14 de maio de 2012

Prolegômenos a toda encrenca futura - parte 1

Ao discorrer sobre o poder civil e sua relação com a religião no último capítulo das Institutas, Calvino precisou lidar com a seguinte questão: visto que já existiram no mundo uma nação, um Estado e um corpo de leis constituídos pelo próprio Deus (a saber, o Israel do Antigo Testamento), e visto que o Novo Testamento (em especial a Epístola aos Hebreus) ensina o caráter provisório dos pactos anteriores, como saber o que é permanente e o que é transitório na antiga dispensação? Para responder a essa pergunta, Calvino se apossou de uma ideia já existente, segundo a qual a antiga Lei se divide em três partes: lei moral, lei cerimonial e lei civil. Essa distinção se tornou usual no meio teológico reformado, e a visão tradicional tem sido a de que apenas a lei moral continua de pé, de modo que os Estados estavam desobrigados de impor - e os governados, de seguir - os aspectos cerimoniais e civis da Lei do Antigo Testamento. No século XX, porém, alguns teólogos calvinistas passaram a advogar uma ideia a que deram o nome de "teonomia" (ou "teonomismo", que usarei como sinônimo neste texto), segundo a qual apenas a lei cerimonial foi abolida, permanecendo de pé não só a lei moral, mas também a lei civil do antigo Israel. É fácil perceber que, em decorrência disso, os teonomistas possuem uma visão diferente sobre o papel do Estado, as melhores práticas jurídicas e assuntos ligados a esses.

Vários irmãos reformados, tanto entre os favoráveis quanto entre os contrários à teonomia, talvez por perceberem que tenho algum conhecimento sobre política, já me incentivaram a escrever uma avaliação dessa ideia. Sempre me recusei a fazê-lo, e continuo me recusando, com base em um senso apropriado do tamanho de minha ignorância. Tenho razões para crer que boa parte de meus incentivadores superestima meus conhecimentos teológicos, políticos ou ambos. Por isso, convém esclarecer que não li nenhum livro que trate do assunto, exceto por alguns que o fazem de passagem, e sequer li artigos ou postagens que defendessem com razoável solidez alguma posição acerca do tema. Tudo o que sei a respeito provém de conversas informais, discussões virtuais (que apenas testemunhei em silêncio) e fragmentos colhidos em textos cujos temas principais, de algum modo mais ou menos incidental, tocaram nessa questão. É claro que isso não me impede de ter uma opinião preliminar, por assim dizer, mas me impede de dizer o que quer que seja com alguma autoridade.

Além dessa razão, que é de ordem racional, tenho outra, de ordem emocional, para não querer tomar parte em um debate sobre o tema: a constatação, levada a efeito em diversas oportunidades, de que o assunto tem um potencial enorme para gerar animosidades. Isso é bastante compreensível: se divergências políticas e teológicas já causam brigas com facilidade quando mantidas separadas, o resultado de juntar as duas coisas só pode mesmo ser explosivo. Desagrada-me especialmente o fato de que julgamentos pessoais são feitos de modo demasiado temerário por ambos os lados: os poucos teonomistas que conheço parecem estar quase sempre na defensiva, por estarem acostumados à acusação de que são legalistas frios e impiedosos, carrascos e partidários de uma inquisição calvinista. Por outro lado, os que se opõem à teonomia são muito facilmente tachados de secularistas, modernistas e rebeldes contra a Lei de Deus. Não nego que possa haver, de ambos os lados, exemplos que justifiquem essas acusações. Porém, quer falemos do ponto de vista intelectual, quer do espiritual, considero apropriado conceder ao interlocutor o benefício da dúvida, sobretudo quando o diálogo se dá entre irmãos em Cristo. Parece-me claro que isso faz parte do amor que nosso Senhor ordenou que tivéssemos uns pelos outros, e arrependo-me das vezes em que agi de modo diferente, embora nunca o tenha feito com relação a esse tema em particular.

Convém ter em mente todo esse preâmbulo a fim de entender a natureza do que vou dizer a partir daqui. Dada a ignorância confessada acima, minha consciência me impede de escrever sobre o assunto com fins polêmicos, e mais ainda com fins judiciais. Entretanto, a despeito dessa ignorância, não posso nem desejo negar que meus conhecimentos e opiniões gerais sobre teologia, política, filosofia, história, religiões comparadas e outros temas pertinentes me levam a assumir, se não uma posição, ao menos uma disposição preliminar acerca do tema. É sobre as raízes dessa disposição que pretendo discorrer aqui. O que farei a seguir não é, pois, uma discussão sobre o teonomismo, e sim apenas prolegômenos a qualquer discussão em que eu venha a me envolver futuramente sobre esse assunto. Isso é pouco, mas creio que é um passo fundamental, e ainda não vi ninguém fazendo algo parecido. É claro que não estou afirmando que ninguém o fez; não se esqueça o leitor de que sou um ignorante. Estou dizendo apenas que preferi escrever meus próprios prolegômenos antes de sair em busca dos alheios. Acho importante tomar consciência das próprias disposições antes de começar a estudar um assunto qualquer, e costumo fazer esse autoexame com certa frequência. A questão da teonomia não tem nada de especial quanto a esse ponto, exceto pelo fato de que resolvi usá-la para, pela primeira vez, tornar público e escrito o resultado do autoexame. Isso deverá me ser útil nos próximos tempos, quando eu começar a ler efetivamente sobre o assunto - o que não pretendo fazer com muito afinco, pois tenho outras prioridades. Além disso, seja para facilitar o trabalho de irmãos que porventura venham a dialogar comigo sobre o tema, seja para me orientar quanto ao que procuro, creio que é importante ter um ponto de partida bem definido e exposto.

Não quero transmitir uma falsa impressão de neutralidade. Se por teonomia entende-se a ideia de que a lei civil do antigo Israel continua tendo valor normativo hoje, eu não sou um teonomista, e guardo contra ela desconfianças algo severas. Apesar disso, considero legítimas algumas das preocupações e intuições de seus partidários, e nem sempre me parece justo o teor das críticas que se lhe fazem por aí. Portanto, estes prolegômenos não podem deixar de incluir tanto predisposições favoráveis quanto contrárias ao teonomismo. Porém, pelo fato de eu não ser um teonomista, estas últimas deverão predominar naturalmente, e por isso acho melhor começar com o que considero positivo nessa ideia.

Muito antes de ouvir falar em teonomia, eu já estava do lado de seus adeptos em sua rejeição do laicismo. Mas o que digo precisa ser entendido de modo adequado: não é que eu considere reprováveis os Estados laicos que existem; apenas não acredito na existência de tais entidades. Na verdade, falando de modo mais amplo, não creio em neutralidade humana em relação a Deus. Na esfera política, isso significa que o Estado, reconhecendo-o ou não, inevitavelmente proclama suas leis com base em alguma visão sobre Deus, o homem e a natureza. A pretensão moderna de um Estado construído sobre a suspensão do juízo acerca de um desses pontos, ou de todos eles, é apenas uma ficção fundada em uma cegueira peculiar à nossa civilização. O "Estado laico" moderno tem uma posição quanto a Deus, e ela se manifesta de modo bastante concreto em todas as instâncias. Além disso, eu defendo a ideia kuyperiana de que o Estado tem sua própria esfera de soberania, para cuja administração recebe autoridade diretamente de Deus. Daí se segue que a afirmação de que "todo o poder emana do povo", que consta no primeiro artigo de nossa Constituição, é, no fim das contas, anticristã, na medida em que enxerga no próprio homem a fonte última de sua legitimidade. Parece-me que o teonomista percebe adequadamente que um Estado que não busca estabelecer sua lei civil a partir do caráter moral de Deus, revelado em sua lei moral, está necessariamente em rebelião contra Deus, quer adote alguma modalidade de secularismo, quer adote leis oriundas de alguma outra religião.

Até onde sei, nenhum teonomista defende a validade permanente do aspecto cerimonial da antiga Lei. E nem poderia, penso eu, já que até uma leitura superficial do Novo Testamento é suficiente para refutar essa ideia. A despeito disso, no entanto, parece-me que o teonomista intui corretamente o fato de que qualquer divisão que façamos na Lei (por exemplo, entre moral, cerimonial e civil), embora possa ser útil para certos propósitos, incorre no risco de artificialidade em alguns de seus efeitos, quando não em seus princípios. A ênfase na unidade da Lei pode trazer outra categoria de riscos, mas tem também a vantagem de chamar nossa atenção para o fato de que a lei civil dada a Moisés não é arbitrária em um sentido relativista ou historicista, pois se fundamenta no caráter de Deus. Sendo assim, as preocupações da teonomia podem, se bem utilizadas, nos incitar à busca de uma compreensão mais profunda da lei civil de Israel e seus princípios subjacentes, bem como dos problemas resultantes das distorções presentes na lei civil vigente hoje em nossa sociedade.

Ainda que não se concorde com as conclusões do teonomista, as questões levantadas por ele são legítimas e chamam a uma reflexão mais séria e profunda sobre o que é permanente e o que é transitório nas disposições legais do Antigo Testamento, e sobre como podemos distinguir uma coisa da outra. Por exemplo, uma vez que se aceite a tradicional divisão tríplice da Lei, não podemos ignorar que o Novo Testamento é, no mínimo, bem menos explícito quanto à lei civil, ao passo que a cessação da aplicabilidade do sistema cerimonial é atestada ali de modo mais abundante. É importante que as razões disso sejam adequadamente compreendidas, seja para aceitar ou rejeitar a teonomia. Nesse ponto, os críticos não devem ser dogmáticos, no mau sentido do termo. Dados os pressupostos aceitos por ambos os lados, não pode haver nada de imoral em exigir, por exemplo, uma fundamentação exegética da capitulação da lei civil de Israel diante do advento de Cristo.

O elemento comum a todos esses aspectos positivos que acabo de listar é o cultivo potencialmente saudável de uma desconfiança mais profunda contra os efeitos da secularização, tanto no próprio Estado quanto na cosmovisão das pessoas em geral, e dos crentes em particular. Trata-se de um esforço consciente de refletir sobre a realidade política e jurídica à luz das Escrituras, como deve ser qualquer empreendimento levado a efeito por cristãos. Aprovo essa iniciativa e as preocupações que lhe subjazem, e acho que, conquanto a boa intenção possa ser desvirtuada, os teonomistas não deveriam, só por serem teonomistas, ser tratados como fanáticos, extremistas, ameaças à saúde pública ou qualquer coisa do gênero.

São esses os aspectos do teonomismo que me parecem positivos, ao menos de modo potencial, e acerca dos quais tenho a expectativa de que os teonomistas tragam contribuições positivas. No próximo post, darei continuidade a estes prolegômenos esboçando algumas de minhas desconfianças a respeito de seu empreendimento.

2 de maio de 2012

O terceiro doce

Nesta manhã de feriado, enquanto dou início a este texto, faz menos de duas horas que recebemos do veterinário a notícia da morte do Chocolate, nosso terceiro gato. Na sexta-feira às 23h, quando chegamos em casa depois de uma viagem de férias que durou dezoito dias, nós o encontramos bastante debilitado. Isso já acontecera antes: em outubro, depois de uma viagem bem mais curta, ele quase morreu, e só voltou para casa depois de uma semana de intensos (e excelentes) cuidados clínicos. Demorou, mas foi se recuperando. Devido a esse histórico, a despeito do cansaço da viagem, nós o levamos imediatamente à mesma clínica, cujo veterinário decidiu interná-lo depois de um breve exame. Desta vez, apesar das precauções que havíamos tomado, e de o gato ter sido muito bem tratado por um amigo nosso, as coisas tomaram outro rumo, e ele não reagiu bem ao tratamento veterinário. É desnecessário dizer que estamos tristes, e que sentiremos muita falta do nosso terceiro doce. Mas não escrevo agora para lamentar, e sim, pelo contrário, para fazer justiça às muitas alegrias que Deus nos deu através dele.

Tudo começou em um sábado de outubro de 2009, quando a Norma e eu ainda éramos apenas namorados. Na época, cantávamos no coral de nossa igreja, em São Carlos, e fomos até lá para um ensaio. Saímos no fim da tarde, pretendendo tomar um sorvete ali perto. Cinquenta metros depois, mudamos de ideia e demos meia-volta em direção ao ponto de ônibus. Foi nesse momento que surgiu na nossa frente aquele siamês marrom e bege, ainda não totalmente crescido. A Norma abaixou para conversar com ele, e o bichano imediatamente correu na direção dela, pulou em seu colo e não saiu mais. Percebi imediatamente que havíamos adotado mais um gato (uso o plural porque, embora obviamente não morássemos juntos, eu sabia desde há muito que iríamos nos casar).

Poucas semanas depois, quando já havíamos nos apaixonado pelo gato, ele desapareceu do apartamento da Norma, apesar das telas nas janelas e de todo o cuidado tomado com a porta. Depois de muito procurar e conjecturar, encontramos um defeito na tela da sala que não havia sido notado antes - nem, felizmente, pelos outros dois gatos. O Chocolate fugiu numa madrugada chuvosa, e sua ausência só foi notada na manhã seguinte. Seguiram-se momentos de aflição, preocupação e empenho; a Norma elaborou dezenas de cartazes e eu os distribuí pelos estabelecimentos comerciais da vizinhança, recebendo o apoio condoído de alguns comerciantes e o desinteresse ou mesmo insensibilidade de outros (que felizmente foram poucos). Gastei também incontáveis horas - algumas vezes com a Norma, outras sozinho - perambulando pela vizinhança em busca dele, especialmente à noite, quando os gatos são mais ativos. Por causa dessa experiência, hoje entendo melhor o drama daquele pastor da parábola da ovelha perdida. Também por causa dela, passei a conhecer todos os siameses da região, quase tive problemas com a polícia (os moradores daquele bairro pacato se assustaram com minhas perambulações na madrugada) e pude constatar que, à noite, de fato, todos os gatos são pardos. Mas nada disso deu resultado, ou pelo menos assim parecia.

Pedi a Norma em casamento na noite de 28 de novembro daquele ano. Quando fui deixá-la em casa, o porteiro nos contou que uma mulher estivera por ali dizendo que achara o Chocolate; ela deixara um número de telefone. Ligamos na manhã seguinte, e a mulher estava a apenas três quarteirões dali. Corremos até lá, e era ele mesmo, vivo e saudável. A casa era um salão de beleza que nunca víramos antes, e algumas clientes que haviam visto os cartazes o reconheceram quando ele apareceu. Levamos o gato embora, muito gratos e pra lá de felizes com o presente de noivado que Deus nos deu. Ele estivera desaparecido por três semanas, e tinha apenas alguns pelos claros no rosto, resultado do sol; mas nunca perdi a oportunidade de dizer que ele havia ido ao salão de beleza para fazer luzes.

De volta ao lar e muito bem tratado, o Chocolate terminou de crescer, engordou e deixou de ser o gato mais quieto e dócil do mundo para se tornar um autêntico pestinha. Na verdade, ele não tinha limites: se empolgava com as brincadeiras a ponto de não perceber que suas mordidas e patadas podiam machucar os outros. E, ao menos em alguns momentos, havia nele certa dose de raiva, como se ele temesse não poder confiar completamente em nós. Foram necessários vários meses de amor e disciplina para que isso desaparecesse, mas nosso esforço se mostrou bastante compensador: o Chocolate se tornou um gato não só razoavelmente obediente, mas também sensível e carinhoso, que se esparramava completamente quando chegava sua hora de receber carinho; e aquela raiva simplesmente sumiu com o tempo.

O Chocolate era um bicho cheio de disposição como nunca vi antes. Em contraste com a gorda lentidão do Mel e o hilário mau humor do Chantilly, ele tinha uma energia e uma alegria inabaláveis. Nada o perturbava. Quando ninguém podia brincar com ele, quando os outros dois o rejeitavam (na verdade, ele nunca chegou a ser aceito pelos gatos mais velhos), quando foi castrado e teve de passar semanas usando aquele cone ridículo e incômodo no pescoço, lá estava ele correndo, saltitando e miando alegremente pela casa, inventando algo com que se divertir. Ele aprendeu do Chantilly a arte de perseguir sombras nas paredes, reviveu o hábito do Mel de pegar nosso pé enfiando as patas pelo vão entre a cama e o chão, e inventou a técnica de nos chamar para brincar fazendo emboscadas no corredor, escondendo-se para nos "atacar" quando passávamos. Também inesquecíveis são seu hábito de "mamar" em qualquer roupa que estivéssemos usando e de demonstrar carinho esfregando a cabeça em nosso pé - na verdade, praticamente lustrando o sapato com a cabeça -, em vez de apenas esfregar o corpo na nossa canela, como os outros gatos fazem.

Depois que a Norma e eu nos casamos, os gatos foram conosco para Salvador, onde creio que ele viveu a parte mais feliz de sua vida, alcançando o auge tanto do carinho quanto da sapequice. Foi ali que, num período especialmente difícil para nós, ele geralmente me fazia companhia enquanto eu estudava as papeladas do trabalho e tentava cuidar da Norma e do nosso bebê. A foto abaixo foi tirada pela Norma em uma das ocasiões em que o cansaço prevaleceu e eu dormi abraçado aos papéis. Nada explica de modo mais eloquente a solidariedade felina que recebi nesse período.


Apenas dois meses depois de nossa mudança para o Ceará, o Chocolate teve a crise a que me referi no início do post. Por isso, e talvez em parte também pelo amadurecimento natural, uma parcela de sua energia se foi para sempre, embora ele nunca tenha deixado de ser um gato alegre. Ele passou a interagir menos com os outros dois, e passamos a lhe dedicar mais atenção, dando-lhe inclusive um momento de exclusividade todas as noites. Ele apreendeu o novo padrão bem depressa, e passou a vir pontualmente à nossa cama - ou ao banheiro, enquanto escovávamos os dentes - para cobrar sua sessão de carinho, que sempre terminava contra a sua vontade e, às vezes, sob intensos protestos.

A descrição dessa rotina é necessária para que se entenda o que vou contar agora sobre a última vez em que fizemos isso. Na noite do dia 8, domingo de Páscoa, véspera de nossa viagem, fui subitamente acometido de uma febre que chegou aos 39,3ºC. Fiquei deitado e imóvel, mas sem conseguir dormir, enquanto a Norma arrumava sozinha nossas malas. Em algum momento, ela notou que o Chocolate se postara à porta do quarto e a fitava com um olhar claramente interrogativo, em vez de simplesmente vir correndo e pular sobre a cama, como geralmente fazia. Decidimos deixá-lo vir até mim, e a Norma o colocou ao meu lado. Para nossa surpresa, ele não tentou "mamar", como de costume, e sim apenas me cheirou um pouco e se aninhou sobre o meu peito, fazendo uma companhia agradável e imóvel até que chegou a hora de dormir e a Norma o colocou para fora. Pela primeira e última vez, ele não protestou. Não queria de modo algum ser inconveniente.

Apesar da febre, não pude deixar de ficar emocionado com aquilo, e louvei ao Senhor por ele. Nunca me esquecerei do amor e da sensibilidade que ele teve para comigo naquela noite. Mas aquele momento foi, como agora sei, apenas uma despedida à altura dos dois anos e meio que ele passou conosco. Sou grato a Deus por essa pequenina parte de sua criação que cruzou nosso caminho e veio parar em nossa casa. Não sei o que lhe reserva o futuro em um sentido mais objetivo, mas o Chocolate foi muito amado enquanto esteve conosco e permanecerá para sempre como lembrança viva e concreta do amor de Deus por nossa família.

7 de abril de 2012

Oito conversas

Pouco mais de dois meses atrás, meu velho amigo virtual André Luiz, sujeito com quem já aprendi muito, mas com quem havia perdido contato, por minha culpa, há cerca de um ano e meio, me fez uma agradável visita neste blog, deixando comentários em nada menos que oito posts; alguns com perguntas, outros com sugestões e ideias interessantes. Ocupado e enrolado como sou, não tive ainda tempo de lhe mandar uma resposta decente, embora tenha enviado um e-mail dizendo uma coisa ou outra. Na presente postagem, pretendo responder aos seus oito comentários, na ordem em que foram feitos. É claro que as respostas não são exaustivas, mas creio que servirão ao menos como pontapés iniciais de diálogos potencialmente frutíferos.

1. Em O irracional dos racionalismos - parte 5, o André me recomendou a leitura do livro The Wisdom of Ancient Cosmology: Contemporary Science in Light of Tradition [A sabedoria da cosmologia antiga: a ciência contemporânea à luz da Tradição], de Wolfgang Smith, dizendo: "como o autor fala muitas cousas ligadas a tua área de formação, resolvi te perguntar a respecto dele. Se e quando puder, poderias tecer algumas considerações no teu blog ou por e-mail?"

Sou-lhe muito grato pela indicação do livro, que chegou no preciso momento em que estou reunindo uma bibliografia para iniciar um estudo mais aprofundado desse assunto, bem como de outros ligados à ciência moderna e a uma visão cristã da natureza. Já li alguma coisa do autor, inclusive por indicação do próprio André, e achei bem interessante. O mínimo que posso fazer em retribuição é comentar o livro devidamente. Só não sei se estou devidamente qualificado para fazê-lo neste momento de minha vida. Mas, mesmo que demore um pouco, farei isso.

2. Em O terror das nações - parte 1, post em que critiquei a defesa do governo mundial feita por Jean-François Revel no livro Nem Marx, nem Jesus, o André me disse: "Conheces esta proposta contra a Nova Ordem Mundial?" E colocou um link para o artigo A ideia eurasiana, do professor russo Aleksandr Dugin, traduzida para o português pelo próprio André.

Respondendo à pergunta, eu já havia lido esse artigo, bem como outras coisas escritas por Dugin, bem como de admiradores e críticos. Não é muito, mas dá para ter uma ideia geral. Devo dizer que não simpatizo com a proposta política de Dugin, e tampouco concordo com sua descrição da realidade. Ao mesmo tempo, considero pouco frutífero discuti-la no plano puramente geopolítico. Parece-me que o sistema de pensamento de Dugin tem certo grau de coerência interna, o que significa que seu pensamento político está bem fundamentado em seus pressupostos metafísicos e teológicos ortodoxos e tradicionalistas. A divergência política é apenas uma decorrência lógica dessas divergências em temas mais fundamentais.

3. Em comentário a O futuro do pretérito, post em que tratei do pseudoceticismo de Carl Sagan, o André Luiz me enviou, como "crítica interessante sobre a teoria da evolução", uma citação de Rama Coomaraswamy, autor tradicionalista de quem eu já ouvi falar, mas não sabia que era "geólogo de Harvard e doutor em medicina pela universidade de Nova York". A citação é de fato interessante e, enquanto não descubro de onde saiu, não resisto à tentação de transcrevê-la:

"É extraordinário que tantos cientistas aceitem como fato uma teoria que viola os próprios fundamentos de suas disciplinas. A ciência autêntica nos ensina que o que é maior não pode surgir do que é menor, mas a evolução ensina que o contrário ocorreu repetidamente e ainda está ocorrendo. A ciência nos diz que a Terra está se degenerando (lei da entropia), mas a evolução nos diz que está evoluindo. A ciência diz que nada acontece por acaso. A evolução postula uma série extraordinária de acasos e ignora o fato de que o 'acaso', quando usado neste sentido, nada mais é que a expressão de nossa ignorância sobre as causas envolvidas. A teoria matemática nos diz que a possibilidade de ocorrer um avanço evolucionário é tão remota a ponto de ser impossível (vide Frederick Hoyle), mas a evolução diz que isto aconteceu repetidamente e continua a acontecer. Vemos assim que a evolução não é científica, e tem de ser aceita com 'fé'. Talvez, apesar de tudo, seu lugar próprio seja a teologia..." 

Mas o André transcreveu esse trecho para me fazer uma simples pergunta: "Tu concordas que o 'maior não pode sair do menor'?" Num sentido qualitativo, que é evidentemente o pretendido por Coomaraswamy, estou de acordo, sem dúvida.

4. No post Lições de uma noite, em que fiz transcrições e comentários sobre um sermão natalino de Charles Spurgeon, o André destacou o trecho em que o pregador diz:

"Não há nenhuma probabilidade de que nosso Salvador Jesus Cristo tenha nascido nesse dia, e a observância dele é puramente de origem papal - sem dúvida os que são católicos têm o direito de reivindicá-lo - mas não posso entender como os protestantes consistentes podem tê-lo de alguma maneira como sagrado."

E, sobre esse trecho, levantou as seguintes questões:

"Mas por que Spurgeon afirma com tanta convicção que não há probabilidade de Nosso Senhor ter nascido na data assignalada? E como assim 'de origem papal'? Se fosse de origem papal, porque então nós, ortodoxos, tão contrários ao papismo, a comemoramos na mesma data?"

Quanto à primeira pergunta, tudo o que posso dizer é que existe entre os protestantes (mas não só entre os protestantes) um lugar-comum nesse sentido, baseado, se não me engano, em considerações sobre os supostos hábitos dos pastores de ovelhas da Palestina. Quanto à validade histórica dessas suposições, nada sei, e muito menos se o meio teológico reformado inglês do século XIX tinha acesso a essas informações (ou equívocos). Desse modo, não posso responder a essa pergunta por pura falta de conhecimento, o qual, por sua vez, deriva de minha falta de interesse no assunto. Mas estou ciente de que alguns defendem a historicidade do nascimento de Cristo em 25 de dezembro, entre os quais o historiador católico Vittorio Messori (aqui), que ganhou meu respeito graças a um livro muito bom sobre o "Jesus histórico".

Quanto à outra pergunta, creio que Spurgeon cometeu de fato uma imprecisão histórica. E esta, por sua vez, é reveladora da falta de conhecimento e de atenção que a cristandade ocidental, principalmente protestante, dispensa às igrejas do Oriente. Eu mesmo  sou bastante ignorante quanto à teologia ortodoxa, e esse é um defeito que pretendo começar a corrigir - em parte, talvez, com a ajuda do próprio André. Por outro lado, é certo que as Igrejas Ortodoxas, se comparadas ao catolicismo romano, tiveram influência insignificante na celebração do Natal como dia sagrado pelos ingleses do século XIX, de modo que, dada a natureza do público imediato de Spurgeon, sua generalização se justifica em alguma medida.

5. Na quarta postagem da série O irracional dos racionalismos, o André me dirigiu esta pergunta:

"Dado que a Revelação é dirigida aos homens, por que Cristo Nosso Deus não a tornaria totalmente acessível à mais alta das faculdades humanas, a razão?"

Sobre os problemas a que leva a visão racionalista das Escrituras, creio ter feito um bom resumo na terceira parte da mesma série. Posso acrescentar, contudo, duas observações. A primeira é que na verdade não creio que a razão seja a "mais alta das faculdades humanas", e não estou muito certo de que o próprio André Luiz pensa de fato assim. Eu aprecio aquela velha distinção, que encontrei pela primeira vez em Boécio, entre razão e inteligência, e tendo a pensar naquela como apenas um componente desta, um dos meios de que dispomos para chegar à verdade. A segunda observação, ligada à primeira, é que a razão não é capaz de funcionar bem ao trabalhar sobre assuntos com os quais a inteligência não conviveu o suficiente. Sendo assim, a Escritura, ao revelar realidades que só vivenciamos pela fé (pelo ensino e testemunho do Espírito Santo) e em medida limitada, não pode fazê-las absolutamente claras à razão humana. Aliás, a própria ideia de uma "razão humana" abstratamente isolada das demais faculdades humanas, inclusive espirituais, parece-me absurda.

6. Na segunda parte de Desamparo e entrega, a respeito de um comentário que fiz, de passagem, sobre as diferenças entre os quatro evangelhos, o André perguntou:

"Já ouviste falar sobre o 'evangelho tetramorfo', por meio do qual os Padres da Igreja defendiam que cada um dos evangelistas falava de Cristo sob um dos aspectos do Verbo encarnado presenciados na visão de Ezequiel e na de São João Teólogo, a saber, o Touro, o Homem, a Águia e o Leão? Talvez ajude, d'alguma forma, a elucidar a questão." 

Tenho uma vaga lembrança de um ou outro animal sendo apontado como símbolo de um ou outro evangelho. Mas não sabia que existia uma reflexão teológica mais sistematizada sobre o tema, e tampouco da associação com as visões de Ezequiel. O assunto parece interessante, e procurarei me informar a respeito. Agradeço ao André mais uma vez, e agradecerei mais ainda se surgirem boas indicações bibliográficas.

7. Na segunda parte de A verdadeira inteligência, em que transcrevi uma tradução feita por mim mesmo de um trecho de A consolação da filosofia, de Boécio - sem, contudo, acrescentar-lhe comentário algum -, o André perguntou:

"Em que pontos tu discordas da abordagem de Boécio?"

 Embora eu não tenha divulgado isso neste blog, fiz no outro um breve sumário de considerações, acordos e desacordos com relação ao trecho que traduzi. Escrevi de modo um tanto apressado e rascunhado, e alguns pontos podem ter permanecido obscuros. Mas acho que o referido post pode pelo menos servir como ponto de partida para a compreensão e discussão de minhas opiniões a respeito.

8. Sobre o post Retrato bibliográfico, em que publiquei uma lista dos vinte livros mais importantes da minha vida, o André fez um comentário algo extenso, mas que transcrevo integralmente por ter gostado muito dele:

"Lista pra lá de interessante, confrade, agradeço por fazê-la. Dando alguns pitacos, o libro do Don Richardson capta bem uma questão antropológica bastante 'inquietante' (num sentido positivo do termo). Tu conheces as obras de Mircea Eliade, um dos mais importantes historiadores da religião do úlptimo século? Recomendo vivamente obras como O sagrado e o Profano, Mito e Realidade e História das crenças e das idéias religiosas. De certa maneira, tratam do mesmo tema." 

Faço uma pausa aqui. Conheço, sim, embora superficialmente, a obra de Eliade, que de fato é muito interessante. Li parte de O sagrado e o profano, e creio que já li algo sobre as outras obras citadas. Recentemente vi alguns volumes da História das crenças e das ideias religiosas em uma livraria, e por pouco não os comprei. Pretendo vir a conhecê-lo bem melhor, inclusive porque o próprio André Luiz, embora talvez sem querer, me incentivou a isso há algum tempo. Há pouca semelhança de ideias ou de abordagens entre Eliade e Richardson, mas o assunto me interessa muito de ambos os modos. Agradeço ao André pelas recomendações. Mas ele disse mais:

"Eu gosto do Filosofias da Índia, do Zimmer, é uma boa introdução a vários aspectos do pensamento indiano. Mas há muitas falhas no libro, que é marcado ainda por certos vícios orientalistas e visa defender uma tese historicista sobre a articulação entre as várias idéias e darshanas da Índia. A melhor introdução às tradições desta terra são, segundo entendo, Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindús e O Homem e seu devir segundo o Vedanta, do René Guénon; e os libros Hinduísmo e Budismo e Hindus e Budistas, de Ananda K. Coomaraswamy." 

Eu desconheço detalhes sobre os problemas com os posicionamentos de Zimmer, mas lembro-me de ter notado alguns pontos discutíveis em sua abordagem, talvez por conta da influência junguiana. Se eu o tivesse lido mais tarde na vida, poderia ter me impressionado menos. Mas, tendo sido ele o primeiro a me apresentar de modo mais profundo as religiões indianas, devo-lhe muito, apesar de suas falhas, e é nesse sentido que ele merece um lugar na minha lista. Quanto a Guénon e Coomaraswamy, li alguma coisa de ambos; pouco, mas suficiente para pretender conhecer melhor esses também. Por mais que se discorde deles, são autores de quem se pode aprender muito.

26 de fevereiro de 2012

Empréstimo perpétuo

Faz muito tempo que não escrevo sobre política neste blog e, embora eu não veja nada de ruim nesse silêncio, um dos últimos livros que li me convenceu de que valia a pena fazer um post sobre o assunto. (O livro em questão nos foi emprestado pelo nosso amigo pastor Mauro Meister, que, mui generosamente, não o quis de volta quando tentamos devolvê-lo.) Trata-se de uma obra intitulada The challenge of marxist and neo-marxist ideologies for christian scholarship [O desafio das ideologias marxistas e neomarxistas para a academia cristã], que contém contribuições de onze autores de diversas partes do mundo, organizadas por John C. Vander Stelt, e foi produzido como resultado da Terceira Conferência Internacional de Instituições Reformadas para a Educação Superior, encontro realizado nos EUA (Sioux Center, Iowa) em agosto de 1981. O que há em comum entre todos os autores é apenas o fato de que são cristãos reformados, não se identificam como marxistas e estão, de algum modo, ligados ao movimento neocalvinista. Eu esperava que o livro fornecesse um panorama do pensamento político neocalvinista, e também descobrir em que medida esse movimento ainda se alinha, quanto a esse tema, às posturas conservadoras de Abraham Kuyper. Havia razões para esperar uma decepção nesse sentido, o que de fato se confirmou, mas não de modo tão desinteressante que não mereça uma postagem. No presente texto, tudo o que pretendo fazer é comentar brevemente cada um dos onze "capítulos", ressaltando o que me pareceu mais relevante, para o bem ou para o mal. Depois de dar um retrato do conjunto por essa via algo impressionista, farei uma breve conclusão.

1. The challenge of marxist and neo-marxist ideologies for christian scholarship [O desafio das ideologias marxistas e neomarxistas para a academia cristã], do filósofo holandês Sander Griffioen. O artigo que empresta seu nome ao livro como um todo tem vinte e duas páginas e é o melhor de todos. Com base em uma ampla leitura de autores como Kolakowski, revela uma boa compreensão do inferno totalitário do socialismo real e do modo como este, por força de sua própria lógica interna, leva à corrupção moral dos súditos do sistema. Traz ainda percepções valiosas quanto às raízes iluministas e renascentistas do marxismo, e constata corretamente que essa ideologia é uma cosmovisão integral e internamente consistente, não passível de aprimoramento pela correção de seus pontos falhos - e, por conseguinte, denuncia as diversas formas de neomarxismo (Escola de Frankfurt, gramscismo, teologia da libertação etc.) como tentativas artificiais de conciliar coisas inconciliáveis. Resta no autor, porém, certo respeito por Marx como intelectual e uma dificuldade de enxergar no pai da porcaria toda os defeitos exacerbados por seus filhos, bem como uma confiança bastante ingênua no compromisso democrático dos comunistas ocidentais.

2. Human freedom and social justice: a christian response to the marxist challenge [Liberdade humana e justiça social: uma resposta cristã ao desafio marxista], do cientista político americano James W. Skillen. Em uma tentativa de lidar com as críticas feitas ao cristianismo por intelectuais marxistas, sobretudo Ernst Bloch, esse artigo de trinta e uma páginas traz considerações muito pertinentes sobre a visão bíblica do trabalho, especialmente a partir do Sabbath, do jubileu e de suas conexões com o Reino de Cristo. O autor promove ainda um interessante confronto de ideias entre Marx, Locke e Agostinho, na qual sobram críticas a todos os lados. Seu maior defeito é aquela velha visão preconceituosa contra o conservadorismo e a demonização daquela entidade obscura denominada "capitalismo".

3. Human freedom and social justice (a case study: Poland) [Liberdade humana e justiça social (um estudo de caso: Polônia)], da historiadora americana Alice-Catherine Carls. Em trinta e duas páginas, a autora nos traz um resumo muito interessante da história das lutas contra o totalitarismo comunista na Polônia, ressaltando a imoralidade essencial do Estado polonês, não menos nas concessões que nas perseguições. O artigo analisa as ações das principais forças engajadas nessa luta: a Igreja Católica (liderada em grande parte por João Paulo II, antes e depois de sua ascensão ao papado), os movimentos populares (com a liderança, entre outros, de Lech Walesa, na sua fase posterior) e os intelectuais ex-marxistas ou marxistas incoerentemente democráticos (como Kolakowski). Contudo, essa incoerência não é notada pela autora, e os únicos opositores do regime tratados com desprezo são, como de costume, os conservadores. Não obstante, o artigo é muito valioso como fonte histórica, e não é nada condescendente com o caráter perverso do regime polonês e sua dependência do imperialismo soviético.

4. Liberation theology [Teologia da libertação], do teólogo equatoriano (então na Argentina) Carlos René Padilla (sim, o próprio). Em apenas dezoito páginas, Padilla faz um bom resumo dos pontos essenciais da teologia da libertação - ou, dizendo de modo mais preciso, dos pontos comuns às várias teologias da libertação disponíveis. A julgar por esse resumo, trata-se de um dos piores desserviços prestados por nosso subcontinente à história das ideias. Em seguida, o autor tece algumas críticas a essa teologia. As críticas são precisas, pertinentes e tocam em vários dos pontos fundamentais do problema. Contudo, Padilla não as faz sem gastar um espaço equivalente em considerações bastante bajulatórias sobre a pureza e a grandiosidade das intenções dos criticados, e do quanto é importante que haja pessoas tão boas assim se opondo aos famigerados conservadores. Uma piada.

5. Liberation theology (a case study: USA) [Teologia da libertação (um estudo de caso: EUA)], do pastor americano John Perkins. O autor é um adepto declarado da teologia da libertação, e começa anunciando sua pretensão de "responder" às críticas de Padilla, a quem afirma dedicar grande admiração. Contudo, não há resposta alguma, e tampouco há qualquer conteúdo intelectual identificável no texto. Perkins é um pastor negro envolvido com a tal "teologia negra", e o "estudo de caso" que ele apresenta é, em grande parte, o de sua própria história pregressa, contando de sua origem humilde e de como foi explorado por patrões brancos e ricos. Visivelmente não há um pingo de vocação intelectual nesse homem e, quanto a esse aspecto, ele está para seu predecessor assim como Lula está para Marilena Chauí. O texto tem sete páginas, das quais um total de duas linhas é dedicado à crítica do comunismo e quase todo o restante à crítica do capitalismo. É o pior artigo do livro, e o mais ostensivamente esquerdista de todos - e, não por acaso, seu autor é o único que tem o apoio oficial da Fundação Ford, o que, para quem pensa, já bastaria para desmentir sua tese fundamental de que a teologia conservadora é que está do lado dos ricos.

6. Christian belief, marxism and rich and poor countries [Crença cristã, marxismo e países ricos e pobres], do economista holandês (então na Argentina) Roelf L. Haan. Quase todas as trinta e oito páginas desse texto são dedicadas a uma crítica do "capitalismo" - em cuja conta são lançadas todas as ditaduras militares da América Latina, bem como o nazismo e os fascismos europeus. Nazismo, fascismo, liberalismo e conservadorismo são todos reunidos sob o termo "capitalismo", de modo a criar-se uma unidade inexistente por meio de um artifício verbal. Contudo, a maior parte da crítica se dá pelo viés econômico e é dirigida sobretudo à teoria econômica (neo)liberal, de cujas ideias o autor traz uma versão ridiculamente caricatural, semelhante à que muitos católicos e esquerdistas fazem do pensamento econômico de Calvino a partir de uma leitura equivocada de Weber. Também são feitas várias tentativas risíveis de apresentar os conservadores como adeptos idiotas de teorias conspiratórias mais idiotas ainda. E, em vários pontos, o autor apela, de modo passageiro e mal explicado (ou não explicado), a conceitos extraídos de Dooyeweerd, Goudzwaard e até Kuyper para dar ares de neocalvinismo à sua crítica. O termo "totalitarismo" é usado uma porção de vezes para descrever o capitalismo, e nenhuma para descrever o comunismo. Embora, é claro, alguma coisa sempre se aproveite, trata-se de uma obra-prima de charlatanismo intelectual, que constitui um complemento adequado ao charlatanismo antiintelectual de seu predecessor americano.

7. Function and role of the State (with special reference to its relation to the church and educational institutions) [Função e papel do Estado (com referência especial à sua relação com a igreja e as instituições educacionais)], do jurista sul-africano Lourens M. du Plessis. Nesse texto de trinta e oito páginas, o autor analisa alguns posicionamentos da Escola de Frankfurt, em especial de Max Horkheimer e Jürgen Habermas, sem deixar de incluir uma exposição inicial dos pensamentos do próprio Marx. Quanto a esse ponto, cabe ao autor o mérito de ser o único no livro todo a ressaltar que o ódio marxiano a toda autoridade (inclusive ao Estado), herdado dos anarquistas, converte-se, mui contraditoriamente, no estabelecimento do Estado como única instituição legítima e digna da lealdade do cidadão, sendo todas as outras (incluindo-se aí a igreja) apenas toleráveis, na melhor das hipóteses. A análise do neomarxismo também é deveras interessante, retratando essa vertente como inimiga do "capitalismo" e, ao mesmo tempo, profundamente desiludida com as possibilidades do comunismo, o que resulta em uma visão pessimista só superada por uma esperança irracional, bem ao estilo do "salto" schaefferiano. Apesar de sua atitude algo condescendente quanto a vários dos erros apontados, cabe ao autor o mérito de fazer algumas das declarações mais ousadamente sensatas de todo o livro - inclusive a de condenar a adesão do cristão, não só ao comunismo, mas a qualquer movimento revolucionário.

8. Function and role of the State: the place of religion and education (a case study: China) [Função e papel do Estado: o lugar da religião e da educação (um estudo de caso: China)], do teólogo e missionário chinês (então em Hong Kong) Jonathan Chao. Em vinte e três páginas, o autor traz uma excelente descrição do funcionamento profundamente antidemocrático do Estado chinês, em sua relação com o Partido Comunista e as Forças Armadas, bem como o modo de funcionamento das disputas politicas internas entre as diversas facções comunistas. Descreve também, com muito realismo, a cooptação das instituições religiosas em geral pela burocracia governamental para seus próprios fins políticos e a falta de liberdade religiosa dominante no país e na mentalidade de seus governantes, mesmo dos defensores da linha mais "tolerante" com relação ao tema, que ascendeu ao poder após a morte de Mao.

9. Marxism and education: a survey report [Marxismo e educação: um relatório de pesquisa], do teólogo Klaus Bockmuehl, professor no Canadá. Esse artigo de trinta e cinco páginas trata do conceito marxista de educação, apenas embrionário na obra do próprio Marx, mas desenvolvido de modos diversos pelos educadores comunistas do século XX. Achei o artigo um tanto acrítico e focado demais na teoria educacional marxista, e não em sua prática. Não obstante, o texto é interessante por documentar a centralidade da educação no marxismo, entendida como empenho consciente na produção de um novo tipo de homem, numa visão que tem muito de "religiosa" (assim, entre aspas, e no sentido pejorativo). Além disso, como curiosidade, achei interessante descobrir que Marx e seus sucessores nos regimes comunistas apoiavam o trabalho infantil como meio de educação - coisa que, nos países "capitalistas", seria prontamente denunciado pelos próprios marxistas como pretexto ideológico para uma cruel exploração por parte da burguesia.

10. Marxism and education (some observations) [Marxismo e educação (algumas observações)], do cientista político holandês (então no Canadá) Bernard Zylstra. Em apenas seis páginas, o autor traz considerações perspicazes sobre as raízes humanistas do marxismo e sobre seu caráter de "versão imanente" da teologia cristã (que costumo chamar de parasitismo). Seu principal mérito está em enfatizar que, ao contrário do que condescendentemente asseveraram vários dos articulistas anteriores, o problema de Marx com a religião se deve pura e simplesmente ao seu apego ao materialismo, e não aos defeitos, reais ou imaginários, das instituições eclesiásticas. O grande demérito do autor é desconhecer (ou ao menos desconsiderar, quando deveria ter considerado) o conservadorismo enquanto candidato a solução autenticamente cristã à luta de monstros entre marxistas e liberais.

11. The marxist challenge to christians in education [O desafio marxista aos cristãos na educação], do filósofo holandês (então no Canadá) Hendrik Hart. Em apenas sete páginas, o autor busca sintetizar o que foi aprendido com todos os articulistas anteriores. Por isso mesmo, não acrescenta quase nada. Fala sobre a importância de os eruditos cristãos não se submeterem a nenhuma cosmovisão mundana (colocando, implicitamente, o marxismo e o "capitalismo" no mesmo nível) e depois resolve mostrar, mediante exemplos, o perigo de se fazer isso. Mas, como só escolhe exemplos da América do Norte, suas críticas acabam caindo exclusivamente sobre os "capitalistas". O tom geral do artigo traz, pois, uma defesa deveras parcial (em todos os sentidos) da importância da imparcialidade.

Convém não generalizar demais a partir do resultado de um único evento realizado há três décadas. Mas é justo dizer que o que se pode ver nesse livro revela um grau elevado de heterogeneidade e confusão no pensamento político neocalvinista, uma abundância considerável de cacoetes mentais esquerdistas e certo grau de ignorância preconceituosa contra o pensamento conservador. Nada disso chega a ser uma surpresa, mas é, de qualquer modo, decepcionante. Por outro lado, impressionou-me o alto nível de vários dos artigos, e não pude deixar de notar o padrão de que os autores mais anticomunistas são justamente os que conhecem o comunismo mais de perto - e não necessariamente os que vivem em países ricos, como afirmou Zylstra. O livro me enriqueceu com novas informações e ideias e me convenceu da importância de um conhecimento mais aprofundado da obra de Marx e, mais ainda, dos frankfurtianos. Foi não só uma excelente leitura, mas também um excelente presente que o Mauro nos deu ao não querer o livro de volta.

13 de janeiro de 2012

O irracional dos racionalismos - parte 5

Na postagem inaugural da presente série, eu havia dito que faria seis postagens em comentário ao artigo O racionalismo dos irracionais, de Felipe Sabino de Araújo Neto. Contudo, a partir do momento em que Sabino reconheceu sua injustiça contra mim e pediu perdão publicamente, convenci-me de que não há sentido em dizer algumas coisas que eu havia me preparado para dizer. Diante desse ato de honestidade e humildade, resta-me apenas concluir a análise de seu artigo, e um único post é suficiente para essa tarefa. Nas próximas postagens, devo mudar um pouco de assunto, já que até eu mesmo estou cansado do atual. Dentro de algum tempo, porém, devo retornar ao tema e tecer considerações em torno de alguns comentários que recebi (e talvez ainda venha a receber) ao longo desta série, do próprio Sabino e de outros leitores.

Feitos todos os esclarecimentos da última postagem, prossigamos para o parágrafo seguinte do artigo. As duas primeiras sentenças já estão refutadas de antemão, pois pressupõem o erro do parágrafo anterior. Transcrevo, pois, a partir da terceira, deixando para daqui a pouco apenas a última:

"É verdade que elas citam Deuteronômio 29.29, mas não é dali (nem o podem fazer, pois o texto diz que a revelação é para ser entendida e repassada aos nossos filhos) que elas extraem quais doutrinas são conciliáveis e quais não. E é impossível fazê-lo, pois a Escritura não dá tal informação. Pelo contrário, 'tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança' (Romanos 15.4). Se tudo o que foi escrito foi dado para o nosso ensino, então é porque podemos entender, compreender e harmonizar dentro do grande plano da redenção."

O texto de Deuteronômio 29.29 é o mesmo que citei no oitavo parágrafo da primeira parte de O direito ao mistério, como parte de minha crítica a Crampton; convém, no entanto, recordar o propósito exato com que o fiz: citei essa passagem bíblica apenas para mostrar quão equivocado é o entendimento de Crampton quanto à visão da Confissão de Fé de Westminster acerca do tema. Afirmei que essa passagem, e também Romanos 9.20, "falam claramente acerca dos limites da mente humana". Eu não disse, porém, que esses versículos refutam especificamente a tese racionalista de que tudo o que foi revelado pode ser harmonizado racionalmente. Declarei apenas que esses trechos bíblicos foram citados pelos teólogos de Westminster em apoio ao conteúdo da seção 8 do capítulo III da Confissão para enfatizar essas limitações, e não para o propósito oposto, que é o que Crampton tinha em mente - assim como Sabino, embora este, em seu texto, não esteja preocupado de modo especial com a Confissão.

Explicarei isso um pouco melhor. Quando Sabino declara que "o texto diz que a revelação é para ser entendida e repassada aos nossos filhos", está induzindo a si mesmo ao erro mediante o acréscimo da palavra "entendida", que, além de não estar no texto bíblico em questão, não pode deixar de ser ambígua quando usada no presente contexto. Ilustrarei o que digo recorrendo ao exemplo central de nosso debate, o da relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana: uma coisa é entender que Deus é soberano e entender que somos responsáveis por nossos atos, e que ambas as coisas estão reveladas na Bíblia; outra coisa, muito diferente da primeira, é adquirir uma compreensão racionalmente impecável de como essas duas coisas se harmonizam filosoficamente. Nenhum dos cristãos racionalistas que li até o momento deu sinais de já ter pelo menos pensado na possibilidade de a primeira coisa não implicar na segunda. E, contudo, não implica; de modo que inferir esta daquela é ir muito além do propósito do texto bíblico.

Dá-se o mesmo com a afirmação do artigo acerca de Romanos 15.4: "Se tudo o que foi escrito foi dado para o nosso ensino, então é porque podemos entender, compreender e harmonizar dentro do grande plano da redenção". Ora, isso não está no texto bíblico, que diz apenas: "tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança". As palavras "para que" indicam qual é o objetivo do ensino do que foi escrito: é, como diz o texto claramente, a obtenção de esperança, paciência e consolação. O que quer que fuja desse objetivo, portanto, não está garantido nessa passagem bíblica e não pode ser inferido a partir dela. Dessa forma, a exegese de Sabino só poderá ser sustentada depois que ele provar que é impossível ter esperança "pela paciência e consolação das Escrituras" sem que todos os assuntos nelas revelados nos pareçam cristalinamente coerentes de uma perspectiva teórica. Esse é o salto exegético que ninguém, até hoje, me forneceu motivos justos para empreender. Além disso, o Espírito já me estimulou inúmeras vezes à paciência, à consolação e à esperança com base em ensinos cuja relação filosófica com outros ensinos eram (e são) obscuras aos meus olhos. Portanto, a afirmação de Sabino, além de não estar na Bíblia e não poder ser deduzida a partir dela de maneira lógica, contradiz minha experiência direta da graça de Deus. E desconfio que também contradiz a experiência de muitos outros cristãos, inclusive a dele próprio.

Na verdade, esse argumento apresentado em O racionalismo dos irracionais também já havia sido refutado por mim de antemão, pois é idêntico ao que Crampton apresenta em sua investida, e eu o comentei no nono parágrafo da primeira parte de minha crítica. A Confissão recomenda que o tema da predestinação seja tratado "com especial prudência e cuidado" por ser um "alto mistério", mas Crampton extrai disso a conclusão oposta, dizendo que não podemos tratar "com especial prudência e cuidado" uma doutrina que não possa ser conciliada com todas as outras no plano puramente racional. Acerca desse trecho da Confissão e do entendimento errado de Crampton, comentei:

"É desnecessário dizer que não é citada [na seção 3 do capítulo VIII da Confissão] nenhuma passagem bíblica sobre a importância de uma compreensão racional exaustiva das doutrinas reveladas nas Escrituras. Os teólogos de Westminster quiseram dizer o que disseram: com relação ao assunto da predestinação, importa ao crente antes de tudo certificar-se de sua própria eleição e ver nessa doutrina motivo de louvor, reverência, admiração, humildade, diligência e consolo. O resto é invenção da cabeça de Crampton, que, além de mau exegeta, acaba de demonstrar que também não é bom leitor, já que não é capaz de distinguir entre seu próprio modo de raciocinar e o dos autores do documento histórico que tem diante dos olhos. Se ele precisa entender absolutamente tudo sobre a predestinação antes de dar louvores a Deus, se essa compreensão se lhe afigura um requisito para tributar a Deus aquilo que a Confissão prescreve como dever de todo crente, pior para ele. Os teólogos de Westminster deram sinais de não precisar disso para ter uma atitude correta diante de Deus."

Podemos, enfim, passar à conclusão do parágrafo de Sabino, que traz o argumento final do texto todo, dizendo:

"Não podemos compreender tudo o que pode ser dito e conhecido sobre Deus, pois ele é infinito, mas podemos compreender o que ele nos revelou (afinal, é uma revelação!), que constitui apenas uma porção infinitesimal da grandeza e obras do nosso Deus."

Aqui encontramos o mesmo erro que já apontei acima, a saber, a confusão entre apreender exaustivamente os conteúdos da revelação divina e apreender exaustivamente a harmonia entre todos esses conteúdos no plano puramente teórico e racional. Eu já havia apontado implicitamente essa distinção no terceiro parágrafo da terceira parte de O direito ao mistério ao citar a seguinte declaração de Edward Dowey Jr. sobre Calvino:

"Calvino, pois, estava plenamente convencido de que havia alto grau de claridade e compreensibilidade nos temas individuais da Bíblia, mas estava, também, tão submisso ante o mistério divino a ponto de preferir criar uma teologia contendo muitas inconsistências de lógica, ao invés de optar por um todo racionalmente coerente. [...] Claridade de temas individuais, incompreensibilidade de suas interrelações - essa é a marca registrada da teologia de Calvino."

Como já declarei também, não considero reprovável de modo algum a busca dessa harmonização, mas me oponho a qualquer insistência dogmática sobre a possibilidade de alcançá-la de modo impecável quanto a todos os conteúdos revelados nas Escrituras ou em qualquer outra fonte. Não vejo fundamento para a tese - implícita na exclamação "afinal, é uma revelação!" - de que basta uma proposição ter sido revelada para que seja possível à razão humana apreender sua harmonia com todas as demais proposições reveladas. Afinal, o fato de duas proposições terem sido reveladas não impede de modo algum que uma verdade fundamental para a harmonização entre elas tenha permanecido oculta. E, como já afirmei, ainda não encontrei alguém que tenha pensado nisso e fornecido uma refutação a essa possibilidade. Para tristeza dos racionalistas, Deus não prometeu em parte alguma que a compreensão exaustiva só nos seria negada quanto aos conteúdos não revelados.

Estou ciente de que meus comentários estão longe de esgotar a questão. Não obstante, eles bastam enquanto expressão de minhas opiniões acerca da cosmovisão defendida por Sabino. O artigo O racionalismo dos irracionais apresenta de modo claro algumas das razões que me levam a crer na falência de qualquer programa teológico racionalista, bem como em sua incapacidade de expressar uma teologia radicalmente bíblica. Por outro lado, fico deveras satisfeito ao constatar que a publicação desse artigo por Sabino tornou possível um melhor entendimento mútuo e uma aproximação pessoal que poderá, se Deus permitir, render muitos bons frutos. Além disso, há pelo menos um ponto do artigo que devo endossar sem reservas, a saber, a prece contida em sua última frase: "Que Deus nos livre de sermos caluniadores, racionalistas e irracionais!" Respondo com um enfático "amém", satisfeito em ver que, a despeito de todas as diferenças que restam entre nós, podemos nos unir ao mesmo Pai em oração.

31 de dezembro de 2011

O irracional dos racionalismos - parte 4

Feitos todos os esclarecimentos das partes 1, 2 e 3, podemos enfim analisar os argumentos que Felipe Sabino de Araújo Neto levantou, no artigo O racionalismo dos irracionais, ao que pensa ser minha postura quanto à questão dos paradoxos bíblicos. Ele começa dizendo:

"Aqueles que acusam a posição de Clark (e de outros influenciados por ele) de racionalismo demonstram não somente ignorância do assunto sobre o qual estão falando, mas também o quão arbitrários eles são em suas críticas. O motivo é que, em geral, a explicação de Clark para a suposta tensão entre soberania divina e responsabilidade humana (e outras doutrinas controversas) é mencionada como um exemplo do seu racionalismo. Alguns, como o Dr. Roger Nicole (embora de forma muito mais branda, e em tom investigativo, e não acusatório), veem racionalismo inclusive na sua explicação do supralapsarianismo (a qual, como Clark demonstra, é totalmente exegética)."

A primeira coisa que noto nesse trecho é que ele atesta, mediante sua referência a Roger Nicole, que é possível considerar Clark racionalista sem que isso constitua xingamento, contrariando frontalmente o que o autor afirmou numa parte anterior do mesmo texto. Além dessa observação, tudo o que tenho a dizer sobre o trecho acima é que não nego que haja, de minha parte, muita ignorância quanto ao pensamento de Clark. Por exemplo, não tenho a menor ideia de como é sua explicação do supralapsarianismo. De modo geral, aliás, jamais atribuí a mim mesmo a posição de especialista em Clark, Crampton, Wright ou qualquer outro dos que critiquei nesses cinco anos de vida blogueira. Contudo, a afirmação de que sou ignorante demais até para ser capaz de detectar racionalismo em qualquer desses teólogos permanece por demonstrar, e creio que essa demonstração não poderá vir senão de alguém que ao menos entendeu previamente o que quero dizer quando acuso alguém de ser racionalista. Desse modo, resta do parágrafo acima apenas a asserção de que "a explicação de Clark para a suposta tensão entre soberania divina e responsabilidade humana (e outras doutrinas controversas) é mencionada como um exemplo do seu racionalismo", tema que Sabino desenvolve melhor adiante e que, por isso, não comentarei de imediato.

No parágrafo seguinte, Sabino desenvolve a ideia de que "enquanto essas pessoas acusam Clark de racionalismo ao tentar conciliar essas verdades bíblicas, ninguém levanta sequer uma palavra contra aqueles que, por exemplo, tentam conciliar 'Deus ser amor' e 'Deus enviar pessoas para o inferno'". Com base nisso, o artigo lança o argumento do parágrafo seguinte, que é onde fui citado pelo nome:

"Diante disso, não podemos deixar de perceber a arbitrariedade desses irmãos. Dependendo de quais doutrinas estão sendo conciliadas, a pessoa pode ser racionalista ou não. Se forem doutrinas que esses irmãos não consideram contraditórias, então podemos conciliá-las sem nos tornarmos racionalistas. Mas se forem doutrinas que eles consideram contraditórias e irreconciliáveis, então só um racionalista tentará harmonizar tais ensinos. Mas Clark recusa fazer isso pois ele está totalmente sujeito à autoridade e suficiência da Escritura. Abraçar esse padrão duplo de julgamento é ir além da Escritura, pois não encontramos nos registros bíblicos que podemos tentar conciliar a doutrina A e N, mas não a C e G. Dessa forma, esses irmãos tornaram-se não somente juízes da consciência alheia, mas o padrão de inteligência e compreensão das Escrituras ao qual todos devem se submeter e não ousar ultrapassar. Felipe não pode achar a doutrina X clara e harmoniosa com a doutrina Y, se André insistir que elas não o são. Por sua vez, Marcelo não pode dizer que não vê contradição em Deus ser soberano e o homem responsável, se Leonardo detecta uma contradição aqui. Se eles viram uma contradição, que Deus não permita vermos um ensino claro e coerente. Se eles não entenderam, que não ousemos compreender."

Há vários trechos de minhas postagens sobre o assunto que tratam dessa questão. Abordei o tema, em primeiro lugar, já no quarto parágrafo de minha primeiríssima postagem sobre o texto de Crampton. Este, em seu artigo, citou a seguinte declaração de John Gerstner: "Nós não vemos por que é impossível para Deus predestinar que um ato aconteça por meio da escolha deliberada de indivíduos específicos". Sobre isso, comentei:

"Devemos recordar que nenhum dos teólogos até agora criticados por Crampton, que são todos calvinistas, nega que tal coisa seja possível a Deus. Apenas negam compreender como Deus faz isso, o que não é a mesma coisa. Se Gerstner ou outro qualquer acredita ter a solução para o enigma (sei que Clark, por exemplo, acreditava), não vejo problema algum."

Essas últimas quatro palavras, que agora coloquei em negrito, bastam para provar que Sabino também não me entendeu adequadamente quanto a esse aspecto da questão, pois eu deixei claro que não vejo problema onde ele diz que vejo. Em que, então, eu vejo problema? Em vários pontos, é claro, ou não teriam sido necessários quatro posts para criticar as posições de Crampton. Mas, naquele momento, era apenas o que expliquei na continuação do quarto parágrafo e início do quinto:

"Mas vou descrever uma situação pela qual certamente muitos leitores já passaram: alguém propõe uma questão difícil - pode ser uma charada numa roda de amigos ou uma questão numa lista de exercícios na escola - que deixa todos os presentes quebrando a cabeça, até que chega alguém e anuncia que a solução, na verdade, é muito fácil e não oferece dificuldade alguma. Em alguns casos esse é de fato o caso, e os outros, depois de ouvir a solução, ficam tentando descobrir como não pensaram nela antes. Mas em muitos outros casos a solução proposta apenas evidencia aos demais presentes que seu autor não chegou a compreender bem a natureza do problema. Quem garante que não é esse o caso de Gerstner ou Clark? A única maneira de solucionar a dúvida seria expor as soluções disponíveis e colocá-las em debate. Mas Crampton não faz isso, pois não é esse seu objetivo. Ele não está interessado em provar que as soluções racionais existem (o que seria a única maneira válida de mostrar que não há paradoxos lógicos na Bíblia), e sim em condenar de antemão os que, por uma razão qualquer, não se satisfazem com as soluções existentes. Parece-me um procedimento flagrantemente injusto."

Implicitamente, a mesma ideia pode ser encontrada no mais recente de meus textos sobre o tema, a quarta parte da série Sutilezas causais, na qual, em meio a outros pontos, critiquei a análise que Wright fez do posicionamento de William Shedd. O segundo ponto que levantei contra Wright, no quarto parágrafo do referido post, foi o seguinte:

"[...] a exposição do pensamento de Shedd também não justifica qualquer menção a 'mistério, paradoxo ou antinomia'. Shedd claramente não fez uso de nada disso; ao contrário, ele buscou - e julgou ter encontrado - uma solução racional para o problema. Talvez se possa dizer que a solução que ele encontrou não é válida; nesse caso, caberia a Wright demonstrar isso, coisa que ele não fez. De qualquer modo, o fato é que em lugar algum, a julgar pela descrição de sua argumentação dada pelo próprio Wright, Shedd apelou a um 'mistério, paradoxo ou antinomia'. Aqui a capacidade de leitura de Wright foi prejudicada pelo que ele andou lendo em outros lugares."

Essa crítica destoa consideravelmente da que eu teria feito se minha opinião a respeito do tema fosse a que Sabino me atribuiu. Nesse caso, eu teria dito não só que Wright é racionalista por pretender uma compreensão racional do problema, mas também que o próprio Shedd é racionalista por ter idêntica pretensão, ainda que propondo uma solução diferente da preferida pelo primeiro. Contudo, eu não afirmei nada parecido com isso, o que mostra que o problema que denunciei, uma vez mais, não está onde o artigo O racionalismo dos irracionais o coloca. Onde, então, está o problema? A resposta pode ser encontrada, em outros termos, no texto anterior, isto é, na parte 3 da série Sutilezas causais. Alan Myatt parece ter tido a mesma impressão de Sabino quanto a esse ponto a propósito de minha crítica a Wright, de modo que lhe dirigi um esclarecimento nos seguintes termos:

"Concordo quando o sr. diz que 'não é racionalismo não bíblico recusar-se a crer em contradições quando existem explicações razoáveis, tanto filosóficas como exegéticas, para removê-las'. Naturalmente, eu não acusaria alguém de racionalismo (bíblico ou não) apenas por fornecer explicações razoáveis para algo. Apenas não acho que Wright tenha fornecido essas explicações razoáveis. Acuso Wright de racionalismo por fornecer explicações irrazoáveis à maneira racionalista."

Não sei, portanto, de onde Sabino extraiu as conclusões que aparecem em seu parágrafo que transcrevi por último. Eu jamais acusei alguém de racionalismo por causa das doutrinas específicas que essa pessoa estava tentando conciliar, e sim com base em duas classes de motivos: primeiro, a natureza racionalista dessas tentativas e seus resultados; e, segundo, a insistência na convicção de que essas conciliações são mais importantes do que de fato são. Se um dia eu tiver acesso (por mim mesmo ou através de outra pessoa) a uma conciliação racional impecável entre a soberania divina e a responsabilidade humana, ou sobre qualquer outra questão, não hesitarei em endossá-la. Até lá, porém, não me julgo na obrigação de concordar com nenhuma das explicações já apresentadas, as quais rejeito, não por serem explicações, mas porque padecem de racionalismo e reducionismo, em parte pelas razões que mencionei em minha crítica a Wright, e em parte por outras razões, que pretendo expor neste blog num futuro não tão distante. E muito menos me julgo na obrigação de crer que Deus nos garante a existência de uma teoria de todo correta e acessível à nossa mente sobre essas questões.

Os irmãos que chamo de racionalistas erram justamente na suposição de que tenho essas duas obrigações. Considero que os que tentam impô-las sobre mim tornaram-se não somente juízes da minha consciência, mas o padrão de inteligência e compreensão das Escrituras ao qual todos devem se submeter e não ousar deixar de alcançar. Não foi por outra razão que dei à minha crítica a Crampton o título O direito ao mistério, e não O dever do mistério ou algo parecido: para ele, a admissão de paradoxos nas Escrituras é nada menos que uma concessão à neo-ortodoxia - o que é acusação grave aos olhos de qualquer calvinista conservador. Para mim, Crampton e os que pensam como ele incorrem no mesmo erro que criticam: o tom de reprovação moral comum a todas essas investidas contra o que chamam de "irracionalismo" não é proporcional à qualidade dos argumentos com que as sustentam.