27 de fevereiro de 2011

Belas palavras de vida

Não muito tempo atrás, recebi o texto abaixo de uma nova amiga que, não sei exatamente como, foi parar no meu breve texto publicado no outro blog por ocasião do último aniversário da morte de C. S. Lewis. Trata-se do escritor que mais li, e seguramente é um dos que mais me ensinaram. Embora hoje minhas afinidades com ele sejam menores do que já foram, ainda lhe devo imensa gratidão e admiração. O autor do texto chama-se Douglas Wilson, e eu já adianto que nada sei sobre ele. Mas o texto é bom, de modo que o traduzi e o estou publicando aqui.

Tenho uma ressalva quanto à primeira parte do texto. Ela não contém erros, mas creio que transmite uma ideia equivocada sobre o grau de concordância do escritor irlandês com relação à doutrina calvinista da predestinação. Ele de fato tinha o mérito de não ser um racionalista e não renunciar à absoluta soberania divina, bem como de compreender bem os Trinta e Nove Artigos, os grandes mestres puritanos e os ideais da Reforma. Mas ele pensava tudo isso a despeito de ter severas ressalvas quanto à própria necessidade da Reforma, e de dar à liberdade humana uma importância algo humanista e que contrariava sua própria experência pessoal da graça de Deus - fato a que também aludi no post indicado acima. Para que seu conceito de predestinação se tornasse reformado, ele teria de aderir à doutrina da depravação total, coisa que, até onde sei, ele jamais chegou perto de fazer.

No entanto, de modo algum pretendo censurar Wilson, especialmente porque seu objetivo declarado não é o de reclamar para os reformados os méritos de Lewis - o que seria um exemplo de uma classe de atitudes mentais que considero bestas em demasia. Ao contrário, ele pretende apenas expor uma das coisas que nós, reformados, temos a aprender com Lewis. Ele fala sobre o pouco valor dado à beleza, o que de modo algum é um mal universal no meio reformado, mas é, ainda assim, uma tentação em que muitos calvinistas caem. Publico o texto de Wilson porque concordo com o que ele escreveu sobre isso, porque gostei da forma como o fez e porque a experiência que ele teve ao ler o irlandês coincide com a minha. E também porque estou devendo explicações sobre esse tema a um amigo que pertence a outro ramo da cristandade. Esta postagem serve, pois, para mostrar que não me esqueci de minha promessa, e também já diz algo sobre o que penso acerca do assunto.

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Era C. S. Lewis um reformado?

É claro que a resposta à pergunta do título é "não exatamente". Ao mesmo tempo, e em um sentido diferente, a resposta é "sim, claro". E isso significa que, ao mesmo tempo em que há acordo substancial, há uma clara diferença entre a maneira com que alguns modernos reformados articulam a verdade sobre certos assuntos e a maneira com que Lewis o fazia. E eu quero sugerir, ao dizer isto, que muitos pastores reformados modernos, em algumas áreas cruciais, têm algo a aprender com Lewis sobre essa articulação.

Primeiro, C. S. Lewis acreditava na predestinação, e o fazia sem fugir da questão principal. Ele se recusava a erigir uma verdade em oposição à outra. Assim, afirmou: "É claro que a realidade deve ser consistente; mas, até que possamos enxergar essa consistência, se é que a enxergaremos, é melhor sustentar duas visões inconsistentes que ignorar um dos lados da evidência. [...] As Escrituras deixam claro que, qualquer que seja o sentido em que a doutrina paulina é verdadeira, ela não é verdadeira em nenhum sentido que exclua seu (aparente) oposto." É importante notar aqui o nome que Lewis deu à doutrina da predestinação que vinha discutindo: a "doutrina paulina". E ele admitiu que ela era verdadeira em "algum" sentido que levaria as pessoas a pensar que ela "poderia" excluir seu oposto aparente - a genuína liberdade dos homens e mulheres. Mas é claro que, porque Deus não pode mentir, as verdades não se contradizem no nível último. Deus é soberano e a criatura é livre.

Como deixou claro em sua magnum opus sobre literatura inglesa, C. S. Lewis a entendia como a razão básica para a exuberância dos primeiros tempos da Reforma. "Dessa humildade leve, desse adeus ao eu e a todas as suas boas resoluções, sua ansiedade, seus escrúpulos e sua sondagem de motivos, saíram todas as doutrinas protestantes originais. Pois é preciso compreender com clareza que elas não eram, em princípio, doutrinas de terror, e sim de alegria e esperança; na verdade, mais que de esperança, de fruição, pois, como disse Tyndale, o homem que se converteu já está provando da vida eterna. A doutrina da predestinação, diz o Artigo 17, é 'repleta de doce, agradável e indizível conforto para as pessoas piedosas'. [...] Alívio e leveza são as notas características." É difícil deixar de perceber a simpatia consumada de Lewis por essa ideia.

Lewis não nega a genuína liberdade humana (como a Confissão de Fé de Westminster também não), mas recusa-se terminantemente a instalar a doutrina da soberania na cama de Procusto da doutrina da liberdade genuína, ou vice-versa. Essa recusa soa como transigência aos hipercalvinistas deste mundo e parece inconsistente ao racionalismo frio do arminianismo. Mas é, não obstante, a posição confessional reformada. Como Ransom descobriu em Perelandra, liberdade e necessidade são a mesma coisa. [Nota minha: essa é uma cena de um dos livros ficcionais de Lewis; Perelandra é o nome do segundo livro da trilogia espacial, e é também o nome do lugar onde se passa a aventura ali narrada.] Um dos teólogos favoritos de Lewis foi o anglicano elizabetano Richard Hooker, que era protestante extremado quanto às doutrinas da graça. Os Trinta e Nove Artigos, citados por Lewis acima, são uma maravilhosa declaração da fé da Reforma, e Lewis foi um eclesiástico conservador que entendeu o contexto original desses artigos - o que não pode ser dito de muitos daqueles que os subscrevem hoje. Ele entendeu a eficácia da graça, a soberania da graça, a "graciosidade" da graça. Quando Jill quis ir às águas, disse que havia chamado por Aslam. Mas Aslam observou que ela não teria chamado por ele a menos que tivesse sido chamada por ele. [Outra nota minha: essa é outra cena de um dos livros ficcionais de Lewis, A cadeira de prata, o quarto volume da série As crônicas de Nárnia.]

Mas qual é a importância disso? Não estou escrevendo para que lutemos contra os anglocatólicos e os evangélicos modernos pelo corpo de Moisés. Estou dizendo essas coisas para que nossos VRs, os verdadeiros reformados entre nós, sintam-se encorajados a aprender algo que realmente precisam aprender. C. S. Lewis tem muito a ensinar aos ferrenhos defensores dos cinco pontos, mas abandonar os cinco pontos não é uma das lições. Uma vez, alguém fez uma declaração maravilhosa sobre Lewis: ele tornou a retidão legível. Do mesmo modo, ele fez com que as doutrinas da predestinação e da justificação inundassem os pecadores com doce alívio. Ele não fez isso ao nosso infeliz modo "agradável ao ouvinte" ["seeker friendly"] de tratar tudo com condescendência e de modo pouco inteligente. Ele não confundia inteligência com ininteligibilidade, nem ser inteligível com falar em linguagem infantil. Ele pressupunha a inteligência do leitor, e escrevia para ela.

Isso não significa endossar cada detalhe do que Lewis possa ter escrito. Reli recentemente suas Reflections on the Psalms, livro ao longo do qual ele diz algumas coisas apavorantes. Mas a coisa mais esquisita é que ele era um escritor gracioso e edificante, mesmo quando se ocupava em defender algum de seus erros. Eu prefiro Urias bêbado a Davi sóbrio, e recebi mais bênçãos de alguns dos piores livros de Lewis (incluindo o Reflections) que de material ostentosamente reformado, ortodoxo dos pés à cabeça. E isso nos leva de volta ao que afirmei acima. As verdades que Lewis apresenta são legíveis, compreensíveis e completamente amáveis, mesmo quando ele está errado. Ele amava as verdades que apresentava, e era um homem tão talentoso que tornava amável tudo aquilo que amava.

Muitos pastores da tradição reformada ortodoxa precisam aprender essa lição em particular. Mais beleza ao moldar as palavras não diminui a porção de verdade que elas carregam; pelo contrário, a beleza a aumenta drasticamente. As belas palavras que Naftali pronuncia não deslocam as palavras que carregam o significado. Um colar de pérolas no pescoço de uma mulher bonita não é algo estranho ao conjunto.

Um homem que é chamado para fazer uso das palavras, como são os ministros, e que ignora o aspecto estético delas a fim de se concentrar na "verdade" está, de fato, em guerra contra a verdade. Em vez de dar à mulher bonita um colar de pérolas, ele lhe dá uma coleira canina, e depois finge que fez isso porque ama e respeita essa mulher.

Ame sua fé como Lewis fazia, e vista-a com beleza.

31 de janeiro de 2011

Dezenove semanas de amor

"Os mandamentos de Deus são melhor lidos por olhos úmidos de lágrimas." (Spurgeon)

Soubemos da gravidez de minha esposa no começo de outubro, dias depois que um estranho mal-estar, ocorrido durante o culto dominical matutino, nos levou a suspeitar dessa possibilidade. Foram momentos de intensa alegria. Pouco tempo depois, no entanto, a ocorrência de alguns sangramentos ameaçou a nova vida humana que se instalava entre nós. A médica recomendou o repouso absoluto da Norma, o que significava sair da cama só para ir ao banheiro. Além da dedicação necessária ao novo emprego, precisei encarregar-me das compras, dos gatos, das tarefas da cozinha (que foram a pior parte), de levar à cama tudo de que ela precisasse, desde água até cotonetes - de todos os detalhes, enfim. Eu deixava o café da manhã semipronto para ela antes de sair para o trabalho, vinha correndo na hora do almoço com comida comprada em algum lugar para comer com ela e voltar correndo ao trabalho, e sobrou-me um tempo praticamente nulo para qualquer outra coisa. A pesada carga de tarefas que se abateu sobre mim só não foi pior que a total ausência de tarefas de minha esposa, que enfrentou o desafio oposto: sem poder sequer se sentar, restaram-lhe o tédio da quase total imobilidade e, ao menos em parte do tempo, a solidão. Além disso, tivemos de suspender o sexo e abrir mão de algumas noites de sono, no todo ou em parte. Muitas pessoas oraram por nós três em muitos lugares. Tudo isso deu resultado: os sangramentos pararam e a placenta voltou ao normal. A ultrassonografia seguinte nos permitiu respirar aliviados.


Em dezembro, na décima quarta semana de gestação, os exames revelaram uma hidropsia fetal, um acúmulo de fluidos no corpo do bebê que podia impedir o desenvolvimento adequado dos órgãos, levando à morte. Desta vez, porém, exceção feita às orações, não havia nada que pudesse ser feito. Sem perder a esperança, mas também sem qualquer garantia quanto ao futuro, passamos o Natal e o Ano Novo na expectativa do que os novos exames revelariam na primeira semana deste mês. E eles trouxeram más notícias: a hidropsia progrediu, tomando todo o corpo do bebê, incluindo a região do coração e dos pulmões. Vimos na tela do ultrassom, cheios de tristeza, o corpinho deformado pelo inchaço generalizado. No dia 13 de janeiro, um novo exame revelou que o coração já batia com fraqueza e lentidão, prenunciando a morte iminente. E dois dias depois, no dia em que a gravidez completaria dezenove semanas, foi enfim constatada a morte do nosso bebê. Trocamos bem poucas palavras no trajeto para casa e, tendo chegado, fizemos a única coisa que havia a fazer: abraçamo-nos e choramos longa e dolorosamente.


Naquele mesmo dia, lembrei-me do único poema que já li sobre um bebê morto antes do nascimento, escrito pelo inglês G. K. Chesterton (1874-1936). Sempre o considerei um belo poema; nele o bebê expõe a situação de sua própria perspectiva, imaginando, das trevas do ventre materno, como seria sua vida neste mundo, se tivesse chegado a nascer. Transcrevo-o abaixo. Fiz uma tradução, não muito boa, mas suficiente para os leitores que porventura não saibam ler em inglês. Aos que sabem, recomendo a leitura do original, que se encontra logo em seguida.


Pelo bebê que não nasceu

Se as árvores fossem altas e a grama baixa,

como em algum conto maluco,

se aqui e ali houvesse um mar azul

que se estendesse para além do horizonte,


se um fogo constante pendesse no ar

para me aquecer o dia todo,

se cabelos verdes crescessem nas colinas,

eu sei o que eu faria.


Na escuridão eu vivo, sonhando que existem

grandes olhos, amáveis ou frios,

e ruas tortuosas, e portas silenciosas,

e homens vivendo por trás delas.


Que venham as tempestades: viver uma hora

tendo saído à luta e às lágrimas

é melhor que todas as eras em que tenho

governado os impérios da noite.


Penso que se me deixassem

entrar e ficar no mundo,

eu seria bom durante o dia todo

que passasse nessa terra encantada.


Eles não ouviriam de mim uma palavra sequer

de egoísmo ou de desdém,

se eu apenas tivesse encontrado a porta,

se eu apenas tivesse nascido.


By the Babe Unborn


If trees were tall and grasses short,

As in some crazy tale,

If here and there a sea were blue

Beyond the breaking pale,


If a fixed fire hung in the air

To warm me one day through,

If deep green hair grew on great hills,

I know what I should do.


In dark I lie; dreaming that there

Are great eyes cold or kind,

And twisted streets and silent doors,

And living men behind.


Let storm clouds come: better an hour,

And leave to weep and fight,

Than all the ages I have ruled

The empires of the night.


I think that if they gave me leave

Within the world to stand,

I would be good through all the day

I spent in fairyland.


They should not hear a word from me

Of selfishness or scorn,

If only I could find the door,

If only I were born.


Amo esse poema porque ele capta de maneira mui sensível, além de literariamente magistral, a razão pela qual a vida humana deve ser preservada desde o ventre - e, por conseguinte, denuncia com toda a força a hediondez do crime que é o aborto. O poema evoca oportunamente o velho tema da pureza infantil. Não se pode prever que tipo de personalidade humana emergirá daquele misterioso organismo. É deveras pertinente a consideração feita pelo bebê do poema sobre sua própria bondade: se ninguém pode acusá-lo de crime algum, não é justo condená-lo. Ninguém tem o direito de sentenciar um feto à morte, nem de julgar em nome dele se esta lhe é preferível à vida. Acima de tudo isso, paira o fato óbvio (ou que deveria sê-lo) de que uma vida humana não pertence a nenhum outro ser humano.


Naturalmente, nada do que acabo de dizer descreve bem a situação de nosso filho. A principal diferença reside no fato de que ninguém lhe fez mal algum, nem pretendeu fazê-lo. Ao contrário, nosso bebê foi muito amado, e fizemos tudo o que pudemos - e que, na verdade, não foi tanto assim - para conservá-lo conosco. Foi o próprio Deus quem o levou, e ninguém mais. E isso faz toda a diferença, pois Deus, na qualidade de autor da vida, é o único que tem direitos irrestritos sobre ela. Oito meses atrás, ao redigir a página de agradecimentos de minha dissertação de mestrado sobre o diagnóstico de doenças em laranjeiras, fiz uma menção algo bem-humorada ao
"Deus Trino, Autor de toda vida, humana ou cítrica". Eu nem sonhava em quão cedo as pesadas implicações desse fato se manifestariam em minha própria família. O Senhor exerceu seu direito exatamente conforme a descrição de Moisés em seu famoso salmo sobre a transitoriedade da vida humana: "Tu reduzes o homem ao pó e dizes: tornai, filhos dos homens". O versículo evoca com fidelidade a linguagem do Gênesis, na ocasião em que Deus amaldiçoou Adão: "No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás". Moisés se referia ao poder que Deus possui e exerce de fazer tornar ao pó a vida humana que Ele mesmo criara - dezenove semanas antes, no caso em questão. E aqui nosso dever é o de responder como Jó, que não perdeu um bebê no ventre, e sim dez filhos já crescidos, além de todos os seus muitos bens: "o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor".

Da mesma forma, diante da santidade de Deus não cabem considerações sobre a pureza das crianças, ou de quem quer que seja. A revelação divina não endossa os desvarios de alguns pensadores sobre uma suposta neutralidade moral inata do homem.
"Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe": eis o testemunho bíblico acerca do estado moral do bebê, do feto, do embrião, do zigoto. O poema de Chesterton fornece, por contraste, evidência adicional desse fato. Ele apresenta com grande beleza o sentimento de intensa gratidão que deveria inundar a vida de todo ser humano que tem o privilégio de vir a este mundo. Apesar de todos os terríveis efeitos do pecado, este universo é de fato tão belo que as promessas de bondade e de evitar toda palavra "de egoísmo ou de desdém" deveriam ser levadas muito a sério por todos os homens. Entretanto, não há uma criança - e muito menos um adulto - que não tenha agido precisamente da maneira oposta. As bem-intencionadas promessas do bebê do poema não enganam o observador arguto de nossa natureza. Nosso filhinho era um miserável pecador que, se não cometeu pecado algum, foi apenas por falta de oportunidade. Se Deus o tivesse conservado com vida, o combate constante à sua depravação, em atos e em orações, teria sido, por longo tempo, uma das prioridades fundamentais de nossa vida.

Não deve ser difícil notar que esta breve exposição teológica não tem nenhum componente abstrato e distante da realidade, especialmente para nós, os pais do bebezinho morto. E, longe de agravar nosso sofrimento, a convicção acerca desses dois pontos fundamentais da fé cristã - a soberania divina e a depravação humana - nos abre as portas para a mais sólida alegria possível numa situação como esta. Nosso bebê é um filho da aliança; é, portanto, um santo, não por alguma pureza que possuísse em si, mas por uma causa eficiente muito mais sólida e perene: a pureza de Cristo - o Cristo cuja gloriosa face minha criança veio a contemplar antes de mim. De modo que não posso deixar de me sentir alegre ao repetir as milenares palavras de Davi:
"Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim".

Esse episódio tem me levado a pensar com frequência naquele audacioso repúdio do apóstolo Paulo a toda proporção entre as obras dos santos e a recompensa que recebemos de nosso Senhor:
"nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação". Isso é verdadeiro de modo mui evidente na curta vida de meu filho, cujo único sofrimento foi uma hidropsia que não durou mais que algumas semanas. Os poucos gramas de fluido acumulado em seu corpinho lhe são agora, no máximo, uma lembrança muito leve. Quando penso no contraste entre a nulidade de suas realizações e a glória de seu destino final, agiganta-se aos meus olhos a manifestação da graça de Deus em sua pequenina vida, e por um momento quase cedo à tentação de invejá-lo. Mas não há o que invejar, já que minha própria condição é idêntica à dele. Meus méritos não são maiores, e tampouco é menor a eficácia da graça de Deus em mim. Se não sou capaz de ver isso com igual clareza em meu próprio caso, é apenas porque minha visão ainda se encontra turvada pelo pecado. A vinda e a partida de meu filho me levaram a uma compreensão mais profunda da misericórdia divina. Nos momentos de maior lucidez, ao menos, vejo que meu bebê e eu estamos exatamente na mesma situação. Nossa recém-formada família já se encontra dividida pelo abismo da morte, mas está unida para sempre sob o cetro de um mesmo Rei, sob a sombra do mesmo amor derramado na cruz.

Nada disso anula nosso sofrimento. Há tempo para tudo, e agora é tempo de chorar. E temos chorado. Minha esposa e eu lutamos pela vida de nosso filho, conversamos com ele, oramos por ele, choramos por ele e sonhamos com ele. É claro que sentimos saudades dele. E é claro que foi para mim uma experiência dolorosa ver seu corpinho sem vida e deformado pela hidropsia. Já vi muitos defuntos, mas nunca vira a morte de tão perto. Jamais ela atingiu alguém que estivesse tão junto ao meu coração e ao meu corpo. Em decorrência disso, a morte me é hoje uma entidade menos abstrata. Agora tenho uma compreensão mais exata do quanto ela é terrível e do quanto são tolos aqueles que procuram jamais pensar nela. Vislumbrei o justo desespero que eu sentiria diante da morte se esse último inimigo não tivesse sido derrotado por Cristo na cruz. Mas é exatamente porque não posso desconsiderar esse evento que a tristeza não pode ir além de certo ponto. Nesta hora de lágrimas, a vitória que Cristo conquistou para minha família não é mero consolo, e sim causa de uma intensa e positiva alegria que coexiste com a dor em meu coração.


Sofro porque meu filho partiu tão cedo, pela intimidade que não chegamos a ter, pelas muitas alegrias (e algumas dores de cabeça) que não terei mais, por tudo o que eu teria aprendido com ele, por todos os momentos com que sonhei e que jamais acontecerão. É como se nossa vida tivesse empobrecido de repente. É justo chorar por tudo isso. Mas não há nenhuma necessidade de chorar por meu bebê, como se ele fosse uma vítima inocente de um destino cruel, nem de queixar-me das injustiças deste mundo, no qual tantos perversos incorrigidos passam vidas longas e saudáveis. A verdade é o oposto exato disso tudo: meu filho se foi deste mundo mau sem que ninguém lhe tivesse feito mal algum. Deus foi maravilhosamente bom para ele. Sua morte foi preciosa aos olhos de meu Senhor, que o alcançou com sua graça salvadora. Todo pai deseja que seu filho seja bem-sucedido. Pois o meu foi, naquilo que pode haver de mais importante. E isso muito me alegra nesta hora de lágrimas.

25 de dezembro de 2010

Lições de uma noite

Ontem à noite, minha esposa e eu fizemos nosso culto doméstico habitual, mas com tema natalino. Em vez do estudo da Primeira Epístola aos Coríntios que vínhamos empreendendo, lemos o sermão A encarnação e o nascimento de Cristo, pregado por Charles Haddon Spurgeon na manhã do domingo anterior ao Natal de 1855, na New Park Street Chapel, em Londres. Spurgeon foi pastor batista, teólogo calvinista e grande expositor das Escrituras. Ele é chamado às vezes de "o último dos puritanos", e tinha apenas 21 anos quando proferiu a mensagem em questão. O texto bíblico escolhido por Spurgeon há 155 anos foi um único versículo extraído, não das narrativas dos evangelhos sobre o nascimento de Cristo, mas de uma profecia veterotestamentária, a de Miqueias 5.2: "E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade". Fomos muito abençoados por essa mensagem, de modo que decidi fazer este post para ressaltar quatro pontos que se me afiguraram particularmente interessantes.

1.
O primeiro ponto é sobre a própria legitimidade da observância do Natal, questão algo controversa entre os reformados, com alguns tomando a data como especial e sua celebração como inatacável, enquanto outros consideram-na apenas uma maldita superstição pagã alojada no seio da cristandade. O apóstolo Paulo nos deu um princípio importante a partir da questão do alimento: "Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu". E Paulo notou que a questão da observância dos dias está no mesmo patamar: "Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus." É triste ver os que celebram o Natal desprezando os que não o celebram, e estes julgando aqueles. Deveríamos todos prestar mais atenção ao texto de Romanos 14 acerca das coisas que não são essenciais. Spurgeon nos ajuda a atribuir o valor correto ao evento, sem exagero em nenhum sentido:

"Não há nenhuma probabilidade de que nosso Salvador Jesus Cristo tenha nascido nesse dia, e a observância dele é puramente de origem papal - sem dúvida os que são católicos têm o direito de reivindicá-lo - mas não posso entender como os protestantes consistentes podem tê-lo de alguma maneira como sagrado. No entanto, eu desejaria que houvesse dez ou doze dias de Natal ao ano, porque há suficiente trabalho no mundo e um pouco mais de descanso não faria mal ao povo trabalhador. O dia de Natal é de fato uma benção para nós, particularmente porque nos congrega em redor da lareira [do aparelho de ar condicionado, para nós que moramos em Salvador] de nossas casas e nos reunimos uma vez mais com nossos amigos. No entanto, ainda que não sigamos os passos de outras pessoas, não vejo dano algum em pensarmos na encarnação e no nascimento do Senhor Jesus. [...] Os antigos puritanos faziam ostentação do trabalho no dia de Natal, só para mostrar que protestavam contra a observância desse dia. Mas nós cremos que protestavam tão radicalmente que desejamos, como descendentes seus, aproveitar o bem acidental conferido a esse dia e deixar que os supersticiosos prossigam com suas superstições."


2.
Spurgeon extrai uma importante mensagem do significado hebraico dos nomes da cidade: Belém e Efrata. Belém pode significar "casa do pão" ou "casa da guerra", ao passo que Efrata significa "fecundidade" ou "abundância". Diz o pregador: "Jesus é que nos faz fecundos. 'Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto' (João 15.5) Gloriosa Belém Efrata! Bem nomeada! Fértil casa de pão - a casa de abundante provisão para o povo de Deus!" Contudo, me impressionou ainda mais a exposição dos significados de Belém, em especial a alusão à esterilididade da Lei (assunto caro ao apóstolo Paulo) e à nossa incapacidade de suportar a glória de Deus, simbolizadas pelos montes Sinai e Tabor.

"Cristo não devia nascer na 'casa do pão'? Ele é o pão de seu povo, é dEle que este recebe seu alimento. Como nossos pais comeram o maná no deserto, assim nós vivemos de Cristo aqui embaixo. Famintos frente ao mundo, não podemos alimentar-nos de suas sombras. Suas cascas podem agradar ao gosto suíno do mundo, pois eles são porcos, mas nós precisamos de algo mais substancial, e nesse pão do céu, feito do corpo ferido de nosso Senhor Jesus, e cozido no forno de Suas agonias, encontramos um bendito alimento. Não existe alimento como Jesus para a alma desesperada ou para o mais forte dos santos. O mais humilde da família de Deus vá a Belém por seu pão; e o homem mais forte, que come sólidos alimentos, vá a Belém por eles. Casa do Pão! De onde poderia vir nosso alimento senão de ti? Temos provado o Sinai, mas em seus picos afiados não crescem frutos, e suas alturas espinhosas não produzem trigo que possa alimentar-nos. Fomos ao próprio Tabor, onde Cristo foi transfigurado, e, no entanto, ali não fomos capazes de comer Sua carne e beber Seu sangue. Porém tu, Belém, casa de pão, foste corretamente nomeada; pois em ti se deu ao homem pela primeira vez o pão da vida. E também és chamada 'a casa da guerra', porque Cristo é para os homens 'casa do pão' ou, do contrário, 'casa da guerra'. Enquanto Ele é alimento para o justo, faz guerra ao ímpio, segundo Sua própria palavra:
'Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa.' ( Mateus10.34-36) Pecador, se não conheces Belém como 'a casa do pão', então ela será para ti uma 'casa de guerra'. Se nunca bebes o doce mel dos lábios de Jesus, se não és como a abelha que sorve do delicioso e doce licor da Rosa de Sarom, então dessa mesma boca sairá uma espada de dois gumes contra ti [alusão a Apocalipse 19.11-21] - e essa mesma boca da qual os justos retiram seu pão será para ti a boca da destruição e a causa de teu mal. Jesus de Belém, casa de pão e casa de guerra, nós confiamos que Te conhecemos como nosso pão."

3.
O pregador extraiu uma maravilhosa lição da alusão bíblica às saídas do Messias "desde os dias da eternidade". Trata-se da própria soberania do Deus Trino, manifesta em seu decreto eterno, que deve ser fonte de abundante consolação e segurança para os crentes: eleição e perseverança.

"Ele saiu por Seu povo, como seu representante diante do trono, ainda antes que esse povo fosse gerado no mundo. Foi desde a eternidade que Seus poderosos dedos tomaram a pena, e a caneta das eras, e escreveram Seu próprio nome, o nome do eterno Filho de Deus. Foi desde a eternidade que firmou com Seu Pai o pacto pelo qual pagaria sangue por sangue, ferida por ferida, sofrimento por sofrimento, agonia por agonia e morte por morte em favor de Seu povo. Foi desde a eternidade que Ele entregou a Si mesmo, sem murmurar uma palavra, que desde Sua cabeça até a planta dos Seus pés suaria sangue, que seria cuspido, traspassado, traído, partido em dois, sofreria a dor da morte e as agonias da cruz. Suas saídas como nossa garantia foram desde a eternidade. Faça uma pausa, alma, e assombre-se! Você teve saídas na pessoa de Jesus desde a eternidade. Não foi apenas quando nasceu nesse mundo que Cristo a amou; Seus deleites estavam com os filhos dos homens desde antes que houvesse filhos dos homens. Ele frequentemente pensava neles; de eternidade a eternidade Ele tinha posto neles Seu afeto. Como, então, ó crente, Ele esteve envolvido em sua salvação desde muito tempo atrás e não vai alcançá-la? Desde a eternidade Ele saiu para salvar-me e vai me perder agora? Como? Tem-me em Sua mão, como Sua joia preciosa, e deixará que resvale por entre Seus preciosos dedos? Elegeu-me antes que as montanhas fossem erigidas, antes que os canais das profundezas fossem esculpidos, e agora me perderá? Impossível! [...] Estou seguro de que não me amaria durante tanto tempo para logo depois deixar de fazê-lo. Se tivesse a intenção de se cansar de mim, já o teria feito há muito. Se não tivesse me amado com um amor tão profundo como o inferno e tão inexprimível como a tumba, se não tivesse dado todo o Seu coração, estou seguro de que já teria me abandonado há muito! Ele sabia o que eu seria e teve muito tempo para considerar isso; mas sou Seu eleito, e isso é definitivo. E, embora eu seja indigno, não me é dado resmungar, se Ele está contente comigo."


4.
Na conclusão da pregação, depois de ter citado exemplos das "saídas" de Cristo na história de Israel, quando esteve presente em forma visível a Abraão, Jacó, Josué e os amigos de Daniel, Spurgeon fala sobre a presença de Cristo nos corações dos crentes, em especial dos que, como nós, passam por momentos difíceis.

"Há certos lugares especiais nos quais devemos entrar para encontrar o Senhor. Devemos estar em grandes problemas, como Jacó; devemos estar em meio a grandes trabalhos, como Josué; devemos ter uma grande fé intercessória, como Abraão; devemos estar firmes no desempenho de um dever, como Sadraque, Mesaque e Abedenego. Do contrário, não conheceremos Aquele
'cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade'. Ou, se O conhecermos, não seremos capazes de 'compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade' (Efésios 3.18). Doce Senhor Jesus! Tu, cujas saídas foram desde o início, desde os dias da eternidade, Tu que, todavia, não abandonaste Tuas saídas, sai hoje para animar o desmaiado, para ajudar o cansado, para sarar nossas feridas, para consolar nossas aflições! Sai, suplicamos-Te, para conquistar os pecadores, para subjugar corações endurecidos, para romper as portas de ferro de seus pecados e fazê-las em pedaços! Ó Jesus, sai e, ao saíres, vem a mim! [...] Pobre pecador! Cristo não tem deixado de sair. E quando sai, lembra-te, Ele vai a Belém. [...] Ele virá à tua velha e pobre casa; virá ao teu pobre coração infeliz; virá, ainda que estejas na pobreza, e coberto de farrapos; ainda que estejas desamparado, atormentado e aflito. Ele virá, pois Suas saídas têm sido desde o princípio, desde os dias da eternidade. Confia Nele, confia Nele, confia Nele; e Ele sairá e habitará em teu coração por toda a eternidade."

Glória a Jesus Cristo, pois Ele já veio e está conosco!

Feliz Natal a todos!

30 de novembro de 2010

Sobre o recente protesto contra a Universidade Presbiteriana Mackenzie

Em protesto ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), publicado desde 2007 no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie contra o PL 122/2006 (conhecido como “lei anti-homofobia”), um grupo de ativistas organizou uma manifestação no dia 24 de novembro de 2010, por volta das 18h, em frente à universidade. Com previsão de mais de três mil participantes, o evento contou somente com cerca de 400, que se postaram diante dos portões da instituição, na Rua Itambé. Em seguida, o grupo deslocou-se do Mackenzie para a Avenida Paulista com um número já bastante reduzido, conforme anunciado por diversos veículos de comunicação como a Globo News, a Folha de São Paulo, a CET, o site da UOL e dezenas de outros sites informativos. Na universidade, as aulas transcorreram normalmente.

A oposição da IPB ao projeto de lei se baseia não só no senso comum e em análises jurídicas especializadas (que consideraram o projeto “inconstitucional”), mas sobretudo nos princípios cristãos que norteiam tanto a denominação quanto o Mackenzie. Não há novidade nisso: quando se matriculam na instituição, os alunos assinam o contrato de serviços educacionais, em que há uma cláusula explicando esse caráter confessional. Isso não significa perseguição a quem não subscreve essas bases cristãs, muito pelo contrário: não há registro na história da universidade de casos de discriminação de qualquer tipo, seja contra alunos homossexuais, seja contra alunos que professam outras religiões, ou nenhuma. Todos têm acesso aos mesmos benefícios, como bolsas de estudo.

No entanto, desde o momento em que a publicação do texto da IPB no site do Mackenzie foi “descoberta” pelos ativistas neste ano, a igreja, a universidade e a pessoa de seu Chanceler têm sido duramente atacados e acusados de “homofobia”. Filmados em vídeo, os manifestantes pediam a demissão do Chanceler, cuja foto foi estampada em diversos sites homossexuais acompanhada de palavras de ódio. A virulência que caracterizou essas expressões de indignação, mesmo antes da aprovação do projeto, confirma o quanto é perigoso que a sociedade se veja refém de uma minoria militante, que procura impor seus pontos de vista por meio de pressão e difamação, não admitindo que pessoas, igrejas e organizações cristãs simplesmente afirmem ser a conduta homossexual um pecado.

Para detalhar melhor sua postura bíblica — que se fundamenta no amor, não no separatismo, e prega o respeito a todos —, cristãos que partilham da mesma visão sobre o homossexualismo se uniram para elaborar o manifesto “Universidade Mackenzie: Em Defesa da Liberdade de Expressão Religiosa”. O texto foi reproduzido em cerca de oito mil sites cristãos e conservadores, recebendo mais de 36mil citações na internet. Traduzido para idiomas como alemão, espanhol, francês, holandês e inglês, foi postado em sites de diversos países estrangeiros, como Estados Unidos, França, Alemanha e Portugal. Centenas de manifestações de solidariedade à postura do Mackenzie foram veiculadas em diversos meios, inclusive no conhecido blog de Reinaldo Azevedo (articulista da revista Veja), um dos comentaristas políticos mais lidos e respeitados do país. Respondendo às acusações de “homofobia” com argumentos sólidos e bíblicos, os cristãos creem que sua postura contribuiu para que a manifestação de repúdio ao documento da IPB tenha recebido tão pouca adesão do público.

Nós, cristãos, estamos alegres e gratos por todo o apoio recebido e pelas orações do povo de Deus em favor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e de seu Chanceler, o Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Instamos o povo de Deus a que se una também em súplicas e intercessões para que o Deus todo-poderoso derrame seu Espírito Santo sobre a igreja evangélica neste país. Necessitamos com urgência de um avivamento, de forma que o Cristo crucificado seja exaltado, os crentes sejam santificados, a Escritura Sagrada seja pregada com liberdade, pecadores se convertam e nosso país seja transformado, para a glória do Deus trino da graça.

Este pronunciamento é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.
Para ampla divulgação.

19 de novembro de 2010

Universidade Mackenzie: em defesa da liberdade de expressão religiosa

A Universidade Presbiteriana Mackenzie vem recebendo ataques e críticas por um texto alegadamente “homofóbico” veiculado em seu site desde 2007. Nós, de várias denominações cristãs, vimos prestar solidariedade à instituição. Nós nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado. Ora, nossa liberdade de consciência e de expressão não nos pode ser negada, nem confundida com violência. Consideramos que mencionar pecados para chamar os homens a um arrependimento voluntário é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nenhum discurso de ódio pode se calcar na pregação do amor e da graça de Deus.

Como cristãos, temos o mandato bíblico de oferecer o Evangelho da salvação a todas as pessoas. Jesus Cristo morreu para salvar e reconciliar o ser humano com Deus. Cremos, de acordo com as Escrituras, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Somos pecadores, todos nós. Não existe uma divisão entre “pecadores” e “não-pecadores”. A Bíblia apresenta longas listas de pecado e informa que sem o perdão de Deus o homem está perdido e condenado. Sabemos que são pecado: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, rivalidades, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (Gálatas 5.19). Em sua interpretação tradicional e histórica, as Escrituras judaico-cristãs tratam da conduta homossexual como um pecado, como demonstram os textos de Levítico 18.22, 1Coríntios 6.9-10, Romanos 1.18-32, entre outros. Se queremos o arrependimento e a conversão do perdido, precisamos nomear também esse pecado. Não desejamos mudança de comportamento por força de lei, mas sim, a conversão do coração. E a conversão do coração não passa por pressão externa, mas pela ação graciosa e persuasiva do Espírito Santo de Deus, que, como ensinou o Senhor Jesus Cristo, convence “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).

Queremos assim nos certificar de que a eventual aprovação de leis chamadas anti-homofobia não nos impedirá de estender esse convite livremente a todos, um convite que também pode ser recusado. Não somos a favor de nenhum tipo de lei que proíba a conduta homossexual; da mesma forma, somos contrários a qualquer lei que atente contra um princípio caro à sociedade brasileira: a liberdade de consciência. A Constituição Federal (artigo 5º) assegura que “todos são iguais perante a lei”, “estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Também nos opomos a qualquer força exterior – intimidação, ameaças, agressões verbais e físicas – que vise à mudança de mentalidades. Não aceitamos que a criminalização da opinião seja um instrumento válido para transformações sociais, pois, além de inconstitucional, fomenta uma indesejável onda de autoritarismo, ferindo as bases da democracia. Assim como não buscamos reprimir a conduta homossexual por esses meios coercivos, não queremos que os mesmos meios sejam utilizados para que deixemos de pregar o que cremos. Queremos manter nossa liberdade de anunciar o arrependimento e o perdão de Deus publicamente. Queremos sustentar nosso direito de abrir instituições de ensino confessionais, que reflitam a cosmovisão cristã. Queremos garantir que a comunidade religiosa possa exprimir-se sobre todos os assuntos importantes para a sociedade.

Manifestamos, portanto, nosso total apoio ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil publicado no ano de 2007 e reproduzido parcialmente, também em 2007, no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por seu chanceler, Reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Se ativistas homossexuais pretendem criminalizar a postura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devem se preparar para confrontar igualmente a Igreja Presbiteriana do Brasil, as igrejas evangélicas de todo o país, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Congregação Judaica do Brasil e, em última instância, censurar as próprias Escrituras judaico-cristãs. Indivíduos, grupos religiosos e instituições têm o direito garantido por lei de expressar sua confessionalidade e sua consciência sujeitas à Palavra de Deus. Postamo-nos firmemente para que essa liberdade não nos seja tirada.

Este manifesto é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.
Para ampla divulgação.

15 de novembro de 2010

O direito ao mistério - parte 4

Nos posts anteriores critiquei as teses de Crampton do ponto de vista lógico e histórico, apontando a superficialidade com que lê seus antagonistas e também demonstrando a inconsistência dos argumentos com que pretende construir sua própria alternativa. Terminei o último post apontando como plausível a hipótese de que o autor deve elementos importantes de seu pensamento a uma fonte essencialmente antibíblica. Contudo, não apontei nenhuma evidência positiva disso, e tampouco abordei a questão de um ponto de vista teológico. É o que pretendo fazer nesta última postagem.

Como vimos, boa parte do argumento de Crampton consiste em apontar semelhanças entre as declarações de seus antagonistas conservadores e as de teólogos neo-ortodoxos. Sendo assim, ele não poderá reclamar se eu adotar o mesmo procedimento e disser com o que se parecem seus louvores à razão. Parecem-se com os de todos os descendentes do cartesianismo e do iluminismo, incluindo-se aí os racionalistas do século XVII, os enciclopedistas do XVIII, os positivistas e teólogos liberais do XIX, os materialistas darwinistas, comunistas e outros cientificistas do século XX. Se Voltaire, Marx, T. H. Huxley, Kardec, Lênin, Russell, Bultmann, Sagan ou Dawkins lessem a Confissão de Fé de Westminster e o artigo de Crampton, sem dúvida veriam nesse contraste uma evidência do "progresso" do calvinismo ao longo dos séculos em direção às luzes da razão. Todos eles repeliam (ou repelem) horrorizados a mera ideia de que algo na realidade pudesse exceder os limites de nossa razão, pondo-se logo a tecer considerações alarmadas sobre os perigos do "irracionalismo".


Não é meu desejo, de forma alguma, tomar partido num debate entre racionalistas e irracionalistas. Inclusive tenho um
post, que recomendo aos interessados nessa pendenga, no qual acuso ambos de serem farinha do mesmo saco. Já li racionalistas cientificistas e também já li irracionalistas pós-modernos, e é em parte por isso que sei que ambos são igualmente perniciosos, e que não se pode evitar um pecado caindo em outro. Crampton, porém, não sabe disso, e acabou por cair no mesmo dualismo que acomete o mundo: elegeu um dos erros como o vilão e se encaminhou para o erro oposto como se fosse o herói. E seu herói, concorde ele ou não com o nome que lhe dou, é o racionalismo. Trata-se, devo dizer, de um velho conhecido meu. Encontrei-o ainda na adolescência, e o Departamento de Física que frequentei por cinco anos em nada me incentivou a abandoná-lo. O racionalismo foi a minha tentação intelectual até os vinte anos, e é por isso que conheço de perto, de dentro, o perigo espiritual que ele representa. E é também por isso que não pude ficar em silêncio ao me deparar com um racionalismo com roupagens de teologia calvinista conservadora.

Como argumento contra a associação feita por Crampton entre calvinistas e neo-ortodoxos, citar semelhanças entre as concepções do autor e as de eminentes pensadores racionalistas, dentro ou fora da igreja, é resposta suficiente. Mas é preciso ir além e demonstrar que minha associação não é falaciosa como a dele. Para isso, nada melhor que explorar os efeitos dessa mentalidade no próprio texto de Crampton. Na última página, antes de apresentar sua conclusão, o autor enumera os
"três obstáculos insuperáveis" propostos por Robert Reymond para quem sustenta a existência de paradoxos lógicos nas Escrituras. O primeiro é o da suposta subjetividade da afirmação dos paradoxos, obstáculo que já superei no primeiro post. Os outros dois estão intimamente ligados e são bastante reveladores.

Segundo o autor, o problema com a afirmação de que as contradições bíblicas são apenas aparentes é que
"se nenhuma quantidade de estudo ou reflexão pode remover a contradição, não há meios disponíveis para distinguir essa contradição 'aparente' de uma contradição real". Crampton pergunta: "Como, então, o homem sabe se está abraçando uma contradição real (a qual, se encontrada na Bíblia [...], reduziria a Escritura ao mesmo nível do contraditório Alcorão do islamismo) ou uma contradição aparente?" Esse foi o segundo obstáculo. O terceiro trata da afirmação de que a verdade pode estar em declarações mutuamente irreconciliáveis. Quem crê nisso "abandonou toda possibilidade de detectar uma falsidade real". Qualquer coisa que contradiga algum ensino das Escrituras poderia ser aceita como apenas mais uma contradição aparente. Nesse caso, Crampton conclui, "a exclusividade do cristianismo como a única religião verdadeira revelada morrerá a morte de milhares de qualificações".

Tenho várias coisas a dizer sobre esse argumento bicéfalo. A primeira é que todas as razões levantadas contra a ideia da contradição aparente apenas desenvolvem suas supostas consequências, mas de modo algum tornam implausível sua realidade. Para ilustrar o que digo, retomarei o exemplo da conciliação entre a predestinação e a liberdade humana. Suponhamos que haja uma solução racionalmente impecável para o impasse, e que o homem mais inteligente e bem preparado que já houve ou haverá pudesse chegar a ela se a perseguisse com todas as forças durante mil anos. Nesse caso, é claro que todos os esforços dariam em nada. Isso mostra que Crampton tem razão ao dizer que, na prática, não é possível distinguir logicamente uma contradição real de uma aparente, e é por isso mesmo que não fiz nenhuma tentativa nesse sentido. Mas também mostra que não há nada de inverossímil na suposição de que algumas verdades podem ser, na prática, inapreensíveis pela razão humana, ainda que não o sejam em teoria. Por isso, para defender a existência de mistérios, não é necessário negar que a coerência lógica seja um atributo divino, nem afirmar que
"nenhuma quantidade de estudo ou reflexão pode remover a contradição". Talvez alguma quantidade seja suficiente, mas não praticável para nós. E Crampton não levantou uma única objeção válida a essa possibilidade.

Deve ser observado que, também nesse contexto, a predição do fim apocalíptico da teologia bíblica não se justifica. Ao aceitar a existência de mistérios nas Escrituras, Calvino, os teólogos de Westminster e os citados por Crampton não pretendiam promover - e não promoveram - uma debandada geral dos domínios da razão. Ao contrário, a asseveração de um mistério só é aceita depois de completado o árduo trabalho da exegese bíblica, no qual, sem dúvida, a razão toma parte, assistida pelo Espírito Santo. Para afirmar que a dupla natureza de Cristo é um mistério, foi necessário ler atentamente a Bíblia e constatar que tanto a divindade quanto a humanidade de Cristo são ali claramente ensinadas, e então constatar os impasses a que isso leva. Da mesma forma, a doutrina da Trindade foi inferida a partir da constatação exegética de que o Pai, o Filho e o Espírito são distintos entre si, que cada um deles é Deus e que só há um Deus. É depois de constatados os fatos, e não antes, que alguém pode tentar explicar o que vê nas Escrituras e, não conseguindo, declarar que o assunto é um mistério. É assim que, contrariando os medos de Crampton, a razão sempre teve seu papel assegurado, sem exageros, na tradição reformada.


Aliás, o medo do colapso da racionalidade face ao mistério é um dos vários pontos que Crampton e os racionalistas seculares têm em comum. Um dos principais motivos que levam os cientificistas a rejeitar
a priori o design inteligente, por exemplo, é claramente análogo: eles temem que, com a admissão da insuficiência das leis naturais, todos os cientistas do mundo interrompam suas pesquisas e experimentos e passem a atribuir todos os eventos a alguma inescrutável inteligência superior. Trata-se de um absurdo, evidentemente, mas o poder paralisante que o medo exerce sobre a razão não diminui em nada quando o apavorado em questão é um racionalista.

O medo, na verdade, nos levará diretamente ao coração do problema. O maior medo de Crampton é que a abdicação da razão destrua o próprio fundamento da superioridade da fé bíblica. Ao admitir que há na doutrina cristã fatos que nossa razão não pode abarcar, perderemos o direito de apontar para as contradições de outros sistemas religiosos como provas de sua falsidade. Sem esse que é o grande argumento de muitos apologetas - a Bíblia não se contradiz, mas todo o resto sim - resta apenas um relativismo e uma equivalência de todas as religiões, e perdemos a própria justificativa para sermos cristãos.


Minha experiência pessoal não corresponde a nada disso. Tornei-me cristão porque Deus me regenerou, tirou meu coração de pedra e me deu um coração de carne, aplicou a mim o valor expiatório da obra de Cristo, capacitou-me a desejar a reconciliação com Deus e a ter fé em Cristo como único mediador da nova aliança. E continuo a ser cristão porque Deus tem levado minha fé a perseverar, de modo a completar a obra iniciada, conforme sua promessa, e porque o Espírito Santo testifica com meu espírito que sou filho de Deus e abre meus olhos para a compreensão das verdades reveladas nas Escrituras. O caso de Crampton, ao que parece, é bem diferente do meu: ele se tornou cristão porque o Espírito deu satisfações impecáveis à sua razão, a qual então se dobrou diante da evidência. E só continuará a ser cristão até o dia em que sua razão, como árbitro soberano, detectar na Bíblia alguma contradição (real ou aparente, pois ambas são indistinguíveis) e o Espírito não for capaz de lhe dar uma explicação convincente para tamanho disparate.


No parágrafo anterior, descrevi minha experiência com Deus em termos calvinistas e bíblicos não apenas porque tais termos de fato descrevem com perfeição o cerne dessa experiência, mas também para evidenciar o contraste com as declarações de Crampton sobre os motivos pelos quais se deve ser cristão. O grande problema com o racionalismo, teológico ou não, está bem ilustrado aqui: o autor não mais descreve a razão de sua esperança com base na experiência concreta da graça de Deus, e sim a partir da robustez do esquema teórico e racional que foi capaz de erigir. É esse o resultado natural da crença no domínio absoluto da razão: o olhar desviado de Cristo e sua misericórdia para questões secundárias.


O terceiro perigo também decorre do medo, e também está exposto acima: a suposta vulnerabilidade da doutrina cristã frente a doutrinas concorrentes como resultado da admissão de paradoxos na Bíblia. Quanto a isso, observo, em primeiro lugar, que a redução do valor de uma doutrina à coerência racional de suas construções teóricas é em si um critério bastante deficiente que só poderia mesmo brotar da cabeça de um racionalista. O valor de uma doutrina se mede também pelo tipo de homem que ela produz. E esse fato, dentre muitas outras coisas, torna perfeitamente possível comparar duas religiões (ou dois sistemas quaisquer), ainda que haja contradições (reais ou aparentes) em ambas. Mesmo a comparação racional é possível, no entanto, pois o tipo, o lugar e o efeito das inconsistências lógicas varia muito entre as diversas doutrinas. Acima de tudo, porém, é necessário ter em mente a doutrina bíblica e reformada da depravação total, da qual um dos corolários é que ninguém jamais se tornou ou se tornará cristão pela persuasão racional, e sim apenas pela operação regeneradora do Espírito nos corações.


A propósito, é inconcebível para mim que um teólogo reformado se aventure a discorrer sobre o assunto da justificação racional da fé bíblica sem tocar no tema importantíssimo do papel do pecado enquanto obscurecedor da inteligência humana, especialmente em assuntos diretamente relacionados a Deus e à salvação, que é uma das ênfases primordiais da doutrina reformada sobre a cognoscibilidade de Deus. Crampton, no entanto, faz justamente isso. Se sua argumentação já é deficiente frente à constatação da finitude humana em contraste com a infinitude divina, torna-se ainda mais reprovável quando lembramos que essa finitude está corrompida pelo pecado e que, como nos lembra Calvino nas
Institutas, ninguém pode obter um conhecimento autêntico de Deus ou das Escrituras sem a iluminação do Espírito de Deus e sem a santificação correspondente. Esse é mais um exemplo das ênfases erradas a que o racionalismo leva.

Termino aqui esta série sobre o artigo de Crampton e sobre o racionalismo pseudocalvinista ali exposto. Se eu fosse um incrédulo racionalista insatisfeito e tivesse meu primeiro contato com o calvinismo através de Crampton, provavelmente teria me aborrecido e repelido de imediato a fé reformada, desanimado com a perspectiva de trocar um racionalismo secular por um religioso. Felizmente conheci a doutrina reformada por outros meios, e graças a isso posso avaliar a extensão do desserviço prestado pelo autor (e por quantos porventura pensem como ele) à doutrina bíblica. Esse procedimento incentiva os crentes a depositar sua confiança na própria razão, e não na obra consumada de Cristo; e a buscar segurança na coerência racional, e não nas promessas de Cristo. Talvez seja por isso mesmo que Deus não nos deu respostas exaustivas, quer nas Escrituras, quer na revelação geral: Ele não deseja que nos recusemos a reconhecer nossas limitações também nessa área, e muito menos que lhe imponhamos condições para permanecer firmes na adoração bíblica, ao invés de humildemente solicitar sua graça para permanecermos. De modo que devemos aceitar de Cristo o que quer que Ele deseje nos dar, sejam explicações racionais, sejam indícios a partir dos quais podemos chegar a respostas logicamente válidas, sejam mistérios nos quais só podemos crer.


De qualquer modo, estou feliz e grato a Deus porque ele me curou do racionalismo que outrora foi parte de mim. Meu desejo é que outros cristãos reformados também venham a perceber que há alguns mistérios entre os céus e a terra, apesar do que sonha a vã filosofia de W. Gary Crampton.


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Adendo: Não deixem de ler o texto da Norma, minha esposa, sobre um tema relacionado a este, envolvendo Calvino e Chesterton, nem o posicionamento do pastor Augustus Nicodemus Lopes, um dos maiores teólogos calvinistas do país. No mesmo post, aliás, há um extenso e muito esclarecedor comentário do pastor Hermisten Maia, grande estudioso de Calvino, acerca das posições do reformador sobre o assunto. Os trechos que citei de Calvino na terceira parte estão todos ali, embora não necessariamente na mesma tradução.