15 de fevereiro de 2007

Idéias em gestação

"Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer."

Nesta semana não tenho tido vontade de levantar polêmicas neste blog, e mal me disponho a continuar as que já foram iniciadas em outros lugares. Não sei exatamente a razão disso, mas considero essas flutuações emocionais como algo inteiramente normal, até certo ponto. Seja como for, estive procurando um tema que não tivesse a mínima chance de suscitar discussões. Tal tema não existe, naturalmente. Mas a melhor maneira de chegar perto disso é falar sobre algo de que ninguém possa saber a não ser eu mesmo. Tendo chegado a essa conclusão, lembrei-me das palavras transcritas acima, de autoria do filósofo Olavo de Carvalho, acerca do processo de obtenção de conhecimento.

Não pretendo escrever sobre nada tão profundo assim. Apenas narrarei um curto capítulo da minha própria jornada intelectual, a qual não tem nada de muito interessante, e menos ainda de original. Muitas vezes eu acreditei ter feito grandes descobertas sobre a realidade. Mas, em praticamente todos os casos, soube depois ou que eram idéias idiotas ou que alguém já as tinha tido muito antes de mim. Esse tipo de engano é talvez a pior conseqüência de viver numa sociedade que é estúpida mesmo pelos padrões de uma civilização intelectualmente decadente. Mas deixarei as lamentações para outra semana (alguma em que eu porventura esteja particularmente melancólico) e contarei agora uma das pequenas coisas que descobri na minha busca, particular e sem testemunha externa, pelo conhecimento.

Para quem tem o costume de ler, conversar, debater ou se informar por quaisquer outros meios, uma das coisas mais comuns da vida é o contato com idéias desconhecidas, ou pelo menos com novas formulações e articulações de idéias já conhecidas. Isso me acontece tão freqüentemente hoje quanto acontecia no início da minha vida intelectual, que se deu lá pelos meus dezesseis anos. Logo percebi que era impossível, por exemplo, ler um livro qualquer sem encontrar no mínimo duas ou três afirmações que contradissessem de algum modo meu ponto de vista. Rapidamente aprendi que precisava lidar com aquelas afirmações, e descobri que a variedade de experiências advindas dessa simples decisão era incrivelmente ampla, rica e, em alguns casos, mais compensadora que tudo o que eu aprendera em todo o restante do livro.

Em alguns casos, a idéia contida numa afirmação dessas era tão claramente absurda que eu a identificava imediatamente como tal e a colocava sumariamente de lado, limitando-me a registrá-la no sempre crescente rol de besteiras a evitar. Em outros, tratava-se de uma verdade daquelas que nos espantamos de não ter visto antes; nesse caso, eu a recebia com reverência, tratando logo de situá-la o melhor possível dentro da paisagem mais ampla de minha visão de mundo, à qual ela demonstrava se encaixar melhor que sua negação que estivera ali provocando uma contradição não percebida. Havia ainda aquela situação muito comum em que uma mesma sentença continha a verdade misturada ao erro, restando-me a tarefa de separar este daquela e tentar entender como era possível que viessem a se apresentar com tal aparência de inquebrantável união. Em outras ocasiões, ainda, a idéia em questão vinha trazer luz sobre um tema no qual eu nunca pensara detidamente, ou que ignorava completamente, de modo que eu não tinha opinião alguma a respeito ou tinha uma fortíssima convicção baseada em absolutamente nada. No primeiro caso, eu acabava aprendendo algo na tentativa de pensar melhor sobre o assunto, nem que fosse apenas para relacioná-lo toscamente a outros que eu conhecia melhor. No segundo, a súbita percepção da ignorância antes ignorada normalmente me enchia de vergonha, e seu efeito prático mínimo era o de me levar a pôr o assunto na lista dos que precisava estudar antes de morrer, e sobre os quais não deveria opinar enquanto não tivesse feito isso.

Convém esclarecer que, embora eu esteja usando os verbos no pretérito, todas essas experiências continuam a ocorrer com alguma freqüência na minha vida, e estou certo de que continuarão enquanto eu tiver condições de estudar alguma coisa.

Mas há uma outra experiência ainda mais notável que as acima descritas, e é sobre ela que pretendo discorrer um pouco mais. É a que ocorre quando leio algo e simplesmente não gosto daquilo. Não pela forma como é dito, nem por qualquer fator externo; não gosto da idéia mesma. O que define essa estranha sensação é a total incapacidade de formular o que está errado naquela sentença. Leio e releio, penso e repenso, mas não consigo dizer qual é o problema. É uma sensação aparentemente contraditória, justamente por ser uma mera sensação. Parece-se muito mais com um desconforto quase físico diante de um problema que é, ou deveria ser, puramente intelectual.

Creio que todo mundo já passou por isso ao menos uma vez na vida, de modo que espero que essa tentativa de descrever tão esquisita sensação seja suficiente para que meus leitores se lembrem dela. Antes de contar como aprendi a lidar com isso, porém, direi o que aprendi a não fazer: não se deve ignorar esse sentimento, e muito menos permitir que ele estabeleça por si próprio, na nossa mente, um juízo de valor sobre a idéia em questão. É necessário descobrir o que está errado, e saber expressar isso com palavras que façam sentido. É preciso pensar, mas pensar com o cérebro, e não com o estômago. A pior coisa que pode ocorrer nessa situação é a pessoa pensar: "Esta idéia me causa desconforto; portanto, não deve ser verdadeira", e a partir daí não tornar a pensar no assunto.

A solução que encontrei não apresenta qualquer garantia de eficácia perfeita, mas tem a vantagem de ser bastante simples; tanto, aliás, que alguém poderá pensar que fui buscá-la em algum livro de auto-ajuda. Ela consiste apenas em aliar a paciência à perseverança. Para quem não tiver muito dessas qualidades, uma boa dose de teimosia também serve; pelo menos costuma dar certo no meu caso.

Num certo sentido, a coisa funciona como a resolução de um problema difícil de física ou matemática: se, depois de alguns dias pensando nele, as idéias se esgotam e a solução não surge, o melhor a fazer é deixar o assunto para ser examinado algumas semanas ou meses depois, quando a mente estiver revigorada e mais madura. Em muitos casos, inesperadamente, você tornará a pensar no problema e verá um caminho não notado antes. Mas é de fato necessário ter disciplina suficiente para voltar a pensar nisso com uma certa periodicidade, ou nunca se chegará a lugar algum.

Num outro sentido, porém, essa situação é totalmente diferente de um problema de física ou matemática: trata-se de aprender algo a respeito de si mesmo, e não sobre o universo ou a mente de Deus. O problema é, portanto, muito mais pungente e aterrador, pois resulta na necessidade de mapear mais um trecho do labirinto interior e trazer à plena luz da consciência algo que desde sempre tem permanecido nas trevas, muito embora seja parte do eu. Descobrir que não sei o suficiente nem sobre mim mesmo foi uma experiência sumamente desagradável, e sinto isso novamente sempre que meu subconsciente reage contra uma declaração qualquer sem que eu saiba o motivo. É nessas horas que a exigência gravada em Delfos, que Sócrates tomou como lema máximo de sua vida, surge diante de meus olhos em seu pleno e terrível caráter de urgência.

O meio que encontrei de resolver esse problema foi colocando em palavras, de maneira claramente inteligível, a minha objeção ao pensamento que acaba de me atingir, vindo de alguma outra mente. Essa solução freqüentemente exige um longo e intenso esforço, como já expliquei, e devo confessar que em alguns casos não fui bem sucedido até o presente momento. Isso requer que eu divague pelas minhas próprias posições, reexaminando-as uma a uma a fim de descobrir qual delas chocou-se contra o pensamento intruso enquanto eu olhava em outra direção. Requer também uma boa dose de interpretação, bem como a capacidade de reformular o conteúdo recém-apreendido de todos os modos concebíveis, a fim de verificar se com isso é possível obter uma imagem mais nítida daquilo que o subconsciente insiste em rejeitar intransigentemente. E requer também, às vezes, uma boa dose de imaginação, na tentativa de ordenar tudo isso de um modo que permita lançar nova luz sobre o problema.

Decidi, por analogia, chamar esse processo de "gestação de idéias", já que, assim como a gestação propriamente dita, é algo árduo, doloroso, demorado, incômodo e com um resultado muito difícil de se prever. E também porque, apesar de todas as dificuldades, precisa ser levado a cabo. Abdicar disso é simplesmente cometer voluntariamente um aborto intelectual (que me perdoem as eventuais leitoras feministas que acham o aborto uma coisa ótima). Se o bebê-idéia tiver de ser jogado na lata de lixo mental em algum momento, que seja depois de vermos a cara dele, e não antes. Nas vezes em que consigo consumar o terrível parto mental, a solução é imediata. Quando consigo explicar a mim mesmo qual era exatamente a razão do meu desconforto diante da tal sentença, só existem dois desfechos possíveis. Em um deles eu noto imediatamente o quanto essa minha objeção é estapafúrdia, descabida, sem sentido, e assim vejo o quanto minhas sensações viscerais eram irracionais e me mantinham afastado da verdade. Vencida a barreira inicial, estou agora pronto para aceitar a referida idéia, ou pelo menos considerá-la com maior seriedade e justiça. Ou então percebo claramente que minha sensação estava certa, que havia mesmo, por trás dela, alguma razão válida para a minha desconfiança, embora bem escondida. Nesse caso, minha opinião anterior é reforçada por uma maior consciência de suas implicações lógicas.

É impossível prever com antecedência se o que sairá do ventre é um bebê ou um alien, se do ovo sairá um pássaro qualquer ou um filhote de cuco. Esse estado de expectativa é deveras interessante, pois em decorrência dele temos a possibilidade de aprender mais acerca de nós mesmos e de desenvolver melhor e, se for o caso, corrigir nossas concepções, embora não possamos fazê-lo sem um estímulo externo apropriado e sem um esforço pessoal nesse sentido. O resultado, de qualquer forma, é sempre mais um passo rumo à coerência, à verdade e a uma consciência mais profunda e madura acerca de nós mesmos e de tudo o mais. Daí decorrem muitas surpresas; e também, é claro, muitas alegrias.

2 comentários:

Marco Vinhola disse...

Caro André. Caso a opinião de um amigo mais velho do ponto de vista cronológico seja válida, diria o seguinte: O conhecimento para estar sedimentado precisa da vivência; não podemos dispensar a experiência. E experiência leva tempo para ser vivenciada. Dias, meses, anos, séculos...Certo dia ouvi uma frase simples mas incrível: "um cérebro que pensa sem um coração que sente, é como uma luz que brilha mas que não aquece"!
Talvez a mente precise de tempo para vencer as barreiras emocionais que entravam o intelecto. Talvez precisemos de um dia de cada vez para aprender. Neste momento entra a paciência. Nesta ansiosa busca de entendimento ou de discodância das coisas do mundo das idéias, talvez valha a pena lembrar do Mestre inesquecível quando Ele disse: "A cada dia basta o seu mal".

Camila disse...

Concordo com você. Esta repulsão de idéias "estranhas" que mencionou, se analisada, pode nos dar indícios sobre nós mesmos, nossos preconceitos, como recebemos algo que não é nosso...

Abraço