6 de junho de 2007

Ignorância resumida

Depois de escrever neste blog uma porção de textos para falar sobre coisas que sei (ou pelo menos julgo saber), sinto necessidade de mudar por um pouco de rumo e falar sobre o que não sei. A razão disso é simples: agora que concluí a faculdade, tenho sentido cada vez mais fortemente a necessidade de montar um roteiro de estudos que seja adequado ao meu campo de interesses, que não só é razoavelmente amplo como também está em constante crescimento. Pra dizer a verdade, já faz tempo que percebi a necessidade desse roteiro, mas ela vem aumentando consideravelmente na medida em que tomo consciência do tamanho da minha ignorância, e isso tem acontecido de maneira particularmente intensa nos últimos meses. O fato é que a situação tomou proporções tais que tornam impossível resolvê-la facilmente ou mesmo explicá-la num post. A simples listagem dos assuntos a estudar, mesmo resumida, requer um trabalho considerável, de modo que hoje me limitarei a fazer justamente isso, na esperança de que essa lista me ajude a elaborar um plano mais detalhado num futuro próximo. Acho justo avisar desde já que muito dificilmente, segundo me parece, o que vou escrever hoje interessará a alguém além de mim mesmo. Se, apesar disso, resolvo publicar este texto, é apenas porque o próprio ato de escrevê-lo me ajudará a fixar melhor meus objetivos; e, já que terei esse trabalho, não vejo motivo algum para não publicá-lo. O assunto pode não interessar a ninguém, mas também não tem nada de confidencial.

Comecemos, então, pela física. Antes de qualquer outra coisa, eu preciso aprender direito o pouco que deveria ter aprendido durante a graduação. A correria dos finais de semestre, a preocupação com as notas, as disciplinas chatas que exigiam mais atenção do que mereciam e os estudos extracurriculares que impus a mim mesmo constituíram um considerável empecilho ao aprendizado pleno do que realmente interessava do ponto de vista estritamente profissional e acadêmico. O resultado é que não aprendi satisfatoriamente algumas disciplinas, em especial certos tópicos de termodinâmica, mecânica estatística, eletromagnetismo, a teoria especial da relatividade e os formalismos mais recentes da mecânica clássica. Sinto que preciso no mínimo voltar atrás e aprender direito essas e outras coisas. Depois disso poderei voltar-me para o estudo de assuntos um pouco mais avançados que usualmente não são estudados num curso de graduação em física. Minhas pretensões quanto a isso não são muitas. A única coisa que pretendo conhecer em profundidade é a teoria quântica, que considero uma das disciplinas mais belas, agradáveis e interessantes que já conheci. Também preciso conhecer no mínimo os fundamentos da relatividade geral, e um estudo básico de física nuclear e de partículas é inevitável. Sem isso jamais serei capaz de entender qualquer coisa razoavelmente relevante sobre cosmologia, que é um assunto aparentemente interessantíssimo. Se eu conseguir isso, me darei por satisfeito no que diz respeito à física.

Embora eu goste muito de matemática, há pouco nela que me instigue a ir muito além do que já sei. Eu sou, sem sombra de dúvida, um teórico, mas meu gosto pela abstração tem limite, e o curso de física já me proporcionou quase o suficiente para esgotá-lo. Apesar disso, sei que o simples estudo mais aprofundado de física, que descrevi no parágrafo anterior, exigirá conhecimentos de matemática consideravelmente mais vastos que os que possuo atualmente. Mas eu gostaria muito de conhecer mais sobre álgebra linear, bem como um pouco mais sobre métodos de resolução de equações diferenciais, sobre fractais (e tudo o que se relaciona com a teoria do caos) e tensores, bem como alguma coisa sobre teoria de grupos e geometrias não-euclidianas. Mas antes disso tudo preciso corrigir uma falha imperdoável na minha formação atual, que é a quase total ignorância sobre o cálculo envolvendo variáveis complexas.

Com relação a outros campos das ciências naturais, a área onde minha ignorância dói mais é a geologia, em todos os seus ramos; venho adiando o estudo dessa disciplina desde que entrei na faculdade, e o que aprendi a respeito ao longo desses anos caberia tranqüilamente num texto de duas páginas. Isso se relaciona, naturalmente, com meu interesse pela paleontologia, um assunto que também pretendo vir a conhecer muito melhor. E daqui podemos passar diretamente às muitas e problemáticas questões envolvendo a evolução, a genética populacional e questões afins. Também pretendo conhecer mais sobre genética, bioquímica e biofísica. E não posso deixar de lado, é claro, uma das minhas paixões mais antigas, a astronomia, um assunto do qual ando meio enjoado ultimamente, mas ao qual sei que voltarei mais cedo ou mais tarde, como sempre acontece. Mas até mais do que qualquer conhecimento técnico específico das ciências, têm me interessado muito ultimamente as questões históricas e filosóficas relacionadas ao tema. Aliás, considero que a sociedade e a própria ciência progrediriam melhor se certos cientistas, bem como certos leigos, tivessem uma noção mais realista da mesma, e acredito que isso pode ser em grande parte proporcionado por um conhecimento mais aprofundado sobre história e filosofia da ciência.

Porém, uma apreciação decente da ciência moderna do ponto de vista histórico e filosófico passa necessariamente por uma compreensão adequada da Idade Média. Por essa razão, e por muitas outras, considero que o estudo da Europa medieval, em todos os seus aspectos, é uma das minhas necessidades intelectuais mais pungentes. Preciso conhecer a fundo sua cultura, sua arte, sua história, sua sociedade, sua política, sua filosofia e sua teologia, a fim de entender não só os poucos pontos em que ela foi superada pela modernidade, mas principalmente os muitos em que a superou de longe. Em especial, pretendo conhecer os grandes filósofos, teólogos santos e místicos desse período muito melhor do que os conheço agora; homens como Santo Agostinho, Boécio, Santo Anselmo, Pedro Abelardo, São Bernardo de Clairvaux, São Tomás de Aquino, São Boaventura, Duns Scotus e uma infinidade de outros.

A Idade Média exerce sobre mim uma atração especial, mas na verdade não há um único período histórico que eu não precise estudar bastante. Minha ignorância sobre o tema me preocupa, e muito, especialmente quando percebo que não sei coisas que qualquer um com segundo grau completo deveria saber. Eu disse que isso me preocupa, mas na verdade não me envergonha, ou pelo menos não muito, já que meus velhos professores de história estavam menos interessados em transmitir conhecimento histórico do que em encher minha cabeça com lixo ideológico marxista. De qualquer forma, preciso agora reservar algum tempo para consertar essa séria deficiência na minha formação. Necessito urgentemente de um estudo razoavelmente profundo da história de todas as épocas, de todos os lugares, e principalmente das grandes civilizações. Em particular, devo dedicar algum tempo à história brasileira, na qual meu conhecimento é ainda pior que no resto. Mas não pretendo gastar muito tempo nisso, pois não creio que o papel do nosso país na história da humanidade seja algo digno de atenção. Meu interesse pelo Brasil deve-se apenas ao fato de eu ter sido mandado pra cá e nada poder fazer acerca disso.

Quando digo que preciso conhecer a história do mundo, porém, não estou pensando nos grandes acontecimentos de ordem política, social e militar, embora eles também estejam incluídos. Tenho em mente sobretudo os aspectos antropológicos, culturais, intelectuais e religiosos. Nem sei se isso será possível, mas eu gostaria muito de atingir um estado de conhecimento que me permita intuir objetivamente, ainda que de maneira abstrata e algo imprecisa, o modo como pensaram, sentiram e viveram os homens nos mais importantes locais e momentos da história. E isso com respeito a todos os tipos humanos que compõem uma sociedade civilizada: o político, o aristocrata, o soldado, o sacerdote, o artesão, o camponês, etc.

Aqui, naturalmente, cabe ressaltar a importância do estudo das tradições religiosas e intelectuais que formam a espinha dorsal das grandes culturas. É essencial conhecer as obras dos grandes mestres de cada povo: os filósofos, os poetas, os místicos, monges, santos e profetas, e até os homens práticos, governantes e generais. Mais essencial ainda, porém, é conhecer bem as escrituras sagradas das grandes religiões, bem como os mitos de cada comunidade. Pretendo vir a conhecer pelo menos o Alcorão e os hadiths, os Vedas, Upanishads e demais textos sagrados do hinduísmo, o Tripitaka, o cânon páli e outros textos budistas e os grandes livros da religião tradicional chinesa com a mesma profundidade com que atualmente conheço a Bíblia. Não é grande coisa, sem dúvida, mas é suficiente para evitar abordagens simplistas, reducionistas e grosseiramente parciais, abrindo espaço para que os textos falem por si mesmos e exponham suas riquezas.

Acho importante conhecer diretamente os mitos das diversas religiões não apenas pelo aspecto religioso em si, mas também pelo seu valor literário e psicológico, ou seja, enquanto reveladores do espírito dos povos que os compuseram. Aproveito para registrar também, antes de retornar às questões intelectuais e religiosas, que preciso ainda estudar psicologia e antropologia, assim como literatura e disciplinas relacionadas à linguagem. Mas é importante observar que quando falo em psicologia e antropologia não me refiro apenas às modernas escolas científicas ou pseudocientíficas que tratam do tema, embora o contato com elas se me afigure importante e necessário (interessa-me particularmente a psicologia do desenvolvimento); mas refiro-me também ao que se pode encontrar de conhecimento genuíno acerca da natureza humana fora das publicações acadêmicas, como nas tradições religiosas, nos mitos e na literatura. Com relação a esta última há ainda muito que eu preciso conhecer, tanto no âmbito da nossa provinciana modernidade quanto dos clássicos da história literária universal. Provavelmente ainda farei um esforço de aprender a ler em algumas línguas estrangeiras, não apenas pelo meu interesse (ainda não satisfeito) pela etimologia, mas também pelo prazer de ler os grandes textos nas línguas originais. Interesso-me particularmente por literatura inglesa, embora o escritor que eu mais sinta vontade de conhecer a fundo seja Dostoiévski. Mas quero experimentar um pouco de tudo, desde as peças do velho teatro grego até os contos de fadas (que, aliás, ocupam um lugar especial na minha lista de favoritos), sem jamais deixar de lado a poesia em todas as suas manifestações.

O estudo de religiões comparadas também está seguramente nos meus planos. Em particular, interessa-me conhecer mais a fundo a escola perenialista, por sua abordagem da metafísica subjacente aos textos sagrados e por sua aversão ao reducionismo materialista que parece caracterizar muitos dos modernos estudos sobre a religião. Mas a comparação requer o conhecimento dos objetos comparados, de forma que minha ignorância atual não me permite empreender esse estudo. No momento as únicas religiões que me julgo qualificado para comparar são o cristianismo e o judaísmo. Mesmo assim, embora meu conhecimento do pensamento cristão seja muito melhor que o das demais tradições, ele está longe de ser satisfatório. Eu poderia gastar uma vida apenas estudando a teologia protestante, que tem apenas meio milênio de existência, e pretendo de fato vir a compreendê-la muito melhor do que atualmente. Mas também preciso dedicar atenção ao pensamento católico, especialmente aos escolásticos a quem me referi anteriormente. Também pretendo, naturalmente, conhecer a patrística muito melhor do que conheço agora, tanto a latina quanto a grega. Aliás, não sei praticamente coisa nenhuma sobre o sistema doutrinário da Igreja Ortodoxa oriental, e menos ainda sobre as igrejas nestorianas, de modo que também será importante entrar em contato intelectual com esses irmãos remotos.

Mas mais importante que tudo isso é me aprofundar no conhecimento da própria Bíblia, que tenho estudado a vida toda sem jamais ter tido a impressão de que um dia terei estudado o suficiente. Para isso, pretendo lançar mão de todos os instrumentos que estiverem à minha disposição, como arqueologia e história do Oriente Próximo, crítica textual, hermenêutica (e sua evolução ao longo da história) e o aprendizado das línguas originais. Preciso retomar meus estudos de grego, que nunca passaram da superfície (se é que chegaram a atingi-la), e começar a estudar hebraico. Aprender latim também está nos meus planos há algum tempo, embora sua importância para mim resida menos na teologia do que na sua beleza intrínseca, na sua importância para a compreensão da língua portuguesa e no inestimável valor das obras filosóficas que se produziram nessa língua durante a Idade Média.

Por falar nisso, é claro que não posso deixar de dar importância primordial a um estudo mais sério da história da filosofia. O mais importante de tudo, sem dúvida, é conhecer profundamente Platão e Aristóteles; ao menos nada mais poderei fazer enquanto não tiver feito isso. Depois disso poderei passar à patrística e à escolástica, como já apontei antes, sem deixar de lado as contribuições dos grandes pensadores muçulmanos medievais, bem como os hindus. Do hinduísmo, aliás, eu só conheço bem o Vedanta, e mesmo assim não o suficiente; preciso conhecer bem todas as escolas inspiradas nos Vedas. Mas voltemos ao assunto. Uma vez tendo feito isso, não restará muito a estudar. A modernidade ocidental e pós-cristã parece ter contribuído muito pouco para a filosofia. Do século XVII pra cá existem bem poucos filósofos que me parecem dignos de atenção demorada: Leibniz, Husserl, Zubiri e mais um punhado de ilustres desconhecidos. Isso não significa que eu não pretenda estudar o produto de muitas mentes menores, como Descartes, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Heidegger, Bergson, Sartre e tantos outros cuja fama parece-me absolutamente desproporcional aos seus méritos intelectuais, ao menos se comparados aos dos gigantes que citei há pouco. Mas o ponto é justamente esse: se é verdade que esses homens têm pouco a acrescentar do ponto de vista filosófico, não é menos verdadeiro que conhecê-los é essencial para quem queira compreender a modernidade, que fez pouco além de segui-los em sua decadência.

Aliás, também preciso conhecer melhor a história e o conteúdo das filosofias políticas em voga hoje em dia. Não sou mais um ignorante completo sobre o tema, mas ainda há uma infinidade de dúvidas que preciso solucionar. Não faz muito tempo que descobri a óbvia conexão da filosofia e da teologia com a política, isto é, entre o que o indivíduo pensa acerca de si mesmo, do homem, do mundo e de Deus e o que ele julga que deve fazer no mundo em decorrência disso. Mais do que isso, porém, a política me interessa por ser um elemento cada vez mais determinante na realidade humana, de modo que, gostando eu ou não, vejo-me obrigado a conhecer o assunto, sob pena de jamais compreender direito a realidade. O mesmo, aliás, se aplica à economia, mas quanto a esta ainda sou quase tão ignorante quanto sempre fui.

Encerro aqui estas considerações bastante resumidas sobre a minha própria ignorância. Se eu me estendesse em cada um desses pontos acabaria como um amigo que afirmou que precisaria de um blog inteiro para listar os assuntos que desconhece. Acho provável que eu tenha me esquecido de mencionar algumas coisas importantes que preciso aprender. Mas vou parar assim mesmo. O que foi dito já é suficiente para patentear o caráter desesperador da minha situação. Sei que serão necessárias várias décadas, no mínimo, para que eu consiga estudar tudo isso. Ficarei pra lá de satisfeito se conseguir aprender antes da minha morte uma parcela significativa do que acabo de listar. Mas, de qualquer forma, preciso começar a pedir ao Senhor que instale boas bibliotecas no paraíso.

13 de maio de 2007

O triunfo do carpe diem

Escrever comentários sobre obras de literatura é algo difícil, especialmente se eles forem dirigidos a leitores que não necessariamente leram o livro comentado. Não, é claro, que seja difícil escrever algo que simplesmente leve os outros a terem vontade de ler o livro, ou mesmo a terem vontade de passar longe dele. Mas fazer uma análise justa e completa do mesmo, dizer exatamente o que se aprendeu com ele sem aludir às especificidades da narrativa é algo freqüentemente difícil, se não impossível. Essa é uma das principais razões pelas quais decidi escrever hoje um breve comentário sobre o Admirável mundo novo (Brave new world), o livro mais amplamente conhecido de Aldous Huxley: além de ser uma excelente ficção literária, tem essa rara característica que faz com que a lição mais importante a extrair dele não se baseie em nenhum acontecimento específico na vida dos personagens, mas sim no próprio ambiente em que os acontecimentos se desenrolam.

Utilizo aqui a palavra "ambiente" no sentido mais amplo possível, e o autor o descreve de maneira muito inteligente e precisa. Ainda assim, não deixa de ser verdade que abordarei o livro de uma perspectiva apenas parcial, embora eu creia que se trata de sua parcela mais importante. Não é meu objetivo comentar as idéias do autor, sobre as quais eu conheço bem pouco e não gosto quase nada do pouco que conheço. Aliás, Huxley escreveu um outro livro, Regresso ao admirável mundo novo, no qual expõe suas opiniões sobre uma série de questões intelectuais sérias abordadas ficcionalmente no livro. Mas não li esse segundo livro, e essa é uma das razões pelas quais não me animo a discorrer sobre as idéias do autor; limito-me a contar uma das coisas que aprendi lendo um de seus livros. Embora eu tenha a impressão de que ele concordaria ao menos com a essência da minha conclusão, esse fato não possui importância alguma no momento.

O Admirável mundo novo pode, creio eu, ser considerado uma obra de ficção científica. Não que as descrições dos avanços científicos e tecnológicos estejam em primeiro plano. Mas eles formam o substrato sobre o qual se assenta toda a realidade imaginada pelo autor, a qual consiste numa sociedade futurista em que a ciência logrou eliminar praticamente todos os sofrimentos (não direi todos os males, porque os dois conceitos são obviamente muito diferentes). Todos os seus habitantes desfrutam de prosperidade, prazer à vontade e estabilidade em todos os aspectos. Não há miséria, nem violência, e as doenças foram controladas. A velhice é bem disfarçada de modo que as pessoas mantêm a aparência e a saúde da juventude até os sessenta ou setenta anos, quando finalmente morrem. Até incômodos menores como a gravidez foram abolidos, pois os novos seres humanos são produzidos em verdadeiras linhas de montagem. Por isso mesmo, inclusive, não existem famílias nem qualquer coisa equivalente, e portanto nada que possa trazer aquele tipo de sofrimento que deriva dos atritos normais causados pela intimidade entre as pessoas. Também não há, é claro, relacionamentos amorosos estáveis, de modo que todos podem desfrutar devidamente dos prazeres sexuais sem qualquer restrição moral ou mesmo social. As ciências da mente e do corpo também progrediram incrivelmente, tornando possível um planejamento eficiente e orgânico da sociedade, de forma que cada um tem uma função útil a desempenhar e se satisfaz com ela. Assim, por exemplo, os indivíduos destinados a se tornarem ascensoristas recebem desde a infância uma educação e um tratamento psicológico (cujos métodos, aliás, são muito mais poderosos que os que utilizamos hoje) que os levam a se sentirem bem em ambientes apertados e com iluminação totalmente artificial, enquanto um futuro administrador é induzido a gostar de trabalhos que exigem bastante da inteligência e é tratado de forma a adquirir a capacidade intelectual necessária. A conseqüência natural disso é a divisão da sociedade em castas, pois a especialização e a divisão de trabalho são essenciais para o funcionamento de qualquer organismo. E, caso alguém ainda consiga se sentir ocasionalmente frustrado ou entediado, a despeito de todos os prazeres disponíveis e do condicionamento psicológico que faz com que cada um adore ser quem é, estar onde está e fazer o que faz, resta sempre o recurso às drogas, nas quais se diluem todas as ansiedades restantes.

É esse o cenário contra o qual se desenvolve a narrativa, que consiste na complicada história de umas poucas pessoas que, por razões diversas, não conseguem se ajustar bem a esse elegante sistema. Mas a narrativa parece-me muito menos interessante que o cenário, chegando a parecer que aquela não é muito mais que um pretexto para a apresentação deste. Muito poderia ser dito acerca do mundo imaginado por Huxley do ponto de vista filosófico, científico, psicológico, antropológico, teológico ou mesmo político. Em especial, seria interessante saber se nosso mundo caminha para algo parecido com isso ou para algo totalmente diferente (como, por exemplo, a realidade retratada no 1984, de Orwell) ou diferente em apenas alguns aspectos, restando, portanto, discutir quais seriam eles. Ao menos um esboço dessa análise poderia ser feito através da comparação do mundo atual com o de 1932, data da publicação do livro. Talvez um dia eu me aventure a fazer uma análise desse tipo. Não a faço agora simplesmente por considerar essa tarefa muito superior à minha capacidade. Minha proposta imediata é muito mais modesta, porque o tema que desejo considerar é muito menos abrangente.

A questão é que há um contraste marcante entre o grau de prosperidade e felicidade alcançado naquela sociedade e a reação que sua descrição desperta no leitor. Os gênios que planejaram aquele mundo conseguiram resolver todos os problemas, reduzindo a praticamente zero não só as mazelas sociais como também todos os tipos de sofrimento que o homem pode experimentar. Ali os habitantes se gabam de viver numa sociedade em que todos são felizes. E eles têm razão: do ponto de vista da satisfação pessoal, é difícil levantar uma só objeção contra aquele estado de coisas. As pessoas são felizes, úteis umas às outras, vivem uma vida de muito prazer e praticamente nenhuma dor. O mundo funciona tão bem quanto um relógio, tanto no todo quanto em cada uma de suas partes. Se o bem comum, a felicidade, entendida como ausência de sofrimento, é o critério pelo qual a vida humana deve se pautar, então o leitor de Huxley tem diante de si a solução perfeita. A ciência, devidamente orientada e aplicada, resolveu todos os problemas. Alguns de nós podemos não gostar de certos aspectos daquela sociedade, como a ausência da vida em família, a libertinagem do sexo e das drogas ou mesmo a incontornável desigualdade entre as pessoas de diferentes castas. Mas o cidadão imaginário desse mundo teria todo o direito de rejeitar essas objeções como mero sentimentalismo retrógrado. Afinal de contas, a supressão da intimidade e da igualdade e a glorificação do prazer serviram para resolver todos os problemas: agora todos são felizes e satisfeitos, enquanto que no nosso mundo reina um imensurável sofrimento. Obviamente, concluiria aquele cidadão, esse foi um preço que valeu a pena pagar.

Entretanto, esse argumento prático irrespondível não convence. Tenho a impressão de que muito pouca gente preferiria viver num mundo assim. Mas nisso, é claro, só posso falar por mim mesmo. O mundo novo de Huxley não tem, para mim, muito que se possa admirar. Cabe ressaltar que eu o descrevi de maneira um tanto resumida, seca e direta, mas o autor, que dispunha não só de muito mais espaço como também de uma habilidade literária muito superior, faz essa mesma descrição de maneira muito mais detalhada, vívida e contínua. O resultado que ela produziu em mim foi uma sensação crescente de confinamento e escuridão. Não duvido, é claro, que eu poderia ser feliz naquele mundo, desde que fosse submetido ao mesmo preparo psicológico que seus habitantes enfrentavam. Mas para isso, é claro, seria necessário abrir mão de algum elemento constituinte da minha natureza.

Na verdade, essa é talvez a única objeção que se pode levantar contra aquele sistema: ele só funciona porque desumaniza o ser humano, o reduz a alguma outra coisa, interfere na sua natureza e a transforma em algo mais adequado a propósitos muito mais estreitos: a eficiência do mundo, entendida como a prosperidade e felicidade de seus membros, o que no fim das contas é apenas multiplicar o prazer e eliminar a dor. Mas sendo impossível, dentro do conjunto de pressupostos dessa filosofia grosseiramente hedonista, moldar o mundo de modo a satisfazer os anseios do homem, torna-se necessário moldar o próprio homem, condicionando-o a satisfazer-se com o que lhe é oferecido e esquecendo quaisquer aspirações superiores que ele pudesse ter até então. Para funcionar tão perfeitamente quanto um relógio, a sociedade precisou tornar-se tão banal quanto um relógio, tanto no todo quanto em cada uma de suas partes. O resultado é uma sociedade em que todos são de fato felizes, a comunidade realmente é bem estruturada e progride eficientemente, mas os elementos humanos deixaram de fazer parte disso tudo há muito tempo. Os homens são apenas um pouco mais felizes que as formigas, e o progresso da sociedade humana não é muito superior ao de um formigueiro. Isso no sentido meramente quantitativo, é claro. Qualitativamente não há diferença alguma.

No entanto, qualquer ser humano que saiba algo minimamente relevante acerca de si mesmo compreende que somos maiores que tudo isso, e que temos diante de nós possibilidades de sucesso ou fracasso, de felicidade ou pesar, de prazer ou sofrimento, que não são acessíveis a uma comunidade de insetos. O Admirável mundo novo retrata a pobreza intelectual e espiritual à qual a humanidade se expõe ao perder a consciência de si mesma, adotando como verdadeira uma teoria que não vai além da superfície do homem, deixando de se dar conta de tudo o que há de mais importante na sua natureza. E não se trata de um risco filosófico abstrato; conheço pessoas que realmente crêem que a busca do prazer deve ser tomada como princípio norteador da vida humana. Parece não haver, no horizonte da experiência de vida dessas pessoas, nenhum elemento mais precioso e digno. E se você afirma a existência desse elemento, elas franzem a testa e continuam sem saber do que você está falando. O que Huxley nos apresenta nada mais é que um esboço de uma humanidade desumanizada, totalmente conquistada por essa forma terrível de pobreza. Talvez se possa sustentar que ali todos são felizes, mas só poderá dizer isso quem não tiver nenhuma experiência da verdadeira felicidade.

6 de maio de 2007

A trindade na diversidade

Inspirado por uma conversa que tive com um amigo há quase uma semana, resolvi antecipar mais uma vez um dos temas da minha lista. O assunto é a infindável briga travada hoje em todos os cantos do mundo, mas com foco nos Estados Unidos, envolvendo os aspectos científicos, filosóficos e teológicos da evolução. Trata-se de uma questão delicada e ampla, sobre a qual é muito fácil ser mal informado, visto que a imprensa, especialmente no Brasil, está repleta de tagarelas que ignoram completamente o estado da questão. O assunto é fascinante, mas complexo, e eu poderia escrever uma porção de posts sem jamais me aprofundar em nenhuma de suas divisões.

Minha pretensão para o texto de hoje não pode ser senão a de apresentar os lados envolvidos nesse debate. Mesmo isso, porém, só pode ser feito de maneira superficial e resumida, pois uma exposição mais aprofundada iria revelar que há quase tantas opiniões quanto há opinadores sobre o tema. Existem diversos níveis de simplificação possíveis, sendo o mais simplista de todos a polarização do debate entre "criacionistas" e "evolucionistas", em que os primeiros são entendidos como fundamentalistas interessados em demonstrar que a ciência apóia uma interpretação literal de seus livros sagrados (geralmente o Gênesis), enquanto os últimos são materialistas defendendo a tese de que essa mesma ciência torna Deus dispensável. Mas essa não é a idéia mais comum, pois até os nossos jornalistas sabem que há evolucionistas sustentando todas as concepções possíveis sobre religião, assim como há entre as diversas facções criacionistas desavenças enormes sobre a interpretação tanto da evidência científica quanto da Bíblia, e mais ainda sobre como e até que ponto uma deve interferir na outra.

Pra complicar ainda mais a questão, há ainda o movimento mais recente do design inteligente (intelligent design), que defende opiniões algo semelhantes às de muitos criacionistas sem, no entanto, professar qualquer interesse na relação disso com questões religiosas. Existe também o problema da distinção adequada entre o evolucionismo, genericamente falando, e as teorias darwinianas. A combinação de todos esses elementos produz uma bela confusão, muito difícil de enquadrar num esquema simplificado. A versão mais difundida dos fatos, no entanto, pode ser resumida em poucas palavras: de um lado estão os evolucionistas de todas as confissões religiosas (inclusive nenhuma), interessados apenas em manter a integridade do conhecimento científico e sua independência contra quaisquer interferências de ordem não-científica em seus assuntos. Do outro lado estão todos os que se opõem a isso e que, mesmo sendo cientistas profissionais alguns deles próprios, desejam submeter em maior ou menor grau o método científico aos critérios determinados por suas crenças religiosas. A intensidade disso pode variar muito conforme o grau de fundamentalismo do criacionista em questão, mas o efeito é qualitativamente idêntico. Nesse sentido, obviamente, o design inteligente não é nada mais que um criacionismo mal disfarçado. Essa maneira de ver a situação é, na verdade, tremendamente equivocada, visto que perde de vista a natureza do real objeto de discórdia e representa mal tanto as opiniões quanto os interesses das diversas partes envolvidas. A fim de colocar o problema na sua perspectiva correta, passo agora a descrever resumidamente o posicionamento científico e filosófico dos principais grupos em disputa.

O evolucionismo é um corpo de idéias filosoficamente e teologicamente tão heterogêneo quanto possível, e mesmo do ponto de vista estritamente científico há debates sem fim dentro de suas fileiras em cada um dos campos de estudo relacionados ao tema. Assim, há evolucionistas ateus, agnósticos e teístas de todos os matizes, darwinistas e não-darwinistas (e todos os casos intermediários) e defensores de todos os tipos de relacionamento possível entre a ciência evolutiva e as diversas concepções religiosas, isto é, desde os que acham que a evolução torna impossível a religião em todas as suas formas até os que pensam que aquela leva direta e necessariamente a esta.

Em vista disso, parece que não há um ponto comum capaz de unir todos os adeptos do evolucionismo contra seus antagonistas. Esse ponto existe, no entanto, e atua fortemente por trás de toda a diversidade real ou possível: o princípio, seja ele factual ou meramente metodológico, de que o processo inteiro do desenvolvimento da vida, incluindo sua origem e cada etapa da diversificação até o estado presente, deu-se sem a intervenção direta de qualquer ser inteligente e, portanto, foi guiado unicamente por leis naturais. Podem existir - e existem - desacordos quanto à natureza dessas leis, incluindo-se aí a questão de saber se elas refletem ou não uma providência divina ou se são essencialmente não-intencionais. Mas reina indiscutível entre os evolucionistas a convicção de que os processos naturais, quaisquer que sejam a natureza física ou a causa metafísica dos mesmos, são plenamente suficientes para explicar tudo o que vemos.

Essa é a perspectiva que tem dominado a comunidade científica desde o século XIX, sejam quais forem as razões. Mas, embora nunca tenham deixado de ocorrer dissidências esporádicas dentro da mesma, a primeira reação organizada contra esse estado de coisas ocorreu nos EUA durante os anos 60, num movimento que, apesar de bastante multiforme e cheio de conflitos internos, persiste até hoje e é conhecido como "criacionismo científico". Embora a maior parte dos cientistas envolvidos tenha sido sempre pertencente a alguma das diversas denominações evangélicas, há também criacionistas católicos, judeus e muçulmanos. Assim como acontece entre os evolucionistas, também os criacionistas têm uma capacidade prodigiosa de discordar uns dos outros em todas as questões imagináveis: sobre a idade do homem, da vida, do planeta e do universo; sobre até que ponto a teoria darwiniana é capaz de dar conta do recado quando se trata de explicar os dados da natureza e, portanto, sobre quais eventos da história da vida requerem uma intervenção direta de Deus; sobre quais aspectos da narrativa do Gênesis devem ser entendidos literalmente, e até que ponto.

Embora em muitos casos o criacionismo de fato esteja associado ao fundamentalismo, nem todos os cientistas criacionistas se enquadram nesse estereótipo (a menos, é claro, que a palavra "fundamentalista" seja redefinida de forma a enquadrá-los). Alguns deles não estão sequer particularmente interessados nas interpretações dos textos bíblicos que tratam do assunto. O que une todos os movimentos criacionistas sob esse rótulo pode ser mais adequadamente expresso em uns poucos tópicos. Primeiro, embora alguns admitam a adequação da explicação evolutiva para grande parte dos eventos biológicos, todos estão em desacordo com os evolucionistas no que diz respeito à tese fundamental que descrevi acima: as leis da natureza, com ou sem o concurso da Providência, não bastam para explicar os dados fornecidos pelo mundo vivo, e as dificuldades são profundas demais para que seja razoável esperar que o progresso da ciência torne as coisas significativamente mais claras.

Não se trata de forçar as descobertas da ciência ao enquadramento a um esquema teológico pré-concebido, e sim de interpretar de maneira objetiva e imparcial a evidência científica, a qual aponta inequivocamente para a interferência ativa de um Criador cujos atributos, até onde podem ser inferidos, coincidem com aqueles tradicionalmente ensinados pelas religiões abraâmicas. Conseqüentemente, há uma convicção comum entre os criacionistas de que as audazes reivindicações do evolucionismo em favor de seu princípio fundamental não se sustentam do ponto de vista da própria análise científica, e que portanto aquele serve apenas para encobrir com pretextos científicos um materialismo filosófico estabelecido a priori. E os evolucionistas teístas, indevidamente impressionados pela autopropaganda materialista travestida de ciência verdadeira, colaboram de maneira inconsciente com essa farsa pseudocientífica, minando assim as bases intelectuais da verdadeira religião e levando-a a perder credibilidade diante do mundo moderno. Assim a ciência, que é em si mesma a refutação do materialismo, acaba se convertendo em um instrumento destinado a fortalecê-lo.

O design inteligente é um movimento bem mais recente, surgido nos anos 90, e distingue-se notavelmente de ambos os anteriores, a ponto de muitos evolucionistas o tomarem por criacionismo disfarçado e muitos criacionistas o acusarem de fazer concessões demais ao evolucionismo (e, portanto, ao materialismo). No plano propriamente científico, as posições do design inteligente identificam-se em muitos aspectos com as alas menos radicais do criacionismo, embora os laços históricos entre as duas vertentes sejam, na melhor das hipóteses, muito tênues. Os defensores dessa teoria compartilham com os criacionistas a opinião de que não só a evidência é insuficiente para justificar a reivindicação central do evolucionismo - conforme explicada acima - mas também existem evidências positivas apontando para a ocorrência de interferências inteligentes na história da vida. Eles consideram que o materialismo metodológico utilizado correntemente no estudo da evolução biológica e outras questões dessa ordem é uma restrição artificial e desnecessária ao escopo da ciência. Esta é capaz de propor critérios objetivos pelos quais se pode distinguir algo formado pelas leis naturais e pelo acaso de algo criado ou fabricado diretamente por uma inteligência consciente. Isso explica a razão pela qual os evolucionistas têm dificuldade em enxergar a distinção dessa teoria em relação ao tradicional criacionismo científico.

As diferenças existem, porém, e são basicamente duas. A primeira é que, diferentemente do criacionismo, o design inteligente não se propõe a demonstrar a existência de Deus. De modo mais geral, aliás, o design inteligente não tem qualquer pretensão de inferir algo sobre os atributos do designer. Seus defensores defendem que a ciência permite discernir claramente um artefato inteligentemente planejado ao se deparar com um, seja ele vivo ou não, a partir de certas propriedades que ele exibe. Mas isso não permite saber coisa alguma sobre como é (ou era) o ser que o projetou ou qual era o seu propósito ao fazê-lo. A questão de saber se foi Deus, Satanás, os Valar de Tolkien, os espíritos de Allan Kardec, uma raça alienígena tecnologicamente muito avançada ou o Saci Pererê pode ser muito importante do ponto de vista filosófico ou teológico, mas toda essa questão transcende em muito aquilo que se pode inferir da evidência científica considerada enquanto tal.

A segunda diferença, muito relacionada com a primeira e não menos importante, é que, dadas essas condições, o design inteligente não tem e não pode ter a pretensão de ser uma refutação do materialismo ou demonstração de algum sistema religioso ou filosófico. Afinal de contas, nada impede que o agente inteligente seja, também ele, parte do universo material - lembremo-nos de que o exame do objeto projetado não permite saber esse tipo de coisa. E, embora seja verdade que alguns dos cientistas envolvidos na defesa do design inteligente militam em favor do teísmo em geral e do cristianismo em particular, isso não significa que a teoria enquanto tal tenha esse objetivo. Ao menos não mais do que o ateísmo militante de certos evolucionistas prova por si só que a evolução é apenas uma construção destinada a defender o materialismo. Afirmar isso é tão simplista como dizer que a mecânica quântica foi inventada com o fim de refutar o determinismo: é simplista porque deixa de fora todos os aspectos importantes do problema. A batalha do design inteligente em si não é contra o ateísmo materialista enquanto tal, e sim contra aquele princípio metodológico adotado amplamente pela comunidade científica moderna, e que resulta na obstrução de muitos caminhos que a ciência poderia perfeitamente percorrer sem perder os atributos essenciais que a distinguem dos demais campos do conhecimento.

29 de abril de 2007

A ciência das causas ocultas

Uma das coisas que mais gosto de fazer é conversar sobre livros, e felizmente tenho conversas assim com uma freqüência quase satisfatória. O problema é que a maioria das pessoas lê muito pouco, e eu não costumo ler o pouco que essa maioria lê (e não me refiro apenas a best sellers - isso inclui também livros considerados de boa qualidade, lidos por pessoas consideradas cultas), de modo que freqüentemente tenho uma certa dificuldade para manter conversações desse tipo. Às vezes, quando estou com paciência suficiente para deixar de lado minhas leituras favoritas, me arrisco a ler um desses pra entender o que as pessoas estão falando. E devo confessar, não sem me encher de vergonha, que já levei isso a ponto de ler até O código Da Vinci. Mas nesse caso tenho pelo menos uma desculpa: resolvi lê-lo porque várias pessoas fizeram questão de me incentivar a isso apenas para saber o que eu pensaria sobre aquela teoria do casamento de Jesus com Maria Madalena e outras idéias igualmente ridículas que o livro apresenta.

Com Stephen Hawking foi mais ou menos a mesma coisa: tanta gente veio me perguntar o que eu achava dele que acabei concluindo que ler seus livros e ter uma opinião a respeito era, no mínimo, parte do meu dever social como físico. Então li Uma breve história do tempo, não gostei muito e desde então não reuni coragem suficiente para ler O universo numa casca de noz. Deste último, portanto, só tenho vagas lembranças do tempo em que um colega de república, também estudante de física, resolveu lê-lo e discutir comigo algumas passagens. Lembro-me particularmente de um trecho no qual Hawking afirmava que o princípio da incerteza de Heisenberg tornava impossível até a Deus conhecer simultaneamente e com exatidão a posição e o momento de uma partícula. Como não li o livro e só posso, por enquanto, confiar na minha memória, não sei se com isso o grande físico de Cambridge quis dizer que a mecânica quântica coloca objeções à onisciência divina. Pra dizer a verdade, a opinião de Hawking sobre isso não me interessa. A menos que ele tenha amadurecido muito desde 1988, considero-o muito bom como profissional da física, mas totalmente incapaz de extrair dela conclusões filosóficas e teológicas que, embora ele não perceba, fogem totalmente não só ao seu campo de especialidade como também à sua compreensão. Mas, independentemente do que Hawking possa ter tido a intenção de dizer, sua afirmação é interessante por si mesma e relaciona-se com o que pretendo discutir hoje, de modo que merece ser examinada.

Não é, porém, sobre a relação da mecânica quântica com a onisciência de Deus que pretendo falar. Mencionei essa questão apenas por julgar que ela serve como boa introdução à questão muito mais interessante do determinismo das leis físicas. Contudo, também não vou examinar o determinismo sob todos os ângulos possíveis, mas apenas do ponto de vista de sua relação com a física. Proposto ainda na Antigüidade por Demócrito, e desmoralizado filosoficamente com a ascensão do cristianismo e cientificamente com a ascensão da física aristotélica, o determinismo voltou à tona, em várias etapas, com o surgimento da física no início da era moderna. Trata-se de uma interessante história que envolve elementos pitagóricos e neoplatônicos no Renascimento e passa por Galileu e Newton até se consolidar conscientemente na obra de Laplace. Mas o interesse deste texto não é histórico, de modo que vou me limitar a dizer que, levada às suas últimas conseqüências, a física de Newton é inteiramente determinista. Excetuando-se as miraculosas e ocasionais intervenções divinas (que Newton admitia, mas Laplace não), o universo seguiria um rumo determinado univocamente pela forma matemática das leis que governam as interações entre suas partes constituintes. De fato, conhecendo-se as propriedades das partículas e a natureza das interações entre elas, seria possível, a partir do estado do universo num dado instante, deduzir matematicamente seu estado em qualquer outro instante. A mecânica celeste, que consiste na aplicação das leis de Newton ao estudo do movimento dos corpos do sistema solar, produziu o mais estrondoso sucesso conquistado na época pela aplicação dessa idéia. Rapidamente, alimentar dúvidas contra as leis de Newton passou a ser o mesmo que assinar uma confissão de estupidez. E, num ambiente intelectual crescentemente dominado pelo materialismo, o determinismo na sua versão laplaciana mais radical impôs-se como necessidade lógica inescapável diante do conhecimento acumulado sobre a realidade.

Nada disso significa, é claro, que a previsão matematicamente exata do destino das coisas seja sempre fácil ou mesmo possível. Mesmo de posse de um conhecimento rigorosamente certo sobre as leis da natureza, o físico ainda ver-se-ia pelo menos limitado pela imensa complexidade do universo, ou mesmo de sistemas idealizados muito mais simples que o universo, pois a complicação matemática resultante daí tornaria impraticável a resolução de uma porção de problemas. Os recentes desenvolvimentos da teoria do caos, por exemplo, bastam para demonstrar que o determinismo fundamental é perfeitamente compatível com a imprevisibilidade prática, a qual deriva da elevada sensibilidade dos sistemas caóticos às condições iniciais aliada à impossibilidade de conhecê-las com precisão suficiente. De qualquer forma, a concepção newtoniana da física, que Einstein e Infeld denominaram "conceito mecânico", sofreu sucessivos abalos, primeiro pela descoberta do magnetismo, e depois de maneira mais profunda, no início do século XX, com a relatividade e a mecânica quântica, das quais a última é a que mais nos interessa aqui.

Quando se fala em indeterminação quântica, a maioria das pessoas pensa logo no princípio da incerteza. Mas ele, na verdade, não tem muito a ver com essa questão. Esse princípio de fato impõe limitações ao conhecimento exato e simultâneo de certas grandezas fisicamente observáveis, mas isso só ocorre porque estas não constituem a realidade fundamental do mundo quântico. Se não podemos conhecer simultaneamente o momento e a posição de uma partícula, é apenas porque esses observáveis não estão lá para ser conhecidos. Talvez haja algum exagero em dizer que eles são apenas uma abstração inventada por nossas mentes macroscópicas, mas a verdade não está muito distante disso. A realidade fundamental do mundo quântico consiste nas chamadas "funções de onda", que são funções complexas (das coordenadas espaciais e temporal, por exemplo) que satisfazem certas propriedades. As funções de onda não têm análogo na física clássica, e portanto não podem ser identificadas com nenhuma entidade física, e no entanto dela se extraem todas as informações físicas de que precisamos. Meu professor de Física matemática definiu bem essa situação ao dizer numa aula: "A função de onda não é física, mas ela sabe tudo sobre física; se você quiser entender de física, faça as perguntas a ela".

A função de onda associada a uma partícula ou sistema de partículas é também função do tempo, e evolui ao longo do mesmo segundo a Equação de Schrödinger. Esta, porém, assim como todas equações diferenciais da física clássica, é perfeitamente determinística. A incerteza de Heisenberg, associada aos observáveis físicos, não afeta isso de modo algum, pois a função de onda não é um observável. Se a mecânica quântica se resumisse a isso, a onisciência divina não seria em nada afetada pelo princípio da incerteza: para conhecer tudo o que existe Deus não precisaria se preocupar com entidades abstratas como posição e momento; bastar-lhe-ia conhecer a função de onda associada ao universo, e tudo o mais estaria resolvido. Há, é claro, um sentido no qual o argumento de Hawking contra a onisciência de Deus (se é que foi essa a sua intenção) expressa algo verdadeiro: para que uma coisa possa ser conhecida é necessário, antes de tudo, que ela exista. Mas essa constatação é trivial demais para merecer maior atenção.

Porém, essa questão do princípio da incerteza não é tudo, e não é sequer o mais importante. A evolução da função de onda não se dá sob os cuidados da Equação de Schrödinger o tempo todo. Há instantes nos quais a função de onda pode ser (e geralmente é) alterada de forma descontínua e imprevisível. Isso ocorre no instante em que alguém toma uma medida de alguma das grandezas físicas do sistema, isto é, no instante em que um observável é efetivamente observado. Há um conjunto de resultados possíveis para cada medida, dependendo das propriedades do sistema, e há uma função de onda associada a cada um desses resultados (espero que o leitor eventualmente mais bem informado me perdoe por deixar de lado os casos em que há degenerescência). A teoria quântica permite calcular as probabilidades de ocorrência de cada um desses resultados, mas não fornece meios de prever de antemão qual deles efetivamente passará, como diria Aristóteles, da potência ao ato. Uma vez que a medida tenha sido feita e um certo valor tenha sido observado, a função de onda passará automaticamente a ser aquela associada a esse resultado, e a partir daí continuará a evoluir segundo a Equação de Schrödinger, até que alguém efetue uma nova medição.

Esse caráter meramente probabilístico, a derrocada total do determinismo diante dos olhos do observador, é a verdadeira revolução conceitual embutida na mecânica quântica, o verdadeiro rompimento com a física clássica e reconciliação com sua antecessora aristotélica. Cabe notar, de passagem, que esse fato não depõe contra a onisciência de Deus mais do que qualquer outro. Qualquer cristão deveria saber, pelo menos desde que Santo Agostinho e Boécio passaram por aqui, que Deus não está sujeito às vicissitudes temporais, que o tempo é também uma criação dele, de modo que para ele não existem eventos futuros; Deus conhece o futuro, assim como o passado, por presenciá-lo diretamente, e não por ter resolvido a Equação de Schrödinger do universo momentos antes de criá-lo.

Mas, como eu disse antes, não foi por causa dessa questão que me animei a escrever tudo isso. Desejo agora chamar a atenção para um fato importantíssimo: o que o caráter estatístico da teoria quântica revela é que seu formalismo matemático não tem a pretensão de abarcar todos os fatores que determinam os rumos tomados pelos sistemas estudados. Ou seja, a teoria não fornece a explicação para o fato de o resultado de uma observação específica ser um e não outro, mas apenas admite sua ignorância a respeito das causas e prossegue na descrição dos fatos. Mas não custa perguntar pela natureza dessas causas. Seriam elas materiais e, portanto, também determinísticas, como queria Einstein com sua hipótese das "variáveis ocultas"? Seriam violações da própria causalidade, como acreditam certos físicos atualmente? Seria essa causa imaterial, denunciando a existência de fatores externos ao universo físico que, sem violar suas leis fundamentais, poderiam ainda assim ditar-lhe os rumos, talvez até de maneira intencional (implicando, portanto, em personalidade)? Parece-me que a segunda pergunta pode ser respondida negativamente pelo simples fato de negar um dos princípios básicos da razão. De qualquer forma, não existe uma resposta científica para essas questões. A resposta precisa ser buscada em outros lugares, pois a evidência física é inconclusiva. Eu, particularmente, rejeito a tese determinista por excelentes razões, tanto filosóficas quanto teológicas, sendo que nenhuma das quais vem ao caso no momento. E o determinista de hoje, ao contrário de seu antepassado filosófico de duzentos anos atrás, já não tem nenhum argumento científico válido em favor de sua tese.

21 de abril de 2007

Segunda colheita

Acho que já é tempo de descrever os frutos que tenho colhido mais recentemente graças a esta modesta plantação que alguns amigos têm me ajudado a cultivar. Esta segunda colheita, assim como a primeira, não poderia deixar de ser muito fragmentária, dada a diversidade dos frutos colhidos, que por sua vez reflete, de certo modo, a variedade, real ou aparente, das próprias questões discutidas neste blog ao longo destes quase quatro meses. E, como fiz da outra vez, deixarei de lado as discussões ainda não encerradas.

Parece que algumas pessoas, pelo menos, gostaram do meu post Idéias em gestação. Eu, por outro lado, o considero não apenas o texto mais chato que já escrevi (exceção feita, é claro, aos relatórios de química analítica), mas também o que tive mais dificuldade em escrever. Colocar em palavras experiências tão subjetivas, ou mesmo conclusões racionais baseadas em tais experiências, não é nada fácil, especialmente para alguém tão introvertido quanto eu. Essa minha incompetência basta, penso eu, para explicar o fato de que algumas pessoas aparentemente não compreenderam o que eu quis dizer com esse texto, e inferiram daí que eu estava defendendo alguma espécie de oposição entre razão e emoção no ato do conhecimento. Na verdade, poucas idéias me parecem tão ingênuas quanto aquela de que todo conhecimento verdadeiro só pode ser atingido pela razão "pura", fazendo abstração dos elementos emocionais ou, pior ainda, de todos os demais elementos pessoais. Essa tese só poderia ser sustentada, supondo que pudesse, a partir de uma cosmovisão do tipo que atrai os materialistas, positivistas e outros que adotam uma teoria empirista e cientificista do conhecimento. Para eles, aliás, as emoções, assim como todos os juízos de valor, só podem mesmo ser manifestações subjetivas de algum instinto que, por sua própria natureza, não tem qualquer conexão com a realidade do ponto de vista cognitivo, de onde decorre naturalmente que só podem ser um entrave ao conhecimento.

Esse é um dos desenvolvimentos possíveis do reducionismo, o qual, como deixei claro num outro texto, considero uma desgraça em todos os aspectos possíveis. E, visto que tanto acredito na objetividade dos valores quanto rejeito a tese segundo a qual o conhecimento científico é o único válido, eu não poderia coerentemente tratar a emoção com o desdém com que tantos a tratam. É claro que eu não disse no meu post tudo o que se poderia dizer a respeito desse tema, e muito menos pretendo fazer isso agora. Desejo apenas chamar a atenção para o que eu realmente quis dizer: nossos sentimentos subjetivos não são obstáculos à compreensão da realidade, e sim dados da própria realidade. E, sendo o autoconhecimento pré-requisito para a obtenção de qualquer conhecimento relevante, a compreensão das próprias emoções (e não o desprezo pelas mesmas) torna-se um dos pilares essenciais do progresso intelectual, ainda que o esforço em direção a tal compreensão seja sempre árduo e ocasionalmente frustrante. Foi isso o que eu quis dizer naquele texto.

Para minha própria surpresa, minha crítica da teoria abiogênica suscitou outras reações além das que eu já comentei anteriormente. Meu amigo André Luiz, depois de gentilmente solicitar e obter minha autorização, utilizou os cinco parágrafos centrais do meu texto Mitologia bioquímica para iniciar uma discussão numa comunidade do orkut, a qual acabou rendendo rapidamente um tópico com duzentas e trinta e uma postagens. Não participei dessa discussão, que foi, quase toda, travada entre o André e um certo Gustavo, e girou em torno de uma única afirmação minha sobre a questão da presença de oxigênio na atmosfera primitiva. O mesmo Gustavo (isto é, suponho que seja o mesmo), aliás, também veio comentar aqui no meu blog. Porém, embora esse comentário não contenha nada de relevante e não chegue, na verdade, a fazer sentido, o mesmo não pode ser dito quanto ao debate travado no orkut, que possui muitos aspectos dignos de atenção. E não o comentei neste blog justamente porque não pude ainda dispor de tempo para conceder-lhe a atenção merecida. Mas ainda pretendo fazer isso, nem que seja daqui a alguns anos. A quem porventura tenha interesse nesse assunto peço apenas paciência, mas adianto desde já que minha posição com relação à questão discutida permanece, até o momento, exatamente a mesma.

Quando publiquei aquela breve descrição dos pensamentos de Albert Einstein sobre assuntos religiosos e outras questões do tipo, minha amiga Camila reclamou que havia gostado menos daquele texto do que dos anteriores. Naturalmente, fui perguntar a ela o motivo disso, que para mim não havia ficado claro. Quase todos os motivos possíveis passaram pela minha cabeça: talvez minha interpretação de Einstein estivesse equivocada, ou as opiniões dele é que fossem tão repugnantes que não mereciam uma exposição, ou tão lindas que eu não deveria ter me referido a elas num tom tão desdenhoso quanto o que utilizei num certo trecho. Mas descobri, aliviado, que não era nada disso. Ocorre que a Camila simplesmente não gosta de ouvir falar em assuntos religiosos, por considerar esse tema sem importância e sem qualquer conexão com a realidade ("subjetivo" foi a palavra que ela usou), e por isso achou que eu não deveria ter perdido tempo escrevendo sobre isso. Sendo assim, só tenho a lamentar pela minha amiga, já que, em vista de nossas diferentes concepções sobre a realidade, serei obrigado a desagradá-la ainda muitas vezes. E aproveito-me desse interessante episódio para prevenir outros leitores que porventura sofram desse mesmo problema.

Quando expus de maneira um tanto vaga e superficial as razões da minha revolta contra o reducionismo em suas diversas formas, foi também a Camila quem me chamou a atenção para algo que estava muito mal explicado no texto. Mencionei de passagem uma porção de "ismos" reducionistas, mas não expliquei exatamente o que há de errado com eles. É claro que o leitor precisaria conhecer no mínimo superficialmente essas doutrinas filosóficas para saber a quais aspectos delas eu me referia, ainda que fosse para discordar dos meus juízos. Infelizmente, mesmo uma descrição superficial e parcial de cada uma dessas correntes de pensamento (ou, em alguns casos, de oposição ao pensamento) ocuparia um espaço grande demais para um único post. Enviei um esboço de explicação à minha amiga, mas não o considero de modo algum satisfatório, por deixar de lado diversos pontos muito importantes. No caso do existencialismo, tentei explicar um pouco melhor as razões pelas quais não simpatizo com ele, mas mesmo essa explicação foi apenas parcial e incompleta. Em posts futuros, mais cedo ou mais tarde, tentarei esboçar explicações análogas com relação às outras correntes que mencionei.

Meus comentários sobre os dois poemas extraídos do primeiro livro de C. S. Lewis geraram uma conversa bem rápida com um amigo pelo MSN, a qual me fez sentir a necessidade de fazer mais um esclarecimento. Pela forma como escrevi, não é difícil associar coisas que não estavam de modo algum associadas na minha cabeça no momento em que escrevia. No sexto parágrafo eu afirmei que o primeiro Satan speaks possui semelhanças com o The tyger de William Blake, bem como com uma certa passagem do Baghavad Gita, mas não expliquei direito em que consistem essas semelhanças. No primeiro caso, trata-se do conteúdo dos dois poemas, que descrevem seus respectivos objetos com uma sensação mista de deslumbramento e terror diante da beleza e da crueldade da natureza. Os tons são muito diferentes, mas nem por isso deixa de haver certa correspondência entre as idéias transmitidas nos dois poemas.

Com relação ao Gita, porém, o caso é totalmente diferente. Eu estava pensando, antes de qualquer outra coisa, no aspecto estritamente poético, isto é, na autodescrição através de uma série de associações inusitadas. O que eu tinha em mente era a forma, não o conteúdo. Não era meu objetivo, nesse ponto, fazer qualquer comparação entre o ateísmo de Lewis e algum aspecto do hinduísmo. Só fiz algo parecido com isso dois parágrafos adiante, ao comparar, de passagem, o monismo materialista de Lewis com o monismo espiritualista das escolas vedantinas no hinduísmo e com o sufismo no Islam. E o que eu pretendia ali era apenas apontar que o contraste é absolutamente desvantajoso para o materialismo. Não que eu tenha grandes simpatias pelas versões espiritualistas do monismo, mas considero-as pelo menos dignas de respeito, principalmente pelo que sei sobre Shamkara e pelo que li diretamente de Ibn Arabi.

Finalmente, preciso mandar um recado à última pessoa que comentou neste blog, cujo nome é Chaia. Não é a primeira vez que recebo comentários vindos de alguém que não conheço, mas os desconhecidos anteriores também possuíam blogs ou eram localizáveis no orkut, e eu gosto de interagir com as pessoas que lêem o que escrevo. Por isso, Chaia, caso você volte a passar por aqui e leia este parágrafo, peço que me envie seu endereço de e-mail ou algo assim, para que possamos conversar melhor. Isso, é claro, se você não enxergar nenhum problema nisso.

13 de abril de 2007

Agnus Dei

A Páscoa já se foi há cinco dias, e eu sinto muito por não ter dito antes o que vou dizer hoje. Acontece que só me deu vontade de escrever a respeito dois dias depois, e os afazeres da vida me impediram de terminar de fazê-lo antes de hoje. Não houve nada que eu pudesse fazer contra esse atraso. Mas vamos lá.

A Páscoa é uma das celebrações religiosas mais antigas do mundo. Apesar de amplamente conhecida hoje como uma festa cristã, em referência à morte e ressurreição de Jesus Cristo, já era celebrada pelos judeus desde muito antes de haver cristianismo. A bela história de sua origem nos é contada no décimo-segundo capítulo segundo tomo da Torah, o Shemoth (ou Êxodo, como é mais conhecido por estas bandas). Trata-se na verdade de uma pequena parte, embora simbolicamente muito importante, de uma história muito mais abrangente. Mas, não sendo possível narrar toda a história do mundo (até porque ela ainda não terminou), terei de me contentar em contextualizá-la estabelecendo limites mais ou menos arbitrários.

O contexto imediato da instituição da Páscoa foi o da luta em prol da libertação de todo um povo. Os descendentes de Israel serviam, desde várias décadas, como escravos no Egito, sofrendo toda sorte de perigos e privações. Atendendo ao clamor desse povo, o Deus de seus antepassados decidiu intervir e livrá-lo dessa carga, e para tanto levantou Moisés e o fez líder dos hebreus. Teve início então uma longa série de tentativas de persuadir o teimoso Faraó a permitir que o povo de Israel partisse. Entretanto, essa "negociação", que incluiu estupendas demonstrações do poder de Deus e da relativa insignificância do monarca, não rendeu bons resultados, mesmo após o envio de nove pragas progressivamente aterradoras. Mas a décima, conforme o Senhor havia revelado a Moisés, resolveria o problema, ao convencer o Faraó de que seria melhor curvar-se diante do desejo do Deus de Israel. E foi, de fato, a pior de todas as pragas: a morte dos primogênitos de todas as famílias da terra do Egito.

O rito da Páscoa foi ordenado como preparação do povo hebreu para aquela noite terrível em que Deus executaria sua sentença sobre os egípcios. Cada família deveria tomar um cordeiro sem defeito e sacrificá-lo ao escurecer. Sua carne seria assada no fogo e comida pelos que se encontrassem na casa, juntamente com pães sem fermento e ervas amargas, em alusão à vida cruel que o povo levava naquela terra. O cordeiro devia ser comido por inteiro, e o que sobrasse seria queimado ao amanhecer; e os participantes precisavam comê-lo com pressa e já trajados, como peregrinos, para a viagem a que, segundo Deus havia garantido, dariam início no dia seguinte.A porta de cada casa onde fosse celebrada a Páscoa deveria ser molhada com o sangue do animal, num ato simbólico que determinava a posição tomada por cada família naquela guerra silenciosa entre Israel e o Egito, ou antes entre o Deus de Israel e os deuses do Egito, contra a libertação dos hebreus ou a favor dela. Cada filho de Israel deveria aspergir sangue sobre a sua porta como um sinal de sua fidelidade. Naquela noite fatídica, o próprio Deus, segundo suas próprias palavras, passaria por ali e verificaria a situação de cada casa. Os lares obedientes, protegidos pelo sinal combinado, seriam poupados da morte de seus primogênitos. O sangue do animal os protegeria; o cordeiro sem defeito havia sido sacrificado no lugar de um dos habitantes da casa.

O sacrifício divinamente ordenado de muitos cordeiros permitiu que o povo de Israel escapasse de sua miserável condição de escravos numa terra estranha e partissem rumo a uma difícil peregrinação à terra que seria deles por direito, e que precisariam conquistar arduamente. Mas aquele povo nunca se esqueceu de sua história e, seguindo as recomendações do Senhor, passaram a reviver todos os anos aquele momento de gloriosa apreensão que seus antepassados haviam experimentado, na noite em que o Todo-poderoso passou por entre eles. Reviveram tudo isso, e o fazem até hoje, preservando aquele mesmo ritual, chamado Pessach, que significa, simplesmente, "passagem".

Durante a peregrinação no deserto do Sinai, entre o Egito e Canaã, instituíram-se as leis civis e os ritos religiosos do povo de Israel. Dentro desta última categoria foi concedido um papel de importância primária aos sacrifícios de animais, nos quais os cordeiros desempenhavam o papel principal, muito embora essa fosse uma prática muito mais antiga que o próprio Israel. A centralidade do cordeiro era evidente na vida desse povo pastoril, em todos os sentidos, e o fundador da mais duradoura casa real foi também um humilde pastor de ovelhas. Quando o Messias finalmente veio, também se serviu amplamente da figura do cordeiro a fim de comunicar ao seu povo o significado de sua própria obra. Ele próprio apresentou-se como o bom pastor e como a porta do aprisco, dentro do qual o rebanho estaria seguro. Mais tarde, seus seguidores o compararam ao sacerdote que entrava anualmente na presença de Deus com a oferta em nome do povo. Mais do que isso, porém: ele foi comparado ao próprio cordeiro do holocausto. Oito séculos antes de sua chegada, o profeta Isaías já havia se referido a ele nesses termos, isto é, como alguém sem qualquer pecado que seria morto em lugar de todo o seu povo, e o faria de forma voluntária e mansa, como um cordeiro.

Coincidentemente (ou não), Jesus foi morto na véspera da Páscoa, que naquele ano ocorreu num sábado, e seu túmulo foi encontrado vazio na manhã subseqüente à mesma. Essa confluência de datas ajuda a explicar, sem dúvida, a apropriação e reinterpretação do significado da Páscoa pelo cristianismo, que nasceu ali mesmo. A semelhança entre a velha Páscoa e a nova, porém, vai muito além disso. Para os judeus, a Páscoa era a comemoração da passagem de Deus entre os egípcios para libertar seu povo do cativeiro e levá-lo a uma boa terra em que seriam livres. Mas apenas foram poupados os que sacrificaram o cordeiro e aspergiram seu sangue na porta de suas casas. Apenas foram libertos da escravidão os que creram na eficácia do sangue do cordeiro. Para nós, cristãos, a analogia é exata: a Páscoa é a comemoração da passagem de Deus por este mundo para nos libertar no cativeiro e nos levar à boa terra em que seremos livres. Mas para isso cremos na eficácia do sangue do Cordeiro; ele morreu para que nós vivêssemos. E aspergimos seu sangue nas vergas de nossas portas.

O paralelo é, evidentemente, profundo demais para que a "usurpação" da festa da Páscoa pelos cristãos possa ser interpretada como mero resultado de uma coincidência fortuita de datas. A Páscoa cristã pode ser considerada superficialmente como uma reformulação radical de sua antecedente judaica. Mas isso não é totalmente verdadeiro, pois a essência perpetuou-se de maneira inabalável. A morte de Cristo é a manifestação concreta e visível de algo de que a celebração milenar que a antecedeu não era muito mais que um símbolo profético, no sentido mais amplo dessa palavra. Ouvi certa vez um pregador dizer Jesus Cristo é o tema principal de todo o Antigo Testamento. Hoje sei que, entendida em sua perspectiva correta, essa afirmação não é exagerada, de modo algum. Olhando retrospectivamente, torna-se claro que todo aquele complicadíssimo e quase incompreensível sistema de leis e rituais visava não apenas satisfazer as necessidades do povo da época, mas também o de prepará-lo culturalmente e espiritualmente para a compreensão e aceitação daquela luz mais perfeita que haveria de brilhar em Belém da Judéia, a mais plena e palpável revelação já vinda do alto, porque consistiu na encarnação de ninguém menos que o próprio Verbo de Deus.

O Apocalipse descreve eloqüentemente o resultado disso quando se refere aos santos reconciliados com Deus como aqueles que "lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro". Mas, seguindo o profeta Isaías, João Batista já havia se utilizado dessa mesma metáfora. A diferença é que o profeta mais antigo falava de algo que então se perdia nas brumas do futuro, ao passo que o mais recente teve a imensa alegria de dizer o mesmo apontando para um indivíduo que estava bem à sua frente. E o que ele disse foi: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo".

É claro que se referir a Cristo como um cordeiro é uma metáfora, mas dizer isso não nos permite colocar a situação em sua perspectiva correta. Não devemos supor que essa figura de linguagem tenha surgido como mera tentativa por parte de alguns judeus cristãos de racionalizar ou mesmo apenas ilustrar a obra de Cristo à luz de seu próprio pano de fundo cultural. No sentido que realmente importa, esse substrato é que foi a metáfora, e a vida de Cristo era a realidade transcendente para a qual ela apontava. A liberdade que ele trouxe é de um tipo muito superior à que os hebreus conquistaram ao sair do Egito; a vida futura é incomparavelmente mais excelente que aquela encontrada pelos judeus na Palestina; e a manifestação da glória de Deus, presente entre os homens, será muito mais plena então do que poderiam esperar encontrar os peregrinos que anualmente buscavam o templo em Jerusalém.

Não espanta que, assim como a antiga Páscoa, a nova também esteja vinculada a uma refeição. Há, talvez, algo de melancólico na Ceia do Senhor, uma saudosa lembrança no ato de comer a carne e beber o sangue do Filho de Deus. Mas não deixa de ser verdade que a Comunhão pressupõe um aparente paradoxo, o de celebrar a memória de alguém que não está ausente. Por outro lado, a refeição em comum é provavelmente a melhor forma de demonstrar afeto e amizade verdadeiros. Hoje, ao repartir o pão e beber o vinho, cristãos em todas as partes do mundo rememoram um momento glorioso do passado. Mas não se trata apenas de olhar para o passado, mas também para o futuro, ou melhor, para a consumação da história, quando beberemos do fruto da videira no reino do Pai. Foi o que Jesus prometeu naquela mesma noite, e é por esse momento que aguardamos ansiosamente.