9 de março de 2007

Crianças mutiladas

Guilherme (ou William) de Ockham foi um dos maiores pensadores do final da Idade Média, o período conhecido na história da filosofia como "escolástica posterior". Hoje em dia pouca gente sabe alguma coisa importante a respeito dele, ou da escolástica em geral. Guilherme é conhecido quase exclusivamente pelo dispositivo metodológico que leva o seu nome, embora não seja exatamente de sua autoria: a Navalha de Ockham. Ela declara que uma teoria (seja ela científica, filosófica ou o que for), propondo-se a explicar determinado aspecto da realidade, deve fazê-lo da maneira mais simples possível. Isso significa que, se dispomos de duas teorias que explicam de modo igualmente coerente uma determinada ordem de fatos, devemos optar pela que o faz articulando a menor quantidade de elementos. Se é possível dar conta dos fatos sem recorrer a certos elementos, segue-se que eles são desnecessários na explicação dos tais fatos, de modo que na realidade não ajudam a explicá-lo, mas apenas acrescentam abstrações que obstruem a real compreensão do assunto.

A partir desse interessante aspecto da filosofia de Guilherme de Ockham e de sua bem conhecida simpatia pelo empirismo, algumas pessoas concluíram que ele foi um precursor do pensamento moderno, um empirista no sentido em que o são os agnósticos e céticos dos últimos cento e cinqüenta anos, ou talvez até um materialista e ateu enrustido. É verdade, sem dúvida, que Guilherme defendeu, contra o consenso de sua época, várias idéias que depois se tornaram muito mais comuns. Mas a única razão pela qual alguns o consideram um típico racionalista moderno está no fato de que desconhecem todo o restante da filosofia do sujeito, bem como a de seus contemporâneos e predecessores imediatos e, de maneira geral, o ambiente histórico e cultural no qual ele viveu. Em vista disso, são obrigados a preencher o vazio deixado por essa ignorância com suas próprias idéias infundadas sobre como as coisas deviam ser, o que resulta na necessidade de elaborar independentemente conceitos sobre o que é ou não filosoficamente aceitável para depois, sem perceber o que estão fazendo, atribuí-los ao filósofo em questão. Só assim se explica que seja considerado suspeito de ateísmo um monge franciscano que, em total acordo com a tradição escolástica, não só acreditava poder demonstrar cabalmente a existência de Deus como também inventou ele próprio um argumento para esse fim (o qual, na verdade, foi um aperfeiçoamento do argumento de Duns Scotus).

Não há dúvida de que a Navalha foi uma grande contribuição não só à filosofia e às ciências físicas, mas também a toda forma de conhecimento objetivo. Mas, sendo um dispositivo lógico, sofre do mesmo tipo de restrição que limita o alcance da lógica. Esta ensina a pensar corretamente, a extrair as conclusões corretas a partir das premissas. Ela é a arte do pensamento, mas não pode fornecer as premissas a partir das quais se deve pensar. Semelhantemente, a Navalha de Ockham assegura a necessidade de eliminar o supérfluo, sem, no entanto, fornecer meios de distinguir a abstração desnecessária do dado essencial da realidade. É justamente aí que o indivíduo pensante, em sua tentativa de fornecer uma interpretação dessa realidade, deve entrar com seu poder de observação, sua inteligência e, sobretudo, sua sensatez. O rigor lógico não pode dispensar nem substituir nada disso.

São justamente essas qualidades essenciais que abundavam por aí no tempo dos velhos escolásticos (bem como na época dos ainda mais velhos patrísticos ou na idade de ouro da filosofia grega) e que andam tão difíceis de se encontrar hoje em dia. Há exceções, é claro, como sempre houve. Mas a Navalha de Ockham exemplifica de maneira admirável um fenômeno deveras interessante na história das idéias. Quem a inventou e utilizou primeiro possuía a necessária integridade intelectual para fazer bom uso dela. Alguns erros, é claro, foram cometidos. Mas esses pensadores utilizavam seus instrumentos com maturidade e com elevada consciência dos riscos que seu mau uso poderia acarretar. Mas Guilherme de Ockham e os escolásticos se foram, e seu legado, tendo sofrido pela degeneração que desde então se apossou da filosofia ocidental, veio a encontrar aqueles intelectuais que, mesmo estando entre os maiores de sua época, já não tinham condições de tirar bom proveito dele. Restaram apenas um empirismo ingênuo e um racionalismo restrito e dogmático. Aquela tão necessária sensatez dos antigos havia desaparecido, cedendo a uma lógica vazia e independente de qualquer intuição das realidades subjacentes. Nesse ambiente, a Navalha de Ockham continuou servindo como arma contra as teorizações supérfluas e abstratas, deixando apenas as estritamente necessárias. O problema é que, a essa altura, já quase ninguém sabia distinguir uma coisa da outra.

O resultado, naturalmente foi desastroso. Como disse Tolkien, "Perigosos para todos nós são os instrumentos de uma arte mais profunda que a possuída por nós mesmos." Essa verdade cai bem aqui, pois os métodos de raciocínio dos velhos filósofos sofreram o mesmo destino que certos objetos mágicos da Terra-média: de instrumentos úteis, tornaram-se armas de destruição. Uma navalha, por exemplo, pode ter muitos usos, desde o corte de cabelos até o corte de cabeças. Os novos intelectuais passaram a usá-la irresponsavelmente, como cabeleireiras malucas que não vissem grande diferença entre decapitar suas clientes e aparar-lhes os cabelos. No labor do filósofo, assim como no dos salões de beleza, é sumamente importante distinguir o essencial do supérfluo. E foi em decorrência da incapacidade de efetuar essa distinção que a velha Navalha, que já contava com vários séculos de existência, passou a ser usada para fins completamente novos: justificar teorias que dispensavam o livre arbítrio, a lógica, a ciência, a matéria, Deus, a moral, a própria personalidade.

Pra ser mais exato, não pretendo dar a entender que todas as besteiras do mundo tenham sido inspiradas em péssimas aplicações da Navalha de Ockham. Os campeões nesse hábito, na verdade, costumam ser os céticos mais empiristas, que gostam de pensar que acreditam na ciência e em nada mais (é claro que, felizmente, eles não fazem isso). E, no que diz respeito à Navalha, eu poderia terminar este texto aqui, tendo desvendado, ainda que vagamente, as razões que impedem muitas dessas pessoas de compreender Guilherme de Ockham. Mas isso é apenas uma manifestação particular de um problema muito mais abrangente, em todos os sentidos, e meu propósito ao falar sobre a Navalha não era senão o de ilustrá-lo.

Em um de seus livros, Chesterton exemplifica com precisão esse problema ao queixar-se de que a filosofia de um contemporâneo seu "não se preocupa com as coisas reais do mundo, os povos em luta, o orgulho das mães, o primeiro amor ou o medo do mar." Em resumo, aquela teoria, assim como muitas outras, simplesmente não capta a experiência humana, sendo antes a concretização do oposto simetricamente exato das intenções de Guilherme: estabelecer como princípios incontestáveis certos pressupostos altamente abstratos, e com base nisso desprezar ou ignorar todos os dados da realidade que os contradizem. Com ou sem a Navalha, o fato é que muitos dos grandes equívocos filosóficos dos últimos séculos consistem em algum tipo de amputação, ao deixar de lado aspectos da realidade que não se enquadram em seus esquemas preconcebidos, ou que simplesmente não são passíveis de investigação pelos métodos favoritos do filósofo em questão. Idealismo, ceticismo, relativismo, materialismo, behaviorismo, pragmatismo, determinismo, existencialismo e tantos outros são exemplos concretos de filosofias que, a despeito de todas as suas diferenças, têm em comum essas limitações auto-impostas em nome de um sofisma qualquer. O nome disso tudo é "reducionismo", e ele está contido em todos os "ismos" que acabo de mencionar. É, sem dúvida, uma das mais nefastas doenças intelectuais da humanidade.

Ou talvez seja mais correto dizer que é um de seus enganos mais infantis. Exceto pela malícia que muitas vezes a acompanha, essa invencível imbecilidade se assemelha em tudo à ingênua irresponsabilidade das crianças. Segue-se daí que qualquer pai consciencioso pode diagnosticar o mal da filosofia moderna. É que muitos de seus representantes são crianças brincando com instrumentos que não são capazes de manejar e cujo potencial, para o bem ou para o mal, simplesmente não entendem. Pegaram emprestada a navalha do seu pai e passaram a mutilar uns aos outros com ela, sem saber que sua verdadeira utilidade é fazer a barba, que eles ainda não têm. A comparação, aliás, é perfeitamente válida, pois o reducionismo não faz outra coisa senão arrancar de maneira ilegítima certos pedaços do mundo, e particularmente da natureza humana. A maioria das crianças está a salvo de semelhante perigo, porque suas mães não as deixam manipular objetos cortantes até que elas demonstrem maturidade para tanto. O mal de muitos pensadores nos últimos séculos foi que eles não tiveram tanta sorte.

Um comentário:

Camila disse...

Oi meu amigo!

Gostaria de saber o que representam cada uma dessas filosofias: Idealismo, ceticismo, relativismo, materialismo, behaviorismo, pragmatismo, determinismo e existencialismo.

Porque você diz que elas são nefastas ? Você pode explicar brevemente cada uma.

Beijo