16 de junho de 2010

Viagens doloridas - parte 3

Este post encerra a transcrição dos trechos interessantes do livro Diário de viagem, de Albert Camus.

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Em Salvador:

"Três horas de voo, e depois veem-se surgir, sobre uma imensidão, colinas curtas cobertas de neve. Ao menos, é a impressão que me dá essa areia branca, muito frequente aqui, e cujas vagas imaculadas parecem cercar a Bahia com um deserto intacto. Do aeroporto até a cidade, seis quilômetros de estrada em ziguezague, entre as bananeiras e uma vegetação frondosa. A terra é totalmente vermelha. Bahia, onde só se veem negros, parece-me uma imensa casbah fervilhante, miserável, suja e bela. Mercados imensos, feitos de velas esburacadas e de tábuas velhas, de velhas casas baixas, caiadas de vermelho, verde-maçã, azul, etc. Almoço no porto. Grandes barcos de velas latinas, ocre e azul, descarregando cachos de bananas. Comemos pratos tão apimentados que fariam andar paralíticos. A baía que vejo também da janela do meu hotel estende-se, redonda e pura, cheia de um estranho silêncio, sob o céu cinzento, enquanto as velas paradas que nela se veem parecem aprisionadas num mar subitamente imobilizado. Prefiro essa baía à do Rio, muito espetacular para o meu gosto. Esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia. [...] Visita às igrejas. São as mesmas de Recife, se bem que tenham mais fama. [...] É sufocante. Mas esse barroco harmonioso repete-se muito. Finalmente, é a única coisa a ser vista neste país, e isso se vê depressa. Resta a vida verdadeira. Mas sobre esta terra imensa, que tem a tristeza dos grandes espaços, a vida é no nível do chão, e seriam necessários muitos anos para a ela integrar-se. Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil? Não."

De volta ao Rio:

"A noitada termina com música brasileira, que me parece qualquer outra. Importante, contudo, é que o Brasil seja o único país de população negra que produz canções sem parar. O arremate final é um frevo, dança de Pernambuco, da qual participa a própria plateia, e que é realmente a cantoria mais desenfreada que já vi. Encantadora."

Viagem pelo interior do Rio, seguida da volta à capital:

"Weekend em casa de Cl. em Teresópolis. 150 quilômetros do Rio, nas montanhas. A estrada é bela, sobretudo entre Petrópolis e Teresópolis. De vez em quando, um ipê coberto de flores amarelas desponta numa curva, diante de um horizonte de montanhas que se sucedem até o horizonte. Compreende-se ainda aqui o que me impressionava no avião, quando sobrevoava este país. Imensas áreas virgens e solitárias junto às quais as cidades, agarradas ao litoral, são apenas pontos sem importância. A qualquer momento, este enorme continente sem estradas, todo entregue à selvageria natural, pode voltar-se e recuperar essas cidades falsamente luxuosas. O fim de semana se passa em passeios, banhos e pingue-pongue. Respiro, enfim, neste campo. E o ar, a oitocentos metros, me faz avaliar melhor o clima do Rio, realmente cansativo. Quando descemos, no domingo à noite, é sem alegria que reencontro a cidade. Aliás, sou acolhido diante da Embaixada por uma dessas cenas por demais frequentes no Rio. De novo, uma mulher estendida, sangrando, diante de um ônibus. E uma multidão que olha em silêncio, sem prestar-lhe socorro. Esse costume bárbaro me revolta. Bem mais tarde, ouço a sirene de uma ambulância. Durante todo esse tempo, deixaram morrer essa infeliz em meio aos gemidos. Em compensação, dão demonstrações de adorar crianças."

"Perseguido, na verdade, nessa gloriosa luz do Rio, pela ideia do mal que se faz aos outros a partir do instante em que se olha para eles. Durante muito tempo, fazer sofrer me foi indiferente, é preciso confessá-lo. Foi o amor que me esclareceu quanto a isso. Agora, não consigo mais suportá-lo. De certa forma, é melhor matar que fazer sofrer. O que me pareceu muito claro ontem, afinal, é que eu desejaria morrer."

Em São Paulo:

"São Paulo, e a noite cai rapidamente, enquanto os cartazes luminosos se acendem um por um, no topo dos arranha-céus espessos, enquanto das palmeiras reais que se elevam entre os edifícios chega um canto ininterrupto, vindo dos milhares de pássaros que saúdam o fim do dia, encobrindo as buzinas graves que anunciam a volta dos homens de negócio. Jantar com Oswald de Andrade, personagem notável (a desenvolver). Seu ponto de vista é que o Brasil é povoado de primitivos e que é melhor assim. A cidade de São Paulo, cidade estranha, Oran desmedida. Esqueço totalmente de anotar o que mais me sensibilizou. Foi uma transmissão de rádio de São Paulo, em que pessoas pobres vêm ao microfone para expor a necessidade em que se encontram momentaneamente. Naquela noite, um grande negro, vestido de maneira pobre e com uma menina de cinco meses no colo, a mamadeira no bolso, veio explicar, com simplicidade, que, abandonado pela mulher, procurava alguém para cuidar da criança sem tirá-la dele. [...] Cinco minutos após o fim da transmissão, o telefone toca de forma ininterrupta. Todos se oferecem ou oferecem alguma coisa. [...] E eis o desfecho: um negro grande, mais idoso, entra no escritório semidespido. Estava dormindo, e a mulher, que ouvia o programa, acordou-o e disse: 'Vá buscar a criança'."

"Andrade me expõe sua teoria: a antropofagia como visão de mundo. Diante do fracasso de Descartes e da ciência, retorno à fecundação primitiva: o matriarcado e a antropofagia. O primeiro bispo que desembarca na Bahia tendo sido comido por lá, Andrade datava sua revista como do ano 317 da deglutição do bispo Sardinha (pois o bispo chamava-se Sardinha)."

Viagem ao litoral sul paulista:

"Descontando as paradas, levamos dez horas para fazer os trezentos quilômetros que nos separam de São Paulo. [...] Exaustos, vamos ao clube. O clube é uma espécie de bistrô, no segundo andar, onde encontramos outras autoridades, que nos cobrem de atenções. Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria europeia. Sanduíche e cerveja. Mas um grandalhão desengonçado, que mal se aguenta nas pernas, tem a singular ideia de vir pedir meu passaporte. Mostro-o, e ele parece dizer-me que não está em ordem. Cansado, mando-o às favas. As autoridades, indignadas, reúnem-se numa espécie de conselho, findo o qual vêm dizer-me que vão botar esse policial (pois é um policial) na prisão e que eu tenho de escolher a forma de puni-lo. Suplico-lhes que o deixem em liberdade. Explicam-me que a honra tão grande que faço a Iguape não foi reconhecida por esse mal-educado e que é preciso uma sanção para essa falta de modos. Repito o que dissera antes. Mas querem homenagear-me dessa maneira. A coisa vai durar até a noite seguinte, quando finalmente descubro a fórmula, pedindo que me façam o favor pessoal e excepcional de poupar esse tonto. Todos surpreendem-se diante do meu cavalheirismo e dizem que tudo será feito conforme a minha vontade."

"Vi beija-flores. E, uma vez mais, durante horas e horas, olho para esta natureza monótona e estes espaços imensos; não se pode dizer que sejam belos, mas colam-se à alma de uma forma insistente. País onde as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextricável torna-se disforme; onde os sangues misturaram-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. Um marulhar pesado, a luz esverdeada das florestas, o verniz de poeira vermelha que cobre todas as coisas, o tempo que se derrete, a lentidão da vida rural, a excitação breve e insensata das grandes cidades - é o país da indiferença e da exaltação. Não adianta o arranha-céu; ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer."

Em Porto Alegre:

"Em Porto Alegre, desembarco sob um frio cortante. [...] A luz é muito bela. A cidade, feia. Apesar de seus cinco rios. Essas ilhotas de civilização são frequentemente horrendas."

No Uruguai:

"À acolhida das autoridades francesas de Montevidéu falta calor. A data de minhas conferências foi mudada várias vezes. Deixaram até de reservar um quarto para mim. [...] Obrigado a confessar a mim mesmo que, pela primeira vez na vida, estou em pleno conflito psicológico. Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim estão as águas esverdeadas em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia. É o inferno, de certa forma, esta depressão. Se as pessoas que me recebem aqui sentissem o esforço que faço para parecer normal, fariam ao menos o esforço de um sorriso."

Na Argentina:

"De manhã, Buenos Aires. Enorme amontoado de casas que se aproximam. [...] Volta pela cidade - de uma feiúra rara."

De volta ao Rio:

"O avião parte às onze horas. Sob um céu terno, arejado, nublado, Montevidéu exibe suas praias - cidade encantadora, em que tudo pressupõe a felicidade - e a felicidade sem espírito. [...] Às cinco horas, sobrevoamos o Rio e, na descida, sou acolhido por esse ar espesso e úmido, com consistência de algodão hidrófilo, do qual já me esquecera e que é típico do Rio. Ao mesmo tempo, os papagaios tagarelas e multicoloridos e um pavão de voz desafinada."

"Às 13h30min, Pedrosa e sua mulher vêm buscar-me para ver as pinturas dos loucos, no subúrbio, num hospital de linhas modernas e com uma sujeira antiga. O coração se confrange vendo os rostos por trás das grades das jaulas. [...] Fico apavorado ao reconhecer, num jovem médico psiquiatra do estabelecimento, o rapaz que no início me fez a pergunta mais tola que já me fizeram em toda a América do Sul. É ele quem decide o destino desses infelizes."

10 de junho de 2010

Viagens doloridas - parte 2

Neste post e no próximo darei continuidade ao anterior. Ali transcrevi trechos da viagem de Albert Camus à América do Norte. Agora, passo a transcrever trechos de seu Diário de viagem que narram a visita à América do Sul. Isso aconteceu em 1949, e a maior parte do tempo foi passada no Brasil. Essa viagem está mais bem documentada, o que resultou num volume maior de trechos interessantes; eis a razão pela qual dividi essa parte em dois posts.

Mantive os nomes de pessoas e lugares que Camus escreveu de maneira incorreta. Além disso, a única coisa que tenho a comentar é que, vistos sob a perspectiva de Camus, alguns de nossos compatriotas famosos de seis décadas atrás se revelaram ridículos ao extremo.

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No navio:

"Por duas vezes, a ideia de suicídio. Na segunda vez, sempre olhando para o mar, um terrível ardor me vem às têmporas. Acho que agora compreendo como a pessoa se mata."

"É preciso que se diga, no entanto, que bronzeado, descansado, alimentado e vestido de roupas claras, tenho todos os ares de vida. Parece-me que eu poderia agradar. Mas a quem?"

"Chegamos daqui a dois dias. De repente, a ideia de deixar este navio, este camarote estreito em que, durante longos dias, pude abrigar um coração desligado de tudo, esse mar que tanto me ajudou, me assusta um pouco. Recomeçar a viver, a falar. Seres, rostos, um papel a desempenhar, seria preciso mais coragem do que sinto em mim."

Chegando ao Rio de Janeiro:

"Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima: serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos - velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. [...] Volto para o meu camarote. Quando torno a subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o 'Pão de Açúcar', com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. [...] Estamos no meio da baía e as montanhas, à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem calar a todos, uma vez mais. [...] Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar."

"No automóvel, peço que não se vá a um restaurante de luxo. E o poeta emerge de seus 150 quilos e me diz, com o dedo em riste: 'Não há luxo no Brasil. Somos pobres, miseráveis', dando tapinhas afetuosos no ombro do motorista engalanado, que dirige seu enorme Chrysler. [...] Aterrissamos num restaurante perto do Mercado, onde só se come peixe, numa sala quadrada, com um pé-direito muito alto, tão brutalmente iluminada a neon que parecíamos pálidos peixes fazendo evoluções numa água irreal. O señorito quer escolher minha comida. Mas, esgotado, gostaria de uma refeição leve, e recuso tudo o que ele me oferece. Servem primeiro o poeta, que começa a comer sem esperar por nós, substituindo às vezes o garfo pelos dedos grossos e curtos. Fala de Michaux, Supervielle, Béguin, etc., e interrompe-se, vez por outra, para cuspir no prato, lá do alto, as espinhas de seu peixe. É a primeira vez que vejo fazer-se essa operação sem curvar o corpo. Aliás, com uma destreza maravilhosa, ele só não acerta o prato uma vez. [...] Essa grosseria, essa falta de modos, se expõe de forma tão natural que se torna amável. [...] O señorito aproveita para explicar as dificuldades administrativas do Figaro, que eu conheço bem, mas das quais ele nos faz peremptoriamente uma descrição absolutamente falsa. Chamfort, porém, tem razão: quando se quer ser agradável no mundo, é preciso decidir deixar que nos ensinem muitas coisas que sabemos, por pessoas que as desconhecem."

Segundo os editores, o poeta acima mencionado é Augusto Frederico Schmidt. O "señorito" não foi identificado. E o "Barleto" citado a seguir é João Batista Barreto Leite Filho, jornalista que trabalhara como correspondente na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

"Almoço com Barleto na casa de uma romancista e tradutora brasileira. [...] Os convivas se espantam quando peço para assistir a uma partida de futebol e literalmente deliram ao descobrir que tive uma longa carreira de jogador de futebol. Encontrei, sem querer, sua paixão principal."

"Os jardins da Tijuca, a capela Meyrink, o Corcovado, a baía do Rio, visualizada cem vezes sob os aspectos mais diferentes. E as imensas praias do sul, de areia branca e ondas cor de esmeralda, que se estendem, desertas, por milhares de quilômetros até o Uruguai. A floresta tropical e seus três níveis. O Brasil é uma terra sem homens. Tudo é criado aqui às custas de esforços desmedidos. A natureza sufoca o homem. O espaço basta para criar a cultura?, indaga-me o bom professor brasileiro. É uma pergunta sem sentido. Mas estes espaços são os únicos à altura dos progressos técnicos. Quanto mais veloz o avião, menos importância têm a França, a Espanha e a Itália. Elas eram nações, ei-las províncias e, amanhã, aldeias do mundo. O futuro não está em nós, e nada podemos contra esse movimento irresistível. A Alemanha perdeu a guerra porque era nação e porque a guerra moderna exige os meios de impérios. Amanhã, serão necessários meios de continentes. E eis os dois grandes impérios partindo para a conquista de seu continente. Que fazer? A única esperança é que nasça uma nova cultura, e que a América do Sul talvez ajude a temperar a besteira mecânica. Eis o que digo, e mal, ao meu professor, enquanto deixamos escorrer a areia por entre os dedos, diante de um mar sibilante."

"Assistimos a um dos inúmeros acidentes provocados pelo trânsito inverossímil. Um pobre velho negro mal embrenhado numa avenida rutilante de luzes é colhido por um ônibus, que o lança dez metros à frente, como uma bola de tênis, contorna-o e foge. Isso se deve à estúpida lei de flagrante delito, segundo a qual o motorista teria sido levado à prisão. Portanto, ele foge, não há mais flagrante delito e não será preso. O velho negro fica lá, sem que ninguém o levante. Mas o impacto teria matado um boi. Descubro mais tarde que será colocado sobre ele um lençol branco, em que o sangue se irá espalhando, com velas acesas ao redor, e o trânsito continuará à sua volta, contornando-o, somente até que cheguem as autoridades para a reconstituição."

"Jantar na casa dos Chapass, com o poeta nacional Manuel Bandera, pequeno homem extremamente fino. Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido."

Em Recife:

"Terra vermelha e coqueiros. E, em seguida, o mar e praias imensas. [...] Igrejas coloniais admiráveis, onde domina o branco, em que o estilo jesuíta é iluminado e tornado mais leve pela caiação. O interior é barroco, mas sem o peso excessivo do barroco europeu. A Capela Dourada, em especial, é admirável. Os azulejos aqui estão perfeitamente conservados. Simplesmente, como também nas pinturas, os 'maus' Judas, os soldados romanos, etc., foram desfigurados pelo povo. Todos mostram as faces corroídas e sangrentas. Admiro a cidade antiga, as casinhas vermelhas, azuis e ocre, as ruas calçadas com grandes pedras pontiagudas. [...] Positivamente, gosto de Recife. Florença dos trópicos, entre suas florestas de coqueiros, suas montanhas vermelhas, suas praias brancas."

4 de junho de 2010

Viagens doloridas - parte 1

Dada minha decisão de expor neste blog os pontos essenciais de minha viagem à Europa - exposição que eu, aliás, ainda não terminei -, nada como contrabalançá-las expondo as opiniões de um francês ilustre sobre suas viagens pelo Novo Mundo. No Natal passado, ganhei de minha noiva um pequeno livro: o Diário de viagem de Albert Camus (1913-1960), contendo as anotações que o célebre escritor francês fez ao longo de duas viagens pelo continente americano. A primeira delas foi aos Estados Unidos, tendo incluído também uma visita ao Canadá, e se deu em 1946. O diário começou a ser escrito ainda no navio, e é também num navio que ele acaba. Camus é um daqueles sujeitos em relação aos quais tenho vários e profundos desacordos, mas ele tem também uma porção de qualidades: não só é bom escritor, mas também um sujeito inteligente e sensível, e ao menos transmite a impressão de ser honesto e íntegro. Além de tudo isso, é uma daquelas almas constantemente torturadas pelo desespero de uma vida vazia. É claro que não me enquadro nessa categoria, mas pessoas assim sempre despertam minha simpatia.

No post de hoje, trascreverei os trechos de sua viagem à América do Norte que, por razões diversas, considerei os mais interessantes. O diário contém relatos de eventos presenciados e impressões sobre pessoas que conheceu. Contém também algumas reflexões baseadas nessas experiências, bem como reflexões que não parecem ter relação alguma com o que está se passando. Há trechos que aparentemente são ideias para textos que o autor pretendia escrever. Existem também relatos pungentes, embora curtos, sobre sua própria vida interior. Há um pouco de tudo isso nos trechos abaixo. O estilo de rascunho pode ser notado com facilidade. Não julgo necessário adicionar comentários. Isso não significa, naturalmente, que eu concorde com tudo o que é dito. Sobre certas coisas, aliás, eu sequer tenho alguma opinião. Meu objetivo aqui é apenas o de expor amostras de uma personalidade interessante e até brilhante, embora atormentada. Nos próximos posts trarei trechos igualmente interessantes sobre a segunda viagem de Camus.

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"Sexta-feira. Sábado. Domingo. Mesmo programa. Com o mar sempre agitado, descemos em direção ao sul e ultrapassamos os Açores. Essa sociedade em miniatura é ao mesmo tempo apaixonante e monótona. Todos se pretendem elegantes e requintados. É o lado cachorrinho amestrado. Mas alguns se abrem. O peleteiro X está no navio. Assim, ficamos sabendo que tem um magnífico jogo de porcelana, uma prataria estupenda, etc., mas que se utiliza de cópias que mandou fazer, guardando trancados os originais. Ao que me pareceu, tem também uma cópia de mulher, com a qual nunca fez outra coisa senão uma cópia de amor."

"Segunda-feira. Dia magnífico. O vento amainou. Pela primeira vez, o mar está calmo. Os passageiros surgem no convés como cogumelos depois da chuva. Respira-se bem-estar. No fim da tarde, o sol brilha magnífico. Depois do jantar, luar sobre as águas. A sra. D. e eu concordamos ao achar que a maioria das pessoas não leva a vida que gostaria de levar e que nisso há covardia."

"Atracamos na Baía de Hudson e só vamos desembarcar amanhã de manhã. Ao longe, os arranha-céus de Manhattan, sobre um fundo de bruma. Sinto o coração tranquilo e seco, como quando me vejo diante de espetáculos que não me comovem."

"Segunda-feira. Deitar muito tarde na véspera. Acordar cedo demais. Subimos o porto de Nova York. Espetáculo formidável apesar, ou até por causa, da bruma. A ordem, o poderio, a força econômica, estão lá. O coração treme diante de tanta desumanidade admirável. [...] Cansado. Minha gripe volta. E é com as pernas bambas que recebo o primeiro impacto de Nova York. À primeira vista, cidade horrenda e desumana. Mas sei que se muda de opinião. São os detalhes que me impressionam: os lixeiros de luvas, o trânsito disciplinado, sem intervenção de guardas nos cruzamentos, etc., ninguém nunca tem troco nesse país e todo mundo parece ter saído de um seriado. À noite, ao percorrer a Broadway de táxi, cansado e febril, fico literalmente atordoado pela feira luminosa. Saio de cinco anos de noite e essa orgia de luzes me dá pela primeira vez a impressão de um novo continente. [...] Tudo isso é amarelo e vermelho. Deito-me doente, tanto do coração quanto do corpo, mas sabendo perfeitamente que terei mudado de opinião em dois dias."

"Magníficas lojas de comida. De matar de indigestão toda a Europa. Admiro as mulheres na rua, o colorido dos vestidos, dos táxis - todos têm um ar de insetos com roupas de domingo, vermelhos, amarelos, verdes. Quanto às lojas de gravatas, é preciso ver para crer. Tanto mau gosto parece inimaginável. D. me garante que os americanos não gostam das ideias. É o que se diz. Mas tenho minhas dúvidas. [...] Cheiro de Nova York: um aroma de ferro e de cimento; o ferro domina. [...] L. M. me expõe sua teoria pessoal sobre os americanos. É a décima-quinta que ouço. Na esquina da Primeira Rua Leste, pequeno bistrô, em que um fonógrafo mecânico vocifera, encobrindo todas as conversas. Para conseguir cinco minutos de silêncio, é preciso colocar cinco cents."

"Uma das formas de se conhecer um país é saber como se morre nele. Aqui, tudo está previsto. 'You die and we do the rest', dizem os anúncios publicitários. [...] Sim, há um trágico americano. É o que me oprime desde que estou aqui, mas ainda não sei de que é feito. [...] No ônibus, um americano médio levanta-se diante de mim para ceder o lugar a uma velha senhora negra."

"Quinta-feira. Dia passado ditando minha conferência. À noite, um pouco de nervosismo, mas entro logo no assunto e dá certo com o público. Mas enquanto falo passam uma caixinha, cujo produto se destina às crianças francesas. O'Brien anuncia a coisa no final e um espectador levanta-se para propor que cada um faça uma nova contribuição na saída, no mesmo valor que se deu na entrada. Na saída, todos contribuem muito mais e a receita é considerável. Típico da generosidade americana. Sua hospitalidade e sua cordialidade têm o mesmo sabor, imediato e simples. O que há de melhor neles."

"Impressão de que só os negros dão a vida, a paixão e a nostalgia neste país que eles colonizaram à sua maneira."

"À tarde, com os estudantes. Não sentem o verdadeiro problema e, no entanto, sua nostalgia é evidente. Neste país em que se usa tudo para provar que a vida não é trágica, eles têm um sentimento de falta. Esse grande esforço é patético, mas é preciso rejeitar o trágico depois de tê-lo visto, e não antes."

"Alfred Stieglitz, espécie de velho Sócrates americano: 'A vida me parece cada vez mais bela à medida que envelheço: mas viver, cada vez mais difícil. Não espere nada da América. Somos um fim ou um começo? Acho que somos um fim. É um país onde não se conhece o amor.' [...] Tucci: que os relacionamentos humanos são mais fáceis aqui porque não há relacionamentos humanos. Eles ficam na superfície. Por respeito e por preguiça."

"Dois seres se amam. Mas não falam a mesma língua. Um fala duas línguas, mas uma delas de modo imperfeito. Isso basta para que se amem. Mas o que sabia falar as duas línguas morre. E suas últimas palavras são na língua natal, que o outro não consegue entender. Ele espreita, ele espreita..."

"Refazer e recriar a reflexão grega como uma revolta contra o sagrado. Mas não a revolta contra o sagrado do romântico - uma forma do sagrado em si - e sim a revolta como um retorno ao seu lugar do sagrado. A ideia do messianismo como base de todos os fanatismos. O messianismo contra o homem. A reflexão grega não é histórica. Os valores são preexistentes. Contra o existencialismo moderno."

"A prodigiosa paisagem de Quebec. Na extremidade do Cabo Diamond, diante da imensa brecha do Saint-Laurent, ar, luz e águas confundem-se em proporções infinitas. Pela primeira vez neste continente, a impressão real da beleza e da verdadeira grandeza. Parece-me que teria algo a dizer sobre Quebec e sobre esse passado de homens que vieram lutar na solidão, impulsionados por uma força maior que eles. Mas para quê? Agora, há uma quantidade de coisas nas quais estou certo de que teria 'sucesso' em termos artísticos. Mas essa palavra não faz mais sentido para mim. Até agora, fui incapaz de dizer a única coisa que gostaria de dizer, e sem dúvida não a direi nunca."

"O pai de Zaharo. Polonês. Esbofeteia um oficial aos quinze anos. Foge. Chega a Paris num dia de carnaval. Com os poucos tostões que tem, compra confete e revende. Trinta anos depois, tem uma enorme fortuna e uma família. Totalmente analfabeto, o filho faz-lhe leituras ao acaso. Lê para ele a Apologia de Sócrates. 'Você não lerá para mim nenhum outro livro', diz o pai. 'Esse diz tudo'. E depois pede sempre que lhe leiam esse livro. Detesta os juízes e a polícia."

"Terrível sentimento de abandono. Abraçaria, apesar de tudo, todos os seres do mundo, não estaria protegido contra nada."

"Julien Green se pergunta (Diário) se é possível imaginar-se um santo que escreva um romance. Naturalmente que não, porque não há romance sem revolta. Ou então é preciso imaginar um romance que acuse o mundo terrestre e o homem - um romance absolutamente sem amor. Impossível."

"Dois seres jovens e belos começaram um idílio neste navio, e logo uma espécie de círculo mau fechou-se à sua volta. Esses começos de amor! Eu os amo e aprovo do fundo do coração - até mesmo com uma espécie de gratidão pelos que preservam, neste convés, no meio do Atlântico reluzente de sol, a meio caminho de continentes loucos, as verdades da juventude e do amor. Mas por que não chamar pelo nome também essa inveja que sinto no coração e o desejo tumultuado que se apodera de mim no sentido de redescobrir o coração impaciente que eu tinha aos vinte anos? Mas conheço o remédio, vou olhar para o mar durante muito tempo. Tristeza por sentir-me ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Portanto, 25 anos para fazer a minha obra e encontrar o que procuro. Depois, a velhice e a morte. Sei qual é o mais importante para mim. E encontro, ainda, o meio de ceder às pequenas tentações, de perder tempo em conversas vãs ou passeios estéreis. Dominei duas ou três coisas em mim. Mas como estou longe dessa superioridade de que tanto necessito!"

31 de maio de 2010

Esterilidade consensual

Em janeiro do ano passado publiquei o texto Areias invasoras, no qual fiz minhas considerações sobre a obra de J. P. Meier acerca do Jesus histórico. No post Briguinha na areia, publicado em janeiro deste ano, tratei do segundo comentário que recebi a esse post - o qual, na verdade, não se referia a coisa alguma que eu tivesse dito. Agora lidarei com o primeiro comentário, recebido menos de três horas após a publicação do próprio texto, e que é, sem dúvida alguma, muito mais digno de atenção. Seu autor é o André Luiz, um velho amigo virtual a quem já me referi diversas vezes neste blog. Seu comentário, ao mesmo tempo em que expunha uma visão algo discordante, dava ensejo a várias interessantes considerações adicionais. Assim, embora demorando pouco mais de dois meses, enviei-lhe enfim um e-mail contendo minha resposta ao seu comentário. O objetivo do e-mail era múltiplo: esclarecer alguns pontos que tive a impressão de terem sido mal compreendidos, justificar minhas posições quanto aos desacordos restantes e aprofundar um pouco as reflexões do post segundo as linhas sugeridas pelo comentário.

No dia seguinte, recebi um e-mail do André que, entretanto, não continha exatamente uma continuação da conversa, e sim a indicação de um texto que, embora não tratasse do mesmo assunto, tinha vários pontos de contato com o tema em pauta. Falando mais precisamente, o texto era uma interessante carta escrita pelo padre Serafim Rose, nome célebre da Igreja Ortodoxa do século XX, discorrendo sobre o entendimento apropriado da criação do mundo e das teorias evolucionárias segundo a doutrina ortodoxa. Muitos temas entram nessa discussão: o ensinamento patrístico sobre as origens, a atitude correta do fiel ortodoxo diante da tradição, da ciência moderna, da filosofia e do racionalismo ocidental. Não é difícil ver a conexão entre o conteúdo da carta e o teor do comentário do André, bem como de minha resposta. Mas não me estenderei em comentários sobre essa carta, visto que meu interlocutor disse que daria continuidade à conversa algum dia. Sei que o André é muito ocupado, e cabe-lhe responder quando e se julgar conveniente. Mas até acho bom que ele ainda não o tenha feito, pois com o passar do tempo tornei-me progressivamente insatisfeito com a resposta que lhe enviei. Ela padece de várias imperfeições, e é por isso mesmo que não me limito a transcrever a mensagem aqui, como fiz em outras ocasiões.

Tendo escrito o post sem ter o livro em mãos, acabei me esquecendo de mencionar um fato que serviria como ótimo atalho para o cerne de minha crítica. Felizmente, o André me lembrou desse fato em seu comentário. É o seguinte: o autor nos pede, logo no início da obra, que imaginemos um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico incumbidos da árdua tarefa de, trancados num cômodo por tempo indeterminado e munidos de todas as evidências históricas disponíveis, chegar a um acordo sobre quem foi Jesus, de acordo com elas. Assim, depois de intensos debates, permaneceria no relatório a ser apresentado por esses quatro senhores apenas o que há de objetivamente histórico, pois as predisposições de cada um seriam contrabalançadas pelas dos demais. É a isso que se dá o nome de "critério do consenso". O André tem toda a razão quando diz que esse consenso "só pode ser obtido por concessões cada vez maiores à modernidade e ao ceticismo em prejuízo da tradição". (Creio que ele usa esse último termo por caber melhor à sua posição ortodoxa oriental e guénoniana, mas não é difícil ver em que sentido ela pode ser endossada pelo protestantismo conservador. Afinal, estamos falando da validade histórica da própria Bíblia; ou, melhor dizendo, de partes dela.) Pois, conforme afirmei em outras palavras no texto anterior, o que transparece ao longo da obra é que Meier está mais preocupado em agradar os agnósticos que os católicos, protestantes e judeus. Creio que é ainda mais exato dizer que Meier está interessado em produzir um consenso apenas entre os agnósticos e os representantes mais liberais do catolicismo, do protestantismo e do judaísmo, justamente porque esses têm em comum com o agnosticismo muitos pressupostos que conflitam com o catolicismo, o protestantismo e o judaísmo tradicionais. Tanto é assim que atingir um consenso entre agnósticos e religiosos liberais é muito mais fácil que alcançar acordo entre estes e os religiosos conservadores (ou fundamentalistas, em qualquer acepção do termo que se prefira).

Por tudo isso, o critério do consenso é uma farsa e uma pura e simples impossibilidade lógica, e não é digno do nome que possui, pois o consenso em questão é tal que só pede a opinião de um grupinho seleto que concordou de antemão em adotar certos pressupostos. E uma leitura atenta do livro deixa claro que um consenso autêntico não é sequer tentado. Apontei evidências disso no primeiro texto, e agora mencionarei mais alguns casos. Ao negar a historicidade da concepção virginal, por exemplo, Meier contraria frontalmente e sem qualquer inibição os segmentos conservadores do protestantismo e do catolicismo. Mas, já prevendo protestos, adverte que está apenas tentando ser fiel à objetividade requerida pela ciência histórica, a qual exige que sejam desconsiderados os argumentos teológicos. Fica claro, portanto, que em sua opinião a evidência histórica é contrária ao dogma da concepção virginal, de modo que os que creem nele devem admitir os fatos e ficar em silêncio. Da mesma forma, Meier analisa as passagens sobre a infância de Cristo e conclui que a evidência pesa em favor de seu nascimento em Nazaré, e não em Belém. Porém, quando a evidência aponta em outra direção, a atitude de Meier é sutilmente diferente dessa. Ele demonstra, por exemplo, que há boas razões para crer que Jesus tinha fama de realizador de milagres. Mas, pergunta o autor, isso prova que ele realizou milagres? De modo algum, ele responde. Prova apenas que Jesus era conhecido como milagreiro.

Está claro? Jesus não necessariamente realizou milagres; a ciência histórica permite apenas afirmar que isso é o que muita gente pensava que ocorria. Mas ele não apenas tinha fama de ter nascido em Nazaré. A ciência histórica permite afirmar que ele de fato, muito provavelmente, nasceu lá. Qual a razão de tal diferença de tratamento? É que há católicos e protestantes que podem admitir que Jesus não nasceu de uma virgem ou que não nasceu em Belém: são os liberais (e neo-ortodoxos, que não julgo útil distinguir dos liberais no presente contexto). Mas não há agnóstico que possa admitir que Jesus realizou um milagre, nem mesmo a cura de uma pulga ou a ressurreição de uma formiga. Isso acabaria com suas eternas dúvidas sobre a existência ou não do sobrenatural. Há situações, porém, em que um meio termo consensual, mesmo flagrantemente fajuto como nesses casos, é muito mais difícil de ser atingido. A questão da historicidade da ressurreição é um deles: uma resposta afirmativa feriria as sensibilidades dos agnósticos e de muitos judeus, enquanto que uma negativa poderia parecer excessiva até para certos cristãos que são liberais, mas nem tanto. O que faz Meier diante desse impasse? Resolve simplesmente declarar que tal questão está fora do alcance da investigação histórica, assumindo sem fundamentação alguma uma postura cuja validade não só está muito longe de ser óbvia, mas ainda é facilmente criticável, visto que as implicações das duas alternativas para o desenrolar da história são tão opostas entre si que não é difícil imaginar uma maneira de investigá-las historicamente. É para impedir tais desconfortos e desavenças que existe o critério do consenso.

Todas as considerações feitas acima referem-se exclusivamente ao aspecto prático: defendo que o consenso autêntico é impossível, e que isso é confirmado pelo fato de que o próprio Meier, apesar do que afirma, não lhe atribui importância alguma. Mas convém analisar também a questão sob outro ponto de vista, que é o de sua adequação como método de investigação histórica. Meier quer (ou finge querer) que seu método de investigação histórica seja tão livre quanto possível de quaisquer pressupostos filosóficos e teológicos. Entretanto, o próprio critério do consenso, que orienta todo o esforço investigativo, traz em si o pressuposto de que o protestantismo, o catolicismo, o judaísmo e o agnosticismo são posturas igualmente compatíveis com a evidência histórica disponível sobre Jesus. Trata-se de um pressuposto inteiramente gratuito, mas metodologicamente bem aceito pela Academia: todo argumento que tenha o mais leve potencial apologético deve ser posto de lado, por mais objetivo que seja. Todo mundo tem o direito de participar do debate sem ver suas convicções teológicas contrariadas - exceto, é claro, os cristãos teologicamente conservadores, que jamais têm direito a coisa alguma. (Utilizo aqui o termo "conservadores" em sentido amplo, para designar toda linha de pensamento que se oponha simultaneamente ao racionalismo da modernidade e ao irracionalismo da pós-modernidade.) Ou seja, o Jesus histórico tem de ser tal que não obrigue ninguém a mudar de opinião ou de atitude quanto às questões fundamentais da vida.

Convém ter isso tudo em mente para se entender o que eu quis dizer quando dei a entender que a postura de Meier impossibilita que se atinja um "retrato consistente do Jesus histórico". Considero essa postura inconsistente, embora ela possa ser predominante na Academia, justamente porque privilegia o consenso em detrimento da verdade. O André afirmou que a consistência do Jesus histórico assim obtido não é prejudicada em nada pelas minhas considerações. Mas eu não estava falando da consistência entre as opiniões dos representantes das "diversas" correntes secularistas, e sim da consistência com os fatos, com a realidade histórica que é alvo de toda essa investigação. E essa realidade é colocada em segundo plano, forçada artificialmente a se submeter a um critério não exigido por ela mesma.

Bem, mas com isso tudo só lidei com um dos comentários do André: o terceiro. O segundo não exige resposta, visto que não expressa nenhum desacordo. No próximo post, portanto, prosseguirei passando ao primeiro e ao último. Mas não sei quando terei tempo de escrevê-lo. Pode ser que demore um pouco, e provavelmente tratarei de outros assuntos antes de retornar a este.

28 de abril de 2010

O terror das nações - parte 2

No texto anterior discuti os pontos essenciais da argumentação de Revel em favor de um governo mundial, visto por ele como requisito imprescindível para a resolução dos males que afligem a humanidade atual, e apresentei as razões que me impedem de concordar com ele. No capítulo de Nem Marx nem Jesus destinado a essa questão existem, contudo, alguns pontos mais periféricos que fui obrigado a deixar de lado. Mas não resisti à tentação de comentar um desses pontos, e é isso o que passo a fazer neste post.

O primeiro fato que convém destacar é que o projeto da supressão das nações anunciado e defendido por Revel combina muito bem com o sentimento fortemente negativo manifestado por ele (tanto no capítulo em questão quanto em outras partes do livro) contra todo patriotismo ou apego às tradições culturais. Revel as repele com uma indignação tal que parece considerá-los essencialmente associados ou idênticos ao espírito xenofóbico das ideologias nazistas e fascistas. Em alguns momentos, chega a parecer que a própria diversidade cultural dos povos é vista como um problema a ser suprimido pelo governo mundial.

Para esclarecer devidamente o que penso sobre isso, servir-me-ei de um atalho proporcionado por um artigo me foi enviado recentemente por um amigo: Meet the president of Europe. O objetivo principal do texto é falar sobre certos eventos ocorridos há pouco tempo nos gabinetes dos burocratas da União Europeia, mas ele menciona de passagem as origens do Estado belga, que foi artificialmente construído pela reunião de duas regiões - uma francesa e outra holandesa, do ponto de vista cultural e étnico - sob um governo único. Segundo o autor, Paul Belien, seus habitantes "foram forçados a viver juntos em um único Estado". A descrição que se segue está reproduzida abaixo:

"Os belgas não gostam de seu Estado. Eles o desprezam. Dizem que ele nada representa. Não há patriotas belgas, pois ninguém quer morrer por uma bandeira que nada representa. Porque a Bélgica não representa nada, ideólogos multiculturais a amam. Eles dizem que sem patriotismo não haveria guerras e o mundo seria um lugar melhor. Em 1957, políticos belgas alojaram-se no berço da União Europeia. Sua meta era transformar a Europa inteira em uma grande Bélgica, de modo que as guerras entre as nações europeias não mais fossem possíveis, visto que não mais existiriam nações, pois estas seriam incorporadas em um super-Estado artificial. Porém, um olhar mais atento sobre a Bélgica, o laboratório da Europa, mostra que falta ao país algo mais que o patriotismo. Falta também democracia, respeito pela lei e moralidade política. Em 1985, em seu livro De Afwezige Meerderheid (A maioria ausente), o falecido filósofo flamengo Lode Claes (1913-1997) argumentou que sem identidade e sem um senso de genuína nacionalidade não pode haver democracia nem moralidade."

Li esse artigo depois que já tinha dado início à leitura de Nem Marx nem Jesus, e não pude deixar de perceber certa infantilidade no horror de Revel às identidades nacionais. Veja-se especialmente o seguinte trecho do livro:

"Nada é mais estreito que a concepção substancialista ou essencialista das nacionalidades, segundo a qual os contornos das nações estariam inscritos na 'natureza das coisas'. É esquecer-se de que o Estado moderno e a nação, oriundos da primeira revolução mundial, emergiram, eles próprios, da destruição de toda sorte de sistemas e laços feudais, eclesiásticos, provinciais, corporativos e familiares que repartiam as fontes do poder e o faziam circular de uma maneira de que nos falta hoje qualquer experiência."

Não sei que tipo de críticos Revel tinha em mente ao escrever tais sentenças, mas reservo-me o direito de desconfiar que a descrição da posição contrária como "substancialista ou essencialista" é um artifício puramente retórico destinado a ridicularizá-la, ou então é fruto de mais uma insensatez característica do modo revolucionário de raciocinar. É verdade que os Estados nacionais modernos - inclusive os europeus - são instituições relativamente recentes que substituíram e extinguiram outras. Contudo, isso não altera o fato de que essas construções só prosperaram, na medida em que chegaram a prosperar, justamente porque, na maioria dos casos, a delimitação de seus territórios - e, portanto, a definição de suas respectivas populações - não foi feita de modo arbitrário, e sim segundo os contornos gerais determinados pelos povos então existentes e suas respectivas culturas. Tudo teria ido por água abaixo se os povos e as elites que compuseram os Estados nacionais recém-nascidos não vissem alguma conexão entre as novas instituições e as precedentes. Paul Belien está aí para nos explicar, mediante a análise de uma exceção, o que teria acontecido se as coisas não tivessem se passado dessa maneira. Para mim é perfeitamente evidente que a tese de Lode Claes é correta: nenhuma nação pode sobreviver de maneira saudável sem que seu povo a ame e se identifique com ela.

Mas Revel não está preocupado com esses pormenores. Sua visão do tema é reducionista, pois pressupõe que o poder político subsiste por si só, isto é, à parte dos fatores culturais, como se esses últimos fossem supérfluos à conservação da integridade de uma comunidade política. Só esse pensamento pode justificar a ideia de que é irrestritamente legítimo e saudável o estabelecimento artificial de um Estado supranacional por um processo governado a partir de cima, como vem acontecendo na centralização europeia, dispondo de tudo segundo critérios que nada dizem ao coração dos governados. Para Revel, aparentemente, essa ideia é "substancialista ou essencialista". Na verdade, contudo, não se trata de apregoar alguma imutabilidade essencial, e sim apenas de respeitar o rumo natural das coisas, ditado pela própria natureza delas. Um dos erros principais do movimento revolucionário consiste na incapacidade desse respeito ao que Ortega y Gasset considerou um dos direitos fundamentais do homem: o direito à continuidade.

(Quem quer que já tenha lido A rebelião das massas sabe, contudo, que Ortega y Gasset era bastante favorável à unificação da Europa sob um governo único. Mas suas razões e seu enfoque sobre essa questão eram, se bem me lembro, consideravelmente diferentes do espírito revolucionário que domina a mente de Revel. Dentre outros motivos, Ortega via com bons olhos essa unificação por considerá-la um desenvolvimento natural da história de seu continente, assim como o foram a uniformização da língua italiana sob a influência de Dante, ou da língua alemã sob a influência de Lutero. Não se trata, pois, de um rumo artificialmente imposto pelas conveniências políticas ou ideológicas de um punhado de burocratas.)

Todas essas considerações reforçam a probabilidade de que um governo mundial construído segundo os iluminados planos do filósofo francês desemboque num totalitarismo sem precedentes, exercido por um governo opressor sobre um povo que não tem nenhuma afeição por ele, que não tem meios de influenciá-lo e em cuja memória ele nada representa de bom.

Mas, a fim de não dar a entender que não há nada que preste nesse capítulo, encerrarei esta postagem transcrevendo um trecho que dispensa comentários adicionais.

"Os critérios de sucesso para os países comunistas há muito já deixaram de ser comunistas. São os da Realpolitik mais tradicional, avaliados em potencial de impacto, e não critérios ligados a uma moral nova de libertação humana. Desta maneira, os voos espaciais russos e o satélite chinês (1970) foram saudados como grandes realizações, o que sem dúvida são, da mesma forma como eram saudados os primeiros foguetes aprontados e lançados em 1944 por Hitler. A escolha oferecida por Goering ao povo alemão, 'canhões ou manteiga', foi suprimida pelos regimes comunistas em proveito dos canhões, quer por amor a estes, quer pela incapacidade de arrumar manteiga. O sacrifício do nível de vida do povo aos instrumentos da política de poder, a compensação do chauvinismo oferecida como paliativo contra suas dificuldades e a proibição de se lamentar são o caminho clássico das ditaduras: basta lembrar-se da Itália de Mussolini. O fracasso do plano interno e a necessidade de disfarçar periodicamente as revoltas dos países-satélites levam a dar prioridade à força militar do Estado. É mais fácil, com efeito, tornar-se em pouco tempo uma potência nuclear que uma sociedade de abundância; e é igualmente necessário, para os detentores do poder, ser tanto mais uma coisa quanto menos se tiver atingido a outra."

22 de abril de 2010

O terror das nações - parte 1

Neste post farei alguns comentários sobre o oitavo capítulo do já mencionado livro do filósofo francês Jean-François Revel, Nem Marx nem Jesus. O capítulo se chama O terror bimilenarista e o fim da "política externa", e não tenho pretensão alguma de fazer dele uma apreciação exaustiva ou completa. Apenas direi o que penso sobre algumas considerações feitas pelo autor ao longo dessa parte do livro. É aqui que Revel defende a importância primária do estabelecimento de um governo mundial para o prosseguimento das conquistas revolucionárias que ainda restam por alcançar. No próximo post farei alguns complementos ao que será dito neste.

Revel começa dizendo que a revolução mundial deve se capaz de resolver os principais problemas do século XX (não nos esqueçamos de que o livro foi escrito em 1970), e isso inclui, por exemplo, "suprimir o risco de suicídio atômico, desarmar e pôr fim às guerras, planejar a natalidade, igualar os níveis de vida, proteger e explorar as energias acessíveis aos terrestres, dentro de um plano único de distribuição e desenvolvimento". E acrescenta em seguida: "Problemas insolúveis, senão em escala planetária e através de um governo mundial - e basta essa enumeração inicial para prová-lo".

Para mim, o problema começa aqui. Não creio que enumerar os problemas acima baste para provar coisa alguma. Do fato de existirem problemas que afetam muitos países, ou mesmo todos eles, não se segue de modo algum que seja necessário um governo mundial para resolvê-los. No máximo - e mesmo isso é discutível -, prova que a solução exige um esforço de cooperação, o que não é necessariamente a mesma coisa que governo mundial. A argumentação de Revel começou, portanto, bem pouco argumentativa.

É necessário, contudo, entender qual é a essência do argumento de Revel. Ele vê a existência de nações independentes como o mal supremo da era atual, pois o entrave à resolução dos grandes problemas da humanidade reside na "política externa". "A política exterior é guerra, no sentido de não haver política exterior plausível sem que ela comporte uma ameaça de guerra". Os interesses conflitantes dos Estados em luta pelo poder são a causa da incapacidade de uma cooperação mútua irrestrita em benefício de suas respectivas populações. Revel gasta cerca de duas páginas descrevendo os gastos exorbitantes dos Estados com recursos militares que seriam supérfluos se não existissem outras nações a ameaçá-los, recursos esses que, nessas circunstâncias, poderiam ser empregados em causas mais úteis.

A força retórica do argumento de Revel reside na analogia traçada por ele entre indivíduos e nações: assim como o Estado e suas instituições são necessários para combater a anarquia e a lei do mais forte entre os indivíduos, também uma autoridade superior é necessária para arbitrar as relações internacionais. O governo mundial seria o próximo passo natural, estendendo ao plano internacional o fim da selvageria e início da civilização de que já desfruta boa parte da humanidade, com todos os benefícios que isso acarreta.

Essa argumentação soa muito sensata, mas não me convence. Parece-me, ao contrário, que aqui o autor cede à insensatez caracteristicamente revolucionária que ele próprio denuncia frequentemente ao longo de todo o livro, e que consiste em inebriar-se com os méritos de seus sonhos e desconsiderar os riscos inerentes às propostas que buscam concretizá-los. Tentarei explicar em poucas palavras quais são eles, no meu entender.

O principal problema envolvido nessa proposta foi resumido por mim numa postagem anterior. Eu havia lido o livro Como vejo o mundo, de Albert Einstein, em que também há passagens defendendo o governo mundial em bases semelhantes às de Revel, embora com muito menor inteligência. Escrevi, portanto: "Pessoas que, como Einstein, pensam que um governo mundial seria a única solução contra a opressão de algumas nações por outras parecem jamais pensar em se precaver contra a possibilidade de o próprio governo mundial oprimi-las todas". Revel é uma dessas pessoas. E esse fato chega a ser algo surpreendente, pois poucas pessoas - sobretudo entre as que acham que revoluções podem ser coisas ótimas - parecem ter uma consciência tão aguda dos danos irreversíveis causados por um governo opressor. Já nas páginas iniciais do capítulo seguinte, o filósofo afirma: "A experiência mostra que não há revolução interna possível num regime totalitário e que tais regimes, geralmente, só caem quando se verifica um cataclismo militar nascido de fora". (O livro é bem anterior à Perestroika, mas não me parece, de qualquer forma, que esse importante evento histórico constitua uma exceção à afirmação de Revel, já que a Perestroika foi, a rigor, mera mudança estratégica.) E, convicto de que a autêntica revolução só pode vir de países que desfrutam das liberdades democráticas, assevera que "a ausência de democracia política destrói as próprias condições da democracia econômica. Em outras palavras, a segunda revolução mundial só poderá ocorrer nos países que conseguiram realizar a primeira". (A primeira revolução mundial a que Revel se refere foi a ocorrida no século XVIII na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos.) Aliás, o título do nono capítulo já diz tudo: Pode-se ir da liberdade ao socialismo, mas não do socialismo à liberdade.

Supondo que o governo mundial se torne tão totalitário quanto os governos comunistas ou fascistas, quem é que vai tirá-los dessa situação e restituir a liberdade aos terráqueos? Essa tarefa só poderá caber a alienígenas caridosos, já que, segundo o próprio Revel, o totalitarismo não pode ser subvertido a partir de dentro. Hoje em dia, os oprimidos politicamente (ou mesmo só economicamente) pelos diversos regimes ditatoriais têm a opção, embora arriscada, de buscar refúgio nos países livres. Mas se o mundo todo se converter em um único país ditatorial, em que planeta serão acolhidos os dissidentes e miseráveis em fuga? É curioso que Revel não seja capaz de enxergar os efeitos positivos da divisão de forças no plano internacional. É ainda mais estranho que ele, na qualidade de crítico ferrenho dos regimes comunistas como frutos de falsas revoluções - falsas por erigirem um beco sem saída, por tornarem impossível qualquer progresso ulterior, e isso justamente como consequência direta da supressão da liberdade -, não veja que um totalitarismo mundial representaria o fim de todo progresso revolucionário do tipo que ele considera autêntico. Sua primeira preocupação, portanto, deveria ser a de proporcionar garantias de que o Estado mundial pudesse colocar-se acima do risco de sucumbir ao totalitarismo. Ao que parece, contudo, tal possibilidade jamais lhe passa pela cabeça. Isso se nota, inclusive, no momento em que ele chega mais perto de dar-se conta dos riscos:

"Mas pressinto a objeção: dir-se-á que toda soberania internacional ocultará relações de dominação, exatamente como a igualdade jurídica dos cidadãos nas nações atuais. Eu respondo que sim. E respondo também que se trata de uma objeção estúpida, fundada na confusão de vários fenômenos diversos: será, por acaso, por existirem injustiças sociais em nossa sociedade, que é mau e supérfluo não poder eu impunemente cometer um assassínio ou fazer explodir meu edifício com todos os seus moradores? Assim como a sociedade civil, a soberania mundial não é condição suficiente, mas é certamente condição necessária de segurança."

Nota-se, pois, que o pior destino que Revel consegue imaginar para seu tão sonhado governo mundial é a reprodução em escala ampliada da situação presente nos Estados nacionais que ele considera, apesar de tudo, os melhores existentes. A possibilidade de uma degeneração posterior irreversível não lhe ocorre jamais; muito menos a ascensão de um governo mundial já degenerado. Mas com que direito faz ele suposições tão otimistas? Em que bases deveríamos aceitar que um governo mundial é menos passível de corrupção que um governo local? Até onde posso ver, a hipótese contrária é muito mais plausível: não pode haver totalitarismo em pequenas aldeias de cem ou mil pessoas. Isso só é possível com recursos vastos, em situações nas quais os governantes podem permanecer distanciados dos governados. Um Estado cujos domínios abrangessem todo o globo, em que os governantes pudessem deliberar sobre o destino de bilhões que vivem a dezenas de milhares de quilômetros, e sem o risco da intervenção de inimigos externos, ofereceria as condições ideais para os frutos perversos da pior ditadura já vista.

Devo acrescentar também que não me parece plausível a suposição de que o governo mundial reduziria significativamente os gastos militares, já que não é sensato esperar que todos os grupos políticos, étnicos, culturais e religiosos se submetam pacificamente ao seu domínio. Ainda que, como disse Revel, um regime totalitário só possa ser derrubado de fora, não há revolução isenta de inimigos internos, que usualmente fazem um certo estrago e depois são militarmente esmagados. Até a Revolução Francesa, que Revel tanto admira, enfrentou a oposição de amplos segmentos populares e teve de debelá-los da maneira menos pacífica possível. O que não falta na história dos movimentos revolucionários são expurgos resultantes de dissidências internas do próprio movimento. Não há, pois, garantia alguma de que um governo centralizado se comporte de modo diferente só por ser mundial.

O problema, em suma, é que Revel não seguiu sua própria analogia até o fim. Se o papel dos Estados nacionais é propiciar um equilíbrio de forças entre os cidadãos, de modo que nenhum tenha poder de sobra para oprimir os demais, o papel da política internacional não pode ser o de centralizar todas as decisões, suprimindo a autonomia dos Estados, ou mesmo a própria existência deles. Revel é perfeitamente inconsequente em suas soluções propostas para o mundo.