23 de maio de 2012

Prolegômenos a toda encrenca futura - parte 2

Conforme prometido na primeira parte, exporei aqui as raízes de minhas reticências quanto à ideia teonomista. Dada a minha já confessada ignorância do assunto, esclareço desde já que de modo algum julgo impossível que haja respostas teonomistas adequadas para elas. É mais apropriado enxergar o que direi a seguir como uma lista de questões que precisam ser enfrentadas por um programa teonomista sério - e que espero que o tenham sido, de fato, pelo teonomismo real.

Em primeiro lugar, a teonomia parece ser construída em torno do silêncio do Novo Testamento sobre o fim da validade da lei civil, que os teonomistas tomam como argumento em seu favor, dado o contraste com o que acontece em relação à lei cerimonial. (Na verdade, não estou de todo convencido de que o Novo Testamento guarda silêncio sobre o tema, mas, como estamos nos prolegômenos, farei essa concessão.) Como eu disse no post anterior, esse fato precisa ser explicado. Mas o silêncio geralmente admite mais de uma interpretação. Por exemplo, do fato de que a Bíblia não apresenta a soberania divina e a responsabilidade humana como foco de tensão filosófica, McGregor Wright infere, em A soberania banida, que não existe tensão alguma. Contudo, essa conclusão é ditada de modo evidente por sua predisposição racionalista; afinal, também pode ser que a tensão exista, mas Deus simplesmente não a considere importante o suficiente para merecer menção em sua Palavra inspirada. Da mesma forma, o silêncio neotestamentário sobre a continuidade da lei civil pode ser tomado como evidência dessa continuidade, mas também pode ser que a nova dispensação seja tão diferente da antiga, que as ênfases e preocupações da igreja primitiva estivessem tão distantes do estabelecimento de um Estado cristão, que o próprio ato de declarar o fim da lei civil pareceria desnecessário, por ser demasiado óbvio a todos. Por isso, ao estudar a proposta teonomista, espero encontrar em seus defensores uma consciência dessa possibilidade e uma defesa de seu argumento em um nível mais profundo.

Digo isso em especial porque me sinto inclinado a crer que o silêncio, nesse caso, admite de modo mais plausível uma interpretação oposta. A queda da lei cerimonial foi extensamente discutida no Novo Testamento por ser uma pedra de tropeço para muitos. Enquanto o Novo Testamento estava sendo escrito, não havia mais nenhum Estado praticando de modo consistente a antiga lei civil de Israel, a menos que o Sinédrio de Jerusalém, submisso às leis romanas e assassino de Cristo, possa ser considerado legítimo representante dessa lei. E na prática, de qualquer modo, grande parte dos primeiros cristãos, judeus ou gentios, não estava sujeita a esse Estado. Diante de tal cenário, o silêncio parece indicar que ninguém na igreja primitiva estava minimamente preocupado com isso: nem os apóstolos, nem os judeus que creram em Jesus como seu Messias, nem os gentios que aderiam à nova fé. Acho difícil conciliar com naturalidade esse fato com o argumento dos teonomistas de que o silêncio neotestamentário é favorável à sua posição, de modo que espero encontrar, quanto a isso, uma argumentação teonomista bem construída.

Ligada a esse ponto está outra fonte de desconfiança que tentarei explicar, embora não seja lá muito fácil. Ela talvez decorra do não muito que tive oportunidade de aprender sobre outras grandes religiões do mundo, em especial o islamismo, que, em muitos aspectos, está mais próximo do judaísmo antigo que do cristianismo. Um dos pontos que os autores islâmicos usualmente levantam sobre Jesus é o que lhes parece um ministério profético incompleto. Ulfat Aziz Assamad, por exemplo, nos diz em seu livreto O islam e o cristianismo:

"Jesus nunca se casou, e por isso não pôde se tornar um marido e um pai ideal. Ele não venceu seus inimigos, e por isso não teve oportunidade para mostrar como um vencedor deveria se comportar para com seus inimigos vencidos que não haviam poupado esforços para aniquilar a ele e aos seus seguidores. Ele não teve seus perseguidores à sua mercê, e por isso não teve ocasião para mostrar a verdadeira moderação e misericórdia. Jesus não ascendeu ao poder para poder se tornar um modelo de governante e juiz benevolente e justo."

É natural ao muçulmano enxergar as coisas dessa forma, em especial porque a vida de Maomé oferece exemplos completos em todos esses pontos, e muitos outros. O que também deve ser percebido, contudo, é que o fato de um muçulmano ver isso como prova da superioridade de Maomé sobre Cristo do ponto de vista profético é bastante revelador da ênfase islâmica na exterioridade e na concretude. Sabemos perfeitamente que o estilo de vida que Jesus levou neste mundo, tal como narrado nos evangelhos, é atípico e não constitui modelo para nós. Quando falamos em ser imitadores de Cristo, não pensamos nesse aspecto exterior que é o primeiro (embora não necessariamente o único) a ocorrer a um muçulmano quando fala na "imitação do Profeta". Afinal, é de suma importância para a cosmovisão islâmica o fato de que, sob muitos aspectos, Maomé era um homem comum. Desse modo, ao fazer apologética contra o islamismo, a pior coisa que poderíamos fazer é tentar competir com ele em suas próprias prioridades, buscando estabelecer, a partir das escassas narrativas dos evangelhos sobre a vida de Cristo, orientações concretas para toda a ampla variedade de situações e dilemas que a vida oferece, como fazem os hadiths com base na vida de Maomé.

Fiz essa breve digressão sobre a visão islâmica da vida de Cristo porque ela fornece um paralelo exato para a visão islâmica da lei: pertence às ênfases primordiais dessa religião o desenvolvimento de uma comunidade política pautada no que seus devotos entendem ser a vontade divina, bem como de leis e escolas de jurisprudência diretamente fundadas em sua revelação. Também nesse aspecto, parece natural aos muçulmanos criticar o cristianismo por sua falta de concretude. Assamad afirma, de modo triunfante: "O islam, e não o cristianismo, proporciona uma orientação completa em todos os aspectos e situações da vida, individual como também social, nacional assim como internacional".

Mas por que estou contando tudo isso? Apenas para esclarecer os motivos pelos quais, tendo eu conhecido um pouco melhor o espírito da fé islâmica, sou instintivamente avesso a atitudes semelhantes no meio reformado. É necessário, porém, entender bem onde vejo a semelhança. Não é nas tão propaladas (e obviamente falsas) semelhanças entre reformados teonomistas e muçulmanos radicais. O que estou dizendo é que a visão teonomista da Lei não me parece combinar bem com outros aspectos da cosmovisão cristã. Quando o muçulmano critica as limitações de Cristo como modelo, somos unânimes em apontar que, quanto a esse aspecto, o papel de Cristo não se situa no estilo de vida e outras condutas bastante concretas. Mas, se o muçulmano criticar a falta de modelos de lei civil, alguns dentre nós aceitarão prontamente os termos da crítica, contrapondo a um sistema legal outro sistema legal, e dirão que nós temos a lei civil do Antigo Testamento; fazendo isso, reduzirão a questão à decisão sobre qual é o melhor sistema, perdendo, assim, a oportunidade de denunciar, uma vez mais, a exterioridade do conceito islâmico de submissão a Deus. Seria por já terem incorporado essa mesma exterioridade em um aspecto de sua própria cosmovisão? Não posso deixar de desconfiar que o problema talvez seja exatamente esse. A argumentação teonomista terá pela frente a tarefa de afastar de mim essa suspeita.

Esse possível problema que busquei ilustrar a partir de um paralelo com o islamismo, por sua vez, levanta outra desconfiança. Como racionalista em remissão, conheço bem a sensação de pavor e confusão diante da falta de regras claras pelas quais dissolver os dilemas impostos por uma determinada categoria de questões. Larry Crabb me convenceu de que essa sensação é o ímpeto fundamental que está por trás tanto do racionalismo quanto do legalismo. Não é absurdo supor, ao menos a título de possibilidade, que a ideia de aplicar a antiga lei civil de Israel aos dias de hoje pareça atraente a alguns justamente por faltarem, no Novo Testamento, diretrizes concretas e específicas para a aplicação dos princípios cristãos nessa área, e porque fazer tal aplicação é um trabalho reconhecidamente árduo e arriscado. É claro que não estou dizendo que essa consideração sobre motivações hipotéticas é um argumento contra a teonomia, inclusive porque seus adversários estão sempre, em alguma medida, sujeitos à tentação oposta de, com medo de cair em um tradicionalismo estéril, ceder demais aos ídolos da modernidade. Estou dizendo apenas que considero que essa motivação é ao menos um perigo real, e gostaria de obter evidências de que os teonomistas com quem travarei contato têm consciência disso e se preocupam a respeito, pois isso fortalecerá a credibilidade de sua reivindicação. Por outro lado, a ausência de tais evidências enfraqueceria de modo considerável essa credibilidade, pois isso revelaria que essa possível motivação é um ponto cego na cosmovisão dos teonomistas.

Outro ponto que espero ver assegurado pelo teonomismo diz respeito à própria possibilidade de consistência da antiga lei civil sem sua contraparte cerimonial. Essa questão me ocorreu enquanto eu lia o belo livreto Lei e graça, do nosso amigo pastor Mauro Meister. A obra dedica um total de apenas três páginas à questão da teonomia, mas o ponto que me chamou a atenção não estava entre elas, e sim em sua breve análise do estabelecimento das cidades de refúgio em Números 35, pelo qual algumas cidades dos levitas deveriam acolher homicidas involuntários, protegendo-os de seus vingadores. Aqui estão claramente envolvidas as leis civil, pois trata-se de uma determinação jurídica, e cerimonial, pois pressupõe-se a existência dos levitas como tribo separada. Não vejo de que maneira a abolição do aspecto cerimonial da lei poderia deixar intocada a lei civil. As opções disponíveis parecem ser as seguintes: abolir as cidades de refúgio, desconectar a ideia das cidades de refúgio da tribo de Levi, estabelecendo-as em cidades comuns, ou esquecer as cidades de refúgio literais e buscar apreender apenas o princípio jurídico subjacente; mas nenhuma dessas opções deixa a lei civil intacta. Deve haver uma solução teonomista para o dilema, mas ele, de qualquer forma, ilustra o princípio que tenho em mente: não basta estabelecer a plausibilidade exegética da perpetuidade da lei civil se não soubermos o que fazer a partir daí. Talvez a unidade da antiga Lei seja ainda mais forte do que supõem os próprios teonomistas, e alguns pontos da lei civil (ou muitos, ou todos) não façam sentido se desvinculados da lei cerimonial. De um modo ou de outro, uma divisão na lei precisa ser feita, e é necessário, portanto, demonstrar que o resultado disso será um corpo legislativo internamente consistente e aplicável à nossa presente realidade. Espero que os defensores da teonomia tenham trabalhado sobre esse ponto e não tenham achado a tarefa mais fácil do que realmente é.

E isso nos leva ao último ponto. A consciência de minha própria ignorância, além de ser o motivo pelo qual nunca me animei a escrever sobre a teonomia, é também o motivo pelo qual não me animei sequer a estudar suas propostas. Estou convencido de que uma análise completa e consequente do tema exigiria conhecimentos que não possuo - de filosofia política, direito, história, economia e sociologia, sem deixar de fora, é claro, a teologia. Dessa forma, parece-me natural supor que um teonomista militante, no bom sentido do termo, deve ter um interesse razoavelmente profundo em entender as implicações e dificuldades da implementação de seu ideal para cada uma dessas áreas, não crendo ingenuamente que tudo se resume a ler a Bíblia. Isso, uma vez mais, não é uma consideração contra a teonomia em si, a não ser em um sentido indireto. Sou otimista quanto a encontrar teonomistas cônscios da magnitude da mudança que estão propondo e do trabalho intelectual que têm pela frente. Mas, se essa minha expectativa não se concretizar, entenderei isso como sintoma claro de que algo não vai bem no espírito do movimento.

Encerro aqui esta resumida análise do que vejo, em caráter preliminar, como potencialmente positivo ou negativo na teonomia. Embora eu não escreva senão em meu próprio nome, creio que vários leitores que têm interesse no assunto terão se identificado com algumas de minhas ideias preliminares. Nesse sentido, espero que os teonomistas e seus críticos tenham aproveitado, desses meus dois textos, a oportunidade de discernir melhor as motivações de seus opositores e, quem sabe, também as suas próprias. No que me diz respeito, ao menos foi esse o gratificante resultado que obtive do esforço de escrever sobre o assunto. Não é meu objetivo suscitar debates, mas considerações sobre os pontos que levantei são bem-vindas, bem como indicações de livros ou textos que porventura lidem com eles.

14 de maio de 2012

Prolegômenos a toda encrenca futura - parte 1

Ao discorrer sobre o poder civil e sua relação com a religião no último capítulo das Institutas, Calvino precisou lidar com a seguinte questão: visto que já existiram no mundo uma nação, um Estado e um corpo de leis constituídos pelo próprio Deus (a saber, o Israel do Antigo Testamento), e visto que o Novo Testamento (em especial a Epístola aos Hebreus) ensina o caráter provisório dos pactos anteriores, como saber o que é permanente e o que é transitório na antiga dispensação? Para responder a essa pergunta, Calvino se apossou de uma ideia já existente, segundo a qual a antiga Lei se divide em três partes: lei moral, lei cerimonial e lei civil. Essa distinção se tornou usual no meio teológico reformado, e a visão tradicional tem sido a de que apenas a lei moral continua de pé, de modo que os Estados estavam desobrigados de impor - e os governados, de seguir - os aspectos cerimoniais e civis da Lei do Antigo Testamento. No século XX, porém, alguns teólogos calvinistas passaram a advogar uma ideia a que deram o nome de "teonomia" (ou "teonomismo", que usarei como sinônimo neste texto), segundo a qual apenas a lei cerimonial foi abolida, permanecendo de pé não só a lei moral, mas também a lei civil do antigo Israel. É fácil perceber que, em decorrência disso, os teonomistas possuem uma visão diferente sobre o papel do Estado, as melhores práticas jurídicas e assuntos ligados a esses.

Vários irmãos reformados, tanto entre os favoráveis quanto entre os contrários à teonomia, talvez por perceberem que tenho algum conhecimento sobre política, já me incentivaram a escrever uma avaliação dessa ideia. Sempre me recusei a fazê-lo, e continuo me recusando, com base em um senso apropriado do tamanho de minha ignorância. Tenho razões para crer que boa parte de meus incentivadores superestima meus conhecimentos teológicos, políticos ou ambos. Por isso, convém esclarecer que não li nenhum livro que trate do assunto, exceto por alguns que o fazem de passagem, e sequer li artigos ou postagens que defendessem com razoável solidez alguma posição acerca do tema. Tudo o que sei a respeito provém de conversas informais, discussões virtuais (que apenas testemunhei em silêncio) e fragmentos colhidos em textos cujos temas principais, de algum modo mais ou menos incidental, tocaram nessa questão. É claro que isso não me impede de ter uma opinião preliminar, por assim dizer, mas me impede de dizer o que quer que seja com alguma autoridade.

Além dessa razão, que é de ordem racional, tenho outra, de ordem emocional, para não querer tomar parte em um debate sobre o tema: a constatação, levada a efeito em diversas oportunidades, de que o assunto tem um potencial enorme para gerar animosidades. Isso é bastante compreensível: se divergências políticas e teológicas já causam brigas com facilidade quando mantidas separadas, o resultado de juntar as duas coisas só pode mesmo ser explosivo. Desagrada-me especialmente o fato de que julgamentos pessoais são feitos de modo demasiado temerário por ambos os lados: os poucos teonomistas que conheço parecem estar quase sempre na defensiva, por estarem acostumados à acusação de que são legalistas frios e impiedosos, carrascos e partidários de uma inquisição calvinista. Por outro lado, os que se opõem à teonomia são muito facilmente tachados de secularistas, modernistas e rebeldes contra a Lei de Deus. Não nego que possa haver, de ambos os lados, exemplos que justifiquem essas acusações. Porém, quer falemos do ponto de vista intelectual, quer do espiritual, considero apropriado conceder ao interlocutor o benefício da dúvida, sobretudo quando o diálogo se dá entre irmãos em Cristo. Parece-me claro que isso faz parte do amor que nosso Senhor ordenou que tivéssemos uns pelos outros, e arrependo-me das vezes em que agi de modo diferente, embora nunca o tenha feito com relação a esse tema em particular.

Convém ter em mente todo esse preâmbulo a fim de entender a natureza do que vou dizer a partir daqui. Dada a ignorância confessada acima, minha consciência me impede de escrever sobre o assunto com fins polêmicos, e mais ainda com fins judiciais. Entretanto, a despeito dessa ignorância, não posso nem desejo negar que meus conhecimentos e opiniões gerais sobre teologia, política, filosofia, história, religiões comparadas e outros temas pertinentes me levam a assumir, se não uma posição, ao menos uma disposição preliminar acerca do tema. É sobre as raízes dessa disposição que pretendo discorrer aqui. O que farei a seguir não é, pois, uma discussão sobre o teonomismo, e sim apenas prolegômenos a qualquer discussão em que eu venha a me envolver futuramente sobre esse assunto. Isso é pouco, mas creio que é um passo fundamental, e ainda não vi ninguém fazendo algo parecido. É claro que não estou afirmando que ninguém o fez; não se esqueça o leitor de que sou um ignorante. Estou dizendo apenas que preferi escrever meus próprios prolegômenos antes de sair em busca dos alheios. Acho importante tomar consciência das próprias disposições antes de começar a estudar um assunto qualquer, e costumo fazer esse autoexame com certa frequência. A questão da teonomia não tem nada de especial quanto a esse ponto, exceto pelo fato de que resolvi usá-la para, pela primeira vez, tornar público e escrito o resultado do autoexame. Isso deverá me ser útil nos próximos tempos, quando eu começar a ler efetivamente sobre o assunto - o que não pretendo fazer com muito afinco, pois tenho outras prioridades. Além disso, seja para facilitar o trabalho de irmãos que porventura venham a dialogar comigo sobre o tema, seja para me orientar quanto ao que procuro, creio que é importante ter um ponto de partida bem definido e exposto.

Não quero transmitir uma falsa impressão de neutralidade. Se por teonomia entende-se a ideia de que a lei civil do antigo Israel continua tendo valor normativo hoje, eu não sou um teonomista, e guardo contra ela desconfianças algo severas. Apesar disso, considero legítimas algumas das preocupações e intuições de seus partidários, e nem sempre me parece justo o teor das críticas que se lhe fazem por aí. Portanto, estes prolegômenos não podem deixar de incluir tanto predisposições favoráveis quanto contrárias ao teonomismo. Porém, pelo fato de eu não ser um teonomista, estas últimas deverão predominar naturalmente, e por isso acho melhor começar com o que considero positivo nessa ideia.

Muito antes de ouvir falar em teonomia, eu já estava do lado de seus adeptos em sua rejeição do laicismo. Mas o que digo precisa ser entendido de modo adequado: não é que eu considere reprováveis os Estados laicos que existem; apenas não acredito na existência de tais entidades. Na verdade, falando de modo mais amplo, não creio em neutralidade humana em relação a Deus. Na esfera política, isso significa que o Estado, reconhecendo-o ou não, inevitavelmente proclama suas leis com base em alguma visão sobre Deus, o homem e a natureza. A pretensão moderna de um Estado construído sobre a suspensão do juízo acerca de um desses pontos, ou de todos eles, é apenas uma ficção fundada em uma cegueira peculiar à nossa civilização. O "Estado laico" moderno tem uma posição quanto a Deus, e ela se manifesta de modo bastante concreto em todas as instâncias. Além disso, eu defendo a ideia kuyperiana de que o Estado tem sua própria esfera de soberania, para cuja administração recebe autoridade diretamente de Deus. Daí se segue que a afirmação de que "todo o poder emana do povo", que consta no primeiro artigo de nossa Constituição, é, no fim das contas, anticristã, na medida em que enxerga no próprio homem a fonte última de sua legitimidade. Parece-me que o teonomista percebe adequadamente que um Estado que não busca estabelecer sua lei civil a partir do caráter moral de Deus, revelado em sua lei moral, está necessariamente em rebelião contra Deus, quer adote alguma modalidade de secularismo, quer adote leis oriundas de alguma outra religião.

Até onde sei, nenhum teonomista defende a validade permanente do aspecto cerimonial da antiga Lei. E nem poderia, penso eu, já que até uma leitura superficial do Novo Testamento é suficiente para refutar essa ideia. A despeito disso, no entanto, parece-me que o teonomista intui corretamente o fato de que qualquer divisão que façamos na Lei (por exemplo, entre moral, cerimonial e civil), embora possa ser útil para certos propósitos, incorre no risco de artificialidade em alguns de seus efeitos, quando não em seus princípios. A ênfase na unidade da Lei pode trazer outra categoria de riscos, mas tem também a vantagem de chamar nossa atenção para o fato de que a lei civil dada a Moisés não é arbitrária em um sentido relativista ou historicista, pois se fundamenta no caráter de Deus. Sendo assim, as preocupações da teonomia podem, se bem utilizadas, nos incitar à busca de uma compreensão mais profunda da lei civil de Israel e seus princípios subjacentes, bem como dos problemas resultantes das distorções presentes na lei civil vigente hoje em nossa sociedade.

Ainda que não se concorde com as conclusões do teonomista, as questões levantadas por ele são legítimas e chamam a uma reflexão mais séria e profunda sobre o que é permanente e o que é transitório nas disposições legais do Antigo Testamento, e sobre como podemos distinguir uma coisa da outra. Por exemplo, uma vez que se aceite a tradicional divisão tríplice da Lei, não podemos ignorar que o Novo Testamento é, no mínimo, bem menos explícito quanto à lei civil, ao passo que a cessação da aplicabilidade do sistema cerimonial é atestada ali de modo mais abundante. É importante que as razões disso sejam adequadamente compreendidas, seja para aceitar ou rejeitar a teonomia. Nesse ponto, os críticos não devem ser dogmáticos, no mau sentido do termo. Dados os pressupostos aceitos por ambos os lados, não pode haver nada de imoral em exigir, por exemplo, uma fundamentação exegética da capitulação da lei civil de Israel diante do advento de Cristo.

O elemento comum a todos esses aspectos positivos que acabo de listar é o cultivo potencialmente saudável de uma desconfiança mais profunda contra os efeitos da secularização, tanto no próprio Estado quanto na cosmovisão das pessoas em geral, e dos crentes em particular. Trata-se de um esforço consciente de refletir sobre a realidade política e jurídica à luz das Escrituras, como deve ser qualquer empreendimento levado a efeito por cristãos. Aprovo essa iniciativa e as preocupações que lhe subjazem, e acho que, conquanto a boa intenção possa ser desvirtuada, os teonomistas não deveriam, só por serem teonomistas, ser tratados como fanáticos, extremistas, ameaças à saúde pública ou qualquer coisa do gênero.

São esses os aspectos do teonomismo que me parecem positivos, ao menos de modo potencial, e acerca dos quais tenho a expectativa de que os teonomistas tragam contribuições positivas. No próximo post, darei continuidade a estes prolegômenos esboçando algumas de minhas desconfianças a respeito de seu empreendimento.

2 de maio de 2012

O terceiro doce

Nesta manhã de feriado, enquanto dou início a este texto, faz menos de duas horas que recebemos do veterinário a notícia da morte do Chocolate, nosso terceiro gato. Na sexta-feira às 23h, quando chegamos em casa depois de uma viagem de férias que durou dezoito dias, nós o encontramos bastante debilitado. Isso já acontecera antes: em outubro, depois de uma viagem bem mais curta, ele quase morreu, e só voltou para casa depois de uma semana de intensos (e excelentes) cuidados clínicos. Demorou, mas foi se recuperando. Devido a esse histórico, a despeito do cansaço da viagem, nós o levamos imediatamente à mesma clínica, cujo veterinário decidiu interná-lo depois de um breve exame. Desta vez, apesar das precauções que havíamos tomado, e de o gato ter sido muito bem tratado por um amigo nosso, as coisas tomaram outro rumo, e ele não reagiu bem ao tratamento veterinário. É desnecessário dizer que estamos tristes, e que sentiremos muita falta do nosso terceiro doce. Mas não escrevo agora para lamentar, e sim, pelo contrário, para fazer justiça às muitas alegrias que Deus nos deu através dele.

Tudo começou em um sábado de outubro de 2009, quando a Norma e eu ainda éramos apenas namorados. Na época, cantávamos no coral de nossa igreja, em São Carlos, e fomos até lá para um ensaio. Saímos no fim da tarde, pretendendo tomar um sorvete ali perto. Cinquenta metros depois, mudamos de ideia e demos meia-volta em direção ao ponto de ônibus. Foi nesse momento que surgiu na nossa frente aquele siamês marrom e bege, ainda não totalmente crescido. A Norma abaixou para conversar com ele, e o bichano imediatamente correu na direção dela, pulou em seu colo e não saiu mais. Percebi imediatamente que havíamos adotado mais um gato (uso o plural porque, embora obviamente não morássemos juntos, eu sabia desde há muito que iríamos nos casar).

Poucas semanas depois, quando já havíamos nos apaixonado pelo gato, ele desapareceu do apartamento da Norma, apesar das telas nas janelas e de todo o cuidado tomado com a porta. Depois de muito procurar e conjecturar, encontramos um defeito na tela da sala que não havia sido notado antes - nem, felizmente, pelos outros dois gatos. O Chocolate fugiu numa madrugada chuvosa, e sua ausência só foi notada na manhã seguinte. Seguiram-se momentos de aflição, preocupação e empenho; a Norma elaborou dezenas de cartazes e eu os distribuí pelos estabelecimentos comerciais da vizinhança, recebendo o apoio condoído de alguns comerciantes e o desinteresse ou mesmo insensibilidade de outros (que felizmente foram poucos). Gastei também incontáveis horas - algumas vezes com a Norma, outras sozinho - perambulando pela vizinhança em busca dele, especialmente à noite, quando os gatos são mais ativos. Por causa dessa experiência, hoje entendo melhor o drama daquele pastor da parábola da ovelha perdida. Também por causa dela, passei a conhecer todos os siameses da região, quase tive problemas com a polícia (os moradores daquele bairro pacato se assustaram com minhas perambulações na madrugada) e pude constatar que, à noite, de fato, todos os gatos são pardos. Mas nada disso deu resultado, ou pelo menos assim parecia.

Pedi a Norma em casamento na noite de 28 de novembro daquele ano. Quando fui deixá-la em casa, o porteiro nos contou que uma mulher estivera por ali dizendo que achara o Chocolate; ela deixara um número de telefone. Ligamos na manhã seguinte, e a mulher estava a apenas três quarteirões dali. Corremos até lá, e era ele mesmo, vivo e saudável. A casa era um salão de beleza que nunca víramos antes, e algumas clientes que haviam visto os cartazes o reconheceram quando ele apareceu. Levamos o gato embora, muito gratos e pra lá de felizes com o presente de noivado que Deus nos deu. Ele estivera desaparecido por três semanas, e tinha apenas alguns pelos claros no rosto, resultado do sol; mas nunca perdi a oportunidade de dizer que ele havia ido ao salão de beleza para fazer luzes.

De volta ao lar e muito bem tratado, o Chocolate terminou de crescer, engordou e deixou de ser o gato mais quieto e dócil do mundo para se tornar um autêntico pestinha. Na verdade, ele não tinha limites: se empolgava com as brincadeiras a ponto de não perceber que suas mordidas e patadas podiam machucar os outros. E, ao menos em alguns momentos, havia nele certa dose de raiva, como se ele temesse não poder confiar completamente em nós. Foram necessários vários meses de amor e disciplina para que isso desaparecesse, mas nosso esforço se mostrou bastante compensador: o Chocolate se tornou um gato não só razoavelmente obediente, mas também sensível e carinhoso, que se esparramava completamente quando chegava sua hora de receber carinho; e aquela raiva simplesmente sumiu com o tempo.

O Chocolate era um bicho cheio de disposição como nunca vi antes. Em contraste com a gorda lentidão do Mel e o hilário mau humor do Chantilly, ele tinha uma energia e uma alegria inabaláveis. Nada o perturbava. Quando ninguém podia brincar com ele, quando os outros dois o rejeitavam (na verdade, ele nunca chegou a ser aceito pelos gatos mais velhos), quando foi castrado e teve de passar semanas usando aquele cone ridículo e incômodo no pescoço, lá estava ele correndo, saltitando e miando alegremente pela casa, inventando algo com que se divertir. Ele aprendeu do Chantilly a arte de perseguir sombras nas paredes, reviveu o hábito do Mel de pegar nosso pé enfiando as patas pelo vão entre a cama e o chão, e inventou a técnica de nos chamar para brincar fazendo emboscadas no corredor, escondendo-se para nos "atacar" quando passávamos. Também inesquecíveis são seu hábito de "mamar" em qualquer roupa que estivéssemos usando e de demonstrar carinho esfregando a cabeça em nosso pé - na verdade, praticamente lustrando o sapato com a cabeça -, em vez de apenas esfregar o corpo na nossa canela, como os outros gatos fazem.

Depois que a Norma e eu nos casamos, os gatos foram conosco para Salvador, onde creio que ele viveu a parte mais feliz de sua vida, alcançando o auge tanto do carinho quanto da sapequice. Foi ali que, num período especialmente difícil para nós, ele geralmente me fazia companhia enquanto eu estudava as papeladas do trabalho e tentava cuidar da Norma e do nosso bebê. A foto abaixo foi tirada pela Norma em uma das ocasiões em que o cansaço prevaleceu e eu dormi abraçado aos papéis. Nada explica de modo mais eloquente a solidariedade felina que recebi nesse período.


Apenas dois meses depois de nossa mudança para o Ceará, o Chocolate teve a crise a que me referi no início do post. Por isso, e talvez em parte também pelo amadurecimento natural, uma parcela de sua energia se foi para sempre, embora ele nunca tenha deixado de ser um gato alegre. Ele passou a interagir menos com os outros dois, e passamos a lhe dedicar mais atenção, dando-lhe inclusive um momento de exclusividade todas as noites. Ele apreendeu o novo padrão bem depressa, e passou a vir pontualmente à nossa cama - ou ao banheiro, enquanto escovávamos os dentes - para cobrar sua sessão de carinho, que sempre terminava contra a sua vontade e, às vezes, sob intensos protestos.

A descrição dessa rotina é necessária para que se entenda o que vou contar agora sobre a última vez em que fizemos isso. Na noite do dia 8, domingo de Páscoa, véspera de nossa viagem, fui subitamente acometido de uma febre que chegou aos 39,3ºC. Fiquei deitado e imóvel, mas sem conseguir dormir, enquanto a Norma arrumava sozinha nossas malas. Em algum momento, ela notou que o Chocolate se postara à porta do quarto e a fitava com um olhar claramente interrogativo, em vez de simplesmente vir correndo e pular sobre a cama, como geralmente fazia. Decidimos deixá-lo vir até mim, e a Norma o colocou ao meu lado. Para nossa surpresa, ele não tentou "mamar", como de costume, e sim apenas me cheirou um pouco e se aninhou sobre o meu peito, fazendo uma companhia agradável e imóvel até que chegou a hora de dormir e a Norma o colocou para fora. Pela primeira e última vez, ele não protestou. Não queria de modo algum ser inconveniente.

Apesar da febre, não pude deixar de ficar emocionado com aquilo, e louvei ao Senhor por ele. Nunca me esquecerei do amor e da sensibilidade que ele teve para comigo naquela noite. Mas aquele momento foi, como agora sei, apenas uma despedida à altura dos dois anos e meio que ele passou conosco. Sou grato a Deus por essa pequenina parte de sua criação que cruzou nosso caminho e veio parar em nossa casa. Não sei o que lhe reserva o futuro em um sentido mais objetivo, mas o Chocolate foi muito amado enquanto esteve conosco e permanecerá para sempre como lembrança viva e concreta do amor de Deus por nossa família.

7 de abril de 2012

Oito conversas

Pouco mais de dois meses atrás, meu velho amigo virtual André Luiz, sujeito com quem já aprendi muito, mas com quem havia perdido contato, por minha culpa, há cerca de um ano e meio, me fez uma agradável visita neste blog, deixando comentários em nada menos que oito posts; alguns com perguntas, outros com sugestões e ideias interessantes. Ocupado e enrolado como sou, não tive ainda tempo de lhe mandar uma resposta decente, embora tenha enviado um e-mail dizendo uma coisa ou outra. Na presente postagem, pretendo responder aos seus oito comentários, na ordem em que foram feitos. É claro que as respostas não são exaustivas, mas creio que servirão ao menos como pontapés iniciais de diálogos potencialmente frutíferos.

1. Em O irracional dos racionalismos - parte 5, o André me recomendou a leitura do livro The Wisdom of Ancient Cosmology: Contemporary Science in Light of Tradition [A sabedoria da cosmologia antiga: a ciência contemporânea à luz da Tradição], de Wolfgang Smith, dizendo: "como o autor fala muitas cousas ligadas a tua área de formação, resolvi te perguntar a respecto dele. Se e quando puder, poderias tecer algumas considerações no teu blog ou por e-mail?"

Sou-lhe muito grato pela indicação do livro, que chegou no preciso momento em que estou reunindo uma bibliografia para iniciar um estudo mais aprofundado desse assunto, bem como de outros ligados à ciência moderna e a uma visão cristã da natureza. Já li alguma coisa do autor, inclusive por indicação do próprio André, e achei bem interessante. O mínimo que posso fazer em retribuição é comentar o livro devidamente. Só não sei se estou devidamente qualificado para fazê-lo neste momento de minha vida. Mas, mesmo que demore um pouco, farei isso.

2. Em O terror das nações - parte 1, post em que critiquei a defesa do governo mundial feita por Jean-François Revel no livro Nem Marx, nem Jesus, o André me disse: "Conheces esta proposta contra a Nova Ordem Mundial?" E colocou um link para o artigo A ideia eurasiana, do professor russo Aleksandr Dugin, traduzida para o português pelo próprio André.

Respondendo à pergunta, eu já havia lido esse artigo, bem como outras coisas escritas por Dugin, bem como de admiradores e críticos. Não é muito, mas dá para ter uma ideia geral. Devo dizer que não simpatizo com a proposta política de Dugin, e tampouco concordo com sua descrição da realidade. Ao mesmo tempo, considero pouco frutífero discuti-la no plano puramente geopolítico. Parece-me que o sistema de pensamento de Dugin tem certo grau de coerência interna, o que significa que seu pensamento político está bem fundamentado em seus pressupostos metafísicos e teológicos ortodoxos e tradicionalistas. A divergência política é apenas uma decorrência lógica dessas divergências em temas mais fundamentais.

3. Em comentário a O futuro do pretérito, post em que tratei do pseudoceticismo de Carl Sagan, o André Luiz me enviou, como "crítica interessante sobre a teoria da evolução", uma citação de Rama Coomaraswamy, autor tradicionalista de quem eu já ouvi falar, mas não sabia que era "geólogo de Harvard e doutor em medicina pela universidade de Nova York". A citação é de fato interessante e, enquanto não descubro de onde saiu, não resisto à tentação de transcrevê-la:

"É extraordinário que tantos cientistas aceitem como fato uma teoria que viola os próprios fundamentos de suas disciplinas. A ciência autêntica nos ensina que o que é maior não pode surgir do que é menor, mas a evolução ensina que o contrário ocorreu repetidamente e ainda está ocorrendo. A ciência nos diz que a Terra está se degenerando (lei da entropia), mas a evolução nos diz que está evoluindo. A ciência diz que nada acontece por acaso. A evolução postula uma série extraordinária de acasos e ignora o fato de que o 'acaso', quando usado neste sentido, nada mais é que a expressão de nossa ignorância sobre as causas envolvidas. A teoria matemática nos diz que a possibilidade de ocorrer um avanço evolucionário é tão remota a ponto de ser impossível (vide Frederick Hoyle), mas a evolução diz que isto aconteceu repetidamente e continua a acontecer. Vemos assim que a evolução não é científica, e tem de ser aceita com 'fé'. Talvez, apesar de tudo, seu lugar próprio seja a teologia..." 

Mas o André transcreveu esse trecho para me fazer uma simples pergunta: "Tu concordas que o 'maior não pode sair do menor'?" Num sentido qualitativo, que é evidentemente o pretendido por Coomaraswamy, estou de acordo, sem dúvida.

4. No post Lições de uma noite, em que fiz transcrições e comentários sobre um sermão natalino de Charles Spurgeon, o André destacou o trecho em que o pregador diz:

"Não há nenhuma probabilidade de que nosso Salvador Jesus Cristo tenha nascido nesse dia, e a observância dele é puramente de origem papal - sem dúvida os que são católicos têm o direito de reivindicá-lo - mas não posso entender como os protestantes consistentes podem tê-lo de alguma maneira como sagrado."

E, sobre esse trecho, levantou as seguintes questões:

"Mas por que Spurgeon afirma com tanta convicção que não há probabilidade de Nosso Senhor ter nascido na data assignalada? E como assim 'de origem papal'? Se fosse de origem papal, porque então nós, ortodoxos, tão contrários ao papismo, a comemoramos na mesma data?"

Quanto à primeira pergunta, tudo o que posso dizer é que existe entre os protestantes (mas não só entre os protestantes) um lugar-comum nesse sentido, baseado, se não me engano, em considerações sobre os supostos hábitos dos pastores de ovelhas da Palestina. Quanto à validade histórica dessas suposições, nada sei, e muito menos se o meio teológico reformado inglês do século XIX tinha acesso a essas informações (ou equívocos). Desse modo, não posso responder a essa pergunta por pura falta de conhecimento, o qual, por sua vez, deriva de minha falta de interesse no assunto. Mas estou ciente de que alguns defendem a historicidade do nascimento de Cristo em 25 de dezembro, entre os quais o historiador católico Vittorio Messori (aqui), que ganhou meu respeito graças a um livro muito bom sobre o "Jesus histórico".

Quanto à outra pergunta, creio que Spurgeon cometeu de fato uma imprecisão histórica. E esta, por sua vez, é reveladora da falta de conhecimento e de atenção que a cristandade ocidental, principalmente protestante, dispensa às igrejas do Oriente. Eu mesmo  sou bastante ignorante quanto à teologia ortodoxa, e esse é um defeito que pretendo começar a corrigir - em parte, talvez, com a ajuda do próprio André. Por outro lado, é certo que as Igrejas Ortodoxas, se comparadas ao catolicismo romano, tiveram influência insignificante na celebração do Natal como dia sagrado pelos ingleses do século XIX, de modo que, dada a natureza do público imediato de Spurgeon, sua generalização se justifica em alguma medida.

5. Na quarta postagem da série O irracional dos racionalismos, o André me dirigiu esta pergunta:

"Dado que a Revelação é dirigida aos homens, por que Cristo Nosso Deus não a tornaria totalmente acessível à mais alta das faculdades humanas, a razão?"

Sobre os problemas a que leva a visão racionalista das Escrituras, creio ter feito um bom resumo na terceira parte da mesma série. Posso acrescentar, contudo, duas observações. A primeira é que na verdade não creio que a razão seja a "mais alta das faculdades humanas", e não estou muito certo de que o próprio André Luiz pensa de fato assim. Eu aprecio aquela velha distinção, que encontrei pela primeira vez em Boécio, entre razão e inteligência, e tendo a pensar naquela como apenas um componente desta, um dos meios de que dispomos para chegar à verdade. A segunda observação, ligada à primeira, é que a razão não é capaz de funcionar bem ao trabalhar sobre assuntos com os quais a inteligência não conviveu o suficiente. Sendo assim, a Escritura, ao revelar realidades que só vivenciamos pela fé (pelo ensino e testemunho do Espírito Santo) e em medida limitada, não pode fazê-las absolutamente claras à razão humana. Aliás, a própria ideia de uma "razão humana" abstratamente isolada das demais faculdades humanas, inclusive espirituais, parece-me absurda.

6. Na segunda parte de Desamparo e entrega, a respeito de um comentário que fiz, de passagem, sobre as diferenças entre os quatro evangelhos, o André perguntou:

"Já ouviste falar sobre o 'evangelho tetramorfo', por meio do qual os Padres da Igreja defendiam que cada um dos evangelistas falava de Cristo sob um dos aspectos do Verbo encarnado presenciados na visão de Ezequiel e na de São João Teólogo, a saber, o Touro, o Homem, a Águia e o Leão? Talvez ajude, d'alguma forma, a elucidar a questão." 

Tenho uma vaga lembrança de um ou outro animal sendo apontado como símbolo de um ou outro evangelho. Mas não sabia que existia uma reflexão teológica mais sistematizada sobre o tema, e tampouco da associação com as visões de Ezequiel. O assunto parece interessante, e procurarei me informar a respeito. Agradeço ao André mais uma vez, e agradecerei mais ainda se surgirem boas indicações bibliográficas.

7. Na segunda parte de A verdadeira inteligência, em que transcrevi uma tradução feita por mim mesmo de um trecho de A consolação da filosofia, de Boécio - sem, contudo, acrescentar-lhe comentário algum -, o André perguntou:

"Em que pontos tu discordas da abordagem de Boécio?"

 Embora eu não tenha divulgado isso neste blog, fiz no outro um breve sumário de considerações, acordos e desacordos com relação ao trecho que traduzi. Escrevi de modo um tanto apressado e rascunhado, e alguns pontos podem ter permanecido obscuros. Mas acho que o referido post pode pelo menos servir como ponto de partida para a compreensão e discussão de minhas opiniões a respeito.

8. Sobre o post Retrato bibliográfico, em que publiquei uma lista dos vinte livros mais importantes da minha vida, o André fez um comentário algo extenso, mas que transcrevo integralmente por ter gostado muito dele:

"Lista pra lá de interessante, confrade, agradeço por fazê-la. Dando alguns pitacos, o libro do Don Richardson capta bem uma questão antropológica bastante 'inquietante' (num sentido positivo do termo). Tu conheces as obras de Mircea Eliade, um dos mais importantes historiadores da religião do úlptimo século? Recomendo vivamente obras como O sagrado e o Profano, Mito e Realidade e História das crenças e das idéias religiosas. De certa maneira, tratam do mesmo tema." 

Faço uma pausa aqui. Conheço, sim, embora superficialmente, a obra de Eliade, que de fato é muito interessante. Li parte de O sagrado e o profano, e creio que já li algo sobre as outras obras citadas. Recentemente vi alguns volumes da História das crenças e das ideias religiosas em uma livraria, e por pouco não os comprei. Pretendo vir a conhecê-lo bem melhor, inclusive porque o próprio André Luiz, embora talvez sem querer, me incentivou a isso há algum tempo. Há pouca semelhança de ideias ou de abordagens entre Eliade e Richardson, mas o assunto me interessa muito de ambos os modos. Agradeço ao André pelas recomendações. Mas ele disse mais:

"Eu gosto do Filosofias da Índia, do Zimmer, é uma boa introdução a vários aspectos do pensamento indiano. Mas há muitas falhas no libro, que é marcado ainda por certos vícios orientalistas e visa defender uma tese historicista sobre a articulação entre as várias idéias e darshanas da Índia. A melhor introdução às tradições desta terra são, segundo entendo, Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindús e O Homem e seu devir segundo o Vedanta, do René Guénon; e os libros Hinduísmo e Budismo e Hindus e Budistas, de Ananda K. Coomaraswamy." 

Eu desconheço detalhes sobre os problemas com os posicionamentos de Zimmer, mas lembro-me de ter notado alguns pontos discutíveis em sua abordagem, talvez por conta da influência junguiana. Se eu o tivesse lido mais tarde na vida, poderia ter me impressionado menos. Mas, tendo sido ele o primeiro a me apresentar de modo mais profundo as religiões indianas, devo-lhe muito, apesar de suas falhas, e é nesse sentido que ele merece um lugar na minha lista. Quanto a Guénon e Coomaraswamy, li alguma coisa de ambos; pouco, mas suficiente para pretender conhecer melhor esses também. Por mais que se discorde deles, são autores de quem se pode aprender muito.

30 de março de 2012

Covardia e decência

No dia 20 de outubro de 2011, Richard Dawkins, o eminente apologista do ateísmo e biólogo (nessa ordem, como muito bem observou Phillip Johnson), publicou no The Guardian uma exposição das razões pelas quais se recusa a debater com William Lane Craig, um dos mais famosos defensores da fé cristã na atualidade. Intitulado Why I refuse to debate with William Lane Craig [Por que me recuso a debater com William Lane Craig], o artigo de Dawkins responde à acusação de covardia feita por alguns de seus detratores de duas formas: primeiro, acusando seu desafiador de insignificância, o que é feito nos dois parágrafos iniciais; e depois, no restante do artigo, buscando desqualificar Craig moralmente, acusando-o de ser "um apologista do genocídio". Ele passa a descrever, com longas citações, a defesa que Craig fez em justificação moral à ordem dada por Deus em Deuteronômio 20.13-17, sentenciando à morte todos os cananeus, inclusive as crianças. Portanto, segundo o catedrático de Oxford, Craig não está qualificado para receber sua atenção, quer do ponto de vista intelectual, quer do moral. E, a julgar pelo espaço concedido a cada um desses dois pontos, parece que o segundo é, aos olhos de Dawkins, muito mais grave.

Eu não pretendo discutir aqui os argumentos sobre a questão do extermínio dos cananeus, ou de qualquer outro extermínio. Mas é importante registrar que não concordo integralmente com as razões oferecidas por Craig e citadas por Dawkins. Em especial, não concordo com certo posicionamento teológico de Craig, para quem todas as crianças pequenas que morrem obtêm a bem-aventurança no porvir. Portanto, acredito que a obediência dos israelitas à ordem de Deuteronômio, especialmente quanto às crianças, se justifica com base em outras razões, que não pretendo sequer mencionar na presente postagem. Dado o conteúdo do artigo de Dawkins, contudo, é evidente que minhas ressalvas quanto a essa ideia específica de Craig me tornariam ainda mais odioso que este aos olhos do biólogo.

As razões apresentadas por Dawkins para recusar o debate com seu aspirante a antagonista soaram pouco convincentes, não só a muitos cristãos, mas também a alguns ateus e agnósticos. O próprio The Guardian publicou duas queixas vindas de indivíduos que simpatizam com o ateísmo do professor de Oxford. Em 9 de novembro, o agnóstico Andrew Brown escreveu o artigo Richard Dawkins is wrong to call William Lane Craig morally repulsive [Richard Dawkins está errado em considerar William Lane Craig moralmente repulsivo], no qual, além de filosofar sobre Deus e a finalidade do sofrimento, discorda enfaticamente da condenação moral de Dawkins às opiniões de Craig. Porém, o cético Daniel Came já havia reprovado a postura de Dawkins em termos muito mais veementes: em 22 de outubro, apenas dois dias após a publicação do artigo de Dawkins, o texto de Came veio a público com o título Richard Dawkins's refusal to debate is cynical and anti-intellectualist [A recusa de Richard Dawkins a debater é cínica e anti-intelectualista], que resume bem o teor da reprovação. Além de fazer alguns comentários sobre o neoateísmo em geral e criticar certas posições filosóficas, tanto de Dawkins quanto de Craig, o autor faz algumas considerações interessantes. Pretendo, aliás, traduzir seu breve texto e publicá-lo neste blog qualquer hora dessas, se até lá não encontrar uma tradução já feita em algum canto da internet lusófona. Por ora, basta apontar que ele também discorda da condenação moral proferida contra Craig:

"Não me inclino a defender a política de infanticídio do Deus do Antigo Testamento. Mas, em matéria de lógica, Craig provavelmente está correto: se um bem infinito é possibilitado por um mal finito, então pode ser dito com razoabilidade que aquele mal foi compensado."

É inútil procurar, no artigo de Dawkins, argumentos que justifiquem o aspecto moral de sua condenação a Craig. Afinal, a apresentação de tais argumentos derrubaria sua pretensão manifesta: a de que a simples transcrição dos posicionamentos do pensador cristão, tais como se encontram em seus textos, já basta para demonstrar sua hediondez. O biólogo conclui dizendo ao leitor: "Você apertaria a mão de um homem que é capaz de escrever coisas como essas? Você dividiria uma tribuna com ele? Eu não faria isso, e não o farei." Em termos de argumentos, isso é tudo; ou, dizendo de modo mais preciso, é nada. Por isso não faço aqui nenhum esforço para contra-argumentar em resposta ao que não foi argumentado. A simples existência de dois não-teístas inteligentes que não consideram isso tão óbvio, para dizer o mínimo, já é suficiente para mostrar que há algo errado nessa parte da desculpa de Dawkins para não entrar no debate.

Resta verificar, portanto, se são melhores que essa as desculpas que apelam para a insignificância intelectual do criticado. Nesse campo, Dawkins apresenta dois argumentos, sendo que o primeiro aparece já nas palavras iniciais de seu artigo:

"Não se sinta embaraçado se você nunca tiver ouvido falar em William Lane Craig. Ele alardeia sua condição de filósofo, mas nenhum dos professores de filosofia que consultei afirmou já ter ouvido seu nome. Talvez ele seja um 'teólogo'."

Na verdade, em seu site Reasonable Faith [Fé racional], Craig se apresenta como filósofo e teólogo igualmente, e tem doutorados em ambas as áreas. Além disso, ele é professor de filosofia em uma faculdade de teologia. Objetivamente, então, ele é um filósofo e um teólogo. É ridícula, em primeiro lugar, a tentativa de Dawkins de desqualificá-lo enquanto filósofo e chamá-lo de teólogo como se esse termo fosse intrinsecamente pejorativo. Tal atitude só demonstra a ignorância de Dawkins sobre a natureza do trabalho do teólogo - ignorância da qual, aliás, compartilham quase todos os ateus que já conheci. Além disso, no entanto, a atitude de Dawkins é desonesta, na medida em que substitui um critério objetivo por um subjetivo na apreciação do caso. Para mim, alguém que tem doutorado em filosofia e é professor universitário de filosofia é um filósofo, embora seja possível ser filósofo sem esses requisitos e ninguém esteja livre de ser um péssimo filósofo pelo simples fato de possuí-los. Para Dawkins, contudo, um filósofo é apenas alguém de quem seus amigos filósofos (que não sabemos quantos nem quais são) já ouviram falar. Essa definição da palavra "filósofo", implícita nas palavras de Dawkins, é não só absurda, mas cômica: Dawkins está involuntariamente confessando que entende tão pouco de filosofia que precisa da opinião de um punhado amigos para saber quem é filósofo ou não.

Na verdade, essa declaração é absurda o suficiente para que seja justo indagar se Dawkins está sendo sincero em sua tentativa de rebaixar seu oponente. Came considera "bastante óbvio que Dawkins está oportunisticamente usando essas observações [de Craig] como uma cortina de fumaça para ocultar as verdadeiras razões de sua recusa de debater com Craig - a qual tem uma história que antecede em muito os comentários de Craig sobre os cananeus". E Came julga saber quais são essas razões: Dawkins e outros neoateístas "não estão exatamente ansiosos para entrar em um fórum público com um teísta intelectualmente rigoroso como Craig para ter suas visões dissecadas e a inadequação de seus argumentos exposta". São comentários notáveis vindos de um agnóstico, e mostram que Craig possui o respeito de pelo menos alguns de seus adversários nos terrenos filosófico e teológico.

Eu não li as mais recentes investidas de Dawkins contra a religião, mas o que testemunhei das antigas não me estimula a pensar que haja injustiça da parte de Came. O próprio Dawkins não ajuda a melhorar sua imagem com desculpas decentes. Vejamos seu segundo argumento, que traz sua resposta específica à acusação de covardia:

"A isso eu diria apenas que declino de centenas de convites mais dignos a cada ano, enfrentei publicamente um arcebispo de York, dois arcebispos da Cantuária, muitos bispos e o rabino chefe, e estou agora aguardando meu encontro iminente, e sem dúvida civilizado, com o atual arcebispo da Cantuária."
É impressionante que, depois de ter procurado desqualificar Craig enquanto filósofo e demonstrar desprezo pela qualidade intelectual dos teólogos, Dawkins venha apresentar apenas seus debates com teólogos como prova de que não é um covarde. O biólogo julga diminuir a estranheza da alusão apontando teólogos que possuem elevados títulos eclesiásticos. Mas é evidente que isso, embora possa ser útil como prova da insignificância política de Craig, não ajuda em nada contra a acusação de covardia, que é o que está em questão. Dadas as premissas de Dawkins, um teólogo é alguém intelectualmente desprezível, não importando quão bom teólogo seja. Ninguém acreditaria na rapidez de um homem se o visse se vangloriando de ter apostado corridas com as tartarugas mais velozes do mundo. E a situação ficaria pior ainda se ele usasse essas corridas como prova de que não está agindo como um covarde quando se recusa a disputar com um atleta experimentado. Além disso, embora a visão de Dawkins sobre os teólogos seja pueril e preconceituosa, é verdade que não é comum encontrar um teólogo versado em debates contra ateus. Eu mesmo ouvi falar em Craig pela primeira vez nos livros do jornalista Lee Strobel, ateu convertido ao cristianismo, que conta de seu primeiro encontro com o apologista cristão alguns fatos que bastam para justificar os piores temores de Dawkins:

"A primeira vez em que vi Craig em ação foi de uma perspectiva incomum: eu estava sentado atrás dele enquanto ele defendia o cristianismo perante uma multidão de aproximadamente oito mil pessoas, com mais um número incontável de ouvintes acompanhando-o através de mais de cem estações de rádio que transmitiam seu discurso. Eu era o moderador de um debate entre Craig e um ateu escolhido pelo porta-voz nacional de American Atheists Inc. [...] No fim, não houve embate. Entre os que entraram no auditório naquela noite como ateus, agnósticos ou céticos jurados, a grande maioria de 82% saiu convencida de que o cristianismo tinha sido mais bem defendido do que o ateísmo e 47 pessoas entraram como descrentes e saíram como cristãos - os argumentos de Craig em favor da fé os tinha persuadido, especialmente na comparação com a pobreza de evidências em favor do ateísmo. E, diga-se de passagem, ninguém se tornou ateu."

Na verdade, o hábito de Dawkins de fugir de debates com pessoas qualificadas é já antigo. Quem sofreu na pele os efeitos disso foi o bioquímico americano Michael Behe, autor do conceito de complexidade irredutível (exposto pela primeira vez em seu livro A caixa preta de Darwin, de 1995) e defensor do design inteligente como melhor explicação para a origem de certas características bioquímicas dos seres vivos. Em uma entrevista concedida em 1999, foi perguntado a Behe sobre a reação de Dawkins ao seu livro. O bioquímico contou, então, a seguinte história:

"Um programa de TV público chamado Think Tank estava interessado em organizar um debate entre mim e Dawkins. Eles perguntaram se eu estaria disposto a participar, e eu alegremente disse que sim. Eles entraram em contato com Richard Dawkins, mas ele se recusou a aparecer comigo dizendo que era insuficientemente versado em bioquímica para discutir o assunto. Entretanto, o programa de TV pediu para Dawkins aparecer sozinho, e ele fez isso. Durante a entrevista, que eu tive oportunidade de ver recentemente, o apresentador do programa perguntou a ele sobre o meu livro. Ele pareceu pegar a ideia de complexidade irredutível muito bem. Porém, ele disse que era covarde e preguiçoso da minha parte chegar à conclusão de um design inteligente, e disse que, se eu pensasse por mim mesmo, eu iria perceber que deve haver em algum lugar uma explicação darwiniana, e que eu deveria levantar o meu traseiro e ir procurá-la."

É claro que a situação seria muito pior para Dawkins se ele tivesse dito que Behe não é um bioquímico, citando como prova o testemunho de amigos bioquímicos que nunca ouviram falar nele. Ainda assim, a narrativa põe a nu uma falha moral grave que, infelizmente, só piorou nos últimos anos, como demonstra o episódio mais recente envolvendo Craig. Mas isso não é tudo. Em seu artigo, Dawkins faz muito mais que difamar um único apologista do cristianismo. Diz ele:

"A maioria dos eclesiásticos de nossos dias sabiamente renega os horríveis genocídios ordenados pelo Deus do Antigo Testamento. Qualquer um que critique a divina sede de sangue é energicamente acusado de ignorar injustamente o contexto histórico e de literalismo estreito diante de algo que nunca foi mais que metáfora ou mito. Você teria de procurar muito para encontrar um pregador moderno desejoso de defender o mandamento de Deus, em Deuteronômio 20.13-15, para matar todos os homens em uma cidade conquistada e pilhar as mulheres, crianças e animais. [...] Você poderia dizer que tal convocação ao genocídio nunca poderia ter vindo de um Deus bom e amoroso. Qualquer bispo, sacerdote, vigário ou rabino decente concordaria."

Temo que Dawkins esteja correto em sua descrição da mentalidade atual de grande parte das igrejas cristãs na Europa, que padecem do parasitismo da teologia liberal desde há muito e facilitam o trabalho dos apologistas do ateísmo. Mais que isso, porém, salta aos olhos no trecho acima o fato de que a reprovação moral de Dawkins não se restringe de modo algum a Craig, mas estende-se a todos os judeus e cristãos que levam a sério as declarações de seu livro sagrado. Com sua atitude, portanto, Dawkins está condenando a crença na própria revelação bíblica e deixando claro que, no que depender dele, o cristianismo e o judaísmo não têm direito algum sequer de ter suas razões ouvidas em público.

É assim que um grande apologista do ateísmo espera calar seus oponentes: dogmaticamente, sem debate algum. A fama de Dawkins como defensor da racionalidade e do livre-pensamento contra a tirania do dogmatismo já é um sinal claro de que as coisas não vão bem em nossa civilização. Mas é um sério agravante o fato de que muita gente o julga apto a dizer quem é ou não uma pessoa decente.

26 de fevereiro de 2012

Empréstimo perpétuo

Faz muito tempo que não escrevo sobre política neste blog e, embora eu não veja nada de ruim nesse silêncio, um dos últimos livros que li me convenceu de que valia a pena fazer um post sobre o assunto. (O livro em questão nos foi emprestado pelo nosso amigo pastor Mauro Meister, que, mui generosamente, não o quis de volta quando tentamos devolvê-lo.) Trata-se de uma obra intitulada The challenge of marxist and neo-marxist ideologies for christian scholarship [O desafio das ideologias marxistas e neomarxistas para a academia cristã], que contém contribuições de onze autores de diversas partes do mundo, organizadas por John C. Vander Stelt, e foi produzido como resultado da Terceira Conferência Internacional de Instituições Reformadas para a Educação Superior, encontro realizado nos EUA (Sioux Center, Iowa) em agosto de 1981. O que há em comum entre todos os autores é apenas o fato de que são cristãos reformados, não se identificam como marxistas e estão, de algum modo, ligados ao movimento neocalvinista. Eu esperava que o livro fornecesse um panorama do pensamento político neocalvinista, e também descobrir em que medida esse movimento ainda se alinha, quanto a esse tema, às posturas conservadoras de Abraham Kuyper. Havia razões para esperar uma decepção nesse sentido, o que de fato se confirmou, mas não de modo tão desinteressante que não mereça uma postagem. No presente texto, tudo o que pretendo fazer é comentar brevemente cada um dos onze "capítulos", ressaltando o que me pareceu mais relevante, para o bem ou para o mal. Depois de dar um retrato do conjunto por essa via algo impressionista, farei uma breve conclusão.

1. The challenge of marxist and neo-marxist ideologies for christian scholarship [O desafio das ideologias marxistas e neomarxistas para a academia cristã], do filósofo holandês Sander Griffioen. O artigo que empresta seu nome ao livro como um todo tem vinte e duas páginas e é o melhor de todos. Com base em uma ampla leitura de autores como Kolakowski, revela uma boa compreensão do inferno totalitário do socialismo real e do modo como este, por força de sua própria lógica interna, leva à corrupção moral dos súditos do sistema. Traz ainda percepções valiosas quanto às raízes iluministas e renascentistas do marxismo, e constata corretamente que essa ideologia é uma cosmovisão integral e internamente consistente, não passível de aprimoramento pela correção de seus pontos falhos - e, por conseguinte, denuncia as diversas formas de neomarxismo (Escola de Frankfurt, gramscismo, teologia da libertação etc.) como tentativas artificiais de conciliar coisas inconciliáveis. Resta no autor, porém, certo respeito por Marx como intelectual e uma dificuldade de enxergar no pai da porcaria toda os defeitos exacerbados por seus filhos, bem como uma confiança bastante ingênua no compromisso democrático dos comunistas ocidentais.

2. Human freedom and social justice: a christian response to the marxist challenge [Liberdade humana e justiça social: uma resposta cristã ao desafio marxista], do cientista político americano James W. Skillen. Em uma tentativa de lidar com as críticas feitas ao cristianismo por intelectuais marxistas, sobretudo Ernst Bloch, esse artigo de trinta e uma páginas traz considerações muito pertinentes sobre a visão bíblica do trabalho, especialmente a partir do Sabbath, do jubileu e de suas conexões com o Reino de Cristo. O autor promove ainda um interessante confronto de ideias entre Marx, Locke e Agostinho, na qual sobram críticas a todos os lados. Seu maior defeito é aquela velha visão preconceituosa contra o conservadorismo e a demonização daquela entidade obscura denominada "capitalismo".

3. Human freedom and social justice (a case study: Poland) [Liberdade humana e justiça social (um estudo de caso: Polônia)], da historiadora americana Alice-Catherine Carls. Em trinta e duas páginas, a autora nos traz um resumo muito interessante da história das lutas contra o totalitarismo comunista na Polônia, ressaltando a imoralidade essencial do Estado polonês, não menos nas concessões que nas perseguições. O artigo analisa as ações das principais forças engajadas nessa luta: a Igreja Católica (liderada em grande parte por João Paulo II, antes e depois de sua ascensão ao papado), os movimentos populares (com a liderança, entre outros, de Lech Walesa, na sua fase posterior) e os intelectuais ex-marxistas ou marxistas incoerentemente democráticos (como Kolakowski). Contudo, essa incoerência não é notada pela autora, e os únicos opositores do regime tratados com desprezo são, como de costume, os conservadores. Não obstante, o artigo é muito valioso como fonte histórica, e não é nada condescendente com o caráter perverso do regime polonês e sua dependência do imperialismo soviético.

4. Liberation theology [Teologia da libertação], do teólogo equatoriano (então na Argentina) Carlos René Padilla (sim, o próprio). Em apenas dezoito páginas, Padilla faz um bom resumo dos pontos essenciais da teologia da libertação - ou, dizendo de modo mais preciso, dos pontos comuns às várias teologias da libertação disponíveis. A julgar por esse resumo, trata-se de um dos piores desserviços prestados por nosso subcontinente à história das ideias. Em seguida, o autor tece algumas críticas a essa teologia. As críticas são precisas, pertinentes e tocam em vários dos pontos fundamentais do problema. Contudo, Padilla não as faz sem gastar um espaço equivalente em considerações bastante bajulatórias sobre a pureza e a grandiosidade das intenções dos criticados, e do quanto é importante que haja pessoas tão boas assim se opondo aos famigerados conservadores. Uma piada.

5. Liberation theology (a case study: USA) [Teologia da libertação (um estudo de caso: EUA)], do pastor americano John Perkins. O autor é um adepto declarado da teologia da libertação, e começa anunciando sua pretensão de "responder" às críticas de Padilla, a quem afirma dedicar grande admiração. Contudo, não há resposta alguma, e tampouco há qualquer conteúdo intelectual identificável no texto. Perkins é um pastor negro envolvido com a tal "teologia negra", e o "estudo de caso" que ele apresenta é, em grande parte, o de sua própria história pregressa, contando de sua origem humilde e de como foi explorado por patrões brancos e ricos. Visivelmente não há um pingo de vocação intelectual nesse homem e, quanto a esse aspecto, ele está para seu predecessor assim como Lula está para Marilena Chauí. O texto tem sete páginas, das quais um total de duas linhas é dedicado à crítica do comunismo e quase todo o restante à crítica do capitalismo. É o pior artigo do livro, e o mais ostensivamente esquerdista de todos - e, não por acaso, seu autor é o único que tem o apoio oficial da Fundação Ford, o que, para quem pensa, já bastaria para desmentir sua tese fundamental de que a teologia conservadora é que está do lado dos ricos.

6. Christian belief, marxism and rich and poor countries [Crença cristã, marxismo e países ricos e pobres], do economista holandês (então na Argentina) Roelf L. Haan. Quase todas as trinta e oito páginas desse texto são dedicadas a uma crítica do "capitalismo" - em cuja conta são lançadas todas as ditaduras militares da América Latina, bem como o nazismo e os fascismos europeus. Nazismo, fascismo, liberalismo e conservadorismo são todos reunidos sob o termo "capitalismo", de modo a criar-se uma unidade inexistente por meio de um artifício verbal. Contudo, a maior parte da crítica se dá pelo viés econômico e é dirigida sobretudo à teoria econômica (neo)liberal, de cujas ideias o autor traz uma versão ridiculamente caricatural, semelhante à que muitos católicos e esquerdistas fazem do pensamento econômico de Calvino a partir de uma leitura equivocada de Weber. Também são feitas várias tentativas risíveis de apresentar os conservadores como adeptos idiotas de teorias conspiratórias mais idiotas ainda. E, em vários pontos, o autor apela, de modo passageiro e mal explicado (ou não explicado), a conceitos extraídos de Dooyeweerd, Goudzwaard e até Kuyper para dar ares de neocalvinismo à sua crítica. O termo "totalitarismo" é usado uma porção de vezes para descrever o capitalismo, e nenhuma para descrever o comunismo. Embora, é claro, alguma coisa sempre se aproveite, trata-se de uma obra-prima de charlatanismo intelectual, que constitui um complemento adequado ao charlatanismo antiintelectual de seu predecessor americano.

7. Function and role of the State (with special reference to its relation to the church and educational institutions) [Função e papel do Estado (com referência especial à sua relação com a igreja e as instituições educacionais)], do jurista sul-africano Lourens M. du Plessis. Nesse texto de trinta e oito páginas, o autor analisa alguns posicionamentos da Escola de Frankfurt, em especial de Max Horkheimer e Jürgen Habermas, sem deixar de incluir uma exposição inicial dos pensamentos do próprio Marx. Quanto a esse ponto, cabe ao autor o mérito de ser o único no livro todo a ressaltar que o ódio marxiano a toda autoridade (inclusive ao Estado), herdado dos anarquistas, converte-se, mui contraditoriamente, no estabelecimento do Estado como única instituição legítima e digna da lealdade do cidadão, sendo todas as outras (incluindo-se aí a igreja) apenas toleráveis, na melhor das hipóteses. A análise do neomarxismo também é deveras interessante, retratando essa vertente como inimiga do "capitalismo" e, ao mesmo tempo, profundamente desiludida com as possibilidades do comunismo, o que resulta em uma visão pessimista só superada por uma esperança irracional, bem ao estilo do "salto" schaefferiano. Apesar de sua atitude algo condescendente quanto a vários dos erros apontados, cabe ao autor o mérito de fazer algumas das declarações mais ousadamente sensatas de todo o livro - inclusive a de condenar a adesão do cristão, não só ao comunismo, mas a qualquer movimento revolucionário.

8. Function and role of the State: the place of religion and education (a case study: China) [Função e papel do Estado: o lugar da religião e da educação (um estudo de caso: China)], do teólogo e missionário chinês (então em Hong Kong) Jonathan Chao. Em vinte e três páginas, o autor traz uma excelente descrição do funcionamento profundamente antidemocrático do Estado chinês, em sua relação com o Partido Comunista e as Forças Armadas, bem como o modo de funcionamento das disputas politicas internas entre as diversas facções comunistas. Descreve também, com muito realismo, a cooptação das instituições religiosas em geral pela burocracia governamental para seus próprios fins políticos e a falta de liberdade religiosa dominante no país e na mentalidade de seus governantes, mesmo dos defensores da linha mais "tolerante" com relação ao tema, que ascendeu ao poder após a morte de Mao.

9. Marxism and education: a survey report [Marxismo e educação: um relatório de pesquisa], do teólogo Klaus Bockmuehl, professor no Canadá. Esse artigo de trinta e cinco páginas trata do conceito marxista de educação, apenas embrionário na obra do próprio Marx, mas desenvolvido de modos diversos pelos educadores comunistas do século XX. Achei o artigo um tanto acrítico e focado demais na teoria educacional marxista, e não em sua prática. Não obstante, o texto é interessante por documentar a centralidade da educação no marxismo, entendida como empenho consciente na produção de um novo tipo de homem, numa visão que tem muito de "religiosa" (assim, entre aspas, e no sentido pejorativo). Além disso, como curiosidade, achei interessante descobrir que Marx e seus sucessores nos regimes comunistas apoiavam o trabalho infantil como meio de educação - coisa que, nos países "capitalistas", seria prontamente denunciado pelos próprios marxistas como pretexto ideológico para uma cruel exploração por parte da burguesia.

10. Marxism and education (some observations) [Marxismo e educação (algumas observações)], do cientista político holandês (então no Canadá) Bernard Zylstra. Em apenas seis páginas, o autor traz considerações perspicazes sobre as raízes humanistas do marxismo e sobre seu caráter de "versão imanente" da teologia cristã (que costumo chamar de parasitismo). Seu principal mérito está em enfatizar que, ao contrário do que condescendentemente asseveraram vários dos articulistas anteriores, o problema de Marx com a religião se deve pura e simplesmente ao seu apego ao materialismo, e não aos defeitos, reais ou imaginários, das instituições eclesiásticas. O grande demérito do autor é desconhecer (ou ao menos desconsiderar, quando deveria ter considerado) o conservadorismo enquanto candidato a solução autenticamente cristã à luta de monstros entre marxistas e liberais.

11. The marxist challenge to christians in education [O desafio marxista aos cristãos na educação], do filósofo holandês (então no Canadá) Hendrik Hart. Em apenas sete páginas, o autor busca sintetizar o que foi aprendido com todos os articulistas anteriores. Por isso mesmo, não acrescenta quase nada. Fala sobre a importância de os eruditos cristãos não se submeterem a nenhuma cosmovisão mundana (colocando, implicitamente, o marxismo e o "capitalismo" no mesmo nível) e depois resolve mostrar, mediante exemplos, o perigo de se fazer isso. Mas, como só escolhe exemplos da América do Norte, suas críticas acabam caindo exclusivamente sobre os "capitalistas". O tom geral do artigo traz, pois, uma defesa deveras parcial (em todos os sentidos) da importância da imparcialidade.

Convém não generalizar demais a partir do resultado de um único evento realizado há três décadas. Mas é justo dizer que o que se pode ver nesse livro revela um grau elevado de heterogeneidade e confusão no pensamento político neocalvinista, uma abundância considerável de cacoetes mentais esquerdistas e certo grau de ignorância preconceituosa contra o pensamento conservador. Nada disso chega a ser uma surpresa, mas é, de qualquer modo, decepcionante. Por outro lado, impressionou-me o alto nível de vários dos artigos, e não pude deixar de notar o padrão de que os autores mais anticomunistas são justamente os que conhecem o comunismo mais de perto - e não necessariamente os que vivem em países ricos, como afirmou Zylstra. O livro me enriqueceu com novas informações e ideias e me convenceu da importância de um conhecimento mais aprofundado da obra de Marx e, mais ainda, dos frankfurtianos. Foi não só uma excelente leitura, mas também um excelente presente que o Mauro nos deu ao não querer o livro de volta.