1 de maio de 2014

Sobre critérios e limites

Várias pessoas já me perguntaram o que penso do trabalho de William Lane Craig e de seu método apologético. A resenha abaixo responde em parte a essa pergunta. Escrevi-a quando ainda residia em Fortaleza, e ela foi publicada na revista Fides Reformata no segundo semestre de 2012 (volume XVII, número 2, p. 129-132). Pesam sobre ela algumas limitações, decorrentes sobretudo da limitação de espaço, uma exigência da revista que trouxe, por outro lado, a vantagem de me obrigar a colocar de lado minha costumeira prolixidade e ir direto ao que interessa.

Essa resenha não existiria sem o meu amigo Yago Martins. Foi ele quem me convenceu de que eu devia ler o livro, e para isso me emprestou seu exemplar. Meses mais tarde, ele me emprestou o livro de novo, para que eu pudesse escrever a resenha. Fica aqui registrada, portanto, minha dupla gratidão.

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CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. São Paulo: Vida Nova, 2011. 317 pp.

William Lane Craig é um dos mais famosos defensores da fé cristã vivos. Seus dois doutorados – em filosofia e teologia, sob a orientação de John Hick e Wolfhart Pannenberg, respectivamente – foram voltados para a apologética, sua paixão e vocação. Nessa obra, Craig fala ao cristão que busca se comunicar com incrédulos ou fortalecer a própria fé contra as tentações do intelecto. O tom é simples e didático, podendo ser digerido pelo leitor atento mesmo quando trata dos temas mais difíceis.

Os capítulos iniciais são introdutórios, explicando a natureza (cap. 1) e importância (cap. 2) da apologética. Os seguintes trazem argumentos em favor da existência de Deus. Dois são cosmológicos: o de Leibniz (cap. 3) e o kalam (cap. 4), baseado nas obras de Abû Al-Ghazâlî e Stuart Hackett. Seguem-se o argumento do ajuste fino das constantes físicas fundamentais à existência de vida (cap. 5) e o argumento moral (cap. 6). O sétimo lida com a objeção posta pelo sofrimento. Os capítulos finais tratam de Jesus: dois defendem a historicidade de sua declaração de divindade (cap. 8) e de sua ressurreição corpórea (cap. 9), e o último defende Cristo como único caminho para Deus (cap. 10).

A descrição da estrutura do livro mostra que Craig segue o método da “apologética clássica”, que busca estabelecer primeiro o teísmo em geral e só depois o cristianismo[1]. Em minha opinião, os argumentos mais sólidos são levantados nos capítulos 3 a 5. O argumento moral de Craig é menos persuasivo que o de C. S. Lewis[2]. O capítulo 8 é o menos didático, podendo soar algo obscuro ao leitor pouco familiarizado com debates sobre a historicidade dos evangelhos. E o capítulo 10 não chega a arranhar as formas mais sofisticadas de pluralismo.

O método de Craig consiste em buscar premissas aceitáveis igualmente ao cristão e ao incrédulo e extrair daí conclusões favoráveis ao cristianismo, de modo estritamente silogístico: “argumentar é apenas apresentar uma série de enunciados ou premissas que levem a uma conclusão. E isso é tudo” (p. 14). Essa via leva naturalmente à busca de atalhos que minimizem a quantidade dessas premissas e simplifiquem o trajeto até a conclusão. E tal minimalismo leva à necessidade de não discutir o que não é essencial à linha argumentativa escolhida; assim, o apologeta é levado a fazer concessões estratégicas à cosmovisão do incrédulo.

Os resultados de tais concessões formam um padrão notável em todo o livro. Ao defender que Jesus declarou ser Deus, Craig admite a teoria liberal-secular sobre a formação dos evangelhos e constrói seu argumento usando apenas as perícopes “unanimemente” tidas como autênticas. Ao fortalecer o kalam, ele endossa a autoridade da ciência moderna como palavra final sobre as origens do mundo físico. E, ao defender a justiça da condenação ao inferno, concede que nenhum pecado é grave o bastante para requerer uma punição perpétua, que ele justifica por outros meios. Assim, de concessão em concessão, Craig desperdiça a chance de expor a cosmovisão cristã de modo consistente, profundo e íntegro.

Não há problema em adotar provisoriamente os pressupostos do incrédulo para fins de discussão, em especial para revelar a inconsistência interna de sua cosmovisão. Francis Schaeffer fazia isso com muita propriedade[3]. Craig revela certa influência schaefferiana, mas restringe o alcance da apologética ao fazer dessa abordagem o método por excelência. Dentre as manifestações deletérias dessa restrição, nenhuma é tão severa quanto a desconsideração do aspecto espiritual que há em toda rejeição intelectual do Evangelho. Afinal, a escolha de um punhado de premissas comuns como ponto de partida só faz sentido se não houver nada de errado nelas, ou por trás delas. Mas por trás de um cérebro incrédulo há sempre um coração rebelde contra o Criador e apegado a uma ilusão de inocência. Craig não ignora isso, mas sua percepção do fato não tem grande efeito sobre seu método, que trata o problema como primariamente cognitivo ou, quando muito, emocional. Sua apologética se propõe a desfazer mal-entendidos, e não a remover pretextos, denunciar ídolos e convocar rebeldes ao arrependimento.

Isso se manifesta com especial clareza no capítulo sobre o problema do sofrimento. Craig levanta toda sorte de explicações: Deus não pode violar a liberdade humana; um mundo sem sofrimento talvez não fosse melhor; o bem disponível é incomparavelmente superior; Deus se importa e sofre conosco. Mas não diz a verdade que leva diretamente ao cerne do Evangelho: o sofrimento brota da depravação do coração rebelde contra Deus[4]. O incrédulo, nesse capítulo, é apenas alguém que tem direito a explicações pelo sofrimento que lhe impuseram. E Craig age como bom advogado, esforçando-se por mostrar que seu cliente foi posto no banco dos réus por engano, não merecendo estar ali porque fez o melhor que pôde para evitar nosso sofrimento. Ele não dá sinais de notar que há algo muito perverso na pretensão de julgar a correção moral do decreto divino. Como é dito no fim, “o verdadeiro problema” do sofrimento é apenas de ordem emocional (p. 189).

Depreende-se daí que a premissa basilar do método de Craig é a boa fé do incrédulo, em oposição à doutrina bíblica e reformada da depravação total, repudiada por ele juntamente com a absoluta soberania de Deus. A apologética de Craig é criticável em muitos pontos, mas não é incoerente com sua teologia, arminiana com dois ou três passos na direção do teísmo aberto. O problema da apologética de Craig é, pois, teológico, já que sua teologia gera uma antropologia que, eivada de concessões ao humanismo, minimiza os efeitos da queda.

O que impede Craig de confrontar os pressupostos do incrédulo é o fato de ele próprio compartilhar deles em certa medida. Decorre daí a relativa superficialidade de sua argumentação e de suas metas. Se a função da apologética fosse mostrar a veracidade do cristianismo ao incrédulo segundo os critérios dele próprio, jamais seria possível desafiar esses mesmos critérios e expor a cosmovisão cristã de modo contundente. O apologeta se perderia então no esforço colossal de descer ao nível do interlocutor, reduzindo o cristianismo até que coubesse nos padrões pré-definidos pela mente não-regenerada. Levado às últimas consequências, tal método desfaria o próprio escândalo da cruz para provar que nossa fé é muito razoável segundo critérios “neutros” e “objetivos”. Mas então a apologética já teria se tornado muito mais islâmica que cristã. Qualquer método que apela a alguma faculdade humana (razão, inteligência, intuição, sentimento etc.) ou disciplina científica (física, biologia, história, ontologia etc.) como árbitro soberano está apenas se recusando a remover um ídolo.

A despeito dessas severas limitações, o livro possui várias qualidades notáveis que tornam sua leitura proveitosa. É justo dizer, parafraseando Cornelius Van Til, que Craig é muito mais virtuoso que sua teologia, e devemos aprender com ele a não ser menos virtuosos que a nossa[5]. Transparece na obra seu amor por Cristo e pelo Reino, sua humilde alegria em tomar parte no que é, a despeito da sofisticação, um ministério de pregação do Evangelho e auxílio aos santos. Craig não ignora a importância do amor e da mansidão na apologética, e é notório que o livro foi escrito com profundo zelo professoral e compaixão, pelos leitores cristãos e pelos incrédulos que, através deles, ouvirão a mensagem da salvação.

É louvável também a presença da pessoalidade na obra. Craig sabe que a pessoa toda deve se envolver no ato da apologética. Entre as partes mais interessantes estão o relato de sua conversão e dois interlúdios intitulados “A jornada de fé de um filósofo”, que narram seu encontro com a apologética e o modo pelo qual Deus lhe abriu caminho para os estudos e a carreira de defesa da fé. Fica patente a ação soberana da Providência, que levantou e tem usado esse servo para manifestar a glória de Cristo.

As evidências discutidas no livro podem e devem ser aproveitadas como ferramentas apologéticas úteis em determinados contextos. As verdades ali expostas podem ser absorvidas por um programa apologético mais bíblico, abrindo espaço para um confronto intelectual e moral que o Espírito pode usar para convencer o incrédulo de seu pecado. E o valor dado por Craig ao rigor, à clareza e à leveza da argumentação constituem lições valiosas transmitidas ao leitor, menos pela teoria que pelo exemplo.

Em guarda pode ser instrutivo para cristãos que vivem dúvidas intelectuais honestas ou não têm a necessária maturidade para anunciar a mensagem da cruz com rigor intelectual e compaixão. O leitor, seja jovem, pastor, líder ou educador, pode ser levado por essa leitura a um contato salutar com novos conhecimentos e à expansão de seus interesses.

As limitações apontadas aqui não devem, pois, ser tomadas como sinais da inutilidade do livro ou de propostas apologéticas similares. Ao contrário, o leitor que tiver consciência dessas limitações poderá aproveitar muito melhor seus vários pontos positivos. Não devemos desconsiderar que, a despeito delas, Craig tem desempenhado um ministério bem-sucedido na conversão de incrédulos e no aprimoramento intelectual dos santos, para a glória de Deus. Admitir isso não é fazer concessão ao pragmatismo ou minimizar a importância dos erros expostos, mas sim apontar um motivo de encorajamento para todos nós: tal fato demonstra que, na manifestação do poder salvador e santificador, Deus não se deixa limitar pelas limitações de seus filhos.


[1] GEISLER, Norman, Enciclopédia de apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo: Vida, 2002, p. 61-64 e 182-184.
[2] LEWIS, Clive Staples, Cristianismo puro e simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 1-18.
[3] SCHAEFFER, Francis August, O Deus que intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
[4] Na verdade, em meio às 32 páginas do capítulo há meia página sobre nosso “estado de rebelião contra Deus” (p. 184), mas esse ponto é mencionado de passagem apenas para descrever a explicação cristã para o sofrimento, sem o intuito de desafiar a rebeldia de quem quer que seja.
[5] “Muitos arminianos são muito mais virtuosos que suas teorias. [...] E aqui é necessário confessar que [nós, reformados], muito frequentemente, somos menos virtuosos do que nossa posição.” (VAN TIL, Cornelius, Apologética cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 142-143). Cf. a resenha de José Carlos Piacente Júnior em Fides Reformata, v. XVII, n. 1, 2012, p. 105-109.

6 de abril de 2014

Esperança milenar - parte 4



2.8. Transcendência

Embora Clarke fosse agnóstico, materialista, humanista e antirreligioso, sua obra denuncia em vários pontos a presença daquilo que Dooyeweerd chama de “motivação religiosa fundamental do coração”[1], bem como de sentimentos religiosos, embora não reconhecidos como tais nem dirigidos ao Deus verdadeiro. Esse aspecto será explorado na presente seção, tendo como ponto de partida a seguinte declaração de Clarke:

Se me pudessem ser concedidos três desejos, eles seriam: 1) paz no Sri Lanka – e no mundo todo, se não fosse pedir demais; 2) os primeiros protótipos comerciais de dispositivos geradores de energia limpa e praticamente infinita, que encerrariam a era do combustível fóssil; 3) a prova de vida em outro lugar – de preferência inteligente, embora eu me satisfaça com qualquer coisa capaz de juntar algumas células.[2]

Enquanto os dois primeiros desejos dizem respeito ao bem da humanidade, o último não necessariamente traria algum benefício prático a quem quer que fosse. Pensando na quantidade e variedade de coisas que Clarke poderia ter desejado em vez disso, fica claro que a vida extraterrestre possui um papel especial em sua cosmovisão. Evidências mais fortes disso podem ser encontradas em outras declarações suas. Por exemplo, quando lhe foi perguntado qual era, para ele, o “maior mistério”, sua resposta foi: “Oh, ETs. Você não consegue imaginar nada maior nem mais importante que isso, consegue?” Nessa ocasião, Clarke declarou não saber se existe ou não vida inteligente em outros mundos: “Se de fato estivermos sozinhos, significa que somos não só os herdeiros do cosmos, mas também seus guardiões, o que é um pensamento portentoso”[3]. Mais tarde, porém, ele se convenceu completamente: “Bem, é claro que não há nenhuma evidência. Mas parece incrível sugerir que nesse universo enorme nós somos a única forma de vida inteligente”[4]. E, ao ser indagado sobre o que gostaria de ver antes de morrer, sua resposta foi: “A primeira coisa, é claro, é a descoberta de vida inteligente no espaço exterior. Acho improvável que isso aconteça durante a minha vida, mas tenho certeza de que um dia será alcançado”[5].

Podemos resumir o conteúdo dessas declarações dizendo que os ETs inteligentes ocupavam, para Clarke, a função de “maior mistério”, o maior e mais importante fato a ser descoberto; que ele, a despeito de seu propalado ceticismo, dispunha-se a crer neles sem qualquer evidência; e que o surgimento de tal evidência era o que ele mais queria ver em vida.

Nesse campo, dentre vários outros, a cosmovisão de Clarke é muito semelhante à do astrônomo Carl Sagan (1934-1996), de quem foi amigo pessoal. Sagan foi o criador do projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence [Busca por Inteligência Extraterrestre]), destinado a procurar sinais de inteligência nas ondas eletromagnéticas vindas do espaço. Seu livro O mundo assombrado pelos demônios[6], além de conter uma defesa desse projeto, dedica-se a promover o ceticismo cientificista e criticar a “superstição” e a “pseudociência”, representadas na fé religiosa em geral e na crença em fenômenos paranormais, mediúnicos e ligados às diversas modalidades de esoterismo. Boa parte do livro é dedicada à crítica dos fenômenos ufológicos, abduções e relatos semelhantes, tidos como mais uma “superstição” – e, portanto, aparentados às crenças religiosas irracionais que o cético deve rejeitar.

Entretanto, embora admitindo que não há evidência conclusiva da existência de alienígenas inteligentes, Sagan julgava seguro crer na existência de tais seres com base em razões que lhe pareciam estritamente científicas, e não religiosas (pois a religião é, para ele e Clarke, o terreno da irracionalidade por excelência). Clarke concordava com tudo isso, e declarou, nas páginas finais de 3001, que a leitura desse livro deveria ser obrigatória nos colégios e faculdades (p. 262). Quando lhe perguntaram o que achava dos relatos de abduções, sua resposta foi: “Um lixo delirante total! Temo que haja um monte de homens e mulheres malucos andando por aí”[7]. E, de fato, o século XXXI via esses relatos como efeitos de doença mental (p. 113-4), em pé de igualdade com o “fanatismo religioso”.

Curiosamente, outro livro de Sagan, o romance Contato, de 1985[8], traz notáveis afinidades com a tetralogia de Clarke. Também ali os extraterrestres que fazem contato com a humanidade são muito avançados tecnologicamente (e moralmente), e as questões acerca deles e de sua influência sobre nós adquirem contornos claramente religiosos. Há também semelhança na ontologia materialista por trás de ambas as obras. Os alienígenas de Sagan são, porém, menos intervencionistas que os de Clarke, pois não tiveram participação na criação da humanidade, e tampouco manifestaram intenção de intervir em seu futuro.

Não foi por acaso que me referi aos Primogênitos de Clarke como deuses. Eles agiram como um demiurgo grego ao tomar parte na criação da espécie humana, fiéis ao objetivo de promover o surgimento de vida inteligente em toda a galáxia. Clarke percebeu bem cedo o fundo religioso dessa ideia; enquanto escrevia 2001 e discutia com Kubrick o roteiro do filme, ele registrou em seu diário (18/11/1965) a impressão causada por um filme que assistiu: “Um verso me atingiu de modo especial – o uso da frase ‘Deus fez o homem à sua própria imagem’. Esse, afinal,é o tema do nosso filme”[9].

Posteriormente, os Primogênitos decidem destruir a humanidade com base em uma reprovação moral, baseando-se em informações colhidas no século XXI. As providências para a execução desse juízo final chegaram no século XXXI e foram sabotadas com a ajuda de David Bowman, convertido pelos Primogênitos em um ser semelhante a eles (ou seja, de pura energia) em 2001. Embora a ameaça imediata tenha sido superada, porém, é de se esperar uma retaliação nos próximos séculos, e o livro termina com essa expectativa. Mas o leitor é informado sobre a decisão dos Primogênitos no epílogo do livro. Eles dizem: “O pequeno universo deles é muito jovem, e seu deus ainda é uma criança. Mas ainda é cedo demais para julgá-los. Quando retornarmos, nos Últimos Dias, Nós veremos o que deve ser salvo” (p. 247). O tom, a linguagem e o conteúdo são claramente escatológicos, e muitos paralelos com a teologia bíblica poderiam ser extraídos dessas poucas palavras.

Apesar disso, os Primogênitos têm menos em comum com o Deus das Escrituras que com as divindades do paganismo greco-romano: são múltiplos, tiveram sua origem dentro do mundo e a partir de matéria preexistente e são limitados em seus poderes e valores morais; gerenciam parte do que acontece no universo, mas não podem ocupar o papel de Absoluto em nenhum sentido admissível do termo.

Não devemos, é claro, tratar do tema como se o autor acreditasse de fato nos alienígenas que inventou. A questão diz respeito à estrutura de plausibilidade da cosmovisão do autor, e ganha ainda mais peso diante da já apontada semelhança com a ficção de Carl Sagan: existe uma afinidade profunda entre o velho paganismo politeísta e o novo racionalismo cientificista. Essa conexão também não é casual: no período moderno, a crença em habitantes do espaço sideral ganhou força primeiro, historicamente, entre os círculos influenciados pelo reavivamento do paganismo trazido pelo Renascimento[10].

Tanto no esoterismo ufológico barato quanto no refinado ceticismo científico, os alienígenas ocupam o espaço que antigamente era atribuído aos deuses. A diferença específica do cético materialista é que ele só se sente autorizado a crer no que lhe parece cientificamente bem fundamentado, e é por isso que a afinidade citada se torna mais facilmente detectável nos momentos (relativamente raros) em que ele se sente autorizado a dar asas à imaginação – por exemplo, em uma obra de ficção científica. O materialista moderno, pois, diferencia-se do pagão antigo por uma subtração, e não por um acréscimo: talvez seja lícito descrevê-lo como um pagão que tem restringida a faculdade da imaginação.

2.9. Deus

Deixando de lado as ideias da criação do homem à imagem de Deus e do juízo final sobre a humanidade, grotescamente parodiadas na tetralogia pelas ações dos Primogênitos, há em 3001 dois momentos que revelam uma percepção particularmente lúcida do Deus verdadeiro – aquilo que João Calvino chamou de sensus divinitatis[11]. Ambos apontam para a percepção da sabedoria e majestade manifestas na criação, em contraste com as quais se revelam pífias as realizações humanas. Será transcrito aqui um desses momentos, que revela essa percepção com especial intensidade. Poole deixava nosso planeta pela primeira vez desde que fora trazido inconsciente do espaço. No século XXXI, existe uma enorme construção humana chamada Cidade Estelar, uma estrutura anelar que circunda todo o planeta. O narrador diz (p. 102):

Quando eles estavam a cinquenta mil quilômetros de altitude, ele estava prestes a ver toda a Cidade Estelar, como uma estreita elipse rodeando a Terra. Embora o lado distante estivesse quase invisível, um fio de cabelo de luz contra as estrelas, inspirava reverência o pensamento de que a raça humana tinha agora estabelecido esse sinal nos céus.

Então Poole se lembrou dos anéis de Saturno, infinitamente mais gloriosos. Os engenheiros astronáuticos ainda tinham um caminho muito, muito longo a percorrer até serem capazes de igualar as realizações da Natureza.

Ou, se essa era a palavra correta, Deus.

Esse trecho ilustra bem a afirmação de Clarke de que “Nenhuma pessoa inteligente pode contemplar o céu noturno sem um senso de reverência”[12]. Isso foi o mais perto que ele conseguiu chegar do reconhecimento de que “Os céus proclamam a glória de Deus” (Salmo 19.1).

No entanto, visto que o reconhecimento dos atributos de Deus na natureza torna o homem indesculpável (Romanos 1.20), o coração humano busca fugir das implicações dessa revelação. Assim, Clarke cindiu Deus em dois conceitos, o Criador e o Juiz, e concedeu a “possibilidade” de existência apenas ao primeiro, considerado “um personagem muito mais interessante”[13]. O capítulo final de 3001 permite entrever a decisão pessoal de Clarke ao revelar um dos últimos pensamentos de Poole, depois que havia passado a ameaça do fim imediato da humanidade. Ninguém sabia qual seria a próxima atitude dos Primogênitos, mas Poole decidiu apenas não lhes dar mais atenção: “Quaisquer que fossem os poderes divinos emboscados além das estrelas, Poole lembrou a si mesmo, para os seres humanos ordinários só duas coisas eram importantes: o Amor e a Morte” (p. 245-246).

Dado o anseio de Clarke por encontrar seres inteligentes no espaço, é deveras revelador que seu personagem tenha tomado essa rota de fuga quando esses seres se mostraram hostis em um sentido escatológico. É fácil ver nisso um paralelo com a decisão do coração de Clarke quanto ao Deus verdadeiro: torcer para que o Último Dia seja apenas uma lenda e, com base nisso, aproveitar da melhor maneira possível o que a vida presente oferece de bom, encarando de modo realista e conformado a dose inevitável de mal. Esse triste compromisso fundamental se espraia para toda a cosmovisão de Clarke: sociedade, ciência, tecnologia, progresso, prazer... Tudo é posto a serviço de uma vã esperança de um dia vencer o mal e a morte pelas próprias forças, prescindindo da cruz de Cristo.

3. Considerações finais

A título de conclusão, convém sintetizar o que foi exposto à luz da chave de compreensão proposta por Dooyeweerd[14] com base no motivo bíblico criação-queda-redenção. 3001 possui momentos de verdade em todas as três áreas. A cosmovisão do autor comporta percepções corretas sobre os seguintes pontos: a manifestação dos atributos de Deus na natureza (criação); a depravação moral do homem e a fragilidade de sua condição no mundo presente (queda); a necessidade de superar o presente estado de coisas e o papel do homem como guardião e mestre sobre a natureza (redenção).

Entretanto, o direcionamento dado pela cosmovisão de Clarke traz uma distorção humanista fundamental nos três aspectos. No campo da criação, Clarke não apenas nega a evidência que aponta para Deus como Criador, reduzindo-a (na melhor das hipóteses) à função de uma distante causa primeira e negando a divina providência, mas também, em decorrência disso, possui uma visão reducionista do significado das coisas criadas, inclusive do próprio homem. Quanto à queda, ele não só assume a normalidade do cosmos atual, mas também minimiza a extensão e a profundidade da perversão do coração humano. É apenas graças a isso que ele consegue, ainda que de modo inconsistente, se satisfazer com uma esperança de progresso que está muito aquém da radicalidade da redenção que encontramos em Cristo, mas que tem a vantagem (do ponto de vista humanista) de tornar dispensável a intervenção divina.

Toda a cosmovisão de Clarke se orienta em oposição ao Deus verdadeiro e destina-se a mantê-lo afastado, em especial pela consciência – não passível de supressão completa – de que a ação redentora de Deus traz como corolário a condenação dos que se obstinam na rebeldia contra ele.


[1] KALSBEEK, L. Contours of a Christian Philosophy: an Introduction to Herman Dooyeweerd’s Thought. Toronto: Wedge, 1975.
[2] COKER III, John L. A Visit with Arthur C. Clarke. Oakland, 1999. Disponível aqui. Acesso em: 14 de junho de 2012.
[3] GREENWALD, Jeff. Arthur C. Clarke on Life. San Francisco, 1993. Disponível aqui. Acesso em: 6 de junho de 2012.
[4] ROBINSON, Tasha. Arthur C. Clarke Interview. Chicago, 2004. Disponível aqui. Acesso em: 28 de junho de 2012.
[5] RATNATUNGA, Kavan. 60th Anniversary of Clarke’s Communication Satellite Idea. Colombo, 2005. Disponível aqui. Acesso em: 29 de junho de 2012.
[6] SAGAN, Carl Edward. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
[7] SCIFI.COM. Arthur C. Clarke and Gentry Lee Online Chat. Nova York, 1996. Disponível aqui. Acesso em: 11 de junho de 2012.
[8] SAGAN, Carl Edward. Contato: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
[9] CLARKE, Arthur Charles. Arthur Clarke’s 2001 Diary (excerpt). Nova York, 1972. Disponível aqui. Acesso em: 5 de junho de 2012.
[10] KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Rio de Janeiro: Forense-Universitária; São Paulo: Edusp, 1979.
[11] CALVINO, João. As Institutas: edição clássica, v. 1, 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
[12] HOUSTON, Frank. Salon People: Arthur C. Clarke. San Francisco, 2000. Disponível aqui. Acesso em: 15 de junho de 2012.
[13] HOUSTON, Frank. Salon People: Arthur C. Clarke. San Francisco, 2000. Disponível aqui. Acesso em: 15 de junho de 2012.
[14] WOLTERS, Albert. Criação restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

26 de março de 2014

Esperança milenar - parte 3



2.5. Limites

Os aspectos destacados na seção anterior mostram a afinidade do pensamento de Clarke com o progressismo racionalista clássico, de caráter cientificista e iluminista. Na realidade, porém, Clarke não permaneceu de todo imune às desilusões características do homem pós-moderno, e é necessário expor brevemente os indícios que evidenciam isso.

O progresso concebido por Clarke diverge daquele do progressismo clássico, em primeiro lugar, pelo fato de não ser linear e monotônico. O século XX é conhecido no século XXXI como “O Século da Tortura”, e algumas pessoas o veem como “o pior período da história humana” (p. 217). Embora essa visão não seja unânime, até os mais otimistas consideram que o século XXI “marca a transição entre o barbarismo e a civilização” (p. 87), em parte por causa das guerras mundiais e outras atrocidades, como as do comunismo (p. 225-6).

Outra diferença é que Clarke acreditava no progresso da humanidade, mas não em sua perfectibilidade, por crer que todo progresso traz alguma perda correspondente: “tudo tem um preço”, disse ele nesse contexto[1]. Poole constatou inúmeros exemplos disso no século XXXI: desigualdade política, suicídios, crimes, corrupção, motins (em naves espaciais), acidentes, superstições e doenças mentais foram bastante reduzidos, mas não eliminados por completo, e há claras sugestões da impossibilidade de um triunfo completo contra esses males.

Outra classe de problemas é a daqueles acerca dos quais se fez pouco ou nenhum progresso. Por exemplo, embora o acesso à informação seja facílimo, quase ninguém se interessa em ler ou adquirir conhecimento (p. 84), de modo que Poole rapidamente superou quase todos os seus conhecidos na compreensão da história do terceiro milênio (p. 61, 115). Pior que isso é o fato de que a prosperidade material e tecnológica tornou a vida demasiado confortável, e as pessoas tornaram-se acomodadas (p. 106), a tal ponto que Poole só encontrou um forte senso de aventura e propósito na vida entre os colonizadores de uma lua de Júpiter, para os quais a sociedade terráquea-lunar estava em franca decadência (p. 136). O livro revela alguns aspectos dessa decadência, a começar pela culinária: as refeições, sempre preparadas por robôs, eram nutritivas e “perfeitamente aceitáveis”, mas “certamente nada com que se animar, e teriam sido o desespero de um gourmet do século XXI” (p. 89). Ainda mais grave é a ocorrência de um fenômeno análogo entre as pessoas, com uma tendência à uniformização das personalidades: “havia bem poucos personagens memoráveis nessa sociedade” (p. 217).

Um último aspecto que vale a pena mencionar é que Clarke não via solução para a tensão entre os direitos do indivíduo e o bem da coletividade. Isso é ilustrado em 3001 pelo progresso que possibilitou a identificação de pessoas com potencial para psicose (ou fanatismo religioso) antes que elas oferecessem ameaça real. Quando o governo passou a examinar indivíduos sem ficha criminal contra a vontade deles, surgiram protestos que, no entanto, não prevaleceram: “De modo lento, e até relutante, foi aceito que essa forma de monitoramento era uma precaução necessária contra males muito piores” (p. 226). Clarke ilustrou aqui uma preocupação real quanto ao possível mau uso da tecnologia nesse campo. Comentando sobre o atentado de 11 de setembro, ele declarou: “Eu não acho que possamos vislumbrar nenhuma mudança técnica que impeça esse tipo de coisa de acontecer. [...] Olhando para o futuro distante, pode-se imaginar – não estou certo de que seja uma boa ideia: parecido demais com 1984 – o teste psicológico de todos para ver quem tem esses impulsos”[2].

Por essas e outras razões, inimigos da tecnologia continuam a existir ainda no século XXXI (p. 21). Mas Clarke certamente não se enquadra nessa categoria. Quando lhe perguntaram se deveríamos frear o moderno ímpeto de procurar soluções tecnológicas para tudo, sua resposta foi: “Deveríamos acelerar”[3].

2.6. Antropologia

Para Clarke, o século XX foi ao mesmo tempo “maravilhoso e terrível” (p. 35), mas havia esperança de que o primeiro aspecto prevalecesse. 3001 foi dedicado às três filhas de um amigo, com as seguintes palavras: “Que vocês possam ser felizes em um século muito melhor que o meu”. Uma exploração das razões mais profundas por trás disso nos levará ao núcleo da visão de Clarke sobre o homem.

Começando pelos aspectos mais superficiais, pode-se ver em 3001 uma consciência da fragilidade humana que não combina com o humanismo progressista clássico, denunciando certa influência pós-moderna. Assim, embora as doenças tenham sido controladas há muito pelo avanço da medicina, não cessaram as precauções acerca disso, pois “nunca foi sábio subestimar a engenhosidade da Mãe Natureza, e ninguém duvidava de que o futuro ainda tinha surpresas biológicas desagradáveis guardadas para a humanidade” (p. 221). De modo semelhante, a humanidade no século XXXI procura colonizar outros mundos porque “Os milhões de mortos no tsunami causado pelo asteroide do Pacífico em 2304 [...] tinha lembrado a todas as gerações futuras de que a raça humana tinha muitos ovos em uma única e frágil cesta” (p. 8). Essa era uma preocupação real de Clarke, crítico severo do corte de verbas para pesquisas sobre viagens espaciais. “Como disse um amigo meu, os dinossauros se extinguiram porque não tinham um programa espacial”[4]. O sentimento por trás disso foi bem resumido em uma breve reflexão sobre o naufrágio do Titanic, em 1912: “uma civilização que estava demasiado segura, confortável e talvez complacente percebeu que não éramos os mestres de nosso próprio destino”[5].

Para Clarke, portanto, ciência e tecnologia são ferramentas disponíveis para reduzir os riscos a que estamos sujeitos em um universo repleto de forças hostis sobre as quais temos pouco ou nenhum controle. Pode-se dizer que são preciosas por serem as melhores armas disponíveis, mas nem por isso capazes de garantir a vitória. Em seu pensamento há, pois, um elemento de tragédia, no sentido pagão original do termo: não havendo em sua cosmovisão uma Providência em que pudesse confiar, restou apenas o capricho cego das circunstâncias.

Não obstante, para ele, o perigo mais grave é interior. Quando lhe perguntaram qual era a maior ameaça à humanidade, a resposta foi: “A humanidade. Nossa única esperança é inteligência e senso comum, que são tão incomuns”[6]. Essa resposta sugere uma limitação cognitiva, mas Clarke considerava igualmente perigosa a limitação moral do homem. Ambos os elementos estão presentes em 3001, em que um personagem identifica como os principais problemas da natureza humana a incapacidade “de pensamento lógico consistente” e uma dose de agressividade “muito maior que o absolutamente necessário”. Poole se pergunta: “Isso é um acidente evolutivo – um pedaço de azar genético?” (p. 151). Na visão materialista de Clarke, não há outra explicação disponível. Mas, na ficção, aventa-se a possibilidade de ter havido um erro de projeto da parte dos Primogênitos. Por aí se vê que, se Clarke acreditasse em Deus, não hesitaria em culpá-lo pelas más inclinações do coração humano, uma vez que estão ausentes de sua estrutura de plausibilidade a doutrina bíblica da queda e o conceito kuyperiano de “cosmos anormal”[7].

Clarke tinha uma clara percepção de que há algo muito errado na natureza humana, a despeito de sua visão reduzida tanto da profundidade do problema, visto como mero excesso de agressividade, quanto de sua causa, entendida como simples acidente evolutivo. Mas é justo dizer que ele aparentemente intuía a insuficiência dessas ideias, sem, no entanto, dispor de uma explicação melhor. Isso fica bastante claro em uma entrevista na qual, depois de dizer que a moralidade se resume à famosa Regra de Ouro, ele exclamou:

Por que os seres humanos não conseguem viver de acordo com esse princípio? Por que é que as pessoas não conseguem agir como os seres humanos deveriam agir? Fico assustado com o que todos nós vemos nas notícias todos os dias – massacres, atrocidades, injustiças, ultrajes de todos os tipos. Quando vejo o que está acontecendo, eu às vezes penso se a raça humana merece sobreviver.[8]

O tom de perplexidade contido nessas palavras denuncia com vigor a surpresa de Clarke diante de um fato que, em última análise, sua cosmovisão não é capaz de abarcar. Não menos eloquente é a inusitada epígrafe da quinta seção do livro (pois as quatro primeiras não têm epígrafe), que contêm os seguintes versos de A. E. Housman: “A labuta de tudo o que há / não muda o erro original; / Chove sempre sobre o mar, / mas o mar ainda é sal”[9] (p. 199).

2.7. Otimismo

Infelizmente, os questionamentos que acabo de citar eram, ao que tudo indica, apenas raros lampejos de lucidez na mente de um homem que, no restante do tempo, seguia as consequências dos pressupostos básicos de sua cosmovisão. As intuições de Clarke sobre a profundidade da depravação do coração humano jamais resultaram em um diagnóstico que lhes fizesse justiça. Com isso, sua cosmovisão não pôde deixar de tomar o caminho natural em direção ao otimismo, embora acrescido de todas as qualificações já citadas.

Isso é ilustrado pelos comentários de Clarke acerca do fim das ditaduras por meio das informações transmitidas via satélite: “Alguns países proibiram as antenas parabólicas particulares, outros têm experimentado o bloqueio da internet, mas no longo prazo as pessoas descobrirão modos engenhosos de contornar esses controles”[10]. O fato interessante revelado aqui é que Clarke tinha mais confiança na inventividade das pessoas “boas” que querem o fim das ditaduras que na dos ditadores que desejam perpetuá-las. Na prática, Clarke via na inovação tecnológica um maior potencial para o bem do que para o mal. Isso se verifica com especial clareza se 3001 for comparado com o Admirável mundo novo de Aldous Huxley[11], também uma ficção científica futurista, mas com um prognóstico bem mais aterrador sobre os usos possíveis da ciência e da técnica, especialmente como meios de manipulação de massas. Huxley tinha uma sensibilidade muito mais penetrante e consistente para a maldade humana, ao passo que Clarke pode, por contraste, ser considerado um otimista ingênuo. Sobre seu otimismo, aliás, ele mesmo declarou:

Tenho frequentemente descrito a mim mesmo como um otimista. Eu costumava acreditar que a raça humana tinha 51% de chance de sobreviver. Depois do fim da Guerra Fria, revisei essa estimativa para algo entre 60% e 70%. Tenho muita fé no otimismo como uma filosofia, mesmo que seja apenas porque ele nos oferece a oportunidade da profecia autorrealizável.[12]

Tais palavras revelam que o otimismo de Clarke é em parte real, mas em parte é motivado pela convicção bastante pragmática de que não há outro meio de melhorar a situação. Clarke não cria em um determinismo histórico que faz com que tudo melhore automaticamente. Mas sua esperança no triunfo final da humanidade se reflete em uma interessante passagem de 3001 na qual Poole constata, ao comparar as pessoas que o cercam às do século XXI, um notável aprimoramento moral da natureza humana ao longo desses mil anos, o qual é atribuído à melhoria da qualidade da educação e à contenção dos desajustados – causas que, por sua vez, são ambas devidas ao progresso da tecnologia (p. 217). O materialismo de Clarke não lhe permitiu escapar à visão do homem como produto do meio.

Em um futuro muito distante, Clarke cria que nossos descendentes poderiam ser “como deuses, porque nenhum deus imaginado por nossas mentes jamais possuiu os poderes que eles comandarão”[13]. Clarke julgava possível (e plausível) que a humanidade pudesse um dia, à semelhança dos Primogênitos, superar os perigos internos e externos às quais tem estado vulnerável desde sua origem. Só então ela poderá dizer: “Tragada foi a morte pela vitória” (1 Coríntios 15.54); mas essa vitória, ao contrário da declarada na Bíblia, seria obtida unicamente pelo esforço humano.


[1] ROBINSON, Tasha. Arthur C. Clarke Interview. Chicago, 2004. Disponível aqui. Acesso em: 28 de junho de 2012.
[2] KOVSKY, Steve. Understanding Tech and Terror. San Francisco, 2001. Disponível aqui. Acesso em: 22 de junho de 2012.
[3] COKER III, John L. A Visit with Arthur C. Clarke. Oakland, 1999. Disponível aqui. Acesso em: 14 de junho de 2012.
[4] SPIKE MAGAZINE. Arthur C. Clarke: 3001: The Final Odyssey. Brighton, 1998. Disponível aqui. Acesso em: 12 de junho de 2012.
[5] KOVSKY, Steve. Understanding Tech and Terror. San Francisco, 2001. Disponível aqui. Acesso em: 22 de junho de 2012.
[6] COKER III, John L. A Visit with Arthur C. Clarke. Oakland, 1999. Disponível aqui. Acesso em: 14 de junho de 2012.
[7] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
[8] CHERRY, Matt. God, Science, and Delusion: a Chat with Arthur Clarke. Ahmerst, 1999. Disponível aqui. Acesso em: 13 de junho de 2012.
[9] “The toil of all that be / Helps not the primal fault; / It rains into the sea, / And still the sea is salt.”
[10] GUNAWARDENE, Nalaka. Humanity Will Survive Information Deluge – Sir Arthur C. Clarke. Nova Délhi, 2003. Disponível aqui. Acesso em: 27 de junho de 2012.
[11] HUXLEY, Aldous Leonard. Admirável mundo novo. Rio de Janeiro, Dinal, 1971.
[12] GUNAWARDENE, Nalaka. Humanity Will Survive Information Deluge – Sir Arthur C. Clarke. Nova Délhi, 2003. Disponível aqui. Acesso em: 27 de junho de 2012.
[13] HOUSTON, Frank. Salon People: Arthur C. Clarke. San Francisco, 2000. Disponível aqui. Acesso em: 15 de junho de 2012.