preocupar com explicações ou justificativas, grita e esperneia violentamente para conseguir o que quer.

O racionalismo, por outro lado, é irracional por portar-se irresponsavelmente, não se dando conta de que é o pai da criança. Ou, dizendo de maneira menos metafórica, por ter suposto que sua idolatria da racionalidade - de uma modalidade bastante restrita dela, na verdade - não geraria reações radicais contra tão presunçosa tirania. Pior ainda é a pretensão racionalista de que a eliminação do cristianismo produziria um mundo não apenas mais razoável, mas também menos religioso. O único efeito palpável do combate à influência cristã foi a proliferação de uma infinidade de religiões de quinta categoria, de superstições infinitamente menos respeitáveis e verdadeiras que os sublimes mistérios da verdadeira fé. O combate à religião por parte do totalitarismo norte-coreano não levou ao ateísmo, e sim à veneração do último ditador comunista, hoje cultuado oficialmente como um deus. Nada muito diferente disso poderia resultar desse tipo de atividade.

10 de março de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 4

Num texto anterior falei algo sobre o que há no litoral de Toulon e descrevi o sentimento que me acometeu quando coloquei os olhos no Mediterrâneo, mas nada falei sobre o mar em si, e tampouco sobre a praia. Corrigirei essa falha agora. Falando de maneira sucinta, posso dizer que o mar é lindo e a praia é horrível. Mas explicarei isso um pouco melhor. Andei muitas vezes na beira do Mediterrâneo, e estive sobre ele em quatro ocasiões. A água é linda, límpida, com os mesmos tons de azul e verde que costumamos ver nos pontos mais belos do litoral brasileiro. Em alguns locais é possível ver os corais pouco abaixo da superfície da água. O litoral em si é muito bonito, e fez com que eu me lembrasse de fotos das costas gregas que vi há muito tempo. Talvez não haja nisso nenhuma coincidência, e essa seja a paisagem predominante em toda a extensão setentrional daquele velho mar. É tudo lindo, mas trata-se de um litoral sem praia, sempre rochoso. A solução encontrada pelos habitantes do sul da França foi a criação de praias artificiais. Em Toulon, porém, umas pedrinhas - cujo diâmetro pode chegar a alguns milímetros - exercem o papel que deveria caber à areia. Não é muito confortável caminhar sobre elas. As quatro praias são dispostas em formato de meia-lua, e no ponto onde duas delas se tocam há barreiras de grandes pedras coladas entre si com argamassa. Sua razão de ser, presumo, é quebrar a força das ondas. O bairro onde se situam essas praias chama-se Mourillon. Embora o local seja bem freqüentado em dias ensolarados, pouquíssimas pessoas usam roupas de banho, seja para tomar sol, seja para entrar na água. A maioria, aliás, não faz nada disso. Quando digo que as praias são horríveis, digo-o num sentido muito específico. É um belo lugar, mas como arquitetura, não como natureza. Depois de passear pelas praias do Mourillon, creio ter compreendido melhor a razão pela qual os europeus costumam ficar deslumbrados com o litoral brasileiro.

As águas que banham Toulon pertencem a uma baía cercada por uma península que inclui as cidades de La Seyne e Saint-Mandrier. Isso torna impossível ver o mar aberto a partir das praias da cidade (ou do Mourillon, pelo menos, pois talvez ao leste haja praias que não visitei): vê-se a costa dessas duas cidades no horizonte. Não completamente satisfeito com esse panorama - pois eu queria ver água até não mais poder na direção da velha África -, tive de cruzar a baía de barco (o batobus, como o chamam os franceses: uma versão reduzida do catamarã carioca) até a praia setentrional de Saint-Mandrier e depois atravessar essa pequena cidade para chegar ao litoral sul, fora da baía de Toulon. Ali a costa também é rochosa, tanto quanto em qualquer outro lugar. Mas em alguns pontos - as "praias" - o solo é composto de seixos redondos e lisos cujo diâmetro típico varia de um a dezenas de centímetros. As ondas que batem provocam o deslizamento de muitos deles sobre os que estão mais embaixo, produzindo um ruído adicional muito agradável. Estive ali no final da tarde, completamente só, e desfrutei de alguns instantes de grande beleza. O Mediterrâneo parecia infinito diante de meus olhos, o sol se punha atrás de algumas rochas à minha direita, meus pés iam sendo constantemente molhados pelas ondas moribundas e os ouvidos eram inundados por um som deliciosamente interminável. Naquele momento, assim como em vários outros, tive de me esforçar para fotografar a cena, pensando nas pessoas queridas que ficaram no Brasil. Se não fosse por elas, eu preferiria guardar essas recordações apenas na memória, e muitas das fotos que trouxe para casa não existiriam. Não porque seja ruim ter imagens para contemplar mais tarde, e sim porque o simples ato de desviar a atenção para a câmera diminui a grandiosidade do momento. Quem já passou por uma situação semelhante sabe do que estou falando.

Talvez valha a pena mencionar mais um detalhe desse passeio: enquanto estive ali naquela praia de seixos de cujo nome já não me lembro, vi três objetos no céu, os quais deslocavam-se com uma certa rapidez e possuíam caudas que lembravam as dos cometas. Na verdade, não eram muito mais que riscos móveis no firmamento. Visto que não fui capaz de identificá-los, é perfeitamente lícito dizer que eram objetos voadores não identificados, à parte de quaisquer questões ufológicas que possam ser levantadas. Mas, se eu tivesse de arriscar um palpite sobre que coisas eram aquelas, diria que eram algum tipo de aeronave militar. Pois a presença das forças armadas francesas é particularmente forte naquela região: estimo que pelo menos metade da extensão do litoral é território militar, assim como os picos de alguns dos montes dos arredores; há instalações bélicas por toda parte, e as cercas de arame farpado e cartazes de advertência contra intrusos são visíveis em muitos lugares; Toulon abriga um porto militar, a segunda maior base da marinha francesa (e a maior da porção mediterrânea do litoral da França) e ali está ancorado o porta-aviões Charles de Gaulle. A presença dos militares naquela cidade é muito forte, e em La Seyne ainda mais.

Mais do que em soldados e armas, porém, o militarismo - no sentido não pejorativo da palavra - está presente também na mente e na memória do povo francês, e evidências disso se encontram em todos os cantos. A praça central de Toulon se chama Place de la Liberté, e nela se ergue uma imponente estátua-chafariz que celebra a retomada da cidade pelos aliados no fim da Segunda Guerra Mundial e homenageia os soldados que tomaram parte nessa operação. Em outro lugar há um monumento à memória dos habitantes da cidade mortos na Primeira Guerra. Um outro homenageia os militares franceses mortos em alto mar. E assim por diante: aqui, celebra-se um herói de guerra; ali, são lembrados os cidadãos de Toulon executados durante a Revolução; acolá, todos os mortos pela França que nasceram num determinado bairro. Há ainda monumentos aos membros de determinados batalhões, celebrações da resistência francesa em geral, louvores aos mortos de diversas categorias. Em cidades menores como Saint-Mandrier os monumentos geralmente contêm uma lista de todos os incluídos na homenagem, nome por nome. E no Mont Faron, uma montanha de cerca de 600m de altitude que fica próxima a Toulon, existe um autêntico museu militar no que um dia foi uma fortaleza, e na qual só não entrei por não ter chegado a tempo. (Mas caminhei em volta e vi antigos abrigos de soldados, trincheiras cavadas e longas muralhas parcialmente destroçadas.) Qualquer que seja o lugar por onde se ande, porém, é quase impossível caminhar alguns quarteirões e não ver uma homenagem qualquer desse tipo, mesmo que discreta. São tantas que eu, embora naturalmente afeito a memoriais e monumentos históricos, acabei desistindo de fotografar todas.

Nada disso deveria surpreender num país que tantas vezes ao longo de sua milenar história esteve no centro de guerras e revoluções diversas. Mas me surpreendi mesmo assim. Talvez em parte por estar inconscientemente habituado a um país onde as virtudes militares foram há muito esquecidas, e cujos representantes locais - dignos ou não - só são mencionados em meio a queixas contra a ditadura de antigamente ou em defesa dos bandidos da atualidade. Mesmo desconsiderando-se a hegemonia esquerdista em nossos meios de difusão de idéias, porém, é compreensível que não tenhamos muito respeito por nossa tradição militar. Afinal, o espaço para esse tipo de heroísmo é bastante limitado num país cuja maior guerra (ou única, dependendo do ponto de vista) foi contra um país tão minúsculo quanto o Paraguai. (Devo essa percepção ao meu amigo Gustavo Nagel.)

Seja como for, os franceses parecem ter uma saudável consciência do fato de que devem muito do que são e possuem de bom a uma verdadeira multidão de heróis do passado, e que sua prosperidade atual ergue-se sobre milhares de vidas sacrificadas. Tal consciência é bastante limitada, na verdade: quem tivesse os monumentos de Toulon como única fonte de informação histórica sobre as batalhas da França jamais suspeitaria que o país existia antes de 1789. Essas homenagens públicas exemplificam em pequena escala aquele rompimento com suas raízes medievais e cristãs que se abateu sobre toda a Europa, tornando sua cultura frágil e sem autoconsciência, como fatalmente acontece a qualquer secularismo. E, conforme ensinou Ortega y Gasset, os homens correm um sério risco de colocar tudo a perder quando herdam algum bem das gerações passadas desconhecendo os fatores que possibilitaram sua aquisição e sustentação. A despeito de tão importantes restrições, no entanto, essa saudável consciência existe, e para apreciá-la, reconhecendo nela seus bons elementos, não é necessário possuir inclinações pessoais ao militarismo ou vocação para o ofício - coisas que eu mesmo não tenho.

Todo esse espírito pode ser ilustrado pelo que presenciei no dia 11 de novembro, feriado nacional em que foram comemorados os noventa anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Fiquei em casa pela manhã - por causa do frio e da chuva, se bem me lembro -, e assim não compareci aos desfiles e comemorações oficiais. Mas à tarde, quando saí para dar meu último passeio pela cidade, vi que todos os monumentos haviam sido ornamentados com flores. E à noite, quando fiquei diante da televisão procurando alguma programação minimamente interessante que pudesse exercitar minha compreensão do idioma (assim, inesperadamente, transformando o referido aparelho num objeto útil para mim, que sou o sujeito menos afeiçoado à TV que eu mesmo já vi), acabei assistindo um documentário inteiro sobre a guerra. Havia explicações históricas e táticas e reconstituições de eventos importantes, mas nada disso me impressionou, inclusive porque minhas inabilidades com o francês não me permitiram entender muita coisa. No entanto, havia também cenas verídicas, filmadas com aquela qualidade horrível típica dos primórdios do último século. E ali eu vi faces cobertas de angústia, soldados morrendo ou arrastando companheiros feridos, hospitais lotados, multidões de civis fugindo em desespero, mulheres trabalhando nas fábricas de munição, imensas filas de caixões sendo carregados. Mas havia também momentos alegres entre uma batalha e outra, vividos com a consciência de que poderiam ser os últimos, e afinal a explosão de festas improvisadas com a promulgação do Armistício. Fui invadido por um vívido sentimento tolkieniano de eucatástrofe, mas sem o atenuante da fantasia: eram pessoas de verdade ali, milhões delas, vivendo e morrendo, sofrendo e resistindo. E suas lágrimas, tanto as de dor quanto as de regozijo, trouxeram lágrimas também aos meus olhos.