31 de outubro de 2010

O direito ao mistério - parte 1

Hoje é dia de eleições presidenciais e a Reforma completa 493 anos de existência. Mas não vou falar sobre nenhum dos dois assuntos, muito embora o de hoje tenha alguma relação com o segundo tema. Ontem à noite minha esposa me mostrou um artigo que recebeu por e-mail, e nós o lemos juntos. Fiquei suficientemente impressionado para dedicar a ele esta breve análise. O texto é de W. Gary Crampton, está disponível neste endereço e seu título é uma interrogação: A Bíblia contém paradoxo?. É um pdf de apenas cinco páginas. Recomendo aos interessados que o leiam, de preferência antes de prosseguir com a leitura deste meu post, para que possam aprovar ou condenar minha análise com propriedade. Contudo, não acho justo exigir de meus leitores que leiam dois textos, uma vez que vieram aqui esperando ler no máximo um. Por isso, na medida do possível, esforçar-me-ei para transmitir de modo fidedigno e completo os pontos essenciais do artigo em questão.

Crampton dá início ao artigo citando e endossando a distinção feita por Kenneth Kantzer entre paradoxos retóricos e paradoxos lógicos. A existência da primeira classe de paradoxos na Bíblia é ponto pacífico, mas Crampton dedica o restante do artigo a refutar a ideia da existência de paradoxos do segundo tipo no texto sagrado. Ele se queixa, a respeito de declarações em contrário, de que "mui frequentemente tais comentários são ouvidos dentro do campo da ortodoxia", citando como exemplos teólogos reformados de renome como Edwin Palmer, J. I. Packer e Cornelius Van Til. E lança então seu primeiro argumento: "Deus nos fala em tal linguagem? Ele é o autor do paradoxo lógico? Não, diz o apóstolo Paulo, 'Deus não é o autor de confusão' (1 Coríntios 14.33)."

Aqui Crampton cometeu seu primeiro deslize, e de não pouca importância. O texto de onde foi retirada a citação do apóstolo não fala de confusão lógica, e sim de confusão litúrgica. Paulo está dando instruções para combater a desordem no culto, evitando a balbúrdia decorrente do uso desenfreado do dom de línguas, profecias e interpretações que se instalara na igreja de Corinto. Paulo ensina que devem falar um de cada vez, e que "Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas; porque Deus não é de confusão e sim de paz". Extrair daí uma lição sobre a existência ou não de elementos obscuros nas obras de Deus em geral (e de paradoxos lógicos nas Escrituras em particular) é desprezar uma das regras fundamentais da hermenêutica, que é a atenção ao contexto. Crampton começou, pois, dando ensejo a dúvidas sobre sua capacidade como exegeta.

O argumento seguinte do autor consiste em dizer, endossando uma afirmação de Gordon Clark, que é puramente subjetiva a opinião de que determinada questão é um paradoxo. Ele afirma, por exemplo, que a tensão entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem, que parece paradoxal a vários teólogos reformados, não parece assim a John Gerstner, que escreveu: "Nós não vemos por que é impossível para Deus predestinar que um ato aconteça por meio da escolha deliberada de indivíduos específicos". Devemos recordar que nenhum dos teólogos até agora criticados por Crampton, que são todos calvinistas, nega que tal coisa seja possível a Deus. Apenas negam compreender como Deus faz isso, o que não é a mesma coisa. Se Gerstner ou outro qualquer acredita ter a solução para o enigma (sei que Clark, por exemplo, acreditava), não vejo problema algum. Mas vou descrever uma situação pela qual certamente muitos leitores já passaram: alguém propõe uma questão difícil - pode ser uma charada numa roda de amigos ou uma questão numa lista de exercícios na escola - que deixa todos os presentes quebrando a cabeça, até que chega alguém e anuncia que a solução, na verdade, é muito fácil e não oferece dificuldade alguma. Em alguns casos esse é de fato o caso, e os outros, depois de ouvir a solução, ficam tentando descobrir como não pensaram nela antes. Mas em muitos outros casos a solução proposta apenas evidencia aos demais presentes que seu autor não chegou a compreender bem a natureza do problema.

Quem garante que não é esse o caso de Gerstner ou Clark? A única maneira de solucionar a dúvida seria expor as soluções disponíveis e colocá-las em debate. Mas Crampton não faz isso, pois não é esse seu objetivo. Ele não está interessado em provar que as soluções racionais existem (o que seria a única maneira válida de mostrar que não há paradoxos lógicos na Bíblia), e sim em condenar de antemão os que, por uma razão qualquer, não se satisfazem com as soluções existentes. Parece-me um procedimento flagrantemente injusto. De qualquer forma, se Crampton julga subjetiva a afirmação de que algo é um paradoxo, respondo trazendo à luz o corolário dessa afirmação: a negação de que algo é um paradoxo também é subjetiva, ao menos até que a candidata a solução seja trazida ao debate. Não há objetividade alguma enquanto a conversa ficar no "é, sim" contra o "não é, não". E se o assunto é debatível - como parece que é, já que estamos falando da validade de soluções racionais para um possível paradoxo - é porque não é tão subjetivo assim.

Logo depois de citar Gerstner, nosso autor prossegue dizendo que o assunto da soberania divina e da responsabilidade humana também não era um paradoxo para os teólogos de Westminster, e passa a citar o trecho da Confissão que diz que "Deus, desde toda a eternidade, pelo muito sábio e santo conselho de sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas". Não é difícil perceber, no entanto, que essa passagem se limita a afirmar essa verdade, nada declarando sobre se os meios de sua concretização são ou não compreensíveis à mente humana. Para demonstrar o que diz, Crampton faz referência a outra parte da Confissão: "A doutrina pode ser um 'alto mistério' (isto é, difícil de plena compreensão), mas não é de forma alguma paradoxal (isto é, impossível de ser reconciliada), diz Westminster (III, 8)". Porém, Crampton só cita pequenos trechos da seção 8 do capítulo III, que não bastam para informar o leitor sobre o conteúdo desse trecho, de modo que o transcrevo aqui integralmente:

"A doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo à vontade de Deus, revelada em sua Palavra, e prestando obediência a ela, possam, pela evidência de sua vocação eficaz, certificar-se de sua eterna eleição. Assim, a todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e admiração para com Deus, bem como de humildade, diligência e abundante consolação."

Em qual parte da seção acima Crampton encontrou a prova de que os teólogos de Westminster não viam paradoxo nessa questão reconhecidamente complicada? Parece que em parte alguma, pois ele se viu obrigado a complementar o conteúdo da Confissão com uma sentença de sua própria lavra, nos seguintes termos: "Isso certamente não seria possível com qualquer doutrina que não possa ser reconciliada pela mente do homem". A Confissão nao diz isso em lugar nenhum, evidentemente. É Crampton quem crê na impossibilidade de tratar "com especial prudência e cuidado" alguma coisa que extrapola os limites de sua razão. Os teólogos de Westminster não só não dizem nada sobre esse assunto, mas também dão mostras de pensar de maneira diversa, já que, entre as referências bíblicas apontadas por eles em apoio ao conteúdo da seção 8 do capítulo III, existem duas que falam claramente acerca dos limites da mente humana: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Porventura, pode o objeto perguntar àquele que o fez: por que me fizeste assim?" (Romanos 9.20) e "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei" (Deuteronômio 29.29).

É desnecessário dizer que não é citada nenhuma passagem bíblica sobre a importância de uma compreensão racional exaustiva das doutrinas reveladas nas Escrituras. Os teólogos de Westminster quiseram dizer o que disseram: com relação ao assunto da predestinação, importa ao crente antes de tudo certificar-se de sua própria eleição e ver nessa doutrina motivo de louvor, reverência, admiração, humildade, diligência e consolo. O resto é invenção da cabeça de Crampton, que, além de mau exegeta, acaba de demonstrar que também não é bom leitor, já que não é capaz de distinguir entre seu próprio modo de raciocinar e o dos autores do documento histórico que tem diante dos olhos. Se ele precisa entender absolutamente tudo sobre a predestinação antes de dar louvores a Deus, se essa compreensão se lhe afigura um requisito para tributar a Deus aquilo que a Confissão prescreve como dever de todo crente, pior para ele. Os teólogos de Westminster deram sinais de não precisar disso para ter uma atitude correta diante de Deus.

Até aqui analisei apenas os seis parágrafos iniciais do texto de Crampton. O restante fica para um post futuro, que deverá ser publicado tão logo eu tenha tempo de escrevê-lo. Apenas adianto que ainda não cheguei ao fundo do problema.

30 de setembro de 2010

O futuro do pretérito

Não sou leitor assíduo de ficção científica, mas ocasionalmente faço minhas incursões por esse campo. Uma das obras de que mais gostei nesse gênero foi Contato, escrita pelo famoso astrônomo Carl Sagan e publicada em 1985. A narrativa envolve um contato com alienígenas distantes mediado por ondas eletromagnéticas, através das quais os ETs enviam instruções para a construção de uma máquina de tecnologia avançadíssima. O custo total fica em trilhões de dólares, e o mundo todo se mobiliza em parcerias para levar a cabo o projeto extraterrestre. É nesse contexto que se insere o trecho a seguir, em que o narrador explica a razão pela qual a União Soviética não foi capaz de cumprir a contento algumas de suas atribuições:

"Na verdade, os soviéticos vinham enfrentando mais dificuldades na construção da Máquina do que se imaginava no Ocidente. Utilizando a Mensagem decodificada, o Ministério da Indústria Meio-Pesada fez consideráveis progressos na extração de minério, metalurgia, máquinas-ferramentas, etc.. Os novos campos da microeletrônica e da cibernética apresentaram maiores dificuldades, e a maioria desses componentes era produzida para os soviéticos, por empreitada, na Europa e no Japão. Mais difícil ainda para a indústria nacional soviética foi a parte de química orgânica, que dependia fortemente de técnicas desenvolvidas na área da biologia molecular. A genética soviética sofrera um golpe quase fatal quando, na década de 30, Stálin decidira que a moderna genética mendeliana era inadequada do ponto de vista ideológico, promulgando, por decreto, a ortodoxia científica da teoria amalucada de um agricultor politizado, Trofim Lysenko. Duas gerações de brilhantes estudantes soviéticos nada haviam aprendido de importante sobre os fundamentos da hereditariedade. Agora, sessenta anos depois, a biologia molecular e a engenharia genética estavam relativamente atrasadas na URSS; os cientistas soviéticos tinham contribuído com poucas descobertas importantes nessa área. Coisa semelhante quase aconteceu nos Estados Unidos, onde, por motivos teológicos, tentara-se fazer com que os alunos das escolas públicas não estudassem o evolucionismo, o princípio básico da biologia moderna. O litígio era claro, pois uma interpretação fundamentalista da Bíblia era tida como contrária ao processo evolutivo. Felizmente para a biologia molecular americana, os fundamentalistas não tinham, nos Estados Unidos, tanta força quanto tivera Stálin na União Soviética."


Há um enorme equívoco em descrever os movimentos criacionistas americanos como opostos ao ensino da evolução, uma vez que eles lutaram apenas pelo direito de expor ao lado dela sua teoria sobre a criação. É um equívoco igualmente grande supor que os criacionistas, assim como os "fundamentalistas" em geral, tenham "quase" conseguido alguma coisa, ao invés de ser acuados de todos os lados, como têm sido desde sempre. E não creio que Sagan fosse mal informado o suficiente para ignorar tudo isso. Não obstante, o fundo histórico aludido no trecho acima é verídico: Lysenko persuadiu o governo soviético de que a genética mendeliana era contrária ao materialismo dialético. Em decorrência disso, não apenas o desenvolvimento científico nessa área foi prejudicado, mas também o foi a agricultura do país, que estava sob responsabilidade do próprio Lysenko. O caso tornou-se proverbial no meio acadêmico científico como ilustração do fato de que os pressupostos ideológicos são nocivos ao progresso da ciência.


A União Soviética acabou bem mais depressa do que Sagan poderia ter previsto em 1985, de modo que ele deve ser perdoado por mantê-la de pé em seu romance levemente futurista. Em sua opinião, contudo, permaneceu intocada a validade da aplicação que ele fez da lição implicada nesse caso: o questionamento à teoria da evolução pelos "fundamentalistas" é tão pernicioso quanto o desprezo devotado por Lysenko às leis mendelianas da hereditariedade. A mesma comparação, quase com as mesmas palavras, apareceu num livro posterior e bem mais dissertativo de Sagan, O mundo assombrado pelos demônios, obra que pode ser, conforme o ponto de vista, tanto um manual de ceticismo quanto de credulidade.


É fácil entender os motivos de Sagan para ver tamanha semelhança entre os dois casos. Em sua opinião, o evolucionismo é "o princípio básico da biologia moderna". Além disso, existe uma crença, muito difundida nos meios cultos e pseudocultos, que vê na genética e na biologia molecular as principais provas do processo evolutivo. Sagan evidentemente endossa esse ponto de vista. Estabelecidas as premissas nesses termos, a conclusão é inevitável: sem aderir ao princípio básico, ninguém pode conhecer nada sobre a disciplina em questão. Alguns cientistas evolucionistas costumam comparar a teoria de Darwin à mecânica de Newton quanto ao papel de princípio unificador, sem o qual restam apenas fatos isolados que não podem ser devidamente compreendidos. A associação que muitos fazem entre o "criacionismo científico" e o "socialismo científico", ambos os quais alegam dispor de fundamentos científicos sem que, no entanto, a maior parte da comunidade científica lhes atribua esse mérito, basta para completar o quadro, convencendo muitos leitores de Sagan de que meia dúzia de caipiras crentes reunidos para estudar a Bíblia numa aldeia do interior são tão perigosos para o mundo quanto uma Internacional Socialista.


Mas será verdade que a bioquímica e a biologia molecular dependem tanto assim da teoria evolucionária? Essa pergunta foi respondida em 1996, apenas um ano depois que Sagan republicou seu argumento pretensamente fulminante contra o criacionismo, pelo bioquímico Michael Behe em seu livro A caixa preta de Darwin, cujo objetivo principal é justamente demonstrar a ineficiência da explicação evolucionária nesses campos. Diz Behe:


"A fim de compreender os sucessos do darwinismo como ortodoxia e seu fracasso como ciência no nível molecular, temos de examinar os livros didáticos utilizados pelos aspirantes a cientistas. Um dos mais populares textos de bioquímica das últimas décadas foi escrito em 1970 por Albert Lehninger, professor de biofísica da Johns Hopkins University, tendo sido atualizado ao longo dos anos. Na primeira página do primeiro capítulo de seu primeiro livro, Lehninger menciona a evolução. Pergunta por que as biomoléculas, que existem em quase todas as células, parecem extraordinariamente bem adaptadas às suas tarefas. [...] Lehninger, um excelente professor, estava passando a seus estudantes a visão de mundo dos bioquímicos - que a evolução é importante para compreender bioquímica, que é um de dois 'pontos de vista' apenas, a partir dos quais devemos estudar as moléculas da vida. Embora um estudante imaturo possa aceitar a palavra de Lehninger, um observador imparcial procuraria evidências da importância da evolução para o estudo da bioquímica. Um lugar excelente para começar é o índice do livro. Lehninger fornece um índice muito detalhado, a fim de ajudar os estudantes a localizar informações prontamente. Muitos dos tópicos do índice possuem entradas múltiplas, uma vez que devem ser estudados em vários contextos. Os ribossomos, por exemplo, contam com vinte e uma entradas no índice da primeira edição de Lehninger; a fotossíntese, com vinte e seis; a bactéria E. coli, com quarenta e duas; e sob 'proteínas' há setenta referências. No total, há quase seis mil entradas no índice, mas apenas duas sob o título 'evolução'. [...] Com apenas duas entradas em seis mil, o conselho professoral de Lehninger a seus alunos sobre a importância da evolução para seus estudos é desmentido pelo índice. Nele, Lehninger incluiu quase tudo o que era relevante para a bioquímica. Ao que parece, porém, a evolução raramente é tópico relevante."


Behe prossegue apresentando uma tabela que mostra o número de entradas sobre evolução em trinta edições de dezesseis livros, publicados entre 1970 e 1995. A evolução está inteiramente ausente de treze delas, e outras sete possuem de uma a três entradas com essa palavra. O número máximo de ocorrências aparece numa edição posterior do próprio Lehninger: vinte e duas em oito mil. É muito pouco para um princípio unificador importantíssimo sem o qual não se pode entender nada. É por esse tipo de coisa que considero Carl Sagan um ótimo exemplo de um sujeito extremamente crédulo, e suas tentativas de parecer (ou ser) cético só o tornam mais divertido. E seus juízos sobre temas científicos que envolvem religião só valem alguma coisa no mundo ficcional criado por ele mesmo, o qual ele nem sempre era capaz de distinguir da realidade.

26 de agosto de 2010

Aventuras no berço do Ocidente - parte 9

O maior aperto que passei em terras francesas ocorreu unicamente por minha falta de competência para lidar com alguns dos elementos práticos mais básicos da vida. Passei a primeira semana numa pequena casa vizinha à do professor Yves, que gentilmente me dava carona até a universidade e de lá para casa. Depois disso, "mudei-me" para um quarto vago no apartamento da Caroline, amiga do professor Stéphane. Cheguei num domingo à noite, se não me engano, ao seu apartamento, situado no terceiro andar do edifício Le Toucan. Fui muito bem recebido, mas as caronas acabaram e passei a ir para o campus de ônibus. Mui solicitamente, Caroline me levou até o ponto na manhã seguinte, me disse qual linha eu deveria tomar e me deu o número de seu celular, para o caso de eu precisar de algo.

Trabalhei o dia todo, e naquele dia fiquei até mais tarde, tendo saído do laboratório por volta das 20h. Chegando ao ponto, descobri que o último ônibus da linha que eu deveria tomar passara 15min antes. Meu primeiro deslize: não olhei a tabela dos horários de ônibus pela manhã, tendo pressuposto que todas as linhas funcionariam até umas 23h, como em minha cidade do interior paulista. O segundo deslize eu só descobri dois dias depois: do lado oposto do campus existia um ponto pelo qual ainda passaria outro ônibus que me deixaria perto de meu lar temporário. Mas não me informei sobre isso também.

Eu não sabia se existiam táxis funcionando nas redondezas, nem como chamar um por telefone. A solução era ir a pé. Porém, a casa ficava em outra cidade. Eu já viera de Toulon a La Garde a pé, tendo gasto três horas, como já contei. Porém, não me animei com a ideia de fazer o mesmo caminho. Ele era bem complicado; talvez eu não fosse capaz de reconhecer à noite os locais por onde passara durante o dia; e eu estava ainda na outra casa quando o percorri, e não saberia, de qualquer modo, ir da antiga moradia à nova. Decidi, portanto, fazer um caminho que sabia ser mais curto e menos cheio de curvas: o caminho do ônibus que me levara à universidade pela manhã.

Mais tarde, lamentei essa decisão. O problema começou porque o ônibus fazia boa parte do trajeto em uma rodovia. Evidentemente, não era um lugar muito seguro para se caminhar. Porém, eu esperava poder acompanhar a rodovia andando pelas ruas vizinhas, e assim fui. Com o tempo, percebi que isso era impossível, dada a quase inexistência de ruas retilíneas naquela parte do mundo, como já tive oportunidade de ressaltar. Cada rua que eu tomava na esperança de poder acompanhar a rodovia vizinha logo se desviava de um modo que tornava difícil ou impossível cumprir meu intento. Várias vezes tive de voltar e tentar outro caminho, ou fui em frente e me perdi para só reencontrar a rodovia meia hora mais tarde e descobrir que avançara muito pouco. Toulon não era muito distante de La Garde, mas acabei, em vista de tudo isso, gastando três horas para chegar ao centro, coisa que eu esperara fazer em apenas uma hora.

Então surgiu outro problema. O lugar me parecia familiar. Eu sabia que passara de ônibus por ali e que não estava muito longe de "casa". Mas eu não tinha o endereço, e tampouco me preocupara em memorizar o caminho ou pontos de referência: precauções desprezadas por minha inépcia, mais uma vez. Só lembrava que o Le Toucan ficava próximo ao prédio da Securité Sociale. Eu tinha o número da Caroline, mas não tinha um cartão telefônico e não sabia onde comprá-lo. Na verdade, parecia-me impossível obter um, já que o comércio estava todo fechado. As ruas estavam quase desertas, mas encontrei numa esquina dois sujeitos que conversavam animadamente. Eram pobres pelos padrões do país e, como muitos franceses daquela região provençal, tinham um jeito que os fazia parecer italianos. Trataram-me com muita paciência e amabilidade, e com muito esforço consegui levá-los a entender que desejava comprar um cartão telefônico (eles não sabiam onde ficava o edifício, ou não entenderam minha pergunta). Explicaram-me como chegar a uma loja ainda aberta. Eu agradeci e fui andando na direção indicada. Não era difícil: bastava virar a terceira rua à esquerda. Mas os dois ficaram com medo de eu não ter entendido, de modo que, um minuto depois de haver me ausentado de sua companhia, fui alcançado por um deles, que decidiu me acompanhar até o local. Era mais uma prova da bondade do povo francês do sul. Meu guia se despediu de mim na entrada da loja, onde comprei o cartão. Mas, chegando à cabine telefônica mais próxima, descobri que o celular da Caroline estava desligado. E eu não tinha o telefone de mais ninguém naquele país; outro fruto de minha incompetência.

Sabendo que Le Toucan não estava longe, comecei a andar à sua procura. Acabei encontrando outros locais por onde já passara em meus passeios, em especial nos arredores da praça central. Ali encontrei uma placa indicando que o local continha um ponto de táxi. E, exatamente sob a placa, um banco de taxistas; e, sobre o banco, um sujeito sentado. Abordei-o, e descobri que falava inglês. Ele teve alguma dificuldade para entender aonde eu desejava ir, mas enfim disse que me levaria até lá por quarenta euros. Eu fora informado de que os táxis são caros na França, e eram mais de 23h, mas o sujeito visivelmente queria se aproveitar de minha péssima situação, já que o edifício procurado não poderia estar a mais de 2km dali. "É natural", pensei, e estava, em princípio, disposto a aceitar a exploração. Mas eu estava desconfiado, por vários motivos. O primeiro era que, pelas reações do homem, eu não estava muito convencido de que ele de fato sabia onde ficava o Le Toucan. O segundo era que a placa acima de nós dizia que o serviço de táxi só funcionava até as 20h. Será que o homem era taxista mesmo? O terceiro motivo reforçava minha desconfiança: não havia táxi algum nas redondezas. Eu disse que lhe daria os quarenta euros se ele me levasse até o Le Toucan. Ele queria pagamento adiantado. Minha suspeita aumentou. Perguntei-lhe onde estava seu carro. Ele disse que estava logo ali. Convidei-o a me levar até o carro. Ele respondeu que eu poderia esperar ali mesmo, pois ele buscaria o carro. Eu concordei e lhe disse que fosse buscar o carro. Mas ele queria que eu desse o dinheiro antes. Isso foi demais para mim. Agradeci-lhe a gentileza e disse que encontraria o lugar sozinho. Eu sou bobo, mas tudo tem limite.

Depois dessa que foi a coisa mais parecida com uma tentativa de assalto que experimentei naquele país, perambulei pelas redondezas por quase uma hora, mas sem sucesso. Estava exausto, faminto, sujo, irritado, abatido, com os pés doendo e xingando a mim mesmo constantemente por ser tão distraído e desprevenido. Dois pensamentos me ocorriam regularmente. O primeiro era o de dormir na praça. Seria minha primeira noite ao relento na vida, mas não estava frio, não havia perigo de violência e talvez não fosse tão desconfortável assim. O segundo era o de pedir a Deus que interviesse para me ajudar a resolver a situação. Mas eu sempre recuava diante da ideia, pois me parecia um atrevimento. Eu estava naquela situação por minha própria culpa, e não me sentia no direito de incomodar Deus. Ainda mais em se tratando de coisa tão pequena: que importância haveria em evitar uma noite ao relento numa praça limpa, numa noite fresca e sem perigo algum de qualquer espécie? Um teto e uma cama pareciam-me, naquele momento, uma espécie de luxo, e eu nunca gostara de pedir ou esperar luxo algum. Portanto, eu achava que a melhor coisa a fazer era aceitar meu castigo e aprender a lição com resignação.

Foi assim que completei minha quarta hora na rua. Decidi fazer uma última tentativa entrando por uma das ruas. Mas avancei cerca de três quarteirões e logo me convenci de que jamais estivera naquele lado da cidade. Profundamente desanimado, elevei a Deus uma curta oração, num tom de quem espera levar uma bronca por interromper algo importante para tratar de algo insignificante: "Bem, Pai, se o Senhor pretende fazer algo para me tirar dessa stiuação, a hora é esta". Nada aconteceu, e não fiquei nada surpreso com isso. Fiz meia-volta e comecei a me dirigir à praça, que ficava a uns 500m dali, já conformado com o que me aguardava.

Fiz o que me pareceu ser o caminho de volta, mas não saí exatamente no ponto onde achei que sairia. Era só o que faltava: temi que nem a praça eu conseguiria encontrar mais. Eu provavelmente viera por outra rua. Mas não importava: indo numa dada direção, pensei, certamente sairia na avenida que leva à praça, ainda que mais longe dela do que supusera. E de fato cheguei à avenida, mas vindo de um ângulo inteiramente inédito. Do outro lado dela vi a cruz da torre de uma igreja, que passara de todo despercebida até então. De súbito, lembrei-me vagamente de ter passado por uma igreja na manhã anterior, quando me encaminhava para o ponto de ônibus. Esperançoso, entrei naquela rua. No quarteirão seguinte, vi o prédio dos correios pelo qual também havia passado. E, pouco à frente, o enorme estacionamento do prédio da Securité Sociale, cercado de vários condomínios. Um deles era o Le Toucan, que logo localizei. Dez minutos depois de ter feito aquela patética oração, e sem ter me desviado do caminho uma única vez, eu estava entrando no meu quarto. Em meio à minha exausta alegria, palavras em francês brotaram espontaneamente de meus lábios: "Merci beaucoup, Senhor!"

Ao contar essa história, não tenho expectativa nenhuma de convencer algum cético da realidade do cuidado de Deus por mim. A importância do episódio só pode ser apreendida à luz de todo o restante de minha vida; e, por isso mesmo, não vejo como alguém poderia apreendê-lo tão bem quanto eu, uma vez que a mensagem foi dirigida justamente a mim, e sua importância vai muito além de qualquer coisa que uma cama e um teto possam representar por si mesmos. O ocorrido é um símbolo de toda a minha vida; mas não só porque foi a cruz de Cristo que me colocou no caminho certo, que minha incapacidade inata me impedira de encontrar por meu próprio esforço. E não só porque o encontro com a cruz representou o fim de toda consideração de meus méritos. Mas também porque ela me apresentou um Deus gracioso não só no essencial, mas também no secundário. Um Deus que não liga para meu ascetismo barato e pessimista. Ou, dizendo mais precisamente, que liga, já que decidiu me livrar dele.

Constatei naquela noite que havia algo profundamente errado em minha concepção de Deus. Minha visão da vida neste mundo - refiro-me à vida do cristão regenerado - dava pouco espaço à ideia da antecipação da glória futura e muito aos resquícios do inferno precedente. Ou, dizendo de outra maneira, dava muito espaço ao poder santificador do sofrimento e pouco ao da autêntica alegria. O efeito disso foi um pessimismo profundamente enraizado quanto aos assuntos deste mundo, uma constante expectativa de que tudo passaria a dar errado a qualquer momento, expectativa que se tornava quase uma convicção de que é assim que as coisas funcionam - a ponto de eu muito me espantar cada vez que algo importante dava certo em minha vida. Aconteceu isso quando passei no vestibular, quando consegui a bolsa de iniciação científica, quando consegui estágio, quando entrei no mestrado, quando foi aprovada a própria viagem à França. O curioso é que sempre fui muito abençoado por Deus em tudo o que fiz. Mas os fatos não bastaram para me convencer de que eu estava errado. Naquela noite, a misericórdia de Deus me ensinou uma lição que sua severidade não poderia ter ensinado. Deus me convenceu de que havia pecado em mim: uma parte de meu ser ainda não fora tocada pela alegria de ser filho de Deus, e continuava cedendo constantemente à tentação da religião fria, sisuda e ingrata.

Em boa hora Deus me deu esse puxão de orelha, pois ele estava me preparando para aceitar com a devida gratidão e confiança a maior bênção de todas - exceção feita, é claro, à própria salvação. Uma semana depois de voltar ao Brasil, comecei a namorar a Norma. Também em boa hora conto tudo isso no blog, nesta que é minha centésima postagem. A mudança vai muito além do acréscimo de um algarismo. Casamo-nos no último dia 31, e portanto este é o primeiro post que faço já casado. Nosso relacionamento foi, desde o começo, o mais poderoso instrumento já usado por Deus, não só para minha santificação, mas também para minha alegria. Hoje vejo que não há coincidência alguma nessa associação entre as duas coisas. Em nossa cerimônia, o pregador (o pastor Orebe) leu o texto bíblico que diz que "O que acha uma esposa acha o bem e alcançou a benvolência do Senhor" (Provérbios 18.22). Sem aquelas quatro horas perdido num recanto da Europa, talvez eu tivesse dificuldade para apreender plenamente o tamanho dessa benevolência da qual fui alvo recentemente. Durante certa fase de minha vida, considerei que uma esposa também fosse um luxo. Hoje me arrependo de ter subestimado os planos de Deus. O propósito desta postagem não é romântico, mas não posso deixar de dizer que a vida e a companhia da Norma me enchem da mais vibrante alegria e da mais humilde gratidão a Deus, de quem aprendi a receber graciosamente bênçãos que superam todas as minhas expectativas.

19 de julho de 2010

O pacificador de torcidas

Li no início deste ano o livro O grande jogo: política, cultura e ideias em tempo de barbárie, uma coleção de artigos do geógrafo Demétrio Magnoli sobre os mais variados temas relacionados à política contemporânea, nacional e internacional. Um dos temas recorrentes é a relação entre o islamismo e o Ocidente. Não sou um grande entendido do assunto, mas as posições de Magnoli são suficientemente reveladoras para merecer um comentário.

A essência da questão pode ser captada num artigo chamado Declaração de guerra, na qual Magnoli tece críticas à administração Bush por sua luta contra o terrorismo. Segundo ele, o então presidente americano estaria caindo na armadilha de Osama bin Laden, cujo objetivo foi mesmo o de acirrar as animosidades entre os muçulmanos e os ocidentais. Para Magnoli, não existe inimizade intrínseca entre os dois grupos, exceto na cabeça de uns poucos extremistas, como o já mencionado terrorista, e de intelectuais simplistas como Samuel Huntington, cujo célebre livro O choque de civilizações popularizou a crença nessa mesma inimizade. Ao reagir da forma como reagiu aos ataques do 11 de setembro, Bush teria dado munição à minoritária vertente antiocidental do Islam, ajudando a transformar em realidade o equívoco do choque de civilizações.

De minha perspectiva, a crítica à ideia da "guerra ao terrorismo" parece de todo correta: sendo o terror um meio de ação, e não um inimigo bem definido, a tentativa de extirpá-lo da face da Terra está condenada de antemão ao fracasso. Mas se a administração Bush resolveu falar em "guerra ao terror" em vez de "guerra ao islamismo", deve ter sido justamente porque desejava evitar, ao menos para fins publicitários, a ideia do choque de civilizações ou da hostilidade a uma religião enquanto tal - coisa que o próprio Magnoli admite em outra parte. Creio que Olavo de Carvalho estava certo ao dizer que a correta identificação do inimigo a ser combatido teria tornado Bush vulnerável à crítica (infundada, por sinal) de crer em teorias conspiratórias. O que, no entanto, de modo algum justifica a atitude do ex-presidente do EUA, segundo meu ponto de vista.

Seja como for, há pessoas mais qualificadas para as tarefas de justificar ou condenar a América, Bush, o Islam ou Bin Laden. Não desejo esconder minha posição: tenho simpatias moderadas pela primeira, reduzidas pelo segundo, ainda menores pelo terceiro e nulas pelo último. Mas meu intento neste post é chamar a atenção para um dos pontos mais tenazmente defendidos por Magnoli em vários artigos, e sob aspectos diversos: para ele, à parte de uns poucos malucos como George W. Bush, Samuel Huntington e Osama bin Laden, não há motivo algum para imaginarmos a existência de um conflito essencial entre o Islam e o Ocidente.

No artigo Por um diálogo entre o Ocidente e o Islam, escrito em coautoria com Elaine Barbosa, Magnoli apresenta o argumento em defesa de seu ponto de vista. Consiste em listar uma porção de eminentes intelectuais e políticos muçulmanos que, desde o século XIX, tentaram abrir espaço no mundo islâmico para a ciência ocidental, o direito ocidental (em substituição à shari'a), o liberalismo político, a democracia, o laicismo e os princípios que Magnoli atribui à Reforma Protestante e ao iluminismo. Tudo isso, diz o geógrafo, deve servir como incentivo ao diálogo mencionado no título. Segundo ele, "entre árabes e muçulmanos há incontáveis interessados nesse diálogo e há uma tradição modernista que resiste ao fundamentalismo. Os obstáculos são o ruído ensurdecedor das bombas e a humilhação da ocupação."

É claro que não endosso todos os valores ocidentais mencionados por Magnoli, e não é meu objetivo decidir se é bom ou não que haja muçulmanos interessados em difundir esses valores em suas respectivas sociedades. Aliás, concordo com o autor quando ele critica a ingenuidade dos neoconservadores americanos, que pensaram ser possível, por meio da força bruta, enfiar a democracia numa cultura que não possui tradição democrática. Porém, o ponto para o qual desejo chamar a atenção é o salto lógico proposto por Magnoli: para ele, o simples fato de haver no mundo islâmico um número razoável de pessoas simpáticas ao Ocidente (seja lá o que for que isso signifique) é prova de que, em si mesmas, a religião islâmica e as culturas moldadas por ela não possuem nenhum elemento que permita considerá-las intrinsecamente antiocidentais. E se assim não parece a alguns, diz ele, só pode ser porque "o Ocidente enxerga o Islam pelas lentes do preconceito". O salto lógico a que me refiro é simples. Certamente é verdade que existem não poucos muçulmanos pró-ocidentais. Mas isso em nada ajuda quando se trata de saber o que é o islamismo em si. Talvez ele seja de fato amplo o suficiente em seus princípios fundamentais de modo a poder abrigar com igual conforto os amigos e os inimigos do Ocidente, bem como os indiferentes. Mas também pode ser que o Islam seja, por natureza, contrário aos tais "valores ocidentais"; nesse caso, os muçulmanos ocidentalistas seriam, muito simplesmente, maus muçulmanos, indivíduos mais ou menos distanciados da pureza de sua religião. Magnoli não apresenta argumento algum contra essa possibilidade.

Uma falácia semelhante está por trás da tentativa, por parte do autor, de dissociar do islamismo a militância antiocidental de grupos terroristas como a Al Qaeda. Segundo ele, "o terror de Osama bin Laden e al-Zawahiri, um fenômeno pós-moderno associado à globalização e à diáspora muçulmana, deve ser interpretado como ruptura radical com o Islam histórico". Para justificar essa afirmação, é mencionada, e de modo bem superficial, uma única divergência teológica entre o terrorista saudita e o islamismo tradicional. Além disso, Magnoli enfatiza repetidamente a forte presença de ideias e métodos ocidentais nos movimentos terroristas, como neste trecho: "As atuais organizações jihadistas configuram redes horizontais amorfas, recrutam militantes por meio da internet, utilizam as tecnologias da informação e participam, clandestinamente, da ciranda financeira globalizada". Considero um tanto fraca essa última classe de razões para negar o caráter tradicional dos movimentos terroristas islâmicos (por que é que usar a internet, por exemplo, faria de alguém um mau muçulmano?). Apesar disso, de fato existem motivos melhores para justificar essa negação e afirmar que movimentos como a Al Qaeda são, no contexto islâmico, uma espécie de heresia que, embora seja antiocidental, recebeu considerável influência de ideias ocidentais - o que não é contraditório, pois todos sabemos que o Ocidente muitas vezes se opõe a si mesmo. Mas do fato de que a heresia islâmica é antiocidental não se segue automaticamente que a ortodoxia islâmica seja pró-ocidental. No entanto, o geógrafo parece desejar que tomemos esse argumento como prova suficiente de sua tese pacifista.

Por que Magnoli procede dessa forma? Creio que ele próprio fornece indícios que permitem responder a essa pergunta. Ele cita um dos maiores estudiosos ocidentais do islamismo, o inglês Bernard Lewis, o qual disse que "a doutrina ocidental do direito de resistir a um mau governo é estranha ao pensamento islâmico". Sobre isso, o geógrafo faz o seguinte comentário: "A fórmula de Bernard Lewis, cuja carga de estupidez se expressa no mito de que há um 'pensamento islâmico', parece de pouca utilidade para entender a revolta palestina contra a ocupação israelense. [...] O corolário é que cabe ao Ocidente introduzir a doutrina da liberdade entre os primitivos muçulmanos, bombardeando suas cidades para salvar suas mentes." Vários elementos importantes devem ser notados nesse trecho. Um deles é que não sei se Lewis de fato apresentou essa constatação como argumento em favor da ocupação americana do Afeganistão e do Iraque; mas, se o fez, não há nada no trecho citado que permita inferir isso. Aliás, também não é possível saber se Lewis pretendia que sua afirmação se aplicasse ao caso particularíssimo dos palestinos. Mas mesmo que decidamos dar crédito à capacidade hermenêutica de Magnoli, não vejo motivo para fazer desse caso uma refutação à afirmação do "príncipe dos orientalistas contemporâneos" (nas palavras de Magnoli), já que a liderança do movimento palestino foi amplamente influenciada por forças políticas de inspiração ocidental, como o comunismo - coisa que ninguém descobrirá lendo os artigos de Demétrio Magnoli. Mais que tudo isso, porém, chama a atenção o fato de que esse ponto é um dos raríssimos nos quais o sempre tão sereno Magnoli parece irritado, partindo para algo próximo da grosseria. O que é que Lewis disse de tão ruim, para merecer tal reação? A resposta é dada aí mesmo pelo próprio Magnoli, para quem a "estupidez" do grande islamólogo reside em sua opinião de que existe um "pensamento islâmico". Mas por que não existiria? Tudo indica que Magnoli se revolta contra a simples hipótese de existir um Islam mais puro e outro menos puro, pois nesse caso se manteria de pé a possibilidade de que os muçulmanos pró-ocidentais se enquadrem mesmo na segunda categoria. Magnoli chega a dedicar um parágrafo inteiro a essa questão, nos seguintes termos:

"A visão predominante no Ocidente continua presa aos dogmas dos orientalistas, que interpretam o Islam como uma síntese cultural e o abordam como um universo à parte da economia, da sociologia e da política dos povos muçulmanos. Essa imagem de um 'Islam essencial' sustenta uma narrativa que, mesmo recheada de 'fatos históricos', descreve o desenvolvimento das sociedades muçulmanas como um desdobramento infinito de suas origens religiosas. O impacto da era industrial, da expansão imperial das potências europeias, das circunstâncias da Guerra Fria - nada disso interessa efetivamente aos orientalistas."

Diante de tudo o que foi exposto até aqui, parece-me que Magnoli supõe enxergar esse defeito nos tais "orientalistas" apenas porque ele próprio padece do defeito oposto: no fundo, ele não está interessado no Islam enquanto religião, e não dá muita atenção ao poder da religião enquanto sustentáculo de uma civilização, enquanto formadora da mentalidade de uma imensa parcela de seres humanos. Ele só se interessa pelos acidentes históricos ou, mais precisamente, por aquilo que o Islam, puro ou impuro, pode oferecer como apoio aos ideais políticos (ocidentais, é claro) que ele considera válidos. No caso, sua intenção é a de incentivar a aliança entre a esquerda democrática e a parcela não-terrorista do Islam (que é majoritária, obviamente) contra os verdadeiros fanáticos religiosos do mundo: a direita americana. Por trás dessa crítica mordaz à suposta superficialidade dos orientalistas reside apenas a superficialidade verdadeira, um profundo desinteresse pelo que há de mais fundamental na cultura islâmica; desinteresse que se traduz em irritação contra os que se empenham em entender justamente isso, não dando bola às pragmatices momentâneas que o homem cujo espírito é de natureza política tende a considerar a coisa mais importante do mundo.

Embora se empenhe em defendê-lo contra os "preconceitos ocidentais", Magnoli não tem nenhum respeito genuíno pelo Islam. Não é à toa que, em outra parte do livro, ele defende entusiasticamente aquelas absurdas leis europeias que proíbem as mulheres muçulmanas de vestir seus hijabs em lugares públicos. Eu, que não simpatizo com essa religião, respeito-a muito mais que ele. Um homem que busca com todas as forças entender um adversário dedica-lhe, na verdade, mais respeito que um outro que, sem ter se empenhado em conhecê-lo, apressa-se em declarar em alta voz, e pelos motivos errados, que se trata de uma ótima pessoa. Magnoli é como um sujeito que entrasse num estádio de futebol numa final de Copa do Mundo e tentasse, mui seriamente, convencer ambas as torcidas de que nenhuma delas tem, na verdade, interesses contrários aos da outra. E que os poucos que insistem em negar isso são fanáticos isolados que não devem ser levados a sério. O único resultado concreto obtido por tal pacificador seria o de ser surrado com empenho por ambas as multidões. Nisso, sem dúvida, haveria um interesse comum entre elas.

8 de julho de 2010

Dúvidas rememoradas

Tenho vários projetos já iniciados neste blog, e espero não demorar para dar-lhes continuidade. Mas, agora que entreguei minha dissertação e tenho uns poucos dias de relativo sossego, prefiro aproveitar para falar sobre o que está em minha cabeça neste momento. Trata-se de uma discussão virtual que presenciei outro dia, sem nela tomar parte. Ou, dizendo de maneira mais específica, da conduta de um dos participantes daquela discussão. Sua identidade não vem ao caso, pois o que ocorreu só me interessa enquanto exemplo de um fenômeno que, temo eu, atinge muitas pessoas. Além disso, omitir a identidade do sujeito é uma verdadeira gentileza que lhe faço. Eu, pelo menos, ficaria envergonhado se tivesse dito aquelas coisas e alguém as publicasse por aí. Dois exemplos bastarão para esclarecer o que quero dizer. Por coincidência (ou não), ambos relacionam-se à admiração indevida que o sujeito devota a Karl Marx.

O primeiro caso é apenas uma questão de ignorância. O indivíduo afirma que não é justo atribuir a Marx alguma culpa pelos cem milhões de mortos em nome do comunismo, pois crê que o mesmo argumento poderia ser usado contra Cristo, levando-se em conta todos os mortos em nome da fé cristã nos últimos dois milênios. Contudo, mesmo que a cristandade tivesse sacrificado cem milhões de vidas por século - e o número não chega nem perto disso -, haveria um problema qualitativo a ser resolvido. A doutrina de Marx, como todo materialismo consistente, é expressamente amoral. Como declarou o próprio Marx em sua crítica a Bakunin a propósito do manifesto pan-eslavista, valores morais como "justiça, liberdade, igualdade, fraternidade, independência [...] não têm nenhum sentido no domínio histórico e político". Não é difícil ver de que maneira essa visão da realidade abre espaço para a justificação de toda sorte de crimes contra a humanidade. E também não é difícil ver que Marx não esteve longe de fazer justamente isso. No mesmo parágrafo de onde tirei os trechos acima, o pai do comunismo apoiou a ocupação americana da Califórnia, que até então pertencera aos mexicanos, com o seguinte argumento: "A independência de alguns californianos pode sofrer com isso, a justiça e outros princípios morais podem ser feridos – mas isto conta, diante de tais realidades que são o domínio da história universal?" Só mesmo a ignorância histórica pode concluir que Lênin e toda a hoste de ditadores genocidas que o comunismo produziu no século XX estavam muito distantes dos sublimes ideais de seu Cristo postiço.

O segundo exemplo, porém, não pode ser atribuído à ignorância, restando como explicação apenas a obtusidade da inteligência. Comentando algumas guerras descritas no Antigo Testamento, nas quais, segundo a narrativa bíblica, os hebreus eram incumbidos por Deus de exterminar certos povos, o sujeito a que me referi no início do post declarou que "'Tribo contra tribo' nada mais é do que classes diferentes brigando pelos seus interesses". Ora, pouco é necessário para ver que tribos e classes são coisas muito diferentes. Para sustentar essa identidade, seria preciso supor que existem povos inteiros compostos apenas de "burgueses" fazendo guerra contra povos em que só havia "proletários". Resta saber como seria possível determinar quem é quem, já que os povos em questão nunca haviam se encontrado antes e, portanto, não haviam tido ainda a oportunidade de explorar um ao outro. Se as narrativas bíblicas servissem para sustentar alguma mitologia ideológica, não seria a dos marxistas, e sim a dos fascistas, que realmente dão proeminência à identidade nacional e étnica em detrimento da social e de classe. O problema é que, aos olhos dos comunistas, o fascismo costuma ser o pior inimigo de sua adorada revolução. Por causa da ironia da situação criada pelo próprio autor da bobagem, referir-me-ei a ele como Fascista deste ponto em diante. Explico-me: visto que os esquerdistas adoram acusar de fascismo qualquer um que se atreva a fazer-lhes uma cara feia, por menos que suas posições se assemelhem às de um fascista de fato, eu não acho justo perder a oportunidade de designá-los assim quando dizem algo que soa semelhante ao verdadeiro fascismo.

Pode parecer que estou me detendo demais nos preâmbulos, e de fato tenho esse mau hábito. Mas os exemplos acima se relacionam com o a questão central que pretendo comentar, e que não diz respeito diretamente a assuntos políticos. Tendo equiparado Marx a Cristo em suas respectivas relações com os crimes de seus seguidores, o Fascista tratou de levar às últimas consequências a divinização de Marx (ou, caso se prefira assim, a difamação de Deus) atribuindo a ambos o mesmo direito de encerrar vidas humanas. É nesse espírito que ele pergunta, por exemplo: "Se a implantação do ideal de Marx exigia a morte de alguns assim como a implantação do ideal de Deus exigia o mesmo, volto a perguntar: em que sentido Marx é um monstro assassino e Deus não?" Naturalmente, a resposta a essa pergunta foi dada pelo apóstolo Paulo em Romanos 11.35-36: "Quem primeiro deu a ele, para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas." Convém lembrar que o apóstolo, de maneira mui apropriada, estava se referindo a Deus, e não a Marx. Há, porém, um sentido em que se justifica a pretensão kantiana de estabelecer um código moral válido para todos os seres racionais, incluindo-se aí o próprio Deus. No caso em questão, eu expressaria o mandamento do seguinte modo: "todo ser racional tem o direito de tirar a vida (ou delegar a outro o direito de tirá-la) dos seres que ele próprio criou ex nihilo". Se Deus tem o direito de tirar vidas, é porque foi ele quem as deu. Se Deus resolve apenas tomar de volta tudo aquilo que ele graciosamente deu a um ser vivo, nada sobrará desse ser; nem mesmo sua vida. Por essa mesma razão, o direito de Marx sobre a vida restringe-se àquelas vidas que ele criou ex nihilo. Entretanto, não é difícil notar que essa categoria de seres não inclui sequer o próprio Marx. Como diriam os escolásticos, Marx não possui em si a razão suficiente de sua existência, muito menos a dos outros. É por isso que ele não pode competir com Deus em matéria de direitos.

O Fascista não foi capaz de perceber isso, mesmo depois que alguém o declarou expressamente. A mim, por outro lado, sempre pareceu uma coisa por demais óbvia. E esse comentário nos levará diretamente ao cerne do que pretendo dizer hoje. A julgar pelo início deste parágrafo, pode parecer que sempre tive uma fé cristã inabalável, na qual jamais penetrou dúvida alguma. O Fascista, por exemplo, que é um cristão de tendências liberais, racionalistas e modernistas, fez várias alusões à ausência de questionamentos entre cristãos que conhece, como se vê nos trechos abaixo. Transcrevê-los-ei como foram escritos, mas devo avisar que os erros de português são dele mesmo, assim como a insinuação do palavrão com asteriscos.

"Eu converso bastante sobre vários assuntos com vários amigos meus, e os papos mais proveitosos são aqueles em que deixamos nossas pressuposições de lado por um instante e conversamos, refletimos, vemos se as conclusões que chegamos são iguais às pressuposições que deixamos de lado por alguns instantes. [...] O problema das mortes causadas por Deus só não faz parte da reflexão de todos os cristãos porque eles são massivamente ensinados a não pensar, ou a pensar dentro do cercadinho das pressuposições do tipo 'panos-quente'. [...] Não há erro algum em ter convicções. O ponto reside em como lidamos com as contradições existentes para nossas convicções. Existe a postura do diálogo: 'Bem, eu creio em uma coisa e você em outra. Vamos conceder um ao outro a dúvida e vamos dialogar sobre as divergências'. Existe também a postura unilateral 'bater de frente': 'Bem, este é meu círculo, aqui estão minhas convicções, aqui está a verdade. Então, que se f*** qualquer coisa que ousar contradizer este círculo'."

A insinuação contida nessas declarações, bem como em outras que não transcrevi para não emporcalhar meu blog mais que o necessário, não corresponde de modo algum à minha experiência pessoal, nem ao que tenho observado por aí. Como afirmei acima, a dúvida sobre "o problema das mortes causadas por Deus" sempre me pareceu besta demais - inclusive porque não há morte que não seja causada por Deus. Nunca tive essa dúvida. Porém, tive muitas outras, e quase todas as que tive até os vinte anos foram bem típicas de qualquer ateu ou agnóstico. O materialismo foi de fato a minha primeira tentação intelectual; apenas a primeira, por ser a mais superficial e mais tola. Eu absorvera por osmose uma porção de dúvidas, preconceitos e imbecilidades da modernidade racionalista, e durante anos lutei com todos esses monstros interiores.

Pensando hoje sobre aquela fase de minha vida, recordo que, ao lado da tentação intelectual em si, havia sempre a tentação de me considerar superior, em algum sentido, aos meus irmãos que não travavam tais embates. Eu costumava me referir a eles em termos lisonjeiros, como tendo recebido uma bênção pela qual eu precisava lutar de modo bastante árduo. Mas percebo agora que esse modo de me expressar ocultava uma ironia perversa: embora eu de fato soubesse que a incredulidade era algo ruim, um problema a ser superado, continuei por muito tempo a entreter a convicção de que manter certas portas entreabertas era o melhor jeito de evitar o emburrecimento, e que não havia muita virtude espiritual no coração que crê com simplicidade e sem dar lugar a dúvidas. No fundo, era como se eu pensasse: "Bom mesmo seria se todos os cristãos fossem como eu. Ainda bem que Deus é misericordioso o suficiente para resgatar pessoas burras que não possuem todo o brilhantismo intelectual manifesto em minha incredulidade". Dizendo dessa forma, parece ridículo. E é mesmo. E é claro que eu jamais teria formulado as coisas dessa forma, sequer para mim mesmo; mas de fato era assim que eu sentia.

Desde então, Deus mudou muito minha disposição interior. Hoje me parece evidente que eu estava errado em subestimar a profundidade das motivações pecaminosas de meu coração e, em decorrência disso, superestimar os pretextos e subterfúgios "racionais" da alma pervertida. Lendo as bobagens proferidas pelo Fascista, é com gratidão que rememoro mais um pecado debelado pela graça divina. Mas também é com um pesar proporcional que constato sua presença em outra pessoa. Vejo ali os mesmos pecados que um dia me acometeram, a saber, o que descrevi acima e seus corolários. Um deles consiste em julgar que certas pessoas, porque pessoalmente não veem sentido em certas dúvidas, são incapazes de se colocar mentalmente no lugar de quem as possui. Na mente do Fascista só existem dois tipos de pessoas: as inteligentes e sensatas como ele, sempre corajosamente abertas aos questionamentos, e as obtusas e fanáticas, que jamais ousam questionar as verdades passivamente recebidas. É-lhe simplesmente inimaginável a possibilidade de que alguém possa ter passado pelas mais profundas dúvidas e depois tê-las superado a ponto de poder hoje olhá-las com o desprezo que sempre mereceram. Ele vê apenas esse desprezo e, sem conhecer a história precedente (pois não pediu para ouvi-la), julga estar diante de um espécime pertencente a uma categoria inferior de seres humanos.

Em outras palavras, tudo se passa como se o intelecto do que duvida fosse muito superior ao do que crê. Uma vez mais, porém, minha observação pessoal e o testemunho das Escrituras demonstram que a realidade costuma ser o contrário disso: o incrédulo é que é incapaz de entender o crente. É claro que existem pessoas com e sem vocação intelectual em todos os grupos religiosos. Mas estou falando especialmente das pessoas que têm essa vocação - ou que, pelo menos, julgam tê-la. O próprio Fascista, a despeito de todas as suas lições não solicitadas sobre como lidar com as contradições, deu provas abundantes de sua incapacidade de entender uma mente teologicamente conservadora. É por isso mesmo que, onde quer que olhasse, julgava encontrar evidências de fanatismo e estreiteza mental. Todo o seu discurso é uma apologia de seu pecado predileto: ele se apega às suas dúvidas como troféus, vendo-as mais como soluções que como problemas e, acima de tudo, temendo que, ao despojar-se delas, não reste nada de que se gabar. Deus lhe conceda que de fato não reste nada quando isso acontecer.

16 de junho de 2010

Viagens doloridas - parte 3

Este post encerra a transcrição dos trechos interessantes do livro Diário de viagem, de Albert Camus.

*******

Em Salvador:

"Três horas de voo, e depois veem-se surgir, sobre uma imensidão, colinas curtas cobertas de neve. Ao menos, é a impressão que me dá essa areia branca, muito frequente aqui, e cujas vagas imaculadas parecem cercar a Bahia com um deserto intacto. Do aeroporto até a cidade, seis quilômetros de estrada em ziguezague, entre as bananeiras e uma vegetação frondosa. A terra é totalmente vermelha. Bahia, onde só se veem negros, parece-me uma imensa casbah fervilhante, miserável, suja e bela. Mercados imensos, feitos de velas esburacadas e de tábuas velhas, de velhas casas baixas, caiadas de vermelho, verde-maçã, azul, etc. Almoço no porto. Grandes barcos de velas latinas, ocre e azul, descarregando cachos de bananas. Comemos pratos tão apimentados que fariam andar paralíticos. A baía que vejo também da janela do meu hotel estende-se, redonda e pura, cheia de um estranho silêncio, sob o céu cinzento, enquanto as velas paradas que nela se veem parecem aprisionadas num mar subitamente imobilizado. Prefiro essa baía à do Rio, muito espetacular para o meu gosto. Esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia. [...] Visita às igrejas. São as mesmas de Recife, se bem que tenham mais fama. [...] É sufocante. Mas esse barroco harmonioso repete-se muito. Finalmente, é a única coisa a ser vista neste país, e isso se vê depressa. Resta a vida verdadeira. Mas sobre esta terra imensa, que tem a tristeza dos grandes espaços, a vida é no nível do chão, e seriam necessários muitos anos para a ela integrar-se. Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil? Não."

De volta ao Rio:

"A noitada termina com música brasileira, que me parece qualquer outra. Importante, contudo, é que o Brasil seja o único país de população negra que produz canções sem parar. O arremate final é um frevo, dança de Pernambuco, da qual participa a própria plateia, e que é realmente a cantoria mais desenfreada que já vi. Encantadora."

Viagem pelo interior do Rio, seguida da volta à capital:

"Weekend em casa de Cl. em Teresópolis. 150 quilômetros do Rio, nas montanhas. A estrada é bela, sobretudo entre Petrópolis e Teresópolis. De vez em quando, um ipê coberto de flores amarelas desponta numa curva, diante de um horizonte de montanhas que se sucedem até o horizonte. Compreende-se ainda aqui o que me impressionava no avião, quando sobrevoava este país. Imensas áreas virgens e solitárias junto às quais as cidades, agarradas ao litoral, são apenas pontos sem importância. A qualquer momento, este enorme continente sem estradas, todo entregue à selvageria natural, pode voltar-se e recuperar essas cidades falsamente luxuosas. O fim de semana se passa em passeios, banhos e pingue-pongue. Respiro, enfim, neste campo. E o ar, a oitocentos metros, me faz avaliar melhor o clima do Rio, realmente cansativo. Quando descemos, no domingo à noite, é sem alegria que reencontro a cidade. Aliás, sou acolhido diante da Embaixada por uma dessas cenas por demais frequentes no Rio. De novo, uma mulher estendida, sangrando, diante de um ônibus. E uma multidão que olha em silêncio, sem prestar-lhe socorro. Esse costume bárbaro me revolta. Bem mais tarde, ouço a sirene de uma ambulância. Durante todo esse tempo, deixaram morrer essa infeliz em meio aos gemidos. Em compensação, dão demonstrações de adorar crianças."

"Perseguido, na verdade, nessa gloriosa luz do Rio, pela ideia do mal que se faz aos outros a partir do instante em que se olha para eles. Durante muito tempo, fazer sofrer me foi indiferente, é preciso confessá-lo. Foi o amor que me esclareceu quanto a isso. Agora, não consigo mais suportá-lo. De certa forma, é melhor matar que fazer sofrer. O que me pareceu muito claro ontem, afinal, é que eu desejaria morrer."

Em São Paulo:

"São Paulo, e a noite cai rapidamente, enquanto os cartazes luminosos se acendem um por um, no topo dos arranha-céus espessos, enquanto das palmeiras reais que se elevam entre os edifícios chega um canto ininterrupto, vindo dos milhares de pássaros que saúdam o fim do dia, encobrindo as buzinas graves que anunciam a volta dos homens de negócio. Jantar com Oswald de Andrade, personagem notável (a desenvolver). Seu ponto de vista é que o Brasil é povoado de primitivos e que é melhor assim. A cidade de São Paulo, cidade estranha, Oran desmedida. Esqueço totalmente de anotar o que mais me sensibilizou. Foi uma transmissão de rádio de São Paulo, em que pessoas pobres vêm ao microfone para expor a necessidade em que se encontram momentaneamente. Naquela noite, um grande negro, vestido de maneira pobre e com uma menina de cinco meses no colo, a mamadeira no bolso, veio explicar, com simplicidade, que, abandonado pela mulher, procurava alguém para cuidar da criança sem tirá-la dele. [...] Cinco minutos após o fim da transmissão, o telefone toca de forma ininterrupta. Todos se oferecem ou oferecem alguma coisa. [...] E eis o desfecho: um negro grande, mais idoso, entra no escritório semidespido. Estava dormindo, e a mulher, que ouvia o programa, acordou-o e disse: 'Vá buscar a criança'."

"Andrade me expõe sua teoria: a antropofagia como visão de mundo. Diante do fracasso de Descartes e da ciência, retorno à fecundação primitiva: o matriarcado e a antropofagia. O primeiro bispo que desembarca na Bahia tendo sido comido por lá, Andrade datava sua revista como do ano 317 da deglutição do bispo Sardinha (pois o bispo chamava-se Sardinha)."

Viagem ao litoral sul paulista:

"Descontando as paradas, levamos dez horas para fazer os trezentos quilômetros que nos separam de São Paulo. [...] Exaustos, vamos ao clube. O clube é uma espécie de bistrô, no segundo andar, onde encontramos outras autoridades, que nos cobrem de atenções. Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria europeia. Sanduíche e cerveja. Mas um grandalhão desengonçado, que mal se aguenta nas pernas, tem a singular ideia de vir pedir meu passaporte. Mostro-o, e ele parece dizer-me que não está em ordem. Cansado, mando-o às favas. As autoridades, indignadas, reúnem-se numa espécie de conselho, findo o qual vêm dizer-me que vão botar esse policial (pois é um policial) na prisão e que eu tenho de escolher a forma de puni-lo. Suplico-lhes que o deixem em liberdade. Explicam-me que a honra tão grande que faço a Iguape não foi reconhecida por esse mal-educado e que é preciso uma sanção para essa falta de modos. Repito o que dissera antes. Mas querem homenagear-me dessa maneira. A coisa vai durar até a noite seguinte, quando finalmente descubro a fórmula, pedindo que me façam o favor pessoal e excepcional de poupar esse tonto. Todos surpreendem-se diante do meu cavalheirismo e dizem que tudo será feito conforme a minha vontade."

"Vi beija-flores. E, uma vez mais, durante horas e horas, olho para esta natureza monótona e estes espaços imensos; não se pode dizer que sejam belos, mas colam-se à alma de uma forma insistente. País onde as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextricável torna-se disforme; onde os sangues misturaram-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. Um marulhar pesado, a luz esverdeada das florestas, o verniz de poeira vermelha que cobre todas as coisas, o tempo que se derrete, a lentidão da vida rural, a excitação breve e insensata das grandes cidades - é o país da indiferença e da exaltação. Não adianta o arranha-céu; ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer."

Em Porto Alegre:

"Em Porto Alegre, desembarco sob um frio cortante. [...] A luz é muito bela. A cidade, feia. Apesar de seus cinco rios. Essas ilhotas de civilização são frequentemente horrendas."

No Uruguai:

"À acolhida das autoridades francesas de Montevidéu falta calor. A data de minhas conferências foi mudada várias vezes. Deixaram até de reservar um quarto para mim. [...] Obrigado a confessar a mim mesmo que, pela primeira vez na vida, estou em pleno conflito psicológico. Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim estão as águas esverdeadas em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia. É o inferno, de certa forma, esta depressão. Se as pessoas que me recebem aqui sentissem o esforço que faço para parecer normal, fariam ao menos o esforço de um sorriso."

Na Argentina:

"De manhã, Buenos Aires. Enorme amontoado de casas que se aproximam. [...] Volta pela cidade - de uma feiúra rara."

De volta ao Rio:

"O avião parte às onze horas. Sob um céu terno, arejado, nublado, Montevidéu exibe suas praias - cidade encantadora, em que tudo pressupõe a felicidade - e a felicidade sem espírito. [...] Às cinco horas, sobrevoamos o Rio e, na descida, sou acolhido por esse ar espesso e úmido, com consistência de algodão hidrófilo, do qual já me esquecera e que é típico do Rio. Ao mesmo tempo, os papagaios tagarelas e multicoloridos e um pavão de voz desafinada."

"Às 13h30min, Pedrosa e sua mulher vêm buscar-me para ver as pinturas dos loucos, no subúrbio, num hospital de linhas modernas e com uma sujeira antiga. O coração se confrange vendo os rostos por trás das grades das jaulas. [...] Fico apavorado ao reconhecer, num jovem médico psiquiatra do estabelecimento, o rapaz que no início me fez a pergunta mais tola que já me fizeram em toda a América do Sul. É ele quem decide o destino desses infelizes."