1 de abril de 2007

Papel pequeno

Na última sexta-feira vivi uma das experiências mais longamente esperadas da minha não muito longa existência: o recebimento do meu diploma. Na verdade, a cerimônia de colação de grau da minha turma foi há quase um mês, mas, devido a uma série de complicações burocráticas que não vêm ao caso agora, não pude participar. Paguei por isso tendo de esperar um pouco mais para receber meu diploma. Pra dizer a verdade, considero que foi um bom negócio, já que não sou mesmo muito chegado nesse tipo de cerimônia. Prefiro cem vezes a coisa como aconteceu: cheguei à DiCA (Divisão de Controle Acadêmico), assinei um papel e a mocinha me deu o que eu havia ido buscar.

Isso nem de longe significa, porém, que aquele momento tenha sido despido de seu óbvio significado simbólico. Na verdade, foi um momento de intensa alegria: aquela quase incomparável alegria proporcionada pela consciência do dever cumprido. Não, é claro, que tenha sido tão bem cumprido quanto poderia. Mas deixo para outro dia, ou talvez para nunca, os comentários sobre essa questão.

Apesar de ser raro que ocorra mais de uma vez na vida de uma pessoa, parece-me que há nesse acontecimento algo que pode ser considerado banal. Refiro-me ao sentimento de realização, de conquista, de qualquer dessas coisas com grande potencial para inflar o ego. Todo mundo passa por isso pelo menos algumas vezes, e não só (nem principalmente) na vida acadêmica. Se o que senti na sexta-feira fosse tão somente isso, garanto que eu não diria aqui uma palavra a respeito, por achar esse assunto demasiado sem importância, e estaria agora, como era a minha intenção, escrevendo sobre a filosofia existencialista. Mas julguei conveniente deixar isso pra depois justamente porque a experiência subjetiva vinculada ao ato de receber o referido documento não foi o que eu teria esperado há alguns anos.

Nunca fui mesquinho o suficiente para desejar um diploma apenas pela importância social que sua posse conferiria à minha pessoa. Ou talvez seja mais correto dizer que, de modo geral, eu era (e sou) egocêntrico demais pra dar muita atenção ao que os outros acham de mim. Seja como for, o fato é que eu sempre gostei e senti necessidade de símbolos, e esse pedaço de papel é simbólico para mim. Meu empenho por ele desde o ano 2000, quando comecei a estudar para os vestibulares, era na verdade uma busca por aquilo que ele apenas representava: o conhecimento, ainda que específico, que eu adquiriria ao longo do percurso e que, afinal, me habilitaria a receber um atestado da minha competência para fazer alguma coisa na vida. Além, é claro, da preocupação muito saudável e pragmática com meu futuro profissional e financeiro, o que eu queria era isso. Foi com esse pensamento que cheguei à universidade.

Mas quão pobre e estreita era a minha expectativa se comparada ao que realmente me aguardava! Eu, um adolescente de 17 anos que não gostava de sair de casa nem pra ir à padaria, e que não sabia sequer lavar as próprias cuecas, de repente me vi morando longe de casa (cento e cinqüenta quilômetros constituíam uma distância psicologicamente infinita) e cuidando dos meus próprios problemas. Em nenhum outro período da minha vida conheci tantas pessoas e situações, nem tão diferentes entre si, quanto no primeiro semestre de 2002. Houve, felizmente, mais experiências boas do que ruins, mas de qualquer forma seria impossível prosseguir vivendo como se nada tivesse acontecido.

Fui exposto a todas as oportunidades, riscos e tentações da vida universitária; fiz amizades boas e verdadeiras; tive as conversas mais inteligentes e interessantes, assim como as mais idiotas, em todos os sentidos possíveis da palavra; aproveitei muito do meu tempo, e joguei fora também uma boa parte dele. Fora da universidade propriamente dita também passei por inúmeras experiências enriquecedoras, dentre as quais destaco a calorosa recepção dos membros da minha nova igreja, que me acolheram com um amor cristão tão genuíno que me colocam até hoje em imensa dificuldade na tentativa de expressar em palavras a minha gratidão.

Mas, em meio a tudo isso, há duas experiências que merecem destaque. Uma delas é que perdi quase todo o encanto pela vida acadêmica tão logo comecei a conhecê-la por dentro. Não pretendo entrar em detalhes sobre as causas disso. Basta dizer que ela não me satisfez, e isso é de importância enorme para o assunto de que estou falando neste texto. Rapidamente descobri que havia muitas coisas que eu precisava aprender com urgência, e que o curso não poderia me ensinar de modo algum.

Não me refiro apenas à questão do crescimento pessoal. Mesmo no plano meramente intelectual isso se manifesta de maneira evidente. Menos de 15% dos livros que li durante a graduação podem ser considerados de alguma utilidade para a formação profissional e acadêmica que o curso se propõe a oferecer. Isso constitui a segunda experiência a que me referi. E nisso, devo dizer, o curso não me ajudou, mas a universidade sim, colocando à minha disposição uma biblioteca maior do que qualquer outra que eu já vira. Ali, sozinho ou acompanhado, lendo ou simplesmente passeando entre as prateleiras, vivi vários dos mais importantes e decisivos momentos da minha história. Ainda hoje aquele prédio é para mim uma espécie de santuário, só superado em importância sentimental pela casa dos meus avós maternos, onde passei quase todos os natais da minha infância. (Meus pais nunca moraram muito tempo em casa alguma, de modo que minhas lembranças do lar não se vinculam a nenhum local específico, mas tão somente aos móveis).

Vou parar por aqui, porque isso está se tornando demasiado parecido com as reflexões autobiográficas de um velho. Não que eu não goste de ouvir histórias de velhos; o problema é que não me considero velho o suficiente para ter o direito de escrever uma autobiografia ou mesmo para ser capaz de escrever alguma que seja minimamente interessante. Cada fase da vida tem seus prazeres característicos e, embora eu realmente me considere velho demais para a minha idade, não devo usurpar benefícios aos quais minha condição atual não me dá direito. E muito menos pretendo dar a entender que, tendo aprendido a lavar minhas cuecas e a fazer algumas coisinhas mais, sou agora um sujeito maduro e adulto que já não tem mais nada a aprender e por isso pode falar de seus anos anteriores com ar de superioridade paternal e pedante. Na verdade, minha intenção é quase o oposto exato disso e, a fim de explicar melhor esse ponto, passo logo à conclusão.

Não poucos dos pensadores mais notáveis que já encontrei jamais tiveram um diploma de nível superior, sem que isso tenha chegado a fazer-lhes falta; até tenho a impressão de que alguns deles não seriam tão brilhantes caso tivessem passado pelo estudo formal. Apesar disso, considero que, para a maioria das pessoas e na maior parte das circunstâncias, o diploma, ou melhor, o conhecimento representado nele, é algo intrinsecamente benéfico e desejável. Mas assim como o mal, mesmo quando aparenta ser inofensivo e superficial, pode nos conduzir a um caminho que afunda em trevas cada vez mais espessas e inescapáveis, também o bem, mesmo buscado de maneira frívola e inconsciente, tem o poder de abrir as portas à contemplação de bens cada vez maiores e mais elevados.

Eis a explicação para o que aconteceu no meu caso. Vim a São Carlos para buscar conhecimento em questões de física e engenharia, assim como o diploma que atesta a posse dos mesmos. Mas vejo agora que o que encontrei é infinitamente superior e mais vasto. O conhecimento técnico e científico não foi tudo e, olhando da perspectiva mais geral da minha vida como um todo, não foi sequer o mais importante. O diploma que recebi há dois dias representa a consecução de um objetivo e o fim de uma etapa da minha vida. Mas muito do que efetivamente aprendi ao longo dessa etapa não cabe, nem mesmo simbolicamente, nesse pedaço de papel. Nela tiveram início muitas outras buscas mais importantes que ainda não terminaram. Não sei quanto tempo persistirei nelas, mas sei que não terminarão com a emissão de um documento.

Um comentário:

Marco Vinhola disse...

Caro André.
Primeiramente parabéns pela etapa vencida. Refiro-me a esta etapa exterior, a que como voce mesmo mencionou, não é a simbólica, emocional ou afetiva, mas a objetiva.
Segundo, parabéns pela outra etapa vencida: a conquista afetiva, emocional e simbólica que não está grafada no pergaminho mas está indelevelmente marcada no teu coração. Esta é a que importa. Digo isso do alto dos meus 50 anos.
Depois de muitas lutas, ao longo dos anos, este pedaço de papel ( ou de couro animal, não sei bem como é hoje em dia), irá amarelar , envelhecer mas não perderá jamais o encanto da conquista na juventude.
Pelo contrário. Para alguns de nós, o tom amarelado do diploma universitário, será uma espécie de catalisador para muitas lágrimas ocultas que não cairam antes. Ou será razão para muita indiferença. Isso depende do coração de cada um.
Finalizando este palavrório todo, quero dizer a você que não se perca de seus sonhos e ideiais mais belos. Faça deles, em meio às espinhosas lutas desta vida fugidia, uma razão, um porto seguro para sua existência porque os objetos, as pessoas, as posses, os títulos que ostentamos, seguramente não são nossos. O que temos é o que sabemos e o que sentimos. Isso é a real propriedade do homem. Você tem muita sensibilidade. Não a perca. Um grande abraço.