18 de outubro de 2007

Novas criações

Eu gostaria de ter publicado o texto de hoje durante a semana passada, de preferência na sexta-feira, Dia das Crianças. Mas a viagem a João Pessoa, os afazeres que se acumularam por aqui nesses dias de ausência e um pouco de preguiça acabaram impedindo que o texto saísse antes de hoje. Mas o esforço da leitura compensa, apesar do atraso, inclusive porque o texto não é meu, e sim de um escritor muito melhor e mais digno de atenção. Esse breve artigo, que se tornou um dos meus preferidos tão logo o li, foi encontrado numa coletânea de ensaios e poemas de G. K. Chesterton chamado Brave new family, em alusão ao Brave new world de Aldous Huxley. Publicado em 1990, esse volume traz textos curtos sobre a família, o casamento, o divórcio, os pais, os filhos, o marido, a esposa e outros temas relacionados a esses em diversos aspectos. É daí que traduzi o texto que agora reproduzo neste blog. Fala sobre as crianças ou, mais precisamente, sobre o modo como as crianças são e sobre o modo pelo qual as enxergamos e tratamos. Escrito no estilo inconfundivelmente belo da prosa de seu autor, o ensaio dá ainda uma amostra da razão pelo qual Chesterton é considerado por muitos o mestre do paradoxo. Assim como os demais textos do escritor inglês, este também contém inúmeras lições importantes em forma embrionária. Transparece ainda o imenso amor de Chesterton pelas crianças, sem, contudo, que surja o mais leve sinal de frustração pelo fato de que ele e sua esposa jamais puderam ter filhos.

Não me delongarei nestas palavras introdutórias, mas há ainda um ponto que merece menção. A edição do Brave new family que encontrei na biblioteca da UFSCar e onde fui buscar esse artigo não era inglesa ou americana, e sim uma tradução espanhola, que recebeu o título El amor o la fuerza del sino ("o amor ou a força do destino", em referência às seguintes palavras do papa João Paulo II: "O amor é um constante desafio que o próprio Deus nos lança, e creio que ele o lança para que desafiemos a força do destino"). A importância disso reside, naturalmente, no fato de que o que estou apresentando é a tradução da tradução de um texto cujo original nunca vi e não fui capaz de localizar, de modo que a probabilidade de haver erros consideráveis não pode ser desprezada. Mas não creio que isso chegue a comprometer seriamente o conteúdo daquilo que Chesterton intentava nos transmitir, como de fato o fez de modo tão admirável.

Em defesa do culto à criança

As duas coisas que tornam as crianças tão atraentes para quase todas as pessoas normais são: em primeiro lugar, que são muito sérias; e em segundo que, conseqüentemente, são muito felizes. São alegres com aquela perfeição que só é possível na ausência de humor. As escolas e os sábios mais insondáveis não alcançaram jamais a gravidade que mora nos olhos de uma criança de três meses de idade. É a gravidade de seu assombro diante do universo, e assombro diante do universo não é misticismo, e sim um senso comum transcendente. O fascínio das crianças consiste em que com cada uma delas todas as coisas são feitas de novo, e o universo se põe novamente à prova. Quando passeamos pelas ruas e vemos abaixo de nós essas deliciosas cabeças bulbosas - três vezes maiores que os corpos - que definem esses cogumelos humanos, deveríamos sempre e em primeiro lugar recordar que dentro de cada uma dessas cabeças há um novo universo, tão novo quanto foi o sétimo dia da criação. Em cada um desses orbes há um novo sistema estelar, nova erva, novas cidades, um novo mar.

Sempre há na mente sã uma obscura sugestão de que a religião nos ensina a escavar mais do que a escalar; uma insinuação de que, se pudéssemos entender de uma vez o barro comum da terra, entenderíamos todas as coisas. De maneira similar, abrigamos uma sensação de que, se pudéssemos destruir de um golpe o hábito e ver as estrelas como as vê uma criança, não nos faria falta nenhum outro apocalipse. Esta é a grande verdade que sempre respaldou o "culto à criança" e que o apoiará até o final. A maturidade, com suas energias e aspirações sem fim, pode facilmente convencer-se de que encontrará coisas novas para apreciar; mas nunca ficará convencida de que soube apreciar apropriadamente aquilo que já encontrou. Podemos escalar os céus e encontrar inumeráveis estrelas novas, mas sempre restará a nova estrela que não encontramos, aquela na qual nascemos.

É-nos forçoso, de fato, remodelar nossa conduta segundo essa teoria revolucionária do caráter maravilhoso de todas as coisas. Ainda quando somos perfeitamente simples ou ignorantes, a verdade é que tratamos a linguagem das crianças como algo maravilhoso, o andar das crianças como maravilhoso e a inteligência normal das crianças como algo maravilhoso. O filósofo cínico se agrada em pensar que nessa questão ele é superior, que pode rir-se quando demonstra que as palavras ou as brincadeiras da criança são coisas bastante comuns e ordinárias. Mas o fato é que é aqui que o culto à criança está profundamente certo. Qualquer palavra e qualquer brincadeira é assombrosa se vinda de um monte de barro; as palavras e brincadeiras da criança são assombrosas; e também é justo dizer que as palavras e brincadeiras do filósofo são igualmente assombrosas.

A verdade é que nossa atitude frente às crianças é correta, ao passo que nossa atitude frente aos adultos está equivocada. Nossa atitude frente aos da nossa idade consiste em uma solenidade servil que encobre um grau considerável de indiferença ou desprezo. Nossa atitude face às crianças consiste em uma indulgência condescendente que encobre um respeito insondável. Inclinamo-nos diante dos adultos, tiramos o chapéu para eles, abstemo-nos de contrariar seus planos, mas não os apreciamos adequadamente. Fazemos nossas crianças de bobas, damos-lhes sermões, puxamos-lhes as orelhas, mas as respeitamos, gostamos delas e as tememos. Quando respeitamos algumas coisas na pessoa madura, costumam ser suas virtudes ou sua sabedoria, o que é bem fácil. Mas respeitamos as faltas e os desatinos das crianças.

Provavelmente chegaríamos muito mais perto da verdade sobre as coisas se tratássemos todos os adultos, de qualquer título ou tipo, precisamente com esse carinho obscuro e respeito deslumbrado com que tratamos as limitações infantis. É difícil para a criança realizar o milagre da fala, e conseqüentemente nos parece que seus equívocos são tão maravilhosos quanto seus acertos. Se adotássemos a mesma atitude frente ao primeiro-ministro ou ao ministro da fazenda, se afavelmente os mimássemos em seus balbuciantes e divertidos intentos de falar como seres humanos, nossa visão seria muito mais sábia e tolerante. Uma criança tem astúcia para fazer na vida experimentos que em geral são saudáveis quanto aos seus motivos, mas freqüentemente intoleráveis na comunidade doméstica. Se pudéssemos tratar todos os comerciantes ladrões e tiranos presunçosos da mesma maneira, se reprovássemos com suavidade suas brutalidades como se fossem pitorescos equívocos no desempenho da vida, se lhes disséssemos simplesmente que "entenderão quando forem maiores", estaríamos provavelmente adotando a melhor e mais esmagadora atitude que pode haver frente às debilidades da humanidade. Em nossas relações com as crianças demonstramos que o paradoxo é de todo verdadeiro, que é possível combinar uma anistia muito próxima do desprezo com uma adoração muito próxima do terror. Perdoamos as crianças com o mesmo tipo de blasfema delicadeza com que Omar Khayyam perdoava o Todo-poderoso.

A retidão essencial de nossa atitude frente às crianças se encontra no fato de que sentimos que tanto elas quanto seu modo de comportarem-se são sobrenaturais, enquanto que, por alguma misteriosa razão, não temos o mesmo sentimento sobre nós nem sobre nosso modo de nos comportarmos. A própria pequenez das crianças torna possível que olhemos para elas como se fossem prodígios maravilhosos; dá-nos a impressão de que estamos lidando com uma nova raça que só se pode ver ao microscópio. Duvido que alguém com um mínimo de ternura e imaginação possa ver a mão de uma criança sem ficar um pouco assustado. É tremendo pensar na essencial energia humana que move algo tão diminuto; é como imaginar que a natureza humana pudesse viver na asa de uma borboleta ou na folha de uma árvore. Ao contemplar vidas tão humanas e apesar disso tão pequenas, sentimos como se nós próprios tivéssemos inchado até alcançar dimensões vergonhosas. Sentimos, frente a essas criaturas, o mesmo tipo de obrigação que poderia sentir uma divindade se houvesse criado algo que não pudesse entender.

Talvez o aspecto engraçado das crianças seja o mais carinhoso e atraente de todos os vínculos que mantêm coeso o universo. A pesada dignidade de suas volumosas cabeças é mais enternecedora que qualquer medida de humildade. Sua solenidade oferece-nos mais esperança por todas as coisas que mil carnavais de otimismo. Seus olhos grandes e brilhantes parecem conter em sua admiração todas as estrelas. A ausência fascinante do nariz parece dar-nos a insinuação mais perfeita do humor que nos aguarda no reino dos céus.

Um comentário:

Cygnus disse...

Gostei muito André.