20 de fevereiro de 2007

Primeira colheita

É com grande alegria que anuncio que, do ponto de vista dos meus objetivos iniciais, que expliquei no texto inaugural, este blog tem sido um enorme sucesso. E não apenas isso, mas também já me trouxe benefícios que eu não havia sequer cogitado. Devo tudo isso, é claro, aos meus leitores. Recebi, ao longo desses quase dois meses, incentivos e demonstrações de interesse por parte de pessoas de quem eu não esperava nada disso; vários amigos gostaram tanto da idéia que resolveram, por conta própria, me ajudar na divulgação deste blog; recebi visitas de pessoas que nem conheço, de modo que este projeto me rendeu também algumas novas amizades; também recebi elogios, críticas e comentários neutros; alguns comentaram aqui mesmo no blog, outros me enviaram e-mails, outros ainda me procuraram pessoalmente ou pelo MSN para discutir alguns temas, e recebi até um telefonema com esse fim.

A quantidade de questões interessantes levantadas em todas essas interações somadas é enorme, e estive pensando num jeito de transmitir isso aos leitores, que naturalmente não presenciaram todas elas, numa tentativa de retribuir todo o bem que elas me têm feito. Depois de pensar um pouco a respeito, concluí que a melhor maneira seria escrever, de vez em quando, um post dedicado exclusivamente a isso, algo como um relatório de prestação de contas. Também será útil para esclarecer algo que não tiver sido bem explicado, ou mesmo para anunciar e justificar minhas mudanças de opinião, quando acontecerem. Nesse sentido, essa decisão pode ser vista também como uma tentativa de remediar o problema mencionado pelo Presunto em seu comentário ao meu post inicial: a dificuldade de evitar os mal-entendidos que, numa conversa travada pessoalmente, seriam mais fáceis de desfazer.

Passo agora a discorrer resumidamente e de maneira mais específica sobre alguns comentários, perguntas e críticas que me foram dirigidos a propósito das minhas declarações. Só deixarei de lado, por enquanto, algumas conversas que tiveram início em decorrência de algo que eu disse, e que possivelmente ainda irão longe; nesse caso, esperarei que terminem a fim de fazer depois uma apreciação mais completa das mesmas.

Em comentário sobre o Mitologia bioquímica, dois amigos sugeriram (um deles, o Marco, aqui mesmo no blog) que a causa real do engodo pode estar no orgulho intelectual ferido, que não admite a própria ignorância nem para si mesmo. Não nego que exista tal coisa, e esse é um tema que se relaciona a muitas questões interessantes, sobre as quais farei aqui uma análise mais cedo ou mais tarde. Por enquanto, tentando não fugir muito do assunto, limito-me a dizer que esse fator, embora exista, possui um papel bastante limitado na difusão de tais concepções erradas entre os estudantes colegiais. Nas publicações especializadas, lidas quase exclusivamente pelos pesquisadores do ramo, a ignorância geral é algo livremente admitido e debatido. É apenas diante dos leigos que surge esse esforço conjunto de demonstrar um conhecimento e uma certeza que não existem. Por isso, considero que o problema está menos no orgulho pessoal do que no orgulho de classe, isto é, na tentativa de uma comunidade inteira de preservar um punhado de dogmas filosóficos e metodológicos considerados essenciais para a manutenção do seu status. Nada, exceto uma motivação política e ideológica profundamente arraigada, explica um sistema de desinformação tão vasto e uniforme.

Outro ponto que considero digno de atenção no comentário do Marco é a referência à teoria abiogênica como uma "hipótese sem provas". Nisso meu amigo Otávio, mais conhecido como Marreco, segue uma tendência parecida, ao tecer comparações entre essa teoria e certos modelos da física nuclear que são usados e ensinados com reservas e que não dão conta de todos os resultados que deveriam explicar, mas de apenas 30% deles, em certos casos. Ora, o problema com isso tudo é que assim não se faz justiça às especificidades do problema que discuti. A teoria abiogênica não é uma hipótese sem provas, e sim uma com muitas provas em contrário. E também não é uma teoria que chega a explicar 30%, 10% ou mesmo 1% dos dados observados. A vida só surgiu uma vez no universo, até onde sabemos, e a abiogênese não só não explica esse surgimento como também não chega a explicar, de maneira isenta de problemas graves, sequer uma etapa isolada desse processo. Compará-la a teorias nucleares, ou chamá-la de hipótese não provada é, portanto, uma indulgência intelectual excessiva diante de um absurdo sem tamanho. Já seria muito dizer que é uma teoria mais plausível que a da geração espontânea, aquela que foi refutada por Pasteur.

Quanto à sugestão do Otávio de que a abiogênese é, apesar de suas imperfeições, a teoria científica mais plausível que temos à disposição, só posso dizer que isso depende do que se considera como teoria científica, isto é, daquilo que os filósofos da ciência denominam "critérios de demarcação". Isso é assunto para uma longa discussão, de modo que o deixo pra depois. Seja como for, não considero eticamente aceitável ensinar como verdade uma teoria de plausibilidade nula apenas porque não se dispõe de uma melhor.

Eu soube que meu post sobre A divina comédia despertou em algumas pessoas o desejo de ler ou reler essa obra. Considero isso muito bom, pois, embora não fosse meu objetivo, isso indica que transmiti pelo menos parcialmente o entusiasmo que essa leitura causou em mim. Mas sinto necessidade de fazer um esclarecimento a respeito de um trecho cujo potencial para dar origem a mal-entendidos é particularmente alto:

"Se eu fosse um progressista, diria que ele foi um homem à frente de seu tempo, inclusive por ter defendido que a Igreja não deveria se preocupar em ter nas mãos o poder temporal e que estava aí a causa da decadência e corrupção da mesma. Mas posso igualmente dizer que nisso Dante era um cristão primitivo, e não um evoluído."

Quem me fez ver a necessidade de explicar melhor esse ponto foi meu amigo André Luiz. Ao contrário do que pode parecer, meu objetivo aqui não era o de assumir um posicionamento sobre a teoria política de Dante, nem sobre a situação política medieval, pela simples razão de que não conheço com suficiente profundidade nenhuma das duas coisas. A segunda exigiria um estudo histórico mais intenso do que o que empreendi até o momento, e a primeira demandaria pelo menos uma leitura atenta de um outro livro de Dante, o Da monarquia, que eu não li. Nesse trecho, portanto, eu pretendia apenas chamar a atenção, de passagem, para o engodo lingüístico que é erigir o calendário como critério de valor, o que parece ser um dos dogmas centrais de todos os movimentos progressistas, sejam eles políticos, filosóficos ou religiosos. No caso em questão, quem acha que a Igreja não deve se meter com o Estado pode sustentar isso tanto por ser mais moderno quanto por ser mais antigo que a Idade Média.

Meu post sobre o Chico foi o que levantou mais polêmicas. Uma amiga, cujas simpatias pelo marxismo são muito mais intensas que as minhas, procurou-me indignada para dizer que só se refreou de publicar uma contestação às minhas acusações porque nunca leu Marx. Eu lamento esse fato, apesar de achar que ela não está perdendo grande coisa. Mas fico feliz por despertar em alguém o desejo de ler Marx ou qualquer outra coisa, mesmo que a pessoa em questão resolva estudar apenas para demonstrar quão ridículas são as minhas opiniões. Eu, de qualquer forma, aprenderei algo com isso, e ainda cumprirei a importante função social de incentivar os outros ao estudo. Nada de ruim pode advir daí.

Apesar disso, não considero que um conhecimento profundo da obra de Marx seja necessário para a apreciação do que eu disse. Apresentei minha análise dessa música como apenas um exemplo do parasitismo moral que o marxismo exerce sobre a tradição judaico-cristã. Para entender que isso é assim desde o início, basta notar que Marx foi cristão em sua juventude (como foi muito bem lembrado por meu amigo Gustavo) e era judeu por nascimento. Não pode haver dúvida de que a preocupação social de Marx, por mais distorcida que fosse, inspirou-se nessa tradição (especialmente nos textos dos profetas do Antigo Testamento) para depois se voltar contra ela e acusá-la de ser a fonte de legitimação da injustiça e acomodação diante da mesma. Eis o que eu denomino "parasitismo". Se Marx percebeu ou não a incongruência do que estava fazendo, é outra história. Ir além disso no estudo da biografia de Marx é irrelevante para os propósitos da minha crítica.

Outro ponto importante a esclarecer é que eu não atribuí a Marx o incentivo à promiscuidade sexual. Atribuí isso ao Chico em particular, embora tenha apontado que esse caso específico exemplifica algo que é, isso sim, parte essencial do marxismo: o uso da bagagem moral e cultural cristã distorcida contra o próprio cristianismo, como acabei de dizer. Daí não se segue necessariamente que cada pormenor envolvido num dado caso seja parte do pensamento marxista em si. O que fiz foi identificar nessa filosofia um aspecto meramente destrutivo, corrosivo, parasitário, sem me preocupar com o que ela tem, e se tem, a oferecer em substituição ao que destrói.

Vale a pena registrar, aliás, que alguns comentários que ouvi sobre minha análise da música Geni e o zepelim exemplificam perfeitamente o que eu disse antes: que muita gente nota na letra dessa música apenas a sua denúncia da hipocrisia, o que significa que o engodo psicológico destinado a fazer com que a depravação sexual pareça algo insignificante foi engolido sem que o ouvinte chegasse a percebê-lo.

Também me foi sugerido que Chico Buarque, na verdade, não tinha a intenção de promover ou mesmo justificar a promiscuidade com base em sua utilidade social. O que ele pretendia era dar um maior tom de realismo à sua narrativa, retratando a heroína de maneira a não ocultar seus defeitos, de modo a justamente evitar que a analogia que tracei entre ela e Jesus Cristo fosse sustentável. Essa interpretação pareceu-me interessante no momento em que a ouvi, mas, depois de reler a letra da música tendo-a em mente, deixei de considerá-la plausível. Lá é dito claramente que Geni era odiada pelo povo da cidade por causa de seus hábitos sexuais e que ela era.odiada por ser "um poço de bondade". Por aí fica silogisticamente claro em que consistia toda essa bondade. E isso é reforçado pelo fato de que o verso dezesseis é apresentado como conclusão extraída das ações da dama descritas nos quinze versos anteriores. Convido o leitor que estiver em dúvida a reler a música e verificar isso. Parece-me claro que, longe de apresentar as peripécias de Geni em favor dos excluídos como um defeito a ser desculpado, Chico as trata como prova mesma de sua bondade superior.

Uma última questão, levantada pelo meu amigo Nelson, dentre outros, é se o compositor teria mesmo pensado em tudo o que eu disse. Na verdade eu não havia pensado muito nisso, e redigi aquela análise mais preocupado em mostrar algo que se me afigurou óbvio depois que um livro de Phillip Johnson me fez notar o parasitismo praticado por ideologias anticristãs em seu combate ao cristianismo. E o exemplo que tomei mostra isso de maneira tão óbvia que nenhum dos meus leitores o contestou; fizeram, no máximo, objeções secundárias. Na verdade, não acho muito provável que o Chico tenha pensado nisso tudo. É bem possível que ele tenha se preocupado apenas em pregar o que achava certo, e talvez tenha sido ele mesmo a primeira vítima de sua própria peça de propaganda. Isso, é claro, não afetaria seu brilhantismo como garoto-propaganda do marxismo, de modo que meu elogio se mantém. Mas certamente isso diminuiria seu mérito intelectual no desempenho dessa tarefa.

15 de fevereiro de 2007

Idéias em gestação

"Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer."

Nesta semana não tenho tido vontade de levantar polêmicas neste blog, e mal me disponho a continuar as que já foram iniciadas em outros lugares. Não sei exatamente a razão disso, mas considero essas flutuações emocionais como algo inteiramente normal, até certo ponto. Seja como for, estive procurando um tema que não tivesse a mínima chance de suscitar discussões. Tal tema não existe, naturalmente. Mas a melhor maneira de chegar perto disso é falar sobre algo de que ninguém possa saber a não ser eu mesmo. Tendo chegado a essa conclusão, lembrei-me das palavras transcritas acima, de autoria do filósofo Olavo de Carvalho, acerca do processo de obtenção de conhecimento.

Não pretendo escrever sobre nada tão profundo assim. Apenas narrarei um curto capítulo da minha própria jornada intelectual, a qual não tem nada de muito interessante, e menos ainda de original. Muitas vezes eu acreditei ter feito grandes descobertas sobre a realidade. Mas, em praticamente todos os casos, soube depois ou que eram idéias idiotas ou que alguém já as tinha tido muito antes de mim. Esse tipo de engano é talvez a pior conseqüência de viver numa sociedade que é estúpida mesmo pelos padrões de uma civilização intelectualmente decadente. Mas deixarei as lamentações para outra semana (alguma em que eu porventura esteja particularmente melancólico) e contarei agora uma das pequenas coisas que descobri na minha busca, particular e sem testemunha externa, pelo conhecimento.

Para quem tem o costume de ler, conversar, debater ou se informar por quaisquer outros meios, uma das coisas mais comuns da vida é o contato com idéias desconhecidas, ou pelo menos com novas formulações e articulações de idéias já conhecidas. Isso me acontece tão freqüentemente hoje quanto acontecia no início da minha vida intelectual, que se deu lá pelos meus dezesseis anos. Logo percebi que era impossível, por exemplo, ler um livro qualquer sem encontrar no mínimo duas ou três afirmações que contradissessem de algum modo meu ponto de vista. Rapidamente aprendi que precisava lidar com aquelas afirmações, e descobri que a variedade de experiências advindas dessa simples decisão era incrivelmente ampla, rica e, em alguns casos, mais compensadora que tudo o que eu aprendera em todo o restante do livro.

Em alguns casos, a idéia contida numa afirmação dessas era tão claramente absurda que eu a identificava imediatamente como tal e a colocava sumariamente de lado, limitando-me a registrá-la no sempre crescente rol de besteiras a evitar. Em outros, tratava-se de uma verdade daquelas que nos espantamos de não ter visto antes; nesse caso, eu a recebia com reverência, tratando logo de situá-la o melhor possível dentro da paisagem mais ampla de minha visão de mundo, à qual ela demonstrava se encaixar melhor que sua negação que estivera ali provocando uma contradição não percebida. Havia ainda aquela situação muito comum em que uma mesma sentença continha a verdade misturada ao erro, restando-me a tarefa de separar este daquela e tentar entender como era possível que viessem a se apresentar com tal aparência de inquebrantável união. Em outras ocasiões, ainda, a idéia em questão vinha trazer luz sobre um tema no qual eu nunca pensara detidamente, ou que ignorava completamente, de modo que eu não tinha opinião alguma a respeito ou tinha uma fortíssima convicção baseada em absolutamente nada. No primeiro caso, eu acabava aprendendo algo na tentativa de pensar melhor sobre o assunto, nem que fosse apenas para relacioná-lo toscamente a outros que eu conhecia melhor. No segundo, a súbita percepção da ignorância antes ignorada normalmente me enchia de vergonha, e seu efeito prático mínimo era o de me levar a pôr o assunto na lista dos que precisava estudar antes de morrer, e sobre os quais não deveria opinar enquanto não tivesse feito isso.

Convém esclarecer que, embora eu esteja usando os verbos no pretérito, todas essas experiências continuam a ocorrer com alguma freqüência na minha vida, e estou certo de que continuarão enquanto eu tiver condições de estudar alguma coisa.

Mas há uma outra experiência ainda mais notável que as acima descritas, e é sobre ela que pretendo discorrer um pouco mais. É a que ocorre quando leio algo e simplesmente não gosto daquilo. Não pela forma como é dito, nem por qualquer fator externo; não gosto da idéia mesma. O que define essa estranha sensação é a total incapacidade de formular o que está errado naquela sentença. Leio e releio, penso e repenso, mas não consigo dizer qual é o problema. É uma sensação aparentemente contraditória, justamente por ser uma mera sensação. Parece-se muito mais com um desconforto quase físico diante de um problema que é, ou deveria ser, puramente intelectual.

Creio que todo mundo já passou por isso ao menos uma vez na vida, de modo que espero que essa tentativa de descrever tão esquisita sensação seja suficiente para que meus leitores se lembrem dela. Antes de contar como aprendi a lidar com isso, porém, direi o que aprendi a não fazer: não se deve ignorar esse sentimento, e muito menos permitir que ele estabeleça por si próprio, na nossa mente, um juízo de valor sobre a idéia em questão. É necessário descobrir o que está errado, e saber expressar isso com palavras que façam sentido. É preciso pensar, mas pensar com o cérebro, e não com o estômago. A pior coisa que pode ocorrer nessa situação é a pessoa pensar: "Esta idéia me causa desconforto; portanto, não deve ser verdadeira", e a partir daí não tornar a pensar no assunto.

A solução que encontrei não apresenta qualquer garantia de eficácia perfeita, mas tem a vantagem de ser bastante simples; tanto, aliás, que alguém poderá pensar que fui buscá-la em algum livro de auto-ajuda. Ela consiste apenas em aliar a paciência à perseverança. Para quem não tiver muito dessas qualidades, uma boa dose de teimosia também serve; pelo menos costuma dar certo no meu caso.

Num certo sentido, a coisa funciona como a resolução de um problema difícil de física ou matemática: se, depois de alguns dias pensando nele, as idéias se esgotam e a solução não surge, o melhor a fazer é deixar o assunto para ser examinado algumas semanas ou meses depois, quando a mente estiver revigorada e mais madura. Em muitos casos, inesperadamente, você tornará a pensar no problema e verá um caminho não notado antes. Mas é de fato necessário ter disciplina suficiente para voltar a pensar nisso com uma certa periodicidade, ou nunca se chegará a lugar algum.

Num outro sentido, porém, essa situação é totalmente diferente de um problema de física ou matemática: trata-se de aprender algo a respeito de si mesmo, e não sobre o universo ou a mente de Deus. O problema é, portanto, muito mais pungente e aterrador, pois resulta na necessidade de mapear mais um trecho do labirinto interior e trazer à plena luz da consciência algo que desde sempre tem permanecido nas trevas, muito embora seja parte do eu. Descobrir que não sei o suficiente nem sobre mim mesmo foi uma experiência sumamente desagradável, e sinto isso novamente sempre que meu subconsciente reage contra uma declaração qualquer sem que eu saiba o motivo. É nessas horas que a exigência gravada em Delfos, que Sócrates tomou como lema máximo de sua vida, surge diante de meus olhos em seu pleno e terrível caráter de urgência.

O meio que encontrei de resolver esse problema foi colocando em palavras, de maneira claramente inteligível, a minha objeção ao pensamento que acaba de me atingir, vindo de alguma outra mente. Essa solução freqüentemente exige um longo e intenso esforço, como já expliquei, e devo confessar que em alguns casos não fui bem sucedido até o presente momento. Isso requer que eu divague pelas minhas próprias posições, reexaminando-as uma a uma a fim de descobrir qual delas chocou-se contra o pensamento intruso enquanto eu olhava em outra direção. Requer também uma boa dose de interpretação, bem como a capacidade de reformular o conteúdo recém-apreendido de todos os modos concebíveis, a fim de verificar se com isso é possível obter uma imagem mais nítida daquilo que o subconsciente insiste em rejeitar intransigentemente. E requer também, às vezes, uma boa dose de imaginação, na tentativa de ordenar tudo isso de um modo que permita lançar nova luz sobre o problema.

Decidi, por analogia, chamar esse processo de "gestação de idéias", já que, assim como a gestação propriamente dita, é algo árduo, doloroso, demorado, incômodo e com um resultado muito difícil de se prever. E também porque, apesar de todas as dificuldades, precisa ser levado a cabo. Abdicar disso é simplesmente cometer voluntariamente um aborto intelectual (que me perdoem as eventuais leitoras feministas que acham o aborto uma coisa ótima). Se o bebê-idéia tiver de ser jogado na lata de lixo mental em algum momento, que seja depois de vermos a cara dele, e não antes. Nas vezes em que consigo consumar o terrível parto mental, a solução é imediata. Quando consigo explicar a mim mesmo qual era exatamente a razão do meu desconforto diante da tal sentença, só existem dois desfechos possíveis. Em um deles eu noto imediatamente o quanto essa minha objeção é estapafúrdia, descabida, sem sentido, e assim vejo o quanto minhas sensações viscerais eram irracionais e me mantinham afastado da verdade. Vencida a barreira inicial, estou agora pronto para aceitar a referida idéia, ou pelo menos considerá-la com maior seriedade e justiça. Ou então percebo claramente que minha sensação estava certa, que havia mesmo, por trás dela, alguma razão válida para a minha desconfiança, embora bem escondida. Nesse caso, minha opinião anterior é reforçada por uma maior consciência de suas implicações lógicas.

É impossível prever com antecedência se o que sairá do ventre é um bebê ou um alien, se do ovo sairá um pássaro qualquer ou um filhote de cuco. Esse estado de expectativa é deveras interessante, pois em decorrência dele temos a possibilidade de aprender mais acerca de nós mesmos e de desenvolver melhor e, se for o caso, corrigir nossas concepções, embora não possamos fazê-lo sem um estímulo externo apropriado e sem um esforço pessoal nesse sentido. O resultado, de qualquer forma, é sempre mais um passo rumo à coerência, à verdade e a uma consciência mais profunda e madura acerca de nós mesmos e de tudo o mais. Daí decorrem muitas surpresas; e também, é claro, muitas alegrias.

5 de fevereiro de 2007

Assalto ao velho restaurante

Eu disse a alguns amigos na semana passada que meu próximo post seria destinado a criticar o Chico Buarque. Mas andei pensando melhor a respeito, e acho que não é bem isso o que vou fazer. Não que eu tenha mudado de idéia quanto ao conteúdo do texto. Apenas pensei melhor sobre o mesmo e concluí que é mais correto dizer que vou fazer um grande elogio ao Chico. Considero que ele tem seus pontos positivos e também seus pontos negativos. O principal ponto positivo é seu talento como compositor, tanto pelas letras quanto pelas melodias. O principal ponto negativo normalmente aparece quando ele passa a dar opiniões sobre assuntos que fogem à sua especialidade. Pelo menos é o que me parece a partir do que já chegou dele aos meus ouvidos, tanto num caso quanto no outro.

Mas eu estive há algum tempo refletindo sobre uma de suas músicas, e cheguei à conclusão de que há algo ali que é simplesmente genial. Refiro-me à famosa e polêmica Geni e o zepelim. É uma das músicas mais inteligentes que já ouvi na vida, muito embora seu vocabulário seja propositalmente vulgar. Apesar de eu não gostar muito disso, considero que nesse caso até cai bem, combinando perfeitamente com o tom satírico e com a mensagem transmitida. Mas vamos ao que interessa. Coloquei a letra aí embaixo para quem porventura não a conheça. Em seguida, farei uns poucos comentários a respeito da mesma.

De tudo que é nego torto
do mangue e do cais do porto
ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
dos cegos, dos retirantes,
é de quem não tem mais nada.

Dá-se assim desde menina,
na garagem, na cantina,
atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
das loucas, dos lazarentos,
dos moleques do internato.

E também vai amiúde
com os velhinhos sem saúde
e as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade,
e é por isso que a cidade
vive sempre a repetir:

"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu brilhante,
entre as nuvens flutuante,
um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
abriu dois mil orifícios
com dois mil canhões assim.

A cidade, apavorada,
se quedou paralisada,
pronta pra virar geléia.
Mas do zepelim gigante
desceu o seu comandante
dizendo: "Mudei de idéia!

Quando vi nesta cidade
tanto horror e iniqüidade
resolvi tudo explodir.
Mas posso evitar o drama
se aquela formosa dama
esta noite me servir."

Essa dama é a Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

No entanto logo ela,
tão coitada, tão singela,
cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
tão temido e poderoso,
era dela prisioneiro.

Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela -
também tinha seus caprichos.
E a deitar com homem tão nobre,
tão cheirando a brilho e a cobre,
preferia amar com os bichos.

Ao ouvir tal heresia,
a cidade em romaria
foi beijar a sua mão.
O prefeito de joelhos,
o bispo de olhos vermelhos
e o banqueiro com um milhão.

"Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!"

Foram tantos os pedidos,
tão sinceros, tão sentidos,
que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
entregou-se a tal amante
como quem dá-se ao carrasco.

Ele fez tanta sujeira!
Lambuzou-se a noite inteira
até ficar saciado.
E, nem bem amanhecia,
partiu numa nuvem fria
com seu zepelim prateado.

Num suspiro aliviado,
ela se virou de lado
e tentou até sorrir.
Mas logo raiou o dia,
e a cidade em cantoria
não deixou ela dormir:

"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

A primeira coisa a ser notada, e que considero mais interessante, é o fundo moral dessa história. Podemos descobri-lo facilmente fazendo abstração, por um momento, de todas as particularidades e focalizando nossa atenção nos aspectos essenciais da narrativa. Contada dessa maneira, ela fica assim:

Era uma vez um lugar cheio de gente perversa, soberba e hipócrita. Um dia, porém, um ser poderoso decidiu dar um basta nisso e punir merecidamente todo mundo por suas respectivas maldades. Em meio àquele povo existia apenas uma pessoa justa e boa, e era a única que poderia fazer algo para salvá-lo. Havia duas dificuldades, porém. Primeira: a pessoa em questão era odiada e desprezada por todo mundo, justamente por sua virtude superior. Segunda: ela só poderia trazer salvação através de um grande sacrifício pessoal. Amorosa e humilde como ela só, renegou todas as ofensas anteriores e desempenhou corajosa e resignadamente seu papel sacrificial em prol de todos aqueles seres cruéis e desprezíveis. Mas, longe de comover aqueles corações duros, o ato só suscitou ainda mais desprezo e ódio por parte deles. E, presumivelmente, todos viveram infelizes para sempre.

Alguém conhece essa história? Todo mundo, é claro! Dando os devidos nomes às pessoas envolvidas e ao contexto, essa é a narrativa (ou melhor, a parte mais importante dela) sobre a qual foi construída a nossa civilização ancestral, cujos fundamentos morais, mesmo que não percebamos isso, ainda conservamos parcialmente. Pois bem, o primeiro fato para o qual desejo chamar a atenção é esse: Chico Buarque pegou uma velha história, de significação profunda para a alma ocidental, despiu-a de suas particularidades e preencheu-a com outras. O valor moral da letra foi diretamente tomado de empréstimo do cristianismo.

Acredito que não é grande o número de pessoas que percebem esse fato; mas isso não é tudo. Chico pegou a história dos evangelhos e fez-lhe umas modificações. A próxima questão que surge é: o que ele faz com essa adaptação? Seria ele um padre ou pastor disfarçado, pregando subliminarmente a doutrina cristã aos seus ouvintes? A realidade está muito longe disso. O critério de moralidade defendido na música não é cristão, e sim marxista. A bondade da heroína está no fato de que ela faz de tudo pelos pobres, marginalizados e excluídos pela sociedade, não importando que o faça por meios inteiramente imorais segundo os critérios da doutrina cristã. Sua virtude consiste unicamente em dar aos pobres (no mais popular sentido desse verbo) e em desprezar os demais. E quem são os principais adversários de tamanha bondade? O poder político constituído (a maldita direita, como todos sabem), o cristianismo (prestem atenção nisso) e o capitalismo (que não vem muito ao caso no momento), personificados pelas figuras do prefeito, do bispo e do banqueiro.

De quebra, Chico ainda faz uma eficiente apologia da idéia de que não há nada de errado na libertinagem sexual. Não, é claro, que a música forneça algum argumento em favor dessa tese. Esse tipo de coisa é normalmente defendido sem qualquer argumento, e o artista em questão não foge à regra. O expediente usado aqui, e em muitos outros lugares, é simplesmente o de insistir na comparação de um defeito moral pequeno com um grande, a fim de que o ouvinte se enfureça com o segundo e, por contraste, acabe se acostumando a não dar muita importância ao primeiro. A afirmação de que o orgulho e a hipocrisia são doenças espirituais muito mais graves que a mera promiscuidade sexual é, em si mesma, perfeitamente cristã. Mas nosso compositor extrai daí a conclusão de que esta última é uma coisa inteiramente boa, especialmente se colocada a serviço dos apetites sexuais dos pobres.

Eis, em suma, o método usado por Chico Buarque para pregar seu novo evangelho: apropriar-se do conteúdo moral da velha doutrina e depois deturpá-la a fim de que possa ser usada contra sua própria fonte. E o compositor prega isso não só sem usar justificativa racional alguma, mas também de maneira muito bem camuflada. Sem chegar a compreender o que está acontecendo, o público acaba por engolir o engodo psicológico como se fosse a expressão máxima da autêntica moralidade. Isso faz com que eu me lembre daquela piada sobre o sujeito que, após comer fartamente num excelente restaurante, não só se recusou a pagar como também tentou convencer o gerente de que o garçom o roubara no troco. É o inadimplente, orgulhoso de sua miséria, negando a existência da dívida e exigindo que o credor lhe pague.

Esse é apenas mais um exemplo de algo que descobri há um bom tempo: a moral marxista é um mero parasita da tradição judaico-cristã. Mas trata-se de um parasitismo muito bem calculado e planejado, como tudo o mais na moderna revolução cultural. Provavelmente nem todos concordarão com o que estou dizendo. Mas não se pode negar, penso eu, que Chico Buarque é um propagandista genial a serviço de sua ideologia. É esse o elogio que eu tinha a fazer.

29 de janeiro de 2007

Versos do além

Embora eu seja um dos sujeitos mais anti-socialistas que eu mesmo conheço, não tenho grandes simpatias pelo capitalismo, e menos ainda pelo moderno sistema de mega-corporações financeiras e industriais. Apesar disso, tenho um sério problema em comum com os grandes empresários e administradores: assim como para eles, para mim o tempo é curto demais, e há muita coisa pra fazer; é necessário, portanto, planejar rigorosamente as ações a fim de aproveitar todos os momentos possíveis. No meu caso, não se trata de ganhar dinheiro, e sim de algo muito específico: a obtenção de conhecimento, principalmente através da leitura. Quatro anos atrás notei que a quantidade de livros que eu tinha pra ler era muito grande (quinze, pra ser exato), e resolvi fazer uma lista pra não esquecer nenhum. Mantive-a atualizada desde então, removendo os livros que ia lendo e acrescentando os que iam despertando meu interesse. Atualmente a lista contém pouco mais de 250 títulos, o que constitui prova de que meu planejamento não tem sido muito bom.

Estou contando isso tudo apenas para justificar (inclusive para mim mesmo) o fato de ter demorado tanto para ler A divina comédia. Diante da oportunidade de ler um livro longamente esperado, é normal procurar lê-lo o mais rápido possível. Mas havendo centenas deles, o jeito é deixar muitos pra depois. O fato é que, felizmente, a vez de Dante chegou, e foi a minha primeira leitura do ano. Deixei passar algumas oportunidades de escrever sobre isso aqui, mas resolvi fazê-lo agora, antes que a impressão causada pela leitura se desvaneça. Mas acho bom esclarecer que meu desejo de comentar esse livro não provém de eu ter algo muito importante a dizer sobre ele; apenas acho injusto não dizer nada sobre uma obra tão valiosa. Farei, então, apenas alguns comentários breves e um pouco desconexos, visto que uma análise digna do livro comentado está seguramente acima da minha capacidade.

Lembro-me precisamente da primeira vez em que ouvi falar em A divina comédia: foi ainda na minha infância. Havia um artigo de uma ou duas páginas sobre ela numa velha enciclopédia de que eu gostava muito, e que meus pais têm em casa até hoje. Nunca cheguei a ler aquele artigo, pois na época eu me interessava quase exclusivamente por povos antigos e animais. Mas lembro-me de ter me detido um pouco para contemplar o esquema do universo desenhado naquela página: A Terra no centro, com os nove círculos do inferno no subterrâneo de um dos hemisférios, oposto ao qual erguia-se o monte do purgatório; em volta, as nove esferas celestes, fora das quais estava o trono de Deus. Não entendi quase nada daquilo; só me lembro de ter sentido uma profunda sensação de estranheza.

Foi apenas na oitava série, durante uma aula de história, que eu soube que o título daquele breve artigo era também o de um livro escrito por um medieval chamado Dante Alighieri, e que nele era relatada uma viagem fictícia do autor pelos três reinos do além. Desde então fiquei curioso para ler o livro, pois eu tinha curiosidade de saber qual era a concepção do inferno, do purgatório e do paraíso que as pessoas tinham na Idade Média. Com o passar dos anos, outras razões foram se acrescentando a essa, incluindo-se aí meus estudos sobre filosofia, teologia, história e ciências, que levaram inevitavelmente à ampliação do meu interesse pela cultura medieval em todos os seus aspectos. Enfim a leitura tornou-se inadiável, especialmente depois que meu amigo Fortes comprou um exemplar e gentilmente o ofereceu para que eu o lesse nessas curtas férias.

Devo começar elogiando a edição brasileira. A obra foi editada pela Itatiaia em parceria com a USP. Cristiano Martins (1912-1981) não apenas traduziu o poema como também escreveu milhares de notas explicativas, muitas das quais importantíssimas, e uma excelente narrativa de cerca de setenta páginas sobre a vida de Dante, descrevendo ainda o contexto cultural, social e político em que o poeta italiano viveu e escreveu. Como não falo italiano, e muito menos italiano do século XIV, não sei até que ponto a tradução foi fiel ao original. Mas admiro a competência de Cristiano Martins pelo simples fato de ele ter traduzido um épico de quase quinze mil versos mantendo o tempo todo a rima e o metro decassílabo, e em alguns trechos até mesmo o ritmo. Fiel ou não, é no mínimo uma belíssima tradução.

Conhecer algo sobre a vida de Dante também foi muito proveitoso. Além de seu talento para a poesia, descobri que ele possuía várias outras qualidades: foi soldado valente na juventude; homem de grande erudição, bem versado no trivium e no quadrivium; político sábio e honesto, embora isso não o tenha livrado de perseguições injustas movidas por seus inimigos; e, o mais importante, um homem sinceramente interessado no bem e na virtude. Se eu fosse um progressista, diria que ele foi um homem à frente de seu tempo, inclusive por ter defendido que a Igreja não deveria se preocupar em ter nas mãos o poder temporal e que estava aí a causa da decadência e corrupção da mesma. Mas posso igualmente dizer que nisso Dante era um cristão primitivo, e não um evoluído. Não deixa de ser interessante, aliás, notar que suas concepções políticas eram monárquicas e inspiradas justamente no Império Romano, em forte oposição ao sistema de pequenas repúblicas independentes que prevalecia na Península Itálica do fim da Idade Média.

Mas não pretendo falar sobre o autor, e sim sobre a obra. Ao iniciar a leitura, aquilo que inicialmente me motivou a ler o livro - os retratos dos castigos no inferno e no purgatório e da beatitude dos eleitos no paraíso - rapidamente perdeu toda a sua importância. Embora a criatividade de Dante para inventar tormentos seja para muitos o principal atrativo do livro, parece-me agora que o valor do poema não reside de modo algum nisso. Embora a imaginação do autor seja prodigiosa, inclusive nesse aspecto, o livro tem tantos outros méritos, e tão mais dignos, que a mera descrição do ambiente acaba totalmente eclipsada por eles. Na verdade, percebo hoje que não poderia ser de outra forma. Qualquer tentativa de extrair dos aspectos descritivos da narrativa uma concepção literal sobre a "estrutura interna" do além me parece agora inteiramente ingênua. A paisagem (ou seu equivalente infernal) não está lá para que a tomemos como descrição do que as pessoas encontrarão depois da morte, e sim como pano de fundo simbólico para a exposição de uma mensagem muito profunda e ampla que constitui, essa sim, o cerne da obra. Quem ler o livro encontrará lições de filosofia, teologia e moral e reflexões sobre arte e política, bem como inúmeras referências à vida pessoal do autor, especialmente quanto a seu amor por Beatriz e seu sofrimento no exílio imposto pelo governo florentino. A narrativa em si é apenas o substrato necessário à exposição de tudo isso. Trazer as descrições físicas ao primeiro plano é deixar de lado quase todo o valor da obra.

Através de toda a obra é possível encontrar uma elevada consciência dos problemas que afligiam a sociedade daquele tempo, bem como das deficiências morais do ser humano, que estão por trás de todos eles. Transparece também o profundo respeito pelo legado da antiga civilização greco-romana, bem como pelos sábios da vizinha civilização muçulmana. A valorização do conhecimento pela sociedade medieval, e particularmente pelo próprio Dante, pode ser vista no fato de que, em sua jornada pelo paraíso, o autor passa quase o tempo todo ouvindo das almas bem-aventuradas dissertações sobre diversos temas teológicos, históricos e, sobretudo, filosóficos. E quem imagina que na Idade Média predominava um servilismo acrítico diante do poder da Igreja se surpreenderá com a quantidade de ex-papas com que Dante se depara em sua jornada pelo inferno.

Dificilmente haverá melhor antídoto que A divina comédia para curar quem ainda acredita que o fim da Idade Média foi um período de ignorância, barbárie e cegueira. Dante seguramente não foi, nem de longe, o mais sábio dentre os medievais. A sabedoria que transparece em seu poema não é propriedade exclusiva sua, e sim a expressão dos valores e conflitos de toda uma civilização, a hoje extinta civilização cristã. A despeito de todas as diferenças de cosmovisão que possa haver entre um poeta católico do século XIV e um físico protestante do século XXI, não posso deixar de reconhecer e apreciar esse traço comum.

Resta falar, é claro, sobre o aspecto especificamente poético da obra. Já é impressionante que alguém tenha inserido magistralmente numa interessante narrativa suas reflexões pessoais acerca de alguns dos grandes homens da história e suas ações, seu julgamento acerca dos rumos da própria nação, suas lembranças da cidade natal, suas opiniões sobre a arte, a filosofia de Aristóteles, as ciências naturais e a teologia escolástica, bem como inúmeras referências à mitologia e às narrativas bíblicas, e coroando tudo isso com declarações de amor à mulher que não pôde ouvi-las em vida. Mas que ele tenha feito tudo isso em verso, com rima e métrica, eis o que considero verdadeiramente assombroso. É claro que meu juízo pode ter sido indevidamente influenciado pelo fato de eu ter lido apenas uma tradução; mas não vejo como a tradução de um poema possa ser superior ao próprio poema, de modo que, se houve distorção, provavelmente não terá sido para melhor.

Autor de uma das melhores análises já escritas sobre Dante, T. S. Eliot afirmou que ele foi um poeta superior a Milton, e no mínimo tão grande quanto Shakespeare. Quanto à primeira parte, não sei; Milton é outro que está na minha lista já há muito tempo. Mas Shakespeare de fato não me impressionou tanto quanto Alighieri. Diante disso, devo reconhecer que a afirmação de Eliot não me parece nada exagerada. Não vejo maneira melhor de expressar minha admiração pelo grande poeta italiano do que dizer que, de agora em diante, o adjetivo "dantesco" tem para mim um sentido muito diferente do que tinha até trinta dias atrás.

25 de janeiro de 2007

Mitologia bioquímica

Houve um período da minha vida em que desejei ser biólogo. Nessa época, naturalmente, eu nada sabia sobre biologia. Eu via aqueles documentários sobre a vida selvagem no Globo Repórter, e achava que biologia era ficar filmando animaizinhos nas savanas da África e coisas do tipo. O que me curou dessa ilusão foi justamente o meu entusiasmo pela idéia: ao ingressar no ensino médio, comecei a ler avidamente o livro-texto de biologia adotado em minha escola, e isso bastou para me convencer de que seria melhor pensar em outra coisa pra fazer na vida. Apesar disso, nunca deixei de me interessar pela disciplina; li o livro da escola até o fim, e isso serviu para me mostrar quais áreas eram interessantes e quais não eram. O ramo da biologia que achei mais interessante - e ainda acho - foi o da evolução. E como na época eu gostava de química mais do que gosto hoje, fiquei particularmente impressionado com a exposição dos autores sobre a abiogênese, ou origem da vida.

Todos os livros-texto de biologia que vi desde então descrevem basicamente a mesma seqüência de eventos: a formação, na Terra primitiva, de uma atmosfera de hidrogênio, metano, amônia e vapor d'água; as reações ocorridas entre essas moléculas e outras na atmosfera que se resfriava, gerando um oceano cheio de pequenas moléculas orgânicas; a reunião dessas substâncias em longas cadeias, formando os muitos tipos de moléculas necessárias à vida; e, finalmente, a reunião de todas elas nos primeiros seres vivos, ainda naquela "sopa primordial". Esse esquema teórico geral havia sido defendido nos anos 20 por dois biólogos, o russo Aleksandr Ivanovich Oparin e o britânico J. B. S. Haldane. Então, em 1953, vieram dois americanos, Stanley Miller e Harold Urey, e demonstraram em laboratório a viabilidade da teoria, ao produzir aminoácidos num aparelho que simulava as condições da Terra primitiva.

Não descreverei isso tudo em detalhes, já que todos os livros de biologia o fazem melhor do que eu seria capaz. Registro apenas que o assunto me interessou a tal ponto que desde então eu jamais fiquei muito tempo sem pesquisar a respeito. E na época eu não tinha idéia da complexidade da questão, e tampouco dos acalorados debates que têm ocupado os especialistas no assunto ao longo de todas essas décadas. Mas de lá pra cá descobri algumas coisas interessantes. Contarei nos próximos cinco parágrafos algumas coisas que descobri; aviso desde já que quem não tiver paciência para argumentos científicos fará muito bem em pulá-los e ir direto à parte final deste texto.

Descobri, por exemplo, que não poucos geólogos puseram em dúvida a tese de que a atmosfera primitiva tinha a composição mencionada nos livros didáticos. Uma das razões é que é difícil justificar a ausência de oxigênio livre, seja teoricamente, dado que ele se forma espontaneamente nas altas camadas da atmosfera a partir de vapor d'água, ou empiricamente, uma vez que em certas rochas sedimentares daquela época há evidências de sua presença em quantidades não desprezíveis. E a presença de oxigênio inviabiliza praticamente todos os mecanismos abiogênicos já propostos, uma vez que os compostos orgânicos dificilmente se formariam em ambientes oxidantes. Os poucos geoquímicos que ainda sustentam a existência de uma atmosfera redutora o fazem porque ela seria um pré-requisito para a abiogênese. Mas numa discussão sobre os fundamentos da própria abiogênese esse argumento seria claramente circular.

Descobri também que, mesmo que a atmosfera redutora fosse admitida, ela não poderia gerar um oceano cheio de pequenas moléculas orgânicas. Alguns cientistas demonstraram que as concentrações de tais substâncias seriam ainda menores que nos oceanos atuais, da ordem de 10-5 mol/l, insuficiente para gerar reações de polimerização. Além disso, tais reações teriam deixado certos resíduos nas rochas desse período, os quais estão inteiramente ausentes.

Mesmo com um oceano contendo essas substâncias em solução concentrada, porém, o problema não acabaria. Reações de formação de ligações peptídicas (o tipo de ligação química que reúne aminoácidos para formar proteínas e outras coisas), por exemplo, têm a água como um de seus produtos. Em meio aquoso, portanto, a reação praticamente não ocorre, como demonstra uma regra elementar dos equilíbrios químicos. Foram feitas estimativas, baseadas em considerações termodinâmicas, da concentração esperada de cadeias peptídicas relativamente longas (cem aminoácidos, o que poderia ser uma proteína muito pequena) em soluções bastante concentradas. A resposta foi a seguinte: para que o número esperado de cadeias formadas chegasse a um, seria necessário um oceano de volume inconcebivelmente maior que o do universo visível.

Foram feitas algumas interessantes tentativas de substituir a "sopa primordial" por outros cenários mais plausíveis; não os descreverei, já que os livros-texto de biologia que conheço também não os descrevem. Mas um problema comum enfrentado por todos eles é a total incapacidade de produzir cadeias que contenham informação biologicamente útil. Uma cadeia de aminoácidos não é necessariamente uma proteína biológica, assim como uma seqüência de letras não é necessariamente um texto. E basta um cálculo simples para demonstrar a inviabilidade da produção de algo tão altamente ordenado (como uma proteína ou um texto) a partir de um arranjo aleatório de seus constituintes.

Some-se a tudo isso a presença constante de reagentes competidores (como estereo-isômeros e aminoácidos não-protéicos) e outras impurezas que inviabilizariam ainda mais a ocorrência das reações necessárias ao surgimento da vida; também o fato de que os compostos altamente complexos de que a vida necessita precisariam não apenas se formar, mas também fazê-lo num mesmo local e momento, e arranjar-se de maneira precisa para constituir um ser vivo, por mais simples que este fosse; e ainda o fato de que os pesquisadores experimentais do ramo costumam realizar suas experiências a partir de reagentes altamente purificados dispostos em quantidades precisamente medidas, com a temperatura e outros fatores cuidadosamente controlados, e pretendem que seus resultados sejam uma descrição fidedigna da Terra primitiva.

Este é o momento adequado para fazer alguns esclarecimentos. O primeiro é que a descrição acima não é, e não pretende ser, completa ou rigorosa. Cada um dos tópicos levantados merece uma discussão bem mais profunda, e muitos outros problemas eu simplesmente deixei de fora. O que estou tentando fazer aqui é apenas dar ao leitor não familiarizado com o assunto uma noção da enormidade do problema. Os argumentos científicos são chatos, mesmo nesse nível tremendamente superficial em que os expus; e na verdade não é necessário sequer ter entendido inteiramente tudo o que eu disse para acompanhar o que vou dizer daqui em diante. Por isso, nessa visão panorâmica que acabo de fornecer, optei pela brevidade em detrimento do rigor, e mesmo da clareza.

Quem acompanhou o texto até aqui será agora recompensado pela revelação do que pretendo com o mesmo. Certamente não vou criticar os cientistas que trabalham nesse campo, os quais considero dignos de todo o respeito por sua coragem e perseverança, já que enfrentam uma questão absurdamente difícil e persistem nela mesmo depois de várias décadas de total insucesso. Vale mencionar também que seus fracassos em desvendar a origem da vida já trouxeram importantes contribuições a outros campos da ciência. A questão que me preocupa é simples: o que uma teoria tão fortemente contrariada por toda a evidência disponível está fazendo nas páginas dos nossos livros de biologia?

Deve ser dito em defesa dos autores que eles estão pelo menos parcialmente conscientes do problema. Não se trata, ao que parece, de ignorância da parte deles. Em todos os livros que li há discretas advertências de que existem ainda alguns pontos não resolvidos na teoria abiogênica (embora não sejam fornecidas ao aluno condições de sequer imaginar quais sejam eles), e são introduzidos aqui e ali a palavra "provavelmente" ou outra com sentido equivalente. O nome mais educado que essa atitude merece, na minha opinião, é o de propaganda enganosa. Do ponto de vista da correspondência com a realidade, qualquer teoria científica deveria ser considerada um lixo se tivesse contra si metade dos argumentos levantados contra a teoria abiogênica. Chamá-la de provável é conceder-lhe valor infinitamente superior ao que de fato possui. E o ato de omitir dos estudantes todos os argumentos contrários (dos quais, repito, citei apenas uma fração) contribui para lhes dar uma visão inteiramente enganosa sobre o assunto.

Naturalmente, os professores de biologia ensinam uma teoria tão absurda apenas porque os pesquisadores não foram capazes de propor nada mais plausível. Se uma teoria melhor vier a surgir, todo mundo abandonará correndo as velhas estorinhas. Mas isso, é claro, não responde inteiramente à questão. Convém indagar por quê os escritores de livros não dizem francamente que ninguém faz a menor idéia de como a origem da vida pode ser explicada cientificamente, e também é importante saber por quê essas pessoas consideram que ensinar uma teoria tão horrível é melhor que admitir a própria ignorância ou simplesmente não tocar no assunto.

A resposta, parece-me, só pode ser uma: a origem da vida, assim como a evolução biológica, é um ponto sensível de divergência entre o público leigo e a comunidade que tem formação científica. O "fundamentalismo bíblico" está sempre à espreita, e qualquer concessão será imediatamente aproveitada por um bando de líderes religiosos fanáticos e ignorantes como prova do triunfo da fé sobre a ciência. Assim, é melhor ensinar gerações inteiras de estudantes um punhado de distorções imaginativas: eles serão privados de umas poucas verdades secundárias, mas com isso aprenderão a crer na ciência.

Se essa minha suposição estiver correta, só tenho a lamentar por isso. Que o ensino de ciências possa servir para ensinar alguma outra coisa no lugar de ciências já me parece algo suficientemente indesejável. Que uma pessoa se sinta no direito de convencer outras de uma tese que não é capaz de defender com argumentos suficientemente bons, apelando assim à simples ignorância dos ouvintes, chega a ser um ato abominável. Acima de tudo, porém, é irônico notar que a avidez dos nossos educadores por evitar que os alunos engulam algo que é considerado como um mito antigo sem fundamento científico acaba fazendo com que lhes enfiem goela abaixo como verdade científica um mito moderno com fundamentos no mínimo igualmente precários.

15 de janeiro de 2007

Declaração de guerra

Cerca de três anos atrás um colega recomendou-me um certo livro que tratava do Evangelho de Tomé e sua relação com Jesus e o Novo Testamento. Pouco tempo depois eu li o livro e constatei que o autor desconhecia certos fatos que eram fundamentais à compreensão historiográfica do assunto. É suficiente dizer aqui que a tese principal do livro baseava-se implicitamente numa única premissa, a qual, infelizmente para o autor, é demonstravelmente falsa. Inconformado, encontrei o e-mail do cavalheiro na internet, enviei-lhe um texto de apenas quatro páginas expondo minhas principais críticas à idéia central do livro e pedi que ele defendesse seu ponto de vista. Logo recebi em resposta uma carta na qual transparecia toda a bondade e boa educação do escritor, que agradeceu minha atenção e elogiou minha redação. Só não fez a única coisa que eu havia pedido. Sobre isso ele limitou-se a dizer que não era seu objetivo dissuadir ninguém de sua fé, pois cria ser essencial que houvesse respeito e tolerância entre pessoas de convicções teológicas distintas, como de fato não acontecia, por exemplo, no Oriente Médio (foi exatamente esse o contra-exemplo utilizado).

Não pretendo discutir aqui o conteúdo do livro, seja pelos acertos ou pelos erros. Também não pretendo especular se o gentil autor teria ou não respostas coerentes às minhas críticas, coisa que provavelmente nunca saberei com certeza. E tampouco vem ao caso o fato de que ele ignorou totalmente, em sua resposta, o conteúdo histórico da minha crítica, que era o que realmente importava, para concentrar-se apenas na questão religiosa, de que eu tratei apenas secundariamente. Se eu realmente tivesse feito críticas especificamente teológicas o caso não deixaria de ser inteiramente válido como um exemplo (dentre muitos que já presenciei) do que pretendo discutir hoje.

Refiro-me à confusão ou associação indevida de dois conceitos inteiramente diferentes: o de tolerância e o de concordância. Existe na cultura de hoje uma vaga intuição de que as diferenças entre as pessoas (em todos os níveis, incluindo-se aí as diferenças de idéias) são a causa de todas as hostilidades, ou pelo menos de muitas delas. Tanto quanto sei, essa é uma bobagem tipicamente moderna, ou melhor, pós-moderna; e, como normalmente acontece com idéias pós-modernas, essa é flagrantemente autocontraditória. Os tolerantes de outras culturas diriam que os homens devem aprender a conviver pacificamente com as diferenças. Os tolerantes pós-modernos ensinam que isso não basta, sendo necessário eliminar inteiramente os desacordos; ou seja, a tolerância às idéias diferentes deve ser convertida gradualmente em acentuada simpatia e daí em completo acordo; em sua ânsia extrema por respeitar as diferenças, o pós-modernista acaba negando que existam diferenças a respeitar.

Como se pode ver, eu discordo desse procedimento; e aqui reside a segunda contradição do mesmo. Posso discordar de quem sustente tal coisa, mantendo-me assim coerente com meus princípios. A pessoa em questão, entretanto, não pode fazer o mesmo. Ao afirmar que é errado discordar das pessoas, ela estará moralmente obrigada a concordar com quem discorde dela nesse ponto. Se o pós-modernista em questão concordar comigo a fim de evitar a intolerância, cairá obviamente em contradição; se discordar, será, de acordo com seus próprios critérios, um intolerante, caindo mais uma vez em contradição.

A opção restante para qualquer um que aprecie a boa lógica, portanto, é continuar acreditando que a veracidade da afirmação X acarreta necessariamente a falsidade da negação de X. Conseqüentemente, o cidadão que acredita em X deve ter o direito de dizer em voz alta que o cidadão que não acredita em X está errado. Deve também ter o direito de dizer isso na cara dele, e os dois têm o direito de gastar na discussão do assunto tanto tempo quanto lhes convenha. Cada um deles tem também o direito de tentar mostrar ao restante da comunidade que seu ponto de vista é correto, e que o do opositor é uma completa idiotice.

Aqui o nosso amigo pós-moderno provavelmente enxergará uma prova evidente de que a antipatia pela opinião alheia leva fatalmente à antipatia pelo portador da opinião em questão. "Encontra-se aqui", dirá ele, "a origem de toda sorte de intolerância, da perseguição por meios políticos e violentos a todos os dissidentes, culminando no estabelecimento de um pensamento único, hegemônico e totalitário." Mas eu não ficarei muito preocupado com o valor de semelhante objeção, a qual parte de alguém que, desde o começo, optou pela paz universal como valor máximo, erigindo-lhe um templo em cujo altar sacrificou sua própria capacidade de raciocínio. Esse último argumento é apenas mais uma demonstração desse fato.

A tirania não nasce da discussão, e sim do abandono da mesma. Enquanto duas pessoas mantiverem suas desavenças no plano argumentativo não haverá o menor problema. O problema surgirá justamente quando uma das duas não estiver mais disposta a discutir, mas ainda assim estiver disposta a fazer prevalecer seu ponto de vista. Só então a razão cederá lugar à política. As razões morais ou situacionais que podem levar alguém a desistir do convencimento racional e passar a outras formas de persuasão são, sem dúvida, muito variáveis. Permanece, porém, o fato de que, uma vez cessada a discussão, a via da opressão (de qualquer tipo) é a única que resta. O "pensador" pós-moderno, porém, nos ensina que é errado discordar e, portanto, é errado discutir. Eis como a sua grande contribuição à causa da tolerância converte-se automaticamente em um incentivo à atitude diametralmente oposta. E eis também a razão pela qual os Estados mais totalitários que o mundo já viu foram todos movidos pelas ideologias menos sustentáveis racionalmente, e que de fato não tinham em alta conta o debate honesto.

Convém esclarecer que o autor que citei no início não é de modo algum partidário de semelhante besteira. A doutrina que ele defende nada tem de pós-moderna; pelo contrário, considero-a até positivista demais. Citei aquele caso apenas como exemplo vivo de um aspecto do espírito do nosso tempo que eu deploro inteiramente. O referido autor provavelmente deixou-se levar sinceramente, embora irrefletidamente, por uma idéia que está no ar, mas que não pode ser abrigada por sua visão de mundo. Ou talvez ele não tivesse argumentos para refutar minhas críticas, e então utilizou a melhor desculpa que pôde arranjar para fugir da discussão. Mas, não tendo qualquer razão para pensar tão mal de uma pessoa que em tudo se mostrou tão boa, prefiro crer na primeira hipótese.

Tenho uma razão particularmente importante para ter dito tudo isso hoje: é que, como todos terão a oportunidade de ver, eu não consigo ficar muito tempo sem descer a lenha em alguém. Isso em termos puramente argumentativos, é claro. Dados os objetivos a que me proponho neste blog, não posso deixar de discordar de muitas pessoas cuja visão da realidade é diferente da minha, nem me sinto no direito de ignorar as objeções que essas pessoas podem ou poderiam me fazer. E quando eu começar a criticar as idéias dessas pessoas (e a lista de criticáveis eminentes é enorme), espero que ninguém me venha com comparações com os terroristas islâmicos ou outras bobagens desse tipo em nome da tolerância.