7 de setembro de 2007

A visão panorâmica do precipício

Nota introdutória: esta postagem é continuação da anterior, A estrada para o precipício. Para mais esclarecimentos, vide a note introdutória àquele texto.

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Pode-se notar que mesmo o interesse por um campo tão prático quanto o da política só foi despertado em mim por uma necessidade mais teórica ou mesmo contemplativa. O mundo tem se tornado cada vez mais politizado já há alguns séculos, o que é, penso eu, mais um sintoma da decadência de nossa civilização. Assim, mesmo a contragosto, vi-me obrigado a entender de política a fim de entender o mundo; e só assim passei a julgá-la um tema importante, embora continuasse (e continue até agora) não a considerando intrinsecamente interessante. Tendo chegado a essa conclusão, percebi que estava diante de um novo problema: por onde começar? Afinal, conforme expliquei antes, eu já perdera toda a confiança nos intelectuais. E eu sabia que era imprescindível, como ponto de partida, encontrar alguém digno de confiança, ainda que fosse para criticá-lo posteriormente, visto que não há outra maneira de iniciar o estudo de um novo assunto. Como se pode ver, eu tinha consciência, ao menos parcialmente, do tamanho da minha ignorância. Mas quem poderia ser o meu professor? Eu não via nenhum candidato qualificado para desempenhar tal função. Mas, enquanto aguardava pacientemente que algum se apresentasse, dois eventos importantes ocorreram.

O primeiro foi o surgimento de um novo amigo, o André Luiz, que já mencionei algumas vezes neste blog. Começamos a trocar e-mails sobre assuntos filosóficos, teológicos, literários e outros, e demorou até que começássemos a conversar sobre política. Mas ele tem um excelente hábito, que é o de enviar aos amigos tudo o que encontra de interessante na internet, como vídeos, poemas, notícias e artigos sobre os mais variados assuntos (conservo na minha caixa de e-mails uma pasta que conta atualmente com 1470 dessas mensagens, acumuladas ao longo de um ano e cinco meses). Eu já havia aprendido a confiar na sensatez desse meu amigo quanto a outros assuntos; e, quando comecei a ler os textos que ele ocasionalmente recomendava sobre política (assunto em que os conhecimentos dele são incomparavelmente superiores aos meus), levei um susto: aquilo era diferente de tudo o que eu estava acostumado a ver nos debates veiculados pela imprensa brasileira. Percebi de repente que, mesmo que eu chegasse a compreender plenamente a disputa política nacional, estaria perdendo muita coisa se não passasse daí. O Brasil, de repente, pareceu-me pequeno. E, o que é pior, comecei a ter uma impressão crescentemente irresistível de que a parcela mais sensata do espectro político havia sido exilada bem longe das nossas fronteiras.

O segundo acontecimento confirmou essa impressão. Foi um livro do poeta anglo-americano T. S. Eliot denominado Notas para a definição de cultura, o mesmo de onde retirei a citação com que inaugurei este blog há mais de oito meses. Não é um livro sobre política, e sim sobre antropologia e sociologia, e nele Eliot discute os traços essenciais da cultura e as condições necessárias ou propícias ao seu florescimento. Suas idéias sobre esses assuntos eram infinitamente mais sensatas que qualquer coisa de que eu já tivesse ouvido falar, e depois de tê-las lido eu não poderia considerar as reflexões culturais de Trotsky, por exemplo, como algo mais que um lixo. Assim, as teses de Eliot, embora claramente expressas sem qualquer propósito de militância política, tinham conseqüências políticas bastante óbvias e, para mim, inteiramente novas. O mais surpreendente, porém, é que o autor discorria sobre elas com naturalidade, como se não fosse nada muito diferente do que todo mundo já sabia. Foi isso o que me fez ver, definitivamente, que o problema estava aqui, e não lá. A causa do meu espanto estava menos na genialidade do autor do que na ignorância do leitor. Percebi, enfim, que havia algo tremendamente errado no debate cultural brasileiro, ao qual eu sempre estivera quase inteiramente restrito. O problema, como vim a saber depois, é que eu passara a vida toda ouvindo apenas o discurso cultural da esquerda, o único disponível no mercado nacional de idéias.

Mas, antes que eu percebesse isso, entrou em cena uma nova figura (em mais de um sentido da palavra): o filósofo Olavo de Carvalho. Ele também me foi apresentado pelo meu amigo André, que me enviara vários artigos dele tratando sobre temas filosóficos diversos. Embora eu não concordasse com todas as suas posições, não pude deixar de sentir que o sujeito era digno de atenção e respeito, muito mais que a classe inteira dos intelectuais comuns. Depois de ter lido quatro ou cinco desses artigos, decidi visitar o site do filósofo em questão, onde descobri, com grata surpresa, que ele escrevia muito sobre política. Meu problema estava resolvido: eu já vira intelectuais comprovadamente confiáveis e já vira gente que escrevia muito sobre política, mas era a primeira vez que encontrava as duas características reunidas numa única pessoa. Isso foi há um ano. De lá pra cá estudei seus artigos lado a lado com os de outros, inclusive seus opositores (que, aliás, são bastante numerosos). A quantidade de coisas importantes que aprendi dessa forma é incontável, e não apenas (nem principalmente) sobre política.

Finalmente, procurei saber quais eram as principais doutrinas políticas existentes no mundo. O simples enunciado das respostas bastou para que eu percebesse onde me encaixava. Olhando retroativamente, não havia mesmo outra coisa que eu pudesse ser. Meu desprezo pela ideologia do progresso, meu apego aos valores tradicionais (religiosos inclusive), minha proximidade muito maior aos pontos de vista dos homens comuns do que aos da maior parte das classes cultas, minha forte desconfiança diante da concentração do poder nas mãos de uns poucos (por mais que eles mesmos estejam convencidos de que fazem tudo pelo bem de todos), a minha convicção da existência de uma ordem moral transcendente e da inviolável dignidade individual frente a qualquer tipo de identidade grupal; todas essas idéias, embora não tendo necessariamente muito a ver com política, acabaram por abrir o caminho para o meu futuro posicionamento político. Eu era um conservador. Sempre havia sido, na verdade, embora não totalmente; pois não posso dizer que escapei ileso da revolução cultural gramsciana, manifesta na atmosfera esquerdista do colégio, da universidade e da cultura acadêmica nacional. Assim, por exemplo, durante vários anos não só abriguei uma certa dose do mais vulgar antiamericanismo como cheguei até a acreditar em Michael Moore e na propaganda chavista e castrista. Mais cedo ou mais tarde, porém, eu teria de superar todas essas bobagens, pois o cerne da minha visão de mundo estava incorrigivelmente vinculado ao conservadorismo. E quando comecei a examinar a questão sob esse novo ângulo descobri que praticamente todos aqueles pensadores que eu espontaneamente havia sido levado a admirar profundamente, sem qualquer preocupação com suas convicções políticas, eram essencialmente conservadores: C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Francis Schaeffer, T. S. Eliot, Olavo de Carvalho e uma porção de outros.

Não devo concluir este post sem esclarecer uma coisa: não tenho a mínima vergonha de dizer que a política é o último assunto amplo sobre o qual vim a assumir uma posição na vida, e não o fiz antes por pura ignorância a respeito. Se alguma vergonha me restasse, ela sumiria diante da constatação de que muitas pessoas, não menos ignorantes do que eu era, não deixaram que isso as impedisse de abraçar um credo político qualquer (geralmente o primeiro que lhes foi apresentado por algum professor quando elas tinham cerca de quinze anos), e a partir daí recusaram-se a ouvir a opinião de outros, rejeitados de antemão como "inimigos". Mas nessa atitude não há nada peculiar à política, sendo antes uma amostra da cultura brasileira (espero que ninguém pense que estou me referindo à incultura brasileira, que às vezes é até mais sensata).

De qualquer forma, a minha situação é bem diferente dessa, e é por isso mesmo que não lamento decepcionar meio mundo e declarar-me conservador e reacionário, embora esses termos soem como autênticos palavrões na atmosfera ideológica que me rodeia. Isso tem gerado até algumas situações engraçadas. No meu último aniversário, por exemplo, uma amiga que não vejo há um bom tempo enviou-me um recado pelo orkut nos seguintes termos: "Parabéns Sumido. Apesar do que 'political view: right-conservative' possa parecer." Não sei se me sinto envergonhado por sustentar uma visão política tão abjeta ou se me sinto comovido pela bondade superior de pessoas que, a despeito dela, não me negam um recado de aniversário. Mas voltemos a falar sério. Apesar de essas linhas talvez se assemelharem a um manifesto, a essência do que estou dizendo hoje acerca da minha posição não chega a ser uma grande novidade. Além da explícita declaração de posicionamento no meu perfil do orkut, há indícios mais que suficientes espalhados ao longo dos textos publicados anteriormente neste blog para que qualquer leitor interessado e com suficiente conhecimento sobre o espectro político (o que, infelizmente, parece ser muito incomum) pudesse notar sem sombra de dúvida o caráter altamente conservador das minhas idéias. E já que dei início a este texto (no post anterior) com uma citação tão reacionária, vou encerrá-lo com outra, retirada do livro The well and the shallows, de Chesterton, que ilustra bem a minha impressão sobre o presente estado de coisas:

"Os turistas podem estar avançando velozmente, mas os desbravadores estão retrocedendo. Em outras palavras, são exatamente os espíritos audazes e investigativos, dos quais sempre se disse que estão à frente de seu tempo, que estão agora mais duvidosos sobre se é desejável avançar. São exatamente aqueles que se contentam em seguir a tradição, ou a convenção, ou as modas familiares, que ainda estão seguindo (ou assim supõem, pelo menos) a tradição do progresso, a convenção do movimento e as centenas de modas, familiares ao século dezenove, que apelam à esperança de mudança. Os homens são progressistas porque estão um pouco atrás dos tempos, e são reacionários porque estão um pouco à frente deles. Isso soa como um paradoxo, mas é realmente um estado de coisas muito prático e mesmo inevitável, dadas certas condições. Aqueles que estão atrás ainda gritam 'Avante!', e apenas aqueles que estão na linha de frente gritam 'Para trás!', quando a vanguarda do exército chega subitamente à beira de um precipício."

4 de setembro de 2007

A estrada para o precipício

Nota introdutória: O texto que eu pretendia publicar hoje, sobre uma questão que só em tempos relativamente recentes passou a chamar minha atenção, acabou ficando grande demais para um único post. Decidi, portanto, dividi-lo em dois. Hoje contarei como a minha mente foi preparada para lidar com essa questão ao longo dos anos sem que eu me desse conta disso. No próximo post (que sairá dentro de alguns dias, tão logo eu tenha tempo de revisá-lo) falarei sobre o que aconteceu quando me dirigi a ela conscientemente e qual foi, afinal, o posicionamento a que cheguei.

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"Torniamo all'antico; sarà un progresso."

Embora eu não vá falar hoje sobre música, essas palavras do compositor Giuseppe Verdi, em carta dirigida a Francesco Florimo em 1871, resumem bem as minhas impressões sobre um assunto muito diverso. Nos primeiros trinta e quatro textos que postei neste blog jamais falei sobre política, a não ser em menções passageiras. E não pretendo começar a fazer isso a partir de agora, por várias razões. A principal delas é que há uma infinidade de assuntos que considero não apenas mais interessantes como também mais importantes e dignos, no sentido mais absoluto. Até posso entender que, por motivo de consciência, forçado pela conjuntura opressiva de um determinado momento histórico, um formador de opinião (no sentido mais abrangente possível dessa expressão) dedique boa parte de suas palavras a esse assunto. Na verdade, desconfio que essa é a única justificativa possível para tal empreendimento. Mas não posso sentir outra coisa além de desprezo por essa atitude tipicamente moderna de conferir à política o status de coisa mais importante e digna de atenção e envolvimento que existe, atitude essa claramente implícita, por exemplo, na afirmação de Karl Marx (em suas Teses sobre Feuerbach) de que compreender o mundo é menos importante do que transformá-lo. Se há algo que não desejo de jeito nenhum é fazer deste blog um espaço voltado à militância política contra ou a favor de quem quer que seja.

É com relutância, portanto, que passo a escrever hoje sobre o tema, ainda que não muito diretamente. Meu objetivo aqui é menos uma exposição de argumentos em favor da concepção política que vim a adotar do que uma tentativa de explicar como é possível que um sujeito tão apolítico quanto eu tenha vindo, pra início de conversa, a tomar uma posição diante dessa questão. Mas isso não pode ser feito adequadamente, penso eu, sem uma explicação retroativa sobre as razões pelas quais a política sempre me interessou tão pouco, razões essas que agora julgo compreender melhor do que antes. Também será necessário discorrer brevemente sobre a relação entre a política e algumas outras atividades que, como eu disse acima, considero mais dignas; e não vejo maneira de fazer isso sucintamente a não ser contando minha própria história. Colocar esses elementos todos juntos talvez seja um pouco complicado, e acredito que isso tornará o texto inevitavelmente fragmentário. Talvez o que vou dizer tenha mesmo, afinal de contas, mais interesse biográfico do que propriamente político. Ao mesmo tempo, porém, esta breve narrativa parece-me imprescindível para que possa ser entendida em sua perspectiva correta qualquer coisa que eu venha a dizer futuramente sobre o tema (o que, naturalmente, eu espero que seja tão pouco quanto possível).

A razão pela qual nunca achei que a política fosse um assunto interessante não é difícil de entender. Na minha cabeça as coisas eram simples assim: na pior das hipóteses, política era um meio de que certas pessoas se utilizavam para obter privilégios e poder para si próprias, legal ou ilegalmente, ao mesmo tempo em que, como é óbvio, tentavam diminuir o poder de seus concorrentes. E, na melhor das hipóteses, a política era uma disputa entre pessoas honestas que, valorizando sinceramente o bem da sociedade, tinham, contudo, opiniões divergentes sobre qual é a melhor maneira de proporcioná-lo. No primeiro caso, tratava-se de uma mesquinharia sem fim; no segundo, era uma questão altamente técnica sobre administração pública. Nenhum dos dois, de qualquer forma, parecia digno do meu interesse. Nunca tive a intenção de ser rico e poderoso, e nunca gostei de administrar nada; sempre me pareceu óbvio que essa última atividade era um enfado que deveria ser reduzido ao mínimo necessário para garantir a perpetuação de certas coisas boas, e não uma ocupação valiosa por si mesma. Por todas essas razões, a totalidade das discussões políticas que eu presenciara pareciam-me sumamente desinteressantes. Essa foi a minha atitude até a metade da minha adolescência, pelo menos, embora, é claro, eu não fosse capaz, na época, de formulá-la nesses termos.

Depois comecei a perceber que essa concepção era provinciana demais, pois pressupunha um ambiente democrático que nem sempre havia existido e que efetivamente inexiste em uma porção de lugares. Porém, embora eu nunca tenha sido favorável a nenhuma ditadura, fosse aberta ou velada, de direita ou de esquerda, esses exemplos pareciam-me exceções remotas demais, incapazes de merecer que, a fim de pensar nelas mais demoradamente, eu desviasse minha atenção de temas infinitamente mais interessantes. O fato é que nessa época minha vida intelectual estava começando, e minhas idéias posteriores sobre política foram profundamente influenciadas pelo rumo que tomaram meus pensamentos sobre assuntos que, à primeira vista, nada têm a ver com elas. E isso me obriga a fazer uma digressão sobre esses assuntos, que ocuparam e moldaram a minha mente muito antes que eu passasse a ocupar com a política uma pequena parte dela.

Dentre esses fatores, nenhum se manifestou tão cedo quanto a educação cristã protestante que recebi dos meus pais. Hoje acredito, na verdade, que esse foi o elemento mais importante de todos os que me impediram de tornar-me mais tarde um esquerdista ou mesmo um extremista de direita. Digo isso porque a memória das brutais perseguições ao cristianismo sob as ditaduras comunistas e fascistas jamais esteve ausente do meio religioso em que fui criado, embora hoje eu veja que não recebe tanta ênfase quanto deveria. Embora eu não tivesse qualquer noção sobre a natureza das correntes políticas existentes, o caráter ostensivamente anticristão (ou mesmo francamente ateísta) desses movimentos já era motivo suficiente para que eu não simpatizasse com eles. E as histórias sobre os abusos de poder nos regimes ditatoriais foram o germe da minha futura oposição ao excessivo controle estatal do que quer que fosse e por quem quer que fosse. Mas isso também não quer dizer que eu visse o anarquismo com alguma simpatia. Analisando os prós e os contras, seus adeptos nunca me pareceram mais sensatos que os demais revolucionários.

Mas houve um outro aspecto importante da minha formação cristã, que me tornou avesso até mesmo ao liberalismo político reacionário de hoje em dia: a noção de progresso, que ele tem em comum com todos os movimentos revolucionários. Para mim, exceção feita ao aspecto puramente científico e tecnológico da coisa, rejeitar a ideologia progressista sempre foi uma questão de coerência não apenas com os fatos da história humana dos últimos séculos, até onde me era dado conhecê-los, mas também com os princípios elementares da doutrina cristã, que estava em pleno acordo com os referidos fatos. Enquanto o claro ensino de Jesus no capítulo 24 do Evangelho segundo Mateus e no Livro do Apocalipse praticamente inteiro era sobre um futuro tenebroso para a Igreja e para a humanidade em geral, a ponto de que o triunfo completo do mal só seria evitado pela intervenção direta do Cristo glorificado em pessoa, eu não podia levar a sério as linhas escatológicas progressistas dentro do protestantismo, e muito menos aqueles intelectuais seculares que anunciavam confiantemente um mundo melhor a ser fatalmente construído apenas pelo esforço humano. Nessa época sequer me passava pela cabeça que o posicionamento a respeito do progresso pudesse ser decisivo na elaboração de doutrinas políticas. Eu jamais pensei na conexão entre esses dois assuntos até bem recentemente; portanto, minha atitude diante do progresso é que acabou por influenciar minha visão política, e não o contrário. Jamais me pareceu que isso fosse uma questão política, sendo antes uma questão filosófica, teológica e histórica.

Assim, sem jamais pensar em política, eu fui estudando filosofia, história e ciências humanas em geral seguindo o rumo ditado pelas minhas prioridades e possibilidades de cada momento. Esses estudos me levaram cada vez mais para longe dos intelectuais da moda, e fui descobrindo alguns que, embora ignorados por praticamente todo mundo neste país, pareceram-me mais dignos de atenção do que os tidos por mais ilustres no nosso meio acadêmico. Isso sempre foi assim; sempre nadei contra a corrente da opinião majoritária entre os nossos intelectuais, não porque eu fizesse questão disso, e sim apenas porque, sempre que me punha a estudar um assunto qualquer, acabava concluindo que as minorias estavam certas. Acabei me acostumando a não dar atenção ao consenso dos cientistas e intelectuais e a não considerá-los uma classe digna da devoção que tantos conhecidos meus lhes prestam como a uma casta sacerdotal detentora do poder de revelar a verdade aos pobres pecadores. Acredito também que meus amigos se habituaram, enfim, às minhas excentricidades, embora provavelmente ainda achem tudo isso muito esquisito; desconfio que, de vez em quando, eles devem discutir entre si sobre como é possível que eu seja capaz de estudar tanto e ainda assim discordar de quase todas as conclusões das outras pessoas que também estudam. Isso tudo não é irrelevante para a história que estou contando. Depois de alguns anos nessa situação, comecei a desconfiar instintivamente de qualquer idéia que fosse aceita pela maioria dos nossos intelectuais (e, portanto, dos estudantes), e acabei perdendo toda a confiança nos acadêmicos arquetípicos. Foi apenas depois disso que começou a acontecer, finalmente, aquilo que já mencionei brevemente no meu post Ignorância resumida, e que marcou o início de uma nova fase da minha vida intelectual:

"[...] descobri a óbvia conexão da filosofia e da teologia com a política, isto é, entre o que o indivíduo pensa acerca de si mesmo, do homem, do mundo e de Deus e o que ele julga que deve fazer no mundo em decorrência disso. Mais do que isso, porém, a política me interessa por ser um elemento cada vez mais determinante na realidade humana, de modo que, gostando eu ou não, vejo-me obrigado a conhecer o assunto, sob pena de jamais compreender direito a realidade."

25 de agosto de 2007

Fragmentos de sensatez

Há nove dias, meu amigo virtual Gustavo Nagel postou, como de costume, um curto e excelente texto em seu blog. Intitulado Simplesmente imprescindível, o post traz uma breve consideração sobre o estilo e o valor do escritor inglês G. K. Chesterton, que eu mesmo admiro profundamente e cito freqüentemente aqui. Algum dia eu pretendo dedicar a Chesterton um post decente, pois ele certamente o merece. Por ora, no entanto, limito-me a publicar aqui uma seleção de frases suas que, creio eu, darão uma vaga idéia não só do seu estilo literário, bem-humorado, paradoxal, inusitado e incansavelmente criativo, como também do conteúdo de algumas de suas idéias, as quais justificam plenamente a afirmação, feita por C. S. Lewis, de que ele é "mais sensato que todos os outros modernos juntos". Inspirado pela menção do Gustavo à sabedoria presente em cada frase desse grande escritor, decidi revisitar o acervo de citações de uma importante entidade de divulgação das suas obras nos EUA, The American Chesterton Society. O slogan dessa sociedade, que eu nem vou tentar traduzir para não cometer uma violência contra o belo jogo de palavras da expressão inglesa, resume bem a essência do pensamento de Chesterton e sua tremenda importância para o mundo moderno: "Common sense for world's uncommon nonsense". Selecionei, traduzi e reproduzo abaixo um quarto das duzentas e cinqüenta e duas citações ali presentes. Espero assim poder dar uma noção vaga e geral acerca de Chesterton aos meus leitores que não o conhecem. Não que eu pense ser esse o melhor meio de apresentá-lo. Por mais interessantes que sejam suas frases, elas acabam perdendo parte de sua profundidade, beleza e significado quando são retiradas da companhia das frases adjacentes; a argumentação de Chesterton, embora esteja longe de ser uma rígida cadeia de silogismos, é dotada de uma continuidade surpreendente, quase orgânica. Chesterton só pode ser devidamente apresentado a nós por seus próprios livros, se é que o pode; pois Bernard Shaw, seu grande amigo pessoal e incansável inimigo intelectual, já advertia que, em debate contra esse admirável polemista, seus adversários não conseguiam abarcar senão a metade do seu intelecto. De qualquer forma, eliminei as frases que talvez não possam ser adequadamente compreendidas isoladamente, e eliminei também algumas que considerei de difícil tradução ou que eram grandes demais, e ainda as que considerei menos importantes enquanto reveladoras das suas idéias. Finalmente, é claro, tive de fazer uma seleção final para que este post não ficasse grande demais. Ainda assim, temo ter fracassado nesse último aspecto. E isso significa que é hora de eu encerrar minhas considerações introdutórias e deixar que o próprio Chesterton fale através de seus fragmentos.

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"Eu creio que o que realmente acontece na história é isto: o velho está sempre errado, e as pessoas jovens estão sempre erradas sobre o que há de errado com ele. A forma que isso toma na prática é esta: que, enquanto o velho se agarra a algum costume estúpido, o jovem sempre o ataca com alguma teoria que resulta ser igualmente estúpida."

"Nós não temos tido boas óperas cômicas ultimamente, pois o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera possível."

"O reformador está sempre certo sobre o que é errado. Mas está geralmente errado sobre o que é certo."

"O homem é sempre algo pior ou algo melhor que um animal; e um mero argumento baseado na perfeição animal jamais o toca de modo algum. Assim, no sexo, nenhum animal é cavalheiresco ou obsceno. E, da mesma forma, nenhum animal inventou algo tão ruim quanto a bebedeira, nem tão bom quanto a bebida."

"Uma coisa pode ser triste demais para ser crida, ou perversa demais para ser crida, ou boa demais para ser crida; mas não pode ser absurda demais para ser crida neste planeta de rãs e elefantes, de crocodilos e lulas."

"Progresso é um comparativo para o qual nós não estabelecemos o superlativo."

"Progresso deveria significar que estamos sempre mudando o mundo para ajustá-lo a uma visão, ao invés de estarmos sempre mudando a visão."

"Minha atitude diante do progresso passou do antagonismo ao enfado. Há muito cessei de discutir com pessoas que preferem a quinta-feira à terça-feira porque hoje é quinta-feira."

"Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar velhos ideais. Eles olham adiante com entusiasmo porque têm medo de olhar para trás."

"Tradição significa conceder votos à mais obscura de todas as classes: nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa submeter-se a essa arrogante oligarquia que meramente ocorre estar andando por aí."

"O passado já não é o que era."

"A guerra não é a melhor forma de resolver divergências; é a única forma de impedir que outros a resolvam por você."

"O verdadeiro soldado luta não porque odeia o que está à sua frente, mas porque ama o que está atrás de si."

"Uma vez abolido Deus, o governo se torna Deus."

"A Declaração de Independência dogmaticamente baseia todos os direitos sobre o fato de que Deus criou todos os homens iguais. E ela está certa; pois, se não foram criados iguais, eles certamente evoluíram desiguais. Não há base para a democracia exceto em um dogma sobre a origem divina do homem."

"Ele é um crítico muito superficial que não é capaz de ver o eterno rebelde no coração de um conservador."

"Você nunca pode ter uma revolução para estabelecer uma democracia. Você deve ter uma democracia para ter uma revolução."

"Não pode haver uma nação de milionários, e nunca houve uma nação de camaradas utópicos; mas tem havido um número incontável de nações de camponeses toleravelmente contentes."

"A totalidade do mundo moderno se dividiu entre conservadores e progressistas. O trabalho dos progressistas é prosseguir cometendo erros. O trabalho dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos."

"Amor significa amar o não amável, ou ele não é uma virtude, afinal."

"O casamento é um duelo até a morte do qual nenhum homem honrado deve declinar."

"Os primeiros dois fatos que um garoto ou garota saudável sente sobre o sexo são estes: primeiro, que é bonito; e depois, que é perigoso."

"A Bíblia nos diz para amarmos nossos vizinhos, e também para amarmos nossos inimigos, provavelmente porque eles são geralmente as mesmas pessoas."

"Há aqueles que odeiam o cristianismo e consideram esse ódio como um amor abrangente por todas as religiões."

"O ideal cristão não foi tentado e considerado insatisfatório; foi considerado difícil e abandonado sem tentativas."

"Tem sido dito com freqüência, muito verdadeiramente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário sentir-se extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário sentir-se ordinário."

"Se um homem dissesse que o Natal é apenas uma desculpa hipócrita para a bebedeira e a gula, isso seria falso, mas conteria um fato oculto em algum lugar. Mas quando Bernard Shaw diz que o Natal é apenas uma conspiração mantida por donos de granjas e comerciantes de vinhos por motivos estritamente comerciais, então ele diz algo que não é tanto falso quanto é uma tolice notável e interessante. Ele poderia igualmente dizer que os dois sexos foram inventados por joalheiros que queriam vender alianças."

"Os homens não divergem muito sobre quais coisas eles consideram males; eles divergem enormemente sobre quais males eles consideram desculpáveis."

"Não é que não haja safados suficientes para maldizer; é que não temos bons homens suficientes para maldizê-los."

"Há um motivo para dizer a verdade; há um motivo para evitar o escândalo; mas não há defesa possível para o homem que faz o escândalo mas não diz a verdade."

"A verdade completa é geralmente aliada da virtude; uma meia-verdade é sempre aliada de algum vício."

"A verdade é sagrada; e se você disser a verdade muito freqüentemente, ninguém crerá nela."

"A idolatria é cometida não apenas ao erigir falsos deuses, mas também ao erigir falsos demônios; ao levar os homens a temerem a guerra, ou o álcool, ou as leis da economia, quando eles deveriam temer a corrupção espiritual e a covardia."

"A maior parte da liberdade moderna está enraizada no medo. Não é tanto que sejamos audazes demais para suportar regras; é que, ao contrário, somos tímidos demais para suportar responsabilidades."

"O mundo será muito em breve dividido, a menos que eu esteja enganado, entre aqueles que ainda prosseguem explicando nosso sucesso e aqueles, algo mais inteligentes, que estão tentando explicar nosso fracasso."

"Eu daria a uma mulher não mais direitos, mas mais privilégios. Ao invés de enviá-la a procurar tal liberdade como a que notoriamente prevalece em bancos e fábricas, eu projetaria especialmente uma casa em que ela pudesse ser livre."

"Selvagens e artistas modernos são igualmente e estranhamente compelidos a criar algo mais feio que eles próprios. Mas para os artistas isso é mais difícil."

"E ao redor do mundo todo a velha literatura, a literatura popular, é a mesma. Consiste em tristeza muito digna e diversão muito indigna. Seus contos tristes são sobre corações partidos, e seus contos felizes são sobre cabeças partidas."

"O que é chamado matriarcado é simplesmente anarquia moral, em que apenas a mãe permanece firme porque todos os pais são fujões e irresponsáveis."

"Nossos mestres materialistas poderiam implantar, e provavelmente implantarão, o controle de natalidade em um programa prático imediato enquanto estamos todos discutindo o terrível perigo de alguma outra pessoa implantá-lo em alguma Utopia distante."

"O propósito da educação compulsória é privar o povo comum de seu senso comum."

"Nós estamos aprendendo a fazer muitas coisas inteligentes; a próxima grande tarefa será aprender a não fazê-las."

"A posição que agora atingimos é esta: começando do Estado, tentamos remediar os fracassos de todas as famílias, todas as creches, todas as escolas, todos os seminários, todas as instituições secundárias que um dia tiveram alguma autoridade própria. Tudo é trazido, no fim das contas, aos tribunais. Estamos tentando impedir o vazamento tampando a parte de cima."

"Psicanálise é uma ciência conduzida por e para lunáticos. Eles estão geralmente preocupados em provar que as pessoas são irresponsáveis; e eles certamente obtêm sucesso em provar que algumas pessoas o são."

"Deixem todos os bebês nascerem, e então deixem-nos afogar aqueles dos quais não gostarmos."

"Poder-se-ia supor que liberdade religiosa significa que todos são livres para discutir religião. Na prática, significa que dificilmente alguém é autorizado a mencioná-la."

"O ateísmo é realmente o mais ousado de todos os dogmas, pois é a asserção de uma negativa universal."

"Progresso é Providência sem Deus. Ou seja, é uma teoria de que tudo tem dado certo perpetuamente por acidente. É uma espécie de otimismo ateísta, baseado em uma eterna coincidência muito mais miraculosa que um milagre."

"Há argumentos em favor do ateísmo, e eles não dependem, e nunca dependeram, da ciência. São sustentáveis o suficiente, até onde eles vão, sobre uma perspectiva geral da vida; ocorre apenas que é uma perspectiva superficial da vida."

"Há dois tipos de pacificadores no mundo moderno; e são ambos, embora de maneiras diversas, perturbadores. O primeiro pacificador é o homem que anda por aí dizendo que concorda com todos. Ele confunde a todos. O segundo pacificador é o homem que anda por aí dizendo que todos concordam com ele. Ele enfurece a todos. Os dois juntos produzem cem vezes mais disputas e distrações do que nós, pobres pessoas pugnazes, teríamos jamais pensado em nossas vidas."

"Há dois tipos de charlatães: o homem que é chamado de charlatão e o homem que realmente é um. O primeiro é o curandeiro que cura você; o segundo é a pessoa altamente qualificada que não o faz."

"Há dois tipos de revolucionários, como da maioria das coisas - um tipo bom e um mau. Os maus revolucionários destroem convenções apelando a novidades - modas que são mais novas que as convenções. Os bons o fazem apelando para fatos que são mais velhos que as convenções."

"Há dois tipos de pessoas: as que aceitam dogmas e sabem disso, e as que aceitam dogmas e não sabem disso."

"O soldado profissional ganha mais e mais poder na medida em que a coragem geral de uma comunidade declina."

"Não há realmente coragem alguma em atacar coisas velhas ou antiquadas, não mais que em oferecer-se para lutar com a avó de alguém. O homem realmente corajoso é aquele que desafia tiranias jovens como a manhã e superstições frescas como as primeiras flores. O único verdadeiro livre-pensador é aquele cujo intelecto é tão livre do futuro quanto do passado."

"Camaradagem é uma coisa muito diferente de amizade, pois amizade implica individualidade, enquanto camaradagem na verdade implica a subordinação temporária, se não a submersão temporária da individualidade. Amigos são melhores por serem dois; mas camaradas são melhores por serem dois milhões."

"Porque nossa expressão é imperfeita, nós precisamos de amizade para preencher as imperfeições."

"Liberdade é precisamente a última idéia que parece ocorrer a alguém ao considerar qualquer proposta política ou social. Basta que alguém, por alguma razão, alegue alguma evidência de algum mal em alguma prática humana, para as pessoas instantaneamente sugerirem que essa prática deveria ser suprimida pela polícia."

"O orgulho consiste em um homem fazer de sua personalidade o único critério, ao invés de fazer da verdade o critério. O cético se sente amplo o suficiente para medir a vida pelas coisas mais amplas, e termina medindo-a pela menor de todas."

"O ceticismo dos últimos dias adora chamar-se progressista; mas o ceticismo é na verdade reacionário. O ceticismo vai para trás; ele tenta desarranjar o que já foi assentado. Ao invés de tentar sulcar novos campos com seu arado, ele simplesmente tenta sulcar o arado."

"Nenhum filósofo cético é capaz de levantar quaisquer questões que não possam igualmente ser levantadas por uma criança cansada em uma tarde quente."

"A liberdade produziu o ceticismo, e o ceticismo destruiu a liberdade. Os amantes da liberdade pensaram que estavam tornando-a ilimitada, quando estavam apenas tornando-a indefinida. Pensaram que estavam apenas tornando-a indefinida, quando estavam na verdade tornando-a indefesa."

"O comerciante médio começou a ser agnóstico não tanto porque não sabia onde estava quanto porque queria esquecer. Muitos dos ricos foram tomados pelo ceticismo exatamente como os pobres o foram pela bebida: porque era uma rota de fuga."

17 de agosto de 2007

A ignorância em debate

O que vou escrever hoje é resultado de uma série de observações e experiências esparsas que fui reunindo, especialmente nos últimos meses, algumas das quais passo a expor e discutir sem qualquer preocupação com a cronologia. Falarei, de início, sobre uma conversa (ou, antes, um início de conversa) de que participei há cerca de seis meses com três amigos numa esfirraria da nossa cidade. Basta dizer que naquela mesma semana eu havia discordado de algo que um deles, o Nelson, dissera em seu blog acerca da Europa medieval; porém, enquanto eu me preparava para iniciar a defesa da minha posição com os argumentos que me pareciam apropriados, descobri que eles não seriam necessários, pois meu amigo, reconhecendo que conhecia o assunto muito menos que eu (é bom deixar claro: não porque eu soubesse muito e ele pouco, mas porque eu sabia alguma coisa e ele nada), convenceu-se imediatamente de que eu devia ter razão, e convenceu-se a ponto de reescrever o trecho contestado antes que mais alguém o lesse. Entretanto, ao comentarmos esse acontecimento com os outros dois amigos, entre uma esfirra e outra, o Nelson foi censurado por um deles, que alegou, citando e endossando uma famosa declaração de Albert Einstein, que nenhum conhecimento deve ser baseado na autoridade de quem quer que seja. O assunto rapidamente se desviou a partir daí, e a noite não era mesmo propícia a um debate intelectual sério. Posteriormente, entretanto, eu não perdi a oportunidade de ironizar a réplica do meu segundo amigo, alegando que me abstive de contestá-la porque não julguei ser sensato questionar a autoridade de Einstein.

No fim das contas, eu acredito que a atitude do Nelson foi muito acertada, e a reprimenda do meu outro amigo, a despeito de contar com o apoio do pai da relatividade, inteiramente infundada, por razões que pretendo esclarecer adiante. De qualquer forma, não se pode negar, penso eu, que esse acontecimento ilustra e resume, ainda que de maneira algo simbólica, algumas interessantes questões sobre o papel intelectual da autoridade. Trata-se de uma questão espinhosa, sobre a qual não tenho a menor pretensão de discorrer de maneira completa. Desejo apenas deixar anotadas certas considerações úteis, talvez, como introdução ao assunto.

O primeiro ponto a ser notado é que, ao discutir a possibilidade do conhecimento baseado em autoridade, não estamos falando de algo hipotético, e sim de algo presente e inevitável na vida de cada um. Portanto, se colocarmos a questão como se se tratasse de um objeto perfeitamente dispensável, uma nova modalidade de conhecimento destinada a complementar ou substituir todas aquelas de que já dispomos, estaremos simplesmente falseando a perspectiva do problema. Se prestarmos atenção à maneira pela qual viemos a aprender as coisas que hoje sabemos, mesmo aquelas que nos parecem mais intuitivamente evidentes ou racionalmente inabaláveis, veremos que pelo menos uma parte delas baseia-se, no fim das contas, apenas na autoridade de alguém (ou mesmo de muita gente) que consideramos digno de confiança para falar do assunto. Posso citar como exemplos de fatos que aceito com base na autoridade de outras pessoas os seguintes casos: a ocorrência de um golpe militar contra o governo de João Goulart em 1964, a existência da China, a forma elíptica das órbitas dos planetas e a validade do Teorema de Pitágoras. Jamais vi demonstrações cabais de qualquer desses fatos, e, no entanto, recuso-me a levar a sério qualquer um que me considere crédulo demais por causa disso. A autoridade de alguém está por trás de boa parte do que sabemos ou julgamos saber, e isso inclui também o que sabem ou julgam saber até os mais ferrenhos inimigos da autoridade, ainda que eles próprios não o percebam. E a não percepção desse fato resulta fatalmente em idéias quase tão absurdas quanto a de justificar o repúdio à autoridade recorrendo à opinião de alguém que entenda muito desses assuntos (fique claro, porém, que não era essa a intenção do meu segundo amigo; se fosse, eu não teria feito ironia alguma, e sim rompido em prantos).

Houve um tempo em que todo mundo era capaz de perceber o papel imprescindível que a autoridade deve exercer, na educação em geral, e na educação intelectual em particular. As pessoas tomavam como óbvio que para transmitir algum conteúdo a uma pessoa, não apenas é necessário saber mais que ela sobre o assunto em questão, como também é impossível justificar devidamente cada afirmação feita, e isso por causa da ignorância mesma do aluno sobre o assunto. Parte das teorias e práticas pedagógicas modernas, tão afeitas a conceitos deturpados de "igualdade" e "democracia" (digo de passagem que as propostas efetivamente implementadas de educação universal não me parecem outra coisa senão a democratização da burrice), parecem se basear justamente na ignorância ou mesmo na indisposição contra esse fato, como se a mera pretensão de saber mais que outras pessoas, por mais justificada que seja, não passasse de arrogância.

Isso nos traz de volta ao problema. O enfoque deste texto não é sobre o papel da autoridade na educação enquanto tal; a historinha que contei no início era, antes, sobre o papel da autoridade no debate. Ainda assim, tive boas razões para dizer o que disse no parágrafo anterior. É comum, embora não tanto quanto deveria, uma pessoa esquivar-se de participar de uma discussão alegando que não conhece suficientemente bem o assunto em questão. Ultimamente, porém, tenho me sentido mais freqüentemente inclinado a fugir da discussão pelo motivo inverso; e de fato já me recusei algumas vezes a debater certos assuntos, limitando-me a observar que meus interlocutores não tinham as capacitações intelectuais mínimas para tanto. Desconfio que as pessoas em questão sabiam que eu estava dizendo a verdade. Ainda assim, as reações mais freqüentes nesses casos são basicamente duas: ou a pessoa em questão profere um julgamento moral sobre a minha pessoa, acusando-me de arrogância ou presunção, ou me acusa de tentar substituir a argumentação válida por um mero apelo à autoridade, acusação essa que vem fatalmente acompanhada da primeira, já que a autoridade alegada é a minha própria. Não pretendo aqui fazer referência a nenhuma situação específica, mas menciono esses fatos por serem reveladores de alguns aspectos relevantes do problema que estou discutindo.

Participei, há cerca de dois anos, de um dos eventos mais ridículos da minha vida: tentei convencer um adolescente, estudante colegial, de que é possível conhecer a composição química das estrelas, coisa que ele considerava impossível. Meu fracasso foi rápido e completo, é claro. Mas, embora minha didática possa ter sido muito ruim, meus argumentos certamente não o eram. Ocorre apenas que meu colega, desconhecendo inteiramente as disciplinas necessárias à compreensão da técnica que eu estava tentando lhe explicar - astronomia, química, óptica, espectroscopia - , não tinha sequer condições de julgar os méritos dos argumentos que eu expunha. Já passei por essa situação outras vezes, tanto antes quanto depois, mas foi naquela noite que percebi esse fato importantíssimo: o ignorante completo, especialmente se o for a ponto de não ter sequer consciência de sua ignorância, leva indiscutível vantagem em qualquer discussão. Debater com ele é muito mais árduo que debater com alguém de conhecimentos comparáveis, ou mesmo significativamente maiores, justamente por sua capacidade de compactar em poucas frases uma quantidade imensurável de falsidades, contradições, simplificações e falácias, cuja explicitação e crítica numa linguagem acessível à sua mente fatalmente se tornam demasiado longas ou mesmo impossíveis. Mesmo que não haja da parte do ignorante qualquer desonestidade intelectual e que ele esteja sinceramente interessado em conhecer a verdade sobre o assunto (possibilidades que, nessas condições, considero bem pouco prováveis, mas adoto ao menos como hipóteses), o simples fato de ele portar-se como debatedor e não como ouvinte ou aluno já será um obstáculo quase instransponível a quem queira apresentar-lhe essa verdade.

O filósofo Olavo de Carvalho resumiu muito bem o problema ao dizer que "não há debate entre o conhecimento e a ignorância". Não por acaso, ele disse isso no contexto de uma discussão travada com Rodrigo Constantino, um sujeito que, embora escreva coisas interessantes sobre política e economia, desconhecia totalmente o assunto em pauta, que era a religião (em particular a tradição judaico-cristã), não sendo nada além de mais um típico ateuzinho que ainda leva a sério as bobagens proferidas por um charlatão tagarela como Voltaire. As sarcásticas considerações do Olavo sobre a mediocridade intelectual de seu oponente podem ter causado má impressão em muitos leitores, mas, tendo estado na mesma situação, não posso deixar de dar-lhe razão, principalmente se, como é provável, ele já tiver passado por essa situação muitas vezes em seus sessenta anos de vida. Eu mal cheguei aos vinte e três e minha paciência com esse tipo de coisa já não é a mesma de algum tempo atrás...

Espero que fique claro que o conteúdo deste post não só não se dirige a ninguém em particular, mas também vale como lembrete para mim tanto quanto para qualquer outra pessoa. Pois eu também sou falível, tanto no sentido de ainda me meter ocasionalmente a discutir assuntos sobre os quais não sei nada quanto no sentido, muito mais desagradável, de me meter a discutir assuntos que conheço com pessoas que o ignoram por completo. E cabe observar ainda que, comparando o ato de dizer a uma pessoa que ela está discutindo sem conhecer com o ato de discutir sem conhecer, não posso ver arrogância autêntica senão no segundo. O primeiro passo para a resolução de qualquer problema é o reconhecimento da existência do mesmo, e o homem que quiser se ver livre da ignorância sobre um assunto qualquer não tem escolha senão começar submetendo-se à autoridade de outro que sabe mais a respeito do tema. Se não houver um aprendizado prévio, se não existir a posse comum, entre os debatedores, do conjunto de conhecimentos necessários à compreensão da questão discutida, não existe debate verdadeiro, mas apenas retórica (em algum sentido da palavra) ou uma aula disfarçada e provavelmente sem sucesso.

Por conseguinte, o ignorante não deve tentar debater em hipótese alguma, pois sua simples participação inviabiliza a própria existência do debate. Não pretendo voltar a participar desse tipo de evento, a menos que eu queira exercitar minhas habilidades retóricas ou ensinar algo ao meu interlocutor, pois essas são as únicas possibilidades concretas. Assim, quando eu lhe disser que não é possível debater o assunto com ele, não estarei anunciando uma decisão minha, e sim um fato constatado como inelutável. E também não estarei recorrendo ao argumento da autoridade; mesmo o uso falacioso desse argumento requer também, em primeiro lugar, a existência de um debate.

7 de agosto de 2007

Terceira colheita

Já é tempo de comentar brevemente certas reações geradas por alguns de meus posts nos últimos tempos. Limitar-me-ei aqui, como de costume, a prestar alguns esclarecimentos que julgo necessários a respeito de meus textos, deixando de lado as conversas que, embora muito interessantes e motivadas pelos mesmos, acabaram se desviando demais do assunto principal.

Em seu comentário ao meu post A trindade na diversidade, meu amigo Marco levantou a hipótese de que as três correntes mencionadas (evolucionismo, criacionismo e design inteligente) podem perfeitamente conter, cada uma delas, uma parcela de razão. Não posso discordar dele nesse ponto, pois me parece que é isso mesmo o que ocorre. Mas é consideravelmente difícil discorrer sobre o grau de correspondência de cada uma com a realidade, e a principal causa dessa dificuldade reside, como apontei no próprio texto, no fato de que cada uma das três vertentes possui um grande número de subdivisões. Não se pode, por exemplo, impugnar alguma versão não-darwiniana do evolucionismo a partir de argumentos específicos contra as correntes darwinistas, assim como não se podem apresentar evidências da antiguidade do planeta senão contra os criacionistas que interpretam os dias da criação no Gênesis em sentido estritamente literal. É impossível, portanto, sustentar uma discussão séria no nível dos fatos da natureza (ou mesmo dos princípios metodológicos da investigação) sem levar em conta essas muitas particularidades das opiniões de cada indivíduo ou grupo que defende uma posição sobre o assunto. Não fiz nada disso no meu post, pela simples razão de que não era meu objetivo avaliar, de maneira geral ou específica, os méritos relativos de cada concepção, e tampouco fornecer qualquer descrição dos argumentos utilizados por cada uma. Eu pretendia apenas definir apropriadamente os termos que designam os grupos mais amplos envolvidos no debate, de forma que qualquer indivíduo que tenha uma opinião sobre o assunto possa, em última análise, ser encaixado em um dos três sem ambigüidades. Esse é um problema que me esforcei para resolver, e creio que agora o consegui. Mas não tenho tanta certeza disso, pois um amigo me informou durante uma conversa que Francis Collins, coordenador do famoso Projeto Genoma Humano, defende em seu livro recém-publicado, The language of God, uma concepção que se distingue de todas as três que apresentei aqui. Como eu ainda não li o livro e meu amigo não pôde me dar informações mais detalhadas porque também não havia terminado a leitura, não posso me pronunciar a respeito por enquanto, e limito-me agora a prometer que retornarei ao tema num post futuro se constatar que a minha classificação tripartidária se tornou desatualizada, ou se houver mais algo interessante a ser dito sobre o tema.

Enquanto isso não ocorre, o que convém assinalar é que, com relação aos pontos específicos que utilizei na distinção entre os três grupos, dizer que todos estão certos ou parcialmente certos parece-me uma pura impossibilidade lógica, já que eu defini os termos justamente de modo a eliminar essa possibilidade. Há duas alternativas: ou a evolução se deu sob processos inteiramente naturais ou não. No primeiro caso, o evolucionismo é verdadeiro; no segundo, temos duas opções: ou o exame científico dos objetos inteligentemente projetados permite inferir legitimamente algo sobre seu projetista ou não. No primeiro caso, o criacionismo é verdadeiro; no segundo, é verdadeiro o design inteligente. Não vejo como escapar a essa conclusão. Ainda assim como apontei anteriormente, a questão levantada pelo Marco permanece válida no seguinte sentido: se tomarmos as opiniões defendidas por algum cientista envolvido nessa controvérsia (qualquer que seja a posição fundamental defendida por ele) em sua totalidade, e não apenas em relação a esses dois pontos específicos, é óbvio que muito do que ele disser será aproveitável. Ou seja, embora nos pontos distintivos um dos grupos esteja necessariamente certo e os outros dois necessariamente errados, isso não impede que cada um tenha muito a aprender com os demais.

Ainda sobre esse mesmo texto, meu amigo Nelson fez um comentário que se relaciona muito de perto com uma questão mais ampla sobre a qual ainda pretendo escrever mais detalhadamente. Ele leu num artigo da Wikipédia que a hipótese da complexidade irredutível, desenvolvida pelo bioquímico Michael Behe contra a onipotência dos processos evolutivos naturais e a favor do design inteligente, já foi refutada. Sem entrar, por enquanto, na discussão propriamente científica dessa questão, farei duas observações que considero úteis. A primeira é que os argumentos do design inteligente não se limitam à tese da complexidade irredutível. E a segunda é que, lendo o artigo indicado por meu amigo (este aqui), constatei algo bastante interessante, embora não inédito. O artigo afirma, citando a sentença do famoso julgamento de Dover, que "a reivindicação do professor Behe em favor da complexidade irredutível foi refutada em artigos de pesquisa revistos por pares e rejeitada pela comunidade científica em larga escala". Mas, um pouco abaixo, afirma que o design inteligente "não é falseável, não é empiricamente testável". Ninguém parece se incomodar com o fato de que essas duas afirmações contradizem-se mutuamente. A primeira implica que o design inteligente é algo cientificamente demonstrável como falso, enquanto a segunda implica que, não satisfazendo o critério erigido por Karl Popper para distinguir o que é ciência do que não é (segundo esse renomado filósofo, a ciência define-se por lidar com proposições que podem, em princípio, ser refutadas), o design inteligente não é sequer passível de investigação científica. O artigo sustenta, portanto, que o design inteligente possui ambos os defeitos: é algo tão anticientífico que não pode ser refutado, e no entanto conseguiu sê-lo mesmo assim. Não acho que seja injusto dizer que isso no mínimo cheira a empulhação. Algum dia vou dedicar um post a considerações mais aprofundadas sobre o comportamento da comunidade científica diante de teorias minoritárias, especialmente quando estas defendem posições ideologicamente indesejáveis (como o design inteligente e a negação do aquecimento global antropogênico), e veremos que não é muito diferente disso. Porém, levando em conta que o alvo imediato é apenas um artigo da Wikipédia, o espaço que lhe dediquei já é suficiente.

Depois que publiquei o post A mais grandiosa das aventuras em resposta à pergunta de um amigo sobre a relação entre a soberania de Deus e a liberdade do homem, a discussão entre nós dois continuou por e-mail; e parece que, depois de termos em parte aprofundado e em parte desviado o assunto, finalmente consegui convencê-lo da validade da posição que defendi. Não vou entrar em detalhes sobre a nossa discussão, mas há um ponto levantado por meu amigo que considerei digno de esclarecimento. Ele perguntou se o que eu disse sobre o erro de usar termos temporais em referência a eventos ocorridos fora do tempo não seria, contrariamente ao que eu disse no final do post, um posicionamento contra a doutrina da predestinação. A resposta é não. O que eu disse não deve ser entendido como uma referência à mera raiz lingüística da palavra. Existe uma diferença conceitual importante entre a idéia da predestinação (ou, em geral, dos decretos divinos) e a idéia de que "Deus já sabe o que vai acontecer". Neste segundo caso há uma referência temporal insuperável, enquanto no primeiro isso não ocorre. Embora etimologicamente a palavra indique uma referência ao passado, o conceito que ela descreve não o faz; da mesma forma, usamos a palavra "átomo" para denotar um objeto facilmente divisível em nossas usinas nucleares. De qualquer forma, minhas considerações sobre o tempo foram apenas um esclarecimento introdutório destinado a prevenir meu trabalho posterior contra a ignorância de certos leitores potenciais (o que não inclui esse meu amigo). O argumento principal só foi analisado a partir do quinto parágrafo, conforme eu reconheci ali mesmo ao dizer: "Parece que, mesmo deixando de lado a questão cronológica, que é mera infantilidade, resta ainda um problema lógico que merece consideração mais atenta."

Devo ainda fazer algumas pequenas ressalvas sobre meu post Diálogo sobre as mortes, no qual fiz alguns comentários ao texto Athrabeth, de Tolkien. O primeiro é que, no segundo parágrafo, falando sobre as duas traduções disponíveis, respectivamente, nos sites Valinor e Duvendor, eu afirmei: "A primeira está melhor [...] e possui algumas notas, de modo que a utilizarei em eventuais citações." Porém, eu escrevi o restante do post e acabei não fazendo citação alguma. Devo, portanto, retratar-me por não ter revisado esse trecho antes de publicar o texto. Além disso, tendo lido o Athrabeth já há um bom tempo, não me lembrei do conteúdo da segunda nota, escrita pelo próprio autor: "Isto seria por volta do ano 409 da Longa Paz. Nesse época Belemir e Adanel eram idosos na medida dos Homens, tendo cerca de 70 anos de idade; mas Andreth estava na plenitude do vigor, ainda não tendo 50." No texto eu afirmei que o diálogo não tinha data bem definida, no que obviamente me equivoquei, embora eu tenha acertado ao dizer que "certamente não foi muito antes do ano 455 da Primeira Era do Sol". Da mesma forma, errei ao dizer que Andreth já era idosa na ocasião, embora de fato já não fosse jovem.

Finalmente, recebi há pouco de um certo Fernando um comentário acerca das cartas de Lewis e Vanauken. Ele parece achar um absurdo que a religião cristã, a despeito de sua apologia da humildade, tenha a pretensão de declarar-se verdadeira. Não tenho idéia de quem seja esse tal Fernando, e não tenho meios de entrar em contato privado com ele, de modo que terei de responder-lhe aqui mesmo. Mas antes lhe faço um aviso: se quiser continuar a discussão, queira ter a gentileza de me enviar seu endereço de e-mail ou algo do tipo, pois eu só dedico posts a responder comentários dos meus leitores, como estou fazendo hoje, em média uma vez a cada não sei quantos meses.

Eu disse que o Fernando comentou as cartas de Lewis e Vanauken, mas a realidade não é bem essa. O que ele fez foi comentar duas palavras que encontrou nelas, "humildade" e "verdade", associando-as de uma maneira totalmente arbitrária do ponto de vista do próprio texto, embora bastante comum entre os pseudocéticos de hoje em dia. Ele parece achar que um sujeito humilde (pelo menos intelectualmente falando) é alguém que jamais se sente no direito de afirmar coisa alguma. Ora, essa pode ser a pretensa humildade dos agnósticos (à qual ainda vou dedicar um post qualquer hora dessas), mas não tem nada a ver sequer com a humildade socrática, e muito menos com a cristã. Não sei bem como explicar a esse sujeito em poucas palavras o que é a autêntica humildade cristã, mas acho que posso dar ao menos dois passos nesse sentido. O próprio Fernando concluiu seu comentário com as seguintes palavras: "O único Lewis que trouxe algo de novo e importante para o mundo foi mesmo o Gilbert Newton, os outros nada..." Para ter o direito de dizer isso, naturalmente, ele deve não apenas conhecer razoavelmente bem a vida e o pensamento de C. S. Lewis, mas também de todos os Lewis razoavelmente famosos que existem. Se não conhece, então o próprio Fernando torna-se o contra-exemplo perfeito da humildade intelectual. É claro que não o estou acusando de nada, já que nem o conheço; esse é um exemplo hipotético que ele pode perfeitamente contestar como inverídico, e espero que o faça, mas ainda assim permanece como boa ilustração. Se isso não serve para esclarecer o que os cristãos entendem por humildade, passo então ao passo seguinte, que é simplesmente transcrever estas esclarecedoras considerações, embora breves, de um grande escritor cristão (e ex-agnóstico), G. K. Chesterton:

"Mas o que sofremos hoje é a humildade no lugar errado. A modéstia saiu do órgão da ambição e fixou-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. Um homem deveria estar duvidoso acerca de si mesmo, mas confiante acerca da verdade; isso foi inteiramente invertido. Hoje em dia a parte do homem que ele afirma é exatamente a parte que ele não deveria afirmar: ele próprio. A parte da qual ele duvida é exatamente a parte da qual ele não deveria duvidar: a Razão Divina. Huxley pregou uma humildade que se contentava em aprender da natureza. Mas o novo cético é tão humilde que duvida que possa aprender. Assim, estaríamos errados se disséssemos apressadamente que não há uma humildade típica do nosso tempo; apenas acontece que é, na prática, uma humildade mais venenosa que as mais selvagens prostrações do asceta. A velha humildade era uma espora que impedia o homem de parar, não um prego na bota que o impedia de prosseguir. Pois a humildade fazia o homem duvidar de seus esforços, o que poderia fazê-lo trabalhar mais. Mas a nova humildade leva o homem a duvidar de suas metas, o que o fará suspender completamente o trabalho."

5 de agosto de 2007

Os estranhos caminhos da paz

Já perdi a conta de quantas histórias ouvi sobre missionários cristãos engajados em missões transculturais, seja em civilizações do Oriente, seja entre povos primitivos a ponto de viverem num estado de completa barbárie, seja em países abertamente hostis ao cristianismo. Essas narrativas fazem parte da minha vida e da minha memória praticamente desde que me tornei capaz de prestar atenção a aulas e preleções (embora ainda hoje eu tenha grandes dificuldades em fazer isso sem me distrair uma dezena de vezes). Livros específicos sobre o tema, porém, eu não li muitos. Mas nenhum dos que li me impressionou tanto quanto O totem da paz (cujo título original, muito mais apropriado, aliás, é The peace child). Posso dizer sem hesitação que esse foi um dos livros de influência mais decisiva sobre os rumos da minha formação pessoal. Creio que isso se deve em parte ao fato de eu tê-lo lido aos 15 anos, quando minha vida intelectual ainda não havia sequer começado, de modo que aprendi ali várias coisas que poderia perfeitamente ter aprendido em outros lugares. Algum dia talvez eu escreva um texto sobre livros que chegam a mim na hora errada; acredito, por exemplo, que teria apreciado Júlio Verne muito melhor se o tivesse lido aos doze anos, e não aos dezoito. Mas voltemos ao assunto. Minha intenção original era dar aqui um breve resumo dessa obra e explicitar algumas lições importantes que aprendi com ela. Porém, logo descobri que isso é serviço demais para um único post. Sendo assim, vou me limitar a contar a história hoje, deixando a análise da mesma para uma oportunidade futura.

O autor do livro é o canadense Don Richardson, e a história narrada é a sua própria. Tendo se convertido ao cristianismo na adolescência, ele decidiu dedicar sua vida à pregação do Evangelho, e com esse intuito se matriculou no Prairie Bible Institute, um centro de treinamento missionário localizado na cidadezinha canadense de Three Hilla. Ali, em 1955, aos vinte anos, ele ouviu falar pela primeira vez nas centenas de povos primitivos da parte ocidental da Nova Guiné Holandesa (atualmente um país independente, a Nova Guiné Papua). Depois de um longo período de preparação, Richardson finalmente chegou em 1962 à Nova Guiné, acompanhado de sua esposa Carol e seu filho Stephen, então com um ano e meio. Foi viver então entre os sawis, um povo que jamais tivera qualquer contato prolongado com o homem branco, e cujas relações mesmo com outros povos nativos dos arredores era bastante dificultosa. E na medida em que ia vivendo ali, tentando aprender a língua e compreender a mentalidade de seus novos vizinhos, num esforço para penetrar no mais íntimo do espírito daquelas pessoas, o missionário foi vendo e percebendo coisas absolutamente surpreendentes.

Para começar, posso dizer que os sawis são canibais e colecionadores de cabeças. Na verdade, nada há de surpreendente nisso; é algo até corriqueiro por aquelas bandas. Talvez até fosse difícil lembrar disso diante da calorosa e honrosa recepção que os forasteiros tiveram, mas logo a verdadeira natureza daquele povo se revelou. Aquela sociedade cultuava a violência e utilizava-a freqüentemente como a única maneira conhecida de resolver suas pendências. A própria maneira pela qual os sawis educavam seus filhos já bastava para incentivar a agressividade, o orgulho e a vingança como modos essenciais de ser, sem os quais, aliás, qualquer indivíduo tornar-se-ia vítima fácil de seus inimigos, ou mesmo de seus amigos. Os sawis, porém, não se limitavam a venerar a brutalidade, a crueldade e o rancor, mas elevavam-nas ao status de uma autêntica arte. As tradições desse povo estavam repletas de histórias de vingança requintadas pela traição. Matar sumariamente o ofensor e comer seus miolos era algo que qualquer um podia fazer, e era por isso mesmo que as pessoas o faziam com freqüência relativamente alta. Mas as grandes vinganças, aquelas dignas de lembrança pelas gerações futuras, eram as precedidas pelo perdão aparente, pela conquista da confiança do adversário. Como diziam os próprios sawis, é como criar e engordar porcos tendo em vista um futuro banquete. O ideal de todo sawi era fazer o mesmo com seus inimigos, exatamente o mesmo, inclusive no que diz respeito ao banquete.

O resultado disso é óbvio, e pode ser perfeitamente compreendido à luz daquilo que dizia o político, historiador e jornalista (dentre outras coisas) francês Alain Peyrefitte: o fator mais decisivo para o progresso de uma comunidade é a mútua confiança entre seus membros. No mundo dos sawis tal confiança era praticamente inexistente, como não poderia deixar de ser, pois ninguém podia estar absolutamente seguro da sinceridade dos demais, e mesmo uma sinceridade autêntica poderia transformar-se em fúria repentina por motivos absolutamente insignificantes, dado o caráter eminentemente agressivo, irritadiço e orgulhoso dos indivíduos sawis. Não podia haver confiança plena, pois nenhuma prova de confiança poderia, em última análise, ser considerada suficiente. Somem-se a isso alguns fatores culturais altamente promissores enquanto fomentadores de discórdia, como a poligamia, e o resultado é simplesmente catastrófico. Parece que os sawis só puderam salvar-se do completo aniquilamento porque suas interações sociais eram reduzidas ao mínimo necessário: viviam dispersos em aldeias pequenas e distantes entre si tanto quanto possível, raramente entrando em contato umas com as outras. Apenas a chegada dos brancos (e dos benefícios que os acompanharam, naturalmente) foi capaz de fazer com que membros de duas aldeias consentissem em morar juntos. (Esqueci de dizer lá em cima, mas os sawis eram seminômades.)

A questão, porém, é: haveria de fato alguma possibilidade de sucesso por parte de Richardson? Não estaria ele agindo como um maluco ao mudar-se para um local tão inóspito, com sua mulher e seu filhinho, esperando que aquelas pessoas abdicassem de seu modo de vida hediondo, embora talvez milenar? Poder-se-ia de fato esperar que um povo inteiro, tendo aprendido, exercitado e valorizado deliberadamente a violência, a crueldade, a falsidade e tudo o que há de mais perverso na natureza humana, passasse de repente a prezar os valores diametralmente opostos da moral cristã? Seriam os sawis capazes de dar importância à notícia de um evento ocorrido há quase dois milênios numa terra que eles jamais sonharam existir? Seriam sequer capazes de ver algum sentido nisso? Um povo tão afeiçoado à traição enxergaria algum valor nos atos de Jesus em contraste com os de Judas Iscariotes? Foram essas as questões que passaram a assaltar Don e Carol na medida em que conviviam com aquela gente e iam presenciando diariamente cenas de violência gratuita. Ao compreender a língua e os costumes dos sawis, seu caráter e, finalmente, suas tradições, o ânimo dos missionários degenerou gradualmente numa compaixão impotente, acompanhada, naturalmente, por uma avassaladora sensação de fracasso.

Essa sensação se agravou quando eles perceberam que, mesmo involuntariamente, sua presença era uma fonte constante de discórdia, já que foi por causa deles que as duas aldeias passaram a compartilhar o mesmo território, tornando assim muito mais freqüentes as lutas e os ferimentos que de outra forma seriam apenas esporádicos. Desolados, os dois canadenses se deram conta de que, além de não obterem progresso algum, estavam agravando a situação pelo simples fato de estarem ali. Os combates, embora constantes, ainda não haviam resultado em mortes; felizmente, pois isso daria início a um ciclo de retaliações mútuas que provavelmente se estenderia por várias gerações. Assim, para evitar que tal coisa acontecesse, Richardson e sua esposa decidiram, cheios de pesar, que o melhor a fazer era reconhecer abertamente o fracasso da sua missão e ir embora dali.

O que se seguiu é apenas mais um exemplo daquelas curiosas situações que a vida nos apresenta, nas quais só conseguimos alguma coisa depois que desistimos de consegui-la. No momento mesmo em que anunciou aos sawis que iriam embora para evitar derramamento de sangue, Richardson descobriu o inesperado: os selvagens na verdade possuíam, sim, um método infalível, embora doloroso, de promover a paz completa e sem desconfiança; e decidiram usar esse método extremo apenas quando perceberam que essa era a única maneira de impedir a partida dos missionários. O método era simples, assim como a lógica subjacente ao mesmo: a única maneira de assegurar um estado de coexistência plenamente pacífica consiste em entregar um filho ao inimigo. Sim, pois o homem que faz isso está ao mesmo tempo demonstrando confiança irrestrita e provando ser ele próprio digno de receber em troca essa mesma atitude. Isso é, como eu disse, muito doloroso, pois os pais sawis, apesar de tudo, amam seus filhos, como qualquer ser humano faria. Mas bastou que um pai de cada aldeia levasse seu filho e o colocasse sob os cuidados de um guerreiro da aldeia adversária, e todas as disputas terminaram.

Foi assim que Don e Carol contemplaram, quase incrédulos, a cessação súbita não apenas de todos os atos de violência entre os membros das duas aldeias, mas também de todos os rancores e mágoas resultantes de contendas anteriores, e mesmo de qualquer indisposição ou cara feia. Homens que no dia anterior estavam prontos a matar um ao outro agora sorriam afavelmente e trocavam presentes, sem falsidade e sem medo. Tudo isso por causa de dois bebês cujas vidas agora eram sagradas, e que os novos anfitriões protegeriam com mais ardor que às de seus próprios filhos. Os sawis dão a cada um deles o nome de tarop tim - um filho da paz. Contra ele não haverá traição; atentar contra a vida de um tarop tim é o pior crime que se pode cometer no universo dos sawis. E, enquanto ele viver, a paz entre as duas partes reconciliadas está garantida. Do ponto de vista da antropologia cultural isso talvez não passe de mera curiosidade ou problema científico. Mas não pareceu assim a Don e Carol Richardson; foi graças a isso que eles puderam permanecer entre aqueles que já haviam aprendido a amar, e foi também graças a esse estranho acontecimento que puderam, mais tarde, falar àqueles nativos sobre Alguém que um dia também propôs uma reconciliação enviando seu Filho para viver no meio de seus inimigos.