23 de junho de 2008

Uma dúzia de tiranos

Enfim estou livre de três das quatro disciplinas em que me matriculei neste semestre, e com isso espero voltar a ter tempo para escrever neste blog. Mas primeiro preciso colocar em dia algumas leituras, correspondências, debates e certas atividades pessoais, coisas que foram negligenciadas por mais tempo do que eu gostaria (minha primeira providência foi fazer a barba, que cresceu impunemente durante mais de quarenta dias). Em vista de tudo isso, provavelmente vai demorar mais um pouco até que eu retome as atividades por aqui. Até lá, fiquem com o texto abaixo, que contém os três parágrafos iniciais e os dois finais de um livro que mencionei no meu último post e que enfim consegui terminar de ler: Os intelectuais (Intellectuals), de Paul Johnson. Os trechos que transcrevo dão uma boa idéia da proposta da obra e de suas principais conclusões. O restante do livro é apenas uma extensa compilação dos fatos históricos e biográficos que as fundamentam, fatos esses retirados das vidas de algumas das mais notáveis figuras enquadradas na categoria de pessoas que dá nome ao título do livro.

"Ao longo dos últimos duzentos anos, a influência dos intelectuais vem crescendo regularmente. Na verdade, o surgimento do intelectual secular foi um fator decisivo para dar forma ao mundo moderno. Visto de uma perspectiva histórica ampla, trata-se, em muitos aspectos, de um fenômeno novo. Não há dúvida de que desde suas primeiras encarnações como sacerdotes, escribas ou profetas, os intelectuais exigiram para si a tarefa de orientar a sociedade. Porém, sendo eles guardiães de culturas hieráticas, fossem primitivas ou sofisticadas, as inovações morais e ideológicas que eles propunham eram limitadas pelos cânones da autoridade externa e pela herança da tradição. Eles não eram, nem podiam ser, espíritos livres ou aventureiros do pensamento.

Com o declínio do poder do clero no século XVIII, um novo tipo de mentor surgiu para preencher o vazio e conquistar os ouvidos da sociedade. O intelectual secular, mesmo sendo deísta, cético ou ateu, estava tão disposto quanto qualquer pontífice ou presbítero a dizer como os homens deviam agir diante dos problemas dessa sociedade. Desde o princípio, expressou uma devoção especial para com os interesses da humanidade e uma predisposição evangélica para fazê-la avançar graças a seu ensino. Deu a essa tarefa auto-imposta um sentido muito mais radical do que tinham dado seus predecessores do clero. Não se sentiam limitados por nenhum corpus de uma religião revelada. A sabedoria coletiva do passado, o legado da tradição e os códigos prescritos por uma experiência ancestral existiam para ser seletivamente seguidos ou para ser completamente rejeitados, dependendo apenas do bom senso de cada um. Pela primeira vez na história humana - e com uma arrogância e uma audácia crescentes - os homens se diziam capazes de diagnosticar os males da sociedade e curá-los com sua inteligência auto-suficiente; e mais: diziam ser capazes de traçar um plano pelo qual não apenas a estrutura social, mas os hábitos básicos do ser humano podiam ser transformados para melhor. Ao contrário de seus antecessores sacerdotais, eles não eram servos nem intérpretes dos deuses; eram seus substitutos. O herói deles era Prometeu, que roubou o fogo celestial e o trouxe para a Terra.

Uma das características mais marcantes dos novos intelectuais seculares era o prazer com que submetiam a religião e os respectivos protagonistas a uma análise crítica. Até que ponto esses grandes sistemas de fé trouxeram benefícios ou malefícios à humanidade? Em que medida esses papas e pastores viveram de acordo com seus próprios preceitos de castidade e sinceridade, de caridade e benevolência? Tanto no caso das igrejas como no do clero, os vereditos foram rigorosos. Hoje, depois de dois séculos durante os quais a influência da religião continuou decrescendo e os intelectuais seculares desempenharam um papel cada vez mais importante no caráter de nossas atitudes e instituições, já é hora de examinarmos as vidas deles, tanto em âmbito público quanto em privado. Pretendo avaliar particularmente as credenciais morais e de julgamento que os intelectuais possuíam ou não para ditar regras de conduta à humanidade. Como administravam suas próprias vidas? Que grau de retidão demonstravam para com a família, os amigos e os companheiros? Eles eram honestos em seus relacionamentos sexuais e financeiros? Será que falavam e escreviam a verdade? E até que ponto seus sistemas teóricos resistiram ao teste do tempo e da práxis?"

Antes de transcrever o veredito, vou apenas mencionar que a ênfase do livro recai sobre uma dúzia de pessoas muito influentes, cada uma a seu modo, todas as quais se enquadram na categoria de "intelectuais", no sentido explicado acima: quatro são filósofos, ou pelo menos costumam ser assim denominados (Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre), três são dramaturgos (Henrik Ibsen, Bertolt Brecht e Lillian Hellman) e três são romancistas (Leon Tolstoi, Ernest Hemingway e Edmund Wilson). Há ainda um poeta, Percy Shelley, e até um editor, Victor Gollancz. No último capítulo muitos outros casos são apresentados em rápida sucessão, e em grau consideravelmente menor de detalhamento.

"Chegamos agora ao final de nossa investigação. Foi há apenas duzentos anos que os intelectuais seculares começaram a substituir a antiga classe dos letrados como guias e mentores dos homens. Vimos um grande número de casos individuais de pessoas que pretenderam aconselhar a humanidade. Analisamos as qualificações morais e de julgamento que tinham para exercer tal tarefa. Em particular, examinamos a atitude delas em relação à verdade, a maneira como pesquisavam e avaliavam as provas, a resposta delas não apenas à humanidade em geral, mas aos seres humanos em particular; o modo como tratavam seus amigos, colegas, criados e sobretudo suas próprias famílias. Abordamos as conseqüências sociais e políticas que houve em seguir seus conselhos.

Que conclusões podem ser tiradas? Os leitores julgarão por si mesmos. Porém, creio que revelei uma certa descrença popular diante dos intelectuais que tentam nos dar conselhos, uma tendência crescente entre as pessoas comuns de questionar o direito que têm os eruditos, escritores e filósofos, não importa quão notáveis sejam eles, de nos dizer como devemos nos comportar e gerir nossos negócios. Parece estar se difundindo a crença de que os intelectuais não são tão sábios como mentores, nem têm o mesmo valor dos homens exemplares, dos curandeiros e sacerdotes do passado. Eu compartilho dessa descrença. Uma dúzia de pessoas escolhidas ao acaso no meio da rua são no mínimo tão capazes de oferecer opiniões sensatas sobre assuntos morais e políticos quanto um grupo típico da intelligentsia. Porém, eu iria mais longe. Uma das lições mais importantes de nosso século trágico, em que assistimos a milhões de vidas inocentes serem sacrificadas em planejamentos para beneficiar a maior parte da humanidade, é: cuidado com os intelectuais. Eles não apenas devem ser mantidos bem afastados das engrenagens do poder como devem ser objeto de uma desconfiança particular quando procuram dar conselhos coletivos. Cuidado com as comissões, conferências e associações de intelectuais. Não confie em declarações públicas emitidas de suas fileiras cerradas. Não leve em conta suas opiniões a respeito de líderes políticos e de acontecimentos importantes. Isso porque os intelectuais, que estão longe de ser pessoas em alto grau individualistas e não-conformistas, seguem certos padrões de comportamento constantes. Considerados como um grupo, eles geralmente são ultraconformistas no interior dos círculos formados por aqueles cuja aprovação eles desejam e valorizam. Isso é o que os faz, en masse, tão perigosos, pois lhes permite criar ondas de opinião e ortodoxias dominantes, as quais geralmente originam uma série de ações irracionais e destrutivas. Sobretudo, devemos nos lembrar, a todo momento, daquilo que os intelectuais com freqüência esquecem: que as pessoas são mais importantes que os conceitos e devem vir em primeiro lugar. O pior dos despotismos é a insensível tirania das idéias."

1 de junho de 2008

Madrugada de aventuras

Hoje vou fazer algo que nunca fiz neste blog: começar a escrever sem saber exatamente o que devo dizer. Logo veremos aonde isso nos leva. É madrugada, e eu deveria estar dormindo ou estudando, mas não consigo fazer nenhuma das duas coisas. Comecei a ler uns artigos sobre temas que o André Luiz me mandou, e que as disciplinas do mestrado têm me impedido de ler com a rapidez que eu gostaria. Entre os artigos que li hoje há um com citações de um ativista homossexual protestando contra a terrível intolerância da nossa sociedade contra os praticantes da pedofilia. Há também um artigo mostrando que o governo de Uganda tem conseguido, por meio de campanhas em favor da castidade (para os solteiros) e da fidelidade (para os casados), reduzir drasticamente os índices de contaminação por AIDS em seu país (que chegou a atingir 30% da população, e hoje está perto de 6%), coisa que jamais conseguimos com as idéias moderninhas e politicamente corretas que resultam apenas na distribuição de preservativos. Li também notícias sobre o triunfo do velho (e genocida) maoísmo no Nepal. Creio que tudo isso serviu para reativar meus instintos de debate cultural, que ultimamente andavam meio dormentes. Então li mais um texto mandado pelo André, escrito por Mário Ferreira dos Santos, provavelmente o maior filósofo que o Brasil já teve (o que, num país tão medíocre, automaticamente faz dele um completo desconhecido).

A essa altura eu já estava ficando cansado de ler e começando a ter vontade de escrever. Mas me contive. Começar a escrever a essa hora? É melhor achar outra coisa para fazer. O texto do Mário é a introdução ao seu livro A origem dos grandes erros filosóficos, que eu ainda pretendo ler. Meu amigo enviou o texto já com destaque para os dois melhores parágrafos, que transcrevo aqui:

"Se passarmos os olhos pelas diversas épocas, verificaremos desde logo que os que mais brilharam, os que receberam o afago dos elogios fáceis, os que empolgaram mais facilmente grupos imensos de admiradores não foram os maiores de sua época, mas os menores, os que encontram um lugar inexpressivo na história do conhecimento humano. [...]

O que amedronta é ver antigas concepções, que foram derruídas pela análise e confutadas por rigorosas argumentações, retornarem como fantasmas, para preocuparem outra vez mentes desprovidas, a dos que desconhecem essas refutações, e se apresentarem, então, como NOVIDADES, como confecções perfeitíssimas, segundo o último modelo intelectual, provocando em mentes não devidamente a par do que já foi realizado, espasmos de satisfação, exaltações de gozo, como se fora atingida a quintessência das coisas."

Lembrei-me então do livro que venho arduamente tentando arrumar tempo para terminar de ler: Os intelectuais, de Paul Johnson. Restam ainda cinco dos treze capítulos pela frente, de modo que me abstenho, por enquanto, de comentá-lo em detalhes. O livro trata de uma porção de intelectuais e escritores mundialmente venerados, do tipo que gosta de diagnosticar os problemas mais profundos da humanidade e que julga ter a fórmula para resolvê-los. Johnson analisa suas carreiras profissionais e, sobretudo, suas vidas pessoais a fim de verificar se essas pessoas têm ou não as qualidades morais e intelectuais que justificariam a existência de pretensões tão elevadas em suas respectivas cabeças. A resposta, obviamente, é negativa; na verdade, é ainda mais veementemente negativa do que eu esperava.

Mas no momento eu não estou com vontade de iniciar a leitura do nono capítulo. O que fazer, então? Lembrei-me de ter no computador umas gravações de palestras do Mário, que me foram enviadas (pelo André, mais uma vez) há alguns meses. É uma boa solução para um sujeito que mora sozinho, não tem televisão nem capacidade de concentração para orações longas e está sem sono, sem vontade de ler, sem coragem para começar a escrever e com a geladeira vazia. Nessas gravações, entre exposições sobre Platão e Aristóteles e dissertações sobre a metafísica e a filosofia concreta, Mário arruma tempo para descer a lenha nos neopositivistas e em Kant, chegando a dizer, com quase todas as letras, que eles deveriam ter calado a boca e ido para casa estudar um pouco.

E, com isso, meus instintos intelectuais mais agressivos voltaram a despertar, e eu não resisti ao segundo apelo para escrever alguma coisa. Mas é claro que minha sede de sangue não poderia ser aplacada por temas tão pacíficos quanto a crítica textual bíblica ou os meus dois acusadores restantes. Eu estou mesmo é com vontade de falar mal de alguém. Mas quem? A essa altura tanto faz. Mas terá de ser algo rápido, pois já gastei espaço demais contando minhas monótonas aventuras das últimas horas. E, ao mesmo tempo, terá de ser algo relativamente leve, pois não posso exigir muito dos meus neurônios cansados. Pensei em falar do próprio Kant, mas meus problemas com ele são tantos que eu prefiro deixar isso pra depois. É o mesmo que aconteceu outro dia, quando um amigo me pediu para explicar as razões de meu desacordo com Marx. O problema é que essas razões são tantas e tão variadas que, vindo todas à minha boca ao mesmo tempo, me fizeram engasgar e balbuciar qualquer coisa, resultado esse que provavelmente não bastou para satisfazer meu amigo. Para evitar isso hoje, vou dar uma olhada na minha modesta biblioteca pra ver se acho alguma coisa que sirva a esse propósito. Volto daqui a pouco.

Voltei. E vou contar uma historinha. Trago nas mãos uma edição de bolso do Tao Te Ching de Lao-Tsé, o fundador do taoísmo. Eu tenho grande interesse por livros sagrados, especialmente das religiões que sustentaram civilizações milenares. Aliás, ainda quero fazer aqui uns comentários pontuais e amadorísticos sobre o Alcorão, que passei a achar belíssimo depois que me acostumei à sua forma literária bastante peculiar. E passei a ver nele também uma boa dose de sabedoria, especialmente depois de ter lido uma boa edição com notas explicativas preparadas por Helmi Nasr. Com o livro chinês, no entanto, aconteceu o contrário: li-o pela primeira vez numa edição (essa mesma que está agora diante de mim) cheia de notas explicativas. Não tive do que reclamar no que diz respeito à estética. Mas quanto aos ensinamentos, para ser franco, achei o livro uma bela porcaria. Esse veredito me incomodou, pois eu não podia conceber a hipótese de uma civilização inteira ter se orientado durante séculos por semelhante porcaria. Até onde sei, apenas os intelectuais são capazes de fazer esse tipo de coisa.

Passados alguns meses, voltei e reli o livro. Mas, talvez advertido por alguma intuição semi-consciente, resolvi deixar de lado as notas explicativas e ler apenas o texto. E como foi grande a minha surpresa ao constatar que, encarado dessa forma, o livro parecia adquirir muito maior valor! Não, é claro, que agora eu o tenha entendido bem. Mesmo assim, sua sabedoria transparece. É mais ou menos como nas poesias de T. S. Eliot: não entendo nada em boa parte do tempo, mas são edificantes e lindas. A poesia de Eliot não se esgota ao ser lida e sentida; precisa também ser estudada, coisa que eu, aliás, ainda não fiz.

Também não estudei o Tao Te Ching, e nada tenho a dizer sobre seu conteúdo. Meu propósito com essa história toda é mostrar como o autor das notas quase arruinou minhas relações com o velho livro, se é que não a arruinou em parte com a própria tradução, que é obra do mesmo sujeito. Seu nome é Huberto Rohden, e quase nada sei sobre ele. Vejo seus livros por aí, e sei que escreveu sobre filosofia e espiritualidade e traduziu vários livros sagrados, como o Bhagavad Gita e o próprio Novo Testamento. Sob o peso de suas notas explicativas, o Tao Te Ching tornou-se um tratado de monismo barato, daqueles que possuem um guru em cada esquina, que pretendem ser a essência ou a versão purificada de todas as religiões do mundo e cuja pretensa sabedoria espiritual consiste de um punhado de clichês anticristãos e enunciados pseudo-místicos vagos sobre uma divindade impessoal.

Não posso estender essa acusação à totalidade da filosofia e da teologia de Rohden, pois não sei sequer se ele tinha uma filosofia ou uma teologia, no sentido apropriado dessas palavras. Mas, por tudo o que pude constatar em suas notas, e ainda mais na introdução, nada encontrei que justificasse a suposição de que ele está acima de toda essa bobagem. Rohden tem das religiões abraâmicas a mesma concepção infantil e preconceituosa que invariavelmente se encontra entre esse tipo de gente. Assim, afirma que "para muitos, Deus é uma espécie de ditador celeste, uma pessoa que vigia os homens de longe e registra os seus créditos e débitos, premiando-os ou castigando-os depois da morte", para em seguida nos contar que "esse infantilismo primitivo domina as teologias cristãs de quase dois mil anos". Assim, os grandes teólogos e filósofos cristãos da história, por um artifício verbal fundado tão somente na ignorância do acusador, tornam-se todos crianças de seis anos.

Rohden prossegue citando e endossando a afirmação, feita por Einstein, de que o monismo cósmico é a forma mais elevada de religião, e que apenas uns poucos sábios alcançaram essa concepção ao longo da história. Mas, depois de incluir São Francisco de Assis nessa categoria, o que já seria absurdo o suficiente, o autor nos diz que "os místicos cristãos, adeptos do monismo cósmico, foram por isso mesmo perseguidos, excomungados ou, pelo menos, considerados suspeitos de heresia", desgraças essas que jamais acometeram o próprio São Francisco.

Vários outros exemplos poderiam ser dados, mas esses bastam para ilustrar minhas razões para não levar Huberto Rohden a sério. Mas não posso encerrar esse texto sem deixar claro que, embora eu pudesse fazer isso, não estou dizendo nada contra o taoísmo, ou contra as formas infinitamente mais respeitáveis de monismo presentes, por exemplo, no Vedanta ou entre os sufis. Estou falando contra esse ecletismo fácil e reducionista que muitos consideram a suprema maravilha do espírito. Quem deseja conciliar as diversas tradições religiosas em bases tão pueris acaba ficando apenas com o que há de pior em cada uma delas.

Rohden explica a superioridade do seu monismo alegando que "quando uma criança pensa em termos de adulto, deixa de ser criança, e os jardins de infância a expulsam como elemento estranho". A impressão que eu tenho é que ele próprio, que se considerava muito adulto por ter sido expulso do playground, foi, na verdade, enxotado por ser pequeno demais para os brinquedos ali disponíveis.

Missão cumprida: instintos apaziguados. O sono chegou, e o dia também. Vou postar isso aqui sem revisão mesmo, pela primeira vez, e vou dormir.

23 de maio de 2008

As ainda mais antigas famílias

Nesta postagem pretendo fazer com o Antigo Testamento a mesma coisa que fiz nos textos As antigas famílias e Através dos séculos (o terceiro e o quarto da série, respectivamente) para o Novo Testamento. Embora a história do texto veterotestamentário seja muito complexa, tanto pelo volume quanto pela antigüidade e variedade de épocas e condições em que foram compostas suas respectivas partes, dedicarei a esse assunto um único post, pelo simples motivo de que sei bem menos sobre o mesmo. Falar pouco costuma ser a melhor maneira de não falar besteiras (tenho certeza, aliás, de que meu hábito de ficar de boca fechada é a principal razão pela qual muitos me consideram inteligente). Apesar dessa precaução, porém, acredito que esta postagem tem maiores chances de conter erros que as anteriores, e o leitor deve estar ciente desse fato. As razões são simples: as fontes que empreguei são inferiores, tanto em profundidade quanto em atualidade.

A história mais remota do texto das Escrituras hebraicas é quase inteiramente desconhecida pelo fato de que não existem manuscritos anteriores ao século III a.C., o que, inclusive, já foi pretexto para muitos debates sobre a própria data de composição dos textos originais. Quando começam a emergir das sombras do passado, porém, os textos já se mostram divididos, quanto à semelhança que possuem entre si, em basicamente três grupos. Antes de apresentá-los, contudo, deve ser dito que, até poucas décadas atrás, os mais importantes manuscritos disponíveis datavam dos séculos IX e X. Assim, o mais antigo dentre os mauscritos significativamente completos é o 4445 do Museu Britânico, que foi copiado por volta do ano 850 e contém a maior parte do Pentateuco. Há também o Manuscrito de Leningrado, escrito no início do século X, que contém porções significativas dos profetas. Um outro manuscrito de Leningrado, o B-19A, é a mais velha cópia completa do Antigo Testamento, realizada perto do ano 1010. Todos esses manuscritos pertencem a uma mesma família textual, que será designada aqui como família massorética. Além desses, existiam apenas traduções gregas e latinas que, embora remontassem até o século II, eram pouco valorizadas pelo fato mesmo de serem traduções.

Mas vários importantes manuscritos do Antigo Testamento foram encontrados nas famosas cavernas do Wadi Qumran, fonte de verdadeiros tesouros arqueológicos descoberta em 1947. No que diz respeito ao assunto deste post, o mais importante manuscrito é o Rolo do Mar Morto de Isaías, que contém o livro completo desse profeta, copiado na segunda metade do século II a.C.. Do mesmo período, há também um comentário ao profeta Habacuque que traz o texto dos seus dois primeiros capítulos. Do século seguinte temos o Rolo de Isaías da Universidade de Jerusalém, que contém a maior parte do texto a partir do capítulo 41. Há ainda um trecho de Levítico copiado no século II a.C. ou antes. Esses são, provavelmente, os achados mais importantes, e todos possuem, também, textos essencialmente massoréticos. Há, entretanto, outros manuscritos que são menos importantes, num certo sentido, por conterem textos menores ou se encontrarem em mau estado, mas que favorecem outras famílias ou apresentam textos mistos. Assim, os manuscritos do Mar Morto permitem vislumbrar a história do texto hebraico anterior ao predomínio absoluto do Texto Massorético, a cuja família pertencem quase todos os textos conhecidos até meados do século XX. Além disso, é claro, a enorme importância dos textos de Qumran reside também no fato de que eles fizeram recuar em cerca de um milênio a data dos manuscritos mais antigos até então conhecidos.

A família massorética parece ser, na vasta maioria dos casos, a tradição mais confiável. Esse fato é não apenas coerente com a evidência textual em si, que aponta para um texto mais antigo (geralmente anterior, por exemplo, ao uso das matres lectionis, consoantes que indicam vogais - vide o item C.3 do post Pedaços de bagunça), como também é coerente com o fato de que a versão que se impôs como oficial após a destruição de Jerusalém (embora possa ter existido desde até dois séculos antes), baseada numa minuciosa análise dos melhores manuscritos então disponíveis (inclusive, certamente, os pergaminhos oficiais do Templo e muitos outros rolos que não mais existem), tenha se decidido por essa família. Essa versão oficial, adotada até hoje, chama-se Texto Massorético, e deriva daí o nome da família à qual pertence.

Os grandes responsáveis pela escolha desse texto foram os soferim, uma ordem de escribas que surgiu no final do exílio babilônico (tendo sido, segundo se diz, fundada pelo próprio Esdras) e sobreviveu até cerca de 200 d.C., tendo se empenhado muito na padronização e transmissão fiel do texto sagrado. Desenvolveram métodos úteis nesse sentido, mas também foram eles próprios responsáveis pela introdução de erros motivados por suas posições teológicas, sendo que os mais notórios derivam de sua aversão à linguagem antropomórfica de certas passagens. O Midrash (significando algo parecido com "estudo textual"), que reúne exposições e interpretações de muitos mestres, foi compilado entre o século I a.C. e o fim do século III, e tem alguma relevância para a ecdótica pela abundância de citações, algumas das quais apresentam formas diferentes das contidas no Texto Massorético.

O próprio nome Texto Massorético, porém, deriva de um grupo posterior, os massoretas (nome derivado de massora, a tradição oral). Esses foram os eruditos que deram a forma final ao Antigo Testamento, entre o início do sexto século e meados do décimo. Eles criaram os sinais vocálicos e praticaram a crítica textual em certa medida, embora com métodos diferentes do usado pelos soferim. Mantiveram intacto o texto consonantal herdado destes, usando sinais vocálicos e notas marginais para sugerir erros no texto disponível, e desenvolveram ainda mais os métodos de prevenção contra erros de cópia. O Texto Massorético é o padrão usado até hoje nas edições feitas na língua original, e foi extraído principalmente dos já mencionados manuscritos de Leningrado. Não, é claro, que esse texto seja aceito sem reservas; mas a tendência dos estudiosos do assunto é conceder-lhe sempre o benefício da dúvida.

Além de fornecer o texto esmagadoramente predominante entre os judeus pelo menos desde o século II, a família massorética inclui também as traduções aramaicas, que remontam, na verdade, a tempos pré-cristãos. Embora as classes cultas estudassem e falassem o hebraico até o segundo século da era cristã, desde muito antes uma parcela significativa dos judeus retornados do exílio perdera a familiaridade com o idioma, tendo aderido ao aramaico, que era a língua franca do Império Persa. Isso exigia a presença de intérpretes nas sinagogas, que traduziam e explicavam as passagens sagradas ao povo. Quando essas traduções foram registradas por escrito receberam o nome de targuns, que significa "interpretações". Porém, essa passagem da tradição oral ao texto escrito só começou a acontecer no século II. Mas os targuns, a despeito de sua grande importância histórica, têm pouco valor para a crítica textual, tanto por abusarem da paráfrase quanto pelo próprio fato de serem derivados, em última análise, da família massorética, cuja versão hebraica original encontra-se abundantemente documentada, o que diminui a importância de suas traduções. Merece destaque também a Vulgata de São Jerônimo, completada em 404 e produzida a partir do texto hebraico então em uso na Palestina, onde o autor passou muitos anos estudando a língua com os rabinos de Belém. Essa tradução teve um caráter oficial, pois Jerônimo foi incumbido da tarefa de realizá-la pelo papa Damaso, e seu texto se tornou o padrão da cristandade ocidental ao longo de toda a Idade Média.

Ainda assim, na ausência da grande quantidade de manuscritos antigos de que dispõe a ecdótica neotestamentária, as antigas traduções ganham um papel mais importante para a crítica textual do Antigo Testamento. A mais antiga tradução grega conhecida (embora não necessariamente a primeira a ser feita) é a Septuaginta, versão composta entre 250 e 150 a.C., que foi, inclusive, muito usada nas citações pelos escritores neotestamentários e pela Igreja primitiva em geral. Orígenes compôs uma versão própria (incluída na sua Héxapla) a partir das diversas variantes disponíveis do texto da Septuaginta, completando-a com trechos de outras versões quando necessário. Essa revisão só chegou até nós pelo Códice Sarraviano, do quarto ou quinto século, que contém apenas trechos de Gênesis a Juízes, mas perpetuou-se através da tradução siríaca do Antigo Testamento feita por Paulo de Tela no ano 616. Existem outras revisões, mas elas só aparecem em manuscritos posteriores ou refletem-se indiretamente em traduções para outros idiomas. Existiram até novas traduções gregas, realizadas principalmente no século II (as principais são de Áquila e Símaco), mas delas não chegaram a nós mais que uns poucos fragmentos e citações.

Dentre os manuscritos da Septuaginta merecem destaque: os papiros Chester Beatty, que incluem porções do Pentateuco e de Isaías dos séculos II a IV; porções significativas do Gênesis e dos profetas menores em vários papiros datados do terceiro século; porções de Deuteronômio num papiro do século II (o Rylands 458); o Códice Vaticano, que contém o Antigo Testamento completo copiado no quarto século, mas cujo texto é certamente anterior a Orígenes, e no qual apenas o texto de Daniel não pertence à família em questão; o Códice Alexandrino, de meados do quinto século, que também contém o texto completo, e possui alguma afinidade com a Héxapla; o Códice Sinaítico, que possui o Antigo Testamento quase completo, e cujo texto é intermediário entre os dois anteriores. Em Qumran foram encontrados fragmentos do século I a.C., também em grego, que concordam com o texto da Septuaginta, ou pelo menos parecem ser traduções do mesmo texto original. Há ainda em Qumran uns poucos fragmentos em hebraico que concordam com o texto da Septuaginta contra o Texto Massorético, demonstrando que aquele estava também em uso nos tempos de Cristo e nos séculos anteriores. Mas a natureza altamente fragmentária desse material torna-o pouco importante, na prática, para a crítica textual.

O Pentateuco da Septuaginta é sua porção mais exatamente traduzida, certamente devido à sua enorme importância na liturgia judaica. Os livros históricos, os profetas e os livros poéticos receberam, nessa ordem, traduções progressivamente menos fiéis; isso deve ser levado em conta na avaliação do valor relativo das variantes dessa família. Mesmo no caso do Pentateuco, porém, essas variantes tendem a ser menos dignas de crédito que a versão massorética, pelo fato de que a família da Septuaginta apresenta uma heterogeneidade consideravelmente maior, o que se explica pelo fato de que os copistas do texto grego, geralmente mais afastados da tradição dos escribas judeus, eram menos rigorosos quanto às regras de exatidão seguidas por esses últimos.

Além da Vulgata, houve apenas uma grande tradução latina do Antigo Testamento, a qual, na verdade, lhe é anterior: a Itala, como é conhecida, composta durante o século II, que é, na realidade, uma tradução feita a partir da Septuaginta. Da mesma forma, o texto grego serviu de base para outras traduções, como as duas versões coptas conhecidas, assim como a maioria das versões árabes e, provavelmente, a versão etiópica. A primeira das duas traduções siríacas, a Pesita, foi realizada no segundo ou no terceiro século diretamente a partir do hebraico, mas o texto original claramente pertencia também à família da Septuaginta (são exceções os livros das Crônicas, que não constavam na versão original, e que foram incluídos posteriormente em traduções a partir do Targum; um texto de origem massorética, portanto). A segunda versão siríaca foi a já mencionada tradução de Paulo de Tela, realizada a partir da Héxapla.

A terceira e menos importante família textual é a conhecida como "samaritana", por incluir a versão do Pentateuco usada pelos samaritanos desde séculos antes da era cristã. A família samaritana quase sempre foi tratada com desprezo pelos especialistas, especialmente por suas óbvias tendências sectárias, que resultaram em gritantes adulterações do texto original. Mais recentemente, no entanto, algumas de suas variantes, cuja origem não pode ser atribuída a essa motivação apologética, passaram a receber juízos mais favoráveis da parte de vários eruditos. Ainda assim, pelo fato de não serem conhecidos textos fora do Pentateuco, e mesmo desses só existirem hoje uns poucos e fragmentários manuscritos, o texto samaritano é pouco importante. Um dos poucos manuscritos relevantes dessa classe foi descoberto no século XVII em Damasco, e seu texto veio a integrar a Bíblia Poliglota de Paris, de 1645. Trata-se de um texto samaritano que em muitas instâncias apóia a Septuaginta contra o Texto Massorético. Em Qumran foram encontrados também alguns fragmentos de manuscritos dessa família.

No que diz respeito à crítica textual, o Antigo Testamento encontra-se em clara desvantagem em relação ao Novo Testamento: há mais questões, e mais importantes, cujas respostas ainda são amplamente debatidas. Ainda assim, o texto veterotestamentário leva vantagem sobre muitas obras da Antigüidade. Isso só é possível graças a um batalhão de heróis do passado que tomaram parte na árdua tarefa de transmitir esses textos de geração em geração, sobretudo os já mencionados soferim e massoretas. Gleason Archer descreve sem exageros o mérito desses homens ao notar que eles "dedicaram a mais diligente atenção à conservação exata das Escrituras Hebraicas, a um ponto nunca igualado na dedicação dada a qualquer literatura, antiga ou moderna, secular ou religiosa, em toda a história da civilização humana". Graças a isso, chegou a nós um texto essencialmente idêntico, no mínimo, ao que era usado por volta do primeiro século.

28 de abril de 2008

O primeiro e o último

Nota: O texto abaixo é, na verdade, a primeira parte de um texto cuja segunda metade ainda não escrevi, mas que está na minha cabeça e será publicado tão logo eu tenha tempo de passá-lo ao computador.

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Escrevo sob o peso do que me parece ser a convergência espontânea de inúmeras experiências bem distribuídas entre os diversos aspectos e níveis da minha existência. Não creio que eu seria capaz de listar todas essas experiências se tentasse. Seja como for, não tentarei fazê-lo, pois uma descrição detalhada seria inútil do ponto de vista da própria idéia que pretendo expor. Felizmente, porém, uma parcela substancial das fontes das minhas reflexões encontra-se em algum texto que li ou filme que vi, ou pelo menos pode ser ilustrada com exemplos tirados daí. Talvez valha a pena mencionar, de passagem, a minha convicção de que, pelo menos no meu próprio caso, esse hábito de enxergar as coisas através dos livros (e, muito secundariamente, dos filmes) deve-se à mais pura incapacidade de apreender a verdade de maneira mais direta. Sei que há pessoas que mergulham nos livros para fugir da realidade, mas essa é uma tentação que nunca me atingiu. Tenho um interesse profundo e sincero pela realidade. Só não tenho os dotes intelectuais e morais necessários para extrair dela a verdade por meio da investigação direta. Eis aí a razão pela qual preciso recorrer constantemente ao que pessoas mais sábias, inteligentes e bem informadas disseram sobre essa mesma realidade que se me afigura invencível quando a enfrento apenas com meus próprios punhos.

Mas voltemos ao tema, que diz respeito a certos pensamentos que têm me ocorrido com freqüência considerável nos últimos tempos, e do que há em comum entre eles. Esses pensamentos podem ser definidos por três características fundamentais. A primeira é que todos se vinculam às minhas deficiências morais, ou ao sentimento de culpa decorrente de pecados já cometidos. A segunda é que esses pensamentos concretizam-se em imagens mentais cujas origens podem ser facilmente rastreadas até algum trecho de um texto que li ou filme que assisti. Isso decorre diretamente da minha aparentemente incontornável falta de criatividade. Mesmo no conto mais criativo que já escrevi, cada linha faz alusão a algo que li em algum lugar. E a terceira característica é que, em cada caso, esses pensamentos são representados por pessoas que, de modos muito diversos, estão ausentes das minhas relações pessoais, ao menos no sentido corriqueiro dessa expressão. Uma delas não existe mais, outra talvez jamais venha a existir, a terceira eu não sei se existe, e com a quarta eu jamais me encontrei fisicamente. Mas, de maneiras diversas, cada uma delas me lança olhares de reprovação que são freqüentemente intoleráveis. Meus quatro acusadores são, de qualquer forma, personagens muito interessantes, e é sobre eles que vou falar agora.

Antoine de Saint-Exupèry dedicou sua obra mais conhecida, O pequeno príncipe, ao seu melhor amigo, o escritor e crítico de arte Léon Werth, mas não sem se desculpar por estar dedicando um livro infantil a um adulto. Ele resolveu o problema dedicando o livro à criança que seu amigo havia sido um dia. Eu tenho, na verdade, sérias dúvidas quanto a esse ser realmente um livro para crianças. De qualquer forma, deriva daí, embora por caminhos algo tortuosos, o meu primeiro acusador: eu mesmo, quando era criança. Não, é claro, que eu mantenha ilusões românticas sobre a pureza moral da infância, ainda mais quando a infância em questão é a minha própria. Mas não vejo o menor sinal de impureza nas expectativas que eu tinha para a minha vida de adulto. E aqui eu me identifico plenamente nestas palavras que Olavo de Carvalho proferiu em uma de suas palestras sobre Aristóteles: "Lembro-me de uma sentença de Alfred de Vigny, grande poeta do Romantismo francês, segundo a qual 'uma grande vida é um sonho de infância realizado na idade madura'. [...] Um outro grande escritor, Georges Bernanos, quando lhe perguntaram para quem escrevia, respondeu: 'Para o menino que fui.' O menino é o juiz do homem, porque aquilo que vem depois é a realização, ou o fracasso, das expectativas e sonhos de antes."

Embora seja verdade que em alguns aspectos (inclusive alguns dos mais importantes) eu atingi minhas expectativas da infância, existem metas das quais me desviei bastante; e, da mesma forma, eu tinha sonhos para a meia idade e para a velhice de cuja concretização não pareço estar de modo algum me aproximando. Algo disso pode, sem dúvida, ser atribuído à ingenuidade daquelas minhas expectativas, mas não pelo seu aspecto moral, que é o que importa aqui. Um dos filmes que mais me tocaram até hoje foi The kid, produzido pela Disney e protagonizado por Bruce Willis. Seu personagem, um homem de quase quarenta anos, se vê subitamente obrigado a conviver com o menino de oito anos que havia sido ele mesmo, trazido do passado de maneira inexplicável. E, na medida em que observa os atos do homem, o menino vai ficando progressivamente decepcionado. "É isso que vou ser quando crescer?" Às vezes me pego pensando algo parecido. E se aquele garoto de seis anos que está no meu álbum do orkut saísse do monitor e passasse a me observar e a me fazer perguntas? Acho que eu não teria coragem de ser totalmente sincero com ele, muito embora ele seja eu. Mas e se alguém lhe contasse sobre aquele meu deslize? E se ele presenciasse aquele outro? Tenho certeza de que ele choraria. E eu também.

Meu segundo acusador era originalmente apenas a personificação de uma idéia abstrata, ou de várias delas, mas seu olhar não era menos pungente por isso. Eu costumava designá-lo simplesmente como "a morte". Estive lendo recentemente um belo livreto de Charles Swindoll sobre Elias, o profeta, e ele me fez lembrar de um boato que talvez não seja verdadeiro, mas que certamente é muito antigo e tradicional: o de que as pessoas, quando estão perto da morte, assistem a uma espécie de retrospectiva de suas próprias vidas. A questão de saber se isso de fato ocorre ou não, ou se ocorre indistintamente com todos, é absolutamente irrelevante para os meus propósitos, como ficará claro adiante. Ainda assim, convém que eu me detenha um pouco nessa imagem mental. Estive pensando: será que, quando chega a hora da morte, nossa percepção temporal se altera e conseguimos rememorar absolutamente todos os momentos da vida? E, em caso negativo, quais serão os momentos escolhidos, e segundo qual critério? Talvez eles sejam escolhidos a esmo; ou talvez o sejam de modo a compor uma amostra representativa do que foi de fato a vida do indivíduo em questão. Se for assim, então os últimos momentos da vida de qualquer pessoa serão inundados por lembranças de todos os tipos: comparecerão diante dela alguns momentos alegres e outros tristes; alguns com forte carga emocional e outros absolutamente desprovidos de sentimento; alguns dos mais importantes e outros absolutamente triviais; alguns muito bem guardados na memória e outros já inteiramente esquecidos; alguns atos muito concretos e objetivos, e outros tão profundamente interiores e subjetivos que chegam a ser inexprimíveis; alguns atos de puro heroísmo e outros dentre os mais vergonhosos já realizados. A maneira pela qual essa perspectiva interage com a minha consciência moral é óbvia. O pensamento que me assalta de vez em quando é algo assim: "qual será a minha sensação se eu me lembrar subitamente deste ato quando estiver às portas da morte?" Ou, como observou William Law, um dos grandes escritores anglicanos do século XVIII, num contexto levemente diferente: "O melhor modo que uma pessoa tem de saber o quanto deve aspirar à santidade é considerar, não o quanto ela tornará fácil a sua vida presente, mas perguntar-se o quanto ela tornará fácil a hora da sua morte. Qualquer homem que se pretende sério, ao colocar essa questão para si mesmo, será forçado a responder que, na morte, todos desejarão ter sido tão perfeitos quanto a natureza humana é capaz de ser."

Mas este é o momento apropriado para corrigir a impressão de que toda a importância dessa pergunta depende da veracidade desse boato. A importância dessa pergunta não reside nisso, e sim naquilo que é representado de forma pictórica nesse boato: o caráter efêmero desta nossa vida, que torna infinitamente importante cada momento transcorrido, cada ação efetuada e cada caminho trilhado ao longo da mesma. Olhando por esse ângulo, a sensação que me assalta quando penso em meus inumeráveis erros é a sensação de perda de tempo, de um bem muito precioso que foi sistematicamente desperdiçado. E a face que me vem à mente não é a da morte em si mesma. Se o primeiro acusador é uma criança, o segundo pode ser mais adequadamente descrito como um velho: eu, quando chegar a ser velho. Nele se reúnem os dois elementos importantes desta imagem: a morte e o tempo. Deste segundo personagem não há fotos no meu orkut, e talvez ele jamais chegue a existir. Mas não posso deixar de pensar às vezes no que esse ancião tão familiar pensará daqui a algumas décadas: "Se eu tivesse agido corretamente naquela ocasião, quão diferente teria sido a minha vida, e a das demais pessoas envolvidas? Quantos passos a mais poderiam ter sido dados na estrada para a Vida? Mas a vida passou rápido, e muito ficou por fazer." Toda a questão, mais uma vez, foi bem expressa por Bernanos: "O perigo que nós corremos não é só o de morrer, mas de morrer como idiotas". Com efeito, é difícil não morrer como idiota alguém que desperdiçou a vida entre diversas idiotices, e é nisso que reside a advertência feita pelo meu eu futuro ao meu eu presente. Mas em parte alguma ouvi essa advertência com tanta clareza quanto numa única frase proferida por William Parrish, protagonista do filme Encontro marcado (Meet Joe Black, no original), interpretado por Anthony Hopkins. Parrish era um homem bondoso, rico e bem sucedido que sabia que morreria antes do fim da festa de comemoração pelo seu sexagésimo quinto aniversário. Depois de dizer não muitas palavras em seu discurso naquela noite alegre para todos os convidados, ele concluiu com uma simplicidade cortante: "Sessenta e cinco anos! Não passam voando?"

1 de março de 2008

Através dos séculos

Na postagem anterior, a terceira da série sobre ecdótica bíblica, expus brevemente alguns fatos sobre a história textual do Novo Testamento, introduzi a questão das famílias de manuscritos e descrevi a primeira delas, a alexandrina. Passo agora a falar sobre as outras três, e a seguir farei alguns comentários gerais sobre o papel desempenhado por cada uma delas nas mais importantes traduções ocidentais do Novo Testamento, especialmente as protestantes.

O texto ocidental tem esse nome não porque sua hegemonia tenha se restringido sempre ao oeste do Império Romano (onde Alexandre Magno nunca dominou e, por conseguinte, não houve helenização e a língua comum era o latim), e sim porque foi apenas nessa região que ele manteve seu domínio ao longo dos séculos, mesmo depois que o Oriente aderiu gradualmente a alguma das demais famílias. É o texto geograficamente mais disperso. A relativa falta de familiaridade com o idioma grego no Ocidente talvez explique em parte a qualidade textual geralmente ruim de seus manuscritos, mas mesmo isso não a explica de todo, pois predominam as alterações intencionais: geralmente interpolações (que chegam, por exemplo, a aumentar em quase 10% o tamanho de Atos), mas também omissões importantes, principalmente no evangelho de Lucas. Também abundam as paráfrases. Não surpreende, portanto, que as divergências internas dentro dessa família sejam muito mais fortes que no caso alexandrino, e seu texto seja o menos confiável de todos. Apesar disso, o texto ocidental é o único a conservar algumas variantes reputadas como autênticas.

Pertence à família ocidental um importante manuscrito uncial em papiro: o Códice Beza, que tem esse nome por ter passado pelas mãos de Teodoro Beza, discípulo de João Calvino, antes de ser doado por ele à Universidade de Cambridge. Foi copiado no quinto século e contém os evangelhos e boa parte de Atos. Pertenceu também a Beza o Códice Claromontano, do século VI, que contém as epístolas paulinas e Hebreus. Seguiram ainda essa família a primeira tradução siríaca do Novo Testamento, bem como todas as traduções latinas anteriores à Vulgata de São Jerônimo, todos os pais latinos dos primeiros séculos (como Irineu, Tertuliano, Cipriano e o herege Marcião) e o Diatessaron, uma tentativa de harmonização dos evangelhos feita no segundo século por Taciano, e que rapidamente se tornou muito popular no Oriente, além das fronteiras do Império. O texto ocidental, como já foi dito, também teve certa aceitação no Oriente, tendo sido adotado pelos pais gregos até o século III e pelos sírios até meados do século V.

O texto cesareense, embora possua certas peculiaridades, é basicamente uma combinação dos dois anteriores, tendendo um pouco mais para o texto ocidental no que diz respeito às variações menos significativas. Apesar disso, o texto cesareense não endossa as interpolações e paráfrases do texto ocidental, e exibe um esforço consciente para a produção de um texto mais elegante. Sua origem deu-se no início do século III, muito provavelmente graças à influência pessoal de Orígenes, que ao se mudar para Cesaréia colocou os cesareenses, até então habituados ao texto ocidental, em contato com a família alexandrina.

Pertence a essa família o Códice Korideto, do nono século, que contém os evangelhos e veio a público em 1901. Também os dois mais importantes grupos de pergaminhos: a Família Lake, composta de cinco manuscritos copiados entre os séculos XII e XIV, e a Família Ferrar, contendo dezessete manuscritos, cuja maioria foi composta entre os séculos XI e XIII. Desse último grupo destaca-se o pergaminho 565, do nono século, o qual contém os evangelhos. Também se basearam no texto cesareense não apenas o próprio Orígenes, depois de sua migração, mas também Eusébio de Cesaréia e Cirilo de Jerusalém, bem como a tradução armênia e a geórgica.

A quarta e última família, a bizantina, surgiu em Antioquia no início do quarto século. Resulta, muito provavelmente, de uma revisão feita por Luciano (que viria a ser martirizado pouco tempo depois) a partir de textos mais antigos que circulavam na região. Sua popularidade logo atingiu Constantinopla, de onde alcançou facilmente o predomínio em todo o Império Romano do Oriente. Esse texto combina características das três famílias que o antecederam: evita a aspereza, insere interpolações (embora sejam bem menos significativas que as do texto ocidental, pois são breves e destinam-se apenas a facilitar a interpretação, explicitando o que está implícito), tem forte tendência a harmonizar passagens paralelas e tornar a leitura mais fácil e fluente. Traz variantes emprestadas das famílias anteriores, mas também acrescenta muitas novas; pelo fato de ser a mais recente das famílias, no entanto, as novidades introduzidas no texto bizantino não têm nenhuma chance de representar a versão autêntica.

Seu mais importante representante para a ecdótica são os evangelhos do já mencionado Códice Alexandrino. Pertence a essa família também a esmagadora maioria dos pergaminhos minúsculos, que são tardios (século IX em diante) e quase sempre de pouco valor para a crítica textual. Porém, eles dão uma idéia do quanto se popularizou o texto bizantino em toda a cristandade, especialmente a grega. O texto bizantino também influenciou a Europa pela tradução gótica feita no quarto século por Wulfila, o "apóstolo dos godos", e pela tradução eslava de Cirilo e Metódio, no século IX, embora nenhuma delas seja puramente bizantina.

Do exposto, nota-se claramente que todas as variantes verdadeiras originam-se, em última análise, do texto alexandrino ou do ocidental; do primeiro, na maioria dos casos, razão pela qual a maior parte dos manuscritos importantes pertence a essa família. Porém, foi exatamente o texto alexandrino o menos conhecido e menos influente ao longo da história da cristandade, até meados do século XIX. Convém, portanto, examinarmos brevemente essa história à luz do conhecimento que agora temos, a fim de verificar de que maneira todas essas complicadas questões influíram na forma como os cristãos do Ocidente conheceram a Bíblia ao longo dos séculos.

A partir do quarto século, quando as condições de produção e transmissão dos textos bíblicos melhoraram em todos os sentidos possíveis, houve, naturalmente, uma forte tendência à uniformização do texto adotado em todo o Império do Oriente. O texto que se impôs, conforme mencionado acima, foi o bizantino, graças à tremenda influência de Constantinopla. A uniformização teve início já no quinto século, e completou-se por volta do oitavo. No Ocidente prevaleceu o texto ocidental, principalmente através da Vulgata de São Jerônimo, pois este seguiu fortemente, para traduzir o Novo Testamento, versões latinas mais antigas que, aliás, também se perpetuaram. Mesmo assim, o texto bizantino não era desconhecido ali. A tendência na Europa Ocidental foi a existência de alguma mistura entre os dois textos; e, na verdade, nem a própria Vulgata escapou totalmente das variantes bizantinas.

A partir do século XV, a imprensa e o Renascimento trouxeram, respectivamente, um acesso facilitado e um renovado interesse pelos manuscritos gregos entre os eruditos da Europa católica. E, a partir do século XVI, os intelectuais protestantes foram levados ao mesmo caminho naturalmente pela centralidade da Bíblia em sua doutrina. Porém, a primeira edição impressa do Novo Testamento completo em grego só surgiu em 1516, e foi produzida por Erasmo de Rotterdam. Nela, porém, foram usados apenas seis manuscritos, sendo um deles cesareense e os demais bizantinos, e nenhum anterior ao século XII. Seguiu-se logo uma edição espanhola, como parte da monumental Bíblia poliglota complutense, baseada em manuscritos fornecidos pelo próprio Vaticano, cuja qualidade textual era melhor, mas não muito. Porém, o Novum Tetamentum de Erasmo tornou-se mais popular, por ter sido publicado primeiro e ser consideravelmente mais barato, e foi a partir dessa versão que Lutero elaborou sua tradução do Novo Testamento para o alemão.

Na verdade, todas as traduções protestantes anteriores a 1881 - inclusive a primeira versão em língua portuguesa, de João Ferreira de Almeida - basearam-se num texto basicamente idêntico ao de Erasmo, popularizado pelas edições do parisiense Roberto Estéfano e do já mencionado genebrino Teodoro Beza, que lhe fizeram pouquíssimas alterações, embora este último tenha acrescentado muitas informações relevantes para a crítica textual nas notas marginais. Essas duas edições foram, inclusive, utilizadas na produção da célebre King James Version inglesa. Almeida utilizou uma edição produzida em 1633 pelos irmãos Elzevir, dois editores holandeses.

Essa mesma edição foi responsável pela popularização da expressão "textus receptus" ("texto recebido") para designar a versão grega que seria utilizada daí em diante por muito tempo pelos eruditos protestantes, convictos de que era fiel aos originais em cada uma de suas letras. Na verdade, como já foi dito, essa versão era apenas o texto de Erasmo com pequenas adaptações: era um texto basicamente bizantino e, portanto, representante da mais recente família textual. Quase todos os tradutores e exegetas, porém, aferraram-se ao textus receptus, em parte como reação às críticas racionalistas. A despeito da pesquisa séria e dos inúmeros avanços da crítica textual, com a constante descoberta e publicação de manuscritos e a elaboração de aparatos críticos cada vez mais completos, o textus receptus continuou a ser publicado e defendido. A resistência foi sendo vencida muito lentamente; a primeira edição a fugir do texto recebido foi publicada apenas em 1719 por Edward Wells, de Oxford, e mesmo assim foi um esforço isolado e sem grandes conseqüências. Pouco depois, porém, Richard Bentley, de Cambridge, declarou guerra aberta ao textus receptus, acusando-o de ter se tornado tão deletério ao protestantismo quanto a Vulgata para o catolicismo, e basicamente pelas mesmas razões. Muitos debates ocorreram a partir daí, e muitos eruditos tomaram parte nele. Houve também importantes contribuições de alguns estudiosos católicos, embora, de modo geral, a questão lhes interessasse menos, talvez pelo fato de a Vulgata ter sido declarada suficiente pelo Concílio de Trento. De qualquer forma, o peso da evidência acumulada acabou dando ganho de causa aos partidários de Bentley, mas apenas dois séculos mais tarde.

Graças a milhares de pessoas que se dedicaram a essas pesquisas durante cinco séculos - e também, é claro, à multidão anônima dos cristãos copistas dos quinze séculos anteriores - podemos hoje dizer, com absoluta segurança, que dispomos de um texto muitíssimo próximo do original. Essa afirmação também não poderia ser feita, entretanto, sem a evolução dos critérios usados para escolher corretamente entre as variantes textuais disponíveis. Será esse o assunto abordado a seguir.

26 de fevereiro de 2008

As antigas famílias

Neste post darei continuidade à série de textos sobre a crítica textual da Bíblia. No primeiro texto falei sobre as causas da corrupção textual dos textos bíblicos ao longo dos séculos, e no segundo citei uma porção de exemplos. Agora vou discorrer brevemente sobre certos aspectos da história da transmissão textual: a formação das famílias de textos e a influência das mesmas. Esse tema ocupará este post e o próximo. Visto que a história do texto neotestamentário é consideravelmente diferente da do texto hebraico do Antigo Testamento, concentrarei hoje a atenção no primeiro e deixarei o segundo para depois.

As circunstâncias que envolviam a comunidade cristã do primeiro século, no seio da qual os textos do Novo Testamento foram compostos e espalhados por boa parte do Império Romano, eram bastante desfavoráveis: houve intensa perseguição judaica e romana; algumas partes foram compostas em prisões; os recursos eram escassos, e não parece ter havido, na maior parte dos casos, qualquer participação de escribas profissionais. O mesmo se pode dizer quanto às primeiras cópias, que começaram a ser trocadas ainda no primeiro século pelas igrejas portadoras dos manuscritos originais; nesse processo, os copistas quase certamente eram cristãos bem intencionados, mas amadores. Não houve uma edição oficial reunindo os textos, e muito menos uma comissão competente destinada a avaliar as variantes e produzir um texto mais correto, como era costume entre os escribas judeus, e mesmo entre os eruditos pagãos. Os originais, tecnicamente denominados "autógrafos", provavelmente se deterioraram rapidamente pelo uso constante. Nesse cenário, é facilmente compreensível que uma multidão de erros rapidamente surgisse e se propagasse. Quando, no século IV, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império, e passaram a existir condições mais favoráveis a uma transmissão fidedigna, a diversidade dos manuscritos existentes já era enorme desde muito tempo antes. Queixas nesse sentido já eram feitas por Orígenes no início do terceiro século. E, de fato, grande parte das mais importantes variantes textuais com que lidam os especialistas de hoje surgiu antes do ano 200.

Apesar de os textos que acabaram integrando o cânon neotestamentário terem se espalhado pelo Império e para além dele, a baixa condição social da maior parte dos primeiros cristãos, bem como a própria perseguição movida contra a igreja pelas autoridades, dificultava o contato entre comunidades de regiões distantes. Assim, cada região desenvolveu sua própria tradição textual de maneira mais ou menos independente, dada a rara disponibilidade de manuscritos provenientes de outras regiões para comparação. Assim, embora os textos possuídos por duas comunidades jamais fossem idênticos entre si, eles tendiam a ser mais semelhantes aos geograficamente mais próximos do que aos mais distantes, inclusive por terem, em muitos casos, uma maior proximidade "genealógica". Ocasionalmente, é claro, a comparação entre textos diferentes tornava-se possível, e o copista produzia um texto misto. Mas esse fenômeno era relativamente raro antes do quarto século. De qualquer forma, como era de se esperar, os textos existentes acabaram se reunindo, com o passar do tempo, em torno das versões possuídas pelos mais importantes centros da igreja primitiva: Alexandria, Roma, Éfeso e Antioquia. Mas Roma logo eclipsou Éfeso, Cesaréia cresceu em importância e, mais tarde, Constantinopla surgiu e tomou a posição de destaque de Antioquia, de modo que as quatro grandes famílias de textos ligam-se, embora de maneiras diversas, a estas quatro cidades: Alexandria, Roma, Cesaréia e Constantinopla. As versões representadas por cada uma delas denominam-se, respectivamente, texto alexandrino, ocidental, cesareense e bizantino.

O estabelecimento da existência dessas famílias foi feito através de uma análise comparativa de centenas de manuscritos antigos, levando em conta sua data de composição e a região de procedência. Muitas informações relevantes também foram extraídas da literatura patrística, tanto pelo que ela permite entrever da história da igreja cristã como um todo quanto pelas citações ou alusões que fazem aos textos do Novo Testamento. Levando em conta o local e a época em que viveram os pais da igreja, as citações feitas por eles também dizem algumas coisas relevantes sobre o tipo de texto que era usado por cada um. Também é relevante o estudo das muitas traduções para outras línguas (siríaco, latim, copta e outras) feitas nos primeiros séculos da era cristã. Examinando exaustivamente todos esses dados, os especialistas em ecdótica neotestamentária puderam demonstrar a existência, por trás da enorme confusão que impera entre os manuscritos (a ponto de não existirem dois deles com textos idênticos), de uma divisão em quatro categorias principais, conforme mencionado acima. Da mesma forma, puderam também demonstrar que essas quatro famílias se vinculam geograficamente aos quatro centros já mencionados (embora nem tanto no caso de Roma, como ficará claro adiante).

Antes de passarmos à descrição de cada uma delas, deve ficar claro que nenhum dos quatro textos corresponde inteiramente ao original, e também que nenhum deles foi obtido a partir de um único manuscrito. O texto alexandrino, por exemplo foi obtido por abstração a partir das tendências predominantes dos manuscritos pertencentes a essa família, o mesmo ocorrendo com as demais famílias. E quando se deseja saber a qual família pertence um novo manuscrito, conta-se a quantidade de desvios em relação ao texto padrão de cada uma das quatro famílias. Se o número de variantes em relação a uma das famílias é significativamente menor que em relação às demais, considera-se que o manuscrito em questão pertence definidamente àquela família. Se isso não ocorre, é porque o texto analisado é resultado direto ou indireto de uma revisão, por parte de um copista, de um manuscrito de uma família com base no de outra. Dizendo isso de maneira mais simples: trata-se de uma manuscrito misto.

Alexandria era a capital intelectual do mundo mediterrâneo na época; ali surgiu o neoplatonismo, bem como alguns dos mais notáveis pensadores judeus (como Fílon) e cristãos (como Clemente e Orígenes) da Antigüidade. Sua biblioteca contava com cerca de setecentos mil volumes, e desde o século III a.C. eram realizados estudos de crítica textual a partir de manuscritos antigos, principalmente das obras de Homero. Havia nessa cidade uma numerosa comunidade judaica, e o cristianismo a atingiu muito cedo. Porém, o contato direto dos seus crentes com os apóstolos parece ter sido muito reduzido ou mesmo nulo, de modo que os cristãos alexandrinos dependiam, mais do que os outros, dos textos como fonte de informações corretas. Todos esses fatores contribuíram para fazer da família alexandrina a mais confiável de todas. A divergência de seus exemplares entre si (e portanto em relação ao texto alexandrino padrão) é consideravelmene pequena. E, em comparação com as demais famílias, o texto alexandrino normalmente apresenta versões mais breves, e não contém os floreios lingüísticos que aparecem nelas com freqüência.

Pertencem a essa família vários dos manuscritos mais relevantes para a ecdótica atual, como os papiros Chester Beatty, copiados no início do terceiro século e descobertos nos anos 30 do século passado, e que contêm trechos dos evangelhos e de Atos, grande parte das epístolas paulinas e da Epístola aos Hebreus e a porção central do Apocalipse. Inclui também os papiros Bodmer II, XIV e XV, descobertos em 1955, e que contêm a quase totalidade de Lucas e boa parte de João. Entre os pergaminhos unciais temos: o Códice Sinaítico, que contém o Novo Testamento completo, copiado na primeira metade do quarto século e descoberto em meados do século XIX; o Códice Vaticano, composto na mesma época e pertencente à Biblioteca do Vaticano desde o século XV, pelo menos, embora seu conteúdo só tenha sido publicado em 1857, e que contém o Novo Testamento quase completo; o Códice Alexandrino, composto um século depois, que também contém o Novo Testamento quase todo, e publicado na Inglaterra em 1657 (os evangelhos, porém, seguem o texto bizantino); o Códice Efraimita, copiado no século V, possuindo fragmentos de quase todos os livros neotestamentários, e publicado no século XIX. Inclui ainda três dos mais importantes manuscritos minúsculos (isto é, escritos em letras "minúsculas" ou cursivas, e quase sempre em pergaminho), designados pelos números 33, 1739 e 2053. O primeiro e mais importante data do século IX e contém todo o Novo Testamento, com exceção do Apocalipse; o último, ao contrário, contém apenas o Apocalipse, e data do século XIII; e o segundo, contendo Atos e as epístolas, foi composto no século X e descoberto em 1879. Também se basearam nessa família de textos as duas mais antigas traduções coptas, feitas nos séculos III e IV, assim como Clemente e Orígenes, embora este tenha deixado de usá-lo depois de sua migração para Cesaréia.

A importância disso tudo ficará mais clara adiante, quando será possível comparar esses dados com os dos principais manuscritos das demais famílias. Mas pode-se notar desde já que boa parte dos manuscritos alexandrinos tidos hoje como os mais importantes só se tornaram conhecidos pelos eruditos do Ocidente em tempos relativamente recentes, embora esforços de crítica textual venham desde o século XVI. Dado que, conforme já foi dito, a família alexandrina é a mais próxima do original, o que isso significa é que, a despeito das boas intenções dos tradutores e exegetas europeus mais antigos, dispomos hoje de textos mais próximos do original do que os que esses homens tiveram em mãos. No próximo post falarei sobre as outras três famílias textuais.