20 de agosto de 2016

Profecia e divindade - parte 4

1.4.3. Questões legais

Os textos bíblicos que o preletor cita para demonstrar que os muçulmanos, e não os cristãos, seguem os ensinamentos da Bíblia e de Jesus se dividem em duas categorias. A primeira é sobre a identidade de Jesus, assunto que discutirei mais extensamente a partir da próxima postagem. Agora vou tratar da segunda categoria, que é a das prescrições práticas e da atitude de Jesus diante da lei. Diante do que expliquei no item 1.2 a respeito da relação entre cristianismo e judaísmo, creio que não será necessário aprofundar muito as explicações neste ponto, sendo suficiente especificar e aplicar alguns princípios gerais já delineados. O preletor do vídeo levanta três supostos pontos de divergência entre Jesus e os cristãos:

Circuncisão: é mencionado que, segundo o evangelho de Lucas, Jesus foi circuncidado; não é fornecida a passagem específica, mas isso de fato está dito em Lucas 2.21. Contudo, a circuncisão era parte da lei cerimonial judaica, que, como expliquei, os apóstolos vieram a considerar como sombras da realidade trazida por Cristo. (Na verdade, a circuncisão foi instituída por Deus nos tempos de Abraão; como os árabes também descendem de Abraão, eles mantêm essa prática até hoje, à parte da tradição judaica.) No caso específico da circuncisão, esse entendimento de que ela era de caráter provisório é expresso no Novo Testamento de modo bastante explícito. Já citei Paulo dizendo que a circuncisão que importa é a do coração, e não a da carne, mas o fato é que todo o capítulo 15 de Atos é dedicado a narrar a controvérsia que esse assunto levantou na igreja primitiva, e de que maneira os apóstolos e a igreja reunida em Jerusalém decidiram a questão: em essência, o argumento que venceu foi que visivelmente Deus estava salvando os gentios e manifestando seu poder entre eles sem que tivessem sido circuncidados, e isso indicava que não era a intenção de Deus que eles se submetessem à lei cerimonial dos judeus. Paulo também discutiu o assunto extensamente na carta aos Gálatas, e sua posição é bastante contundente: os que queriam que os cristãos gentios se circuncidassem estavam implicitamente negando o evangelho ao afirmar que nossa relação com Deus depende do cumprimento da lei, e não da graça que Cristo nos oferece. Veja-se o seguinte trecho do capítulo 5: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá. De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a cumprir toda a lei. Vocês, que procuram ser justificados pela lei, separaram-se de Cristo; caíram da graça. Pois é mediante o Espírito que nós aguardamos pela fé a justiça que é a nossa esperança. Porque em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor." Parece-me claro, portanto, que o ensino dos apóstolos sobre a circuncisão está de acordo com o ensino geral do Novo Testamento sobre a relação entre Jesus e a lei. O preletor muçulmano ignorou completamente esses ensinos bastante claros, que divergem consideravelmente tanto do judaísmo quanto do islã.

Carne de porco: o Alcorão proíbe explicitamente o consumo de carne de porco, assim como o Antigo Testamento nas passagens que o preletor cita (Deuteronômio 14.8 e Levítico 11.7). Nessas passagens, o porco aparece no meio de uma longa lista de animais que não poderiam ser comidos. De fato, a lei do Antigo Testamento contém uma porção de prescrições desse tipo, incluindo outras que não têm nada a ver com comida (como datas comemorativas, sábado, roupas etc.): proibições e estipulações sobre coisas que não são imorais, mas tinham um propósito didático, ou seja, que tinham uma carga simbólica através da qual Deus pretendia apresentar ao povo representações visíveis de seu próprio caráter; a lei promovia costumes culturais que distinguiriam o povo de Israel dos demais povos e, com isso, reforçava na mente do povo a natureza e a importância da relação que só eles tinham com o Deus verdadeiro. O Novo Testamento prontamente apresenta isso como aspecto cerimonial que perdeu a vigência quando Cristo veio. No caso específico do porco e outros animais considerados impróprios para consumo, o capítulo 10 de Atos traz um relato muito claro, em que Pedro teve a seguinte visão: "Viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol que descia à terra, preso pelas quatro pontas, contendo toda espécie de quadrúpedes, bem como de répteis da terra e aves do céu. Então uma voz lhe disse: 'Levante-se, Pedro; mate e coma'. Mas Pedro respondeu: 'De modo nenhum, Senhor! Jamais comi algo impuro ou imundo!' A voz lhe falou segunda vez: 'Não chame impuro ao que Deus purificou'. Isso aconteceu três vezes, e em seguida o lençol foi recolhido ao céu." A continuação da narrativa deixa claro que o sentido da visão, além de ser literal, tinha também um propósito didático: Deus estava incentivando a pregação do evangelho aos gentios. Assim como as proibições do Antigo Testamento tinham o propósito de salvaguardar a identidade dos judeus como povo de Deus, a abolição dessas proibições anunciava a universalização do evangelho, rompendo as barreiras entre judeus e gentios. Não há nenhuma passagem no Novo Testamento proibindo o consumo da carne de poco, ou de qualquer outro bicho. Mais uma vez, o preletor muçulmano ignorou completamente a mensagem do Novo Testamento e sua diferença em relação à lei do Antigo Testamento.

Álcool: o Alcorão proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, e o preletor cita duas passagens bíblicas em apoio à sua tese de que Jesus e os profetas bíblicos também o fazem. As duas referências estão erradas. A primeira é Efésios 4.18, mas creio que o que o preletor tinha em mente na verdade é Efésios 5.18, que diz: "Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito". A outra passagem citada é Romanos 20.1, texto que não existe, pois a carta aos Romanos só tem 16 capítulos. Suponho que o preletor tinha em mente outra passagem, mas infelizmente não sei qual poderia ser. De qualquer modo, note que o texto citado, ao contrário do Alcorão, não proíbe o consumo moderado e responsável, e sim a embriaguez, que é, esta sim, condenada repetidamente na Bíblia. O argumento ignora que o próprio Jesus transformou água em vinho durante uma festa de casamento em que o vinho havia acabado (João 2); que Jesus usou o pão e o vinho como símbolos da nova aliança que estava inaugurando entre Deus e os homens, e ordenou que todos os cristãos comessem e bebessem; que Jesus tinha uma conduta pública notoriamente diferente de João Batista, fato a que o próprio Jesus aludiu ao criticar a inconsistência de seus inimigos em Mateus 11.18-19: "Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: 'Ele tem demônio'. Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: 'Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores'." E em muitas outras partes, na verdade, a Bíblia fala do vinho sabiamente utilizado como uma grande bênção. Veja-se, por exemplo, o belo poema do Salmo 104, que trata da benevolência de Deus em conceder bênçãos a todas as suas criaturas. Os versículos 13-15 desse salmo dizem: "Dos seus aposentos celestes ele rega os montes; sacia-se a terra com o fruto das suas obras! É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento: o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor." Uma vez mais, a leitura bíblica do preletor muçulmano é seletiva demais e de péssima qualidade.

Um último ponto que vale a pena mencionar é que essas semelhanças entre os códigos cerimonial e civil judaico e islâmico, ainda quando verdadeiras, são pontuais. O preletor do vídeo faz parecer que a lei do antigo Israel é idêntica à lei promulgada por Maomé, mas isso está muito longe da verdade. Mesmo no espírito geral da lei há divergências fundamentais, embora haja também algumas semelhanças; mas, quando descemos às particularidades, encontramos muito mais diferenças que semelhanças. Por exemplo, a lei mosaica institui milhões de regras referentes ao ofício dos sacerdotes, aos sacrifícios, à construção e manutenção do local sagrado (originalmente uma tenda móvel, mais tarde um templo fixo), celebrações em datas específicas e muitas outras coisas que sequer existem no mundo islâmico. Mesmo uma leitura superficial do Levítico, por exemplo, basta para evidenciar isso. Portanto, ainda que a vinda de Jesus não tivesse abolido os aspectos cerimonial e civil da antiga Lei de Israel, isso não favoreceria em nada a lei islâmica.

29 de julho de 2016

Profecia e divindade - parte 3

1.4. Sobre o vídeo

Diante do exposto na primeira e segunda partes da presente série, já posso dar início a alguns comentários sobre o conteúdo específico do vídeo, quanto aos aspectos que se relacionam com essas questões.

1.4.1. O Consolador

O primeiro é sobre a identidade e o papel do Consolador, que o preletor muçulmano cita nos segundos finais. Infelizmente o vídeo foi cortado nesse ponto, de modo que o argumento não termina. Mas sei que o propósito da citação é reforçar a convicção amplamente difundida entre os estudiosos muçulmanos de que Jesus predisse a vinda de Maomé, que seria o Consolador descrito por ele. Os trechos citados são os versículos 7 e, depois, 12 a 15 de João 16. No texto bíblico, Jesus diz aos discípulos: "Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei. [...] Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar."

Antes de tudo, deve ser observado é que essa não é a primeira menção ao Consolador no Evangelho segundo João. O trecho citado pelo preletor é parte de uma longa conversa de Jesus com os discípulos, que João relata extensamente e que começa ainda no capítulo 14. A primeira menção está em 14.16-17: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós." O contexto da conversa é a partida de Jesus, que afirma que em breve se ausentará e não estará mais com os discípulos. Lendo a conversa toda, fica claro que ele se refere à sua morte e posterior ascensão aos céus. Então Jesus promete que enviará outro para estar presente com os discípulos; o trecho que acabo de citar mostra que esse Consolador já está, de algum modo, presente; que o mundo, ou seja, aqueles que rejeitam Cristo, não podem vê-lo; que esse Consolador, tendo sido enviado, estará "nos" discípulos; e que ele ficará conosco para sempre. É fácil ver que Maomé não pode preencher nenhum desses requisitos sem um considerável malabarismo interpretativo. Ampliando um pouco esse princípio, eu diria que Jesus não parece estar falando de um ser humano, e muito menos de um que só surgiria no futuro distante. Enfatizo isso porque, além de Maomé, muitos líderes religiosos ao longo da história reivindicaram pessoalmente o papel de cumpridores dessa profecia, ou foram assim identificados por seus seguidores.

Em 14.26 há outra menção ao Consolador, na qual Jesus diz: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito". O elemento digno de nota aqui é que Jesus afirma que o Consolador é o Espírito Santo, expressão muito frequente na Bíblia, desde o Antigo Testamento. O Espírito Santo é visto tradicionalmente como a terceira pessoa da divina Trindade. Eu também creio nisso, mas não pretendo aqui repassar toda a evidência bíblica a respeito. Basta notar que, ao identificar o Consolador com o Espírito Santo, Jesus conectou esse termo relativamente desconhecido com um ser sobre o qual as Escrituras se referem com muita frequência, o que nos dá meios muito mais sólidos de determinar sua natureza e identidade.


Com isso fica fácil perceber que a Bíblia é muito clara ao relatar que o envio do Consolador que Jesus prometeu aqui se cumpriu ainda naquele tempo. Mais precisamente, esse cumprimento é relatado no capítulo 2 do livro dos Atos dos Apóstolos. Narra-se ali que, poucas semanas após a morte e ressurreição de Jesus, estando os discípulos reunidos em Jerusalém, "de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (Atos 2.2-4). (Observo de passagem que a ocorrência sobrenatural de um grande número de idiomas aponta para a abrangência universal da fé cristã, simbolizando a superação do âmbito nacionalista da religião judaica, conforme discutido na seção 1.2.) Esse acontecimento causa alvoroço entre a multidão presente, mas alguns zombam dos discípulos, dizendo que estão embriagados. Pedro toma então a palavra e discursa, começando assim (2.14-17): "Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: 'E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne'". A partir de então, o Espírito Santo é dado como presente no mundo. Darei apenas um exemplo entre muitos. Ainda no livro de Atos, capítulo 5, um cristão chamado Ananias é repreendido por Pedro por ter mentido, nos seguintes termos: "Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo [...]? Não mentiste aos homens, mas a Deus." Por aí fica muito claro não só que o Espírito Santo estava presente, mas também que ele é divino e não humano. Portanto, a própria Bíblia interpreta o significado da vinda do Consolador e sua identidade, e o faz de um modo que diverge muito da abordagem islâmica.

1.4.2. Confiabilidade da Bíblia

O segundo ponto do vídeo que eu gostaria de comentar é que o preletor muçulmano cita muitos trechos da Bíblia com o propósito geral de mostrar que ela apoia pontos de vista tradicionalmente aceitos entre muçulmanos, mas contrariados pelas diversas tradições cristãs - e, portanto, que a doutrina de Jesus era a doutrina islâmica, e quem quiser ser um bom seguidor de Jesus deve se converter ao islã. Adiante discutirei com mais detalhes as interpretações bíblicas específicas do preletor. Antes, porém, quero chamar a atenção para um aspecto mais geral no qual o conteúdo do vídeo me surpreendeu: o preletor em momento algum coloca em dúvida a autoridade divina e a autenticidade da Bíblia.


Digo que isso me surpreendeu porque esse não é o ponto de vista dominante entre os estudiosos muçulmanos, e muito menos entre os muçulmanos leigos. É verdade que o Alcorão menciona explicitamente que Deus revelou livros sagrados a Jesus e aos profetas judeus anteriores, e que esses livros sagrados são distintos do Alcorão. Inclusive, as traduções do Alcorão geralmente traduzem essas referências como "Torah" e "Evangelho", como em 3.3-4: "Ele fez descer sobre ti o Livro, com a verdade para confirmar o que havia antes dele. E fizera descer a Torah e o Evangelho, antes, como orientação para a humanidade". Contudo, não fica claro o que exatamente se deve entender por essas referências. Por exemplo, a Torah é o nome que os judeus dão aos cinco livros de Moisés; às vezes, por metonímia, essa palavra é usada para descrever todo o Antigo Testamento. No Novo Testamento, a palavra "evangelho" designa tanto a mensagem cristã quanto cada um dos quatro livros canônicos que relatam a vida, morte e ressurreição de Jesus. Não fica claro se o Alcorão usa essas palavras com algum desses sentidos ou com algum outro. Até onde sei, a convicção dominante entre os estudiosos muçulmanos é que as mensagens de Jesus e demais profetas judeus foram distorcidas ao longo do tempo, de modo que na Bíblia só restam fragmentos dos ensinamentos originais. Por isso, eles geralmente leem a Bíblia simplesmente descartando tudo o que lhes parece conflitar com o islã, exatamente como tantos estudiosos ocidentais modernos fazem - com a diferença de que estes não recorrem ao Alcorão, e sim a outras fontes de autoridade. Naturalmente, dizer, por exemplo, que Jesus não pode ter dito ou feito isto ou aquilo porque essa ideia conflita com o Alcorão (ou com a razão, ou com determinada concepção de ciência, ou com a filosofia de fulano ou beltrano) é um argumento válido para convencer quem já crê de antemão nessa outra fonte de autoridade, mas constituiria argumento circular se usado contra a autoridade e fidelidade dos relatos bíblicos enquanto tais.

A abordagem do preletor do vídeo escapa dessa dificuldade, mas paga um preço por isso: ao citar textos bíblicos como prova de que a Bíblia ensina basicamente o mesmo que o Alcorão, ele implicitamente endossa a confiabilidade do texto bíblico. Se não fizesse isso, seu argumento não valeria nada, pois poderia ser aplicado no sentido inverso: eu poderia "provar" que Maomé era um cristão selecionando os trechos corânicos que concordam com a Bíblia e dizendo que os demais trechos são corrupções do texto original. Não acho provável que o preletor do vídeo de fato acredite na fidedignidade integral da Bíblia, pois isso seria problemático demais para qualquer muçulmano, exceto, talvez, os das vertentes mais esotéricas (pois também existem linhas esotéricas e místicas dentro do islã - minoritárias, é claro). Acho mais provável que ele tenha usado isso como um artifício retórico. Não considero essa estratégia necessariamente ruim ou desonesta: conheço ao menos as principais objeções islâmicas à autoridade e confiabilidade da Bíblia, e posso imaginar que a problematização desse ponto complicaria demais o argumento do preletor. A abordagem escolhida pelo preletor se justifica, penso eu, por sua convicção manifesta de que, mesmo aceitando a autoridade bíblica para fins de argumentação, ele ainda poderia demonstrar facilmente sua tese. Contudo, é aí que, como eu disse, ele paga seu preço: ao pressupor a confiabilidade e a integridade da Bíblia, mesmo que apenas para fins de argumentação, ele se obriga a ser capaz de harmonizar os dois livros sagrados até o fim, e esse é um compromisso que o ponto de vista muçulmano mais convencional pode dispensar. Na próxima postagem passarei a analisar suas tentativas de conciliação.

26 de junho de 2016

Profecia e divindade - parte 2

1.3. Islamismo

Na primeira parte deste texto, expus brevemente as visões judaica e cristã sobre o progresso histórico da revelação divina e sua relação com outras religiões. Em relação a esse tema, o islã herdou toda essa estrutura de pensamento e essa bagagem histórica dessas duas religiões, mas também introduziu modificações. Antes de tudo, ao contrário do cristianismo e do judaísmo, e ao contrário do que muitos pensam sobre o próprio islã, ele é uma religião basicamente ecumênica. Claro que é um ecumenismo um tanto peculiar, não muito parecido com o que se entende por essa palavra no Ocidente, onde ela muitas vezes descreve uma atitude politicamente correta e um tanto diplomática, tanto no bom quanto no mau sentido do termo. O que quero dizer quando afirmo que o islã é ecumênico é que ele não se considera de modo algum a única religião que tem uma autêntica origem divina. Por outro lado, isso não significa que todas as religiões sejam verdadeiras ou que seja indiferente preferir uma ou outra.

Convém nos determos para entender isso um pouco melhor. Tenho em casa um livrinho intitulado O islã e o cristianismo, do apologista muçulmano Ulfat Aziz Assamad, que diz o seguinte:

"A abordagem islâmica do tema 'religiões comparadas' é bastante diferente do ponto de vista cristão. O cristão é educado na crença de que a sua é a única religião verdadeira, tendo o judaísmo sido uma preparação para o surgimento do cristianismo, e que todas as demais religiões são falsas. [...] Deste modo, ele acredita somente nos profetas e mestres religiosos de Israel, vendo como impostores quaisquer outros pretendentes à condição de profetas. Os missionários cristãos sempre empregaram seus esforços em provar que os fundadores de outras religiões são falsos e maus, tornando-lhes possível estabelecer a afirmação da exclusividade de Jesus Cristo. [...] O muçulmano, por outro lado, acredita na origem divina de todas as grandes religiões do mundo. O Livro Sagrado do Islã declara que Deus enviou profetas entre todas as nações para guiar o povo para a senda da verdade e da probidade. Sendo o Criador e Provedor de todos os mundos, Ele não pode ser parcial e escolher uma nação, com exclusão das demais, para revelar as Suas Mensagens. O muçulmano deve acreditar nos fundadores de todas as grandes religiões."

Eu faria algumas ressalvas ao modo como Assamad apresenta a questão nesse trecho, mas ele chama a atenção muito bem para essa divergência fundamental em relação ao pensamento judaico-cristão: o islã não só tem uma pretensão universal (identificando-se nisso com o cristianismo e não com o judaísmo), mas também, ao contrário de ambos, rejeita a ideia de uma relação passada exclusiva de Deus com Israel. A afirmação de Assamad tem, pelo que posso ver, bons fundamentos corânicos. O Alcorão diz, por exemplo: "para cada comunidade, há um mensageiro" (10.47). Outra passagem é mais explícita: "Por certo, Nós te enviamos, com a Verdade, por alvissareiro e admoestador. E nunca houve nação sem que por ela passasse um admoestador" (35.24). Outro ponto diz: "E, com efeito, enviamos mensageiros antes de ti. Dentre eles há os de que te fizemos menção, e dentre eles há os de que não te fizemos menção" (40.78). Considero essa passagem interessante porque o Alcorão menciona pelo nome uma porção de profetas anteriores a Maomé, e a maioria deles é composta de profetas bíblicos; mas essa passagem diz explicitamente que há outros além dos mencionados, o que combina bem com a ideia de que outros povos também tiveram seus profetas. A tradição teológica posterior chega a falar em duzentos e tantos mil profetas espalhados pelo mundo ao longo da história.

Maomé não foi, portanto, de modo algum o único profeta, mas o islã atribui a ele (ou, melhor dizendo, ao Alcorão) o papel que o cristianismo atribui a Jesus: o de portador da revelação plena, universal e definitiva. O Alcorão deixa claro em diversos pontos que o judaísmo e o cristianismo são também revelações divinas e seus livros sagrados contêm as palavras dos profetas de Allah, embora misturadas a muitos erros posteriores. Em vista disso, os judeus e cristãos - genericamente denominados "seguidores do Livro" ou "povos do Livro" - são reprovados por não reconhecerem o Profeta. Na verdade, me parece que o Alcorão dá margem à inclusão de algumas outras religiões além do judaísmo e do cristianismo. Em 2.62 são mencionados ao lado de judeus e cristãos os sabeus, um grupo religioso que já existia na Arábia antes do advento do islã. Para alguns muçulmanos, esse versículo estabelece a base para uma generalização do mesmo princípio a todos os cultos monoteístas. Historicamente, os zoroastrianos da Índia e da Pérsia também foram considerados um "povo do Livro", e há muçulmanos que estendem a mesma consideração a algumas vertentes do hinduísmo, por exemplo. Além disso, o Alcorão menciona (em 3.2-4) que Deus revelou "Al-Furqan", expressão um tanto enigmática que, para muitos muçulmanos, designa "todos os livros revelados" (uma das edições do Alcorão que tenho em casa, patrocinada pela família real saudita, diz isso explicitamente em nota de rodapé). Mas não se diz em parte alguma quantos são esses livros revelados, nem quais são eles. De qualquer modo, a afirmação de Assamad de que "todas as grandes religiões" (o que não é o mesmo que "todas as religiões") têm origem divina me parece bem fundamentada no Alcorão e na tradição e cosmovisão islâmicas.

Isso levanta a questão que o vídeo discute: diante do exposto, qual deve ser a atitude dos muçulmanos para com judeus e cristãos (ou monoteístas em geral)? No plano político e social, a atitude predominante, com variações para melhor e para pior, foi a de tolerá-los como cidadãos de segunda classe - ou seja, com alguns direitos a menos e restrições a mais, mas ainda em situação bem melhor que os idólatras, ou seja, os pagãos e outros adeptos de crenças não-monoteístas, que em teoria não podiam ser admitidos na comunidade sagrada islâmica. Mas, voltando ao exame das afirmações corânicas, devo dizer que considero a atitude do Alcorão um tanto ambígua e possivelmente contraditória. Digo "possivelmente" porque não posso deixar de me solidarizar com o islã nesse ponto. Eu creio na infalibilidade da Bíblia, mas sei que ela tem pontos de interpretação difícil e controversa, e não tenho respostas para todas as dificuldades; por outro lado, depois de muito estudar e refletir, considero essas dificuldades bem menos numerosas e menos graves do que supõem seus críticos mais convencionais, que não hesitam em acusá-la de erro e contradição diante do mais leve indício, e quase sempre em questões que poderiam ser solucionadas sem muita dificuldade com um pouco mais de estudo, reflexão e percepção moral. Vivendo isso na pele como cristão, devo reconhecer que não estudei o Alcorão com a mesma intensidade com que gostaria que os críticos da Bíblia a estudassem, de modo que não me sinto no direito de afirmar que ele é contraditório nesse ponto que passo a descrever. Contudo, posso dizer ao menos que vejo uma contradição aparente para a qual não enxergo saída, e vou compartilhar aqui o modo como vejo a questão.

Existem passagens corânicas que parecem falar muito favoravelmente dos judeus e cristãos, ou pelo menos de uma parcela deles. Por exemplo, 3.69 diz que apenas uma parte dos judeus e cristãos são inimigos do islã: "Uma facção dos seguidores do Livro almeja desencaminhar-vos. E não desencaminham senão a si mesmos, e não percebem". Em 3.110 a mesma ideia é transmitida ("Entre eles há os crentes, mas sua maioria é perversa"), e melhor desenvolvida um pouco adiante (3.112-115): "Eles não são todos iguais. Dentre os seguidores do Livro há uma comunidade reta, que recita os versículos de Allah nas horas da noite, enquanto se prosterna; eles creem em Allah e no Derradeiro Dia, ordenam o conveniente, coíbem o reprovável e se apressam para as boas ações. E esses são dos íntegros. E o que quer que façam de bom não lhes será negado. E Allah, dos piedosos, é Onisciente." O trecho de 2.62 é igualmente explícito: "Por certo, os que creem e os que praticam o judaísmo, os cristãos e os sabeus, qualquer dentre eles que creu em Allah e no Derradeiro Dia e fez o bem terá seu prêmio junto de seu Senhor; e nada haverá que temer por eles, e eles não se entristecerão".

Por outro lado, há trechos que dizem claramente que quem rejeitasse Maomé seria condenado por Allah, e doutrinas específicas do cristianismo também são condenadas, como a divindade de Cristo e a Trindade. A sura 5, por exemplo, diz: "São blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, Que é meu Senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e sua morada será o fogo infernal! Os iníquos jamais terão socorredores. São blasfemos aqueles que dizem: Deus é um da Trindade!, portanto não existe divindade alguma além do Deus Único. Se não desistirem de tudo quanto afirmam, um doloroso castigo açoitará os incrédulos entre eles. Por que não se voltam para Deus e imploram o Seu perdão, uma vez que Ele é Indulgente, Misericordiosíssimo? O Messias, filho de Maria, não é mais do que um mensageiro, do nível dos mensageiro que o precederam; e sua mãe era sinceríssima."

Esse tipo de ambiguidade me leva a sustentar que, ao menos à primeira vista, tanto os muçulmanos mais ecumênicos (hoje minoria) quanto os mais exclusivistas (hoje maioria) têm versículos corânicos para citar em favor de seus pontos de vista.

Convém agora discorrer um pouco sobre a perspectiva histórica do islã. Já mencionei que o Antigo Testamento, embora de forma um tanto vaga, afirma algum tipo de progresso da revelação de Deus aos homens, e o judaísmo se via de algum modo como um prenúncio de algo maior, que atingiria todos os povos através de uma nova e futura aliança com Deus. Mencionei também que o cristianismo se apresentou e se apresenta como o cumprimento dessa promessa um tanto esquecida pelos próprios judeus. Num certo sentido, o islã compete com o cristianismo por esse status de revelação final, definitiva e universal. Por outro lado, a perspectiva islâmica sobre a história da revelação é diferente da cristã em dois aspectos importantes.

O primeiro é que o islã não reconhece exatamente um progresso da revelação. Para o muçulmano, é bastante contra-intuitiva a ideia de um progresso da religião, pois a religião autêntica, revelada, é o modo correto de o homem se relacionar de Deus, e a natureza humana não mudou; a divina, muito menos. Portanto, a mensagem que cada profeta trouxe ao mundo desde o início da história humana é substancialmente a mesma, e a multiplicidade de religiões que observamos no mundo só pode ter duas fontes: ou a mensagem profética foi explicitamente rejeitada (resultando o politeísmo e a idolatria), ou foi aceita, mas se corrompeu e perdeu algo de sua pureza com o passar do tempo (que é o caso dos "povos do Livro"). Assim, o Alcorão diz, por exemplo: "Abraão não era judeu nem cristão, mas monoteísta sincero, submisso. E não era dos idólatras" (3.67). Ou seja, Abraão era um profeta da religião perene, a mesma que Maomé pregava, e não de suas versões corrompidas posteriores, nem das crenças ainda mais distantes da verdade que negam até mesmo a unicidade e transcendência de Deus, que são os pontos fundamentais da fé islâmica. No Alcorão também consta a seguinte ordem de Deus a Maomé: "Cremos em Allah e no que foi descido sobre nós, e no que fora descido sobre Abraão, e Ismael, e Isaque, e Jacó, e as Tribos, e no que fora concedido a Moisés e a Jesus, e aos profetas de seu Senhor. Não fazemos distinção entre nenhum deles e a Ele somos submissos" (3.84). Trechos assim também confirmam a unidade e a indistinção fundamental entre as mensagens de todos os profetas.

O segundo aspecto no qual há uma divergência básica entre o islã e o cristianismo quanto à história da revelação é que o islã trouxe de volta a ênfase política do judaísmo antigo. O cristianismo, é claro, não é alheio a nenhuma área da vida humana, prega a autoridade e soberania de Cristo sobre todas as esferas da existência e não é favorável ao laicismo moderno. Mas o islã tem como sua preocupação central a formação de uma comunidade política que reflita a vontade de Deus em sua organização e em suas leis. É por isso que Maomé era simultaneamente um profeta religioso e um líder político e militar. É também por isso que a data inicial do calendário islâmico é a fuga de Maomé de Meca para Medina, ocasião em que foi fundada a primeira comunidade política regida pelo islã. E é também por isso que o direito, a jurisprudência e a teoria política ocuparam posições centrais nos desenvolvimentos intelectuais da civilização islâmica, e quase todos os grandes teólogos muçulmanos foram também grandes juristas. A relação entre fé e política no islã é tal que o muçulmano geralmente não se sente livre para praticar sua religião a menos que ela seja politicamente dominante, e essa é uma das fontes remotas de tantos problemas envolvidos na relação entre o islã e o Ocidente. Nesse sentido, pode-se dizer que a perspectiva islâmica constitui um retrocesso em relação ao cristianismo. E, quando digo "retrocesso", não só emito um juízo pessoal de valor, mas também pretendo indicar objetivamente que o islã retornou à perspectiva judaica do Antigo Testamento, que, como já expliquei, não separa os códigos moral, religioso e civil. Para o muçulmano, a conversão do mundo todo à sua fé é desejável, o que o distingue do judeu e o aproxima do cristão; mas, para o muçulmano, essa conversão significa antes de tudo a incorporação do mundo todo à Umma, a comunidade política sagrada.

5 de junho de 2016

Profecia e divindade - parte 1

Alguns meses atrás, um bom amigo que sabe do meu interesse por temas islâmicos pediu minha opinião sobre este vídeo, em que um preletor muçulmano responde a uma pergunta formulada por uma jovem católica, discorrendo em especial sobre a relação entre Jesus e o islã. Decidi escrever e publicar alguns comentários sobre esse vídeo, e é o que passo a fazer agora. No entanto, decidi ir além da mera réplica apologética, por me parecer que a situação abre portas para uma série de esclarecimentos relevantes sobre as semelhanças e diferenças entre as perspectivas judaica, cristã e islâmica sobre a natureza da revelação divina e a identidade de Jesus. Considero que esses esclarecimentos são necessários para um bom entendimento dos meus comentários sobre o vídeo; no entanto, o interesse desses comentários transcende em muito o propósito de analisar e refutar esse vídeo específico. Eu mesmo tenho ainda muito a aprender a respeito, e aceitarei de bom grado correções respeitosas e bem argumentadas. Deixo aqui esse texto como contribuição a todos os interessados nas relações entre as assim chamadas religiões abraâmicas, inclusive cristãos que queiram entender melhor o islã e muçulmanos interessados em entender melhor o cristianismo. Mas, embora o texto seja em grande parte descritivo, não tenho nenhuma pretensão de neutralidade, e quero deixar claro que minha perspectiva é declaradamente protestante e calvinista, ainda que muitas outras fontes de influência estejam também em jogo. Não espero que todos os que se consideram cristãos, ou mesmo calvinistas, concordem com tudo o que direi a seguir. Minha previsão é que o texto completo seja dividido em oito postagens, incluindo esta. Conforme indicam os subtítulos abaixo, começarei discorrendo genericamente sobre o modo como as três grandes fés monoteístas enxergam a questão das relações entre as diversas religiões.

1. Relações entre as religiões

1.1. Judaísmo

Para começar, vou falar um pouco sobre como o judaísmo e o cristianismo lidam com essa questão, começando pelo primeiro, que é a religião mais antiga. O Antigo Testamento declara enfaticamente a exclusividade de Israel - por exemplo, no Salmo 147.19-20: "[Deus] mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis e os seus preceitos, a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todas ignoram os seus preceitos. Aleluia!" Na verdade, mesmo no judaísmo antigo já existia certa pretensão de universalidade. Já no início, quando Deus fala pela primeira vez com Abraão (ancestral de Israel, que, portanto, ainda não existia), ele diz (Gênesis 12.3): "Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados." Contudo, não fica muito claro o modo pelo qual isso aconteceria (minha opinião é que só a vinda de Jesus esclareceu a intenção de Deus quanto a isso), e não existe nem jamais existiu um projeto missionário judaico. Na prática, o judaísmo é uma religião nacional, mais ou menos (embora não exatamente) como o hinduísmo, sem nenhuma pretensão de universalidade: a questão nacional e a questão religiosa nunca foram desvinculadas. Pela estrutura própria dessa religião, uma universalização do judaísmo equivaleria a conquistar o mundo politicamente, o que nunca foi tentado nem desejado (exceto por uma ou outra seita fanática minoritária). Houve no Antigo Testamento conversões de pagãos ao judaísmo, mas elas eram raras, e geralmente o convertido se mudava para Israel e se tornava cidadão do país (um exemplo está no capítulo 1 do livro de Rute). O judaísmo era uma aliança feita entre Deus e Israel, e essa aliança incluía não só a observância de uma lei moral (princípios éticos para a relação com os homens e com o próprio Deus, resumidos nos Dez Mandamentos), mas também de uma lei cerimonial (rituais, sacerdócio, templo etc.) e uma lei civil (prescrevendo a conduta social correta e punições para diversos crimes). É por isso que a destruição do templo de Jerusalém e a dispersão dos judeus pelo mundo constituiu uma crise imensa da qual a religião judaica nunca se recuperou.

1.2. Cristianismo

O cristianismo trouxe uma porção de inovações importantes a esse quadro. O Novo Testamento traz uma interpretação do Antigo Testamento que em muitos aspectos soou (e ainda soa) estranha aos que permaneceram no judaísmo. A religião de Jesus não estava confinada a questões de nacionalidade, nem a um determinado código civil ou cerimonial. O evangelho segundo Mateus, por exemplo, termina com a seguinte ordem de Jesus aos seus discípulos: "Toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra. Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações" (Mateus 28.18). O cristianismo teve, portanto, desde o início uma pretensão universal concreta que inexiste no judaísmo, e se desvinculou da estrutura jurídica, política e cultural específica de Israel. A questão do ingresso dos gentios na igreja rendeu, aliás, uma das grandes polêmicas da igreja primitiva; dentro de poucas décadas os gentios se tornaram maioria e o cristianismo foi cada vez mais reconhecido (pelos judeus e pelo governo romano) como uma nova religião, e não mais como uma nova seita judaica. Por outro lado, nem Jesus nem os apóstolos desprezaram o Antigo Testamento, nem consideraram a antiga Lei um erro ou perda de tempo, e tampouco negaram que o Deus que pregavam era o mesmo que havia se revelado aos seus antepassados naquela forma. Jesus foi bem enfático em Mateus 5.17-18: "Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra." Portanto, os cristãos têm com o judaísmo uma relação que não é exatamente de aceitação, mas também não é exatamente de rejeição. Um trecho bíblico que deixa isso muito claro é a conversa de Jesus com uma mulher samaritana, registrada no capítulo 5 do evangelho segundo João. A mulher pergunta a Jesus sobre o lugar correto da adoração a Deus: "Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar". Jesus responde: "Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade." Note-se que Jesus não negou que os judeus, e só eles, tinham real conhecimento de Deus, mas ao mesmo tempo afirmou que questões cerimoniais desse tipo em breve estariam ultrapassadas e não iam à raiz do problema de como devemos nos relacionar com Deus.

Desde os primórdios, portanto, a teologia cristã se esforçou para fazer justiça a essa relação delicada do cristianismo com o judaísmo: o Deus do Antigo Testamento era o Deus verdadeiro; a antiga Lei era de fato a vontade de Deus, e era pura, justa e boa; no entanto, o pacto de Deus com uma nação específica tinha acabado, e o cristão não estava preso às dimensões cerimonial e civil dessa Lei; o evangelho era para todos os povos, sem que isso significasse que todos os gentios deveriam se tornar judeus. Como harmonizar tudo isso? Essa questão é recorrente no Novo Testamento, e a resposta é sempre a mesma, apresentada de formas variadas. O apóstolo Paulo, no capítulo 4 da carta aos Gálatas, diz que a Lei foi uma preparação para a revelação suprema que Deus daria através de Jesus. Ele usa a figura de um tutor que cuida de alguém até que este atinja a maioridade, e diz também que a promessa de Deus a Abraão, que mencionei acima, só foi cumprida de fato por Cristo. A cidadania de um determinado país e a descendência física de Abraão não tinham mais importância agora. Suas palavras exatas foram: "Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa."

Semelhante a essa é a mensagem do próprio Paulo na carta aos Romanos (2.28-29). Um detalhe relevante é que a palavra "judeu" vem de Judá, um dos filhos de Israel e ancestral da principal tribo. A etimologia do nome "Judá" está ligada à palavra "louvor" em hebraico, de modo que Paulo está fazendo um trocadilho que não passaria despercebido aos seus leitores judeus: "Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela lei escrita. Para estes o louvor não provém dos homens, mas de Deus." Outro exemplo do próprio Paulo está na carta aos Colossenses (2.16-17), em que ele trata da observância das festas e rituais prescritos no Antigo Testamento: "Não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo." Aqui a revelação de Deus no Antigo Testamento é claramente apontada como mera sombra do que viria depois, ou seja, a revelação plena de Deus através de Jesus.

O exemplo mais significativo do Novo Testamento, porém, não vem de Paulo, e sim do autor anônimo da Epístola aos Hebreus. Essa carta é quase toda dedicada a situar Jesus em relação ao Antigo Testamento, e contém uma argumentação bastante elaborada (além de literariamente muito bela) que aponta para a superioridade de Jesus em relação a todas as figuras do Antigo Testamento: Abraão, Moisés, o sacerdócio levítico, a representação da presença de Deus no Templo, e assim por diante. Eu poderia citar dezenas de passagens dessa carta, mas citarei apenas duas. Uma delas está em Hebreus 8.6-7: "Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores. Pois se aquela primeira aliança fosse perfeita, não seria necessário procurar lugar para outra." E passa a citar o profeta Jeremias, que havia dito: "'Estão chegando os dias', declara o Senhor, 'quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá'". O autor de Hebreus conclui (em 8.13): "Chamando 'nova' esta aliança, ele tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer". Portanto, a aliança do Antigo Testamento entre Deus e Israel tinha caráter provisório. A segunda citação é do capítulo 11, em que o autor passa 38 versículos descrevendo os antigos heróis da fé e seus feitos, e conclui (11.39-40): "Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para nós, para que conosco fossem eles aperfeiçoados". Nós, que viemos depois de Cristo, vimos o cumprimento da promessa.

Se Jesus é o pleno cumprimento do Antigo Testamento, a exclusividade do povo judeu passa agora a ser a exclusividade de Cristo. O Novo Testamento indica isso de várias maneiras. Por exemplo, o próprio Jesus afirmou em João 3.36: "Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele". Pedro e João dizem claramente em Atos 4.11-12: "Este Jesus é 'a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular'. Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos". Paulo diz isso em uma de suas cartas (a primeira a Timóteo, 2.5): "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus". Tendo Cristo vindo ao mundo, a Lei cumpriu seu propósito, e continuar apegado a ela para salvação em detrimento de uma revelação melhor não é uma boa ideia.

28 de agosto de 2014

Complementos causais - parte 2

Na postagem anterior dei início a alguns comentários e esclarecimentos em torno de minha leitura do livro A soberania banida: redenção para a cultura pós-moderna, de R. K. McGregor Wright, e dos comentários do Dr. Alan Myatt à primeira parte de minha série Sutilezas causais, em que fiz comentários sobre um dos capítulos desse livro. Prometi que nesta continuação eu faria uma breve comparação entre os posicionamentos de Cornelius Van Til e os de McGregor Wright com relação ao tema do determinismo, e é o que passo a fazer. Um dos motivos pelos quais citei Van Til duas vezes nos instantes finais da primeira parte é a afirmação do Dr. Myatt de que Wright era um vantiliano. Na época isso não fez nenhuma diferença para mim, pois eu nunca tinha lido Van Til. Mas desde então li quatro de seus livros, além de outros sobre ele (de discípulos e de antagonistas), e por isso o assunto agora tem, para mim, alguma importância.

As menções que fiz a Van Til na postagem anterior sugerem que tenho minhas dúvidas sobre até que ponto Wright se manteve fiel às intenções do holandês. Eu já obtivera de minha primeira leitura indícios que pareciam apontar na mesma direção: apesar de a admiração de Wright por Van Til ficar explicitamente clara em vários pontos do livro, parece-me que, ao menos no que diz respeito aos temas fundamentais da obra, a dívida do autor para com Gordon Clark é bem maior. Embora eu não tenha contado, é provável que as referências a Clark sejam mais numerosas, e é sempre a ele, e não a Van Til, que Wright recorre para defender o determinismo e a perfeita harmonia lógica entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Além disso, na época da primeira leitura eu já tinha ciência das profundas divergências entre Clark e Van Til e da popularidade do livro nos círculos clarkianos brasileiros (a começar pelo irmão que me presenteou com o livro), de modo que me pareceu que Wright era basicamente um clarkiano, embora sem nenhuma birra com Van Til. Contribuiu para essa impressão a minha já mencionada falta de contato com o pensamento de Van Til na época, em contraste com minha relativa familiaridade com a obra de Clark.

Essas minhas impressões se modificaram um pouco no decorrer da segunda leitura. Agora vejo com clareza a influência de Van Til em diversos pontos da obra. Não obstante, continuo achando que, ao menos no que diz respeito à defesa do determinismo e à negação do mistério, e em especial quanto à relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana, Wright se afina muito mais com Clark que com Van Til. Na postagem anterior, embora não tenha me referido a Clark, apresentei fatos que, creio eu, permitirão que qualquer pessoa familiarizada com a obra deste reconheça a afinidade entre ele e o autor de A soberania banida. Nesta segunda (e última) postagem, pretendo demonstrar que Wright se afastou de Van Til também em sua visão sobre o determinismo. Ao comentar as influências que recebeu, na página 40, Wright atribui a Van Til sua "crítica da pressuposição da autonomia metafísica" e a Clark a "refutação da teoria do livre-arbitrio". Quem conhece a obra de Clark sabe que essa refutação segue uma linha determinista. O que resta saber é se a crítica vantiliana da autonomia metafísica faz o mesmo. Penso que não e, para defender isso, apresentarei e discutirei brevemente duas declarações de Van Til que julgo relevantes para elucidar isso. A primeira foi retirada do livro Jerusalem and Athens, página 16, em um momento no qual Van Til acusa Stuart Hackett de não compreender o calvinismo:

"A acusação básica de Hackett, de que o calvinismo é determinista e irracional, simplesmente não é verdadeira. Primeiro, quanto à acusação de que ele é determinista e que os homens são meros 'bonecos', basta ler o próprio Calvino para se convencer de que tal entendimento do calvinismo é falso. A noção calvinista da soberania divina não tem nada a ver com a noção do filósofo quanto a um determinismo físico, causal. Eu desenvolvi de modo extenso em outros lugares a visão pactual e exaustivamente personalista da providência que é uma parte muito clara do pensamento de Calvino."

É claro que o entendimento de Wright não coincide com o de Hackett quanto ao que seria um determinismo calvinista, como se vê no fato de que o primeiro busca dissociar o assim chamado "determinismo bíblico" dos bonecos e marionetes onipresentes na retórica anticalvinista. Mas essa diferença não anula a discrepância real entre Wright e Van Til. Para este, como se vê nas palavras acima, negar que sejamos bonecos é sinônimo de negar o determinismo, que se contrapõe a uma "visão pactual e exaustivamente personalista da providência". Ao contrário de Van Til, Wright deseja manter a visão pactual e personalista da providência e negar que sejamos bonecos sem deixar de aderir ao determinismo.

Além disso, Van Til é bastante claro ao qualificar o que entende por determinismo com as palavras "físico, causal". Uma vez mais, Wright pretende dissociar as duas coisas, argumentando que o "determinismo bíblico" transcende o domínio da matéria, sendo, portanto, causal sem ser meramente físico. Wright faz isso, por exemplo, na página 103: "Há diferentes tipos de necessidade, e a causação física é apenas uma delas". Não há essa distinção no pensamento de Van Til. O determinismo de Wright é o mesmo do filósofo, preso no falso dilema entre a "causalidade irrestrita" e o acaso. Desenvolvi um pouco essa ideia na direção de uma apologética contra o ateísmo na minha série Personalidade absoluta (partes um, dois e três).

A segunda citação de Van Til foi extraída do livro The protestant doctrine of Scripture (disponível aqui). Esqueçamos, por enquanto, a crítica a Berkouwer e Barth, pois é suficiente notar que Van Til discorda deles, e concentremo-nos no que o trecho abaixo nos ensina sobre a visão vantiliana do determinismo:

"Berkouwer fala de uma certa imperiosidade que marca a ideia de causalidade. Isso é verdade no caso da visão não-cristã da causa. Na verdade, nessa visão não-cristã a causa é o que é por causa do caráter supostamente legislativo da lógica humana. A realidade deve ser o que o homem - e seu deus -, pensando logicamente, diz que ela deve ser. Spinoza deu a melhor expressão a essa ideia quando disse que a ordem e a conexão entre as ideias são as mesmas que a ordem e a conexão entre as coisas. Aquele que pensa nesses termos pensa deterministicamente. E o indeterminismo não é remédio para o determinismo. O indeterminismo é apenas a admissão do fracasso da interpretação que segue as linhas do determinismo. É Barth quem ainda está preso no falso dilema entre determinismo e indeterminismo. O único modo de fugir dele é estabelecer a posição que Berkouwer advogou em seus primeiros dias, a posição que começa com o pressuposto da autoridade, unidade e clareza da Escritura como a Palavra de Deus."

Por aí se vê que Van Til não se considerava determinista nem indeterminista, e via as duas vertentes como efeitos da crença na autonomia da razão humana. A passagem adverte muito claramente contra o racionalismo que sempre está por trás da visão determinista, e que consiste, em termos dooyeweerdianos, na absolutização do aspecto analítico. Isso leva, nas palavras de Van Til, a uma "visão não-cristã" da causalidade, que passa a ser vista como um nexo causal ininterrupto entre eventos passados, presentes e futuros, da mesna forma pela qual, em uma dedução silogística perfeita, uma conclusão se segue das premissas através de uma série de passos lógicos inevitáveis.

Não duvido, é claro, que Van Til possa ter utilizado o termo "determinismo" alguma vez para se referir à sua própria posição. Na verdade, lembro de ter lido em algum lugar (não em fontes primárias) que ele já usou a expressão "determinismo pessoal", o que talvez explique a contraposição, feita pelo Dr. Myatt, entre "o acaso, de um lado, e o determinismo impessoal, do outro lado" no pensamento apóstata. Mas isso, mesmo que seja verdade, não anula os argumentos que levantei aqui em favor de uma diferença radical entre a visão vantiliana da providência divina e o determinismo apóstata - diferença muito mais radical que a existente entre este último e o determinismo de Wright. Afinal, todos sabemos - e o próprio Van Til, de certo modo, o admitiu na réplica a Dooyeweerd em Jerusalem and Athens - que seu modo de usar certas terminologias era por vezes infeliz e levava a interpretações equivocadas. Pessoas tão diferentes quanto Doyeweerd, Sproul e Frame perceberam e reclamaram disso.

Diante de todas essas constatações, só posso concluir que o Dr. Myatt transmitiu uma impressão equivocada (ou pelo menos exagerada) ao dar a entender uma profunda fidelidade de Wright ao pensamento de Van Til.

30 de julho de 2014

Teologia Brasileira: Armadilhas do vocabulário político

O filólogo Victor Klemperer (1881-1960) foi um dos judeus alemães que sobreviveram ao regime nacional-socialista. Ele não só deixou registros históricos e pessoais valiosos, como seus Diários, mas também, conjugando seu conhecimento acadêmico à experiência existencial de viver constantemente perseguido e marginalizado por um governo totalitário, elaborou uma análise do uso da linguagem pelo Estado nessas condições: A linguagem do Terceiro Reich, publicada em 1947. Klemperer era um homem sensível e um observador arguto. Acredito que poucos conheceram como ele, por vias teóricas ou práticas, os usos perversos da linguagem posta a serviço da política. Eis um homem que tem autoridade para falar sobre as relações entre linguagem e mentira. Por isso, à primeira vista talvez pareça estranho que seu juízo tenha sido este: “A linguagem revela. Por vezes, alguém procura esconder a verdade por meio da linguagem. Mas a linguagem não mente.”

Há nessas palavras uma dimensão teológica oculta da qual o próprio Klemperer, como judeu convertido a um protestantismo teologicamente liberal e comprometido com o iluminismo, pode muito bem ter deixado de perceber: a linguagem foi criada por Deus para expressar a verdade, de modo que a mentira é um parasita pernicioso, mas nunca de todo bem-sucedido.

Ninguém ignora que o terreno do debate político é pródigo de mentiras completas, meias-verdades, confusões e ambiguidades, tanto propositais quanto inconscientes. É importante que o cristão aprenda a evitar tais armadilhas. Diante disso, a sentença de Klemperer se relaciona de várias maneiras ao espírito do presente ensaio, cujo propósito não vai além de uma introdução à tarefa de combater alguns equívocos cometidos com frequência na reflexão política. O método consiste em problematizar, a título de exemplo, dois pares de palavras-chave potencialmente enganadoras, mostrando de que modos podem ser (e são) usadas para ocultar a verdade ao invés de esclarecê-la. Ao mesmo tempo, pretendo mostrar como tais usos podem revelar algumas verdades que são, em geral, pouco notadas.

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