20 de setembro de 2016

Profecia e divindade - parte 5

Nas primeiras quatro partes da presente série (um, dois, três e quatro), sob o título "Relações entre as religiões", expus as semelhanças e diferenças entre judeus, cristãos e muçulmanos quanto à história da revelação divina e as relações entre as religiões monoteístas, motivado em parte por uma análise de um vídeo no qual um preletor muçulmano responde à pergunta de uma jovem católica sobre temas ligados a esse. Darei início agora à segunda metade da exposição, que deverá prosseguir até a oitava e última parte desta série e versará sobre a pessoa de Jesus Cristo e a perspectiva islâmica sobre ele, ainda tendo o mesmo vídeo como pano de fundo.

2. A divindade de Jesus

A questão da identidade de Jesus, sua natureza e seu lugar na história da revelação é outra questão teológica básica em que há severas divergências entre os muçulmanos e a tradição cristã. Dizendo de modo simplificado, o islã considera
(com raríssimas exceções) que todos os profetas são portadores da mensagem de Deus, mas são seres humanos como quaisquer outros. Jesus não é uma exceção a isso, embora o Alcorão reconheça nele certos traços excepcionais. Por exemplo, o Alcorão declara expressamente que Jesus nunca cometeu pecado; além de não afirmar o mesmo sobre nenhum outro profeta, o Alcorão afirma explicitamente que o próprio Maomé pecou. Embora a crença popular islâmica considere Maomé como homem sem pecado, essa crença vai contra o conteúdo expresso do Alcorão, que atribui essa perfeição a Jesus ao mesmo tempo em que a nega a Maomé. Esse fato tem gerado sempre um certo embaraço para os apologistas do islã. Apesar disso, e de algumas outras coisinhas, o Alcorão é muito claro em sua negação da divindade de Jesus ou de qualquer outro profeta. O fato de eles serem humanos, e nada mais que isso, é parte importante da cosmovisão islâmica.

Por exemplo, em 3.64 Allah diz a Maomé: "Dize: 'Ó seguidores do Livro! Vinde a uma palavra igual entre nós e vós: não adoremos senão a Allah, e nada lhe associemos e não tomemos uns aos outros por senhores, além de Allah'. E, se voltarem as costas, dizei: 'Testemunhai que somos submissos'." Na terminologia corânica, "associar" alguém a Allah significa considerar esse alguém como divino, em pé de igualdade com Allah. Para Maomé, associar alguém a Deus equivale a cometer o pecado básico, o da idolatria, e o cristianismo faz justamente isso com Jesus, quebrando, assim, a simplicidade do monoteísmo autêntico. Nessa mesma passagem, a ordem de "não tomar uns aos outros por senhores" é claramente uma reprovação da terminologia neotestamentária, que frequentemente se refere a Jesus como Senhor. Da mesma forma, a sura 5 narra um diálogo entre Allah e Jesus nos seguintes termos, em que Jesus nega ter afirmado sua própria divindade:

"Quando Deus disse: Ó Jesus, filho de Maria! Foste tu quem disseste aos homens: Tomai a mim e a minha mãe por duas divindades, em vez de Deus? Respondeu: Glorificado sejas! É inconcebível que eu tenha dito o que por direito não me corresponde. Se tivesse dito, tê-lo-ias sabido, porque Tu conheces a natureza da minha mente, ao passo que ignoro o que encerra a Tua. Somente Tu és Conhecedor do incognoscível. Não lhes disse, senão o que me ordenaste: Adorai a Deus, meu Senhor e vosso! E enquanto permaneci entre eles, fui testemunha contra eles; e quando quiseste encerrar os meus dias na terra, foste Tu o seu Único observador, porque és Testemunha de tudo."

É em parte por causa dessa interpretação claramente expressa no Alcorão que o preletor do vídeo se dedica a demonstrar que as declarações da própria Bíblia apoiam o ponto de vista corânico, e que a afirmação da divindade de Cristo não tem fundamento bíblico. Mas existe outro motivo além desse: uma questão de consistência com o entendimento islâmico da história da revelação, já discutida na seção 1. Se Jesus é Deus encarnado, torna-se muito estranha a ideia de que a revelação última e definitiva não tenha vindo dele, e sim de um mero ser humano enviado séculos depois. Como já expliquei, a convicção islâmica não se encaixa bem com a ideia cristã de uma revelação progressiva que atinge seu auge em um determinado momento histórico, com a vinda de Cristo; mas essa ideia cristã, por sua vez, só faz sentido porque Jesus não é entendido como um homem qualquer, um profeta semelhante a todos os outros. Para o islã, portanto, negar a divindade de Jesus é simples questão de sobrevivência, ou seja, é fundamental para a plausibilidade de sua própria autoimagem de religião definitiva, precisamente por ser essa uma revelação historicamente posterior à de Cristo. Por isso o Alcorão diz claramente em 3.84: "Cremos em Allah e no que foi descido sobre nós, e no que fora descido sobre Abraão, e Ismael, e Isaque, e Jacó, e as Tribos, e no que fora concedido a Moisés e a Jesus, e aos profetas de seu Senhor. Não fazemos distinção entre nenhum deles e a Ele somos submissos." Note-se a ênfase: "não fazemos distinção entre nenhum deles"; cada um é tão humano quanto todos os outros.

A partir da próxima postagem, passarei a levantar algumas questões em torno dessas divergências e da interpretação que o preletor muçulmano oferece. Antes disso, porém, creio que é bom recapitular e registrar aqui os textos bíblicos que o preletor cita para mostrar que a Bíblia se opõe à ideia da divindade de Jesus. Fazendo um esforço de sistematizar sua argumentação, creio que é justo dizer que o preletor levanta três argumentos, sendo o primeiro dividido em três partes. 1a. Jesus declarou sua inferioridade em relação ao Pai, em João 14.28 ("o Pai é maior do que eu") e em João 10.29 ("Meu Pai [...] é maior do que todos"). 1b. Jesus admitiu que recebeu poder de Deus sobre os demônios; isso está em Mateus 12.28 ("é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios") e em Lucas 11.20 ("é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios"). 1c. a mensagem pregada por Jesus também foi determinada pelo Pai; isso ocorre em João 5.19 ("o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer") e em João 14.24, que o preletor citou erroneamente como 15.24 ("Estas palavras que vocês estão ouvindo não são minhas; são de meu Pai que me enviou"). Essas três linhas de evidência têm em comum o fato de apontarem para algum tipo de subordinação do Filho em relação ao Pai - uma subordinação que, para os muçulmanos, é incompatível com a ideia da divindade de Jesus.

Mas há outros dois argumentos além desse. 2. Jesus é chamado explicitamente de "homem" em Atos 2.22: "A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós"; note que esse versículo também reforça o argumento 1b. Esse segundo argumento é, em minha opinião, o mais fraco de todos, e o único que pode ser prontamente descartado. Afinal, a doutrina cristã diz que Jesus tem duas naturezas, divina e humana, o que significa que ele é ao mesmo tempo homem e Deus. Talvez essa doutrina possa ser criticada (embora eu creia nela), mas o fato é que, se o interesse é o de provar que Jesus não é Deus, não é suficiente citar passagens que afirmam que ele é homem.

3. O terceiro e último argumento do preletor é negativo: ele afirma que em parte alguma do Novo Testamento Jesus declarou ser Deus e exigiu adoração.

Voltarei aos argumentos 1 e 3 depois de explorar brevemente três passagens bíblicas relevantes para que se possa entender a natureza e a profundidade da divergência entre cristãos e muçulmanos com relação a Jesus.

Um comentário:

Sensei Que Nada Sei disse...

Cada vez mais interessante. Parabéns pelos textos, André.