17 de setembro de 2008

Sexta colheita, ou: mais cartas de uma bruxa

Nesta postagem terminarei o que comecei na anterior, isto é, a atenção aos comentários recebidos a propósito do post Uma dúzia de tiranos. Resta ainda o comentário do Bruno, em resposta ao qual vi-me obrigado a me delongar um pouco a fim de fazer-lhe justiça. Como os e-mails que enviei ao Gustavo e ao Otávio, este também foi enviado em 16 de julho, e não recebi resposta até o momento. Transcrevo abaixo o comentário dele e a minha resposta:

"Então ele critica as pessoas, não as idéias, avaliando se suas vidas são coerentes com uma determinada moral, que não é a que estes intelectuais defendiam, talvez nem mesmo a mais comum na época em que viveram? É assim que idéias são desqualificadas?

Dizer que Marx não gostava de banho, Russell era incompetente para atividades mecânicas e Sartre abusava de álcool e drogas, torna suas obras menos relevantes, ou menos coerentes?"


"Olá, caro Bruno! Finalmente consegui arrumar um tempo para dizer algo sobre o primeiro comentário feito por você no meu blog, comentário esse que foi, devo dizer, uma surpresa muito agradável para mim. Mas vamos ao que interessa.

Uma pessoa que tivesse seu comentário como única fonte de informação sobre o livro em questão concluiria facilmente o seguinte: 1. Paul Johnson julga os intelectuais não segundo os critérios da moral que eles mesmos defendiam, e sim segundo os de alguma moral que eles rejeitavam, ou que talvez nem fosse a predominante nos seus respectivos meios sociais. 2. Partindo desse fundamento em si mesmo altamente questionável, o autor piora a situação ao tentar impugnar as concepções teóricas defendidas por esses intelectuais por meio de um simples argumentum ad hominem. 3. E, como se não bastasse, as deficiências encontradas por Johnson nas pessoas que analisa são objetivamente insignificantes, presumivelmente porque ele não pôde encontrar nenhuma acusação mais sólida para fazer. Em resumo, o espírito do livro é algo tão besta quanto 'Marx não tomava banho, portanto o marxismo é uma fraude' e bobagens semelhantes.

Porém, se uma pessoa atingisse tais conclusões a respeito do conteúdo do livro, ela facilmente perceberia, quando começasse a lê-lo, que havia se enganado imensamente. Tão imensamente que ela poderia chegar a suspeitar que você, caro Bruno, tentou enganá-la propositalmente. Se me dou ao trabalho de dizer algo sobre esse seu comentário, é apenas porque não acho provável que você tenha dito tais coisas por desonestidade. Não sei se você leu o livro, mas a caricatura que você faz dele é tão monstruosamente distorcida que só o fato de não tê-lo lido pode lhe servir de desculpa. Os exemplos que você cita (sobre Marx, Russell e Sartre) demonstram ao menos que você tem alguma outra fonte de informação sobre o livro. Prefiro, portanto, acreditar que você acreditou de boa fé nas bobagens que encontrou nessa fonte e as repetiu no meu blog sem saber direito o que dizia. Chego a essa conclusão por crer que é meu dever pensar das pessoas o melhor que as circunstâncias permitem, pois a ignorância me parece algo bem menos grave que a desonestidade.

O único fragmento de razão existente em tudo o que você disse reside no fato de que Johnson, em algumas passagens, critica as atitudes dos intelectuais examinados a partir de fora, e não das concepções defendidas por eles próprios. Assim, por exemplo, ele critica Shelley com base na forte evidência de que ele pretendeu, numa certa época, transar com sua irmã de doze anos, e tudo indica que só não chegou a fazer isso por pura falta de oportunidade. Evidentemente é uma crítica do tipo que você mencionou, já que o grande poeta visivelmente era pervertido demais para ver algo errado nisso. De qualquer forma, não se trata de defender uma moral alheia à que era aceita na sociedade de então; não conheço muitas culturas, mesmo entre as mais hediondas, em que essa prática seja aceitável. Além disso, em boa parte dos casos Johnson critica os intelectuais por atitudes que violam não apenas as normas aceitas na sociedade em que viviam, mas também as normas que sempre foram aceitas em todos os tempos onde quer que tenha havido seres humanos. Refiro-me a coisas como pagar o que se deve, trabalhar para levantar o próprio sustento, não mentir apenas para se dar bem (sobretudo quando isso envolve calúnia), se preocupar com o bem estar dos próprios filhos, ser honesto no relacionamento com o cônjuge (ou seu equivalente), não ser ingrato com os que nos ajudaram, e assim por diante. Cada uma dessas normas absolutamente elementares foi violada sistematicamente por pelo menos um dos intelectuais analisados no livro.

Devo dizer ainda que, ao contrário do que você dá a entender, a crítica de Johnson não se limita a detalhes bobos como falta de banho ou de habilidades mecânicas (não incluo aqui o vício em álcool e drogas, que é algo bem mais grave). Aliás, o próprio Johnson não dá grande importância a essas coisas, mencionando-as apenas de passagem e como meio de quebrar um pouco a seriedade da narrativa. Fazer de conta que essas coisinhas constituem o núcleo da argumentação do autor só pode ser resultado de desonestidade ou burrice. Prova muito maior da incapacidade moral dos tais intelectuais se encontra na recusa de Russell de assumir a responsabilidade pelo conteúdo dos seus próprios pronunciamentos (como, por exemplo, quando ele negou ter dito que a extinção da humanidade era preferível ao mero risco da ascensão de um governo comunista mundial - idéia que ele havia defendido em pelo menos dez ocasiões diferentes), ou no fato de Sartre ter chamado Charles de Gaulle de nazista, desconsiderando o fato de que o general havia sido o líder da resistência francesa durante a ocupação alemã, enquanto o próprio Sartre transitava livremente, escrevendo artigos para revistas que colaboravam com a ocupação.

Porém, o melhor exemplo de todos ainda é o de Marx. O caso dele basta para ilustrar dois fatos. O primeiro é que uma parcela significativa das críticas que Johnson faz aos intelectuais em questão diz respeito justamente à incoerência entre suas atitudes e aquilo que eles mesmos pregavam. É chocante descobrir que o mesmo homem que criticou ferozmente os empresários por pagarem salários tão baixos aos seus funcionários tinha uma 'empregada' que jamais recebeu salário algum - sendo, portanto, uma escrava. E é pior ainda descobrir que o mesmo homem que, nas páginas do Manifesto comunista, vociferou contra os burgueses que se aproveitavam sexualmente das mulheres pobres teve um caso com a 'empregada', engravidou-a e não assumiu o filho.

O segundo fato é que Johnson é bem mais consistente do que você parece crer quando resolve, com base em suas considerações biográficas, questionar a validade dos sistemas teóricos erigidos pelos filósofos em questão. O caso de Rousseau também é muito instrutivo, mas para não me estender demais eu vou continuar falando de Marx. Concordo que a antipatia pelo sabonente não milita contra as teses de Marx. Mas não se pode dizer o mesmo da constatação de que suas conclusões sobre o estado final da humanidade já estavam substancialmente prontas muito antes que ele começasse a estudar o que quer que fosse. Esse fato no mínimo fornece razões para suspeitarmos de que sua teoria não é uma dedução a partir dos fatos, e sim um critério a partir do qual os mesmos deveriam ser julgados. E essa suspeita ganha muita força quando começam a surgir evidências de inúmeras fraudes na forma como ele usou os dados para argumentar em favor de sua tese, ignorando ou distorcendo dados que a contrariavam. Esses fatos denunciam uma deficiência moral particularmente grave, ainda mais vindo de alguém que se considerava o grande defensor do socialismo 'científico' contra as versões 'utópicas' de seus predecessores.

Há muito mais que eu poderia dizer, mas vou parar por aqui. Apenas dois adendos, antes de encerrar. Primeiro: Johnson também se esforça para encontrar características positivas nos intelectuais analisados, o que em alguns casos requer um esforço verdadeiramente monumental. E segundo: sendo Sartre um existencialista, e insistindo em construir toda a sua filosofia - inclusive a ontologia - tomando como ponto de partida sua própria subjetividade, é perfeitamente válido e até natural que julguemos a validade de suas idéias pela riqueza ou pobreza de sua experiência interior. E, lendo as coisas que ele escreve, elas me parecem paupérrimas.

Aguardo sua resposta. Abraços!"

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Cumprindo minha outra promessa feita no post anterior, transcrevo abaixo meu e-mail, até o momento não respondido, ao tal B.M.:

"Olá, B.M.! Sim, eu acompanhei a briga, ou pelo menos o que saiu no blog Pensamentos Cativos e no do Gustavo. Eu, pessoalmente, não tenho do que reclamar, e não me senti ofendido em momento algum. O que tenho a reprovar nas suas atitudes está em sua relação com outras pessoas, não comigo mesmo. Mas parece-me que você sabe exatamente onde errou, e de qualquer forma não sou dado a fazer sermões. Esqueçamos tudo isso, portanto.

Quanto ao que realmente importa, direi apenas o estritamente suficiente para tornar mais claro o que eu disse na minha última participação. O Gustavo não disse em momento algum que considera o Lula um completo imbecil, e nem que considera o Alckmin um melhor administrador público. Eu tampouco disse algo nessa linha; e, embora me pareça que esse é um fato, minhas maiores razões para preferir Alckmin a Lula não têm nada a ver com isso. Seu maior erro, caro B.M., está em supor que programas oficiais de governo e capacidade administrativa devem ser o critério decisivo em política. O Igor citou alguns problemas adicionais: 'Sabemos, o homem tem outros defeitos, como ser ou, pelo menos, ter sido, excessivamente chegado ao álcool; usar metáforas cretinas freqüentemente; ser vulgar; declarar-se sem pecado, e muitos etc.' Eu subscrevo todos esses motivos, com ênfase sobre o último, que é um sinal inconfundível de incapacidade moral. Mas há outros, dentre os quais destaco a notória simpatia do Lula pelo chavismo, pelo castrismo e por outras ditaduras comunistas ao redor do mundo; sua efetiva aliança, mal disfarçada durante anos a fio, com entidades criminosas como o MIR e as FARC, sendo que a primeira esteve ativamente envolvida em seqüestros de cidadãos brasileiros, e a segunda, através de seus contatos escusos com o PCC, tem abarrotado de drogas o mercado nacional, fomentado o crime organizado e provocado o assassinato de dezenas de milhares de brasileiros; o fato de que o próprio Lula fundou e presidiu por doze anos a coordenação estratégica das entidades comunistas na América Latina, que age por todos os meios, legais e ilegais; e, enfim, o viés nitidamente totalitário do PT e da ideologia adotada por ele. Outros motivos poderiam ser citados, mas menciono esses apenas para deixar claro que nem todas as pretensões de poder de um partido, assim como nem todas as ações efetivamente realizadas, aparecem nos planos de governo. Nunca conversei diretamente com o Gustavo a respeito, mas o conheço suficientemente para ter certeza de que ele está consciente desse fato. Você, ao contrário, não dá o menor sinal disso, dando a impressão de que política se resume a questões de administração pública. Por pensar dessa forma, inferi eu, você deve achar que, por conhecer os programas de governo dos candidatos e respectivos partidos, você sabe muito de política. Sinta-se livre para rejeitar minha crítica, se achar que ela não se justifica. Apenas espero que agora minhas razões para atingir essa conclusão estejam mais claras para você.

Quanto à sua última pergunta, minha posição é simples: o Estado não tem direito algum de dizer às pessoas o que elas devem considerar interessante ou importante. Se uma pessoa chega à conclusão de que não deve se interessar por política, não vejo porque ela deveria ser obrigada a sair de casa para demonstrar isso. Obrigar o cidadão a ir até a urna e dar-lhe, simultaneamente, a opção de não votar em ninguém parece-me, antes de tudo, um incômodo perfeitamente dispensável e, portanto, ilógico. Feitas essas considerações, a minha resposta é: sim, o fato de o Gustavo ser obrigado a sair de casa, andar alguns minutos e enfrentar uma fila, grande ou pequena, é uma afronta à liberdade dele, por mais insignificante que ela seja.

Abraços!"

16 de setembro de 2008

Quinta colheita, ou: cartas de uma bruxa

De tudo o que tenho publicado neste blog nos últimos meses, nada chamou a atenção mais que este post, no qual fiz pouco além de reproduzir um texto que não é meu. Eu mesmo seria o último a afirmar que isso é uma injustiça. Ainda assim, eu pretendia elaborar, num futuro não muito distante, alguns comentários relacionados ao tema do livro Os intelectuais. Ainda pretendo, aliás, mas vou adiar um pouco essa empreitada a fim de dar a atenção devida aos quatro comentários que aquela postagem recebeu. Talvez eu devesse dedicar a eles um texto escrito decentemente e que possuísse uma certa continuidade. Contudo, minha preguiça me leva a escolher outro caminho. Mantenho há tempos o hábito de responder por e-mail aos comentários que recebo. Posso ter deixado de fazer isso em uma ou outra ocasião, por puro esquecimento; e, não raras vezes, demoro para responder. Além disso, ocasionalmente recebo comentários de pessoas que não conheço e cujos endereços não tenho como descobrir. Mas nada disso aconteceu no caso em questão: tive o trabalho de enviar quatro e-mails, que expressam bem o que eu tinha a dizer sobre os comentários que recebi. Reproduzo abaixo três desses comentários e as respostas que enviei aos respectivos autores, acompanhadas de breves esclarecimentos. O outro caso, por ser mais extenso, será publicado à parte, dentro de alguns dias.

O primeiro comentário é justamente o que vou deixar para depois. Temos a seguir o do Otávio, que foi este:

"Então, eu não li o livro ainda mas pelo que entendi do post e do trecho o livro é justamente uma crítica a isso que se faz contra certos líderes, julgando seu carater ou seus 'péssimos' hábitos.

Algo que achei interessante é que ele faz uma crítica direcionada aqueles que criticam autoridades religiosas, por exemplo, por sua conduta dentro de seus preceitos e valores pregados pela instituição. Entretanto, apesar de não ter lido o livro e tomando somente base nos trechos transcritos aqui, ele faz exatamente a mesma coisa com esses intelectuais.

É só isso! Abração!"

A minha resposta foi esta:

"Olá, meu caro amigo! Em momento algum, no trecho do livro que transcrevi ou em qualquer outro, aparece qualquer reprovação ao ato de criticar alguém por não viver de acordo com os princípios que prega. Se foi isso o que você entendeu desculpe, mas você não leu direito. Johnson não critica os intelectuais por fazerem críticas aos líderes religiosos com base em suas condutas pessoais; ele os critica porque o que motiva essas críticas não é a repulsa pela hipocrisia, e sim o oportunismo político que se apóia sobre uma hipocrisia maior ainda. Isso tudo foi muito bem sintetizado pelo meu amigo Gustavo, que comentou logo depois de você. Sugiro que você dê uma lida no comentário dele, caso ainda não o tenha feito.

Abraços, e obrigado pela participação!"

O terceiro comentário foi feito pelo Gustavo Nagel. Ele transcreveu uma breve consideração escrita por ele mesmo e publicada no seu blog (que, para meu desgosto, ele deletou recentemente) em 22 de junho do ano passado, o qual dizia o seguinte:

"A impressão que me ficou da leitura de parte de Os Intelectuais, de Paul Johnson, é que só se conhece um pensador, um filósofo moderno, ou algo do tipo, através da leitura de sua correspondência. O sujeito se mostrava um anjo enquanto escrevia seus ensaios filosóficos, intencionando neles um desejo sublime de amar e salvar toda a humanidade, mas em carta dirigida a uma das dez mulheres que tinha, por exemplo, ele a mandava ao inferno umas trezentas vezes. Donde concluí que amar a 'humanidade', para alguns desses demagogos, era o modo mais fácil de odiar as pessoas; bem como aprendi que se é muito mais verdadeiro quando não se tem a pretensão de ser visto, lido, ouvido: eles eram o que eram não enquanto escreviam suas belas obras humanísticas, ou proferiam seus ardorosos discursos messiânicos, mas enquanto, longe dos olhos da multidão, sem toda aquela afetação, odiavam as pessoas mais próximas."

A isso o Gustavo acrescentou as seguintes palavras: "Paul Johnson se ocupa, é verdade, com a vida dos intelectuais em questão, mas apenas na medida em que elas notadamente contradizem seus apelos quase messiânicos etc.". E, em resposta, eu disse o seguinte:

"Olá, Gustavo! Apesar da demora, estou escrevendo para agradecer seu comentário ao meu post Uma dúzia de tiranos. Você sintetizou muito bem aquilo que meus dois amigos esquerdistas que comentaram antes de você não puderam ou não quiseram ver. Daqui a pouco vou responder a eles também, e desenvolver melhor alguns pontos pertinentes. Dentro de algumas semanas deverei publicar um novo post comentando os resultados dessas discussões. E aproveitarei para fazer menção a esse parágrafo que você publicou no seu blog a respeito do livro no ano passado. Eu havia até me esquecido disso, mas o fato é que foi através desse seu post que eu soube da existência desse livro (embora já conhecesse o autor), e resolvi que o leria se um dia tivesse a oportunidade.

Abraços, e obrigado mais uma vez!"

Os e-mails acima foram enviados em 16 de julho, e não recebi resposta a nenhum deles (no caso do Gustavo, obviamente, nem havia mesmo motivo para responder). Já a Ludmila, autora do quarto comentário, estabeleceu comigo uma interessante discussão, que se prolongou ainda por mais três e-mails de cada parte. Interessante para mim, é bom deixar claro, já que o ânimo da minha amiga diminuiu na proporção exata em que o meu ia crescendo, até que ela decidiu que não valia a pena discutir com um representante moderno da Idade das Trevas. Não transcreverei aqui o debate todo, que acabou se desviando consideravelmente rumo a várias outras questões, algumas das quais eu pretendo abordar em posts futuros. Além disso, ainda não parei para analisar quais das questões discutidas (e até que ponto) são diretamente pertinentes do ponto de vista do que expus no post. Talvez (e apenas talvez) algumas se relacionem ao tema, ou aos desenvolvimentos adicionais que pretendo fazer. De qualquer forma, mesmo que apenas para justificar o título que dei a este post, transcrevo abaixo minha resposta ao comentário da Ludmila.

O comentário foi a respeito de uma única frase de Johnson; aquela em que ele afirma que os intelecuais "não apenas devem ser mantidos bem afastados das engrenagens do poder como devem ser objeto de uma desconfiança particular quando procuram dar conselhos coletivos." Ela disse: "É a caça às bruxas do século XXI." E a minha resposta foi:

"Olá, Ludmila! Espero que esteja tudo bem com você. Fiquei surpreso e feliz ao ver seu comentário. Não esperava que você tivesse algum interesse em ler o que escrevo (no caso, transcrevo), nem sei o que a levou a isso. Mas, já que é o caso, creio que devo dizer o que penso sobre o seu comentário.

Apesar de ter sido feito em apenas uma frase, ele tece uma comparação equivocada num aspecto fundamental: por suas pretensões de poder e por seu papel social efetivo, os intelectuais não se assemelham às bruxas, e sim ao clero que as punha nas fogueiras. Paul Johnson foi muito perspicaz ao descrever os sacerdotes, escribas e profetas de antigamente como 'primeiras encarnações' dos intelectuais. É óbvio que todos eles têm em comum a pretensão de possuir a sabedoria necessária para guiar a sociedade, e é igualmente óbvio que os intelectuais seculares de fato orientam a sociedade atual, tanto quanto os religiosos orientaram as sociedades do passado. É claro que, insatisfeitos com a dose de poder de que já dispõem, eles se queixam constantemente de que são uma pobre minoria perseguida por contrariar os interesses dos donos do poder, numa tentativa de conquistar mais poder ainda. (E é um truque bastante eficaz, como se nota no fato de que você mesma considera a restrição dos poderes deles como algo comparável à carbonização de bruxas.) Isso tudo é papo furado. Eles não são as bruxas, e sim os inquisidores. A bruxa aqui sou eu.

Beijos."

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Aproveitarei este espaço para comentar outro fato. Dos quatro comentários à minha postagem mais recente, A amizade das leis, apenas um é de fato um comentário acerca do que diz o texto. Os outros dizem respeito a uma discussão que começou em outro lugar, e na qual me envolvi apenas de passagem. Trata-se de um curto post do Gustavo em um blog que ele mantém em conjunto com três amigos dele. Ali, depois de expor suas razões para preferir o voto nulo, e de ter mencionado que abriu mão desse preceito na última disputa presidencial apenas para impedir a reeleição do Lula, ele recebeu uma crítica estúpida (em ambos os sentidos: racionalmente idiota e desnecessariamente grosseira) de um tal B.M.. Fiz ali um comentário em apoio ao meu amigo, e então o B.M. voltou sua atenção para mim também. Tivemos uma breve discussão, num tom não muito amistoso, mas também sem novos insultos ou grosserias. Toda a minha participação nessa história resume-se aos três comentários do post que indiquei. Mas outras pessoas se envolveram, e o bate-boca prolongou-se por outros posts do mesmo blog. O tal B.M. deu continuidade a ela nos comentários deste post do João (post excelente, aliás, e sem qualquer relação com o problema). Depois o Igor, outro membro do blog, dedicou ao B.M. este post, e parte deste outro, ambos os quais renderam mais bate-boca nos comentários. Paralelamente, o B.M. também foi falar bobagens e proferir grosserias no agora extinto blog do Gustavo. Enfim, depois de ter cassado seu direito à manifestação em ambos os blogs, veio me procurar para se desculpar por possíveis ofensas proferidas contra mim, e para pedir certos esclarecimentos sobre as últimas coisas que eu havia dito. Tudo isso ficará claro para quem ler o que o B.M. escreveu aqui no meu blog à luz do post original do Gustavo e dos seus comentários publicados ali. O restante da discussão eu só recomendo a quem queira se divertir um pouco. Estou contando essa história aqui apenas para esclarecer, a leitores possivelmente perplexos, o que um comentário sobre os méritos relativos de Alckmin e Lula, a legitimidade do voto obrigatório e coisas do gênero está fazendo num post sobre um diálogo de Platão. No próximo post, embora eu não esteja certo de que realmente devo fazer isso, transcreverei o e-mail que enviei ao B.M. em resposta ao seu comentário.

21 de agosto de 2008

A amizade das leis

Apresento nesta postagem o resumo de um outro diálogo platônico, o Críton. Essa obra está intimamente relacionada à Apologia de Sócrates, que apresentei aqui. Tendo sido condenado, Sócrates aguarda na prisão o cumprimento da sentença de morte. Críton - que é um dos seus melhores amigos, e é também um homem já idoso - vai visitá-lo antes do amanhecer. Contudo, encontra seu amigo num sono tão doce que resolve não interrompê-lo. Senta-se e aguarda que Sócrates desperte por si mesmo, e então começam a conversar. Fora decidido que o filósofo morreria no dia seguinte ao da chegada de um certo navio de Delos. Críton vem informar que tudo indica que o navio chegará naquele mesmo dia. Sócrates, porém, crê que o navio só chegará no dia seguinte, de acordo com um sonho que teve e que considera uma mensagem dos deuses.

De qualquer modo, Críton expõe a razão de sua vinda: pretende convencer seu amigo a fugir da pena, e apresenta seus motivos. 1. Críton teme a má reputação que lhe trará a morte de Sócrates, pois ninguém acreditará que este absteve-se de fugir por decisão própria; todos pensarão que seus amigos não fizeram caso de sua vida, recusando-se a gastar algum dinheiro (subornando os guardas, contratando bandidos para protegê-lo e providenciando sua partida para outra cidade) para vê-lo livre e, desta forma, prezando mais o dinheiro que o amigo. 2. Se Sócrates evita a fuga por temer que seus amigos venham a ser punidos por isso, deve deixar isso de lado, pois seus amigos estão dispostos a correr riscos para vê-lo livre da morte. 3. Críton garante que não é grande a quantia necessária para consumar o plano; seu próprio patrimônio é suficiente, mas há muitas outras pessoas dispostas a colaborar. 4. Também não deve se preocupar com seu sustento no exílio, pois Críton tem amigos ricos e influentes na Tessália, que proverão tudo de que o filósofo necessitar. 5. A recusa em fugir é um erro, pois contribui para a concretização da injustiça desejada por seus inimigos. 6. Sócrates erra também ao não pensar no futuro de seus filhos pequenos, os quais ele tem o dever de educar e preparar para a vida. 7. Ainda pior que a acusação de avareza, o povo atribuirá aos amigos e ao próprio Sócrates a covardia, por não terem feito nada para impedir o desfecho "mais ridículo da história", desde o instante em que o filósofo foi intimado a comparecer ao tribunal.

Após ouvir tudo isso, a primeira reação de Sócrates é exclamar: "Querido Críton, quão precioso o teu ardor, se alguma retidão o acompanhasse!" Propõe-se a examinar a proposta do amigo, a fim de ver se deve proceder de acordo com ela, pois ele só pode agir de acordo com o que sua razão indica ser o melhor caminho. A evolução das circunstâncias não deve, por si mesma, prevalecer sobre as razões atemporais que sempre motivaram suas decisões. Assim, se Sócrates sempre creu que algumas opiniões são dignas de consideração e outras não o são, não pode passar a fingir que isso era uma brincadeira apenas pelo fato de que a persistência nessa idéia o levará à morte. O filósofo propõe começar desse ponto a análise do problema, e vai obtendo, passo por passo, o assentimento de seu amigo.

O ginasta, diz Sócrates, não deve dar importância indiscriminadamente ao parecer de todos os homens quanto à sua dieta e ao seu treinamento, e sim apenas aos dos médicos e instrutores de ginástica. Não procedendo assim, arruinará seu próprio corpo, e é impossível viver com um corpo arruinado. É evidente, portanto, que as opiniões não são todas valiosas: existem as boas, das pessoas judiciosas, e as ruins, das insensatas. Quando se trata de proceder de acordo com o que é justo, belo e bom, deve-se igualmente procurar a aprovação dos que porventura entendam dessas coisas, ainda que sejam poucos, e não a da multidão. A injustiça, no entanto, prejudica uma parte do nosso ser que é muito mais valiosa que o corpo, e a justiça a beneficia. A autoridade nesse assunto é a Verdade mesma, e deve-se proceder de acordo com ela, e não com as opiniões do vulgo.

Pode-se, sem dúvida, objetar que a opinião do povo não deve ser desprezada tão temerariamente já que, como demonstra a própria situação em que o filósofo se encontra, o povo tem o poder de causar a morte do homem que despreza a opinião pública. Sócrates considera, porém, que a mera perpetuação da vida não tem tanto valor em si mesma, se não for possível perpetuar a qualidade da mesma. E viver bem é apenas viver de maneira honrada e justa. Assim, toda a questão se resume a saber se é justo ou não que Sócrates saia da prisão sem o consentimento dos atenienses. É necessário, antes de seguir os conselhos de Críton, certificar-se de que as razões elencadas por ele são criteriosamente justificáveis, e não elaboradas segundo os hábitos inconstantes do povo. "Oxalá, Críton, fosse o povo capaz de praticar os maiores males, para ser capaz também dos maiores benefícios! Seria esplêndido. Não o é, porém, nem destes nem daqueles. Incapaz de dar o siso, bem como de tirá-lo, ele obra ao sabor do acaso."

A injustiça, em bons ou em maus momentos, é sempre um mal e uma vergonha para quem a comete, e portanto não deve jamair ser cometida, nem mesmo em retribuição a uma injustiça recebida. Causar mal a alguém é, portanto, sempre uma injustiça. Poucos compreendem e aceitam esse princípio, mas Sócrates e Críton concordam quanto à sua validade. O filósofo afirma então que o não cumprimento de um acordo é uma injustiça. Fugir da sentença seria reduzir a nada as leis da cidade, pelas quais ele foi condenado, subvertendo, na verdade, toda a cidade, em pequena escala, isto é, na medida de suas possibilidades. Sócrates poderia, naturalmente, justificar-se alegando que a condenação foi injusta. Mas o fato é que ele comprometeu-se de antemão a submeter-se à decisão do tribunal. Foi graças à cidade e às suas leis que Sócrates pôde nascer, crescer e viver, pois a cidade tem leis que regulam os casamentos e a educação dos filhos, leis contra as quais ele nunca teve de que se queixar. Por conseguinte, seu dever de obediência à cidade não é menor que o de obediência do filho ao pai ou do servo ao senhor. É, na verdade, maior, pois é dever de todo cidadão sofrer pelo bem da pátria sempre que for necessário, se não for possível dissuadi-la pelos meios legitimamente proporcionados por ela mesma. A retaliação contra a cidade não se justifica, como não se justifica a retaliação contra os pais e senhores.

A todos os benefícios que a cidade oferece, a Sócrates e a todos os cidadãos, soma-se a concessão do direito ao desacordo quanto ao seu modo de funcionamento. Não há lei alguma que vete ao homem insatisfeito com o povo da cidade e com suas leis a opção de mudar-se para um lugar que o agrade mais. Se, a despeito dessa permissão, Sócrates permaneceu toda a sua vida em Atenas, só se ausentando dela em duas breves ocasiões, e se contraiu casamento e constituiu família ali mesmo, ele comprometeu-se tacitamente a obedecer às suas normas, e não tem o direito de evadir-se repentinamente desse compromisso com base apenas em sua conveniência pessoal, pois as leis determinam que o réu que não consegue convencer a assembléia de sua inocência deve receber a punição. Assim, com atos, e não com palavras, o filósofo selou seu compromisso. Se Sócrates desejava o exílio, deveria tê-lo alcançado pelas vias legais, quando lhe foi dada a oportunidade de propor uma pena para si mesmo. Poderia, então, ter conseguido, com o consentimento do povo, o que agora iria tentar sem ele. Naquela ocasião, enretanto, ele afirmou preferir a morte ao exílio, e agora não tem mais o direito de mudar de opinião.

Além disso, argumenta Sócrates, que benefícios a fuga realmente traria para si ou para seus queridos? Os amigos sem dúvida correrão perigo de sofrer punição por causa dele. Ele próprio chegaria a outra cidade como inimigo das instituições, e seria recebido com desconfiança por todos os que se importam com a lei. Ao fugir, Sócrates favoreceria a reputação dos que os condenaram, pois então se tornaria indiscutivelmente criminoso, e todo criminoso pode passar por corruptor dos jovens. Diante de tal situação, ele não poderia atrever-se a prosseguir em sua missão de incentivar os homens ao bem e à virtude. E, mesmo que fosse para uma cidade em que reina a desordem e as leis não são tidas em alta conta, não poderia manter sua honradez. O povo da cidade dificilmente teria em alta conta um homem que, estando já naturalmente tão próximo da morte e buscando adiá-la por mais um curto intervalo de tempo, não hesitou em submeter-se aos ridículos disfarces dos fugitivos. Ele viveria de favores e envergonhado. Se levasse os filhos para a Tessália, ou para outro lugar qualquer, eles cresceriam como estrangeiros, o que absolutamente não lhes seria um benefício. Será melhor para eles ficarem em Atenas aos cuidados dos amigos de seu pai; e ter um pai fugitivo e exilado não lhes seria mais vantajoso que ter um pai morto por viver segundo a justiça.

Enfim, não é aceitável transgredir as leis em favor de nenhum dos pretextos apresentados por Críton. Submetendo-se à sentença, Sócrates chegará ao Hades tendo sido vítima de injustiça, não por parte das leis, mas por parte dos homens; caso contrário, será ele próprio um transgressor da lei, e as leis do Hades, solidárias às suas irmãs atenienses, não lhe serão favoráveis. E, visto que Críton nada mais tem a dizer, o caminho a tomar está decidido, e o filósofo conclui: "Então desiste, Críton; procedamos daquela forma, porque tal é o caminho por onde a divindade nos guia."

1 de agosto de 2008

Uma grande morte

Hoje vou iniciar um projeto que está nos meus planos há muito tempo, o qual é fruto da confluência de duas constatações: 1. não poderei me considerar gente enquanto não conhecer plena e diretamente as obras de Platão e Aristóteles; e 2. eu aprendo melhor sobre um assunto escrevendo do que simplesmente lendo a respeito. A primeira constatação, feita há mais de dois anos, me fez decidir que, sem perda de tempo, eu deveria ler todos os diálogos platônicos. Apesar disso, perdi bastante tempo desde então, e só agora estou começando realmente a fazer isso: reler os que já li e ler os que ainda não li. A segunda me fez decidir que adotaria o procedimento de escrever resumos das obras na medida em que as fosse lendo, o que me obrigaria a lê-las com calma e atenção, pensando e articulando o melhor possível seus elementos. Esse procedimento traria ainda a vantagem adicional de facilitar a memorização, além de colocar à disposição um esquema ao qual sempre poderei recorrer mais tarde. E, já que vou fazer isso, não vejo razão para não publicar essas anotações. Elas poderão ser úteis - se não como instrução, ao menos como incentivo à instrução - para os leitores não familiarizados com as obras, e poderão ser úteis para mim, na medida em que leitores com mais amplos conhecimentos sobre o tema decidirem compartilhá-los comigo.

Sem mais delongas, portanto, passo a expor algumas anotações sobre um dos mais belos textos que já li, a Apologia de Sócrates, na qual Platão reproduz o discurso de seu mestre por ocasião de seu julgamento pela assembléia de Atenas, o qual culminou, como disse Idel Becker, em "uma das grandes mortes da história".

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O discurso de Sócrates divide-se em três partes, relacionadas às etapas do julgamento. Na primeira, a mais longa, ele faz sua defesa, logo após a acusação feita por Meleto, seu denunciador. O discurso de Sócrates contrasta em vários aspectos com o dele, e também com os procedimentos usualmente adotados pelos réus do tribunal de Atenas. Ele não se considera um orador hábil, recusa-se a utilizar a linguagem dos tribunais e apresenta-se com a simplicidade que caracterizou todos os seus debates públicos. Também não faz drama, não derrama lágrimas, não traz seus filhos pequenos para implorarem por sua vida aos juízes. Todos esses procedimentos, além de indignos de um ancião (ele já tinha mais de setenta anos), são injustos em si mesmos, pois a função do juiz requer que ele não se deixe levar por apelos emocionais e retóricos, mas concentre-se em avaliar à luz da lei as evidências e os argumentos apresentados. Por conseguinte, é errado tentar persuadir os juízes por tais meios. Em sua defesa, o filósofo utiliza como suas únicas armas a justiça e a veracidade da causa que defende.

Antes de reportar-se diretamente ao discurso de Meleto, no entanto, Sócrates vê-se obrigado a defender-se de um outro acusador, pior que ele: a multidão, que é mais temível justamente por ser anônima ("exceto, talvez, algum comediógrafo" - clara referência a Aristófanes, que difamou Sócrates em sua peça As nuvens) e porque o caluniou durante anos a fio, deixando-lhe, no entanto, pouco tempo para defender-se naquele tribunal. Ela o acusou sempre de desprezar os deuses, de especular indevidamente sobre os mistérios do céu e da terra, de ser um sofista (no pior sentido da palavra) e de corromper a juventude. E o fez aproveitando-se da pouca idade de seus ouvintes, os quais, escutando tais calúnias desde a infância, cresceram habituados a tomá-las como verdadeiras, e agora são adultos e compõem aquela assembléia. A acusação de Meleto é apenas um resultado acidental desse problema de proporções muito maiores.

Em sua defesa, Sócrates apela ao testemunho da própria assembléia: que cada um se esforce para lembrar do que o ouviu ensinar, e cada um interrogue seus vizinhos quanto ao que estes ouviram. Isso bastaria para mostrar que as acusações não procedem, que o filósofo não defendeu a doutrina de Anaxágoras, nem as dos sofistas, nem sequer demonstrou interesse por tais idéias ou pretensão de tê-las compreendido. Por isso mesmo jamais procurou reunir discípulos, nem exigiu dinheiro dos jovens que o seguiram espontaneamente, e tampouco prometeu-lhes qualquer coisa ou ensinou a algum deles algo diferente do que disse a todos os demais. Se tivesse dito algo que pudesse corromper os jovens, seria de se esperar que ao menos alguns, tendo alcançado a maturidade, tomassem consciência do fato e se dispusessem a acusá-lo, ou que seus parentes reprovassem a conduta deles e responsabilizassem o filósofo por isso. No entanto, muitos deles estavam ali presentes e nada tinham de que se queixar.

Mas como se explica, então, o surgimento de tais mentiras sobre ele? Elas se devem à natureza da sua missão, que começou de maneira bastante inusitada. Um falecido amigo seu chamado Querofonte, conhecido e querido por todos os presentes na assembléia, havia ido certa vez a Delfos consultar o oráculo de Apolo, e nessa ocasião o deus afirmara não haver homem mais sábio que Sócrates. Tal declaração muito surpreendeu o próprio Sócrates, que não se considerava sábio de modo algum. Não podendo crer, contudo, que o deus mentira, pôs-se a refletir sobre o sentido daquelas palavras. Decidiu então refutar o oráculo, indo ter com eminentes políticos tidos por muitos - e por si mesmos - como sábios. Logo descobriu, porém, que esses homens não eram sábios de fato e, ao tentar fazer-lhes ver isso, conseguiu apenas a inimizade deles e de seus admiradores. Procurou em seguida os poetas, mas descobriu que eles não compreendiam sequer o significado de seus próprios versos, e também granjeou a inimizade deles, pois também estes se consideravam sábios. Foi então, aos artífices e achou-os sábios em sua arte. Porém, erravam em supor que isso os tornava sábios em assuntos mais elevados, e nisso eram iguais aos outros.

Ao longo desse processo, apesar do medo que sentiu ao despertar tanta hostilidade, o filósofo convenceu-se de que devia prosseguir realizando o propósito do deus, cumprindo a missão que este lhe comissionara, pois era necessário que ele compreendesse o sentido do que lhe fora dito. Percebeu, enfim, que sua superioridade em relação a todos aqueles pretensos sábios consistia no fato de que ele, embora também não fosse sábio, sabia que não o era, enquanto os outros falsamente julgavam sê-lo. O oráculo de Apolo era na verdade uma reprovação a toda a sabedoria humana, pois colocava todos os homens abaixo de um que nenhuma sabedoria tinha. Esses eventos trouxeram, no entanto, conseqüências inesperadas: muitas pessoas, vendo Sócrates demonstrar a tolice alheia, concluíram que ele próprio devia ser um sábio. Jovens ricos e ociosos passaram a segui-lo e a imitá-lo, interrogando e desafiando muitos pretensos sábios e obtendo resultados semelhantes aos seus, advindo daí sua fama de corruptor da juventude. E, a fim de difamá-lo, seus inimigos atribuíram a ele ensinamentos de outros.

Passa então a analisar as acusações de Meleto, que são absurdas e contraditórias. A despeito de sua declarada intenção de proteger os jovens, ele demonstra não ter jamais dedicado algum tempo pensando num meio de fazer bem a eles. Buscando bajular os presentes, Meleto aponta a lei e, por consegunte os juízes, senadores e cidadãos em geral, que a fazem cumprir, como aqueles que tornam os jovens melhores. Mas a conclusão é absurda, pois a educação dos jovens, como qualquer outra tarefa complexa, é arte dominada por poucos, e a maioria dos que se põem a opinar sobre o assunto só causa problemas. Todos sabem disso, como se nota no fato de que os cidadãos ricos pagam grandes somas a certos mestres para que eduquem seus filhos, o que seria desnecessário se qualquer um pudesse se incumbir dessa tarefa. É absurda também a acusação de que Sócrates corrompe propositalmente os jovens que o acompanham. Todo homem deseja viver entre pessoas virtuosas, pois estas fazem o bem aos que estão ao seu redor, e ninguém pode ter interesse em tornar piores as pessoas com quem convive. Portanto, ou Sócrates não corrompe seus discípulos, ou o faz sem intenção. Em nenhum dos casos há crime, e em ambos Meleto está enganado. Enfim, é refutada a acusação de ateísmo, que, além de não ter sido corroborada por testemunhas, contradiz outra acusação feita pelo próprio Meleto: a de que o filósofo aprecia os demônios. Levado pela ânsia de difamar, Meleto fez acusações imprudentes que se excluem mutuamente, já que, sendo os demônios filhos bastardos dos deuses, crer naqueles e não nestes é como crer em mulas sem admitir a existência de cavalos e jumentos.

Sócrates analisa sua situação. Se condenado, não será o primeiro justo a ser vítima do ódio do povo, e tampouco o último. Não se envergonha dessa condição, pois o critério orientador das ações humanas não deve estar no risco que proporcionam, e sim na sua justiça ou injustiça. Exemplificam essa virtude Aquiles e todos os heróis que pereceram em Tróia, os quais deram mais valor ao dever que às suas próprias vidas. São exemplares também os atos do próprio Sócrates quando, na juventude, serviu o exército da cidade e quando, como político, sofreu ameaças de prisão e morte por defender o que considerava justo. Retirou-se da vida política porque quem combate pela justiça não deve se meter nos assuntos públicos, e assim se voltou para a realização dessa tarefa no âmbito de suas relações pessoais. Se não tivesse agido assim certamente já estaria morto, pois não há outro destino para os que realmente lutam pela justiça por meios políticos.

Assim, Sócrates jamais tentou transformar sua missão pedagógica em plano de poder. Disso foi proibido pela voz de um gênio que sempre o acompanhou, impedindo-o de praticar ações que acarretassem seu próprio mal. Essa voz sem dúvida tinha origem divina, tanto quanto a sentença de Delfos, e impeliu o filósofo em sua missão. Por causa desta, e não por amor próprio, ele se defende diante do tribunal, temendo que os atenienses recusem a dádiva divina que opera através dele e que os deuses não lhe enviem um sucessor. Prova adicional da origem divina da mesma encontra-se no fato de que o filósofo nada tinha a ganhar com ela, a tal ponto que, não podendo aceitar dinheiro de seus discípulos, ele rapidamente empobreceu, pois tais afazeres o deixaram sem tempo para cuidar de seus próprios assuntos particulares.

Em vista disso tudo, recuar diante da ameaça de morte seria, isso sim, motivo justo para que o acusassem de desprezar os deuses. Se lhe propusessem absolvição sob a condição de não mais filosofar, ele responderia que é mais importante obedecer aos deuses que aos homens, e continuaria exortando os atenienses à preocupação com a sabedoria e a verdade, em detrimento da riqueza e da fama. Sua missão não pode ser abandonada, pois é o que há de mais valioso dentre tudo o que se faz na cidade. Além disso, temer a morte é atribuir-se uma sabedoria ilusória, como a dos políticos, poetas e artesãos. Pois todos a temem sem de fato saberem se ela é um mal ou o supremo bem. Logo, é errado pautar as ações pelo risco de morte que elas acarretam, e muitos homens tidos por sábios já procederam vergonhosamente nessa situação, como, aliás, se a absolvição diante do tribunal os tornasse imortais. O bom critério reside naquilo que é conforme à virtude. A eventual condenação de Sócrates trará menor dano a ele do que aos próprios atenienses, pois o exílio e a perda da vida ou dos bens causa muito menos mal a um homem do que as injustiças que ele faz aos outros.

Vem então a condenação, que o filósofo recebe sem surpresa. De acordo com a lei, deve sugerir uma pena para si mesmo, em contra-proposta à sentença de morte sugerida por seus acusadores. Começa a segunda parte do seu discurso. Sócrates pergunta que pena merece ele, que sempre desprezou tudo aquilo que tantos julgavam tão importante, empenhando-se em levar aos homens o maior bem possível. Mereceria, na verdade, ser sustentado pelo Estado, honra usualmente concedida aos atletas campeões. Tal proposta não seria arrogante, mas sim a correta aplicação do preceito de não cometer injustiça contra ninguém. Além disso, não seria lógico propor em alternativa à morte, que não se sabe se é boa ou má, uma pena que se sabe ser má, como prisão, multa ou exílio. Porém, não sendo permitido fazer uma proposta justa, Sócrates propõe aquela que lhe parece menos injusta: uma multa que ele possa pagar. Mas como é muito pobre, só pode pagar uma mina de prata. Seus ricos discípulos, no entanto, o convencem a propor uma multa de trinta minas, tomando-os por fiadores.

A assembléia condena o filósofo à morte, e começa a última parte do seu discurso. Ele censura os que o condenaram por darem motivo à difamação da cidade, pois todos a acusarão de ter executado um sábio. E isso era desnecessário, pois eles poderiam ter se livrado dessa culpa com um pouco de paciência, já que ele não iria mesmo viver muito. Morre por recusar-se a se defender de maneira indigna, com discursos falsos que agradam aos juízes, pois é injusto sacrificar pela vida a obediência a valores maiores que ela. Fugir da morte, que agora o acomete, é mais fácil que fugir da maldade que domina seus inimigos. Mas a cada um cabe suportar sua pena. Sócrates vaticina-lhes que virá sobre eles vingança severa da parte de Zeus. Condenaram-no para não terem de prestar contas de suas más ações, mas não serão bem sucedidos nesse intento: serão muitos os que os reprovarão.

Volta-se então para os verdadeiros juízes, os que votaram segundo a justiça, e conta-lhes que o resultado daquele julgamento resultaria num bem para ele, pois seu gênio silenciara ao longo de todo aquele dia. Tal conclusão é plausível, pois a morte só pode ser uma de duas coisas: a cessação da existência ou a migração da alma para outro lugar. O primeiro caso é um bem, pois a inconsciência é preferível às tribulações desta vida, e o segundo o é igualmente, ainda mais se for verdade que no Hades encontram-se todos os mortos. Livrando-se dos falsos juízes de Atenas, o filósofo desfrutará a companhia dos verdadeiros: deuses, heróis, homens justos do passado e todos os que, como ele próprio, foram injustamente sentenciados à morte. Tais mortos são mais felizes que os vivos. Os juízes não devem temer a morte, pois o mal jamais atinge os homens bons. Sua própria morte é, naquelas circunstâncias, um bem, pois o liberta do mundo; aqueles que o condenaram, embora cressem estar causando-lhe um mal, eram na verdade instrumentos postos a serviço do seu bem. Sócrates pede que exortem os filhos dele à justiça e à verdade tão veementemente quanto ele próprio exortou a todos. E despede-se com as seguintes palavras: "É hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas vidas. Quem terá a melhor sorte? Só os deuses sabem."

26 de julho de 2008

De volta à velha ordem

Com a publicação deste texto concluo a série de posts sobre crítica textual bíblica a que dei início em novembro do ano passado. Tendo discorrido sobre os fatores que causaram o aparecimento das variantes textuais (aqui), citado alguns exemplos das mesmas (aqui), contado a história das famílias de manuscritos e de como os pesquisadores puderam reconstituí-la, e tudo isso tanto para o Novo (aqui e aqui) quanto para o Antigo Testamento (aqui) - embora com grau de detalhamento notavelmente superior no primeiro caso - , estou, enfim, em condições de apresentar os critérios efetivamente utilizados na escolha entre as variantes. Os autores que estudei divergem quanto à forma de enunciar e enumerar os critérios, mas na realidade todos estão expressando um mesmo método. Sigo aqui o esquema geral descrito por Archer. Acredito que essas divergências aparentes se devem ao fato de que a crítica textual não é uma ciência exata, e a aplicação de seus critérios não é (e não pode ser, como ficará claro adiante) feita de modo mecânico, algorítmico. Voltarei a essa questão depois de listar os critérios adotados:

1. A variante mais antiga deve ter preferência. Em muitas situações isso significa que certas variantes merecem preferência por serem típicas de uma família de manuscritos mais antiga. No caso do Antigo Testamento, trata-se do Texto Massorético (embora variantes típicas de outras famílias possam, em princípio, ser mais antigas); para o Novo Testamento, significa que a variante escolhida deve encontrar apoio no texto alexandrino ou no texto ocidental. Note-se, pois, que não se trata da antiguidade do manuscrito, e sim da antiguidade do texto que ele contém. A idade dos manuscritos propriamente ditos só deve ser levada em conta quando o estudo das tendências gerais das famílias não fornece uma resposta conclusiva para o caso em questão. E, mesmo assim, deve-se ter em mente que a determinação da qualidade de um manuscrito requer a análise de vários outros fatores, alguns dos quais são mais importantes que a data da cópia.

2. A variante mais difícil deve ter preferência. Esse critério fundamenta-se no fato de que o copista, ao introduzir modificações intencionais no texto, nunca faz isso com intenção de torná-lo mais complicado, obscuro ou grosseiro, e sim mais simples, claro e elegante. Portanto, a existência de variantes do primeiro tipo se explica mais facilmente pela hipótese de que são essas as verdadeiras. A aplicabilidade desse critério é atenuada, entretanto, pela existência das variantes não intencionais e pela possibilidade de erros de interpretação por parte do copista, pois nesses casos ele pode inadvertidamente ter introduzido uma complicação desnecessária, chegando, em casos extremos, a produzir um texto sem sentido ou que contradiz claramente a intenção expressa pelo autor no conjunto da obra.

3. A variante mais breve deve ter preferência. Analogamente ao que foi dito no item anterior, a tendência dos escribas é acrescentar porções de texto, a título de esclarecimento ou comentário, e não omitir o que encontraram nos manuscritos que têm em mãos. Assim como no caso anterior, contudo, esse critério só se aplica aos casos em que a alteração é intencional. As variantes acidentais muitas vezes podem ser facilmente identificadas como tais, mas ainda assim a sua existência impõe um limite a esse critério.

4. A variante que melhor explica a existência das demais deve ter preferência. Esse critério se aplica especialmente (embora não exclusivamente) a passagens que possuem um número relativamente elevado de formulações alternativas. Obviamente só uma delas pode ser a correta. A questão, portanto, pode ser colocada da seguinte forma: levando em conta os processos usuais de origem dos erros e o que se conhece da história da transmissão da passagem em questão, qual das variantes, se tomada como autêntica, explica com maior naturalidade a origem das outras? Esse critério inspira-se no método proposto por Karl Lachmann no século XIX, o qual é ainda hoje utilizado na crítica textual da literatura clássica, mas inaplicável aos textos bíblicos, especialmente ao Novo Testamento. Mas, ao invés de reconstituir a árvore genealógica dos manuscritos, conforme a proposta de Lachmann, reconstitui-se a genealogia de cada uma das variantes, consideradas individualmente. Esse critério também pode ser aplicado, embora com maior cautela, à análise das traduções do texto para outros idiomas, procedimento que também fornece resultados seguros em alguns casos. E, é claro, o critério encontra uma limitação natural nos casos em que duas ou mais variantes explicam-se mutuamente de maneira igualmente satisfatória.

5. A variante com apoio em tradições independentes deve ter preferência. Esse critério encontra aplicação mais limitada, embora não de todo inexistente, na crítica textual do Novo Testamento, pois as famílias cesareense e bizantina foram influenciadas pelas suas predecessoras. Seu fundamento reside no fato de que, havendo uma mesma variante em tradições textuais independentes, é inverossímil atribuir esse fato à ocorrência repetida de um mesmo erro. Evidentemente, esse critério é tanto mais significativo quanto mais longa e complexa for a variante em questão, ou quanto menos comum for o tipo de alteração (intencional ou não) que poderia tê-la produzido. Embora a aplicação do critério se dê principalmente na comparação entre famílias, também pode ser feita do ponto de vista puramente geográfico, já que, como foi explicado anteriormente, os dois aspectos estão intimamente relacionados.

6. A variante mais de acordo com o estilo do autor deve ter preferência. Naturalmente, esse critério requer muita cautela, pois sua aplicação indiscriminada pode eliminar traços de autêntica originalidade e espontaneidade do autor no momento da composição, tornando o texto mais uniforme e padronizado do que deveria ser. E, de fato, muitos abusos e arbitrariedades já foram cometidos dessa maneira. Uma precaução adicional contra esse critério deve ser empregada quando existe a possibilidade de o autor do texto ter usado outros materiais, escritos ou orais, como fontes para a composição do trecho em questão, pois nesse caso ele pode perfeitamente ter preferido manter as palavras da fonte utilizada, o que impediria a manifestação do seu próprio estilo. Esse critério não tem, portanto, nada de absoluto, mas pode lançar alguma luz sobre situações indecidíveis por outros meios.

7. A variante doutrinariamente neutra deve ter preferência. Aquelas variantes que podem ser satisfatoriamente explicadas como tentativas de contornar alguma dificuldade imposta pelo texto devem ser rejeitadas em favor das que mantêm essa dificuldade, visto não ser verossímil a criação intencional de dificuldades. Porém (e isso é importantíssimo), o estudioso deve levar em conta aquilo que seria considerado uma dificuldade do ponto de vista do copista ou dos autores da variante em questão, e não do seu próprio ponto de vista. Por isso, a análise desse ponto requer um estudo intenso da evidência externa ao texto, a fim de se conhecer, tanto quanto possível, a mentalidade e as circunstâncias dominantes no meio em que o texto foi produzido.

Não é difícil perceber, a partir de uma consideração atenta do que foi dito acima, que os critérios não necessariamente apontarão numa mesma direção para um dado caso. E, na verdade, a possibilidade de contradição entre eles concretiza-se muito freqüentemente. A variante mais difícil pode não ser a que melhor se ajusta ao estilo do autor, a provavelmente mais antiga pode ter contra si testemunhos independentes, a mais breve pode conter indícios de sectarismo, e assim por diante. E, não havendo uma rígida hierarquia entre os critérios, não se pode apelar a nada parecido com uma contagem de pontos em favor desta ou daquela alternativa.

Sendo fruto de um processo histórico bastante complexo e não conhecido em todos os seus detalhes, o objeto de estudo da crítica textual consiste, entretanto, essencialmente em detalhes. Por essa razão os critérios acima, embora objetivamente válidos como normas gerais, não podem ser devidamente aplicados sem um conhecimento adequado dos muitos aspectos envolvidos no caso particular sob análise. E o conhecimento desses aspectos, pela sua própria natureza, não é passível de sistematização num conjunto de normas semelhante. Não existe um manuscrito, conjunto ou mesmo família de manuscritos que se possa seguir cegamente: toda decisão em crítica textual deve ser tomada analisando-se passagem por passagem, variante por variante, tradução por tradução, manuscrito por manuscrito, discussão por discussão dentre tudo o que foi dito sobre a passagem em questão. Embora sejam, em grande medida, objetiva e racionalmente justificáveis, a tal ponto que os desacordos entre os estudiosos do assunto são raros e de importância bastante reduzida, os resultados de uma investigação apropriada requerem aquela intimidade entre o pesquisador e seu objeto que só se atinge mediante uma longa e respeitosa convivência.

4 de julho de 2008

A esposa e o marido

Nota introdutória: este post é continuação do post O primeiro e o último. Os dois formam, na verdade, um único texto. Por isso, é recomendável ler aquele antes de dar início a este.

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O terceiro lugar deste temível quarteto é o único a ser ocupado por uma mulher: minha possível futura esposa. Aqui caberia uma série de minuciosos esclarecimentos sobre o modo como encaro essa questão. Pois eu costumo ser muito cuidadoso ao falar de assuntos importantes, e poucas coisas me parecem mais sagradas que o casamento. Mas farei uma tentativa de me refrear e dizer apenas o essencial para o propósito deste texto. E provavelmente nada é mais importante do que dizer que, diferentemente do que parece ocorrer com muitos solteiros, eu estou muito longe de ter certeza de que um dia vou me casar, ou de que não vou. O matrimônio é para mim uma dentre duas opções, e não posso afirmar que seja a mais atraente. A outra opção - o celibato - oferece vantagens no mínimo igualmente interessantes. Creio que alguns tomarão essas declarações como evidência de que estou acima dos prazeres da carne, e a maioria suporá tratar-se apenas de um exemplo daquela afetação de auto-suficiência adolescente que todos conhecemos tão bem. Mas ambos os grupos estarão enganados a meu respeito: não estou acima de nada, e tampouco sou auto-suficiente, ou penso sê-lo, ou penso que devo fingir que sou. Apenas levo muito a sério aquela história de "antes só que mal acompanhado", e reservo-me o direito inalienável de ser exigente; afinal, só uma mulher muito especial seria capaz de suportar a convivência com alguém como eu. Estou dizendo tudo isso apenas para deixar claro que, embora eu não saiba se vou me casar ou não, e embora não dedique nem uma fração do meu tempo à tentativa de concretizar essa possibilidade, nem por isso deixo de considerá-la aquilo que é: uma possibilidade que, aliás, não merece nenhum desprezo, tal é a seriedade e importância do assunto.

Feitos esses esclarecimentos, devo dizer algo sobre como espero que seja a minha possível futura esposa, a mulher pela qual eu deverei abrir mão de todas as outras. Faz vários anos que, sempre que penso nisso, me vem à mente em primeiro lugar uma mesma idéia. E ela me vem com ainda maior nitidez desde que li a peça O velho estadista (The elder statesman), que considero a segunda mais bela de T. S. Eliot (pois Murder in the cathedral permanece imbatível) e que contém uma admirável dedicatória à esposa do grande poeta. Talvez eu possa dizer simplesmente que estou me referindo ao desejo de conhecer e de ser conhecido. Mas haverá, de fato, alguma simplicidade nisso? Não ignoro que é praticamente impossível permanecer desconhecido por alguém com quem convivemos o tempo todo e em tão alto grau de intimidade. Mesmo assim, parece-me que um instinto de auto-preservação, um empenho em evitar conflitos desnecessários ou mesmo o mero desejo de sermos admirados por alguém que admiramos pode nos levar a ocultar algo da parte mais profunda do nosso ser, aquela da qual eu mesmo só me atrevo a falar durante as minhas orações - e mesmo assim nem sempre. Eliot expressou isso muito bem através destas palavras do seu idoso protagonista, quando falava à filha e ao genro sobre sua relação com sua falecida esposa e com certos dilemas que sempre o haviam afligido (a tradução é de Ivo Barroso, e o texto original está no final do post):

E se não há nada que dela você oculte
- ainda que possa considerar importante
ocultá-lo do resto do mundo - sua alma está salva.
Se na vida de um homem há uma pessoa, uma só que seja,
a quem ele esteja disposto a confessar tudo -
e isto inclui, veja bem, não apenas atos criminosos,
não apenas torpezas, mesquinharias e covardias,
mas igualmente situações que são apenas ridículas,
nas quais agiu como tolo (e quem nunca o foi?) -
então ele ama essa pessoa e seu amor irá salvá-lo.
Quanto a mim, jamais amei alguém de fato. [...]
Passei a vida tentando esquecer-me a mim mesmo,
tentando identificar-me com o papel
que escolhi representar. E quanto mais fingimos,
tanto mais difícil se torna livrar-nos do fingimento,
sair do palco, vestir nossas próprias roupas
e falar como nós mesmos. [...]
Sua mãe nada sabia a esse respeito. E sei
que nunca conheci sua mãe, nem ela me conheceu.
Imagino que ela jamais compreenderia
ou então teria ciúmes dos fantasmas que me perseguem.
Ainda sou dessa opinião. Como abrir seu coração
quando se está certo da reação contrária?
Como confessar-se sem esperança de absolvição?
Ela não teve culpa. Nunca nos entendemos propriamente.
Por isso, vivemos com um profundo silêncio entre nós dois,
e ela morreu em silêncio. Nada tinha a me dizer.

Creio que o que mais temo no casamento é a possibilidade de jamais vencer essa barreira. Talvez as pequenas máscaras do dia a dia sejam muito difíceis de tirar; talvez algumas pequenas e insignificantes mentiras ou omissões se reforcem mutuamente e se consolidem com o passar do tempo, bloqueando para sempre o acesso dela a certas obscuras regiões da minha alma. Talvez isso afinal resulte em alguma medida de incompreensão, frieza e solidão, mesmo que o amor verdadeiro jamais deixe de existir. É por isso que, mesmo sem saber sequer se terei ou não uma esposa, adquiri muito cedo a convicção de que ela seria alguém de quem eu jamais desejaria esconder nada. Hoje percebo que isso não é assim tão simples, mas permanece como um ideal a ser atingido e constantemente buscado. E assim coloca-se inevitavelmente, com relação aos meus maus atos, a seguinte questão: como será se um dia, movido pela necessidade de ser sincero, eu tiver de confessar esses atos à minha esposa? Deve ser terrível contemplar a decepção nos olhos da mulher amada. O problema é semelhante ao que ocorre no caso do primeiro acusador, com o agravante de que desta vez não se trata de um artifício da minha mente, mas sim de uma possibilidade real de ocorrência futura, e com uma pessoa não menos real. Os olhos dela, olhos cuja cor eu ignoro, me seguem incessantemente.

Nenhum olhar se compara, entretanto, ao do quarto acusador, a começar pelo fato de que este, ao contrário dos três primeiros, não é uma metáfora, nem uma figura do passado, nem uma possibilidade não concretizada, mas uma pessoa real, ainda mais real que eu mesmo. Possui planos mais sublimes e grandiosos para o meu futuro do que eu fui capaz de imaginar durante a infância, e é ele próprio mais puro do que jamais fui em qualquer momento da mesma. Sua sabedoria é infinitamente maior que o máximo que poderei obter dela até minha velhice. Seu amor por mim é incomparavelmente superior ao de qualquer mulher, assim como a intensidade do seu sofrimento em decorrência das minhas faltas, passadas ou futuras. Por tudo isso, e por várias outras razões, ele requer, com muita justiça, maior fidelidade que todos os outros. Nele se reúnem, enfim, todos os elementos presentes nos três primeiros: a pureza, a sabedoria, a morte, o tempo, a fidelidade, o amor. Quão doloroso, portanto, não deverá ser o dia da minha morte, ou o dia em que o Senhor ressurreto surgir entre as nuvens para buscar sua noiva!

Sei que o que eu disse pode parecer chocante e dar margem facilmente a más interpretações. Nós cristãos estamos acostumados, e não sem razão, a pensar nesse dia com os corações cheios de alegria e esperança. Pois a Bíblia nos fala de Cristo como perdoador e consolador, e não como acusador e vingador, daqueles que nele depositaram sua fé. E talvez, de fato, no último dia seja totalmente ausente todo sofrimento em decorrência de pecados já cometidos, embora eu ache isso pouco provável. Mas haverá qualquer contradição real entre a severidade do olhar divino e a abundância da misericórdia divina? Ao contrário, parece-me que a profundidade insondável desse amor deve apenas tornar mais pungente a dor do nosso arrependimento. Quando chegamos à presença do Rei cobertos pelas nossas porcarias, causa-nos alívio a promessa de que seremos limpos pelo poder dele; mas, enquanto isso não acontece, o amor que encontramos em seu olhar apenas torna mais esmagador o peso da nossa sujeira. A dor na consciência decorrente da desobediência a um código moral abstrato, imposto por um princípio metafísico ou uma divindade distante, não pode se comparar à visão das cicatrizes nas mãos e nos pés do próprio Criador, que somam sobre todas as nossas faltas o peso da suprema ingratidão. Pois nossos pecados, especialmente os voluntários, revelam a nossa indiferença, mesmo que momentânea, em relação à eterna dor, sofrida com o fim de nos livrar deles. O desprezo pela cruz é pior que o desprezo pelos sofrimentos humanos. Ela nos livra da ira, mas apenas aumenta nossa responsabilidade. Pois o sangue de Cristo fala coisas superiores às que fala o sangue de Abel.

Os quatro personagens estão agora apresentados. Só o que me falta é fazer deles instrumentos eficazes no combate ao meu mal interior, ou seja, lembrar-me deles não apenas ao refletir sobre os erros que cometi, mas também sobre os que ainda posso cometer; e assim, quem sabe, evitar ao menos alguns deles. Eis a meta. Que Deus me ajude.

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And if there is nothing you conceal from her
however important you may consider it
to conceal from the rest of the world - your soul is safe.
If a man has one person, just one in his life,
to whom he is willing to confess everything -
and that includes, mind you, not only things criminal,
not only turpitude, meanness and cowardice,
but also situations which are simply ridiculous,
when he has played the fool (and who has not?) -
then he loves that person, and his love will save him.
I'm afraid that I've never loved anyone, really. [...]
I've spent my life in trying to forget myself,
in trying to identify myself with the part
I had chosen to play. And the longer we pretend
the harder it becomes to drop the pretence,
walk off the stage, change into our own clothes
and speak as ourselves. [...]
Your mother knew nothing about them. And I know
that I never knew your mother, as she never knew me.
I thought that she would never undestand
or that she would be jealous of the ghosts who haunted me.
And I'm still of that opinion. How open one's heart
when one is sure of the wrong response?
How make a confession with no hope of absolution?
It was not her fault. We never understood each other.
And so we lived, with a deep silence between us,
and she died silently. She had nothing to say to me.