13 de abril de 2007

Agnus Dei

A Páscoa já se foi há cinco dias, e eu sinto muito por não ter dito antes o que vou dizer hoje. Acontece que só me deu vontade de escrever a respeito dois dias depois, e os afazeres da vida me impediram de terminar de fazê-lo antes de hoje. Não houve nada que eu pudesse fazer contra esse atraso. Mas vamos lá.

A Páscoa é uma das celebrações religiosas mais antigas do mundo. Apesar de amplamente conhecida hoje como uma festa cristã, em referência à morte e ressurreição de Jesus Cristo, já era celebrada pelos judeus desde muito antes de haver cristianismo. A bela história de sua origem nos é contada no décimo-segundo capítulo segundo tomo da Torah, o Shemoth (ou Êxodo, como é mais conhecido por estas bandas). Trata-se na verdade de uma pequena parte, embora simbolicamente muito importante, de uma história muito mais abrangente. Mas, não sendo possível narrar toda a história do mundo (até porque ela ainda não terminou), terei de me contentar em contextualizá-la estabelecendo limites mais ou menos arbitrários.

O contexto imediato da instituição da Páscoa foi o da luta em prol da libertação de todo um povo. Os descendentes de Israel serviam, desde várias décadas, como escravos no Egito, sofrendo toda sorte de perigos e privações. Atendendo ao clamor desse povo, o Deus de seus antepassados decidiu intervir e livrá-lo dessa carga, e para tanto levantou Moisés e o fez líder dos hebreus. Teve início então uma longa série de tentativas de persuadir o teimoso Faraó a permitir que o povo de Israel partisse. Entretanto, essa "negociação", que incluiu estupendas demonstrações do poder de Deus e da relativa insignificância do monarca, não rendeu bons resultados, mesmo após o envio de nove pragas progressivamente aterradoras. Mas a décima, conforme o Senhor havia revelado a Moisés, resolveria o problema, ao convencer o Faraó de que seria melhor curvar-se diante do desejo do Deus de Israel. E foi, de fato, a pior de todas as pragas: a morte dos primogênitos de todas as famílias da terra do Egito.

O rito da Páscoa foi ordenado como preparação do povo hebreu para aquela noite terrível em que Deus executaria sua sentença sobre os egípcios. Cada família deveria tomar um cordeiro sem defeito e sacrificá-lo ao escurecer. Sua carne seria assada no fogo e comida pelos que se encontrassem na casa, juntamente com pães sem fermento e ervas amargas, em alusão à vida cruel que o povo levava naquela terra. O cordeiro devia ser comido por inteiro, e o que sobrasse seria queimado ao amanhecer; e os participantes precisavam comê-lo com pressa e já trajados, como peregrinos, para a viagem a que, segundo Deus havia garantido, dariam início no dia seguinte.A porta de cada casa onde fosse celebrada a Páscoa deveria ser molhada com o sangue do animal, num ato simbólico que determinava a posição tomada por cada família naquela guerra silenciosa entre Israel e o Egito, ou antes entre o Deus de Israel e os deuses do Egito, contra a libertação dos hebreus ou a favor dela. Cada filho de Israel deveria aspergir sangue sobre a sua porta como um sinal de sua fidelidade. Naquela noite fatídica, o próprio Deus, segundo suas próprias palavras, passaria por ali e verificaria a situação de cada casa. Os lares obedientes, protegidos pelo sinal combinado, seriam poupados da morte de seus primogênitos. O sangue do animal os protegeria; o cordeiro sem defeito havia sido sacrificado no lugar de um dos habitantes da casa.

O sacrifício divinamente ordenado de muitos cordeiros permitiu que o povo de Israel escapasse de sua miserável condição de escravos numa terra estranha e partissem rumo a uma difícil peregrinação à terra que seria deles por direito, e que precisariam conquistar arduamente. Mas aquele povo nunca se esqueceu de sua história e, seguindo as recomendações do Senhor, passaram a reviver todos os anos aquele momento de gloriosa apreensão que seus antepassados haviam experimentado, na noite em que o Todo-poderoso passou por entre eles. Reviveram tudo isso, e o fazem até hoje, preservando aquele mesmo ritual, chamado Pessach, que significa, simplesmente, "passagem".

Durante a peregrinação no deserto do Sinai, entre o Egito e Canaã, instituíram-se as leis civis e os ritos religiosos do povo de Israel. Dentro desta última categoria foi concedido um papel de importância primária aos sacrifícios de animais, nos quais os cordeiros desempenhavam o papel principal, muito embora essa fosse uma prática muito mais antiga que o próprio Israel. A centralidade do cordeiro era evidente na vida desse povo pastoril, em todos os sentidos, e o fundador da mais duradoura casa real foi também um humilde pastor de ovelhas. Quando o Messias finalmente veio, também se serviu amplamente da figura do cordeiro a fim de comunicar ao seu povo o significado de sua própria obra. Ele próprio apresentou-se como o bom pastor e como a porta do aprisco, dentro do qual o rebanho estaria seguro. Mais tarde, seus seguidores o compararam ao sacerdote que entrava anualmente na presença de Deus com a oferta em nome do povo. Mais do que isso, porém: ele foi comparado ao próprio cordeiro do holocausto. Oito séculos antes de sua chegada, o profeta Isaías já havia se referido a ele nesses termos, isto é, como alguém sem qualquer pecado que seria morto em lugar de todo o seu povo, e o faria de forma voluntária e mansa, como um cordeiro.

Coincidentemente (ou não), Jesus foi morto na véspera da Páscoa, que naquele ano ocorreu num sábado, e seu túmulo foi encontrado vazio na manhã subseqüente à mesma. Essa confluência de datas ajuda a explicar, sem dúvida, a apropriação e reinterpretação do significado da Páscoa pelo cristianismo, que nasceu ali mesmo. A semelhança entre a velha Páscoa e a nova, porém, vai muito além disso. Para os judeus, a Páscoa era a comemoração da passagem de Deus entre os egípcios para libertar seu povo do cativeiro e levá-lo a uma boa terra em que seriam livres. Mas apenas foram poupados os que sacrificaram o cordeiro e aspergiram seu sangue na porta de suas casas. Apenas foram libertos da escravidão os que creram na eficácia do sangue do cordeiro. Para nós, cristãos, a analogia é exata: a Páscoa é a comemoração da passagem de Deus por este mundo para nos libertar no cativeiro e nos levar à boa terra em que seremos livres. Mas para isso cremos na eficácia do sangue do Cordeiro; ele morreu para que nós vivêssemos. E aspergimos seu sangue nas vergas de nossas portas.

O paralelo é, evidentemente, profundo demais para que a "usurpação" da festa da Páscoa pelos cristãos possa ser interpretada como mero resultado de uma coincidência fortuita de datas. A Páscoa cristã pode ser considerada superficialmente como uma reformulação radical de sua antecedente judaica. Mas isso não é totalmente verdadeiro, pois a essência perpetuou-se de maneira inabalável. A morte de Cristo é a manifestação concreta e visível de algo de que a celebração milenar que a antecedeu não era muito mais que um símbolo profético, no sentido mais amplo dessa palavra. Ouvi certa vez um pregador dizer Jesus Cristo é o tema principal de todo o Antigo Testamento. Hoje sei que, entendida em sua perspectiva correta, essa afirmação não é exagerada, de modo algum. Olhando retrospectivamente, torna-se claro que todo aquele complicadíssimo e quase incompreensível sistema de leis e rituais visava não apenas satisfazer as necessidades do povo da época, mas também o de prepará-lo culturalmente e espiritualmente para a compreensão e aceitação daquela luz mais perfeita que haveria de brilhar em Belém da Judéia, a mais plena e palpável revelação já vinda do alto, porque consistiu na encarnação de ninguém menos que o próprio Verbo de Deus.

O Apocalipse descreve eloqüentemente o resultado disso quando se refere aos santos reconciliados com Deus como aqueles que "lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro". Mas, seguindo o profeta Isaías, João Batista já havia se utilizado dessa mesma metáfora. A diferença é que o profeta mais antigo falava de algo que então se perdia nas brumas do futuro, ao passo que o mais recente teve a imensa alegria de dizer o mesmo apontando para um indivíduo que estava bem à sua frente. E o que ele disse foi: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo".

É claro que se referir a Cristo como um cordeiro é uma metáfora, mas dizer isso não nos permite colocar a situação em sua perspectiva correta. Não devemos supor que essa figura de linguagem tenha surgido como mera tentativa por parte de alguns judeus cristãos de racionalizar ou mesmo apenas ilustrar a obra de Cristo à luz de seu próprio pano de fundo cultural. No sentido que realmente importa, esse substrato é que foi a metáfora, e a vida de Cristo era a realidade transcendente para a qual ela apontava. A liberdade que ele trouxe é de um tipo muito superior à que os hebreus conquistaram ao sair do Egito; a vida futura é incomparavelmente mais excelente que aquela encontrada pelos judeus na Palestina; e a manifestação da glória de Deus, presente entre os homens, será muito mais plena então do que poderiam esperar encontrar os peregrinos que anualmente buscavam o templo em Jerusalém.

Não espanta que, assim como a antiga Páscoa, a nova também esteja vinculada a uma refeição. Há, talvez, algo de melancólico na Ceia do Senhor, uma saudosa lembrança no ato de comer a carne e beber o sangue do Filho de Deus. Mas não deixa de ser verdade que a Comunhão pressupõe um aparente paradoxo, o de celebrar a memória de alguém que não está ausente. Por outro lado, a refeição em comum é provavelmente a melhor forma de demonstrar afeto e amizade verdadeiros. Hoje, ao repartir o pão e beber o vinho, cristãos em todas as partes do mundo rememoram um momento glorioso do passado. Mas não se trata apenas de olhar para o passado, mas também para o futuro, ou melhor, para a consumação da história, quando beberemos do fruto da videira no reino do Pai. Foi o que Jesus prometeu naquela mesma noite, e é por esse momento que aguardamos ansiosamente.

Um comentário:

prof disse...
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