1 de agosto de 2008

Uma grande morte

Hoje vou iniciar um projeto que está nos meus planos há muito tempo, o qual é fruto da confluência de duas constatações: 1. não poderei me considerar gente enquanto não conhecer plena e diretamente as obras de Platão e Aristóteles; e 2. eu aprendo melhor sobre um assunto escrevendo do que simplesmente lendo a respeito. A primeira constatação, feita há mais de dois anos, me fez decidir que, sem perda de tempo, eu deveria ler todos os diálogos platônicos. Apesar disso, perdi bastante tempo desde então, e só agora estou começando realmente a fazer isso: reler os que já li e ler os que ainda não li. A segunda me fez decidir que adotaria o procedimento de escrever resumos das obras na medida em que as fosse lendo, o que me obrigaria a lê-las com calma e atenção, pensando e articulando o melhor possível seus elementos. Esse procedimento traria ainda a vantagem adicional de facilitar a memorização, além de colocar à disposição um esquema ao qual sempre poderei recorrer mais tarde. E, já que vou fazer isso, não vejo razão para não publicar essas anotações. Elas poderão ser úteis - se não como instrução, ao menos como incentivo à instrução - para os leitores não familiarizados com as obras, e poderão ser úteis para mim, na medida em que leitores com mais amplos conhecimentos sobre o tema decidirem compartilhá-los comigo.

Sem mais delongas, portanto, passo a expor algumas anotações sobre um dos mais belos textos que já li, a Apologia de Sócrates, na qual Platão reproduz o discurso de seu mestre por ocasião de seu julgamento pela assembléia de Atenas, o qual culminou, como disse Idel Becker, em "uma das grandes mortes da história".

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O discurso de Sócrates divide-se em três partes, relacionadas às etapas do julgamento. Na primeira, a mais longa, ele faz sua defesa, logo após a acusação feita por Meleto, seu denunciador. O discurso de Sócrates contrasta em vários aspectos com o dele, e também com os procedimentos usualmente adotados pelos réus do tribunal de Atenas. Ele não se considera um orador hábil, recusa-se a utilizar a linguagem dos tribunais e apresenta-se com a simplicidade que caracterizou todos os seus debates públicos. Também não faz drama, não derrama lágrimas, não traz seus filhos pequenos para implorarem por sua vida aos juízes. Todos esses procedimentos, além de indignos de um ancião (ele já tinha mais de setenta anos), são injustos em si mesmos, pois a função do juiz requer que ele não se deixe levar por apelos emocionais e retóricos, mas concentre-se em avaliar à luz da lei as evidências e os argumentos apresentados. Por conseguinte, é errado tentar persuadir os juízes por tais meios. Em sua defesa, o filósofo utiliza como suas únicas armas a justiça e a veracidade da causa que defende.

Antes de reportar-se diretamente ao discurso de Meleto, no entanto, Sócrates vê-se obrigado a defender-se de um outro acusador, pior que ele: a multidão, que é mais temível justamente por ser anônima ("exceto, talvez, algum comediógrafo" - clara referência a Aristófanes, que difamou Sócrates em sua peça As nuvens) e porque o caluniou durante anos a fio, deixando-lhe, no entanto, pouco tempo para defender-se naquele tribunal. Ela o acusou sempre de desprezar os deuses, de especular indevidamente sobre os mistérios do céu e da terra, de ser um sofista (no pior sentido da palavra) e de corromper a juventude. E o fez aproveitando-se da pouca idade de seus ouvintes, os quais, escutando tais calúnias desde a infância, cresceram habituados a tomá-las como verdadeiras, e agora são adultos e compõem aquela assembléia. A acusação de Meleto é apenas um resultado acidental desse problema de proporções muito maiores.

Em sua defesa, Sócrates apela ao testemunho da própria assembléia: que cada um se esforce para lembrar do que o ouviu ensinar, e cada um interrogue seus vizinhos quanto ao que estes ouviram. Isso bastaria para mostrar que as acusações não procedem, que o filósofo não defendeu a doutrina de Anaxágoras, nem as dos sofistas, nem sequer demonstrou interesse por tais idéias ou pretensão de tê-las compreendido. Por isso mesmo jamais procurou reunir discípulos, nem exigiu dinheiro dos jovens que o seguiram espontaneamente, e tampouco prometeu-lhes qualquer coisa ou ensinou a algum deles algo diferente do que disse a todos os demais. Se tivesse dito algo que pudesse corromper os jovens, seria de se esperar que ao menos alguns, tendo alcançado a maturidade, tomassem consciência do fato e se dispusessem a acusá-lo, ou que seus parentes reprovassem a conduta deles e responsabilizassem o filósofo por isso. No entanto, muitos deles estavam ali presentes e nada tinham de que se queixar.

Mas como se explica, então, o surgimento de tais mentiras sobre ele? Elas se devem à natureza da sua missão, que começou de maneira bastante inusitada. Um falecido amigo seu chamado Querofonte, conhecido e querido por todos os presentes na assembléia, havia ido certa vez a Delfos consultar o oráculo de Apolo, e nessa ocasião o deus afirmara não haver homem mais sábio que Sócrates. Tal declaração muito surpreendeu o próprio Sócrates, que não se considerava sábio de modo algum. Não podendo crer, contudo, que o deus mentira, pôs-se a refletir sobre o sentido daquelas palavras. Decidiu então refutar o oráculo, indo ter com eminentes políticos tidos por muitos - e por si mesmos - como sábios. Logo descobriu, porém, que esses homens não eram sábios de fato e, ao tentar fazer-lhes ver isso, conseguiu apenas a inimizade deles e de seus admiradores. Procurou em seguida os poetas, mas descobriu que eles não compreendiam sequer o significado de seus próprios versos, e também granjeou a inimizade deles, pois também estes se consideravam sábios. Foi então, aos artífices e achou-os sábios em sua arte. Porém, erravam em supor que isso os tornava sábios em assuntos mais elevados, e nisso eram iguais aos outros.

Ao longo desse processo, apesar do medo que sentiu ao despertar tanta hostilidade, o filósofo convenceu-se de que devia prosseguir realizando o propósito do deus, cumprindo a missão que este lhe comissionara, pois era necessário que ele compreendesse o sentido do que lhe fora dito. Percebeu, enfim, que sua superioridade em relação a todos aqueles pretensos sábios consistia no fato de que ele, embora também não fosse sábio, sabia que não o era, enquanto os outros falsamente julgavam sê-lo. O oráculo de Apolo era na verdade uma reprovação a toda a sabedoria humana, pois colocava todos os homens abaixo de um que nenhuma sabedoria tinha. Esses eventos trouxeram, no entanto, conseqüências inesperadas: muitas pessoas, vendo Sócrates demonstrar a tolice alheia, concluíram que ele próprio devia ser um sábio. Jovens ricos e ociosos passaram a segui-lo e a imitá-lo, interrogando e desafiando muitos pretensos sábios e obtendo resultados semelhantes aos seus, advindo daí sua fama de corruptor da juventude. E, a fim de difamá-lo, seus inimigos atribuíram a ele ensinamentos de outros.

Passa então a analisar as acusações de Meleto, que são absurdas e contraditórias. A despeito de sua declarada intenção de proteger os jovens, ele demonstra não ter jamais dedicado algum tempo pensando num meio de fazer bem a eles. Buscando bajular os presentes, Meleto aponta a lei e, por consegunte os juízes, senadores e cidadãos em geral, que a fazem cumprir, como aqueles que tornam os jovens melhores. Mas a conclusão é absurda, pois a educação dos jovens, como qualquer outra tarefa complexa, é arte dominada por poucos, e a maioria dos que se põem a opinar sobre o assunto só causa problemas. Todos sabem disso, como se nota no fato de que os cidadãos ricos pagam grandes somas a certos mestres para que eduquem seus filhos, o que seria desnecessário se qualquer um pudesse se incumbir dessa tarefa. É absurda também a acusação de que Sócrates corrompe propositalmente os jovens que o acompanham. Todo homem deseja viver entre pessoas virtuosas, pois estas fazem o bem aos que estão ao seu redor, e ninguém pode ter interesse em tornar piores as pessoas com quem convive. Portanto, ou Sócrates não corrompe seus discípulos, ou o faz sem intenção. Em nenhum dos casos há crime, e em ambos Meleto está enganado. Enfim, é refutada a acusação de ateísmo, que, além de não ter sido corroborada por testemunhas, contradiz outra acusação feita pelo próprio Meleto: a de que o filósofo aprecia os demônios. Levado pela ânsia de difamar, Meleto fez acusações imprudentes que se excluem mutuamente, já que, sendo os demônios filhos bastardos dos deuses, crer naqueles e não nestes é como crer em mulas sem admitir a existência de cavalos e jumentos.

Sócrates analisa sua situação. Se condenado, não será o primeiro justo a ser vítima do ódio do povo, e tampouco o último. Não se envergonha dessa condição, pois o critério orientador das ações humanas não deve estar no risco que proporcionam, e sim na sua justiça ou injustiça. Exemplificam essa virtude Aquiles e todos os heróis que pereceram em Tróia, os quais deram mais valor ao dever que às suas próprias vidas. São exemplares também os atos do próprio Sócrates quando, na juventude, serviu o exército da cidade e quando, como político, sofreu ameaças de prisão e morte por defender o que considerava justo. Retirou-se da vida política porque quem combate pela justiça não deve se meter nos assuntos públicos, e assim se voltou para a realização dessa tarefa no âmbito de suas relações pessoais. Se não tivesse agido assim certamente já estaria morto, pois não há outro destino para os que realmente lutam pela justiça por meios políticos.

Assim, Sócrates jamais tentou transformar sua missão pedagógica em plano de poder. Disso foi proibido pela voz de um gênio que sempre o acompanhou, impedindo-o de praticar ações que acarretassem seu próprio mal. Essa voz sem dúvida tinha origem divina, tanto quanto a sentença de Delfos, e impeliu o filósofo em sua missão. Por causa desta, e não por amor próprio, ele se defende diante do tribunal, temendo que os atenienses recusem a dádiva divina que opera através dele e que os deuses não lhe enviem um sucessor. Prova adicional da origem divina da mesma encontra-se no fato de que o filósofo nada tinha a ganhar com ela, a tal ponto que, não podendo aceitar dinheiro de seus discípulos, ele rapidamente empobreceu, pois tais afazeres o deixaram sem tempo para cuidar de seus próprios assuntos particulares.

Em vista disso tudo, recuar diante da ameaça de morte seria, isso sim, motivo justo para que o acusassem de desprezar os deuses. Se lhe propusessem absolvição sob a condição de não mais filosofar, ele responderia que é mais importante obedecer aos deuses que aos homens, e continuaria exortando os atenienses à preocupação com a sabedoria e a verdade, em detrimento da riqueza e da fama. Sua missão não pode ser abandonada, pois é o que há de mais valioso dentre tudo o que se faz na cidade. Além disso, temer a morte é atribuir-se uma sabedoria ilusória, como a dos políticos, poetas e artesãos. Pois todos a temem sem de fato saberem se ela é um mal ou o supremo bem. Logo, é errado pautar as ações pelo risco de morte que elas acarretam, e muitos homens tidos por sábios já procederam vergonhosamente nessa situação, como, aliás, se a absolvição diante do tribunal os tornasse imortais. O bom critério reside naquilo que é conforme à virtude. A eventual condenação de Sócrates trará menor dano a ele do que aos próprios atenienses, pois o exílio e a perda da vida ou dos bens causa muito menos mal a um homem do que as injustiças que ele faz aos outros.

Vem então a condenação, que o filósofo recebe sem surpresa. De acordo com a lei, deve sugerir uma pena para si mesmo, em contra-proposta à sentença de morte sugerida por seus acusadores. Começa a segunda parte do seu discurso. Sócrates pergunta que pena merece ele, que sempre desprezou tudo aquilo que tantos julgavam tão importante, empenhando-se em levar aos homens o maior bem possível. Mereceria, na verdade, ser sustentado pelo Estado, honra usualmente concedida aos atletas campeões. Tal proposta não seria arrogante, mas sim a correta aplicação do preceito de não cometer injustiça contra ninguém. Além disso, não seria lógico propor em alternativa à morte, que não se sabe se é boa ou má, uma pena que se sabe ser má, como prisão, multa ou exílio. Porém, não sendo permitido fazer uma proposta justa, Sócrates propõe aquela que lhe parece menos injusta: uma multa que ele possa pagar. Mas como é muito pobre, só pode pagar uma mina de prata. Seus ricos discípulos, no entanto, o convencem a propor uma multa de trinta minas, tomando-os por fiadores.

A assembléia condena o filósofo à morte, e começa a última parte do seu discurso. Ele censura os que o condenaram por darem motivo à difamação da cidade, pois todos a acusarão de ter executado um sábio. E isso era desnecessário, pois eles poderiam ter se livrado dessa culpa com um pouco de paciência, já que ele não iria mesmo viver muito. Morre por recusar-se a se defender de maneira indigna, com discursos falsos que agradam aos juízes, pois é injusto sacrificar pela vida a obediência a valores maiores que ela. Fugir da morte, que agora o acomete, é mais fácil que fugir da maldade que domina seus inimigos. Mas a cada um cabe suportar sua pena. Sócrates vaticina-lhes que virá sobre eles vingança severa da parte de Zeus. Condenaram-no para não terem de prestar contas de suas más ações, mas não serão bem sucedidos nesse intento: serão muitos os que os reprovarão.

Volta-se então para os verdadeiros juízes, os que votaram segundo a justiça, e conta-lhes que o resultado daquele julgamento resultaria num bem para ele, pois seu gênio silenciara ao longo de todo aquele dia. Tal conclusão é plausível, pois a morte só pode ser uma de duas coisas: a cessação da existência ou a migração da alma para outro lugar. O primeiro caso é um bem, pois a inconsciência é preferível às tribulações desta vida, e o segundo o é igualmente, ainda mais se for verdade que no Hades encontram-se todos os mortos. Livrando-se dos falsos juízes de Atenas, o filósofo desfrutará a companhia dos verdadeiros: deuses, heróis, homens justos do passado e todos os que, como ele próprio, foram injustamente sentenciados à morte. Tais mortos são mais felizes que os vivos. Os juízes não devem temer a morte, pois o mal jamais atinge os homens bons. Sua própria morte é, naquelas circunstâncias, um bem, pois o liberta do mundo; aqueles que o condenaram, embora cressem estar causando-lhe um mal, eram na verdade instrumentos postos a serviço do seu bem. Sócrates pede que exortem os filhos dele à justiça e à verdade tão veementemente quanto ele próprio exortou a todos. E despede-se com as seguintes palavras: "É hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas vidas. Quem terá a melhor sorte? Só os deuses sabem."

6 comentários:

fortes disse...

por esse motivo gostaria de estudar mais filosofia...

fortes disse...

O texto como um todo é bastante interessante, mesmo sendo um resumo. Não sei se entendi direito, mas a parte que ele contesta se a pena de morte realmente seria uma pena ou uma dadiva foi o maior motivo de eu ter me interessado.

Metralha disse...

Justamente nesse trecho que o Fortes citou está um assunto em que andei divagando sobre, ultimamente. Resumidadmente, o ato de preferir envolve 3 entidades: um OBJETO é PREFERÍVEL em relação a OUTRO por ALGUÉM. Portanto, acho que não tem sentido preferir a inconsciência pois no momento em que ela se dá, o ALGUÉM da trindade acima se perde. Mas esse é um dos assuntos que tenho que discutir com vc, via e-mail ou pessoalmente, com mais calma.

Metralha disse...

Esqueci de dizer que o resumo está muito bom. Parabéns. Pretendo ler esse esquema e vários outros do Platão.

Alexsandro disse...

Passarei a escrever sobre os assuntos que preciso ou que quero aprender.
Grande abraço, estou sempre por aqui.

Contraventor disse...

Parabéns pelo resumo sua analise me ajudou muito a enchergar melhor o texto.Confrantando o seu e meu relato da obra em questão