23 de maio de 2008

As ainda mais antigas famílias

Nesta postagem pretendo fazer com o Antigo Testamento a mesma coisa que fiz nos textos As antigas famílias e Através dos séculos (o terceiro e o quarto da série, respectivamente) para o Novo Testamento. Embora a história do texto veterotestamentário seja muito complexa, tanto pelo volume quanto pela antigüidade e variedade de épocas e condições em que foram compostas suas respectivas partes, dedicarei a esse assunto um único post, pelo simples motivo de que sei bem menos sobre o mesmo. Falar pouco costuma ser a melhor maneira de não falar besteiras (tenho certeza, aliás, de que meu hábito de ficar de boca fechada é a principal razão pela qual muitos me consideram inteligente). Apesar dessa precaução, porém, acredito que esta postagem tem maiores chances de conter erros que as anteriores, e o leitor deve estar ciente desse fato. As razões são simples: as fontes que empreguei são inferiores, tanto em profundidade quanto em atualidade.

A história mais remota do texto das Escrituras hebraicas é quase inteiramente desconhecida pelo fato de que não existem manuscritos anteriores ao século III a.C., o que, inclusive, já foi pretexto para muitos debates sobre a própria data de composição dos textos originais. Quando começam a emergir das sombras do passado, porém, os textos já se mostram divididos, quanto à semelhança que possuem entre si, em basicamente três grupos. Antes de apresentá-los, contudo, deve ser dito que, até poucas décadas atrás, os mais importantes manuscritos disponíveis datavam dos séculos IX e X. Assim, o mais antigo dentre os mauscritos significativamente completos é o 4445 do Museu Britânico, que foi copiado por volta do ano 850 e contém a maior parte do Pentateuco. Há também o Manuscrito de Leningrado, escrito no início do século X, que contém porções significativas dos profetas. Um outro manuscrito de Leningrado, o B-19A, é a mais velha cópia completa do Antigo Testamento, realizada perto do ano 1010. Todos esses manuscritos pertencem a uma mesma família textual, que será designada aqui como família massorética. Além desses, existiam apenas traduções gregas e latinas que, embora remontassem até o século II, eram pouco valorizadas pelo fato mesmo de serem traduções.

Mas vários importantes manuscritos do Antigo Testamento foram encontrados nas famosas cavernas do Wadi Qumran, fonte de verdadeiros tesouros arqueológicos descoberta em 1947. No que diz respeito ao assunto deste post, o mais importante manuscrito é o Rolo do Mar Morto de Isaías, que contém o livro completo desse profeta, copiado na segunda metade do século II a.C.. Do mesmo período, há também um comentário ao profeta Habacuque que traz o texto dos seus dois primeiros capítulos. Do século seguinte temos o Rolo de Isaías da Universidade de Jerusalém, que contém a maior parte do texto a partir do capítulo 41. Há ainda um trecho de Levítico copiado no século II a.C. ou antes. Esses são, provavelmente, os achados mais importantes, e todos possuem, também, textos essencialmente massoréticos. Há, entretanto, outros manuscritos que são menos importantes, num certo sentido, por conterem textos menores ou se encontrarem em mau estado, mas que favorecem outras famílias ou apresentam textos mistos. Assim, os manuscritos do Mar Morto permitem vislumbrar a história do texto hebraico anterior ao predomínio absoluto do Texto Massorético, a cuja família pertencem quase todos os textos conhecidos até meados do século XX. Além disso, é claro, a enorme importância dos textos de Qumran reside também no fato de que eles fizeram recuar em cerca de um milênio a data dos manuscritos mais antigos até então conhecidos.

A família massorética parece ser, na vasta maioria dos casos, a tradição mais confiável. Esse fato é não apenas coerente com a evidência textual em si, que aponta para um texto mais antigo (geralmente anterior, por exemplo, ao uso das matres lectionis, consoantes que indicam vogais - vide o item C.3 do post Pedaços de bagunça), como também é coerente com o fato de que a versão que se impôs como oficial após a destruição de Jerusalém (embora possa ter existido desde até dois séculos antes), baseada numa minuciosa análise dos melhores manuscritos então disponíveis (inclusive, certamente, os pergaminhos oficiais do Templo e muitos outros rolos que não mais existem), tenha se decidido por essa família. Essa versão oficial, adotada até hoje, chama-se Texto Massorético, e deriva daí o nome da família à qual pertence.

Os grandes responsáveis pela escolha desse texto foram os soferim, uma ordem de escribas que surgiu no final do exílio babilônico (tendo sido, segundo se diz, fundada pelo próprio Esdras) e sobreviveu até cerca de 200 d.C., tendo se empenhado muito na padronização e transmissão fiel do texto sagrado. Desenvolveram métodos úteis nesse sentido, mas também foram eles próprios responsáveis pela introdução de erros motivados por suas posições teológicas, sendo que os mais notórios derivam de sua aversão à linguagem antropomórfica de certas passagens. O Midrash (significando algo parecido com "estudo textual"), que reúne exposições e interpretações de muitos mestres, foi compilado entre o século I a.C. e o fim do século III, e tem alguma relevância para a ecdótica pela abundância de citações, algumas das quais apresentam formas diferentes das contidas no Texto Massorético.

O próprio nome Texto Massorético, porém, deriva de um grupo posterior, os massoretas (nome derivado de massora, a tradição oral). Esses foram os eruditos que deram a forma final ao Antigo Testamento, entre o início do sexto século e meados do décimo. Eles criaram os sinais vocálicos e praticaram a crítica textual em certa medida, embora com métodos diferentes do usado pelos soferim. Mantiveram intacto o texto consonantal herdado destes, usando sinais vocálicos e notas marginais para sugerir erros no texto disponível, e desenvolveram ainda mais os métodos de prevenção contra erros de cópia. O Texto Massorético é o padrão usado até hoje nas edições feitas na língua original, e foi extraído principalmente dos já mencionados manuscritos de Leningrado. Não, é claro, que esse texto seja aceito sem reservas; mas a tendência dos estudiosos do assunto é conceder-lhe sempre o benefício da dúvida.

Além de fornecer o texto esmagadoramente predominante entre os judeus pelo menos desde o século II, a família massorética inclui também as traduções aramaicas, que remontam, na verdade, a tempos pré-cristãos. Embora as classes cultas estudassem e falassem o hebraico até o segundo século da era cristã, desde muito antes uma parcela significativa dos judeus retornados do exílio perdera a familiaridade com o idioma, tendo aderido ao aramaico, que era a língua franca do Império Persa. Isso exigia a presença de intérpretes nas sinagogas, que traduziam e explicavam as passagens sagradas ao povo. Quando essas traduções foram registradas por escrito receberam o nome de targuns, que significa "interpretações". Porém, essa passagem da tradição oral ao texto escrito só começou a acontecer no século II. Mas os targuns, a despeito de sua grande importância histórica, têm pouco valor para a crítica textual, tanto por abusarem da paráfrase quanto pelo próprio fato de serem derivados, em última análise, da família massorética, cuja versão hebraica original encontra-se abundantemente documentada, o que diminui a importância de suas traduções. Merece destaque também a Vulgata de São Jerônimo, completada em 404 e produzida a partir do texto hebraico então em uso na Palestina, onde o autor passou muitos anos estudando a língua com os rabinos de Belém. Essa tradução teve um caráter oficial, pois Jerônimo foi incumbido da tarefa de realizá-la pelo papa Damaso, e seu texto se tornou o padrão da cristandade ocidental ao longo de toda a Idade Média.

Ainda assim, na ausência da grande quantidade de manuscritos antigos de que dispõe a ecdótica neotestamentária, as antigas traduções ganham um papel mais importante para a crítica textual do Antigo Testamento. A mais antiga tradução grega conhecida (embora não necessariamente a primeira a ser feita) é a Septuaginta, versão composta entre 250 e 150 a.C., que foi, inclusive, muito usada nas citações pelos escritores neotestamentários e pela Igreja primitiva em geral. Orígenes compôs uma versão própria (incluída na sua Héxapla) a partir das diversas variantes disponíveis do texto da Septuaginta, completando-a com trechos de outras versões quando necessário. Essa revisão só chegou até nós pelo Códice Sarraviano, do quarto ou quinto século, que contém apenas trechos de Gênesis a Juízes, mas perpetuou-se através da tradução siríaca do Antigo Testamento feita por Paulo de Tela no ano 616. Existem outras revisões, mas elas só aparecem em manuscritos posteriores ou refletem-se indiretamente em traduções para outros idiomas. Existiram até novas traduções gregas, realizadas principalmente no século II (as principais são de Áquila e Símaco), mas delas não chegaram a nós mais que uns poucos fragmentos e citações.

Dentre os manuscritos da Septuaginta merecem destaque: os papiros Chester Beatty, que incluem porções do Pentateuco e de Isaías dos séculos II a IV; porções significativas do Gênesis e dos profetas menores em vários papiros datados do terceiro século; porções de Deuteronômio num papiro do século II (o Rylands 458); o Códice Vaticano, que contém o Antigo Testamento completo copiado no quarto século, mas cujo texto é certamente anterior a Orígenes, e no qual apenas o texto de Daniel não pertence à família em questão; o Códice Alexandrino, de meados do quinto século, que também contém o texto completo, e possui alguma afinidade com a Héxapla; o Códice Sinaítico, que possui o Antigo Testamento quase completo, e cujo texto é intermediário entre os dois anteriores. Em Qumran foram encontrados fragmentos do século I a.C., também em grego, que concordam com o texto da Septuaginta, ou pelo menos parecem ser traduções do mesmo texto original. Há ainda em Qumran uns poucos fragmentos em hebraico que concordam com o texto da Septuaginta contra o Texto Massorético, demonstrando que aquele estava também em uso nos tempos de Cristo e nos séculos anteriores. Mas a natureza altamente fragmentária desse material torna-o pouco importante, na prática, para a crítica textual.

O Pentateuco da Septuaginta é sua porção mais exatamente traduzida, certamente devido à sua enorme importância na liturgia judaica. Os livros históricos, os profetas e os livros poéticos receberam, nessa ordem, traduções progressivamente menos fiéis; isso deve ser levado em conta na avaliação do valor relativo das variantes dessa família. Mesmo no caso do Pentateuco, porém, essas variantes tendem a ser menos dignas de crédito que a versão massorética, pelo fato de que a família da Septuaginta apresenta uma heterogeneidade consideravelmente maior, o que se explica pelo fato de que os copistas do texto grego, geralmente mais afastados da tradição dos escribas judeus, eram menos rigorosos quanto às regras de exatidão seguidas por esses últimos.

Além da Vulgata, houve apenas uma grande tradução latina do Antigo Testamento, a qual, na verdade, lhe é anterior: a Itala, como é conhecida, composta durante o século II, que é, na realidade, uma tradução feita a partir da Septuaginta. Da mesma forma, o texto grego serviu de base para outras traduções, como as duas versões coptas conhecidas, assim como a maioria das versões árabes e, provavelmente, a versão etiópica. A primeira das duas traduções siríacas, a Pesita, foi realizada no segundo ou no terceiro século diretamente a partir do hebraico, mas o texto original claramente pertencia também à família da Septuaginta (são exceções os livros das Crônicas, que não constavam na versão original, e que foram incluídos posteriormente em traduções a partir do Targum; um texto de origem massorética, portanto). A segunda versão siríaca foi a já mencionada tradução de Paulo de Tela, realizada a partir da Héxapla.

A terceira e menos importante família textual é a conhecida como "samaritana", por incluir a versão do Pentateuco usada pelos samaritanos desde séculos antes da era cristã. A família samaritana quase sempre foi tratada com desprezo pelos especialistas, especialmente por suas óbvias tendências sectárias, que resultaram em gritantes adulterações do texto original. Mais recentemente, no entanto, algumas de suas variantes, cuja origem não pode ser atribuída a essa motivação apologética, passaram a receber juízos mais favoráveis da parte de vários eruditos. Ainda assim, pelo fato de não serem conhecidos textos fora do Pentateuco, e mesmo desses só existirem hoje uns poucos e fragmentários manuscritos, o texto samaritano é pouco importante. Um dos poucos manuscritos relevantes dessa classe foi descoberto no século XVII em Damasco, e seu texto veio a integrar a Bíblia Poliglota de Paris, de 1645. Trata-se de um texto samaritano que em muitas instâncias apóia a Septuaginta contra o Texto Massorético. Em Qumran foram encontrados também alguns fragmentos de manuscritos dessa família.

No que diz respeito à crítica textual, o Antigo Testamento encontra-se em clara desvantagem em relação ao Novo Testamento: há mais questões, e mais importantes, cujas respostas ainda são amplamente debatidas. Ainda assim, o texto veterotestamentário leva vantagem sobre muitas obras da Antigüidade. Isso só é possível graças a um batalhão de heróis do passado que tomaram parte na árdua tarefa de transmitir esses textos de geração em geração, sobretudo os já mencionados soferim e massoretas. Gleason Archer descreve sem exageros o mérito desses homens ao notar que eles "dedicaram a mais diligente atenção à conservação exata das Escrituras Hebraicas, a um ponto nunca igualado na dedicação dada a qualquer literatura, antiga ou moderna, secular ou religiosa, em toda a história da civilização humana". Graças a isso, chegou a nós um texto essencialmente idêntico, no mínimo, ao que era usado por volta do primeiro século.

28 de abril de 2008

O primeiro e o último

Nota: O texto abaixo é, na verdade, a primeira parte de um texto cuja segunda metade ainda não escrevi, mas que está na minha cabeça e será publicado tão logo eu tenha tempo de passá-lo ao computador.

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Escrevo sob o peso do que me parece ser a convergência espontânea de inúmeras experiências bem distribuídas entre os diversos aspectos e níveis da minha existência. Não creio que eu seria capaz de listar todas essas experiências se tentasse. Seja como for, não tentarei fazê-lo, pois uma descrição detalhada seria inútil do ponto de vista da própria idéia que pretendo expor. Felizmente, porém, uma parcela substancial das fontes das minhas reflexões encontra-se em algum texto que li ou filme que vi, ou pelo menos pode ser ilustrada com exemplos tirados daí. Talvez valha a pena mencionar, de passagem, a minha convicção de que, pelo menos no meu próprio caso, esse hábito de enxergar as coisas através dos livros (e, muito secundariamente, dos filmes) deve-se à mais pura incapacidade de apreender a verdade de maneira mais direta. Sei que há pessoas que mergulham nos livros para fugir da realidade, mas essa é uma tentação que nunca me atingiu. Tenho um interesse profundo e sincero pela realidade. Só não tenho os dotes intelectuais e morais necessários para extrair dela a verdade por meio da investigação direta. Eis aí a razão pela qual preciso recorrer constantemente ao que pessoas mais sábias, inteligentes e bem informadas disseram sobre essa mesma realidade que se me afigura invencível quando a enfrento apenas com meus próprios punhos.

Mas voltemos ao tema, que diz respeito a certos pensamentos que têm me ocorrido com freqüência considerável nos últimos tempos, e do que há em comum entre eles. Esses pensamentos podem ser definidos por três características fundamentais. A primeira é que todos se vinculam às minhas deficiências morais, ou ao sentimento de culpa decorrente de pecados já cometidos. A segunda é que esses pensamentos concretizam-se em imagens mentais cujas origens podem ser facilmente rastreadas até algum trecho de um texto que li ou filme que assisti. Isso decorre diretamente da minha aparentemente incontornável falta de criatividade. Mesmo no conto mais criativo que já escrevi, cada linha faz alusão a algo que li em algum lugar. E a terceira característica é que, em cada caso, esses pensamentos são representados por pessoas que, de modos muito diversos, estão ausentes das minhas relações pessoais, ao menos no sentido corriqueiro dessa expressão. Uma delas não existe mais, outra talvez jamais venha a existir, a terceira eu não sei se existe, e com a quarta eu jamais me encontrei fisicamente. Mas, de maneiras diversas, cada uma delas me lança olhares de reprovação que são freqüentemente intoleráveis. Meus quatro acusadores são, de qualquer forma, personagens muito interessantes, e é sobre eles que vou falar agora.

Antoine de Saint-Exupèry dedicou sua obra mais conhecida, O pequeno príncipe, ao seu melhor amigo, o escritor e crítico de arte Léon Werth, mas não sem se desculpar por estar dedicando um livro infantil a um adulto. Ele resolveu o problema dedicando o livro à criança que seu amigo havia sido um dia. Eu tenho, na verdade, sérias dúvidas quanto a esse ser realmente um livro para crianças. De qualquer forma, deriva daí, embora por caminhos algo tortuosos, o meu primeiro acusador: eu mesmo, quando era criança. Não, é claro, que eu mantenha ilusões românticas sobre a pureza moral da infância, ainda mais quando a infância em questão é a minha própria. Mas não vejo o menor sinal de impureza nas expectativas que eu tinha para a minha vida de adulto. E aqui eu me identifico plenamente nestas palavras que Olavo de Carvalho proferiu em uma de suas palestras sobre Aristóteles: "Lembro-me de uma sentença de Alfred de Vigny, grande poeta do Romantismo francês, segundo a qual 'uma grande vida é um sonho de infância realizado na idade madura'. [...] Um outro grande escritor, Georges Bernanos, quando lhe perguntaram para quem escrevia, respondeu: 'Para o menino que fui.' O menino é o juiz do homem, porque aquilo que vem depois é a realização, ou o fracasso, das expectativas e sonhos de antes."

Embora seja verdade que em alguns aspectos (inclusive alguns dos mais importantes) eu atingi minhas expectativas da infância, existem metas das quais me desviei bastante; e, da mesma forma, eu tinha sonhos para a meia idade e para a velhice de cuja concretização não pareço estar de modo algum me aproximando. Algo disso pode, sem dúvida, ser atribuído à ingenuidade daquelas minhas expectativas, mas não pelo seu aspecto moral, que é o que importa aqui. Um dos filmes que mais me tocaram até hoje foi The kid, produzido pela Disney e protagonizado por Bruce Willis. Seu personagem, um homem de quase quarenta anos, se vê subitamente obrigado a conviver com o menino de oito anos que havia sido ele mesmo, trazido do passado de maneira inexplicável. E, na medida em que observa os atos do homem, o menino vai ficando progressivamente decepcionado. "É isso que vou ser quando crescer?" Às vezes me pego pensando algo parecido. E se aquele garoto de seis anos que está no meu álbum do orkut saísse do monitor e passasse a me observar e a me fazer perguntas? Acho que eu não teria coragem de ser totalmente sincero com ele, muito embora ele seja eu. Mas e se alguém lhe contasse sobre aquele meu deslize? E se ele presenciasse aquele outro? Tenho certeza de que ele choraria. E eu também.

Meu segundo acusador era originalmente apenas a personificação de uma idéia abstrata, ou de várias delas, mas seu olhar não era menos pungente por isso. Eu costumava designá-lo simplesmente como "a morte". Estive lendo recentemente um belo livreto de Charles Swindoll sobre Elias, o profeta, e ele me fez lembrar de um boato que talvez não seja verdadeiro, mas que certamente é muito antigo e tradicional: o de que as pessoas, quando estão perto da morte, assistem a uma espécie de retrospectiva de suas próprias vidas. A questão de saber se isso de fato ocorre ou não, ou se ocorre indistintamente com todos, é absolutamente irrelevante para os meus propósitos, como ficará claro adiante. Ainda assim, convém que eu me detenha um pouco nessa imagem mental. Estive pensando: será que, quando chega a hora da morte, nossa percepção temporal se altera e conseguimos rememorar absolutamente todos os momentos da vida? E, em caso negativo, quais serão os momentos escolhidos, e segundo qual critério? Talvez eles sejam escolhidos a esmo; ou talvez o sejam de modo a compor uma amostra representativa do que foi de fato a vida do indivíduo em questão. Se for assim, então os últimos momentos da vida de qualquer pessoa serão inundados por lembranças de todos os tipos: comparecerão diante dela alguns momentos alegres e outros tristes; alguns com forte carga emocional e outros absolutamente desprovidos de sentimento; alguns dos mais importantes e outros absolutamente triviais; alguns muito bem guardados na memória e outros já inteiramente esquecidos; alguns atos muito concretos e objetivos, e outros tão profundamente interiores e subjetivos que chegam a ser inexprimíveis; alguns atos de puro heroísmo e outros dentre os mais vergonhosos já realizados. A maneira pela qual essa perspectiva interage com a minha consciência moral é óbvia. O pensamento que me assalta de vez em quando é algo assim: "qual será a minha sensação se eu me lembrar subitamente deste ato quando estiver às portas da morte?" Ou, como observou William Law, um dos grandes escritores anglicanos do século XVIII, num contexto levemente diferente: "O melhor modo que uma pessoa tem de saber o quanto deve aspirar à santidade é considerar, não o quanto ela tornará fácil a sua vida presente, mas perguntar-se o quanto ela tornará fácil a hora da sua morte. Qualquer homem que se pretende sério, ao colocar essa questão para si mesmo, será forçado a responder que, na morte, todos desejarão ter sido tão perfeitos quanto a natureza humana é capaz de ser."

Mas este é o momento apropriado para corrigir a impressão de que toda a importância dessa pergunta depende da veracidade desse boato. A importância dessa pergunta não reside nisso, e sim naquilo que é representado de forma pictórica nesse boato: o caráter efêmero desta nossa vida, que torna infinitamente importante cada momento transcorrido, cada ação efetuada e cada caminho trilhado ao longo da mesma. Olhando por esse ângulo, a sensação que me assalta quando penso em meus inumeráveis erros é a sensação de perda de tempo, de um bem muito precioso que foi sistematicamente desperdiçado. E a face que me vem à mente não é a da morte em si mesma. Se o primeiro acusador é uma criança, o segundo pode ser mais adequadamente descrito como um velho: eu, quando chegar a ser velho. Nele se reúnem os dois elementos importantes desta imagem: a morte e o tempo. Deste segundo personagem não há fotos no meu orkut, e talvez ele jamais chegue a existir. Mas não posso deixar de pensar às vezes no que esse ancião tão familiar pensará daqui a algumas décadas: "Se eu tivesse agido corretamente naquela ocasião, quão diferente teria sido a minha vida, e a das demais pessoas envolvidas? Quantos passos a mais poderiam ter sido dados na estrada para a Vida? Mas a vida passou rápido, e muito ficou por fazer." Toda a questão, mais uma vez, foi bem expressa por Bernanos: "O perigo que nós corremos não é só o de morrer, mas de morrer como idiotas". Com efeito, é difícil não morrer como idiota alguém que desperdiçou a vida entre diversas idiotices, e é nisso que reside a advertência feita pelo meu eu futuro ao meu eu presente. Mas em parte alguma ouvi essa advertência com tanta clareza quanto numa única frase proferida por William Parrish, protagonista do filme Encontro marcado (Meet Joe Black, no original), interpretado por Anthony Hopkins. Parrish era um homem bondoso, rico e bem sucedido que sabia que morreria antes do fim da festa de comemoração pelo seu sexagésimo quinto aniversário. Depois de dizer não muitas palavras em seu discurso naquela noite alegre para todos os convidados, ele concluiu com uma simplicidade cortante: "Sessenta e cinco anos! Não passam voando?"

1 de março de 2008

Através dos séculos

Na postagem anterior, a terceira da série sobre ecdótica bíblica, expus brevemente alguns fatos sobre a história textual do Novo Testamento, introduzi a questão das famílias de manuscritos e descrevi a primeira delas, a alexandrina. Passo agora a falar sobre as outras três, e a seguir farei alguns comentários gerais sobre o papel desempenhado por cada uma delas nas mais importantes traduções ocidentais do Novo Testamento, especialmente as protestantes.

O texto ocidental tem esse nome não porque sua hegemonia tenha se restringido sempre ao oeste do Império Romano (onde Alexandre Magno nunca dominou e, por conseguinte, não houve helenização e a língua comum era o latim), e sim porque foi apenas nessa região que ele manteve seu domínio ao longo dos séculos, mesmo depois que o Oriente aderiu gradualmente a alguma das demais famílias. É o texto geograficamente mais disperso. A relativa falta de familiaridade com o idioma grego no Ocidente talvez explique em parte a qualidade textual geralmente ruim de seus manuscritos, mas mesmo isso não a explica de todo, pois predominam as alterações intencionais: geralmente interpolações (que chegam, por exemplo, a aumentar em quase 10% o tamanho de Atos), mas também omissões importantes, principalmente no evangelho de Lucas. Também abundam as paráfrases. Não surpreende, portanto, que as divergências internas dentro dessa família sejam muito mais fortes que no caso alexandrino, e seu texto seja o menos confiável de todos. Apesar disso, o texto ocidental é o único a conservar algumas variantes reputadas como autênticas.

Pertence à família ocidental um importante manuscrito uncial em papiro: o Códice Beza, que tem esse nome por ter passado pelas mãos de Teodoro Beza, discípulo de João Calvino, antes de ser doado por ele à Universidade de Cambridge. Foi copiado no quinto século e contém os evangelhos e boa parte de Atos. Pertenceu também a Beza o Códice Claromontano, do século VI, que contém as epístolas paulinas e Hebreus. Seguiram ainda essa família a primeira tradução siríaca do Novo Testamento, bem como todas as traduções latinas anteriores à Vulgata de São Jerônimo, todos os pais latinos dos primeiros séculos (como Irineu, Tertuliano, Cipriano e o herege Marcião) e o Diatessaron, uma tentativa de harmonização dos evangelhos feita no segundo século por Taciano, e que rapidamente se tornou muito popular no Oriente, além das fronteiras do Império. O texto ocidental, como já foi dito, também teve certa aceitação no Oriente, tendo sido adotado pelos pais gregos até o século III e pelos sírios até meados do século V.

O texto cesareense, embora possua certas peculiaridades, é basicamente uma combinação dos dois anteriores, tendendo um pouco mais para o texto ocidental no que diz respeito às variações menos significativas. Apesar disso, o texto cesareense não endossa as interpolações e paráfrases do texto ocidental, e exibe um esforço consciente para a produção de um texto mais elegante. Sua origem deu-se no início do século III, muito provavelmente graças à influência pessoal de Orígenes, que ao se mudar para Cesaréia colocou os cesareenses, até então habituados ao texto ocidental, em contato com a família alexandrina.

Pertence a essa família o Códice Korideto, do nono século, que contém os evangelhos e veio a público em 1901. Também os dois mais importantes grupos de pergaminhos: a Família Lake, composta de cinco manuscritos copiados entre os séculos XII e XIV, e a Família Ferrar, contendo dezessete manuscritos, cuja maioria foi composta entre os séculos XI e XIII. Desse último grupo destaca-se o pergaminho 565, do nono século, o qual contém os evangelhos. Também se basearam no texto cesareense não apenas o próprio Orígenes, depois de sua migração, mas também Eusébio de Cesaréia e Cirilo de Jerusalém, bem como a tradução armênia e a geórgica.

A quarta e última família, a bizantina, surgiu em Antioquia no início do quarto século. Resulta, muito provavelmente, de uma revisão feita por Luciano (que viria a ser martirizado pouco tempo depois) a partir de textos mais antigos que circulavam na região. Sua popularidade logo atingiu Constantinopla, de onde alcançou facilmente o predomínio em todo o Império Romano do Oriente. Esse texto combina características das três famílias que o antecederam: evita a aspereza, insere interpolações (embora sejam bem menos significativas que as do texto ocidental, pois são breves e destinam-se apenas a facilitar a interpretação, explicitando o que está implícito), tem forte tendência a harmonizar passagens paralelas e tornar a leitura mais fácil e fluente. Traz variantes emprestadas das famílias anteriores, mas também acrescenta muitas novas; pelo fato de ser a mais recente das famílias, no entanto, as novidades introduzidas no texto bizantino não têm nenhuma chance de representar a versão autêntica.

Seu mais importante representante para a ecdótica são os evangelhos do já mencionado Códice Alexandrino. Pertence a essa família também a esmagadora maioria dos pergaminhos minúsculos, que são tardios (século IX em diante) e quase sempre de pouco valor para a crítica textual. Porém, eles dão uma idéia do quanto se popularizou o texto bizantino em toda a cristandade, especialmente a grega. O texto bizantino também influenciou a Europa pela tradução gótica feita no quarto século por Wulfila, o "apóstolo dos godos", e pela tradução eslava de Cirilo e Metódio, no século IX, embora nenhuma delas seja puramente bizantina.

Do exposto, nota-se claramente que todas as variantes verdadeiras originam-se, em última análise, do texto alexandrino ou do ocidental; do primeiro, na maioria dos casos, razão pela qual a maior parte dos manuscritos importantes pertence a essa família. Porém, foi exatamente o texto alexandrino o menos conhecido e menos influente ao longo da história da cristandade, até meados do século XIX. Convém, portanto, examinarmos brevemente essa história à luz do conhecimento que agora temos, a fim de verificar de que maneira todas essas complicadas questões influíram na forma como os cristãos do Ocidente conheceram a Bíblia ao longo dos séculos.

A partir do quarto século, quando as condições de produção e transmissão dos textos bíblicos melhoraram em todos os sentidos possíveis, houve, naturalmente, uma forte tendência à uniformização do texto adotado em todo o Império do Oriente. O texto que se impôs, conforme mencionado acima, foi o bizantino, graças à tremenda influência de Constantinopla. A uniformização teve início já no quinto século, e completou-se por volta do oitavo. No Ocidente prevaleceu o texto ocidental, principalmente através da Vulgata de São Jerônimo, pois este seguiu fortemente, para traduzir o Novo Testamento, versões latinas mais antigas que, aliás, também se perpetuaram. Mesmo assim, o texto bizantino não era desconhecido ali. A tendência na Europa Ocidental foi a existência de alguma mistura entre os dois textos; e, na verdade, nem a própria Vulgata escapou totalmente das variantes bizantinas.

A partir do século XV, a imprensa e o Renascimento trouxeram, respectivamente, um acesso facilitado e um renovado interesse pelos manuscritos gregos entre os eruditos da Europa católica. E, a partir do século XVI, os intelectuais protestantes foram levados ao mesmo caminho naturalmente pela centralidade da Bíblia em sua doutrina. Porém, a primeira edição impressa do Novo Testamento completo em grego só surgiu em 1516, e foi produzida por Erasmo de Rotterdam. Nela, porém, foram usados apenas seis manuscritos, sendo um deles cesareense e os demais bizantinos, e nenhum anterior ao século XII. Seguiu-se logo uma edição espanhola, como parte da monumental Bíblia poliglota complutense, baseada em manuscritos fornecidos pelo próprio Vaticano, cuja qualidade textual era melhor, mas não muito. Porém, o Novum Tetamentum de Erasmo tornou-se mais popular, por ter sido publicado primeiro e ser consideravelmente mais barato, e foi a partir dessa versão que Lutero elaborou sua tradução do Novo Testamento para o alemão.

Na verdade, todas as traduções protestantes anteriores a 1881 - inclusive a primeira versão em língua portuguesa, de João Ferreira de Almeida - basearam-se num texto basicamente idêntico ao de Erasmo, popularizado pelas edições do parisiense Roberto Estéfano e do já mencionado genebrino Teodoro Beza, que lhe fizeram pouquíssimas alterações, embora este último tenha acrescentado muitas informações relevantes para a crítica textual nas notas marginais. Essas duas edições foram, inclusive, utilizadas na produção da célebre King James Version inglesa. Almeida utilizou uma edição produzida em 1633 pelos irmãos Elzevir, dois editores holandeses.

Essa mesma edição foi responsável pela popularização da expressão "textus receptus" ("texto recebido") para designar a versão grega que seria utilizada daí em diante por muito tempo pelos eruditos protestantes, convictos de que era fiel aos originais em cada uma de suas letras. Na verdade, como já foi dito, essa versão era apenas o texto de Erasmo com pequenas adaptações: era um texto basicamente bizantino e, portanto, representante da mais recente família textual. Quase todos os tradutores e exegetas, porém, aferraram-se ao textus receptus, em parte como reação às críticas racionalistas. A despeito da pesquisa séria e dos inúmeros avanços da crítica textual, com a constante descoberta e publicação de manuscritos e a elaboração de aparatos críticos cada vez mais completos, o textus receptus continuou a ser publicado e defendido. A resistência foi sendo vencida muito lentamente; a primeira edição a fugir do texto recebido foi publicada apenas em 1719 por Edward Wells, de Oxford, e mesmo assim foi um esforço isolado e sem grandes conseqüências. Pouco depois, porém, Richard Bentley, de Cambridge, declarou guerra aberta ao textus receptus, acusando-o de ter se tornado tão deletério ao protestantismo quanto a Vulgata para o catolicismo, e basicamente pelas mesmas razões. Muitos debates ocorreram a partir daí, e muitos eruditos tomaram parte nele. Houve também importantes contribuições de alguns estudiosos católicos, embora, de modo geral, a questão lhes interessasse menos, talvez pelo fato de a Vulgata ter sido declarada suficiente pelo Concílio de Trento. De qualquer forma, o peso da evidência acumulada acabou dando ganho de causa aos partidários de Bentley, mas apenas dois séculos mais tarde.

Graças a milhares de pessoas que se dedicaram a essas pesquisas durante cinco séculos - e também, é claro, à multidão anônima dos cristãos copistas dos quinze séculos anteriores - podemos hoje dizer, com absoluta segurança, que dispomos de um texto muitíssimo próximo do original. Essa afirmação também não poderia ser feita, entretanto, sem a evolução dos critérios usados para escolher corretamente entre as variantes textuais disponíveis. Será esse o assunto abordado a seguir.

26 de fevereiro de 2008

As antigas famílias

Neste post darei continuidade à série de textos sobre a crítica textual da Bíblia. No primeiro texto falei sobre as causas da corrupção textual dos textos bíblicos ao longo dos séculos, e no segundo citei uma porção de exemplos. Agora vou discorrer brevemente sobre certos aspectos da história da transmissão textual: a formação das famílias de textos e a influência das mesmas. Esse tema ocupará este post e o próximo. Visto que a história do texto neotestamentário é consideravelmente diferente da do texto hebraico do Antigo Testamento, concentrarei hoje a atenção no primeiro e deixarei o segundo para depois.

As circunstâncias que envolviam a comunidade cristã do primeiro século, no seio da qual os textos do Novo Testamento foram compostos e espalhados por boa parte do Império Romano, eram bastante desfavoráveis: houve intensa perseguição judaica e romana; algumas partes foram compostas em prisões; os recursos eram escassos, e não parece ter havido, na maior parte dos casos, qualquer participação de escribas profissionais. O mesmo se pode dizer quanto às primeiras cópias, que começaram a ser trocadas ainda no primeiro século pelas igrejas portadoras dos manuscritos originais; nesse processo, os copistas quase certamente eram cristãos bem intencionados, mas amadores. Não houve uma edição oficial reunindo os textos, e muito menos uma comissão competente destinada a avaliar as variantes e produzir um texto mais correto, como era costume entre os escribas judeus, e mesmo entre os eruditos pagãos. Os originais, tecnicamente denominados "autógrafos", provavelmente se deterioraram rapidamente pelo uso constante. Nesse cenário, é facilmente compreensível que uma multidão de erros rapidamente surgisse e se propagasse. Quando, no século IV, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império, e passaram a existir condições mais favoráveis a uma transmissão fidedigna, a diversidade dos manuscritos existentes já era enorme desde muito tempo antes. Queixas nesse sentido já eram feitas por Orígenes no início do terceiro século. E, de fato, grande parte das mais importantes variantes textuais com que lidam os especialistas de hoje surgiu antes do ano 200.

Apesar de os textos que acabaram integrando o cânon neotestamentário terem se espalhado pelo Império e para além dele, a baixa condição social da maior parte dos primeiros cristãos, bem como a própria perseguição movida contra a igreja pelas autoridades, dificultava o contato entre comunidades de regiões distantes. Assim, cada região desenvolveu sua própria tradição textual de maneira mais ou menos independente, dada a rara disponibilidade de manuscritos provenientes de outras regiões para comparação. Assim, embora os textos possuídos por duas comunidades jamais fossem idênticos entre si, eles tendiam a ser mais semelhantes aos geograficamente mais próximos do que aos mais distantes, inclusive por terem, em muitos casos, uma maior proximidade "genealógica". Ocasionalmente, é claro, a comparação entre textos diferentes tornava-se possível, e o copista produzia um texto misto. Mas esse fenômeno era relativamente raro antes do quarto século. De qualquer forma, como era de se esperar, os textos existentes acabaram se reunindo, com o passar do tempo, em torno das versões possuídas pelos mais importantes centros da igreja primitiva: Alexandria, Roma, Éfeso e Antioquia. Mas Roma logo eclipsou Éfeso, Cesaréia cresceu em importância e, mais tarde, Constantinopla surgiu e tomou a posição de destaque de Antioquia, de modo que as quatro grandes famílias de textos ligam-se, embora de maneiras diversas, a estas quatro cidades: Alexandria, Roma, Cesaréia e Constantinopla. As versões representadas por cada uma delas denominam-se, respectivamente, texto alexandrino, ocidental, cesareense e bizantino.

O estabelecimento da existência dessas famílias foi feito através de uma análise comparativa de centenas de manuscritos antigos, levando em conta sua data de composição e a região de procedência. Muitas informações relevantes também foram extraídas da literatura patrística, tanto pelo que ela permite entrever da história da igreja cristã como um todo quanto pelas citações ou alusões que fazem aos textos do Novo Testamento. Levando em conta o local e a época em que viveram os pais da igreja, as citações feitas por eles também dizem algumas coisas relevantes sobre o tipo de texto que era usado por cada um. Também é relevante o estudo das muitas traduções para outras línguas (siríaco, latim, copta e outras) feitas nos primeiros séculos da era cristã. Examinando exaustivamente todos esses dados, os especialistas em ecdótica neotestamentária puderam demonstrar a existência, por trás da enorme confusão que impera entre os manuscritos (a ponto de não existirem dois deles com textos idênticos), de uma divisão em quatro categorias principais, conforme mencionado acima. Da mesma forma, puderam também demonstrar que essas quatro famílias se vinculam geograficamente aos quatro centros já mencionados (embora nem tanto no caso de Roma, como ficará claro adiante).

Antes de passarmos à descrição de cada uma delas, deve ficar claro que nenhum dos quatro textos corresponde inteiramente ao original, e também que nenhum deles foi obtido a partir de um único manuscrito. O texto alexandrino, por exemplo foi obtido por abstração a partir das tendências predominantes dos manuscritos pertencentes a essa família, o mesmo ocorrendo com as demais famílias. E quando se deseja saber a qual família pertence um novo manuscrito, conta-se a quantidade de desvios em relação ao texto padrão de cada uma das quatro famílias. Se o número de variantes em relação a uma das famílias é significativamente menor que em relação às demais, considera-se que o manuscrito em questão pertence definidamente àquela família. Se isso não ocorre, é porque o texto analisado é resultado direto ou indireto de uma revisão, por parte de um copista, de um manuscrito de uma família com base no de outra. Dizendo isso de maneira mais simples: trata-se de uma manuscrito misto.

Alexandria era a capital intelectual do mundo mediterrâneo na época; ali surgiu o neoplatonismo, bem como alguns dos mais notáveis pensadores judeus (como Fílon) e cristãos (como Clemente e Orígenes) da Antigüidade. Sua biblioteca contava com cerca de setecentos mil volumes, e desde o século III a.C. eram realizados estudos de crítica textual a partir de manuscritos antigos, principalmente das obras de Homero. Havia nessa cidade uma numerosa comunidade judaica, e o cristianismo a atingiu muito cedo. Porém, o contato direto dos seus crentes com os apóstolos parece ter sido muito reduzido ou mesmo nulo, de modo que os cristãos alexandrinos dependiam, mais do que os outros, dos textos como fonte de informações corretas. Todos esses fatores contribuíram para fazer da família alexandrina a mais confiável de todas. A divergência de seus exemplares entre si (e portanto em relação ao texto alexandrino padrão) é consideravelmene pequena. E, em comparação com as demais famílias, o texto alexandrino normalmente apresenta versões mais breves, e não contém os floreios lingüísticos que aparecem nelas com freqüência.

Pertencem a essa família vários dos manuscritos mais relevantes para a ecdótica atual, como os papiros Chester Beatty, copiados no início do terceiro século e descobertos nos anos 30 do século passado, e que contêm trechos dos evangelhos e de Atos, grande parte das epístolas paulinas e da Epístola aos Hebreus e a porção central do Apocalipse. Inclui também os papiros Bodmer II, XIV e XV, descobertos em 1955, e que contêm a quase totalidade de Lucas e boa parte de João. Entre os pergaminhos unciais temos: o Códice Sinaítico, que contém o Novo Testamento completo, copiado na primeira metade do quarto século e descoberto em meados do século XIX; o Códice Vaticano, composto na mesma época e pertencente à Biblioteca do Vaticano desde o século XV, pelo menos, embora seu conteúdo só tenha sido publicado em 1857, e que contém o Novo Testamento quase completo; o Códice Alexandrino, composto um século depois, que também contém o Novo Testamento quase todo, e publicado na Inglaterra em 1657 (os evangelhos, porém, seguem o texto bizantino); o Códice Efraimita, copiado no século V, possuindo fragmentos de quase todos os livros neotestamentários, e publicado no século XIX. Inclui ainda três dos mais importantes manuscritos minúsculos (isto é, escritos em letras "minúsculas" ou cursivas, e quase sempre em pergaminho), designados pelos números 33, 1739 e 2053. O primeiro e mais importante data do século IX e contém todo o Novo Testamento, com exceção do Apocalipse; o último, ao contrário, contém apenas o Apocalipse, e data do século XIII; e o segundo, contendo Atos e as epístolas, foi composto no século X e descoberto em 1879. Também se basearam nessa família de textos as duas mais antigas traduções coptas, feitas nos séculos III e IV, assim como Clemente e Orígenes, embora este tenha deixado de usá-lo depois de sua migração para Cesaréia.

A importância disso tudo ficará mais clara adiante, quando será possível comparar esses dados com os dos principais manuscritos das demais famílias. Mas pode-se notar desde já que boa parte dos manuscritos alexandrinos tidos hoje como os mais importantes só se tornaram conhecidos pelos eruditos do Ocidente em tempos relativamente recentes, embora esforços de crítica textual venham desde o século XVI. Dado que, conforme já foi dito, a família alexandrina é a mais próxima do original, o que isso significa é que, a despeito das boas intenções dos tradutores e exegetas europeus mais antigos, dispomos hoje de textos mais próximos do original do que os que esses homens tiveram em mãos. No próximo post falarei sobre as outras três famílias textuais.

22 de janeiro de 2008

Palhaçadas memoráveis

O momento é propício para o cumprimento de uma das dezenas de promessas que fiz neste blog ao longo do ano passado. Essa que pretendo cumprir hoje foi feita em agosto, na postagem intitulada Fragmentos de sensatez, em que publiquei uma porção de frases de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), um dos meus escritores e pensadores preferidos. Neste mês, para alegria do público leitor cristão deste país, a Editora Mundo Cristão está publicando a tradução, a um preço bem acessível e prefaciada por Phillip Yancey, de um de seus melhores e mais famosos livros, o Orthodoxy, que está completando um século de existência. Ortodoxia é um livro belo, profundo, agradável e edificante; um dos melhores que já li, sem dúvida alguma. Concordo com Dale Ahlquist quando ele diz que todos deveriam não apenas ler esse livro, mas lê-lo todos os anos. O texto em inglês já é de domínio público, e pode ser acessado neste endereço. Quem preferir a tradução da Mundo Cristão pode comprá-la ou entrar em contato comigo, pois a tenho em formato PDF. (Não se trata de pirataria, é bom deixar claro; a própria editora produziu o arquivo e o disponibilizou promocionalmente em sua página por tempo limitado.) Mas não é sobre o livro que pretendo falar hoje, e sim sobre o autor. Ou, dizendo mais exatamente, sobre o estilo literário e argumentativo do autor, que justificaria por si só a minha admiração por ele, caso o conteúdo transmitido não fosse ainda melhor. Não sou, é claro, nenhuma autoridade no assunto, já que não li mais que sete dos seus livros. Mas isso foi mais que suficiente para que saltassem aos meus olhos certos aspectos sempre presentes na sua prosa. Quem quiser amostras pode ler o ensaio Em defesa do culto à criança, que traduzi e publiquei aqui em outubro, num post chamado Novas criações, e também o texto Sobre a leitura, traduzido e publicado há poucos dias pelo meu amigo Gustavo Nagel em seu blog.

Para mim, a maneira mais fácil de começar a descrever o estilo de Chesterton é comparando-o com um outro grande escritor europeu, Friedrich Nietzsche. A equiparação dos dois é imprópria sob muitos aspectos; aliás, sob quase todos. Mas os contrastes também ajudam na compreensão, assim como as semelhanças. E no momento, embora muitas comparações pudessem ser feitas, interessam-me apenas uma semelhança e uma diferença. A semelhança está no modo de expressão pouco usual, infindavelmente criativo, e no estilo de argumentação cheio de uma carga emocional própria e inconfundível e de apelos constantes à imaginação do leitor, um estilo repleto de figuras de linguagem e imagens mentais, avesso a uma clara e rígida seqüência de silogismos. "Poético" é a melhor palavra que encontro para definir tudo isso. Nietzsche e Chesterton são, ambos, poetas-filósofos. A diferença, quanto a esse aspecto específico, é que Nietzsche é muito poeta e pouco filósofo, enquanto Chesterton é muito de ambas as coisas. Essa diferença decorre dos próprios objetivos e pressupostos teóricos de cada um, mas não entrarei nesse assunto agora. O que importa é o resultado concreto em cada caso: Chesterton não apresenta seu argumento de maneira nua, mas o mostra devidamente fantasiado; talvez não seja injusto dizer que nos seus textos o argumento quase sempre aparece fantasiado de palhaço. Mas a fantasia se destina a chamar a atenção para o palhaço, a quebrar o torpor dos automatismos mentais que insistem em torná-lo imperceptível, não a ocultá-lo, e muito menos a substituí-lo. O leitor que empreender o esforço de separar mentalmente a retórica da dialética nos textos de Chesterton não ficará decepcionado; por baixo da fantasia haverá, ao menos na esmagadora maioria das vezes, um sólido argumento. No caso do tão celebrado escritor alemão, ao contrário, costuma restar apenas um punhado de contradições e arbitrariedades. É muito significativo examinar, sob esse ponto de vista, a maneira pela qual Chesterton utiliza o paradoxo, do qual, como já mencionei mais de uma vez, ele era considerado um autêntico mestre. Mas ele distinguia entre o paradoxo desprezível, definido no próprio Ortodoxia como "uma defesa meramente engenhosa do indefensável", e o paradoxo autêntico e válido, que é "a verdade plantando bananeira para chamar a atenção", conforme ele a definiu em The paradoxes of Mr. Pond.

Não deixa de haver alguma dose de justiça na crítica, feita por alguns, de que Chesterton às vezes é um tanto obscuro. Isso se explica pelo fato de que ele é um daqueles sujeitos raros aos quais se aplica perfeitmente a frase que alguém usou para descrever o físico Murray Gell-Mann: "Ele tem cinco cérebros, e cada um deles é melhor que o nosso". Se Chesterton tinha cinco cérebros eu não sei, mas o fato é que não demonstra ter a menor dificuldade para pensar em cinco coisas ao mesmo tempo. Ele foi, mesmo antes da conversão ao cristianismo, um profundo conhecedor da natureza humana (e é por isso mesmo que acabou se convertendo), e as mais tênues e ignoradas conexões entre as coisas apareciam claramente aos seus olhos. Eis porque seus livros costumam conter alusões a uma miríade de temas, seja qual for o assunto principal. Isso contribui para fazer dele um escritor nada convencional, a ponto de levá-lo a aparecer como mero coadjuvante em sua própria autobiografia. (Ahlquist explica esse interessante fenômeno afirmando que Chesterton era humilde demais para gastar muito tempo pensando em si mesmo, e eu creio que ele tem razão.) Chesterton percebe intuitivamente certas verdades que mesmo as inteligências mais capazes dificilmente apreendem sem esforço, e isso contribui para fazer dele um escritor brilhante; mas também é em virtude do admirável poder de síntese decorrente daí que a leitura pode, ocasionalmente, se tornar algo penosa. O esforço compensa, sem dúvida, mas Chesterton requer atenção total; lê-lo distraidamente, ou com sono, é quase um sacrilégio, porque é um tremendo desperdício. Mas mesmo nos raríssimos momentos em que chega perto de ser chato, sua chatice não é de modo algum comparável à típica prolixidade acadêmica, quer do ponto de vista qualitativo, quer do quantitativo. Jamais usa vocabulário técnico; jamais é pedante; jamais peca pela falta de imaginação. Nesse sentido, o máximo de que se pode acusá-lo é de cometer excessos.

Entretanto, a vasta maioria das críticas que lhe fizeram era grosseiramente injusta. Muitos viram nele um sujeito frívolo, um sofista, nada mais que uma fonte inesgotável de frases brilhantemente criativas e bem-humoradas, mas vazias. Quem pensa assim não chegou perto sequer de compreender aquela notável figura, e muito menos de ter o direito de julgá-la. Desconfio que esse veredicto pode ser atribuído, quando não à pura má vontade do crítico, ao menos à sua falta de sensibilidade. Os textos de Chesterton se assemelham às próprias Escrituras Sagradas em certo aspecto: seu estilo é tal que ensina muito a quem se empenha sinceramente em compreendê-lo, ao mesmo tempo que o torna opaco aos que não desejam fazê-lo devidamente. Assim, é facílimo atribuir a ele as idéias mais bestas e contraditórias, e corroborar com citações cada acusação feita nesse sentido. Citar Chesterton é freqüentemente uma tentação irresistível, mas é também um tanto perigoso. A continuidade de sua argumentação e a consistência de seu pensamento são fortes a tal ponto que as frases que ele inseriu num texto normalmente já não são as mesmas quando retiradas dele. O leitor cuja consciência fragmentada é incapaz de apreender essa continuidade e essa consistência poderá elaborar uma lista infindável de ditos absurdos, sem jamais chegar a suspeitar das realidades subjacentes. Mesmo assim, acredito ser impossível que alguém permaneça imune à sua grandeza. O indivíduo incapaz de ler com todo o seu ser, empenhando adequadamanente a razão, a emoção e a imaginação, é incapaz de compreender Chesterton; ainda assim, sua leitura será, seguramente, um dos melhores antídotos possíveis para esse mal interior. Mesmo quando está errado, Chesterton tem alguma verdade a comunicar, e a exprime de uma maneira surpreendente, nada convencional. Aqueles inapelavelmente comprometidos com a rejeição dos valores defendidos por ele só têm uma saída: ignorá-lo por completo. E essa é, aliás, justamente a estratégia adotada pelo mundo moderno.

Não posso encerrar estas breves e altamente fragmentárias considerações sem dizer que todas essas características que acabo de descrever não são resultado de uma premeditação brilhante feita por uma mente excepcionalmente capaz. A espontaneidade transparece em cada uma de suas linhas, e sem ela ninguém poderia ter escrito tanto e tão bem. Quando comecei a ler Chesterton desconfiei, a despeito das aparências, que algum rebuscamento deveria estar por trás de tamanho brilho. Mas logo me convenci de que não era nada disso. Pois todos os testemunhos de pessoas que o conheceram pessoalmente e todas as transcrições de debates e entrevistas em que tomou parte mostram exatamente aquela mesma personalidade que se revela nos livros. Percebi, então, que a razão pela qual devemos ler Chesterton com todo o nosso ser não é outra senão o fato de que era dessa forma que ele escrevia. Seus textos são espontâneos, profundos, criativos e alegres porque ele próprio era espontâneo, profundo, criativo e alegre. Tudo muito simples, mas nem por isso menos surpreendente.

16 de janeiro de 2008

Pedaços de bagunça

Dando prosseguimento ao tema iniciado em A origem da bagunça, em que descrevi as mais importantes causas da existência das variações que são objeto de estudo da crítica textual, este post ilustrará os casos ali descritos com exemplos retirados dos textos bíblicos, tanto hebraicos quanto gregos. Considero importante esse procedimento a fim de evitar que a descrição precedente se mostre demasiado abstrata, e assim induza a concepções erradas sobre a profundidade e a importância relativa das variantes textuais. Quase todos os exemplos foram retirados dos livros já citados de Paroschi e Archer. Usei exemplos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento sempre que foi possível, mas em alguns casos não fui capaz de localizar exemplos apropriados de um ou de outro. Em particular, a última parte não contém exemplos veterotestamentários, por razões já explicadas no post anterior.

Cabe observar que, seguindo a recomendação de Franz Schalkwijk em seu livro Coinê, uma introdução ao grego helenístico, optei por distinguir entre as letras epsilon e êta, kapa e khi, omicron e ômega, transliterando-as como "e" e "ê", "k" e "kh", "o" e "ô", respectivamente. Na verdade, Schalkwijk recomenda um traço horizontal no lugar dos acentos circunflexos, mas fiz essa substituição por temer que o navegador de algum leitor apronte uma confusão qualquer. Nem todos os autores que lidam com o assunto seguem a convenção proposta no livro didático mencionado. Julguei útil a sugestão de Schalkwijk por eliminar de modo relativamente simples as ambigüidades na transliteração. Esse método paga o preço de ignorar os sinais diacríticos, mas isso não chega a ser um grande problema, visto que eles não fazem parte dos manuscritos neotestamentários mais antigos. Dessa forma, deve ficar claro que a presença dos referidos acentos não diz muito sobre a pronúncia das palavras onde aparece e, em particular, não diz nada sobre a tonicidade das mesmas.

Alterações não intencionais

A. Causadas pela falta de atenção do copista;

1. Trocas de posições entre letras ou palavras. Isaías 32.19 diz: "ainda que haja saraivada, caia o bosque e seja a cidade inteiramente abatida." "A cidade" é "h'yr", mas alguns manuscritos dizem "hy'r", que significa "a floresta". Na descrição da agressão a Jesus perante o Sinédrio, em Marcos 14.65, é dito que "os guardas o receberam com bofetadas". Mas há versões que substituem "receberam" ("elabon") por "arremessaram" ("ebalon").

2. Trocas de palavras por sinônimos. Podem ser encontrados exemplos em dezenas de passagens do Novo Testamento nas quais aparece a preposição "peri", sendo substituída por "hyper", ambas tendo, nesses contextos, sentido semelhante a "sobre".

3. Repetição de uma seqüência de caracteres. Ezequiel 48.16, que fornece as dimensões da futura cidade santa, descreve-a como um quadrado de quatro mil e quinhentos côvados de lado, mas o texto massorético diz "cinco quinhentos" ("hsm hsm m'wt") ao invés de apenas "quinhentos" ("hsm m'wt"). Um exemplo do mesmo tipo pode ser visto em Atos 19.34, onde há manuscritos que reproduzem duas vezes a frase "Grande é a Diana dos efésios!".

4. Supressão de uma seqüência de caracteres repetida. No contexto da guerra movida contra a tribo de Benjamim pelas demais tribos de Israel em retaliação à morte cruel imposta por membros daquela tribo à esposa de um certo levita, nos é dito que "Benjamim não quis ouvir a voz de seus irmãos" (Juízes 20.13) quando foi exigida a morte dos criminosos. Essa versão segue o texto massorético. Porém, provavelmente a versão correta foi preservada na Septuaginta, que, em vez de simplesmente "Benjamim", diz "os filhos de Benjamim". A diferença é causada pela repetição de três letras ("bnymn" e "bny bnymn", respectivamente). Em 1 Tessalonicenses 2.7 Paulo afirma de si e seus companheiros: "nos tornamos crianças entre vós". Mas alguns manuscritos dizem "nos tornamos carinhosos entre vós". A diferença deve-se à supressão de um letra repetida: "egenêthêmen nêpioi" no primeiro caso, e "egenêthêmen êpioi" no segundo.

5. Supressão de uma seqüência de caracteres não repetida. O profeta Isaías diz, em 8.11, que Deus lhe falou "com a força da mão" sobre ele, segundo o texto massorético, mas "com força de mão", sem artigos, de acordo com um manuscrito encontrado em Qumran. A diferença no hebraico deve-se a apenas uma letra: no primeiro caso, escreve-se "bhzqt hyd"; no segundo, "bhzqt yd".

6. Supressão de uma seqüência de caracteres entre duas palavras iguais. O texto massorético e o Targum dizem em 1 Samuel 14.41 apenas o seguinte: "Falou, pois, Saul ao Senhor, Deus de Israel." Mas a Septuaginta diz: "Falou, pois, Saul: Ó Senhor, Deus de Israel, por que tu não respondes hoje ao teu servo? Se a injustiça é comigo ou meu filho Jônatas, dá prova; e se tu dizes que é com o teu povo Israel, dá santidade, ó Senhor, Deus de Israel." A maior parte de Lucas 18.39 foi omitida em certos manuscritos pelo fato de estar entre duas frases idênticas: "E os que iam na frente o repreendiam para que se calasse; ele, porém, cada vez gritava mais".

B. Causadas por dificuldades "físicas";

1. Fusão de duas palavras em uma. No meio da descrição dos rituais do Dia da Expiação é dito que Arão deveria lançar sortes "sobre os dois bodes: uma para o Senhor, e a outra para o bode emissário" (Levítico 16.8), como diz a Septuaginta. Mas o texto massorético diz "para Azazel" ("l'z'zl"), criando um sério problema exegético mediante a introdução de um nome próprio inteiramente desconhecido em lugar de "para o bode emissário" ("l'z 'zl"). Um caso mais brando encontra-se no final da resposta de Jesus ao desejo de Tiago e João pela proeminência no reino vindouro. Segundo alguns manuscritos, Jesus disse: "all ois êtoimastai", "porque é para aqueles a quem está preparado". Segundo outros, a resposta foi "allois êtoimastai", "isso está preparado para outros".

2. Cisão de uma única palavra em duas. Já foi sugerido que a forma original de Ezequiel 7.4 seria "segundo teus caminhos, tuas abominações estarão no meio de ti", e não "porque teus caminhos e tuas abominações estarão no meio de ti". A diferença teria sido causada pela cisão de "kdrkyk" em "ky drkyk".

3. Substituição de uma letra por outra de aparência semelhante. Para um exemplo em hebraico, vide o item C.2, abaixo. Em grego temos semelhanças entre as letras alfa, delta e lambda e entre epsilon e sigma, para dar exemplos apenas na forma uncial (ou "maiúscula") do alfabeto. Assim, Atos 15.40 diz que "Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu...", mas há manuscritos que dizem "tendo recebido" ("epidexamenos") ao invés de "tendo escolhido" ("epilexamenos").

4. Substituição de palavras por outras de som idêntico ou semelhante. A confusão entre "l'" ("não") e "lw" ("para ele"), de pronúncia idêntica, causou alteração no sentido de Isaías 9.3. Enquanto o natural seria "Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste", alguns manuscritos dizem "a alegria não aumentaste". Outro exemplo bem famoso encontra-se na declaração de Paulo em Romanos 5.1: há uma versão que diz "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus...", enquanto outra traz "tenhamos" ("ekhômen") no lugar de "temos" ("ekhomen").

C. Causadas por incompreensão por parte do copista;

1. Evolução da pronúncia. Um bom exemplo hebraico desse fenômeno vincula-se ao caso descrito abaixo, no item 3. No grego, temos a diminuição gradual da distinção fonética entre êta e epsilon, resultando em equívocos como o de Marcos 14.31, onde um copista escreveu "mê" em vez de "me", resultando na seguinte frase de Pedro: "Se não for necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei".

2. Evolução da forma das letras. Em certos períodos da história paleográfica do hebraico, as letras daleth e resh (D e R) tornaram-se praticamente indistinguíveis, assim como as letras vav e yod (W e Y). Daí decorrem, por exemplo, várias diferenças na grafia de nomes próprios, como de Dodanim para Rodanim em Gênesis 10.4 e 1 Crônicas 1.7.

3. Evolução das regras gramaticais. Especialmente durante os séculos III a I a.C., as letras alef, he, vav e yod (', H, W e Y, respectivamente) foram usadas como indicações da presença de certas vogais, tendo sido deixado parcialmente de lado seu uso original como consoantes. A causa provável disso está no fato de que o uso do aramaico se difundiu muito, e muitas pessoas perderam a familiaridade natural com o hebraico. Quando os soferim (uma ordem de escribas) decidiram restabelecer o texto original e eliminar a inovação relativamente recente, cometeram alguns erros, de modo que certas alterações desse tipo não foram corrigidas. Assim, o texto massorético de Amós 2.7, preservando um alef adicional, diz "pisoteiam a cabeça dos pobres" ("hs'pym") em vez de "ferem a cabeça dos pobres" ("hspym").

4. Incorporação de notas marginais. Uma nota desse tipo é o versículo 4 do quinto capítulo de João, que explica a razão da permanência de tantos inválidos junto ao tanque de Betesda. Ainda em João, outro provável enxerto, embora não se trate propriamente de uma nota explicativa, é o longo episódio da mulher adúltera, entre 7.53 e 8.11, um dos casos mais curiosos da ecdótica neotestamentária.

Alterações intencionais

1. Harmonização de passagens paralelas. Em Marcos 9.29, Jesus responde da seguinte forma à indagação dos discípulos sobre a razão pela qual foram incapazes de expulsar o demônio que atormentava um menino: "Esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum". Em Mateus 17.20, porém, a resposta é outra (embora não contradiga a anterior), de modo que o versículo 21, que reproduz a resposta dada em Marcos, provavelmente é uma tentativa de harmonização.

2. Correção de citações. Mateus 15.8 cita do Antigo Testamento nos seguintes termos: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." A citação é de um trecho de Isaías 29.13, que diz o seguinte: "Este povo se aproxima de mim com a boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim". Alguns manuscritos de Mateus trazem uma citação literalmente mais correta do texto profético.

3. Eliminação de contradições ou erros aparentes. O primeiro capítulo de Marcos introduz as citações dos versículos 3 e 4 da seguinte forma: "Conforme está escrito na profecia de Isaías" (versículo 2). Entretanto, apenas o quarto versículo refere-se a um trecho de Isaías, ao passo que o anterior é citado de Malaquias. Por isso, alguns copistas mudaram o texto para "Conforme está escrito nos profetas".

4. Influência retroativa de adaptações para uso litúrgico. Um exemplo famoso é a última frase da mais famosa oração da cristandade: "Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém." Essa frase, ao que tudo indica, não constava no original.

5. Correção de erros gramaticais. Em Lucas 4.1 é dito que, depois de ser batizado, Jesus foi guiado pelo Espírito Santo "no deserto" ("en tê erêmô"). Embora a expressão usada por Lucas não seja gramaticalmente incorreta, alguns copistas cederam à tentação de substituí-la por "eis tên erêmon" ("ao deserto").

6. Substituição de palavras vulgares. Quando em Marcos 7.5, os fariseus se queixaram a Jesus pelo fato de seus discípulos comerem com as mãos "por lavar", a expressão registrada, "koinais", foi considerada demasiado vulgar por certos copistas, que a substituíram por um sinônimo mais decente, "aniptois".

7. Substituição de palavras incomuns. Paulo escreveu a Tito (em 1.5): "Por esta causa te deixei em Creta". O verbo utilizado, "apelipon", é bem raro na língua comum da época, o que explica a razão pela qual certos escribas o substituíram por um sinônimo mais conhecido, "katelipon".

8. Eliminação de hebraísmos. Um hebraísmo particularmente comum em textos dos evangelhos, como em Lucas 2.6-10, é o uso freqüente (e até excessivo, tanto que nem todos aparecem nas traduções ao português) da conjunção "e", "kai". Esse uso não é típico da língua grega, o que fornece evidência de que ao menos certas partes dos evangelhos são traduções literais de textos ou discursos em hebraico ou aramaico.

9. Transliteração de nomes próprios. A cidade de Cafarnaum, na Galiléia, é um bom exemplo. Em alguns manuscritos seu nome é transliterado "Kafarnaoum", e em outros "Kapernaoum".

10. Interpretação de passagens difíceis. Um caso cheio de remendos encontra-se em Colossenses 2.2, em que Paulo, referindo-se aos cristãos que não o conheciam pessoalmente, afirmava interceder "para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham também toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo". Insatisfeitos com esse final abrupto e obscuro, muitos copistas fizeram diversas modificações, como "o mistério de Deus e Cristo", "o mistério de Deus", "o mistério de Cristo", "o mistério de Deus, que é o Cristo", "o mistério de Deus Pai em Cristo Jesus" e outros.

11. Alterações destinadas a evitar dificuldades teológicas. Um exemplo clássico encontra-se em Mateus 24.36, em que Jesus diz: "Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos nos céus, nem o Filho, senão o Pai". Julgando, provavelmente, que a passagem negava a onisciência de Cristo e, por conseguinte, a sua divindade, alguns copistas omitiram as palavras "nem o Filho" nessa passagem.