28 de janeiro de 2010

O Diabo e seu advogado francês

Hoje, pela primeira vez, farei uma resenha de um livro que não li. Bem, na verdade não é bem isso, mas a vaga semelhança entre esse absurdo e o que pretendo fazer de fato tornou irresistível a ideia de começar o texto dessa forma. Mais de um ano atrás, minha então namorada - e atualmente noiva - me deu um livro que parecia interessante, mas cuja leitura fui adiando, movido por uma certa preguiça devida sobretudo ao fato de que o exemplar estava em espanhol. Mais recentemente, encontrei num sebo de Ribeirão Preto a mesma obra em português, a um preço acessível, e comprei-a. Trata-se de um livro do filósofo francês Jean-François Revel, que escreveu muito sobre política, arte e literatura. Eu sabia bem pouco sobre o autor além do fato de que ele escreveu um livro célebre, L'obsession anti-américaine: son fonctionnement, ses causes, sas inconsequences, que eu, aliás, ainda não li, mas sei que é uma crítica ao antiamericanismo idiota da Europa Ocidental. Mas desse livro que agora tenho em mãos, intitulado Nem Marx nem Jesus, publicado em 1970, eu não tinha a menor ideia do que esperar. No entanto, os títulos - do livro e dos capítulos - me pareceram interessantes. Cheguei, então, ao prefácio de treze páginas escrito por uma tal Mary McCarthy, de quem eu nunca havia ouvido falar. Ela fala algo sobre a vida de Revel e de sua obra pregressa, e em seguida se posiciona a respeito de algumas de suas opiniões. Algo sobre a própria prefaciadora pode ser inferido claramente a partir daí: é amiga pessoal de Revel, boa escritora, americana e esquerdista. Resumo-a em tão poucas palavras porque são as ideias do próprio Revel que devem ocupar o centro das atenções neste post, e algumas delas transparecem nos comentários de sua amiga.

O livro, ao que tudo indica, é sobre política, e as posições políticas de Revel são bastante incomuns entre os intelectuais franceses: nesse país em que o esquerdismo e o conservadorismo gaullista faziam uma oposição política e cultural comum aos Estados Unidos, ele surgiu para, na condição de autêntico advogado do diabo, defender a grande potência do Ocidente. Outros exemplos citados por Mary McCarthy confirmam a impressão de que Revel nutria o hábito de defender tudo quanto era tido como evidente de maneira unânime. "Parece, às vezes, que Revel, em criança, foi educado numa escola de debates onde o treino consistia em defender a negativa de afirmações tão evidentes e inatacáveis como 'a Terra é redonda', 'Proust era um snob', 'o ar puro é bom para a saúde', 'o trabalho desenvolve o cérebro', etc.". Mas, segundo ela, seu amigo "apenas se preocupa com que sua agressividade atinja a cultura respeitável e as opiniões preconcebidas". Assim, parece que, de alguma forma, a obra de Revel já continha certos elementos de sua crítica ao antiamericanismo francês, e isso mais de trinta anos antes que fosse publicado o livro destinado exclusivamente a combater essa tendência.


Se for correta a descrição feita por sua amiga americana - e parece que é -, o filósofo francês de modo algum pode ser considerado um conservador; ou, pelo menos, não podia há quarenta anos. Embora fosse crítico ferrenho do socialismo, mesmo em suas vertentes mais moderadas, Revel se colocava declaradamente no campo dos intelectuais que viam a revolução como uma coisa ótima. Como pode ele, então, defender o baluarte do capitalismo, do imperialismo e do espírito reacionário? A contradição é bem menor do que parece, visto que o propósito do livro é justamente dissolver, na mente do leitor, os clichês da propaganda esquerdista e sustentar, com firmeza e seriedade, o que diz já na sentença inicial do livro: "A revolução do século XX terá lugar nos Estados Unidos". Mary McCarthy comenta: "é indispensável ser francês para receber todo o impacto, para ter uma 'reação visceral'. Desde que alguém aprendeu a contar até dez e a soletrar g-a-t-o, ficou com a ideia bem firme de que os E.U.A. são a cidadela do imperialismo, do racismo, da vulgaridade e do conformismo". A autora do prefácio cita esse início bombástico como ilustração do método argumentativo de Revel: "Caracteristicamente, nas suas primeiras páginas ele se arrisca a ser retirado do palco numa camisa de força".


O prefácio fornece uma prévia dos argumentos usados por Revel para defender sua tese, que devia soar tão implausível aos esquerdistas franceses de então quanto aos esquerdistas brasileiros de hoje e sempre. A segunda sentença do livro já dá um passo nesse sentido, e Mary McCarthy também fez questão de citá-la: "Só lá poderá ela ter lugar", disse ele, imediatamente após declarar que a revolução ocorreria nos Estados Unidos. Na verdade, conforme nos é explicado, o pensador francês não crê que a "segunda revolução americana" (título do primeiro capítulo), como a chama, ocorrerá e triunfará inevitavelmente, pois não compartilha da crença no determinismo histórico do marxismo. Apenas considera impossível que ocorra em qualquer outro lugar, e, a julgar pelo índice, parece que parte do livro é dedicada à defesa desta tese: em nenhum outro canto do mundo os revolucionários possuem aquela originalidade capaz de provocar mudanças profundas e autênticas na estrutura da sociedade, e nenhum outro país possui o clima cultural capaz de fomentá-la.


Mary McCarthy faz ainda algumas críticas ao pensamento de Revel. Basicamente, ela crê que seu otimismo com relação aos Estados Unidos é um tanto exagerado, parecendo derivar sobretudo do fato de que o antiamericanismo é quase uma unanimidade na França, e Revel vive para contrariar unanimidades. Além disso, ela considera que o termo "revolução" é utilizado por ele de modo vago e algo inapropriado; uma palavra mais branda como "reforma" seria, segundo ela, mais correta, inclusive por não dar a entender necessariamente um rompimento violento e súbito com o passado e o presente. Mas não me deterei muito nessas questões. Tive uma grata surpresa ao terminar a leitura do comentário de McCarthy e, virando a página, encontrar o início da réplica de Revel às palavras dela. Em nove páginas, redigidas em março de 1971, ele presta alguns esclarecimentos e responde às críticas de sua amiga de modo a lançar mais luz sobre a natureza de suas ideias sem que, no entanto, o quadro pintado por ela possa ser considerado equivocado, sobretudo quanto aos pontos que destaquei até aqui.


Revel defende seu otimismo quanto aos revolucionários americanos contrastando-os com os de outras nações, sobretudo os europeus ocidentais em geral e franceses em particular, que pecam por falta de criatividade e iniciativa. Ele considera que mesmo o maio de 1968 foi inspirado nas rebeliões estudantis americanas dos anos anteriores. O filósofo também se propõe a reexaminar a noção de revolução predominante na esquerda e substituí-la por um conceito mais amplo, e é por isso que não se importa em especificar se o fenômeno revolucionário se dá "lenta ou brutalmente, temporária ou permanentemente, pela revolução ou por reformas, com violência ou por aceitação passiva - esses métodos serão determinados pelo contexto histórico particular". É por isso que Revel se dispõe a aceitar como positivas e autenticamente revolucionárias certas mudanças que o esquerdista típico vê como insatisfatórias, insuficientes ou mesmo alienadoras.


Revel provavelmente pode ser considerado um liberal, e isso constitui boa parte da razão pela qual tanto conservadores quanto esquerdistas podem endossar entusiasticamente certas declarações suas e, ao mesmo tempo, repudiar muitas outras. Nele a fidelidade ao espírito revolucionário é mais evidente; ele se parece mais com um discípulo autêntico da Revolução Francesa que qualquer outro liberal que eu já tenha lido - muito embora, é claro, eu não tenha lido tantos assim. O progressismo de Revel se manifesta no fato de que ele vê as revoluções como fenômenos essencialmente bons e construtivos; se se opõe ao comunismo e outras formas de socialismo, é apenas por não crer que a esquerda tradicional seja capaz de gerar uma revolução autêntica; quase todas revoluções, diz ele, deixam as coisas como estão. (No que eu discordo: penso as revoluções deixam as coisas muito piores.) Nada disso faz de Revel um sujeito mais amigável ou mais correto que os liberais reacionários que estou acostumado a ver por aí, que gastam quase todo o seu tempo e seus esforços em demonstrar a ineficiência econômica do centralismo estatal, quando não chegam a defender que o livre mercado resolverá por si todos os problemas do mundo. Como eu dizia, isso não o torna mais amigável ou mais correto que tais sujeitos, mas ao menos faz dele mais interessante. Em ambientes dominados pela hegemonia da esquerda, como no Brasil atual, o lado revolucionário do liberalismo político costuma ficar menos evidente. Ler Revel é bom para evitar que nos esqueçamos disso; e, ao mesmo tempo, ele tem muito a ensinar. O francês parece ser o tipo de sujeito que pensa com clareza, mesmo quando pensa errado. E isso basta para colocá-lo muito acima de boa parte do mundo acadêmico de hoje.


Revel parece, em resumo, uma interessante combinação de ideias; algumas corretas, outras equivocadas, mas todas expressas de maneira clara, elegante e apaixonada. Eis meus motivos para crer que a leitura de Nem Marx nem Jesus será proveitosa e desafiadora. Tenho uma impressão preliminar de que, embora seja provável que ele confundirá uma porção de coisas, considerando bons alguns fatos que são ruins e vice-versa, a essência do que ele diz é correto e pertinente: parece que a maior parte das grandes transformações que têm conquistado o mundo vem dos Estados Unidos ou, pelo menos, passa por lá. E isso inclui as boas, as ruins, as boas que muitos consideram ruins e as ruins que muitos consideram boas. A grande potência do norte é ao mesmo tempo o laboratório da revolução e a cidadela da reação, como disse o próprio Revel. Todas as correntes políticas do Ocidente encontram ali muito o que admirar e muito o que repudiar.


Adendo:
escrevi o texto acima há alguns meses. Concluí a leitura do livro em dezembro e devo dizer que, se tivesse de escrever hoje um comentário sobre sua introdução, teria adotado outras ênfases. A despeito disso, não há correções a fazer.

19 de janeiro de 2010

Estranhas dimensões

Quem porventura tenha acompanhado meu outro blog nos últimos tempos sabe que uma de minhas últimas leituras de 2009 foi a do livro The fractal geometry of nature, do matemático francês Benoît Mandelbrot. Nessa magnífica obra, o autor defende que a teoria dos fractais, em grande parte inventada por ele próprio, é de grande importância para a compreensão da natureza, e não mera abstração de matemáticos de escrivaninha. Muito bem escrito, o livro me fez entender já nos primeiros capítulos um conceito que nunca me pareceu compreensível desde que, no segundo ou terceiro ano da faculdade, ouvi falar nele pela primeira vez. Tendo pensado em fazer um post a respeito, hesitei por um tempo, paralisado pela preguiça de fazer um desenho, o qual seria útil na explicação. Mais recentemente, porém, encontrei já pronto na internet o mesmo desenho, muito mais bem feito que qualquer coisa que eu saiba fazer no Paint, e isso me animou.

Tentarei explicar abaixo, de maneira bastante intuitiva e nada rigorosa do ponto de vista matemático, o que se quer dizer quando se fala em um objeto de número não-inteiro dimensões, e de que maneira se deve compreender isso. Todo mundo sabe que um ponto tem dimensão 0, uma curva tem dimensão 1, uma figura plana tem dimensão 2 e um sólido tem dimensão 3. Podemos também aceitar sem grandes problemas, embora sem uma visualização mental apropriada, um objeto ou um espaço com 4 ou mais dimensões, como nas maluquices dos cosmólogos e teóricos das supercordas. Porém, a mera ideia de uma dimensão não-inteira não me parecia fazer o menor sentido, e sei que muita gente tem a mesma dúvida quando ouve os estudiosos de fractais mencionando coisas desse tipo com imensa naturalidade.

Para entender isso, imaginemos um segmento de reta qualquer, com início e fim em pontos bem definidos. A fim de medir seu tamanho, precisamos comparar seu comprimento a outro definido como padrão. Pelo sistema internacional, a unidade padrão é o metro, mas isso não vem ao caso. Tomemos um padrão qualquer de comprimento L. Medir um segmento de reta significa descobrir quantos Ls cabem nele. Assim, podemos comparar diferentes segmentos e verificar qual deles é maior, e quão maior ele é.

Agora passemos a um objeto da geometria plana, como o retângulo. Não podemos usar o mesmo padrão L do parágrafo anterior para medi-lo. Um retângulo se mede pela área, não pelo comprimento. Qualquer tentativa de preencher um retângulo com segmentos de reta de comprimento L fracassará, pois seria necessário um número infinito deles. Assim como é sempre possível encontrar um número entre dois números, é sempre possível colocar uma reta entre duas retas paralelas. Ninguém pensaria, pois, em medir o comprimento de um retângulo. O retângulo se mede pela área, ou seja, pela comparação com uma unidade padrão de área. Esta pode ser, por exemplo, um quadrado de lado L, resultando numa área L2.

A medida de área, por sua vez, é inaplicável ao segmento de reta de que partimos no princípio. Por menor que seja o quadrado escolhido, nunca haverá um segmento de reta capaz de preenchê-lo completamente. Por isso é que o segmento tem dimensão 1 e o retângulo tem dimensão 2: eles só podem ser medidos por um padrão L (que, não nos esqueçamos, é o mesmo que L1) e L2, respectivamente. O valor do expoente é, pois, de importância fundamental. Se o expoente escolhido for grande demais, o resultado será sempre nulo: o comprimento de um ponto, a área de uma reta, o volume de um retângulo. Por outro lado, se for muito pequeno, o resultado será sempre infinito: a área de um cubo, o comprimento de um retângulo, o número de pontos em uma reta.

(Antes de prosseguir, convém fazer um esclarecimento importante: no dia a dia, ou nas aulas de matemática, podemos às vezes dizer coisas como "a área de um cubo". Trata-se de uma metonímia, pois na verdade nos referimos à área das faces do cubo, que são quadradas. Não é esse o sentido em que o termo está sendo empregado neste texto; quando digo "a área de um cubo", refiro-me ao cubo propriamente dito, o objeto tridimensional delimitado por suas seis faces quadradas. Considerações análogas valem para todos os outros objetos matemáticos mencionados.)

Mantendo tudo isso em mente, examinemos a figura abaixo, que encontrei no site da Vanderbilt University, e que terá a honra de ser a primeira figura que publico neste blog. Ela mostra os primeiros estágios de construção de um objeto pertencente a uma família de curvas denominadas "curvas de Koch", descritas em 1904 pelo matemático sueco Helge von Koch. No topo, temos apenas um segmento cujo comprimento é igual a 1. Para dar origem à segunda etapa, esse segmento é transformado da seguinte forma: o segmento é dividido em três partes iguais (cada uma de comprimento 1/3, portanto), a parte do meio é retirada e substituída por dois segmentos de comprimento 1/3. Agora temos 4 segmentos de idêntico comprimento, de modo que o comprimento total é 4/3. No passo seguinte, o mesmo procedimento é aplicado - em escala menor, é claro - aos quatro segmentos resultantes: cada um deles é dividido em três partes iguais de comprimento 1/9 (1/3 de 1/3), a parte do meio é retirada e substituída por dois segmentos de mesmo comprimento. Visto que cada parte da figura anterior teve seu comprimento multiplicado por 4/3, o novo comprimento total é (4/3).(4/3)=(4/3)2=16/9. O último passo mostrado na figura abaixo aplica o mesmo procedimento a cada um dos 16 segmentos resultantes do anterior, resultando em 64 segmentos, cada um com comprimento 1/27, totalizando 64/27=(4/3)3.


Imaginemos agora que esse processo fosse reaplicado infinitamente, sempre em escalas cada vez menores. O que aconteceria? Pode-se perceber que, depois de n aplicações, o comprimento total seria dado por (4/3)n. Se n tender a infinito, portanto, o comprimento também tende a infinito. Não deixemos de notar que essa figura não é ilimitada, nem por se estender indefinidamente numa dada direção, como uma reta infinita, nem por ter limites indefinidos, como uma circunferência. A curva de Koch apresentada começa e termina em pontos bem definidos; e, no entanto, seu comprimento é infinito. Por outro lado, a área continua sendo nula.

Qual é, então, o problema? Temos em mãos um objeto geométrico cuja grandeza não podemos apreender, nem pelo comprimento, nem pela área. O primeiro padrão de medida usa um expoente pequeno demais (1), e seu resultado tende ao infinito; já o segundo usa um expoente grande demais (2), e seu resultado é nulo. É natural, portanto, supor que o expoente correto a ser utilizado está em algum lugar entre os números 1 e 2. Esse expoente existe, de fato, e seu valor é aproximadamente igual a 1,2619.

Esse valor é denominado dimensão fractal ou dimensão de Hausdorff, e seu valor não necessariamente coincide com o da dimensão utilizada em topologia. A dimensão topológica está mais próxima do conceito que intuitivamente utilizamos, embora possa ser definida mais rigorosamente. Um ponto, por exemplo, tem dimensão topológica nula, assim como um conjunto qualquer de pontos desconectados. Um objeto definido por pontos conectados tem dimensão positiva. Um segmento de reta, por exemplo, pode ter suas partes desconectadas pela remoção de um ponto, e portanto sua dimensão topológica é 1. Uma figura plana não pode ser "partida" dessa forma, de modo que é necessária a remoção de um conjunto unidimensional; por isso, a figura plana tem dimensão 2. De modo geral, um objeto que pode ter quaisquer de seus pontos desconectados pela remoção de um conjunto de dimensão topológica N possui dimensão topológica N+1.

Dada essa maneira de definir as coisas, não se pode, ao menos até onde sei, falar em dimensões topológicas não-inteiras. O mesmo não ocorre, porém, com a dimensão de Hausdorff, pois os dois conceitos nem sempre se equivalem. No caso da curva de Koch discutida acima, por exemplo, a dimensão topológica é 1. Aliás, os objetos fractais distinguem-se dos demais justamente pelo fato de apresentarem essa desigualdade, na qual a dimensão topológica é sempre menor que a dimensão de Hausdorff. Os objetos não-fractais, com o qual está acostumada a vasta maioria da humanidade apenas iniciada nos rudimentos da matemática, apresentam dimensão de Hausdorff inteira e idêntica à dimensão topológica, não restando, nesse caso, qualquer mistério.

11 de janeiro de 2010

Briguinha na areia

Há um ano publiquei um texto, Areias invasoras, sobre o que me pareciam ser os pontos positivos e negativos do livro As raízes do problema e da pessoa, o primeiro volume da série Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico, do historiador americano John Paul Meier. Recebi dois comentários sobre esse texto, e hoje pretendo apenas falar um pouco sobre um deles, o segundo, recebido em 3 de julho. Achei-o muito enigmático à primeira vista. Na verdade, não chega a ser um comentário sobre meu texto, de modo algum. Traz dois subtítulos, A gnose moderna e A oposição entre a gnose moderna e o cristianismo, e no final há um nome e um link, presumivelmente para a fonte de onde os trechos foram retirados. O link, porém, não funciona. O nome é de Nivaldo Cordeiro, conhecido articulista católico e conservador. (Pelo menos é assim que o conheço.) Creio já ter lido quase uma centena de seus textos, e boa parte deles me pareceu no mínimo interessante. Mas até hoje não ficou claro para mim se seu nome estava ali a título de assinatura ou de mera referência bibliográfica, isto é, se foi ele mesmo quem transcreveu em meu blog os trechos de um de seus artigos ou se outra pessoa fez isso. Prefiro crer na segunda opção, pois ela proporciona uma explicação plenamente satisfatória para o nome ali transcrito, e eu, como simpatizante da navalha de Ockham, não vejo razão para postular uma segunda função para esse nome. Além disso, há apenas um Nivaldo Cordeiro na internet, e milhões de outras pessoas que não o são, de modo que é estatisticamente improvável que logo ele tenha aparecido por aqui. De qualquer forma, o tom do comentário é bastante impessoal. Não há saudações nem qualquer referência ao conteúdo de meu texto. Há apenas a transcrição do trecho, o nome do autor e o link. E, além de tudo isso, um comentário estritamente idêntico foi postado num outro texto meu, Briga de família, apenas um minuto depois do primeiro. Tal identidade de comentários é bem-vinda, pois me dispensa de responder duas vezes. Mas o fato em si demonstra que a publicação deles foi premeditada. Algúem lera com antecedência os dois textos e decidira que ambos mereciam essas idênticas palavras, e isso mostra que o elemento que chamou a atenção dessa pessoa é exatamente o mesmo em ambos os casos.

Agora vamos ao que interessa, isto é, passemos a essas palavras propriamente ditas. É fácil notar qual é o nexo entre as duas postagens que saltou aos olhos do autor do comentário: no texto
Briga de família, de novembro de 2007, expus algumas de minhas impressões sobre certos aspectos do catolicismo. (Não devo deixar de dizer, de passagem, que minhas impressões mudaram consideravelmente desde então, e isso está entre os temas com que pretendo lidar em minhas futuras retratações.) No texto Areias invasoras fiz um breve e parentético comentário sobre essa mesma doutrina. Não pode ser outra a razão que motivou o duplo comentário do Anônimo (referir-me-ei a esse anônimo específico dessa forma, de agora em diante), que evidentemente é católico e pretendia atacar minha posição protestante, muito embora, de modo geral, no primeiro texto eu tenha publicado considerações mais favoráveis que contrárias ao catolicismo. Quem quiser ler o comentário completo do Anônimo pode fazê-lo acessando um dos links disponibilizados ao longo deste post. Descreverei e comentarei aqui seus aspectos essenciais.

O comentário começa falando do gnosticismo, heresia antiga que, sustentada por Pelágio e derrotada por Agostinho, afinal triunfou na modernidade, tendo se manifestado em
"diferentes teorias e movimentos religiosos e políticos". Ele menciona como exemplos os pensamentos de Smith, Ricardo, Kant, Hegel, Marx e Nietzsche. Afirma ainda que a ideia central do gnosticismo é "a de que o homem pode ser aperfeiçoado nesta vida e buscar a salvação ainda nesse mundo", e o denominador comum a toda a gnose moderna é "declarar a imanência da salvação e reduzir a psique do homem à relação binária busca do prazer/fuga da dor". Tudo isso está sob o primeiro subtítulo, enquanto o segundo declara o seguinte:

"O inimigo dessa gente é um só, a Igreja Católica e o Cristianismo ele mesmo. Na verdade as denominações protestantes são elas próprias uma plena manifestação do gnosticismo usando a roupagem evangélica. Sei que muitos dos seguidores dessas religiões ditas cristãs talvez nem tenham a noção do que se passou, porque não é tarefa fácil encontrar livros de história e menos ainda livros de filosofia política que relatem fielmente o que aconteceu. A decretação de morte de Deus por Nietzsche é o coroamento da modernidade e a síntese de tudo, o corolário da Reforma."


Essa teoria não me é desconhecida; se não por outros motivos, ao menos porque conheço algo da obra de um grande defensor dela, Eric Voegelin, a quem Nivaldo Cordeiro dedica uma admiração intelectual que não é segredo para ninguém. Eu gostaria de responder aos argumentos levantados em favor dessa teoria, mas estou impossibilitado disso simplesmente por não ter encontrado nenhum. Não há nada no comentário que indique a razão pela qual a morte de Deus é o corolário da Reforma, nem são apresentadas provas de que o protestantismo prega a imanência da salvação e reduz a psique do homem à busca do prazer e à fuga da dor. Todas essas proposições me parecem mero resultado de uma tremenda ignorância sobre a doutrina protestante, como a que estou habituado a encontrar mesmo entre os católicos mais cultos. Além disso, não posso sequer discutir apropriadamente a proposição de que
"o homem pode ser aperfeiçoado nesta vida e buscar a salvação ainda nesse mundo" por ser ela flagrantemente imprecisa. Talvez se refira à doutrina do progresso, ao sucessivo aperfeiçoamento da natureza humana levado a cabo pelo poder do próprio homem, de modo a atingir o paraíso terrestre no futuro. Tal acusação, que cabe perfeitamente às doutrinas liberais e socialistas em geral, não se aplicam de modo algum à doutrina dos reformadores, e muita ignorância é necessária para fazer tal associação. E, se era outra a acusação que se tinha em mente, fico aguardando que o Anônimo explique o que quis dizer. Seja como for, não convém que eu me estenda em considerações sobre ideias que não foram bem expostas, e muito menos bem defendidas. Ou, pior ainda, não foram defendidas de modo algum.

Mas nossa história não acaba por aqui. Não podendo crer que o sempre mui argumentativo Nivaldo Cordeiro tenha passado tão rapidamente por um ponto tão importante, fui procurar na internet o texto de onde foi retirado o trecho que o Anônimo publicou aqui. E encontrei o tal texto. Trata-se de um artigo intitulado
A gnose petista, de 18 de novembro de 2007. O objetivo do artigo é expor a origem do triunfo do PT no cenário político e cultural nacional, tanto na história recente do Brasil quanto nas raízes profundas de nossa civilização. O autor identifica os antepassados remotos do petismo em Epicuro e seus discípulos, e vem gradualmente se aproximando até o presente. É em algum momento desse processo que surge o trecho que veio a aparecer em meu blog. Com relação ao protestantismo, porém, há somente esse comentário, feito de passagem. Nenhuma tentativa é feita para aprofundar ou justificar as acusações ali contidas. Talvez Nivaldo Cordeiro esteja correto em dizer que não é fácil encontrar livros que relatem o que ocorreu nos tempos da Reforma, mas é ainda mais difícil encontrar argumentos sobre isso no artigo em questão.

O autor tem a seu favor, naturalmente, o fato de que o assunto do artigo não era esse, e a questão não podia mesmo ser discutida em profundidade. Isso de modo algum torna suas declarações menos absurdas, mas ao menos justifica a brevidade nada argumentativa com que foram apresentadas. Além disso, talvez suas opiniões sobre o protestantismo tenham sido melhor expostas e defendidas em algum outro lugar, muito embora eu tenha procurado em vão por algo do tipo em seu site. Mas mesmo que exista essa exposição, tal análise fugiria ao meu propósito imediato, que é apenas o de dar uma resposta ao Anônimo que comentou em meu blog. Tendo, pois, descoberto que o artigo original completo nada pode acrescentar ao trecho aqui transcrito, posso agora me voltar para este último e dar-lhe uma resposta com rigor argumentativo compatível com o encontrado no desafio ali proposto. Assim sendo, à afirmação de que
"as denominações protestantes são elas próprias uma plena manifestação do gnosticismo usando a roupagem evangélica", minha resposta é: são nada!

5 de dezembro de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 8

A despeito do tempo curtíssimo gasto no passeio pela capital francesa, a diversidade de experiências novas chegou perto de ser atordoante. Isso foi motivado em parte pela própria escassez de tempo disponível: preferimos passar correndo por uma grande quantidade de lugares a visitar detidamente um ou dois. E para isso foi fundamental a presença da Régine, que conhecia muito bem a cidade, os meios de transporte e os atalhos aos pontos mais interessantes. Foi assim que passei, ao todo, duas horas dentro do Louvre, que mereceria uma visita de uma semana. No mesmo espírito, devo ter ficado menos de meia hora na catedral de Notre Dame, mais ou menos o mesmo na basílica do Sacré Coeur, uns quinze minutos sob o Arco do Triunfo, e assim por diante. A narrativa do que ocorreu dentro ou nos arredores desses pontos turísticos célebres de modo algum esgota os acontecimentos interessantes que vivenciei em Paris; na verdade, sequer chegam a ser os mais importantes. Apesar disso, começarei por aí.

O Arco do Truinfo é um belo monumento, mas nada que se possa considerar empolgante. Ele é, talvez, tanto pela fama quanto pelo tamanho, o maior exemplo do valor dado pela cultura francesa aos seus mortos em guerra, como já comentei num
post anterior. As duas igrejas acima mencionada são lindas, com traços arquitetônicos ricos e repletas de belíssimas esculturas e outras obras de arte. Quando entrei em Notre Dame, havia no ar um canto muito bonito. E em Sacré Coeur acabei presenciando parte de uma missa que contava, também, com belas músicas. Embora o valor espiritual disso seja muito discutível, não deixou de ser muito agradável ao meu senso estético. O impacto só não foi maior porque, estando na França há várias semanas, eu já estava acostumado a ver prédios bonitos por todos os lados. Considero a primeira catedral mais bonita, mas a segunda tem também uma vantagem nada desprezível: depois de subir as centenas de degraus que levam à entrada (eu contei o número de degraus, mas já não me lembro de quantos eram), tem-se uma vista maravilhosa da cidade - que só não se mostrou ainda mais maravilhosa porque o tempo estava parcialmente nublado.

O Louvre é um caso à parte. Poderíamos ter gasto as duas horas de que dispúnhamos para o passeio apenas na fila para compra dos ingressos, que era gigantesca. Isso não aconteceu apenas graças, mais uma vez, à Régine, que nos conduziu a uma entrada lateral, meio escondida, desconhecida da quase totalidade dos turistas, e na qual não havia fila alguma. (Quem for ao Louvre algum dia me pergunte onde fica essa entrada, que eu explico.) Eu disse acima que poderia passar uma semana lá dentro, mas, pensando bem, creio que o ideal seria ficar ainda mais. Daria para permanecer uma semana em cada ala do museu. Lembro-me especialmente de ter passado correndo pelos quadros renascentistas e barrocos, pela ala egípcia e pelas esculturas gregas e romanas, ficando um ou dois minutos em cada sala, cada uma das quais contendo ao menos várias dezenas de peças. As seções árabe e medieval eu não pude ver, porque estavam em reforma. Mas o que vi, a despeito da pressa, foi maravilhoso. Para quem gosta de arte e história, é uma experiência inesquecível.


Não posso deixar de fazer um breve comentário sobre a Mona Lisa, já que todo mundo pergunta a respeito. É, de longe, uma das coisas menos impressionantes do museu todo, exceto pela quantidade de gente que se amontoa em volta dela para tirar fotos. (Sim, as fotos são permitidas, a despeito do que dizem os boatos.) É também a única sala em que me lembro de ter visto seguranças permanentes. Mas, sinceramente, não entendo o motivo. É um quadro minúsculo que fica atrás de um vidro espesso, e do qual não é possível, mesmo com esforço, chegar a uma distância inferior a uns três metros. Ou seja, mesmo que seja uma obra maravilhosa, não dá para ver muita coisa.


Fora dos pontos turísticos mais famosos também acontece muita coisa interessante. Merece destaque especial a música. Por toda parte - mas sobretudo nos lugares mais movimentados, é claro - há músicos oferecendo sua arte em troca das moedas lançadas pelos transeuntes. Sei que no Brasil isso também acontece, principalmente nas grandes cidades. A diferença reside no seguinte fato: aqui, os que já vi fazendo isso eram, em boa parte das vezes, velhotes com sanfonas meio desafinadas; gente a quem acabamos dando algum dinheiro por pura caridade. Na França, ao contrário, são músicos profissionais da melhor qualidade: no pátio interno do Louvre, um ótimo flautista; em algum lugar de que já não me lembro, um violinista igualmente bom; em frente a um teatro, uma cantora lírica, uma mulata cuja bela voz se fazia ouvir a um quarteirão de distância, numa avenida de trânsito intenso; numa rua qualquer, um quarteto de cordas; nas escadarias de Sacré Coeur, um harpista espanhol. Por todos os lados, excelentes músicos exercendo sua profissão com alegria, ao ar livre e em troca apenas da gentileza dos turistas. Os sons da alta cultura parisiense se espalham por todos os cantos, no meio da rua, e isso contribui para tornar os passeios a pé pela cidade muito mais agradáveis.


Os turistas de Paris são ao mesmo tempo espectadores e parte do espetáculo. Dentro do Louvre, nas ruas, no metrô, nos restaurantes, veem-se todos os tipos de rostos e roupas e ouvem-se muitos idiomas. Lá há europeus de toda parte, e em consequência disso há notas e moedas de euro provenientes de todos os países, ao contrário do que acontecia em Toulon. O simples ato de receber o troco de uma compra pode, portanto, trazer pequenas e agradáveis surpresas. Perto do Louvre, vi um sujeito que não sei de onde era, mas parecia asiático; trajava uma túnica alaranjada engraçadíssima e trazia na cabeça um chapéu enorme mais engraçado ainda. Mas o destaque fica, sem dúvida, por conta dos japoneses, que sempre aparecem com roupas e penteados de cores e formas inesquecíveis. São quase sempre adolescentes, e jamais aparecem em bandos de número inferior a cinquenta indivíduos, empolgados com tudo, rindo e falando alto e tirando pelo menos uma foto a cada cinco segundos. Para conduzir o bando todo, o guia turístico anda com umas placas coloridas na mão, semelhantes a raquetes de tênis de mesa. O efeito conjunto de tudo isso é muito divertido.


Andar de ônibus ou metrô em Paris é como em qualquer outro lugar que tenha esses meios de transporte, exceto, mais uma vez, pela diversidade de línguas. No metrô sentou-se ao meu lado um rapaz que trazia um livro escrito num alfabeto que jamais supus existir, e que talvez não volte a ver nesta curta vida. De resto, ouvi línguas de todos os tipos, inclusive de um tipo muito familiar: português, e com sotaque paulista. A diversidade racial também é muito maior em Paris que no pacato litoral sul. Em particular, a presença de negros é muito mais intensa. Creio que quase todos são oriundos de alguma das antigas colônias francesas na África, e falam com o que me pareceu ser um sotaque diferente (mas, dada a minha ignorância do idioma, essa impressão não pode ser considerada confiável). Muitos deles são camelôs, e andam carregando ou estendem em qualquer calçada (quando a polícia não está por perto) cartões postais, chaveiros e miniaturas da Torre Eiffel: os mesmos objetos que são vendidos nas lojas, mas a preços quatro ou cinco vezes menores, mesmo que o freguês não pechinche. E é muito fácil pechinchar; em muitos casos, os próprios camelôs tomam a iniciativa. Todos eles são sujeitos simpáticos e tratáveis; gostei deles.


A gentileza desses representantes da classe mais baixa de Paris faz lembrar a do povo do sul da França como um todo, e contrasta de modo notável com o jeito de ser da maior parte da população da própria capital francesa. A impressão que tive foi a de um povo sisuso, apressado, estressado, mal-humorado, não muito sensível e ocasionalmente mal-educado. Um único exemplo deixará isso suficientemente claro: ao passo que em Toulon qualquer cidadão, solicitado na rua, se compadeceria de um estrangeiro em dificuldades linguísticas e geográficas e faria de tudo para ajudá-lo (dei vários exemplos disso nas postagens anteriores), numa estação de metrô de Paris o próprio funcionário encarregado de fornecer informações não fez seu trabalho sem antes zombar de mim por causa de meu péssimo francês.


Faço questão de ressaltar esse contraste por uma razão muito simples: muitos brasileiros que já estiveram na França voltaram com uma péssima impressão sobre a hospitalidade e simpatia de seus habitantes. Quando me lembro dos gentis transeuntes, comerciantes e colegas de trabalho das pequenas cidades do litoral sul, não posso deixar de considerar esse juízo totalmente injusto. Já os parisienses, descontadas certas exceções, parecem merecer essa má fama. E, visto que a capital deve ser mais visitada por estrangeiros que qualquer lugar mais pacato, não é nada surpreendente que seus cidadãos tenham inadvertidamente transmitido aos estrangeiros uma impressão ruim sobre a totalidade do país. Mas nisso a França não é diferente de qualquer outro lugar: também aqui no Brasil as grandes cidades apresentam uma proporção consideravelmente maior de gente mal-educada. Os próprios franceses do sul pensam de Paris mais ou menos a mesma coisa que os brasileiros do interior costumam pensar sobre São Paulo ou sobre o Rio de Janeiro.


Por tudo isso, a despeito das inúmeras maravilhas presentes em Paris, muitas das quais ausentes em Toulon e arredores, não foi sem um certo alívio que embarquei na estação para a viagem de volta. Comparativamente, a cidadezinha do sul, que antes me parecera um lugar inóspito, selvagem e pouco acolhedor, agora me parecia um recanto pacato e aconchegante. Foi um passeio delicioso e inesquecível, sem dúvida, e recomendo uma ida a Paris a todos os que não desejam nada além disso. Mas não creio que seja fácil suportar a residência permamente naquele lugar. E disponho de não poucos testemunhos que confirmam essa minha impressão, fornecidos tanto por brasileiros quanto por franceses de outras localidades. Sendo assim, no domingo, depois que escureceu, tomei um ônibus para a Gare de Lyon, comprei um bom lanche e embarquei satisfeito para Toulon. Gostaria de ter ficado mais tempo e ter visto mais e melhor, mas estava contente por voltar ao meu lar temporário. E desta vez fiquei acordado durante a maior parte da viagem. Sendo noite, porém, mais uma vez não pude contemplar as belas paisagens que havia visto na ida, enquanto atravessava o país no sentido oposto.

26 de novembro de 2009

Aventuras no berço do Ocidente - parte 7

Embora já tenha se passado mais de um ano desde que voltei da França, ainda tenho algumas aventuras para narrar. Neste post começarei a contar sobre os aspectos mais importantes de minha viagem a Paris, tarefa que continuará no próximo texto. Fiquei lá apenas um fim de semana. Mais precisamente, cheguei no sábado, pouco antes do horário de almoço, e parti de volta para Toulon no domingo, pouco depois do anoitecer. Eu, na verdade, já havia estado na cidade-luz ao chegar à França, tendo permanecido nela cerca de quatro horas. Esse tempo é evidentemente curto demais para se conhecer Paris, e eu o gastei todo com o desembarque, a mudança de aeroporto e o reembarque. Além do mais, ambos os aeroportos parecem ficar longe de tudo o que há de interessante na cidade. Tudo isso fez com que meu desejo por um bom passeio na capital francesa apenas aumentasse.

Felizmente, surgiu uma oportunidade de satisfazer esse desejo. Minha amiga Marcia, sãocarlense e ex-companheira de coral que atualmente mora e estuda em Bruxelas, havia me convidado a ir visitá-la enquanto estivesse na França. Eu também desejava, é claro, conhecer a capital belga. Porém, Bruxelas é consideravelmente mais longe de Toulon que Paris, o que inviabilizou minha ida tanto por motivos financeiros quanto pelo pouco tempo de que eu dispunha: tendo de ir num dia e voltar no seguinte, eu passaria dentro do trem a maior parte do tempo útil. Por isso, sugeri que nos encontrássemos em Paris, por ficar mais ou menos no meio do caminho. A Marcia topou e levou junto a Régine, sua amiga belga.


A aventura começou muito antes que eu voltasse a colocar os pés em Paris. Fui comprar a passagem com uma semana de antecedência. Eu já tinha alguma experiência em comprar coisas na França. Achei que seria simples: eu diria que quero ir a Paris em tal dia, a moça me diria os horários disponíveis, eu escolheria um, ela diria o preço, eu pagaria, ela me daria a passagem e eu iria embora. Acabei descobrindo que andar de trem é uma das coisas mais complicadas que alguém pode fazer naquele país. O preço da passagem varia de acordo com uma infinidade de fatores: o dia da semana, o horário, o tipo e a posição da poltrona, o tempo que resta até a viagem, a compra ou não da passagem de volta junto com a de ida, as escalas que o trem faz e provavelmente outros dados de que já me esqueci. Eu não estava em condições de travar um diálogo tão complexo, e a atendente não tinha lá muita paciência - aliás, se bem me lembro, ela foi a única com quem tive problemas dessa ordem em toda a região de Toulon. Desisti, fui fazer outras coisas e voltei horas mais tarde, sendo desta vez atendido por uma mulher que não só era bem mais atenciosa, mas também falava um inglês perfeitamente compreensível - o que é uma raridade naquele canto do mundo, como já tive oportunidade de mencionar em outro post. O problema estava resolvido, enfim.


O próximo passo era certificar-me de que encontraria minhas duas companheiras de turismo naquela cidade enorme e indecifrável. Combinamos, por e-mail, um encontro sob a Torre Eiffel. A primeira questão, portanto, era: como ir da Gare de Lyon, a estação de trem parisiense, até o célebre ponto turístico? Eu não tinha a menor ideia. Quem resolveu meu problema foi o Google Maps. Logo vi que o caminho mais curto era consideravelmente complicado: eu teria de fazer umas quinze curvas, e não sabia se as ruas de Paris eram bem sinalizadas e identificadas; tampouco sabia se poderia contar com a paciência e a presteza do povo da cidade. Optei por um caminho algo mais longo, mas muito mais fácil: acompanhar o rio Sena (La Seyne), que passava perto tanto da estação quanto da torre. Ele não seguia em linha reta, mas seguir o curso de um rio é bem mais fácil que fazer quinze curvas corretamente numa cidade que se desconhece de todo e cujo idioma se ignora quase de todo. Essa consideração resolveu a questão quanto à estratégia a ser adotada.


Saí de casa - isto é, da casa da Caroline, minha anfitriã - às cinco da madrugada, e consegui tomar o trem sem grandes dificuldades. A paisagem era linda, mas não pude vê-la porque dormi quase o tempo todo, já que havia dormido pouco durante a noite e acordado muito cedo. De vez em quando eu despertava, olhava para fora e divisava uma daquelas paisagens até então só vistas nas mais belas produções do cinema europeu: campos, pinheirais, fazendas, plantações de uva, de trigo e outras coisas. "Que maravilha!", pensava eu, segundos antes de adormecer novamente. Uma das coisas que mais lamento quanto ao tempo em que permaneci na França é justamente não ter conseguido permanecer de olhos abertos durante essa viagem.


Cheguei à Gare de Lyon, desembarquei e pus-me a tentar descobrir para que lado ficava o Sena. Descobri depois de uns dez minutos, e parti. As diferenças entre Paris e Toulon começaram a se manifestar no fato de que ali todo mundo caminhava com pressa. Evidência adicional surgiu quando um mendigo me pediu esmolas ainda dentro da estação, e duas moças fizeram a mesma coisa antes que eu tivesse me afastado trinta metros dela. Em Toulon, conforme já mencionei aqui, recebi três pedidos de esmola em trinta dias; em Paris, esse número foi alcançado bem antes dos trinta minutos.


Andei uma hora e meia pela margem do Sena, carregando minha mala, até chegar à Torre Eiffel. Uma vez mais, não fiquei suado. Aliás, nesse dia passei mais frio que em qualquer outro, embora houvesse sol. (É notável a diferença de temperatura entre Paris e o sul da França.) Ainda assim, teria sido uma caminhada bastante cansativa, não fosse a beleza deslumbrante do cenário. Já teriam sido suficientes o Sena e os barcos que navegam sobre ele, a avenida que o circunda, suas árvores e suas esculturas, mas também passei pelos museus do Louvre e Orsay, a catedral de Notre Dame e muitas outras belíssimas construções de que agora não me lembro. Havia beleza em todas as direções. Me convenci naquele momento de que Paris devia ser a cidade mais bonita do mundo. (Mais tarde descobri que partilham dessa opinião muitos conhecidos bem mais experientes em viagens internacionais.)


De longe comecei a ver, enfim, o topo da torre. Quando me aproximei dela, contudo, algumas máculas começaram a aparecer naquele cenário deslumbrante. A primeira coisa que vi foi uma jovem refugiada da Bósnia, que veio me pedir esmolas por meio de um bilhete velho escrito em inglês. Dei-lhe mais dinheiro que a qualquer outro pedinte que já encontrei, na França ou no Brasil. Embora eu não tenha tido de pedir dinheiro a ninguém naquelas minhas poucas semanas como estrangeiro, dependi da boa vontade de pessoas desconhecidas para muitas coisas, e isso bastou para que eu compreendesse que, se mendigar é péssimo, mendigar no país dos outros é muito pior. Por causa dessa viagem, pude sentir com maior clareza e intensidade a benevolência contida na Lei dada por Moisés aos hebreus, quando disse: "Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito" (Deuteronômio 10.19). A segunda coisa que vi ao me aproximar da torre foi um cartaz. Não pude compreender a mensagem toda, mas eu conhecia palavras francesas em quantidade suficiente para entender que se tratava de um alerta aos turistas para que tomassem cuidado com os batedores de carteiras. Era uma prova de que a tranquilidade paradisíaca de Toulon ficara mesmo a centenas de quilômetros de distância. E a terceira coisa que vi eliminou de vez qualquer possibilidade de dúvida quanto a esse ponto: um grupo de policiais passou por mim conduzindo um jovem algemado.


Cheguei à torre e parei com um suspiro de desânimo. Conforme já relatei, havíamos combinado um encontro bem embaixo dela. Eu havia imaginado ingenuamente que chegaria ao local e encontraria minhas duas companheiras de turismo calmamente sentadas num banquinho, acenando para mim; eu iria até lá e tudo estaria resolvido. Mas o que encontrei foi uma multidão de pelo menos duas mil pessoas, andando para todos os lados, ou enfrentando filas gigantescas que davam acesso aos elevadores da torre, ou ainda entrando e saindo das lojas que vendiam cartões postais, miniaturas da torre, chaveiros e outras bugigangas do tipo. Não havia meios de encontrar a Marcia e a Régine naquela multidão, a não ser me enfiando no meio dela. E foi o que fiz: andei por todos os cantos, inspecionei todas as filas, entrei em todas as lojas, várias vezes. No começo, estava achando tudo isso divertido. Afinal, havia mesmo coisas interessantes para se ver: os souvenirs das lojas, a paisagem do Champ de Mars, a estrutura gigantesca e toda entrelaçada da própria torre vista de baixo, e mesmo as pessoas: a diversidade de rostos, roupas e idiomas constituía por si mesma um espetáculo.


Tudo isso, porém, começou a me cansar depois de um tempo, pois eu havia viajado e caminhado bastante, e estava agora faminto, com as mãos e os ombros doloridos por causa da mala e já começando a pensar no que faria se as duas não aparecessem. Toulon era um lugar bem mais acolhedor que Paris, e eu sequer tinha o endereço do hotel em que a Marcia havia feito as reservas para nós. Após meia hora de procura, desisti de andar e decidi ficar parado perto de uma das lojas - que ficava alguns degraus acima do restante do terreno - e ficar observando dali a multidão.


Ao depositar a mala no chão, apertada entre meus pés (eu não me esquecera do cartaz que alertava sobre os ladrões), olhei para o aglomerado de pessoas e vi, no primeiro ponto em que pousei os olhos, a Marcia apontando uma câmera fotográfica para mim; a Régine estava ao seu lado. Sorri, feliz por encontrar pessoas queridas naquela cidade de rostos estranhos, e aliviado por estar agora na companhia de alguém que sabia se virar naquele lugar. Enquanto elas vinham em minha direção, ainda pensei: "mas será que elas estão me fotografando e rindo de mim há meia hora?". Felizmente, elas garantiram que haviam acabado de chegar.

5 de novembro de 2009

Reflexões nagelianas

Em contraste com este blog, em que costumam aparecer textos longos, detalhados e algo sisudos, no blog de meu amigo Gustavo Nagel predominam os pensamentos curtos, aforísticos e bem-humorados. Faz tempo que tenho vontade de me aventurar um pouco nesse ramo, apenas para fugir momentaneamente da rotina. Inspirado pelo exemplo de meu amigo, comecei, portanto, a escrever algumas coisas que me passavam pela cabeça, e agora as publico, devidamente divididas por temas. Nem todas são aforísticas ou bem-humoradas, mas ao menos são curtas.

Ciência

Quando dizemos que a ciência moderna só pôde surgir graças à cosmovisão teísta e cristã, alguns materialistas pensam que com isso estamos tentando justificar e preservar o cristianismo. Porém, o que estamos tentando fazer é justificar e preservar a ciência.

Um dos efeitos mais palpáveis de meu envolvimento pessoal em atividades de pesquisa científica foi a perda da confiança, compartilhada por tanta gente hoje em dia, na autoridade da ciência e dos cientistas.

César Lattes, o maior físico que o Brasil já teve, o que por duas vezes chegou perto de ganhar o Nobel, nunca fez pós-graduação e achava que tal empreendimento era perda de tempo. Deve ter sido, pois, a título de insulto, e não de homenagem, que deram seu nome à plataforma nacional de currículos acadêmicos.

Saber das coisas é ótimo, mas o ato de aprender é demasiado árduo e desagradável. Felizmente temos no MEC pessoas que sabem disso e fazem de tudo para nos proteger de semelhante experiência.

Irreligião

Em entrevista à Veja, o matemático anticristão John Allen Paulos afirmou que o fato de grandes matemáticos terem sido cristãos nada diz em favor da religião. O Gustavo replicou (num dos posts excluídos junto com seu antigo blog, creio eu) que "prova apenas que só um atrasado mental para opor uma coisa à outra". Eu concordo, mas vou além. Quem foi que disse que a religião precisa do aval da matemática? Na verdade, tal fato nada prova em favor da religião; mas talvez prove alguma coisa em favor da matemática.

Muita tinta é gasta pelos céticos quando eles tentam esclarecer para si mesmos as razões pelas quais seus argumentos antirreligiosos, que a eles próprios parecem irresistivelmente convincentes, não surtem o efeito desejado na conversão dos crentes ao seu "descredo". Quase todas as teorias propostas começam tecendo considerações sobre a falta de humildade das pessoas que invariavelmente aderem a sistemas de crenças que concedem importância cósmica às suas existências. E quase todas terminam com louvores indisfarçados aos que têm coragem de abrir mão de tais pretensões. Eis o ponto mais próximo a que esses senhores são capazes de chegar da verdadeira humildade.

Por mais que os ateus militantes gostem de fazer fama como mártires da razão perseguidos pelas forças tenebrosas do obscurantismo, não sou nem um pouco favorável a qualquer esforço de calá-los. Não só por causa da tal liberdade de expressão, mas também por uma questão estratégica. Um exemplo concreto deixará claro o que quero dizer: sou favorável à prisão de Dawkins, mas não para que ele se cale. Ele deveria ser enjaulado e levado numa viagem por todo o mundo, tendo a oportunidade de pregar contra a religião em cada pequeno povoado, com direito a tradução simultânea. Com base em minha própria experiência, creio que bem poucos gostariam de renegar a fé ou permanecer na descrença uma vez que vissem diante de si o próprio resultado encarnado dessas atitudes.

Não é verdade que não respeito escritores não-cristãos. Em média, respeito-os tanto mais quanto menos escrevam sobre o cristianismo.

Percepções gerais sobre a vida

Fazer fofoca nada mais é que confessar os pecados dos outros.

O problema da filosofia, da literatura, da música e do cristianismo é um e o mesmo: seus elementos menos dignos recebem muito mais publicidade que os melhores. Karl Marx, Paulo Coelho, Engenheiros do Hawaii e Bento XVI se equivalem perfeitamente na medida em que prestam aos seus respectivos campos de atuação o mesmo péssimo serviço.

Eu tinha cerca de cinco anos quando ouvi falar pela primeira vez na doutrina bíblica da eleição incondicional. Explicaram-me (não com essas palavras, creio) que Deus escolhera de antemão aqueles que seriam salvos e preordenara todos os eventos que levariam a isso, com base em critérios em nada relacionados aos méritos dos seres humanos. Ao ouvir a explicação, entendi imediatamente a razão pela qual a eleição era incondicional, mas não entendi por qual motivo um termo eleitoral deveria ser aplicado a esse caso. Na tentativa de compreender isso, logo imaginei as três pessoas da santíssima Trindade reunidas em torno de uma mesa, antes da fundação do mundo, examinando uma extensa lista de nomes e literalmente votando pela salvação ou não de cada um. "E se não houver votos brancos e nulos", pensei com satisfação, "não poderá haver empate".

O Chantilly, um dos gatos da minha namorada, adora perseguir sombras e tentar mordê-las. Quando tentamos brincar com ele agitando as mãos ou algum objeto, ele frequentemente ignora tudo isso e concentra sua atenção na sombra correspondente, que se agita no chão ou na parede. É o oposto exato da alegoria da caverna: um felino perfeitamente antiplatônico.

Poucas experiências nos alertam de maneira tão eficaz sobre a fragilidade humana quanto o ato de engasgar com a própria respiração.

Catolicismo

No centro de minha cidade há um prédio que já deve ter abrigado alguma instituição católica, a qual posteriormente cedeu lugar a um hotel. Está ainda pregado na porta um cartaz dos velhos tempos, ao qual os novos proprietários simplesmente juntaram um segundo. No primeiro se vê uma gravura da Virgem Maria com os dizeres: "O caminho da fé". E o segundo acrescenta: "Pague com Visa Electron".

Ao ver seu vizinho católico ajoelhando-se diante de uma estátua, o protestante comum, apegado à simplicidade de sua fé, percebe imediatamente que catolicismo é idolatria - algo de que nós, protestantes metidos a intelectuais, às vezes chegamos a desconfiar depois de ler uns oitenta livros.

O Gustavo acha, conforme declarou aqui, que "o maior argumento contra o protestantismo talvez seja o fato de a Igreja ter subsistido 1500 anos sem ele". Eu concordo plenamente. Mas, ao passo que ele considera essa uma excelente razão para deixar de ser protestante, eu considero que a falta de argumentos melhores é um ótimo motivo para continuar a sê-lo.

Esquerdices

É curioso como aquelas mesmas pessoas que desprezam revistas como Veja, Época ou IstoÉ por seu sensacionalismo, suas fofocas ou seu direitismo tomam-nas como autoridade final e inerrante quando algo é publicado ali sobre o criacionismo, o aborto, o movimento gay, o cristianismo ou a Bíblia.

Em termos econômicos, o problema do socialismo é que, revoltados com a discrepância entre a condição de vida dos ricos e a dos pobres, seus defensores acabam apoiando planos de sociedade que levam todo mundo à miséria. Estatisticamente, o problema é que ele toma como provado o estranho teorema de que a diminuição do desvio padrão leva automaticamente à elevação da média.

Pessoas que, como Einstein, pensam que um governo mundial seria a única solução contra a opressão de algumas nações por outras parecem jamais pensar em se precaver contra a possibilidade de o próprio governo mundial oprimi-las todas.

Em sua ânsia tipicamente esquerdista de se opor a todas as "opressivas" regras, uma ardorosa militante feminista americana passou a escrever seu nome sem iniciais maiúsculas. A fim de transgredir a gramática, portanto, ela assina seus trabalhos como "bell hooks". Nada poderia ser mais apropriado para uma ideologia que despreza a personalidade e coisifica as pessoas. Diz o velho clichê que a sociedade sempre tratou a mulher como um objeto. Pois na nova sociedade as próprias mulheres tratarão a si mesmas, não como um objeto, e sim como vários deles. E agirão assim segundo o exemplo dessa que trata a si própria como um sino e um punhado de ganchos.

Filósofos

Leon Trotsky é até hoje venerado por boa parte dos socialistas que conheço não só por seus dotes intelectuais, mas também por ter se oposto a Stálin e morrido com uma picaretada na cabeça. Quanto a mim, embora condene a iniciativa de seu velho inimigo, não posso solidarizar-me com os que consideram sua partida deste mundo uma grande perda. Até onde posso ver, não havia na cabeça dele nada que fizesse valer a pena o esforço de abri-la de maneira tão violenta.

Tenho a impressão de que a filosofia de Nietzsche não é muito mais que uma racionalização literariamente talentosíssima das sensações viscerais despertadas no autor de maneira imediata por um contato apenas superficial com os objetos de sua análise. Ao contrário do que se costuma esperar de um filósofo, o órgão mais diretamente envolvido em sua atividade intelectual não é o cérebro, e sim o estômago. Não há sentido, portanto, em atribuir a Nietzsche o epíteto de "grande filósofo" com base nos textos que escreveu, a menos que se atribua o mesmo título a Pelé, em reconhecimento aos dribles e gols que fez.

Voltaire não era um filósofo, e não era sequer um intelectual no sentido legítimo dessa palavra. Era apenas um comediante; ou, se preferirem, um palhaço, no sentido não-pejorativo do termo. Mas, ao levar a sério demais suas próprias piadas, tornou-se um palhaço no sentido pejorativo.

Pretendo escrever, algum dia, um conto que narre o duelo verbal de dois reducionistas irredutíveis: de um lado, um revolucionário marxista que considera todos os desejos humanos como resultados dialeticamente determinados pela luta de classes; do outro, um psicanalista freudiano convicto de que o ímpeto de transformar o mundo é mero subproduto de desejos sexuais inconscientes e reprimidos.