6 de maio de 2007

A trindade na diversidade

Inspirado por uma conversa que tive com um amigo há quase uma semana, resolvi antecipar mais uma vez um dos temas da minha lista. O assunto é a infindável briga travada hoje em todos os cantos do mundo, mas com foco nos Estados Unidos, envolvendo os aspectos científicos, filosóficos e teológicos da evolução. Trata-se de uma questão delicada e ampla, sobre a qual é muito fácil ser mal informado, visto que a imprensa, especialmente no Brasil, está repleta de tagarelas que ignoram completamente o estado da questão. O assunto é fascinante, mas complexo, e eu poderia escrever uma porção de posts sem jamais me aprofundar em nenhuma de suas divisões.

Minha pretensão para o texto de hoje não pode ser senão a de apresentar os lados envolvidos nesse debate. Mesmo isso, porém, só pode ser feito de maneira superficial e resumida, pois uma exposição mais aprofundada iria revelar que há quase tantas opiniões quanto há opinadores sobre o tema. Existem diversos níveis de simplificação possíveis, sendo o mais simplista de todos a polarização do debate entre "criacionistas" e "evolucionistas", em que os primeiros são entendidos como fundamentalistas interessados em demonstrar que a ciência apóia uma interpretação literal de seus livros sagrados (geralmente o Gênesis), enquanto os últimos são materialistas defendendo a tese de que essa mesma ciência torna Deus dispensável. Mas essa não é a idéia mais comum, pois até os nossos jornalistas sabem que há evolucionistas sustentando todas as concepções possíveis sobre religião, assim como há entre as diversas facções criacionistas desavenças enormes sobre a interpretação tanto da evidência científica quanto da Bíblia, e mais ainda sobre como e até que ponto uma deve interferir na outra.

Pra complicar ainda mais a questão, há ainda o movimento mais recente do design inteligente (intelligent design), que defende opiniões algo semelhantes às de muitos criacionistas sem, no entanto, professar qualquer interesse na relação disso com questões religiosas. Existe também o problema da distinção adequada entre o evolucionismo, genericamente falando, e as teorias darwinianas. A combinação de todos esses elementos produz uma bela confusão, muito difícil de enquadrar num esquema simplificado. A versão mais difundida dos fatos, no entanto, pode ser resumida em poucas palavras: de um lado estão os evolucionistas de todas as confissões religiosas (inclusive nenhuma), interessados apenas em manter a integridade do conhecimento científico e sua independência contra quaisquer interferências de ordem não-científica em seus assuntos. Do outro lado estão todos os que se opõem a isso e que, mesmo sendo cientistas profissionais alguns deles próprios, desejam submeter em maior ou menor grau o método científico aos critérios determinados por suas crenças religiosas. A intensidade disso pode variar muito conforme o grau de fundamentalismo do criacionista em questão, mas o efeito é qualitativamente idêntico. Nesse sentido, obviamente, o design inteligente não é nada mais que um criacionismo mal disfarçado. Essa maneira de ver a situação é, na verdade, tremendamente equivocada, visto que perde de vista a natureza do real objeto de discórdia e representa mal tanto as opiniões quanto os interesses das diversas partes envolvidas. A fim de colocar o problema na sua perspectiva correta, passo agora a descrever resumidamente o posicionamento científico e filosófico dos principais grupos em disputa.

O evolucionismo é um corpo de idéias filosoficamente e teologicamente tão heterogêneo quanto possível, e mesmo do ponto de vista estritamente científico há debates sem fim dentro de suas fileiras em cada um dos campos de estudo relacionados ao tema. Assim, há evolucionistas ateus, agnósticos e teístas de todos os matizes, darwinistas e não-darwinistas (e todos os casos intermediários) e defensores de todos os tipos de relacionamento possível entre a ciência evolutiva e as diversas concepções religiosas, isto é, desde os que acham que a evolução torna impossível a religião em todas as suas formas até os que pensam que aquela leva direta e necessariamente a esta.

Em vista disso, parece que não há um ponto comum capaz de unir todos os adeptos do evolucionismo contra seus antagonistas. Esse ponto existe, no entanto, e atua fortemente por trás de toda a diversidade real ou possível: o princípio, seja ele factual ou meramente metodológico, de que o processo inteiro do desenvolvimento da vida, incluindo sua origem e cada etapa da diversificação até o estado presente, deu-se sem a intervenção direta de qualquer ser inteligente e, portanto, foi guiado unicamente por leis naturais. Podem existir - e existem - desacordos quanto à natureza dessas leis, incluindo-se aí a questão de saber se elas refletem ou não uma providência divina ou se são essencialmente não-intencionais. Mas reina indiscutível entre os evolucionistas a convicção de que os processos naturais, quaisquer que sejam a natureza física ou a causa metafísica dos mesmos, são plenamente suficientes para explicar tudo o que vemos.

Essa é a perspectiva que tem dominado a comunidade científica desde o século XIX, sejam quais forem as razões. Mas, embora nunca tenham deixado de ocorrer dissidências esporádicas dentro da mesma, a primeira reação organizada contra esse estado de coisas ocorreu nos EUA durante os anos 60, num movimento que, apesar de bastante multiforme e cheio de conflitos internos, persiste até hoje e é conhecido como "criacionismo científico". Embora a maior parte dos cientistas envolvidos tenha sido sempre pertencente a alguma das diversas denominações evangélicas, há também criacionistas católicos, judeus e muçulmanos. Assim como acontece entre os evolucionistas, também os criacionistas têm uma capacidade prodigiosa de discordar uns dos outros em todas as questões imagináveis: sobre a idade do homem, da vida, do planeta e do universo; sobre até que ponto a teoria darwiniana é capaz de dar conta do recado quando se trata de explicar os dados da natureza e, portanto, sobre quais eventos da história da vida requerem uma intervenção direta de Deus; sobre quais aspectos da narrativa do Gênesis devem ser entendidos literalmente, e até que ponto.

Embora em muitos casos o criacionismo de fato esteja associado ao fundamentalismo, nem todos os cientistas criacionistas se enquadram nesse estereótipo (a menos, é claro, que a palavra "fundamentalista" seja redefinida de forma a enquadrá-los). Alguns deles não estão sequer particularmente interessados nas interpretações dos textos bíblicos que tratam do assunto. O que une todos os movimentos criacionistas sob esse rótulo pode ser mais adequadamente expresso em uns poucos tópicos. Primeiro, embora alguns admitam a adequação da explicação evolutiva para grande parte dos eventos biológicos, todos estão em desacordo com os evolucionistas no que diz respeito à tese fundamental que descrevi acima: as leis da natureza, com ou sem o concurso da Providência, não bastam para explicar os dados fornecidos pelo mundo vivo, e as dificuldades são profundas demais para que seja razoável esperar que o progresso da ciência torne as coisas significativamente mais claras.

Não se trata de forçar as descobertas da ciência ao enquadramento a um esquema teológico pré-concebido, e sim de interpretar de maneira objetiva e imparcial a evidência científica, a qual aponta inequivocamente para a interferência ativa de um Criador cujos atributos, até onde podem ser inferidos, coincidem com aqueles tradicionalmente ensinados pelas religiões abraâmicas. Conseqüentemente, há uma convicção comum entre os criacionistas de que as audazes reivindicações do evolucionismo em favor de seu princípio fundamental não se sustentam do ponto de vista da própria análise científica, e que portanto aquele serve apenas para encobrir com pretextos científicos um materialismo filosófico estabelecido a priori. E os evolucionistas teístas, indevidamente impressionados pela autopropaganda materialista travestida de ciência verdadeira, colaboram de maneira inconsciente com essa farsa pseudocientífica, minando assim as bases intelectuais da verdadeira religião e levando-a a perder credibilidade diante do mundo moderno. Assim a ciência, que é em si mesma a refutação do materialismo, acaba se convertendo em um instrumento destinado a fortalecê-lo.

O design inteligente é um movimento bem mais recente, surgido nos anos 90, e distingue-se notavelmente de ambos os anteriores, a ponto de muitos evolucionistas o tomarem por criacionismo disfarçado e muitos criacionistas o acusarem de fazer concessões demais ao evolucionismo (e, portanto, ao materialismo). No plano propriamente científico, as posições do design inteligente identificam-se em muitos aspectos com as alas menos radicais do criacionismo, embora os laços históricos entre as duas vertentes sejam, na melhor das hipóteses, muito tênues. Os defensores dessa teoria compartilham com os criacionistas a opinião de que não só a evidência é insuficiente para justificar a reivindicação central do evolucionismo - conforme explicada acima - mas também existem evidências positivas apontando para a ocorrência de interferências inteligentes na história da vida. Eles consideram que o materialismo metodológico utilizado correntemente no estudo da evolução biológica e outras questões dessa ordem é uma restrição artificial e desnecessária ao escopo da ciência. Esta é capaz de propor critérios objetivos pelos quais se pode distinguir algo formado pelas leis naturais e pelo acaso de algo criado ou fabricado diretamente por uma inteligência consciente. Isso explica a razão pela qual os evolucionistas têm dificuldade em enxergar a distinção dessa teoria em relação ao tradicional criacionismo científico.

As diferenças existem, porém, e são basicamente duas. A primeira é que, diferentemente do criacionismo, o design inteligente não se propõe a demonstrar a existência de Deus. De modo mais geral, aliás, o design inteligente não tem qualquer pretensão de inferir algo sobre os atributos do designer. Seus defensores defendem que a ciência permite discernir claramente um artefato inteligentemente planejado ao se deparar com um, seja ele vivo ou não, a partir de certas propriedades que ele exibe. Mas isso não permite saber coisa alguma sobre como é (ou era) o ser que o projetou ou qual era o seu propósito ao fazê-lo. A questão de saber se foi Deus, Satanás, os Valar de Tolkien, os espíritos de Allan Kardec, uma raça alienígena tecnologicamente muito avançada ou o Saci Pererê pode ser muito importante do ponto de vista filosófico ou teológico, mas toda essa questão transcende em muito aquilo que se pode inferir da evidência científica considerada enquanto tal.

A segunda diferença, muito relacionada com a primeira e não menos importante, é que, dadas essas condições, o design inteligente não tem e não pode ter a pretensão de ser uma refutação do materialismo ou demonstração de algum sistema religioso ou filosófico. Afinal de contas, nada impede que o agente inteligente seja, também ele, parte do universo material - lembremo-nos de que o exame do objeto projetado não permite saber esse tipo de coisa. E, embora seja verdade que alguns dos cientistas envolvidos na defesa do design inteligente militam em favor do teísmo em geral e do cristianismo em particular, isso não significa que a teoria enquanto tal tenha esse objetivo. Ao menos não mais do que o ateísmo militante de certos evolucionistas prova por si só que a evolução é apenas uma construção destinada a defender o materialismo. Afirmar isso é tão simplista como dizer que a mecânica quântica foi inventada com o fim de refutar o determinismo: é simplista porque deixa de fora todos os aspectos importantes do problema. A batalha do design inteligente em si não é contra o ateísmo materialista enquanto tal, e sim contra aquele princípio metodológico adotado amplamente pela comunidade científica moderna, e que resulta na obstrução de muitos caminhos que a ciência poderia perfeitamente percorrer sem perder os atributos essenciais que a distinguem dos demais campos do conhecimento.

3 comentários:

Daniel Nérso disse...

Uma coisa q lembro q achei interessante sobre o Design Inteligente é a hipótese da Complexidade Irredutível. Lembro q o metralha falou disso pra mim.
Mas td q eu li a respeito(q não foi mta coisa) dizia q é uma teoria já refutada.
Mas o lugar q li tem a fama por não ser imparcial nos artigos(wikipédia).

Vivian disse...

Oiiiiiiii

só para você não esquecer do Pi!

Beijos!

Marco Túlio disse...

Certa vez ouvi uma metáfora interessante. Diz o seguinte: a verdade é como um objeto físico colocado em meio a vários homens. A cada um destes homens, colocados em volta, é lançado o desfio de elaborar uma definição do tal objeto. Naturamente a descrição que cada um faz, é incompleta porque cada homem, na posição em que se encontra, vê apenas uma face do objeto. As outras faces estão ocultas para ele mas estão visiveis para o outros.
Não seria lógico e sensato que cada homem falasse do que visse e somasse a sua visão à dos outros observadores? Não teriam eles uma visão precisa do conjunto se unissem os resultados de suas obervações? Parece pueril esta pequena metáfora, mas talvez ela expresse a dolorosa realidade dos homens de pensamento: Parece que eles vêem parte da verdade mas julgam vê-la por completo. Não possuirão cada uma destas vertentes de pensamento mencionadas, uma parcela da verdade? É muito doloroso para a mente admitir que ela não sabe e não pode saber tudo pois temos que admitir limitações para nós mesmos. Observar a verdade em conjunto com os que pensam diferente, sem vaidade e orgulho, para alcançar o verdadeiro conhecimento, não seria uma demonstração de verdadeira e superior inteligência? Talvez um dia cheguemos lá!