1 de agosto de 2008

Uma grande morte

Hoje vou iniciar um projeto que está nos meus planos há muito tempo, o qual é fruto da confluência de duas constatações: 1. não poderei me considerar gente enquanto não conhecer plena e diretamente as obras de Platão e Aristóteles; e 2. eu aprendo melhor sobre um assunto escrevendo do que simplesmente lendo a respeito. A primeira constatação, feita há mais de dois anos, me fez decidir que, sem perda de tempo, eu deveria ler todos os diálogos platônicos. Apesar disso, perdi bastante tempo desde então, e só agora estou começando realmente a fazer isso: reler os que já li e ler os que ainda não li. A segunda me fez decidir que adotaria o procedimento de escrever resumos das obras na medida em que as fosse lendo, o que me obrigaria a lê-las com calma e atenção, pensando e articulando o melhor possível seus elementos. Esse procedimento traria ainda a vantagem adicional de facilitar a memorização, além de colocar à disposição um esquema ao qual sempre poderei recorrer mais tarde. E, já que vou fazer isso, não vejo razão para não publicar essas anotações. Elas poderão ser úteis - se não como instrução, ao menos como incentivo à instrução - para os leitores não familiarizados com as obras, e poderão ser úteis para mim, na medida em que leitores com mais amplos conhecimentos sobre o tema decidirem compartilhá-los comigo.

Sem mais delongas, portanto, passo a expor algumas anotações sobre um dos mais belos textos que já li, a Apologia de Sócrates, na qual Platão reproduz o discurso de seu mestre por ocasião de seu julgamento pela assembléia de Atenas, o qual culminou, como disse Idel Becker, em "uma das grandes mortes da história".

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O discurso de Sócrates divide-se em três partes, relacionadas às etapas do julgamento. Na primeira, a mais longa, ele faz sua defesa, logo após a acusação feita por Meleto, seu denunciador. O discurso de Sócrates contrasta em vários aspectos com o dele, e também com os procedimentos usualmente adotados pelos réus do tribunal de Atenas. Ele não se considera um orador hábil, recusa-se a utilizar a linguagem dos tribunais e apresenta-se com a simplicidade que caracterizou todos os seus debates públicos. Também não faz drama, não derrama lágrimas, não traz seus filhos pequenos para implorarem por sua vida aos juízes. Todos esses procedimentos, além de indignos de um ancião (ele já tinha mais de setenta anos), são injustos em si mesmos, pois a função do juiz requer que ele não se deixe levar por apelos emocionais e retóricos, mas concentre-se em avaliar à luz da lei as evidências e os argumentos apresentados. Por conseguinte, é errado tentar persuadir os juízes por tais meios. Em sua defesa, o filósofo utiliza como suas únicas armas a justiça e a veracidade da causa que defende.

Antes de reportar-se diretamente ao discurso de Meleto, no entanto, Sócrates vê-se obrigado a defender-se de um outro acusador, pior que ele: a multidão, que é mais temível justamente por ser anônima ("exceto, talvez, algum comediógrafo" - clara referência a Aristófanes, que difamou Sócrates em sua peça As nuvens) e porque o caluniou durante anos a fio, deixando-lhe, no entanto, pouco tempo para defender-se naquele tribunal. Ela o acusou sempre de desprezar os deuses, de especular indevidamente sobre os mistérios do céu e da terra, de ser um sofista (no pior sentido da palavra) e de corromper a juventude. E o fez aproveitando-se da pouca idade de seus ouvintes, os quais, escutando tais calúnias desde a infância, cresceram habituados a tomá-las como verdadeiras, e agora são adultos e compõem aquela assembléia. A acusação de Meleto é apenas um resultado acidental desse problema de proporções muito maiores.

Em sua defesa, Sócrates apela ao testemunho da própria assembléia: que cada um se esforce para lembrar do que o ouviu ensinar, e cada um interrogue seus vizinhos quanto ao que estes ouviram. Isso bastaria para mostrar que as acusações não procedem, que o filósofo não defendeu a doutrina de Anaxágoras, nem as dos sofistas, nem sequer demonstrou interesse por tais idéias ou pretensão de tê-las compreendido. Por isso mesmo jamais procurou reunir discípulos, nem exigiu dinheiro dos jovens que o seguiram espontaneamente, e tampouco prometeu-lhes qualquer coisa ou ensinou a algum deles algo diferente do que disse a todos os demais. Se tivesse dito algo que pudesse corromper os jovens, seria de se esperar que ao menos alguns, tendo alcançado a maturidade, tomassem consciência do fato e se dispusessem a acusá-lo, ou que seus parentes reprovassem a conduta deles e responsabilizassem o filósofo por isso. No entanto, muitos deles estavam ali presentes e nada tinham de que se queixar.

Mas como se explica, então, o surgimento de tais mentiras sobre ele? Elas se devem à natureza da sua missão, que começou de maneira bastante inusitada. Um falecido amigo seu chamado Querofonte, conhecido e querido por todos os presentes na assembléia, havia ido certa vez a Delfos consultar o oráculo de Apolo, e nessa ocasião o deus afirmara não haver homem mais sábio que Sócrates. Tal declaração muito surpreendeu o próprio Sócrates, que não se considerava sábio de modo algum. Não podendo crer, contudo, que o deus mentira, pôs-se a refletir sobre o sentido daquelas palavras. Decidiu então refutar o oráculo, indo ter com eminentes políticos tidos por muitos - e por si mesmos - como sábios. Logo descobriu, porém, que esses homens não eram sábios de fato e, ao tentar fazer-lhes ver isso, conseguiu apenas a inimizade deles e de seus admiradores. Procurou em seguida os poetas, mas descobriu que eles não compreendiam sequer o significado de seus próprios versos, e também granjeou a inimizade deles, pois também estes se consideravam sábios. Foi então, aos artífices e achou-os sábios em sua arte. Porém, erravam em supor que isso os tornava sábios em assuntos mais elevados, e nisso eram iguais aos outros.

Ao longo desse processo, apesar do medo que sentiu ao despertar tanta hostilidade, o filósofo convenceu-se de que devia prosseguir realizando o propósito do deus, cumprindo a missão que este lhe comissionara, pois era necessário que ele compreendesse o sentido do que lhe fora dito. Percebeu, enfim, que sua superioridade em relação a todos aqueles pretensos sábios consistia no fato de que ele, embora também não fosse sábio, sabia que não o era, enquanto os outros falsamente julgavam sê-lo. O oráculo de Apolo era na verdade uma reprovação a toda a sabedoria humana, pois colocava todos os homens abaixo de um que nenhuma sabedoria tinha. Esses eventos trouxeram, no entanto, conseqüências inesperadas: muitas pessoas, vendo Sócrates demonstrar a tolice alheia, concluíram que ele próprio devia ser um sábio. Jovens ricos e ociosos passaram a segui-lo e a imitá-lo, interrogando e desafiando muitos pretensos sábios e obtendo resultados semelhantes aos seus, advindo daí sua fama de corruptor da juventude. E, a fim de difamá-lo, seus inimigos atribuíram a ele ensinamentos de outros.

Passa então a analisar as acusações de Meleto, que são absurdas e contraditórias. A despeito de sua declarada intenção de proteger os jovens, ele demonstra não ter jamais dedicado algum tempo pensando num meio de fazer bem a eles. Buscando bajular os presentes, Meleto aponta a lei e, por consegunte os juízes, senadores e cidadãos em geral, que a fazem cumprir, como aqueles que tornam os jovens melhores. Mas a conclusão é absurda, pois a educação dos jovens, como qualquer outra tarefa complexa, é arte dominada por poucos, e a maioria dos que se põem a opinar sobre o assunto só causa problemas. Todos sabem disso, como se nota no fato de que os cidadãos ricos pagam grandes somas a certos mestres para que eduquem seus filhos, o que seria desnecessário se qualquer um pudesse se incumbir dessa tarefa. É absurda também a acusação de que Sócrates corrompe propositalmente os jovens que o acompanham. Todo homem deseja viver entre pessoas virtuosas, pois estas fazem o bem aos que estão ao seu redor, e ninguém pode ter interesse em tornar piores as pessoas com quem convive. Portanto, ou Sócrates não corrompe seus discípulos, ou o faz sem intenção. Em nenhum dos casos há crime, e em ambos Meleto está enganado. Enfim, é refutada a acusação de ateísmo, que, além de não ter sido corroborada por testemunhas, contradiz outra acusação feita pelo próprio Meleto: a de que o filósofo aprecia os demônios. Levado pela ânsia de difamar, Meleto fez acusações imprudentes que se excluem mutuamente, já que, sendo os demônios filhos bastardos dos deuses, crer naqueles e não nestes é como crer em mulas sem admitir a existência de cavalos e jumentos.

Sócrates analisa sua situação. Se condenado, não será o primeiro justo a ser vítima do ódio do povo, e tampouco o último. Não se envergonha dessa condição, pois o critério orientador das ações humanas não deve estar no risco que proporcionam, e sim na sua justiça ou injustiça. Exemplificam essa virtude Aquiles e todos os heróis que pereceram em Tróia, os quais deram mais valor ao dever que às suas próprias vidas. São exemplares também os atos do próprio Sócrates quando, na juventude, serviu o exército da cidade e quando, como político, sofreu ameaças de prisão e morte por defender o que considerava justo. Retirou-se da vida política porque quem combate pela justiça não deve se meter nos assuntos públicos, e assim se voltou para a realização dessa tarefa no âmbito de suas relações pessoais. Se não tivesse agido assim certamente já estaria morto, pois não há outro destino para os que realmente lutam pela justiça por meios políticos.

Assim, Sócrates jamais tentou transformar sua missão pedagógica em plano de poder. Disso foi proibido pela voz de um gênio que sempre o acompanhou, impedindo-o de praticar ações que acarretassem seu próprio mal. Essa voz sem dúvida tinha origem divina, tanto quanto a sentença de Delfos, e impeliu o filósofo em sua missão. Por causa desta, e não por amor próprio, ele se defende diante do tribunal, temendo que os atenienses recusem a dádiva divina que opera através dele e que os deuses não lhe enviem um sucessor. Prova adicional da origem divina da mesma encontra-se no fato de que o filósofo nada tinha a ganhar com ela, a tal ponto que, não podendo aceitar dinheiro de seus discípulos, ele rapidamente empobreceu, pois tais afazeres o deixaram sem tempo para cuidar de seus próprios assuntos particulares.

Em vista disso tudo, recuar diante da ameaça de morte seria, isso sim, motivo justo para que o acusassem de desprezar os deuses. Se lhe propusessem absolvição sob a condição de não mais filosofar, ele responderia que é mais importante obedecer aos deuses que aos homens, e continuaria exortando os atenienses à preocupação com a sabedoria e a verdade, em detrimento da riqueza e da fama. Sua missão não pode ser abandonada, pois é o que há de mais valioso dentre tudo o que se faz na cidade. Além disso, temer a morte é atribuir-se uma sabedoria ilusória, como a dos políticos, poetas e artesãos. Pois todos a temem sem de fato saberem se ela é um mal ou o supremo bem. Logo, é errado pautar as ações pelo risco de morte que elas acarretam, e muitos homens tidos por sábios já procederam vergonhosamente nessa situação, como, aliás, se a absolvição diante do tribunal os tornasse imortais. O bom critério reside naquilo que é conforme à virtude. A eventual condenação de Sócrates trará menor dano a ele do que aos próprios atenienses, pois o exílio e a perda da vida ou dos bens causa muito menos mal a um homem do que as injustiças que ele faz aos outros.

Vem então a condenação, que o filósofo recebe sem surpresa. De acordo com a lei, deve sugerir uma pena para si mesmo, em contra-proposta à sentença de morte sugerida por seus acusadores. Começa a segunda parte do seu discurso. Sócrates pergunta que pena merece ele, que sempre desprezou tudo aquilo que tantos julgavam tão importante, empenhando-se em levar aos homens o maior bem possível. Mereceria, na verdade, ser sustentado pelo Estado, honra usualmente concedida aos atletas campeões. Tal proposta não seria arrogante, mas sim a correta aplicação do preceito de não cometer injustiça contra ninguém. Além disso, não seria lógico propor em alternativa à morte, que não se sabe se é boa ou má, uma pena que se sabe ser má, como prisão, multa ou exílio. Porém, não sendo permitido fazer uma proposta justa, Sócrates propõe aquela que lhe parece menos injusta: uma multa que ele possa pagar. Mas como é muito pobre, só pode pagar uma mina de prata. Seus ricos discípulos, no entanto, o convencem a propor uma multa de trinta minas, tomando-os por fiadores.

A assembléia condena o filósofo à morte, e começa a última parte do seu discurso. Ele censura os que o condenaram por darem motivo à difamação da cidade, pois todos a acusarão de ter executado um sábio. E isso era desnecessário, pois eles poderiam ter se livrado dessa culpa com um pouco de paciência, já que ele não iria mesmo viver muito. Morre por recusar-se a se defender de maneira indigna, com discursos falsos que agradam aos juízes, pois é injusto sacrificar pela vida a obediência a valores maiores que ela. Fugir da morte, que agora o acomete, é mais fácil que fugir da maldade que domina seus inimigos. Mas a cada um cabe suportar sua pena. Sócrates vaticina-lhes que virá sobre eles vingança severa da parte de Zeus. Condenaram-no para não terem de prestar contas de suas más ações, mas não serão bem sucedidos nesse intento: serão muitos os que os reprovarão.

Volta-se então para os verdadeiros juízes, os que votaram segundo a justiça, e conta-lhes que o resultado daquele julgamento resultaria num bem para ele, pois seu gênio silenciara ao longo de todo aquele dia. Tal conclusão é plausível, pois a morte só pode ser uma de duas coisas: a cessação da existência ou a migração da alma para outro lugar. O primeiro caso é um bem, pois a inconsciência é preferível às tribulações desta vida, e o segundo o é igualmente, ainda mais se for verdade que no Hades encontram-se todos os mortos. Livrando-se dos falsos juízes de Atenas, o filósofo desfrutará a companhia dos verdadeiros: deuses, heróis, homens justos do passado e todos os que, como ele próprio, foram injustamente sentenciados à morte. Tais mortos são mais felizes que os vivos. Os juízes não devem temer a morte, pois o mal jamais atinge os homens bons. Sua própria morte é, naquelas circunstâncias, um bem, pois o liberta do mundo; aqueles que o condenaram, embora cressem estar causando-lhe um mal, eram na verdade instrumentos postos a serviço do seu bem. Sócrates pede que exortem os filhos dele à justiça e à verdade tão veementemente quanto ele próprio exortou a todos. E despede-se com as seguintes palavras: "É hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas vidas. Quem terá a melhor sorte? Só os deuses sabem."

26 de julho de 2008

De volta à velha ordem

Com a publicação deste texto concluo a série de posts sobre crítica textual bíblica a que dei início em novembro do ano passado. Tendo discorrido sobre os fatores que causaram o aparecimento das variantes textuais (aqui), citado alguns exemplos das mesmas (aqui), contado a história das famílias de manuscritos e de como os pesquisadores puderam reconstituí-la, e tudo isso tanto para o Novo (aqui e aqui) quanto para o Antigo Testamento (aqui) - embora com grau de detalhamento notavelmente superior no primeiro caso - , estou, enfim, em condições de apresentar os critérios efetivamente utilizados na escolha entre as variantes. Os autores que estudei divergem quanto à forma de enunciar e enumerar os critérios, mas na realidade todos estão expressando um mesmo método. Sigo aqui o esquema geral descrito por Archer. Acredito que essas divergências aparentes se devem ao fato de que a crítica textual não é uma ciência exata, e a aplicação de seus critérios não é (e não pode ser, como ficará claro adiante) feita de modo mecânico, algorítmico. Voltarei a essa questão depois de listar os critérios adotados:

1. A variante mais antiga deve ter preferência. Em muitas situações isso significa que certas variantes merecem preferência por serem típicas de uma família de manuscritos mais antiga. No caso do Antigo Testamento, trata-se do Texto Massorético (embora variantes típicas de outras famílias possam, em princípio, ser mais antigas); para o Novo Testamento, significa que a variante escolhida deve encontrar apoio no texto alexandrino ou no texto ocidental. Note-se, pois, que não se trata da antiguidade do manuscrito, e sim da antiguidade do texto que ele contém. A idade dos manuscritos propriamente ditos só deve ser levada em conta quando o estudo das tendências gerais das famílias não fornece uma resposta conclusiva para o caso em questão. E, mesmo assim, deve-se ter em mente que a determinação da qualidade de um manuscrito requer a análise de vários outros fatores, alguns dos quais são mais importantes que a data da cópia.

2. A variante mais difícil deve ter preferência. Esse critério fundamenta-se no fato de que o copista, ao introduzir modificações intencionais no texto, nunca faz isso com intenção de torná-lo mais complicado, obscuro ou grosseiro, e sim mais simples, claro e elegante. Portanto, a existência de variantes do primeiro tipo se explica mais facilmente pela hipótese de que são essas as verdadeiras. A aplicabilidade desse critério é atenuada, entretanto, pela existência das variantes não intencionais e pela possibilidade de erros de interpretação por parte do copista, pois nesses casos ele pode inadvertidamente ter introduzido uma complicação desnecessária, chegando, em casos extremos, a produzir um texto sem sentido ou que contradiz claramente a intenção expressa pelo autor no conjunto da obra.

3. A variante mais breve deve ter preferência. Analogamente ao que foi dito no item anterior, a tendência dos escribas é acrescentar porções de texto, a título de esclarecimento ou comentário, e não omitir o que encontraram nos manuscritos que têm em mãos. Assim como no caso anterior, contudo, esse critério só se aplica aos casos em que a alteração é intencional. As variantes acidentais muitas vezes podem ser facilmente identificadas como tais, mas ainda assim a sua existência impõe um limite a esse critério.

4. A variante que melhor explica a existência das demais deve ter preferência. Esse critério se aplica especialmente (embora não exclusivamente) a passagens que possuem um número relativamente elevado de formulações alternativas. Obviamente só uma delas pode ser a correta. A questão, portanto, pode ser colocada da seguinte forma: levando em conta os processos usuais de origem dos erros e o que se conhece da história da transmissão da passagem em questão, qual das variantes, se tomada como autêntica, explica com maior naturalidade a origem das outras? Esse critério inspira-se no método proposto por Karl Lachmann no século XIX, o qual é ainda hoje utilizado na crítica textual da literatura clássica, mas inaplicável aos textos bíblicos, especialmente ao Novo Testamento. Mas, ao invés de reconstituir a árvore genealógica dos manuscritos, conforme a proposta de Lachmann, reconstitui-se a genealogia de cada uma das variantes, consideradas individualmente. Esse critério também pode ser aplicado, embora com maior cautela, à análise das traduções do texto para outros idiomas, procedimento que também fornece resultados seguros em alguns casos. E, é claro, o critério encontra uma limitação natural nos casos em que duas ou mais variantes explicam-se mutuamente de maneira igualmente satisfatória.

5. A variante com apoio em tradições independentes deve ter preferência. Esse critério encontra aplicação mais limitada, embora não de todo inexistente, na crítica textual do Novo Testamento, pois as famílias cesareense e bizantina foram influenciadas pelas suas predecessoras. Seu fundamento reside no fato de que, havendo uma mesma variante em tradições textuais independentes, é inverossímil atribuir esse fato à ocorrência repetida de um mesmo erro. Evidentemente, esse critério é tanto mais significativo quanto mais longa e complexa for a variante em questão, ou quanto menos comum for o tipo de alteração (intencional ou não) que poderia tê-la produzido. Embora a aplicação do critério se dê principalmente na comparação entre famílias, também pode ser feita do ponto de vista puramente geográfico, já que, como foi explicado anteriormente, os dois aspectos estão intimamente relacionados.

6. A variante mais de acordo com o estilo do autor deve ter preferência. Naturalmente, esse critério requer muita cautela, pois sua aplicação indiscriminada pode eliminar traços de autêntica originalidade e espontaneidade do autor no momento da composição, tornando o texto mais uniforme e padronizado do que deveria ser. E, de fato, muitos abusos e arbitrariedades já foram cometidos dessa maneira. Uma precaução adicional contra esse critério deve ser empregada quando existe a possibilidade de o autor do texto ter usado outros materiais, escritos ou orais, como fontes para a composição do trecho em questão, pois nesse caso ele pode perfeitamente ter preferido manter as palavras da fonte utilizada, o que impediria a manifestação do seu próprio estilo. Esse critério não tem, portanto, nada de absoluto, mas pode lançar alguma luz sobre situações indecidíveis por outros meios.

7. A variante doutrinariamente neutra deve ter preferência. Aquelas variantes que podem ser satisfatoriamente explicadas como tentativas de contornar alguma dificuldade imposta pelo texto devem ser rejeitadas em favor das que mantêm essa dificuldade, visto não ser verossímil a criação intencional de dificuldades. Porém (e isso é importantíssimo), o estudioso deve levar em conta aquilo que seria considerado uma dificuldade do ponto de vista do copista ou dos autores da variante em questão, e não do seu próprio ponto de vista. Por isso, a análise desse ponto requer um estudo intenso da evidência externa ao texto, a fim de se conhecer, tanto quanto possível, a mentalidade e as circunstâncias dominantes no meio em que o texto foi produzido.

Não é difícil perceber, a partir de uma consideração atenta do que foi dito acima, que os critérios não necessariamente apontarão numa mesma direção para um dado caso. E, na verdade, a possibilidade de contradição entre eles concretiza-se muito freqüentemente. A variante mais difícil pode não ser a que melhor se ajusta ao estilo do autor, a provavelmente mais antiga pode ter contra si testemunhos independentes, a mais breve pode conter indícios de sectarismo, e assim por diante. E, não havendo uma rígida hierarquia entre os critérios, não se pode apelar a nada parecido com uma contagem de pontos em favor desta ou daquela alternativa.

Sendo fruto de um processo histórico bastante complexo e não conhecido em todos os seus detalhes, o objeto de estudo da crítica textual consiste, entretanto, essencialmente em detalhes. Por essa razão os critérios acima, embora objetivamente válidos como normas gerais, não podem ser devidamente aplicados sem um conhecimento adequado dos muitos aspectos envolvidos no caso particular sob análise. E o conhecimento desses aspectos, pela sua própria natureza, não é passível de sistematização num conjunto de normas semelhante. Não existe um manuscrito, conjunto ou mesmo família de manuscritos que se possa seguir cegamente: toda decisão em crítica textual deve ser tomada analisando-se passagem por passagem, variante por variante, tradução por tradução, manuscrito por manuscrito, discussão por discussão dentre tudo o que foi dito sobre a passagem em questão. Embora sejam, em grande medida, objetiva e racionalmente justificáveis, a tal ponto que os desacordos entre os estudiosos do assunto são raros e de importância bastante reduzida, os resultados de uma investigação apropriada requerem aquela intimidade entre o pesquisador e seu objeto que só se atinge mediante uma longa e respeitosa convivência.

4 de julho de 2008

A esposa e o marido

Nota introdutória: este post é continuação do post O primeiro e o último. Os dois formam, na verdade, um único texto. Por isso, é recomendável ler aquele antes de dar início a este.

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O terceiro lugar deste temível quarteto é o único a ser ocupado por uma mulher: minha possível futura esposa. Aqui caberia uma série de minuciosos esclarecimentos sobre o modo como encaro essa questão. Pois eu costumo ser muito cuidadoso ao falar de assuntos importantes, e poucas coisas me parecem mais sagradas que o casamento. Mas farei uma tentativa de me refrear e dizer apenas o essencial para o propósito deste texto. E provavelmente nada é mais importante do que dizer que, diferentemente do que parece ocorrer com muitos solteiros, eu estou muito longe de ter certeza de que um dia vou me casar, ou de que não vou. O matrimônio é para mim uma dentre duas opções, e não posso afirmar que seja a mais atraente. A outra opção - o celibato - oferece vantagens no mínimo igualmente interessantes. Creio que alguns tomarão essas declarações como evidência de que estou acima dos prazeres da carne, e a maioria suporá tratar-se apenas de um exemplo daquela afetação de auto-suficiência adolescente que todos conhecemos tão bem. Mas ambos os grupos estarão enganados a meu respeito: não estou acima de nada, e tampouco sou auto-suficiente, ou penso sê-lo, ou penso que devo fingir que sou. Apenas levo muito a sério aquela história de "antes só que mal acompanhado", e reservo-me o direito inalienável de ser exigente; afinal, só uma mulher muito especial seria capaz de suportar a convivência com alguém como eu. Estou dizendo tudo isso apenas para deixar claro que, embora eu não saiba se vou me casar ou não, e embora não dedique nem uma fração do meu tempo à tentativa de concretizar essa possibilidade, nem por isso deixo de considerá-la aquilo que é: uma possibilidade que, aliás, não merece nenhum desprezo, tal é a seriedade e importância do assunto.

Feitos esses esclarecimentos, devo dizer algo sobre como espero que seja a minha possível futura esposa, a mulher pela qual eu deverei abrir mão de todas as outras. Faz vários anos que, sempre que penso nisso, me vem à mente em primeiro lugar uma mesma idéia. E ela me vem com ainda maior nitidez desde que li a peça O velho estadista (The elder statesman), que considero a segunda mais bela de T. S. Eliot (pois Murder in the cathedral permanece imbatível) e que contém uma admirável dedicatória à esposa do grande poeta. Talvez eu possa dizer simplesmente que estou me referindo ao desejo de conhecer e de ser conhecido. Mas haverá, de fato, alguma simplicidade nisso? Não ignoro que é praticamente impossível permanecer desconhecido por alguém com quem convivemos o tempo todo e em tão alto grau de intimidade. Mesmo assim, parece-me que um instinto de auto-preservação, um empenho em evitar conflitos desnecessários ou mesmo o mero desejo de sermos admirados por alguém que admiramos pode nos levar a ocultar algo da parte mais profunda do nosso ser, aquela da qual eu mesmo só me atrevo a falar durante as minhas orações - e mesmo assim nem sempre. Eliot expressou isso muito bem através destas palavras do seu idoso protagonista, quando falava à filha e ao genro sobre sua relação com sua falecida esposa e com certos dilemas que sempre o haviam afligido (a tradução é de Ivo Barroso, e o texto original está no final do post):

E se não há nada que dela você oculte
- ainda que possa considerar importante
ocultá-lo do resto do mundo - sua alma está salva.
Se na vida de um homem há uma pessoa, uma só que seja,
a quem ele esteja disposto a confessar tudo -
e isto inclui, veja bem, não apenas atos criminosos,
não apenas torpezas, mesquinharias e covardias,
mas igualmente situações que são apenas ridículas,
nas quais agiu como tolo (e quem nunca o foi?) -
então ele ama essa pessoa e seu amor irá salvá-lo.
Quanto a mim, jamais amei alguém de fato. [...]
Passei a vida tentando esquecer-me a mim mesmo,
tentando identificar-me com o papel
que escolhi representar. E quanto mais fingimos,
tanto mais difícil se torna livrar-nos do fingimento,
sair do palco, vestir nossas próprias roupas
e falar como nós mesmos. [...]
Sua mãe nada sabia a esse respeito. E sei
que nunca conheci sua mãe, nem ela me conheceu.
Imagino que ela jamais compreenderia
ou então teria ciúmes dos fantasmas que me perseguem.
Ainda sou dessa opinião. Como abrir seu coração
quando se está certo da reação contrária?
Como confessar-se sem esperança de absolvição?
Ela não teve culpa. Nunca nos entendemos propriamente.
Por isso, vivemos com um profundo silêncio entre nós dois,
e ela morreu em silêncio. Nada tinha a me dizer.

Creio que o que mais temo no casamento é a possibilidade de jamais vencer essa barreira. Talvez as pequenas máscaras do dia a dia sejam muito difíceis de tirar; talvez algumas pequenas e insignificantes mentiras ou omissões se reforcem mutuamente e se consolidem com o passar do tempo, bloqueando para sempre o acesso dela a certas obscuras regiões da minha alma. Talvez isso afinal resulte em alguma medida de incompreensão, frieza e solidão, mesmo que o amor verdadeiro jamais deixe de existir. É por isso que, mesmo sem saber sequer se terei ou não uma esposa, adquiri muito cedo a convicção de que ela seria alguém de quem eu jamais desejaria esconder nada. Hoje percebo que isso não é assim tão simples, mas permanece como um ideal a ser atingido e constantemente buscado. E assim coloca-se inevitavelmente, com relação aos meus maus atos, a seguinte questão: como será se um dia, movido pela necessidade de ser sincero, eu tiver de confessar esses atos à minha esposa? Deve ser terrível contemplar a decepção nos olhos da mulher amada. O problema é semelhante ao que ocorre no caso do primeiro acusador, com o agravante de que desta vez não se trata de um artifício da minha mente, mas sim de uma possibilidade real de ocorrência futura, e com uma pessoa não menos real. Os olhos dela, olhos cuja cor eu ignoro, me seguem incessantemente.

Nenhum olhar se compara, entretanto, ao do quarto acusador, a começar pelo fato de que este, ao contrário dos três primeiros, não é uma metáfora, nem uma figura do passado, nem uma possibilidade não concretizada, mas uma pessoa real, ainda mais real que eu mesmo. Possui planos mais sublimes e grandiosos para o meu futuro do que eu fui capaz de imaginar durante a infância, e é ele próprio mais puro do que jamais fui em qualquer momento da mesma. Sua sabedoria é infinitamente maior que o máximo que poderei obter dela até minha velhice. Seu amor por mim é incomparavelmente superior ao de qualquer mulher, assim como a intensidade do seu sofrimento em decorrência das minhas faltas, passadas ou futuras. Por tudo isso, e por várias outras razões, ele requer, com muita justiça, maior fidelidade que todos os outros. Nele se reúnem, enfim, todos os elementos presentes nos três primeiros: a pureza, a sabedoria, a morte, o tempo, a fidelidade, o amor. Quão doloroso, portanto, não deverá ser o dia da minha morte, ou o dia em que o Senhor ressurreto surgir entre as nuvens para buscar sua noiva!

Sei que o que eu disse pode parecer chocante e dar margem facilmente a más interpretações. Nós cristãos estamos acostumados, e não sem razão, a pensar nesse dia com os corações cheios de alegria e esperança. Pois a Bíblia nos fala de Cristo como perdoador e consolador, e não como acusador e vingador, daqueles que nele depositaram sua fé. E talvez, de fato, no último dia seja totalmente ausente todo sofrimento em decorrência de pecados já cometidos, embora eu ache isso pouco provável. Mas haverá qualquer contradição real entre a severidade do olhar divino e a abundância da misericórdia divina? Ao contrário, parece-me que a profundidade insondável desse amor deve apenas tornar mais pungente a dor do nosso arrependimento. Quando chegamos à presença do Rei cobertos pelas nossas porcarias, causa-nos alívio a promessa de que seremos limpos pelo poder dele; mas, enquanto isso não acontece, o amor que encontramos em seu olhar apenas torna mais esmagador o peso da nossa sujeira. A dor na consciência decorrente da desobediência a um código moral abstrato, imposto por um princípio metafísico ou uma divindade distante, não pode se comparar à visão das cicatrizes nas mãos e nos pés do próprio Criador, que somam sobre todas as nossas faltas o peso da suprema ingratidão. Pois nossos pecados, especialmente os voluntários, revelam a nossa indiferença, mesmo que momentânea, em relação à eterna dor, sofrida com o fim de nos livrar deles. O desprezo pela cruz é pior que o desprezo pelos sofrimentos humanos. Ela nos livra da ira, mas apenas aumenta nossa responsabilidade. Pois o sangue de Cristo fala coisas superiores às que fala o sangue de Abel.

Os quatro personagens estão agora apresentados. Só o que me falta é fazer deles instrumentos eficazes no combate ao meu mal interior, ou seja, lembrar-me deles não apenas ao refletir sobre os erros que cometi, mas também sobre os que ainda posso cometer; e assim, quem sabe, evitar ao menos alguns deles. Eis a meta. Que Deus me ajude.

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And if there is nothing you conceal from her
however important you may consider it
to conceal from the rest of the world - your soul is safe.
If a man has one person, just one in his life,
to whom he is willing to confess everything -
and that includes, mind you, not only things criminal,
not only turpitude, meanness and cowardice,
but also situations which are simply ridiculous,
when he has played the fool (and who has not?) -
then he loves that person, and his love will save him.
I'm afraid that I've never loved anyone, really. [...]
I've spent my life in trying to forget myself,
in trying to identify myself with the part
I had chosen to play. And the longer we pretend
the harder it becomes to drop the pretence,
walk off the stage, change into our own clothes
and speak as ourselves. [...]
Your mother knew nothing about them. And I know
that I never knew your mother, as she never knew me.
I thought that she would never undestand
or that she would be jealous of the ghosts who haunted me.
And I'm still of that opinion. How open one's heart
when one is sure of the wrong response?
How make a confession with no hope of absolution?
It was not her fault. We never understood each other.
And so we lived, with a deep silence between us,
and she died silently. She had nothing to say to me.

23 de junho de 2008

Uma dúzia de tiranos

Enfim estou livre de três das quatro disciplinas em que me matriculei neste semestre, e com isso espero voltar a ter tempo para escrever neste blog. Mas primeiro preciso colocar em dia algumas leituras, correspondências, debates e certas atividades pessoais, coisas que foram negligenciadas por mais tempo do que eu gostaria (minha primeira providência foi fazer a barba, que cresceu impunemente durante mais de quarenta dias). Em vista de tudo isso, provavelmente vai demorar mais um pouco até que eu retome as atividades por aqui. Até lá, fiquem com o texto abaixo, que contém os três parágrafos iniciais e os dois finais de um livro que mencionei no meu último post e que enfim consegui terminar de ler: Os intelectuais (Intellectuals), de Paul Johnson. Os trechos que transcrevo dão uma boa idéia da proposta da obra e de suas principais conclusões. O restante do livro é apenas uma extensa compilação dos fatos históricos e biográficos que as fundamentam, fatos esses retirados das vidas de algumas das mais notáveis figuras enquadradas na categoria de pessoas que dá nome ao título do livro.

"Ao longo dos últimos duzentos anos, a influência dos intelectuais vem crescendo regularmente. Na verdade, o surgimento do intelectual secular foi um fator decisivo para dar forma ao mundo moderno. Visto de uma perspectiva histórica ampla, trata-se, em muitos aspectos, de um fenômeno novo. Não há dúvida de que desde suas primeiras encarnações como sacerdotes, escribas ou profetas, os intelectuais exigiram para si a tarefa de orientar a sociedade. Porém, sendo eles guardiães de culturas hieráticas, fossem primitivas ou sofisticadas, as inovações morais e ideológicas que eles propunham eram limitadas pelos cânones da autoridade externa e pela herança da tradição. Eles não eram, nem podiam ser, espíritos livres ou aventureiros do pensamento.

Com o declínio do poder do clero no século XVIII, um novo tipo de mentor surgiu para preencher o vazio e conquistar os ouvidos da sociedade. O intelectual secular, mesmo sendo deísta, cético ou ateu, estava tão disposto quanto qualquer pontífice ou presbítero a dizer como os homens deviam agir diante dos problemas dessa sociedade. Desde o princípio, expressou uma devoção especial para com os interesses da humanidade e uma predisposição evangélica para fazê-la avançar graças a seu ensino. Deu a essa tarefa auto-imposta um sentido muito mais radical do que tinham dado seus predecessores do clero. Não se sentiam limitados por nenhum corpus de uma religião revelada. A sabedoria coletiva do passado, o legado da tradição e os códigos prescritos por uma experiência ancestral existiam para ser seletivamente seguidos ou para ser completamente rejeitados, dependendo apenas do bom senso de cada um. Pela primeira vez na história humana - e com uma arrogância e uma audácia crescentes - os homens se diziam capazes de diagnosticar os males da sociedade e curá-los com sua inteligência auto-suficiente; e mais: diziam ser capazes de traçar um plano pelo qual não apenas a estrutura social, mas os hábitos básicos do ser humano podiam ser transformados para melhor. Ao contrário de seus antecessores sacerdotais, eles não eram servos nem intérpretes dos deuses; eram seus substitutos. O herói deles era Prometeu, que roubou o fogo celestial e o trouxe para a Terra.

Uma das características mais marcantes dos novos intelectuais seculares era o prazer com que submetiam a religião e os respectivos protagonistas a uma análise crítica. Até que ponto esses grandes sistemas de fé trouxeram benefícios ou malefícios à humanidade? Em que medida esses papas e pastores viveram de acordo com seus próprios preceitos de castidade e sinceridade, de caridade e benevolência? Tanto no caso das igrejas como no do clero, os vereditos foram rigorosos. Hoje, depois de dois séculos durante os quais a influência da religião continuou decrescendo e os intelectuais seculares desempenharam um papel cada vez mais importante no caráter de nossas atitudes e instituições, já é hora de examinarmos as vidas deles, tanto em âmbito público quanto em privado. Pretendo avaliar particularmente as credenciais morais e de julgamento que os intelectuais possuíam ou não para ditar regras de conduta à humanidade. Como administravam suas próprias vidas? Que grau de retidão demonstravam para com a família, os amigos e os companheiros? Eles eram honestos em seus relacionamentos sexuais e financeiros? Será que falavam e escreviam a verdade? E até que ponto seus sistemas teóricos resistiram ao teste do tempo e da práxis?"

Antes de transcrever o veredito, vou apenas mencionar que a ênfase do livro recai sobre uma dúzia de pessoas muito influentes, cada uma a seu modo, todas as quais se enquadram na categoria de "intelectuais", no sentido explicado acima: quatro são filósofos, ou pelo menos costumam ser assim denominados (Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre), três são dramaturgos (Henrik Ibsen, Bertolt Brecht e Lillian Hellman) e três são romancistas (Leon Tolstoi, Ernest Hemingway e Edmund Wilson). Há ainda um poeta, Percy Shelley, e até um editor, Victor Gollancz. No último capítulo muitos outros casos são apresentados em rápida sucessão, e em grau consideravelmente menor de detalhamento.

"Chegamos agora ao final de nossa investigação. Foi há apenas duzentos anos que os intelectuais seculares começaram a substituir a antiga classe dos letrados como guias e mentores dos homens. Vimos um grande número de casos individuais de pessoas que pretenderam aconselhar a humanidade. Analisamos as qualificações morais e de julgamento que tinham para exercer tal tarefa. Em particular, examinamos a atitude delas em relação à verdade, a maneira como pesquisavam e avaliavam as provas, a resposta delas não apenas à humanidade em geral, mas aos seres humanos em particular; o modo como tratavam seus amigos, colegas, criados e sobretudo suas próprias famílias. Abordamos as conseqüências sociais e políticas que houve em seguir seus conselhos.

Que conclusões podem ser tiradas? Os leitores julgarão por si mesmos. Porém, creio que revelei uma certa descrença popular diante dos intelectuais que tentam nos dar conselhos, uma tendência crescente entre as pessoas comuns de questionar o direito que têm os eruditos, escritores e filósofos, não importa quão notáveis sejam eles, de nos dizer como devemos nos comportar e gerir nossos negócios. Parece estar se difundindo a crença de que os intelectuais não são tão sábios como mentores, nem têm o mesmo valor dos homens exemplares, dos curandeiros e sacerdotes do passado. Eu compartilho dessa descrença. Uma dúzia de pessoas escolhidas ao acaso no meio da rua são no mínimo tão capazes de oferecer opiniões sensatas sobre assuntos morais e políticos quanto um grupo típico da intelligentsia. Porém, eu iria mais longe. Uma das lições mais importantes de nosso século trágico, em que assistimos a milhões de vidas inocentes serem sacrificadas em planejamentos para beneficiar a maior parte da humanidade, é: cuidado com os intelectuais. Eles não apenas devem ser mantidos bem afastados das engrenagens do poder como devem ser objeto de uma desconfiança particular quando procuram dar conselhos coletivos. Cuidado com as comissões, conferências e associações de intelectuais. Não confie em declarações públicas emitidas de suas fileiras cerradas. Não leve em conta suas opiniões a respeito de líderes políticos e de acontecimentos importantes. Isso porque os intelectuais, que estão longe de ser pessoas em alto grau individualistas e não-conformistas, seguem certos padrões de comportamento constantes. Considerados como um grupo, eles geralmente são ultraconformistas no interior dos círculos formados por aqueles cuja aprovação eles desejam e valorizam. Isso é o que os faz, en masse, tão perigosos, pois lhes permite criar ondas de opinião e ortodoxias dominantes, as quais geralmente originam uma série de ações irracionais e destrutivas. Sobretudo, devemos nos lembrar, a todo momento, daquilo que os intelectuais com freqüência esquecem: que as pessoas são mais importantes que os conceitos e devem vir em primeiro lugar. O pior dos despotismos é a insensível tirania das idéias."

1 de junho de 2008

Madrugada de aventuras

Hoje vou fazer algo que nunca fiz neste blog: começar a escrever sem saber exatamente o que devo dizer. Logo veremos aonde isso nos leva. É madrugada, e eu deveria estar dormindo ou estudando, mas não consigo fazer nenhuma das duas coisas. Comecei a ler uns artigos sobre temas que o André Luiz me mandou, e que as disciplinas do mestrado têm me impedido de ler com a rapidez que eu gostaria. Entre os artigos que li hoje há um com citações de um ativista homossexual protestando contra a terrível intolerância da nossa sociedade contra os praticantes da pedofilia. Há também um artigo mostrando que o governo de Uganda tem conseguido, por meio de campanhas em favor da castidade (para os solteiros) e da fidelidade (para os casados), reduzir drasticamente os índices de contaminação por AIDS em seu país (que chegou a atingir 30% da população, e hoje está perto de 6%), coisa que jamais conseguimos com as idéias moderninhas e politicamente corretas que resultam apenas na distribuição de preservativos. Li também notícias sobre o triunfo do velho (e genocida) maoísmo no Nepal. Creio que tudo isso serviu para reativar meus instintos de debate cultural, que ultimamente andavam meio dormentes. Então li mais um texto mandado pelo André, escrito por Mário Ferreira dos Santos, provavelmente o maior filósofo que o Brasil já teve (o que, num país tão medíocre, automaticamente faz dele um completo desconhecido).

A essa altura eu já estava ficando cansado de ler e começando a ter vontade de escrever. Mas me contive. Começar a escrever a essa hora? É melhor achar outra coisa para fazer. O texto do Mário é a introdução ao seu livro A origem dos grandes erros filosóficos, que eu ainda pretendo ler. Meu amigo enviou o texto já com destaque para os dois melhores parágrafos, que transcrevo aqui:

"Se passarmos os olhos pelas diversas épocas, verificaremos desde logo que os que mais brilharam, os que receberam o afago dos elogios fáceis, os que empolgaram mais facilmente grupos imensos de admiradores não foram os maiores de sua época, mas os menores, os que encontram um lugar inexpressivo na história do conhecimento humano. [...]

O que amedronta é ver antigas concepções, que foram derruídas pela análise e confutadas por rigorosas argumentações, retornarem como fantasmas, para preocuparem outra vez mentes desprovidas, a dos que desconhecem essas refutações, e se apresentarem, então, como NOVIDADES, como confecções perfeitíssimas, segundo o último modelo intelectual, provocando em mentes não devidamente a par do que já foi realizado, espasmos de satisfação, exaltações de gozo, como se fora atingida a quintessência das coisas."

Lembrei-me então do livro que venho arduamente tentando arrumar tempo para terminar de ler: Os intelectuais, de Paul Johnson. Restam ainda cinco dos treze capítulos pela frente, de modo que me abstenho, por enquanto, de comentá-lo em detalhes. O livro trata de uma porção de intelectuais e escritores mundialmente venerados, do tipo que gosta de diagnosticar os problemas mais profundos da humanidade e que julga ter a fórmula para resolvê-los. Johnson analisa suas carreiras profissionais e, sobretudo, suas vidas pessoais a fim de verificar se essas pessoas têm ou não as qualidades morais e intelectuais que justificariam a existência de pretensões tão elevadas em suas respectivas cabeças. A resposta, obviamente, é negativa; na verdade, é ainda mais veementemente negativa do que eu esperava.

Mas no momento eu não estou com vontade de iniciar a leitura do nono capítulo. O que fazer, então? Lembrei-me de ter no computador umas gravações de palestras do Mário, que me foram enviadas (pelo André, mais uma vez) há alguns meses. É uma boa solução para um sujeito que mora sozinho, não tem televisão nem capacidade de concentração para orações longas e está sem sono, sem vontade de ler, sem coragem para começar a escrever e com a geladeira vazia. Nessas gravações, entre exposições sobre Platão e Aristóteles e dissertações sobre a metafísica e a filosofia concreta, Mário arruma tempo para descer a lenha nos neopositivistas e em Kant, chegando a dizer, com quase todas as letras, que eles deveriam ter calado a boca e ido para casa estudar um pouco.

E, com isso, meus instintos intelectuais mais agressivos voltaram a despertar, e eu não resisti ao segundo apelo para escrever alguma coisa. Mas é claro que minha sede de sangue não poderia ser aplacada por temas tão pacíficos quanto a crítica textual bíblica ou os meus dois acusadores restantes. Eu estou mesmo é com vontade de falar mal de alguém. Mas quem? A essa altura tanto faz. Mas terá de ser algo rápido, pois já gastei espaço demais contando minhas monótonas aventuras das últimas horas. E, ao mesmo tempo, terá de ser algo relativamente leve, pois não posso exigir muito dos meus neurônios cansados. Pensei em falar do próprio Kant, mas meus problemas com ele são tantos que eu prefiro deixar isso pra depois. É o mesmo que aconteceu outro dia, quando um amigo me pediu para explicar as razões de meu desacordo com Marx. O problema é que essas razões são tantas e tão variadas que, vindo todas à minha boca ao mesmo tempo, me fizeram engasgar e balbuciar qualquer coisa, resultado esse que provavelmente não bastou para satisfazer meu amigo. Para evitar isso hoje, vou dar uma olhada na minha modesta biblioteca pra ver se acho alguma coisa que sirva a esse propósito. Volto daqui a pouco.

Voltei. E vou contar uma historinha. Trago nas mãos uma edição de bolso do Tao Te Ching de Lao-Tsé, o fundador do taoísmo. Eu tenho grande interesse por livros sagrados, especialmente das religiões que sustentaram civilizações milenares. Aliás, ainda quero fazer aqui uns comentários pontuais e amadorísticos sobre o Alcorão, que passei a achar belíssimo depois que me acostumei à sua forma literária bastante peculiar. E passei a ver nele também uma boa dose de sabedoria, especialmente depois de ter lido uma boa edição com notas explicativas preparadas por Helmi Nasr. Com o livro chinês, no entanto, aconteceu o contrário: li-o pela primeira vez numa edição (essa mesma que está agora diante de mim) cheia de notas explicativas. Não tive do que reclamar no que diz respeito à estética. Mas quanto aos ensinamentos, para ser franco, achei o livro uma bela porcaria. Esse veredito me incomodou, pois eu não podia conceber a hipótese de uma civilização inteira ter se orientado durante séculos por semelhante porcaria. Até onde sei, apenas os intelectuais são capazes de fazer esse tipo de coisa.

Passados alguns meses, voltei e reli o livro. Mas, talvez advertido por alguma intuição semi-consciente, resolvi deixar de lado as notas explicativas e ler apenas o texto. E como foi grande a minha surpresa ao constatar que, encarado dessa forma, o livro parecia adquirir muito maior valor! Não, é claro, que agora eu o tenha entendido bem. Mesmo assim, sua sabedoria transparece. É mais ou menos como nas poesias de T. S. Eliot: não entendo nada em boa parte do tempo, mas são edificantes e lindas. A poesia de Eliot não se esgota ao ser lida e sentida; precisa também ser estudada, coisa que eu, aliás, ainda não fiz.

Também não estudei o Tao Te Ching, e nada tenho a dizer sobre seu conteúdo. Meu propósito com essa história toda é mostrar como o autor das notas quase arruinou minhas relações com o velho livro, se é que não a arruinou em parte com a própria tradução, que é obra do mesmo sujeito. Seu nome é Huberto Rohden, e quase nada sei sobre ele. Vejo seus livros por aí, e sei que escreveu sobre filosofia e espiritualidade e traduziu vários livros sagrados, como o Bhagavad Gita e o próprio Novo Testamento. Sob o peso de suas notas explicativas, o Tao Te Ching tornou-se um tratado de monismo barato, daqueles que possuem um guru em cada esquina, que pretendem ser a essência ou a versão purificada de todas as religiões do mundo e cuja pretensa sabedoria espiritual consiste de um punhado de clichês anticristãos e enunciados pseudo-místicos vagos sobre uma divindade impessoal.

Não posso estender essa acusação à totalidade da filosofia e da teologia de Rohden, pois não sei sequer se ele tinha uma filosofia ou uma teologia, no sentido apropriado dessas palavras. Mas, por tudo o que pude constatar em suas notas, e ainda mais na introdução, nada encontrei que justificasse a suposição de que ele está acima de toda essa bobagem. Rohden tem das religiões abraâmicas a mesma concepção infantil e preconceituosa que invariavelmente se encontra entre esse tipo de gente. Assim, afirma que "para muitos, Deus é uma espécie de ditador celeste, uma pessoa que vigia os homens de longe e registra os seus créditos e débitos, premiando-os ou castigando-os depois da morte", para em seguida nos contar que "esse infantilismo primitivo domina as teologias cristãs de quase dois mil anos". Assim, os grandes teólogos e filósofos cristãos da história, por um artifício verbal fundado tão somente na ignorância do acusador, tornam-se todos crianças de seis anos.

Rohden prossegue citando e endossando a afirmação, feita por Einstein, de que o monismo cósmico é a forma mais elevada de religião, e que apenas uns poucos sábios alcançaram essa concepção ao longo da história. Mas, depois de incluir São Francisco de Assis nessa categoria, o que já seria absurdo o suficiente, o autor nos diz que "os místicos cristãos, adeptos do monismo cósmico, foram por isso mesmo perseguidos, excomungados ou, pelo menos, considerados suspeitos de heresia", desgraças essas que jamais acometeram o próprio São Francisco.

Vários outros exemplos poderiam ser dados, mas esses bastam para ilustrar minhas razões para não levar Huberto Rohden a sério. Mas não posso encerrar esse texto sem deixar claro que, embora eu pudesse fazer isso, não estou dizendo nada contra o taoísmo, ou contra as formas infinitamente mais respeitáveis de monismo presentes, por exemplo, no Vedanta ou entre os sufis. Estou falando contra esse ecletismo fácil e reducionista que muitos consideram a suprema maravilha do espírito. Quem deseja conciliar as diversas tradições religiosas em bases tão pueris acaba ficando apenas com o que há de pior em cada uma delas.

Rohden explica a superioridade do seu monismo alegando que "quando uma criança pensa em termos de adulto, deixa de ser criança, e os jardins de infância a expulsam como elemento estranho". A impressão que eu tenho é que ele próprio, que se considerava muito adulto por ter sido expulso do playground, foi, na verdade, enxotado por ser pequeno demais para os brinquedos ali disponíveis.

Missão cumprida: instintos apaziguados. O sono chegou, e o dia também. Vou postar isso aqui sem revisão mesmo, pela primeira vez, e vou dormir.

23 de maio de 2008

As ainda mais antigas famílias

Nesta postagem pretendo fazer com o Antigo Testamento a mesma coisa que fiz nos textos As antigas famílias e Através dos séculos (o terceiro e o quarto da série, respectivamente) para o Novo Testamento. Embora a história do texto veterotestamentário seja muito complexa, tanto pelo volume quanto pela antigüidade e variedade de épocas e condições em que foram compostas suas respectivas partes, dedicarei a esse assunto um único post, pelo simples motivo de que sei bem menos sobre o mesmo. Falar pouco costuma ser a melhor maneira de não falar besteiras (tenho certeza, aliás, de que meu hábito de ficar de boca fechada é a principal razão pela qual muitos me consideram inteligente). Apesar dessa precaução, porém, acredito que esta postagem tem maiores chances de conter erros que as anteriores, e o leitor deve estar ciente desse fato. As razões são simples: as fontes que empreguei são inferiores, tanto em profundidade quanto em atualidade.

A história mais remota do texto das Escrituras hebraicas é quase inteiramente desconhecida pelo fato de que não existem manuscritos anteriores ao século III a.C., o que, inclusive, já foi pretexto para muitos debates sobre a própria data de composição dos textos originais. Quando começam a emergir das sombras do passado, porém, os textos já se mostram divididos, quanto à semelhança que possuem entre si, em basicamente três grupos. Antes de apresentá-los, contudo, deve ser dito que, até poucas décadas atrás, os mais importantes manuscritos disponíveis datavam dos séculos IX e X. Assim, o mais antigo dentre os mauscritos significativamente completos é o 4445 do Museu Britânico, que foi copiado por volta do ano 850 e contém a maior parte do Pentateuco. Há também o Manuscrito de Leningrado, escrito no início do século X, que contém porções significativas dos profetas. Um outro manuscrito de Leningrado, o B-19A, é a mais velha cópia completa do Antigo Testamento, realizada perto do ano 1010. Todos esses manuscritos pertencem a uma mesma família textual, que será designada aqui como família massorética. Além desses, existiam apenas traduções gregas e latinas que, embora remontassem até o século II, eram pouco valorizadas pelo fato mesmo de serem traduções.

Mas vários importantes manuscritos do Antigo Testamento foram encontrados nas famosas cavernas do Wadi Qumran, fonte de verdadeiros tesouros arqueológicos descoberta em 1947. No que diz respeito ao assunto deste post, o mais importante manuscrito é o Rolo do Mar Morto de Isaías, que contém o livro completo desse profeta, copiado na segunda metade do século II a.C.. Do mesmo período, há também um comentário ao profeta Habacuque que traz o texto dos seus dois primeiros capítulos. Do século seguinte temos o Rolo de Isaías da Universidade de Jerusalém, que contém a maior parte do texto a partir do capítulo 41. Há ainda um trecho de Levítico copiado no século II a.C. ou antes. Esses são, provavelmente, os achados mais importantes, e todos possuem, também, textos essencialmente massoréticos. Há, entretanto, outros manuscritos que são menos importantes, num certo sentido, por conterem textos menores ou se encontrarem em mau estado, mas que favorecem outras famílias ou apresentam textos mistos. Assim, os manuscritos do Mar Morto permitem vislumbrar a história do texto hebraico anterior ao predomínio absoluto do Texto Massorético, a cuja família pertencem quase todos os textos conhecidos até meados do século XX. Além disso, é claro, a enorme importância dos textos de Qumran reside também no fato de que eles fizeram recuar em cerca de um milênio a data dos manuscritos mais antigos até então conhecidos.

A família massorética parece ser, na vasta maioria dos casos, a tradição mais confiável. Esse fato é não apenas coerente com a evidência textual em si, que aponta para um texto mais antigo (geralmente anterior, por exemplo, ao uso das matres lectionis, consoantes que indicam vogais - vide o item C.3 do post Pedaços de bagunça), como também é coerente com o fato de que a versão que se impôs como oficial após a destruição de Jerusalém (embora possa ter existido desde até dois séculos antes), baseada numa minuciosa análise dos melhores manuscritos então disponíveis (inclusive, certamente, os pergaminhos oficiais do Templo e muitos outros rolos que não mais existem), tenha se decidido por essa família. Essa versão oficial, adotada até hoje, chama-se Texto Massorético, e deriva daí o nome da família à qual pertence.

Os grandes responsáveis pela escolha desse texto foram os soferim, uma ordem de escribas que surgiu no final do exílio babilônico (tendo sido, segundo se diz, fundada pelo próprio Esdras) e sobreviveu até cerca de 200 d.C., tendo se empenhado muito na padronização e transmissão fiel do texto sagrado. Desenvolveram métodos úteis nesse sentido, mas também foram eles próprios responsáveis pela introdução de erros motivados por suas posições teológicas, sendo que os mais notórios derivam de sua aversão à linguagem antropomórfica de certas passagens. O Midrash (significando algo parecido com "estudo textual"), que reúne exposições e interpretações de muitos mestres, foi compilado entre o século I a.C. e o fim do século III, e tem alguma relevância para a ecdótica pela abundância de citações, algumas das quais apresentam formas diferentes das contidas no Texto Massorético.

O próprio nome Texto Massorético, porém, deriva de um grupo posterior, os massoretas (nome derivado de massora, a tradição oral). Esses foram os eruditos que deram a forma final ao Antigo Testamento, entre o início do sexto século e meados do décimo. Eles criaram os sinais vocálicos e praticaram a crítica textual em certa medida, embora com métodos diferentes do usado pelos soferim. Mantiveram intacto o texto consonantal herdado destes, usando sinais vocálicos e notas marginais para sugerir erros no texto disponível, e desenvolveram ainda mais os métodos de prevenção contra erros de cópia. O Texto Massorético é o padrão usado até hoje nas edições feitas na língua original, e foi extraído principalmente dos já mencionados manuscritos de Leningrado. Não, é claro, que esse texto seja aceito sem reservas; mas a tendência dos estudiosos do assunto é conceder-lhe sempre o benefício da dúvida.

Além de fornecer o texto esmagadoramente predominante entre os judeus pelo menos desde o século II, a família massorética inclui também as traduções aramaicas, que remontam, na verdade, a tempos pré-cristãos. Embora as classes cultas estudassem e falassem o hebraico até o segundo século da era cristã, desde muito antes uma parcela significativa dos judeus retornados do exílio perdera a familiaridade com o idioma, tendo aderido ao aramaico, que era a língua franca do Império Persa. Isso exigia a presença de intérpretes nas sinagogas, que traduziam e explicavam as passagens sagradas ao povo. Quando essas traduções foram registradas por escrito receberam o nome de targuns, que significa "interpretações". Porém, essa passagem da tradição oral ao texto escrito só começou a acontecer no século II. Mas os targuns, a despeito de sua grande importância histórica, têm pouco valor para a crítica textual, tanto por abusarem da paráfrase quanto pelo próprio fato de serem derivados, em última análise, da família massorética, cuja versão hebraica original encontra-se abundantemente documentada, o que diminui a importância de suas traduções. Merece destaque também a Vulgata de São Jerônimo, completada em 404 e produzida a partir do texto hebraico então em uso na Palestina, onde o autor passou muitos anos estudando a língua com os rabinos de Belém. Essa tradução teve um caráter oficial, pois Jerônimo foi incumbido da tarefa de realizá-la pelo papa Damaso, e seu texto se tornou o padrão da cristandade ocidental ao longo de toda a Idade Média.

Ainda assim, na ausência da grande quantidade de manuscritos antigos de que dispõe a ecdótica neotestamentária, as antigas traduções ganham um papel mais importante para a crítica textual do Antigo Testamento. A mais antiga tradução grega conhecida (embora não necessariamente a primeira a ser feita) é a Septuaginta, versão composta entre 250 e 150 a.C., que foi, inclusive, muito usada nas citações pelos escritores neotestamentários e pela Igreja primitiva em geral. Orígenes compôs uma versão própria (incluída na sua Héxapla) a partir das diversas variantes disponíveis do texto da Septuaginta, completando-a com trechos de outras versões quando necessário. Essa revisão só chegou até nós pelo Códice Sarraviano, do quarto ou quinto século, que contém apenas trechos de Gênesis a Juízes, mas perpetuou-se através da tradução siríaca do Antigo Testamento feita por Paulo de Tela no ano 616. Existem outras revisões, mas elas só aparecem em manuscritos posteriores ou refletem-se indiretamente em traduções para outros idiomas. Existiram até novas traduções gregas, realizadas principalmente no século II (as principais são de Áquila e Símaco), mas delas não chegaram a nós mais que uns poucos fragmentos e citações.

Dentre os manuscritos da Septuaginta merecem destaque: os papiros Chester Beatty, que incluem porções do Pentateuco e de Isaías dos séculos II a IV; porções significativas do Gênesis e dos profetas menores em vários papiros datados do terceiro século; porções de Deuteronômio num papiro do século II (o Rylands 458); o Códice Vaticano, que contém o Antigo Testamento completo copiado no quarto século, mas cujo texto é certamente anterior a Orígenes, e no qual apenas o texto de Daniel não pertence à família em questão; o Códice Alexandrino, de meados do quinto século, que também contém o texto completo, e possui alguma afinidade com a Héxapla; o Códice Sinaítico, que possui o Antigo Testamento quase completo, e cujo texto é intermediário entre os dois anteriores. Em Qumran foram encontrados fragmentos do século I a.C., também em grego, que concordam com o texto da Septuaginta, ou pelo menos parecem ser traduções do mesmo texto original. Há ainda em Qumran uns poucos fragmentos em hebraico que concordam com o texto da Septuaginta contra o Texto Massorético, demonstrando que aquele estava também em uso nos tempos de Cristo e nos séculos anteriores. Mas a natureza altamente fragmentária desse material torna-o pouco importante, na prática, para a crítica textual.

O Pentateuco da Septuaginta é sua porção mais exatamente traduzida, certamente devido à sua enorme importância na liturgia judaica. Os livros históricos, os profetas e os livros poéticos receberam, nessa ordem, traduções progressivamente menos fiéis; isso deve ser levado em conta na avaliação do valor relativo das variantes dessa família. Mesmo no caso do Pentateuco, porém, essas variantes tendem a ser menos dignas de crédito que a versão massorética, pelo fato de que a família da Septuaginta apresenta uma heterogeneidade consideravelmente maior, o que se explica pelo fato de que os copistas do texto grego, geralmente mais afastados da tradição dos escribas judeus, eram menos rigorosos quanto às regras de exatidão seguidas por esses últimos.

Além da Vulgata, houve apenas uma grande tradução latina do Antigo Testamento, a qual, na verdade, lhe é anterior: a Itala, como é conhecida, composta durante o século II, que é, na realidade, uma tradução feita a partir da Septuaginta. Da mesma forma, o texto grego serviu de base para outras traduções, como as duas versões coptas conhecidas, assim como a maioria das versões árabes e, provavelmente, a versão etiópica. A primeira das duas traduções siríacas, a Pesita, foi realizada no segundo ou no terceiro século diretamente a partir do hebraico, mas o texto original claramente pertencia também à família da Septuaginta (são exceções os livros das Crônicas, que não constavam na versão original, e que foram incluídos posteriormente em traduções a partir do Targum; um texto de origem massorética, portanto). A segunda versão siríaca foi a já mencionada tradução de Paulo de Tela, realizada a partir da Héxapla.

A terceira e menos importante família textual é a conhecida como "samaritana", por incluir a versão do Pentateuco usada pelos samaritanos desde séculos antes da era cristã. A família samaritana quase sempre foi tratada com desprezo pelos especialistas, especialmente por suas óbvias tendências sectárias, que resultaram em gritantes adulterações do texto original. Mais recentemente, no entanto, algumas de suas variantes, cuja origem não pode ser atribuída a essa motivação apologética, passaram a receber juízos mais favoráveis da parte de vários eruditos. Ainda assim, pelo fato de não serem conhecidos textos fora do Pentateuco, e mesmo desses só existirem hoje uns poucos e fragmentários manuscritos, o texto samaritano é pouco importante. Um dos poucos manuscritos relevantes dessa classe foi descoberto no século XVII em Damasco, e seu texto veio a integrar a Bíblia Poliglota de Paris, de 1645. Trata-se de um texto samaritano que em muitas instâncias apóia a Septuaginta contra o Texto Massorético. Em Qumran foram encontrados também alguns fragmentos de manuscritos dessa família.

No que diz respeito à crítica textual, o Antigo Testamento encontra-se em clara desvantagem em relação ao Novo Testamento: há mais questões, e mais importantes, cujas respostas ainda são amplamente debatidas. Ainda assim, o texto veterotestamentário leva vantagem sobre muitas obras da Antigüidade. Isso só é possível graças a um batalhão de heróis do passado que tomaram parte na árdua tarefa de transmitir esses textos de geração em geração, sobretudo os já mencionados soferim e massoretas. Gleason Archer descreve sem exageros o mérito desses homens ao notar que eles "dedicaram a mais diligente atenção à conservação exata das Escrituras Hebraicas, a um ponto nunca igualado na dedicação dada a qualquer literatura, antiga ou moderna, secular ou religiosa, em toda a história da civilização humana". Graças a isso, chegou a nós um texto essencialmente idêntico, no mínimo, ao que era usado por volta do primeiro século.