1 de março de 2008

Através dos séculos

Na postagem anterior, a terceira da série sobre ecdótica bíblica, expus brevemente alguns fatos sobre a história textual do Novo Testamento, introduzi a questão das famílias de manuscritos e descrevi a primeira delas, a alexandrina. Passo agora a falar sobre as outras três, e a seguir farei alguns comentários gerais sobre o papel desempenhado por cada uma delas nas mais importantes traduções ocidentais do Novo Testamento, especialmente as protestantes.

O texto ocidental tem esse nome não porque sua hegemonia tenha se restringido sempre ao oeste do Império Romano (onde Alexandre Magno nunca dominou e, por conseguinte, não houve helenização e a língua comum era o latim), e sim porque foi apenas nessa região que ele manteve seu domínio ao longo dos séculos, mesmo depois que o Oriente aderiu gradualmente a alguma das demais famílias. É o texto geograficamente mais disperso. A relativa falta de familiaridade com o idioma grego no Ocidente talvez explique em parte a qualidade textual geralmente ruim de seus manuscritos, mas mesmo isso não a explica de todo, pois predominam as alterações intencionais: geralmente interpolações (que chegam, por exemplo, a aumentar em quase 10% o tamanho de Atos), mas também omissões importantes, principalmente no evangelho de Lucas. Também abundam as paráfrases. Não surpreende, portanto, que as divergências internas dentro dessa família sejam muito mais fortes que no caso alexandrino, e seu texto seja o menos confiável de todos. Apesar disso, o texto ocidental é o único a conservar algumas variantes reputadas como autênticas.

Pertence à família ocidental um importante manuscrito uncial em papiro: o Códice Beza, que tem esse nome por ter passado pelas mãos de Teodoro Beza, discípulo de João Calvino, antes de ser doado por ele à Universidade de Cambridge. Foi copiado no quinto século e contém os evangelhos e boa parte de Atos. Pertenceu também a Beza o Códice Claromontano, do século VI, que contém as epístolas paulinas e Hebreus. Seguiram ainda essa família a primeira tradução siríaca do Novo Testamento, bem como todas as traduções latinas anteriores à Vulgata de São Jerônimo, todos os pais latinos dos primeiros séculos (como Irineu, Tertuliano, Cipriano e o herege Marcião) e o Diatessaron, uma tentativa de harmonização dos evangelhos feita no segundo século por Taciano, e que rapidamente se tornou muito popular no Oriente, além das fronteiras do Império. O texto ocidental, como já foi dito, também teve certa aceitação no Oriente, tendo sido adotado pelos pais gregos até o século III e pelos sírios até meados do século V.

O texto cesareense, embora possua certas peculiaridades, é basicamente uma combinação dos dois anteriores, tendendo um pouco mais para o texto ocidental no que diz respeito às variações menos significativas. Apesar disso, o texto cesareense não endossa as interpolações e paráfrases do texto ocidental, e exibe um esforço consciente para a produção de um texto mais elegante. Sua origem deu-se no início do século III, muito provavelmente graças à influência pessoal de Orígenes, que ao se mudar para Cesaréia colocou os cesareenses, até então habituados ao texto ocidental, em contato com a família alexandrina.

Pertence a essa família o Códice Korideto, do nono século, que contém os evangelhos e veio a público em 1901. Também os dois mais importantes grupos de pergaminhos: a Família Lake, composta de cinco manuscritos copiados entre os séculos XII e XIV, e a Família Ferrar, contendo dezessete manuscritos, cuja maioria foi composta entre os séculos XI e XIII. Desse último grupo destaca-se o pergaminho 565, do nono século, o qual contém os evangelhos. Também se basearam no texto cesareense não apenas o próprio Orígenes, depois de sua migração, mas também Eusébio de Cesaréia e Cirilo de Jerusalém, bem como a tradução armênia e a geórgica.

A quarta e última família, a bizantina, surgiu em Antioquia no início do quarto século. Resulta, muito provavelmente, de uma revisão feita por Luciano (que viria a ser martirizado pouco tempo depois) a partir de textos mais antigos que circulavam na região. Sua popularidade logo atingiu Constantinopla, de onde alcançou facilmente o predomínio em todo o Império Romano do Oriente. Esse texto combina características das três famílias que o antecederam: evita a aspereza, insere interpolações (embora sejam bem menos significativas que as do texto ocidental, pois são breves e destinam-se apenas a facilitar a interpretação, explicitando o que está implícito), tem forte tendência a harmonizar passagens paralelas e tornar a leitura mais fácil e fluente. Traz variantes emprestadas das famílias anteriores, mas também acrescenta muitas novas; pelo fato de ser a mais recente das famílias, no entanto, as novidades introduzidas no texto bizantino não têm nenhuma chance de representar a versão autêntica.

Seu mais importante representante para a ecdótica são os evangelhos do já mencionado Códice Alexandrino. Pertence a essa família também a esmagadora maioria dos pergaminhos minúsculos, que são tardios (século IX em diante) e quase sempre de pouco valor para a crítica textual. Porém, eles dão uma idéia do quanto se popularizou o texto bizantino em toda a cristandade, especialmente a grega. O texto bizantino também influenciou a Europa pela tradução gótica feita no quarto século por Wulfila, o "apóstolo dos godos", e pela tradução eslava de Cirilo e Metódio, no século IX, embora nenhuma delas seja puramente bizantina.

Do exposto, nota-se claramente que todas as variantes verdadeiras originam-se, em última análise, do texto alexandrino ou do ocidental; do primeiro, na maioria dos casos, razão pela qual a maior parte dos manuscritos importantes pertence a essa família. Porém, foi exatamente o texto alexandrino o menos conhecido e menos influente ao longo da história da cristandade, até meados do século XIX. Convém, portanto, examinarmos brevemente essa história à luz do conhecimento que agora temos, a fim de verificar de que maneira todas essas complicadas questões influíram na forma como os cristãos do Ocidente conheceram a Bíblia ao longo dos séculos.

A partir do quarto século, quando as condições de produção e transmissão dos textos bíblicos melhoraram em todos os sentidos possíveis, houve, naturalmente, uma forte tendência à uniformização do texto adotado em todo o Império do Oriente. O texto que se impôs, conforme mencionado acima, foi o bizantino, graças à tremenda influência de Constantinopla. A uniformização teve início já no quinto século, e completou-se por volta do oitavo. No Ocidente prevaleceu o texto ocidental, principalmente através da Vulgata de São Jerônimo, pois este seguiu fortemente, para traduzir o Novo Testamento, versões latinas mais antigas que, aliás, também se perpetuaram. Mesmo assim, o texto bizantino não era desconhecido ali. A tendência na Europa Ocidental foi a existência de alguma mistura entre os dois textos; e, na verdade, nem a própria Vulgata escapou totalmente das variantes bizantinas.

A partir do século XV, a imprensa e o Renascimento trouxeram, respectivamente, um acesso facilitado e um renovado interesse pelos manuscritos gregos entre os eruditos da Europa católica. E, a partir do século XVI, os intelectuais protestantes foram levados ao mesmo caminho naturalmente pela centralidade da Bíblia em sua doutrina. Porém, a primeira edição impressa do Novo Testamento completo em grego só surgiu em 1516, e foi produzida por Erasmo de Rotterdam. Nela, porém, foram usados apenas seis manuscritos, sendo um deles cesareense e os demais bizantinos, e nenhum anterior ao século XII. Seguiu-se logo uma edição espanhola, como parte da monumental Bíblia poliglota complutense, baseada em manuscritos fornecidos pelo próprio Vaticano, cuja qualidade textual era melhor, mas não muito. Porém, o Novum Tetamentum de Erasmo tornou-se mais popular, por ter sido publicado primeiro e ser consideravelmente mais barato, e foi a partir dessa versão que Lutero elaborou sua tradução do Novo Testamento para o alemão.

Na verdade, todas as traduções protestantes anteriores a 1881 - inclusive a primeira versão em língua portuguesa, de João Ferreira de Almeida - basearam-se num texto basicamente idêntico ao de Erasmo, popularizado pelas edições do parisiense Roberto Estéfano e do já mencionado genebrino Teodoro Beza, que lhe fizeram pouquíssimas alterações, embora este último tenha acrescentado muitas informações relevantes para a crítica textual nas notas marginais. Essas duas edições foram, inclusive, utilizadas na produção da célebre King James Version inglesa. Almeida utilizou uma edição produzida em 1633 pelos irmãos Elzevir, dois editores holandeses.

Essa mesma edição foi responsável pela popularização da expressão "textus receptus" ("texto recebido") para designar a versão grega que seria utilizada daí em diante por muito tempo pelos eruditos protestantes, convictos de que era fiel aos originais em cada uma de suas letras. Na verdade, como já foi dito, essa versão era apenas o texto de Erasmo com pequenas adaptações: era um texto basicamente bizantino e, portanto, representante da mais recente família textual. Quase todos os tradutores e exegetas, porém, aferraram-se ao textus receptus, em parte como reação às críticas racionalistas. A despeito da pesquisa séria e dos inúmeros avanços da crítica textual, com a constante descoberta e publicação de manuscritos e a elaboração de aparatos críticos cada vez mais completos, o textus receptus continuou a ser publicado e defendido. A resistência foi sendo vencida muito lentamente; a primeira edição a fugir do texto recebido foi publicada apenas em 1719 por Edward Wells, de Oxford, e mesmo assim foi um esforço isolado e sem grandes conseqüências. Pouco depois, porém, Richard Bentley, de Cambridge, declarou guerra aberta ao textus receptus, acusando-o de ter se tornado tão deletério ao protestantismo quanto a Vulgata para o catolicismo, e basicamente pelas mesmas razões. Muitos debates ocorreram a partir daí, e muitos eruditos tomaram parte nele. Houve também importantes contribuições de alguns estudiosos católicos, embora, de modo geral, a questão lhes interessasse menos, talvez pelo fato de a Vulgata ter sido declarada suficiente pelo Concílio de Trento. De qualquer forma, o peso da evidência acumulada acabou dando ganho de causa aos partidários de Bentley, mas apenas dois séculos mais tarde.

Graças a milhares de pessoas que se dedicaram a essas pesquisas durante cinco séculos - e também, é claro, à multidão anônima dos cristãos copistas dos quinze séculos anteriores - podemos hoje dizer, com absoluta segurança, que dispomos de um texto muitíssimo próximo do original. Essa afirmação também não poderia ser feita, entretanto, sem a evolução dos critérios usados para escolher corretamente entre as variantes textuais disponíveis. Será esse o assunto abordado a seguir.

26 de fevereiro de 2008

As antigas famílias

Neste post darei continuidade à série de textos sobre a crítica textual da Bíblia. No primeiro texto falei sobre as causas da corrupção textual dos textos bíblicos ao longo dos séculos, e no segundo citei uma porção de exemplos. Agora vou discorrer brevemente sobre certos aspectos da história da transmissão textual: a formação das famílias de textos e a influência das mesmas. Esse tema ocupará este post e o próximo. Visto que a história do texto neotestamentário é consideravelmente diferente da do texto hebraico do Antigo Testamento, concentrarei hoje a atenção no primeiro e deixarei o segundo para depois.

As circunstâncias que envolviam a comunidade cristã do primeiro século, no seio da qual os textos do Novo Testamento foram compostos e espalhados por boa parte do Império Romano, eram bastante desfavoráveis: houve intensa perseguição judaica e romana; algumas partes foram compostas em prisões; os recursos eram escassos, e não parece ter havido, na maior parte dos casos, qualquer participação de escribas profissionais. O mesmo se pode dizer quanto às primeiras cópias, que começaram a ser trocadas ainda no primeiro século pelas igrejas portadoras dos manuscritos originais; nesse processo, os copistas quase certamente eram cristãos bem intencionados, mas amadores. Não houve uma edição oficial reunindo os textos, e muito menos uma comissão competente destinada a avaliar as variantes e produzir um texto mais correto, como era costume entre os escribas judeus, e mesmo entre os eruditos pagãos. Os originais, tecnicamente denominados "autógrafos", provavelmente se deterioraram rapidamente pelo uso constante. Nesse cenário, é facilmente compreensível que uma multidão de erros rapidamente surgisse e se propagasse. Quando, no século IV, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império, e passaram a existir condições mais favoráveis a uma transmissão fidedigna, a diversidade dos manuscritos existentes já era enorme desde muito tempo antes. Queixas nesse sentido já eram feitas por Orígenes no início do terceiro século. E, de fato, grande parte das mais importantes variantes textuais com que lidam os especialistas de hoje surgiu antes do ano 200.

Apesar de os textos que acabaram integrando o cânon neotestamentário terem se espalhado pelo Império e para além dele, a baixa condição social da maior parte dos primeiros cristãos, bem como a própria perseguição movida contra a igreja pelas autoridades, dificultava o contato entre comunidades de regiões distantes. Assim, cada região desenvolveu sua própria tradição textual de maneira mais ou menos independente, dada a rara disponibilidade de manuscritos provenientes de outras regiões para comparação. Assim, embora os textos possuídos por duas comunidades jamais fossem idênticos entre si, eles tendiam a ser mais semelhantes aos geograficamente mais próximos do que aos mais distantes, inclusive por terem, em muitos casos, uma maior proximidade "genealógica". Ocasionalmente, é claro, a comparação entre textos diferentes tornava-se possível, e o copista produzia um texto misto. Mas esse fenômeno era relativamente raro antes do quarto século. De qualquer forma, como era de se esperar, os textos existentes acabaram se reunindo, com o passar do tempo, em torno das versões possuídas pelos mais importantes centros da igreja primitiva: Alexandria, Roma, Éfeso e Antioquia. Mas Roma logo eclipsou Éfeso, Cesaréia cresceu em importância e, mais tarde, Constantinopla surgiu e tomou a posição de destaque de Antioquia, de modo que as quatro grandes famílias de textos ligam-se, embora de maneiras diversas, a estas quatro cidades: Alexandria, Roma, Cesaréia e Constantinopla. As versões representadas por cada uma delas denominam-se, respectivamente, texto alexandrino, ocidental, cesareense e bizantino.

O estabelecimento da existência dessas famílias foi feito através de uma análise comparativa de centenas de manuscritos antigos, levando em conta sua data de composição e a região de procedência. Muitas informações relevantes também foram extraídas da literatura patrística, tanto pelo que ela permite entrever da história da igreja cristã como um todo quanto pelas citações ou alusões que fazem aos textos do Novo Testamento. Levando em conta o local e a época em que viveram os pais da igreja, as citações feitas por eles também dizem algumas coisas relevantes sobre o tipo de texto que era usado por cada um. Também é relevante o estudo das muitas traduções para outras línguas (siríaco, latim, copta e outras) feitas nos primeiros séculos da era cristã. Examinando exaustivamente todos esses dados, os especialistas em ecdótica neotestamentária puderam demonstrar a existência, por trás da enorme confusão que impera entre os manuscritos (a ponto de não existirem dois deles com textos idênticos), de uma divisão em quatro categorias principais, conforme mencionado acima. Da mesma forma, puderam também demonstrar que essas quatro famílias se vinculam geograficamente aos quatro centros já mencionados (embora nem tanto no caso de Roma, como ficará claro adiante).

Antes de passarmos à descrição de cada uma delas, deve ficar claro que nenhum dos quatro textos corresponde inteiramente ao original, e também que nenhum deles foi obtido a partir de um único manuscrito. O texto alexandrino, por exemplo foi obtido por abstração a partir das tendências predominantes dos manuscritos pertencentes a essa família, o mesmo ocorrendo com as demais famílias. E quando se deseja saber a qual família pertence um novo manuscrito, conta-se a quantidade de desvios em relação ao texto padrão de cada uma das quatro famílias. Se o número de variantes em relação a uma das famílias é significativamente menor que em relação às demais, considera-se que o manuscrito em questão pertence definidamente àquela família. Se isso não ocorre, é porque o texto analisado é resultado direto ou indireto de uma revisão, por parte de um copista, de um manuscrito de uma família com base no de outra. Dizendo isso de maneira mais simples: trata-se de uma manuscrito misto.

Alexandria era a capital intelectual do mundo mediterrâneo na época; ali surgiu o neoplatonismo, bem como alguns dos mais notáveis pensadores judeus (como Fílon) e cristãos (como Clemente e Orígenes) da Antigüidade. Sua biblioteca contava com cerca de setecentos mil volumes, e desde o século III a.C. eram realizados estudos de crítica textual a partir de manuscritos antigos, principalmente das obras de Homero. Havia nessa cidade uma numerosa comunidade judaica, e o cristianismo a atingiu muito cedo. Porém, o contato direto dos seus crentes com os apóstolos parece ter sido muito reduzido ou mesmo nulo, de modo que os cristãos alexandrinos dependiam, mais do que os outros, dos textos como fonte de informações corretas. Todos esses fatores contribuíram para fazer da família alexandrina a mais confiável de todas. A divergência de seus exemplares entre si (e portanto em relação ao texto alexandrino padrão) é consideravelmene pequena. E, em comparação com as demais famílias, o texto alexandrino normalmente apresenta versões mais breves, e não contém os floreios lingüísticos que aparecem nelas com freqüência.

Pertencem a essa família vários dos manuscritos mais relevantes para a ecdótica atual, como os papiros Chester Beatty, copiados no início do terceiro século e descobertos nos anos 30 do século passado, e que contêm trechos dos evangelhos e de Atos, grande parte das epístolas paulinas e da Epístola aos Hebreus e a porção central do Apocalipse. Inclui também os papiros Bodmer II, XIV e XV, descobertos em 1955, e que contêm a quase totalidade de Lucas e boa parte de João. Entre os pergaminhos unciais temos: o Códice Sinaítico, que contém o Novo Testamento completo, copiado na primeira metade do quarto século e descoberto em meados do século XIX; o Códice Vaticano, composto na mesma época e pertencente à Biblioteca do Vaticano desde o século XV, pelo menos, embora seu conteúdo só tenha sido publicado em 1857, e que contém o Novo Testamento quase completo; o Códice Alexandrino, composto um século depois, que também contém o Novo Testamento quase todo, e publicado na Inglaterra em 1657 (os evangelhos, porém, seguem o texto bizantino); o Códice Efraimita, copiado no século V, possuindo fragmentos de quase todos os livros neotestamentários, e publicado no século XIX. Inclui ainda três dos mais importantes manuscritos minúsculos (isto é, escritos em letras "minúsculas" ou cursivas, e quase sempre em pergaminho), designados pelos números 33, 1739 e 2053. O primeiro e mais importante data do século IX e contém todo o Novo Testamento, com exceção do Apocalipse; o último, ao contrário, contém apenas o Apocalipse, e data do século XIII; e o segundo, contendo Atos e as epístolas, foi composto no século X e descoberto em 1879. Também se basearam nessa família de textos as duas mais antigas traduções coptas, feitas nos séculos III e IV, assim como Clemente e Orígenes, embora este tenha deixado de usá-lo depois de sua migração para Cesaréia.

A importância disso tudo ficará mais clara adiante, quando será possível comparar esses dados com os dos principais manuscritos das demais famílias. Mas pode-se notar desde já que boa parte dos manuscritos alexandrinos tidos hoje como os mais importantes só se tornaram conhecidos pelos eruditos do Ocidente em tempos relativamente recentes, embora esforços de crítica textual venham desde o século XVI. Dado que, conforme já foi dito, a família alexandrina é a mais próxima do original, o que isso significa é que, a despeito das boas intenções dos tradutores e exegetas europeus mais antigos, dispomos hoje de textos mais próximos do original do que os que esses homens tiveram em mãos. No próximo post falarei sobre as outras três famílias textuais.

22 de janeiro de 2008

Palhaçadas memoráveis

O momento é propício para o cumprimento de uma das dezenas de promessas que fiz neste blog ao longo do ano passado. Essa que pretendo cumprir hoje foi feita em agosto, na postagem intitulada Fragmentos de sensatez, em que publiquei uma porção de frases de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), um dos meus escritores e pensadores preferidos. Neste mês, para alegria do público leitor cristão deste país, a Editora Mundo Cristão está publicando a tradução, a um preço bem acessível e prefaciada por Phillip Yancey, de um de seus melhores e mais famosos livros, o Orthodoxy, que está completando um século de existência. Ortodoxia é um livro belo, profundo, agradável e edificante; um dos melhores que já li, sem dúvida alguma. Concordo com Dale Ahlquist quando ele diz que todos deveriam não apenas ler esse livro, mas lê-lo todos os anos. O texto em inglês já é de domínio público, e pode ser acessado neste endereço. Quem preferir a tradução da Mundo Cristão pode comprá-la ou entrar em contato comigo, pois a tenho em formato PDF. (Não se trata de pirataria, é bom deixar claro; a própria editora produziu o arquivo e o disponibilizou promocionalmente em sua página por tempo limitado.) Mas não é sobre o livro que pretendo falar hoje, e sim sobre o autor. Ou, dizendo mais exatamente, sobre o estilo literário e argumentativo do autor, que justificaria por si só a minha admiração por ele, caso o conteúdo transmitido não fosse ainda melhor. Não sou, é claro, nenhuma autoridade no assunto, já que não li mais que sete dos seus livros. Mas isso foi mais que suficiente para que saltassem aos meus olhos certos aspectos sempre presentes na sua prosa. Quem quiser amostras pode ler o ensaio Em defesa do culto à criança, que traduzi e publiquei aqui em outubro, num post chamado Novas criações, e também o texto Sobre a leitura, traduzido e publicado há poucos dias pelo meu amigo Gustavo Nagel em seu blog.

Para mim, a maneira mais fácil de começar a descrever o estilo de Chesterton é comparando-o com um outro grande escritor europeu, Friedrich Nietzsche. A equiparação dos dois é imprópria sob muitos aspectos; aliás, sob quase todos. Mas os contrastes também ajudam na compreensão, assim como as semelhanças. E no momento, embora muitas comparações pudessem ser feitas, interessam-me apenas uma semelhança e uma diferença. A semelhança está no modo de expressão pouco usual, infindavelmente criativo, e no estilo de argumentação cheio de uma carga emocional própria e inconfundível e de apelos constantes à imaginação do leitor, um estilo repleto de figuras de linguagem e imagens mentais, avesso a uma clara e rígida seqüência de silogismos. "Poético" é a melhor palavra que encontro para definir tudo isso. Nietzsche e Chesterton são, ambos, poetas-filósofos. A diferença, quanto a esse aspecto específico, é que Nietzsche é muito poeta e pouco filósofo, enquanto Chesterton é muito de ambas as coisas. Essa diferença decorre dos próprios objetivos e pressupostos teóricos de cada um, mas não entrarei nesse assunto agora. O que importa é o resultado concreto em cada caso: Chesterton não apresenta seu argumento de maneira nua, mas o mostra devidamente fantasiado; talvez não seja injusto dizer que nos seus textos o argumento quase sempre aparece fantasiado de palhaço. Mas a fantasia se destina a chamar a atenção para o palhaço, a quebrar o torpor dos automatismos mentais que insistem em torná-lo imperceptível, não a ocultá-lo, e muito menos a substituí-lo. O leitor que empreender o esforço de separar mentalmente a retórica da dialética nos textos de Chesterton não ficará decepcionado; por baixo da fantasia haverá, ao menos na esmagadora maioria das vezes, um sólido argumento. No caso do tão celebrado escritor alemão, ao contrário, costuma restar apenas um punhado de contradições e arbitrariedades. É muito significativo examinar, sob esse ponto de vista, a maneira pela qual Chesterton utiliza o paradoxo, do qual, como já mencionei mais de uma vez, ele era considerado um autêntico mestre. Mas ele distinguia entre o paradoxo desprezível, definido no próprio Ortodoxia como "uma defesa meramente engenhosa do indefensável", e o paradoxo autêntico e válido, que é "a verdade plantando bananeira para chamar a atenção", conforme ele a definiu em The paradoxes of Mr. Pond.

Não deixa de haver alguma dose de justiça na crítica, feita por alguns, de que Chesterton às vezes é um tanto obscuro. Isso se explica pelo fato de que ele é um daqueles sujeitos raros aos quais se aplica perfeitmente a frase que alguém usou para descrever o físico Murray Gell-Mann: "Ele tem cinco cérebros, e cada um deles é melhor que o nosso". Se Chesterton tinha cinco cérebros eu não sei, mas o fato é que não demonstra ter a menor dificuldade para pensar em cinco coisas ao mesmo tempo. Ele foi, mesmo antes da conversão ao cristianismo, um profundo conhecedor da natureza humana (e é por isso mesmo que acabou se convertendo), e as mais tênues e ignoradas conexões entre as coisas apareciam claramente aos seus olhos. Eis porque seus livros costumam conter alusões a uma miríade de temas, seja qual for o assunto principal. Isso contribui para fazer dele um escritor nada convencional, a ponto de levá-lo a aparecer como mero coadjuvante em sua própria autobiografia. (Ahlquist explica esse interessante fenômeno afirmando que Chesterton era humilde demais para gastar muito tempo pensando em si mesmo, e eu creio que ele tem razão.) Chesterton percebe intuitivamente certas verdades que mesmo as inteligências mais capazes dificilmente apreendem sem esforço, e isso contribui para fazer dele um escritor brilhante; mas também é em virtude do admirável poder de síntese decorrente daí que a leitura pode, ocasionalmente, se tornar algo penosa. O esforço compensa, sem dúvida, mas Chesterton requer atenção total; lê-lo distraidamente, ou com sono, é quase um sacrilégio, porque é um tremendo desperdício. Mas mesmo nos raríssimos momentos em que chega perto de ser chato, sua chatice não é de modo algum comparável à típica prolixidade acadêmica, quer do ponto de vista qualitativo, quer do quantitativo. Jamais usa vocabulário técnico; jamais é pedante; jamais peca pela falta de imaginação. Nesse sentido, o máximo de que se pode acusá-lo é de cometer excessos.

Entretanto, a vasta maioria das críticas que lhe fizeram era grosseiramente injusta. Muitos viram nele um sujeito frívolo, um sofista, nada mais que uma fonte inesgotável de frases brilhantemente criativas e bem-humoradas, mas vazias. Quem pensa assim não chegou perto sequer de compreender aquela notável figura, e muito menos de ter o direito de julgá-la. Desconfio que esse veredicto pode ser atribuído, quando não à pura má vontade do crítico, ao menos à sua falta de sensibilidade. Os textos de Chesterton se assemelham às próprias Escrituras Sagradas em certo aspecto: seu estilo é tal que ensina muito a quem se empenha sinceramente em compreendê-lo, ao mesmo tempo que o torna opaco aos que não desejam fazê-lo devidamente. Assim, é facílimo atribuir a ele as idéias mais bestas e contraditórias, e corroborar com citações cada acusação feita nesse sentido. Citar Chesterton é freqüentemente uma tentação irresistível, mas é também um tanto perigoso. A continuidade de sua argumentação e a consistência de seu pensamento são fortes a tal ponto que as frases que ele inseriu num texto normalmente já não são as mesmas quando retiradas dele. O leitor cuja consciência fragmentada é incapaz de apreender essa continuidade e essa consistência poderá elaborar uma lista infindável de ditos absurdos, sem jamais chegar a suspeitar das realidades subjacentes. Mesmo assim, acredito ser impossível que alguém permaneça imune à sua grandeza. O indivíduo incapaz de ler com todo o seu ser, empenhando adequadamanente a razão, a emoção e a imaginação, é incapaz de compreender Chesterton; ainda assim, sua leitura será, seguramente, um dos melhores antídotos possíveis para esse mal interior. Mesmo quando está errado, Chesterton tem alguma verdade a comunicar, e a exprime de uma maneira surpreendente, nada convencional. Aqueles inapelavelmente comprometidos com a rejeição dos valores defendidos por ele só têm uma saída: ignorá-lo por completo. E essa é, aliás, justamente a estratégia adotada pelo mundo moderno.

Não posso encerrar estas breves e altamente fragmentárias considerações sem dizer que todas essas características que acabo de descrever não são resultado de uma premeditação brilhante feita por uma mente excepcionalmente capaz. A espontaneidade transparece em cada uma de suas linhas, e sem ela ninguém poderia ter escrito tanto e tão bem. Quando comecei a ler Chesterton desconfiei, a despeito das aparências, que algum rebuscamento deveria estar por trás de tamanho brilho. Mas logo me convenci de que não era nada disso. Pois todos os testemunhos de pessoas que o conheceram pessoalmente e todas as transcrições de debates e entrevistas em que tomou parte mostram exatamente aquela mesma personalidade que se revela nos livros. Percebi, então, que a razão pela qual devemos ler Chesterton com todo o nosso ser não é outra senão o fato de que era dessa forma que ele escrevia. Seus textos são espontâneos, profundos, criativos e alegres porque ele próprio era espontâneo, profundo, criativo e alegre. Tudo muito simples, mas nem por isso menos surpreendente.

16 de janeiro de 2008

Pedaços de bagunça

Dando prosseguimento ao tema iniciado em A origem da bagunça, em que descrevi as mais importantes causas da existência das variações que são objeto de estudo da crítica textual, este post ilustrará os casos ali descritos com exemplos retirados dos textos bíblicos, tanto hebraicos quanto gregos. Considero importante esse procedimento a fim de evitar que a descrição precedente se mostre demasiado abstrata, e assim induza a concepções erradas sobre a profundidade e a importância relativa das variantes textuais. Quase todos os exemplos foram retirados dos livros já citados de Paroschi e Archer. Usei exemplos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento sempre que foi possível, mas em alguns casos não fui capaz de localizar exemplos apropriados de um ou de outro. Em particular, a última parte não contém exemplos veterotestamentários, por razões já explicadas no post anterior.

Cabe observar que, seguindo a recomendação de Franz Schalkwijk em seu livro Coinê, uma introdução ao grego helenístico, optei por distinguir entre as letras epsilon e êta, kapa e khi, omicron e ômega, transliterando-as como "e" e "ê", "k" e "kh", "o" e "ô", respectivamente. Na verdade, Schalkwijk recomenda um traço horizontal no lugar dos acentos circunflexos, mas fiz essa substituição por temer que o navegador de algum leitor apronte uma confusão qualquer. Nem todos os autores que lidam com o assunto seguem a convenção proposta no livro didático mencionado. Julguei útil a sugestão de Schalkwijk por eliminar de modo relativamente simples as ambigüidades na transliteração. Esse método paga o preço de ignorar os sinais diacríticos, mas isso não chega a ser um grande problema, visto que eles não fazem parte dos manuscritos neotestamentários mais antigos. Dessa forma, deve ficar claro que a presença dos referidos acentos não diz muito sobre a pronúncia das palavras onde aparece e, em particular, não diz nada sobre a tonicidade das mesmas.

Alterações não intencionais

A. Causadas pela falta de atenção do copista;

1. Trocas de posições entre letras ou palavras. Isaías 32.19 diz: "ainda que haja saraivada, caia o bosque e seja a cidade inteiramente abatida." "A cidade" é "h'yr", mas alguns manuscritos dizem "hy'r", que significa "a floresta". Na descrição da agressão a Jesus perante o Sinédrio, em Marcos 14.65, é dito que "os guardas o receberam com bofetadas". Mas há versões que substituem "receberam" ("elabon") por "arremessaram" ("ebalon").

2. Trocas de palavras por sinônimos. Podem ser encontrados exemplos em dezenas de passagens do Novo Testamento nas quais aparece a preposição "peri", sendo substituída por "hyper", ambas tendo, nesses contextos, sentido semelhante a "sobre".

3. Repetição de uma seqüência de caracteres. Ezequiel 48.16, que fornece as dimensões da futura cidade santa, descreve-a como um quadrado de quatro mil e quinhentos côvados de lado, mas o texto massorético diz "cinco quinhentos" ("hsm hsm m'wt") ao invés de apenas "quinhentos" ("hsm m'wt"). Um exemplo do mesmo tipo pode ser visto em Atos 19.34, onde há manuscritos que reproduzem duas vezes a frase "Grande é a Diana dos efésios!".

4. Supressão de uma seqüência de caracteres repetida. No contexto da guerra movida contra a tribo de Benjamim pelas demais tribos de Israel em retaliação à morte cruel imposta por membros daquela tribo à esposa de um certo levita, nos é dito que "Benjamim não quis ouvir a voz de seus irmãos" (Juízes 20.13) quando foi exigida a morte dos criminosos. Essa versão segue o texto massorético. Porém, provavelmente a versão correta foi preservada na Septuaginta, que, em vez de simplesmente "Benjamim", diz "os filhos de Benjamim". A diferença é causada pela repetição de três letras ("bnymn" e "bny bnymn", respectivamente). Em 1 Tessalonicenses 2.7 Paulo afirma de si e seus companheiros: "nos tornamos crianças entre vós". Mas alguns manuscritos dizem "nos tornamos carinhosos entre vós". A diferença deve-se à supressão de um letra repetida: "egenêthêmen nêpioi" no primeiro caso, e "egenêthêmen êpioi" no segundo.

5. Supressão de uma seqüência de caracteres não repetida. O profeta Isaías diz, em 8.11, que Deus lhe falou "com a força da mão" sobre ele, segundo o texto massorético, mas "com força de mão", sem artigos, de acordo com um manuscrito encontrado em Qumran. A diferença no hebraico deve-se a apenas uma letra: no primeiro caso, escreve-se "bhzqt hyd"; no segundo, "bhzqt yd".

6. Supressão de uma seqüência de caracteres entre duas palavras iguais. O texto massorético e o Targum dizem em 1 Samuel 14.41 apenas o seguinte: "Falou, pois, Saul ao Senhor, Deus de Israel." Mas a Septuaginta diz: "Falou, pois, Saul: Ó Senhor, Deus de Israel, por que tu não respondes hoje ao teu servo? Se a injustiça é comigo ou meu filho Jônatas, dá prova; e se tu dizes que é com o teu povo Israel, dá santidade, ó Senhor, Deus de Israel." A maior parte de Lucas 18.39 foi omitida em certos manuscritos pelo fato de estar entre duas frases idênticas: "E os que iam na frente o repreendiam para que se calasse; ele, porém, cada vez gritava mais".

B. Causadas por dificuldades "físicas";

1. Fusão de duas palavras em uma. No meio da descrição dos rituais do Dia da Expiação é dito que Arão deveria lançar sortes "sobre os dois bodes: uma para o Senhor, e a outra para o bode emissário" (Levítico 16.8), como diz a Septuaginta. Mas o texto massorético diz "para Azazel" ("l'z'zl"), criando um sério problema exegético mediante a introdução de um nome próprio inteiramente desconhecido em lugar de "para o bode emissário" ("l'z 'zl"). Um caso mais brando encontra-se no final da resposta de Jesus ao desejo de Tiago e João pela proeminência no reino vindouro. Segundo alguns manuscritos, Jesus disse: "all ois êtoimastai", "porque é para aqueles a quem está preparado". Segundo outros, a resposta foi "allois êtoimastai", "isso está preparado para outros".

2. Cisão de uma única palavra em duas. Já foi sugerido que a forma original de Ezequiel 7.4 seria "segundo teus caminhos, tuas abominações estarão no meio de ti", e não "porque teus caminhos e tuas abominações estarão no meio de ti". A diferença teria sido causada pela cisão de "kdrkyk" em "ky drkyk".

3. Substituição de uma letra por outra de aparência semelhante. Para um exemplo em hebraico, vide o item C.2, abaixo. Em grego temos semelhanças entre as letras alfa, delta e lambda e entre epsilon e sigma, para dar exemplos apenas na forma uncial (ou "maiúscula") do alfabeto. Assim, Atos 15.40 diz que "Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu...", mas há manuscritos que dizem "tendo recebido" ("epidexamenos") ao invés de "tendo escolhido" ("epilexamenos").

4. Substituição de palavras por outras de som idêntico ou semelhante. A confusão entre "l'" ("não") e "lw" ("para ele"), de pronúncia idêntica, causou alteração no sentido de Isaías 9.3. Enquanto o natural seria "Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste", alguns manuscritos dizem "a alegria não aumentaste". Outro exemplo bem famoso encontra-se na declaração de Paulo em Romanos 5.1: há uma versão que diz "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus...", enquanto outra traz "tenhamos" ("ekhômen") no lugar de "temos" ("ekhomen").

C. Causadas por incompreensão por parte do copista;

1. Evolução da pronúncia. Um bom exemplo hebraico desse fenômeno vincula-se ao caso descrito abaixo, no item 3. No grego, temos a diminuição gradual da distinção fonética entre êta e epsilon, resultando em equívocos como o de Marcos 14.31, onde um copista escreveu "mê" em vez de "me", resultando na seguinte frase de Pedro: "Se não for necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei".

2. Evolução da forma das letras. Em certos períodos da história paleográfica do hebraico, as letras daleth e resh (D e R) tornaram-se praticamente indistinguíveis, assim como as letras vav e yod (W e Y). Daí decorrem, por exemplo, várias diferenças na grafia de nomes próprios, como de Dodanim para Rodanim em Gênesis 10.4 e 1 Crônicas 1.7.

3. Evolução das regras gramaticais. Especialmente durante os séculos III a I a.C., as letras alef, he, vav e yod (', H, W e Y, respectivamente) foram usadas como indicações da presença de certas vogais, tendo sido deixado parcialmente de lado seu uso original como consoantes. A causa provável disso está no fato de que o uso do aramaico se difundiu muito, e muitas pessoas perderam a familiaridade natural com o hebraico. Quando os soferim (uma ordem de escribas) decidiram restabelecer o texto original e eliminar a inovação relativamente recente, cometeram alguns erros, de modo que certas alterações desse tipo não foram corrigidas. Assim, o texto massorético de Amós 2.7, preservando um alef adicional, diz "pisoteiam a cabeça dos pobres" ("hs'pym") em vez de "ferem a cabeça dos pobres" ("hspym").

4. Incorporação de notas marginais. Uma nota desse tipo é o versículo 4 do quinto capítulo de João, que explica a razão da permanência de tantos inválidos junto ao tanque de Betesda. Ainda em João, outro provável enxerto, embora não se trate propriamente de uma nota explicativa, é o longo episódio da mulher adúltera, entre 7.53 e 8.11, um dos casos mais curiosos da ecdótica neotestamentária.

Alterações intencionais

1. Harmonização de passagens paralelas. Em Marcos 9.29, Jesus responde da seguinte forma à indagação dos discípulos sobre a razão pela qual foram incapazes de expulsar o demônio que atormentava um menino: "Esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum". Em Mateus 17.20, porém, a resposta é outra (embora não contradiga a anterior), de modo que o versículo 21, que reproduz a resposta dada em Marcos, provavelmente é uma tentativa de harmonização.

2. Correção de citações. Mateus 15.8 cita do Antigo Testamento nos seguintes termos: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." A citação é de um trecho de Isaías 29.13, que diz o seguinte: "Este povo se aproxima de mim com a boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim". Alguns manuscritos de Mateus trazem uma citação literalmente mais correta do texto profético.

3. Eliminação de contradições ou erros aparentes. O primeiro capítulo de Marcos introduz as citações dos versículos 3 e 4 da seguinte forma: "Conforme está escrito na profecia de Isaías" (versículo 2). Entretanto, apenas o quarto versículo refere-se a um trecho de Isaías, ao passo que o anterior é citado de Malaquias. Por isso, alguns copistas mudaram o texto para "Conforme está escrito nos profetas".

4. Influência retroativa de adaptações para uso litúrgico. Um exemplo famoso é a última frase da mais famosa oração da cristandade: "Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém." Essa frase, ao que tudo indica, não constava no original.

5. Correção de erros gramaticais. Em Lucas 4.1 é dito que, depois de ser batizado, Jesus foi guiado pelo Espírito Santo "no deserto" ("en tê erêmô"). Embora a expressão usada por Lucas não seja gramaticalmente incorreta, alguns copistas cederam à tentação de substituí-la por "eis tên erêmon" ("ao deserto").

6. Substituição de palavras vulgares. Quando em Marcos 7.5, os fariseus se queixaram a Jesus pelo fato de seus discípulos comerem com as mãos "por lavar", a expressão registrada, "koinais", foi considerada demasiado vulgar por certos copistas, que a substituíram por um sinônimo mais decente, "aniptois".

7. Substituição de palavras incomuns. Paulo escreveu a Tito (em 1.5): "Por esta causa te deixei em Creta". O verbo utilizado, "apelipon", é bem raro na língua comum da época, o que explica a razão pela qual certos escribas o substituíram por um sinônimo mais conhecido, "katelipon".

8. Eliminação de hebraísmos. Um hebraísmo particularmente comum em textos dos evangelhos, como em Lucas 2.6-10, é o uso freqüente (e até excessivo, tanto que nem todos aparecem nas traduções ao português) da conjunção "e", "kai". Esse uso não é típico da língua grega, o que fornece evidência de que ao menos certas partes dos evangelhos são traduções literais de textos ou discursos em hebraico ou aramaico.

9. Transliteração de nomes próprios. A cidade de Cafarnaum, na Galiléia, é um bom exemplo. Em alguns manuscritos seu nome é transliterado "Kafarnaoum", e em outros "Kapernaoum".

10. Interpretação de passagens difíceis. Um caso cheio de remendos encontra-se em Colossenses 2.2, em que Paulo, referindo-se aos cristãos que não o conheciam pessoalmente, afirmava interceder "para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham também toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo". Insatisfeitos com esse final abrupto e obscuro, muitos copistas fizeram diversas modificações, como "o mistério de Deus e Cristo", "o mistério de Deus", "o mistério de Cristo", "o mistério de Deus, que é o Cristo", "o mistério de Deus Pai em Cristo Jesus" e outros.

11. Alterações destinadas a evitar dificuldades teológicas. Um exemplo clássico encontra-se em Mateus 24.36, em que Jesus diz: "Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos nos céus, nem o Filho, senão o Pai". Julgando, provavelmente, que a passagem negava a onisciência de Cristo e, por conseguinte, a sua divindade, alguns copistas omitiram as palavras "nem o Filho" nessa passagem.

27 de dezembro de 2007

Tempos de renovação

Num texto que postei aqui em junho, Ignorância resumida, falei brevemente sobre a necessidade que eu tinha de elaborar, num futuro próximo, um roteiro de estudos, a fim de dar conta da imensa quantidade e diversidade de assuntos que sinto necessidade de estudar mais profundamente do que fiz até o momento, ou mesmo começar do zero. De lá pra cá trabalhei um pouco nisso e, agora que um novo ano vem chegando, embora não seja meu objetivo expor meu plano em detalhes, creio ser útil comentar brevemente alguns aspectos do mesmo. Minhas razões para isso ficarão mais claras adiante, mas posso adiantar que este blog, sendo, como expliquei na postagem inaugural, uma parte importante dos meus projetos de aprendizado, será também diretamente afetado pela implementação desse plano.

Vale lembrar, para início de conversa, que a lista de livros que pretendo ler antes de morrer jamais parou de crescer desde que dei início a ela, mais de quatro anos atrás. Em janeiro deste ano, conforme registrei no início do post Versos do além, a lista contava com pouco mais de duzentos e cinqüenta elementos. Atualmente possui trezentos e trinta. Minha primeira tarefa foi, portanto, colocar ordem nessa lista. Dividi-a em vinte e três temas principais, que não abrangem todos os livros, mas ao menos deixam de fora uma fração relativamente pequena. Não sei se ao longo de 2008 eu conseguirei ler alguma dessas categorias em sua totalidade, mas pretendo ao menos dar início à liquidação de meia dúzia delas. As outras dezessete ficarão para um futuro indefinido, juntamente com várias obras que não se encaixam em categoria alguma, e com as quais eu montei a vigésima quarta categoria, "outros assuntos". Além disso, consultando a lista dos livros que já li, incluí sessenta e quatro deles na lista dos que ainda precisam ser relidos, e alguns mais de uma vez (a Bíblia, por exemplo, jamais sairá dessa lista). Selecionei catorze deles para reler em 2008, por se relacionarem a algum dos seis temas acima citados, e deixei os outros cinqüenta para um futuro mais distante.

Porém, foi-se o tempo em que praticamente tudo o que eu queria saber podia ser encontrado nas estantes da livraria ou biblioteca mais próxima, ou em e-books baixados da internet e estocados no meu HD. Atualmente, uma parcela considerável dos conhecimentos que pretendo adquirir encontra-se, total ou parcialmente, em filmes, em documentários, em artigos, em textos menores de revistas, nas cabeças de pessoas que pretendo entrevistar e, sobretudo, em sites da internet. Fiz também uma lista desses assuntos, isto é, aqueles dos quais provavelmente aprenderei total ou predominantemente por meios não-livrescos, e essa lista contém, até o momento, cinqüenta e nove temas, alguns dos quais sendo passíveis de uma quantidade considerável de subdivisões. Vários deles parecem ser menos trabalhosos que a leitura de um punhado de livros, mas alguns provavelmente exigirão esforço equivalente ou ainda maior. E não incluí nessa lista os temas acerca dos quais eu tenho vontade de adquirir conhecimento sem que, no entanto, tenha alguma idéia de onde ir buscá-lo. Minha própria ignorância sobre a maneira de abordá-los foi considerada por mim como um sinal de que não estou maduro o suficiente para ir atrás deles. A experiência tem me mostrado que, quando chega o momento de mergulhar num novo assunto, as portas se abrem naturalmente para me dar uma idéia de como fazê-lo.

Creio que eu não contei isso a ninguém, mas ao criar este blog eu decidi que faria um esforço para manter, por um ano, o ritmo médio de uma postagem por semana, com tamanho próximo a 10kb (quando digitado no meu editor de textos favorito, o Bloco de notas). Não escrevi em todas as semanas, e em algumas eu postei textos que não foram escritos por mim, mas apenas traduzidos, ou que eram meras adaptações de textos que eu já havia escrito antes. Mas pelo menos posso dizer que, em média, obtive sucesso: este é o qüinquagésimo segundo post, e o ano tem cinqüenta e duas semanas e um dia. Não calculei o desvio padrão, mas ele é menos relevante. O que importa é que fiz isso porque queria saber como é o compromisso de escrever com hora marcada, ainda que não muito bem marcada. G. K. Chesterton, que escreveu uma centena de livros, além de milhares de ensaios para jornais e revistas diversos, também publicou semanalmente um artigo no Illustrated London News durante trinta anos seguidos. Dale Ahlquist, presidente de The American Chesterton Society, lançou o desafio: "Se você não está impressionado, tente fazer isso alguma vez". Eu estava impressionado, e jamais tive qualquer intenção de me equiparar em quantidade ou qualidade a um escritor como Chesterton, sobre quem, aliás, correm lendas de que freqüentemente escrevia um artigo ao mesmo tempo em que ditava outro à sua secretária. Mas achei que o desafio de Ahlquist era uma proposta interessante, e resolvi colocá-la em prática, embora de maneira significativamente suavizada, durante um ano.

Eu não esperava que fosse fácil, mas ainda assim foi mais difícil do que eu supunha. A fim de atingir essa meta auto-imposta (conciliando-a, naturalmente, com as exigências da minha vida pessoal), acabei cometendo uma série de deslizes. Há agora uma quantidade razoável de conversas por e-mail que preciso retomar, abandonei discussões numa comunidade do orkut por vários meses, há textos ainda não comentados nos blogs de alguns amigos, assuntos cujo estudo eu acabei deixando de lado e talvez mais algumas coisas que agora me fogem à memória. Não digo que o blog seja o único culpado em cada um desses casos, mas ele ao menos ajudou a agravar o problema em todos eles. Além disso, o próprio conteúdo do blog não saiu ileso: muitas vezes eu escrevi com pressa, não revisei devidamente o resultado ou não ponderei se a forma sob a qual eu apresentava o assunto era a melhor possível, de modo que, relendo os textos alguns dias ou semanas depois, eu fiquei, em muitos casos, com a desagradável sensação de que poderia ter feito melhor.

Levando em consideração tudo o que eu disse nos cinco parágrafos anteriores, e somando a isso o fato de que o ano que se aproxima, embora incerto, tem grandes chances de me deixar ainda menos tempo para coisas desse tipo, creio que será mais fácil compreender o motivo da minha decisão quanto ao que vou fazer com este blog a partir de agora. Eu gostei muito da experiência que ele me proporcionou ao longo de 2007, não mudei de opinião quanto aos benefícios que ele pode me trazer (e tem trazido), conforme as expliquei no post inaugural, e não gosto nem um pouco da idéia de abandonar essa vida de blogueiro. Mas fatalmente, a fim de dar conta da nova realidade que se impõe sobre mim e que acabo de explicar resumidamente, serei obrigado a mudar minha estratégia com relação ao blog, e um dos efeitos mais previsíveis é que a freqüência das postagens diminuirá sensivelmente, embora a qualidade dos textos, segundo espero, melhore em decorrência disso.

Agora pretendo explicar brevemente qual será a minha política editorial. A estratégia que predominou até aqui, isto é, a de postar textos relativamente curtos dedicados a assuntos independentes, não desaparecerá por completo, mas passará para o segundo plano e aparecerá mais raramente. Na minha lista de assuntos a comentar aqui há cento e setenta e três idéias; dificilmente escreverei todas, mas a maioria provavelmente tomará (ou tomaria) essa forma. (Convém destacar, de passagem, esse meu gosto pela confecção de listas de coisas para fazer; começo a achar que eu faria algumas dessas coisas melhor e mais rapidamente se gastasse menos tempo listando-as.) Não desisti da idéia de escrever sobre esses temas, e pretendo, nos próximos tempos, dar atenção especial àqueles acerca dos quais, ao longo de 2007, prometi escrever e acabei não o fazendo. Apesar da demora, não me esqueci das minhas promessas; tanto é que fiz também uma lista delas, e constatei que vinte e oito futuros posts se enquadram nessa categoria. Não posso prometer que escreverei todos eles em 2008, mas prometo que eles ocuparão lugar especial entre minhas prioridades, na medida do possível.

A parcela principal dos esforços despendidos neste blog, entretanto, será dedicada a um tipo diferente de publicação, que consiste em séries mais ou menos longas (e não necessariamente ininterruptas) de postagens abordando assuntos vastos ou complicados demais para caber numa só. Roubei descaradamente essa idéia do meu amigo André Luiz, que já fazia coisas assim em seu blog muito antes que eu pensasse em criar o meu. A vantagem óbvia desse procedimento está no fato de que é a melhor maneira, quando não a única possível, de dar um tratamento minimamente apropriado a certos assuntos. A abordagem de vários deles está nos meus planos há um bom tempo, mas, pelo fato mesmo de que escrever sobre eles é mais trabalhoso, acabo sempre, por preguiça ou por pressa (em virtude do compromisso auto-imposto a que aludi anteriormente), deixando-os sistematicamente para depois e falando de algo mais fácil. Não me arrependo do que fiz até aqui, mas esse é um problema adicional a indicar a necessidade de mudanças.

Entretanto, o parágrafo acima pode dar a entender, falsamente, que essas séries de posts que agora estou planejando têm apenas o objetivo de divulgar e revisar conhecimentos já adquiridos e possuídos por mim. A verdade, porém, é que a maioria dessas planejadas seqüências vincula-se sobretudo ao que eu disse nos parágrafos iniciais. Dos cinqüenta e nove temas a estudar predominantemente fora dos livros, por exemplo, muitos provavelmente resultarão em séries de postagens neste blog, seja por eu acreditar que seus resultados serão úteis ou interessantes aos leitores, seja porque o simples fato de escrever a respeito facilitará meu próprio entendimento dos assuntos em pauta. O mesmo se aplica a boa parte das vinte e três categorias de livros que mencionei. Em alguns casos, escreverei e publicarei minhas conclusões e descobertas na medida em que as for atingindo; em outros, preferirei concluir o estudo do assunto antes de dizer qualquer coisa a respeito dele. Alguns temas têm um roteiro de estudos mais ou menos previsível e bem definido, enquanto outros podem me levar a lugares que nem imagino no momento.

Enfim, de agora em diante não haverá regras de qualquer espécie. Usarei este blog como instrumento de aprendizado, como fiz até aqui, mas de maneira a torná-lo mais facilmente adaptável às necessidades de cada momento. E se tudo der certo, é claro, isso também resultará em maior benefício para os eventuais leitores.

24 de dezembro de 2007

Emergência

Entre os meus planos para a celebração do Natal deste ano estava a publicação, neste blog, de um poema acompanhado de uma breve reflexão pessoal ao menos vagamente relacionada a ele. Tendo esse objetivo em mente, eu havia selecionado e digitado o poema, feito uma tradução do mesmo (já que foi composto em inglês) e escrito minha breve reflexão, deixando tudo pronto antecipadamente para hoje apenas postar o texto. Vejo-me, no entanto, forçado a alterar meus planos, em vista do fato de que, distraído como sempre, ao fazer as malas hoje pela manhã para vir a Piracicaba passar o Natal com meus pais, esqueci de pegar o pen drive onde eu havia cuidadosamente armazenado o texto alguns dias atrás. Nada surpreendente, já que, ao longo desses quase seis anos morando em São Carlos e voltando para casa em média a cada duas ou três semanas, creio que apenas uma vez eu consegui não me esquecer de nada. (E mesmo naquela ocasião, desconfio eu, pode ser que eu apenas tenha tido a sorte de esquecer algo que não me lembrei de procurar quando cheguei aqui, de modo que o segundo esquecimento anulou o efeito do primeiro.) E, não tendo trazido para cá o livro de onde retirei o poema, e tampouco estando com paciência para reescrever minha reflexão, resolvo guardar aquela postagem para o Natal de 2008.

Mas isso não significa que eu pretenda deixar passar em branco este Natal. Apenas fui obrigado a acionar o plano de emergência, que é, no entanto, significativamente semelhante ao anterior, pois consiste apenas em mudar de poema. Este que transcrevo abaixo foi retirado de um livrinho chamado Presente para o menino, um dos primeiros (e infelizmente poucos) livros de poesia que li na minha vida, e que está numa das estantes da casa dos meus pais desde tempos imemoriais (ao menos para mim). Para ser mais exato, o livro contém não apenas vinte e duas poesias, mas também duas dramatizações e sete contos natalinos. A autora, Myrtes Mathias, publicou-o em 1968, com as seguintes palavras, na folha de rosto, que deixam claro o seu objetivo:

Não faças do teu coração hospedaria
onde lugar para Cristo não havia;
dá lugar a Deus neste Natal.

O curto poema que escolhi é o que mais me impressionou quando li o livro, nem sei dizer há quanto tempo, e seu conteúdo me impressiona ainda hoje, por ser parte essencial da sempre surpreendente mensagem cristã. As expressões utilizadas na parte inicial devem muito à linguagem profética do Antigo Testamento, como poderá perceber sem dificuldade o leitor familiarizado com a leitura da Bíblia, enquanto mais para o final aparecem alusões, embora algo mais veladas, a passagens cruciais do Novo Testamento. Mas não me deterei nessas questões estilísticas, e muito menos pretendo explicar o significado do conjunto, que é bastante claro por si mesmo. Farei apenas algumas breves considerações sobre dois aspectos da doutrina cristã expressos nesse poema.

Havia entre os judeus, quando Cristo chegou, uma infinidade de expectativas conflitantes quanto ao sentido em que deviam ser entendidas as velhas profecias sobre o Messias. Devemos reconhecer que cada uma delas tinha algumas boas razões para sustentar-se. E, no entanto, os atos de Jesus contrariaram cada uma, ao menos parcialmente, e houve certos aspectos fundamentais da sua missão que todas essas linhas de interpretação mostraram-se incapazes de prever. Não há necessariamente nenhum demérito nisso, e é bom lembrar que a própria Igreja levou vários séculos para compreender, na medida do possível, a obra de Cristo numa perspectiva histórica adequada. Quanto mais estudo a escatologia cristã e a história do cristianismo, mais me convenço de que temos muito a aprender com os erros dos velhos escribas judeus. Cristo não cumpriu todas as profecias messiânicas; deixou parte delas para o fim dos tempos. Em virtude disso, vivemos no presente uma tênue antecipação da glória futura em constante luta contra as trevas da velha dispensação, cuja derrota já foi decretada, mas ainda não totalmente concretizada; vivemos, em suma, a tensão entre o "já" e o "ainda não", como diz uma expressão clássica da teologia protestante. Mas, enquanto esperamos, vigiamos e oramos, não nos esqueçamos que, assim como ocorreu na primeira vinda, os sinais do futuro retorno podem não corresponder inteiramente às nossas expectativas. Peçamos a Deus que nos dê a capacidade de manter abertos os nossos espíritos para o discernimento desses sinais.

O outro ponto importante aparece na parte final do poema, que contrasta as atitudes e os destinos daqueles que reconheceram em Cristo o fundamento de sua esperança e de suas aspirações mais nobres com a dos que se fizeram seus inimigos. Muitas pessoas hoje em dia suprimiriam, se pudessem, essa porção nada agradável da mensagem cristã. Mas quando nós, cristãos, apregoamos essa parte juntamente com o resto, não o fazemos em tom de arrogância, e tampouco de ameaça, mas sim como o simples reconhecimento de um fato. O sábio Simeão estava certo quando, antecipando as palavras do próprio Senhor, declarou que o menino que tinha nos braços estava destinado "tanto para ruína como para levantamento de muitos". O retorno de Cristo em poder não será agradável aos que não honraram sua primeira vinda, realizada em fraqueza. Compreende-se o motivo pelo qual, no culto de Natal de que participei ontem, na minha igreja em São Carlos, o pregador (o tão querido reverendo Naor) afirmou que só quem teve seu encontro com o Senhor Jesus tem bons motivos para celebrar seu nascimento. Não obstante, muitas pessoas que não tiveram essa experiência pessoal com Deus usufruíram e continuarão a usufruir as bênçãos menores que ela trouxe à humanidade, mesmo que sejam bênçãos tão corriqueiras quanto um feriado alegre na companhia de pessoas queridas. Como disse o padre Antônio Vieira em um de seus mais famosos sermões, a Palavra de Deus faz efeito mesmo quando não frutifica.

Sendo assim, desejo que o Divino Aniversariante, que é a própria Palavra encarnada de Deus, conceda a cada um dos leitores a graça de sua própria presença, que é a melhor coisa que existe, assim como o discernimento necessário para o reconhecimento desse fato. Feliz Natal a todos!

O esperado

Quando Ele vier,
Deus prometeu,
esmagará a cabeça da serpente,
destruirá o mal.

Quando Ele vier,
disseram os profetas,
servirá de refúgio contra a tempestade,
de esconderijo contra o vendaval.

Quando Ele vier,
cantaram os poetas,
terá as nações como herança,
e as extremidades da terra Ele receberá.

Quando Ele vier,
sonhavam os oprimidos,
não apagará a torcida que fumega,
a cana quebrada não esmagará.

Quando Ele vier,
esperava o mundo inteiro,
será Luz dos gentios,
no deserto bravio, uma nova canção,
com lagos e fontes
e, nos vales e montes, paz e união.

Mas quando Ele veio,
sem trono, sem exército,
sem ouro, sem rumor,
nada mais que um Menino,
decepcionou a muitos,
a todos que esperavam um real Senhor.

É certo que os anjos cantaram
e que uma estrela diferente atravessou o espaço,
mas os homens estavam muito ocupados na terra,
para olhar o céu.

Poucos.
Muito poucos O reconheceram.

A estrela percorreu o seu caminho
e desapareceu no tempo;
os anjos terminaram seu canto
e voltaram ao céu.

Só o Menino ficou.
Para crescer e para amar.
Para compreender e lançar os alicerces
do seu incompreendido reino da Paz.

Ficou para morrer.

Para dividir os homens em dois grupos,
nas duas paralelas que atravessam a História
para só se encontrarem
no grande dia da volta,
ajoelhados diante dele.

Quando os simples,
os que olharam o céu
e reconheceram a Estrela;
que ouviram o canto dos anjos
e aceitaram a mensagem,
repetirão seu hino de alegria e gratidão:

"Glória, glória, aleluia,
vencendo vem Jesus!"

Quando os outros,
os que não creram
e não O aceitaram,
erguerão seu alucinante grito de socorro,
sua desesperada e tardia
profissão de fé:

"Eras Tu, Jesus, e não Te recebemos."