2 de novembro de 2007

Visita a um velho conhecido

Não creio que seja um grande exagero dizer que minha vida intelectual começou quando decidi analisar mais detidamente os argumentos de cada uma das partes envolvidas no infindável debate sobre evolução e criação. Acredito que foi muito bom para mim ter começado por aí, já que a própria complexidade das questões e multiplicidade das disciplinas envolvidas não só abriu as portas para o interesse e posterior aprofundamento em cada uma delas (a compreensão adequada do desenrolar desse debate envolve não apenas as ciências naturais em geral, mas também filosofia, teologia, epistemologia, história e até, como hoje percebo, política), mas também me abriu os olhos para certos preceitos de validade muito mais geral, como não se contentar com uma análise superficial do que quer que seja e não confiar na mera autoridade acadêmica de ninguém. Esse é um assunto que me atrai ainda hoje, embora a própria ampliação do meu campo de interesses impeça que eu lhe dedique a mesma atenção que dedicava há cinco ou seis anos. Se não tenho falado muito sobre esse tema neste blog, é apenas porque, como alguns leitores hão de se lembrar, meu primeiro texto vinculado ao assunto rendeu uma discussão enorme numa comunidade do orkut. Ali, meu amigo André Luiz me defendeu contra um certo Gustavo, cujas duras críticas, conquanto não tenham me convencido de que eu estava errado, mereciam, contudo, uma análise cuidadosa que ainda não tive tempo de fazer. E não me sinto muito à vontade em prosseguir falando sobre o assunto como se nada tivesse acontecido. Ao mesmo tempo, porém, sinto imenso desejo de falar sobre o assunto.

A solução que encontrei para esse impasse, e que resultou no texto de hoje, é abordar o assunto apenas indiretamente, de um ponto de vista inteiramente acidental e secundário. Quando comecei a ler debates sobre evolução na internet, o primeiro conjunto de textos anticriacionistas com que me deparei foi o do site Darwin Magazine, textos esses que são, na verdade, traduções do site Creation "science" debunked ("A 'ciência' da criação desmascarada"). O autor é Lenny Flank, um sujeito cujas credenciais acadêmicas no assunto não são superiores às minhas. Nenhum dos vários textos escritos por ele me impressionou tanto quanto um chamado O argumento do design inteligente pode ser considerado científico?, no qual o autor imputa ao design inteligente a acusação de ser apenas um criacionismo disfarçado e, portanto, tão cientificamente ridículo quanto qualquer criacionismo. A prova de que esse texto me impressionou sobremaneira é que escrevi, mais de três anos atrás, um comentário extenso sobre o artigo em questão, sem qualquer intenção de publicá-lo. Esse comentário foi tão detalhado que tudo o que preciso fazer agora é adaptá-lo, reduzindo-o a cerca de um terço de seu tamanho original. Conseqüentemente, o texto que agora publico é bem menos pretensioso que o original: não me proponho a demonstrar que muitas das afirmações científicas feitas nele são puerilmente falsas (por razões que mencionei em parte no post Mitologia bioquímica), nem que criacionismo e design inteligente não são a mesma coisa (expliquei a diferença em A trindade na diversidade), nem vou insistir em que as objeções ao caráter científico deste último são ridículas (expus no texto Terceira colheita uma das minhas razões para pensar assim). Isso basta para tornar desnecessárias refutações mais detalhadas a metade do texto de Flank. Assim, este post será, digamos, o mais longo argumentum ad hominem que já escrevi, e nada mais que isso. Pretendo apenas demonstrar que Lenny Flank, por ignorância, safadeza ou ambas as coisas, não é digno de ser levado a sério. Naturalmente, isso não compromete a causa evolucionista enquanto tal, pois ela pode ser (e tem sido) defendida por pessoas muito mais competentes que ele.

O autor comete alguns erros bobos que mencionarei apenas de passagem. Ele diz, por exemplo, que os criacionistas ilustram a afirmação de que o surgimento da vida por processos naturais é demasiado improvável "apontando que as possibilidades da formação de uma cadeia de DNA através de um mero acaso são as mesmas de um tornado passar por um ferro-velho e formar um Boeing 747 completamente funcional". Mas essa comparação, embora freqüentemente citada por cientistas criacionistas, é de autoria do astrônomo Fred Hoyle, cujas simpatias pelo criacionismo eram absolutamente nulas. Flank afirma também que eventos improváveis ocorrem o tempo todo, de forma que nada permite inferir que algo além do acaso está em jogo, por mais improvável que seja o evento presenciado. Dois dos exemplos com que ele ilustra isso patenteiam sua ignorância dos conceitos estatísticos mais elementares. Um deles é a quantidade de americanos atingidos anualmente por raios, um evento que ele considera muito improvável, sem contudo apresentar qualquer estimativa de quantos casos deveríamos esperar. O outro exemplo envolve cartas de baralho, e nele, diga-se de passagem, as combinações possíveis são apenas 10679, um número muito menor que os envolvidos nos cálculos sobre a origem da vida. O próprio Hoyle, que citei acima, é autor de uma estimativa segundo a qual a probabilidade do surgimento espontâneo da vida nas condições propostas pela teoria tradicional seria de um em 1040000. Embora seja uma estimativa tremendamente otimista (e digo isso sem ironia alguma), ela vale como ilustração. Essa probabilidade é semelhante à de alguém acertar casualmente os resultados de 51404 lançamentos consecutivos de um dado comum, de seis lados. Qualquer ser humano normal teria plena certeza de que o acaso é uma explicação insuficiente se visse alguém acertando tudo isso. Apenas Lenny Flank, coerentemente com seus princípios, coçaria a cabeça e pensaria com seus botões: "Essa é a maior coincidência que já vi!"

Depois de demonstrar sua total ignorância acerca do estado atual da discussão sobre a teoria abiogênica em seus aspectos teóricos e experimentais, para não dizer de conceitos fundamentais de química, Flank chega ao ponto principal do artigo, que é a crítica ao famoso livro A caixa preta de Darwin, do bioquímico americano Michael Behe, adepto do design inteligente. O livro defende que o postulado central da teoria darwiniana ou neodarwiniana, a da evolução gradual pelo acúmulo de alterações minúsculas, não dá conta de explicar o quase inimaginável grau de sofisticação de muitos sistemas bioquímicos, os quais, requerendo a presença simultânea de todos os seus elementos constituintes, não poderiam ser produzidos gradualmente. Sistemas que apresentam essa propriedade são denominados "irredutivelmente complexos", e esse conceito é didaticamente ilustrado no livro por uma ratoeira. Os leitores de Flank que nada sabem sobre Behe são levados a ver neste um fundamentalista fanático e ignorante, e jamais suspeitarão que ele, como católico romano, não tem, nem jamais teve, objeção teológica alguma à evolução, nem que foi por muito tempo um darwinista, convertido afinal ao design inteligente por considerações estritamente científicas, nem que ainda acredita, por exemplo, na ancestralidade comum de todos os seres vivos. Mas deixemos de lado essa péssima caracterização do autor e voltemos ao argumento. Em resposta a ele, Flank declara:

"O argumento de Behe não é realmente novo, é meramente uma reafirmação de um argumento feito há mais de cem anos pelo religioso britânico Paley. Paley argumentava que, se nós encontrarmos um relógio no campo, devemos concluir (pela perfeição de suas funções e pelo intrincado de suas estruturas) que o relógio mencionado foi deliberadamente construído por um projetista. Da mesma forma, afirmava Paley, quando olhamos para o intrincado e para a perfeição do mundo biológico, não nos resta mais nada a não ser concluir, como com o relógio, que ele também é o produto de um projetista, este projetista sobrenatural a quem chamamos Deus."

Porém, mesmo uma leitura superficial do livro de Behe mostra que a alegação de que não há nada de novo em seu argumento é bastante injusta. Behe trata de estabelecer muito claramente a diferença entre seu argumento e o de William Paley:

"No [livro] Natural Theology, Paley indica exemplos biológicos que, afirma, são sistemas de componentes interatuantes, como um relógio, e que, portanto, indicam a presença de um planejador. Os exemplos de Paley mostram de tudo um pouco, variando do realmente impressionante ao apenas interessante e bastante tolo, de sistemas mecânicos a instintos e a meras formas. Quase nenhum de seus exemplos foi especificamente refutado com a demonstração de que as características poderiam ter surgido sem um planejador, mas, uma vez que em muitos deles Paley não utiliza princípio algum que impediria o desenvolvimento em pequenos passos, tem sido suposto desde os dias de Darwin que esse desenvolvimento gradual é possível."

Para Behe, a evidência do design não está, ao contrário do que consta na descrição de Flank, no intrincado, na perfeição ou na beleza de determinados mecanismos bioquímicos. Para que o design possa ser legitimamente inferido não basta constatar que um sistema é muito complexo ou perfeito, uma vez que tais conceitos são vagos e subjetivos. Behe procurou aproveitar apenas a parcela objetiva do argumento de Paley, identificando-a ao seu conceito de complexidade irredutível. Segundo ele, a idéia do planejamento inteligente é "uma idéia simples, fecunda, óbvia, que foi desviada do seu caminho pela concorrência e contaminação de idéias estranhas. Desde o início, o principal concorrente de uma rigorosa hipótese de planejamento foi a sensação confusa de que, se alguma coisa se ajusta à nossa idéia de como as coisas devem ser, então isso é prova de planejamento".

Feitos todos esses esclarecimentos, torna-se notoriamente absurda a declaração de Flank de que "o problema, tanto com o argumento da 'complexidade irredutível', como com o 'argumento do design', é que nenhum dos dois tem algo científico a dizer, e ambos estão baseados somente em pressupostos religiosos". Tudo o que Flank fez foi associar o argumento de Behe ao de Paley, e depois criticar este último, como se ambos fossem idênticos. O próprio Behe já declarara, em entrevista, que seus críticos "tentam condenar o livro através do processo de associação. Eles também não vêem que há uma distinção entre chegar a uma conclusão simplesmente pela observação do mundo físico, como é suposto que um cientista faça, e chegar a uma conclusão baseada nas Escrituras ou em convicções religiosas". Behe estava se referindo a críticos mais dignos de sua atenção, sem dúvida, mas o comentário descreve muito bem a crítica em questão.

Flank extrai ainda de sua própria ignorância a conclusão de que o livro não apresenta nenhuma declaração cientificamente verificável. Mas o que Behe fez foi justamente estabelecer um critério que diz se um mecanismo pode ou não ser formado através de pequenas e sucessivas modificações. E mesmo a maioria de seus críticos qualificados reconhece implicitamente que é um critério válido. A idéia de que um sistema irredutivelmente complexo não pode evoluir gradualmente não tem sido seriamente questionada, pois essa característica é inerente à própria definição do conceito. A questão realmente importante é se existem, nos organismos vivos, sistemas desse tipo. Behe examinou vários sistemas bioquímicos reais e forneceu boas razões para pensarmos que sim. Mas essa idéia é, em princípio, fácil de ser refutada: basta que alguém demonstre como tais sistemas poderiam ter evoluído no estilo darwiniano.

Lenny Flank, porém, toma outro caminho, cometendo nele os mais infantis de todos os seus erros. Primeiro, propondo-se a mostrar que a ratoeira não é irredutivelmente complexa (o que é irrelevante, já que ela serve apenas como ilustração, e o livro não é sobre ratoeiras), ele parte de um sistema muito simplificado, no qual o dono da casa simplesmente coloca uma isca no chão e acerta o rato com o martelo. Flank só não percebeu que, não podendo o martelo acertar o rato por conta própria, segue-se que o dono da casa é parte imprescindível da ratoeira, o que torna a versão inicial da mesma muito mais complexa que a final. Em seguida, Flank sugere que a solução para o impasse reside no conceito de exaptação, pelo qual um sistema complexo se forma aproveitando elementos que inicialmente se destinavam a outros fins e faziam parte de outros sistemas. O articulista chega a sugerir que, se Behe conhecesse tal idéia, não teria aparecido com essa tal complexidade irredutível. Behe, no entanto, menciona explicitamente essa possibilidade: "Uma das partes da ratoeira poderia ter sido usada para algum outro fim que não pegar ratos, o mesmo tendo acontecido com os outros elementos. Em alguma ocasião, várias partes que estavam sendo usadas para outras finalidades reuniram-se, de repente, para produzir uma ratoeira funcional." Behe gasta os seis parágrafos seguintes argumentando contra a validade dessa hipótese, que ele julga incapaz de fazer justiça às especificidades dos sistemas bioquímicos que discute. Não entrarei nesses detalhes. Mas esse episódio demonstra que Flank não leu o livro, ou mentiu deliberadamente aos seus leitores na esperança de que não o tenham lido, ou não entendeu o que leu. Qualquer que seja o caso, ele não tinha nenhum direito de escrever um artigo a respeito.

Depois de rotular o design inteligente como "argumento da ignorância" e acusá-lo de recorrer a um "Deus das lacunas", imputações tão ridículas que tornariam possível dedicar um post exclusivamente a elas, Flank encerra seu amontoado de bobagens apontando que, para terem a pretensão de dizer algo cientificamente válido, os defensores do design inteligente deveriam declarar com precisão "qual seria a aparência de uma biomolécula não projetada". Para sua sorte, ele jamais chegou a perceber, ao que parece, que essas pessoas questionam justamente a possibilidade da existência de tais moléculas; tal constatação o colocaria na desagradável situação de ter de demonstrar essa possibilidade, o que, como fica claro ao longo de todo o texto, seria uma tarefa árdua demais para ele.

2 comentários:

Scheissmann disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Scheissmann disse...

nao fui a fundo neste assunto quanto eu gostaria, ainda nao vejo razões para acreditar no design inteligente pois me parece pouco científico, já que é muito comodo pensar que um ente superior, seja ele qual for, tenha facilitado o surgimento de tais moléculas complexas necessárias à vida. Fico imaginando se a produção de tais moléculas não foi facilitada por algum agente catalitico. Fazendo analogia à química orgânica dos polímeros, já que isto é possível pois também lida com macromoléculas complexas, se durante a síntese não se utiliza catalisadores adequados obtém-se uma resina de baixo interesse tecnológico, ou não se obtém resina alguma. Poderia me extender mais nesta analogia, mas perderia o foco; se você quiser posso explicar melhor em um outro post.